Messi

Faz falta um Nelson Rodrigues. Com todas as contradições que ele tinha, uma delas era a de não conseguir enxergar nada em campo, mas farejar o drama para o seu “personagem da semana”, em sua coluna. O que ele já teria de material neste começo de Copa do Mundo!

Poderia ser Fred. Acostumado a receber beijos em troca de nada em sinais de trânsito, ele teve que dar explicações à República após ser acusado de se jogar na área incriminando o zagueiro croata. O replay mostrou que não foi pênalti, mas Nelson há décadas já tinha resposta para isso: “O videotape é burro”. E exaltaria o jogador: talvez não haja heroísmo maior que o de oferecer-se em sacrifício à vilania pela glória de seus companheiros.

Poderia ser Diego Costa. Diego Costa, o brasileiro menos brasileiro do mundo. Vaiado em sua ex-terra por aqueles que, tivesse ele dito “sim” ao invés de “não”, o carregariam nos ombros. Ele não viu que talvez o banco de reservas nacional contivesse mais glória acumulada que mil ataques titulares espanhóis. A consciência do fato se deu de forma dramática e as vaias certamente não o irritaram, mas certamente o entristeceram de perceber que está do lado errado do mundo.

Poderia ser Casillas. Aquele que uma vez foi celebrado como o melhor goleiro do mundo, poderia hoje ser eleito o melhor goleiro dos três patetas. Sua imagem de vencedor máximo, erguendo a taça do mundo há quatro anos, foi trocada por um semblante derrotado, desnorteado, incapaz de reagir e de entender o que acontecia, enquanto mais e mais gols holandeses passavam por ele em direção à meta. Estaria sua namorada jornalista atrás do gol?, perguntaram alguns. Ele próprio deveria estar torcendo que não: não há fracasso pior que o fracasso diante da mulher amada.

Poderia ser a Costa Rica inteira. Menosprezada, em um grupo onde os outros três somam oito títulos mundiais. De quem se esperava que sua única contribuição ao grupo seria verificar com alguma matemática de alta precisão quanto gols levaria de cada campeão para que seus saldos definissem a colocação no grupo. O primeiro gol sofrido estava dentro do roteiro. Mas a partir de um pênalti não marcado a seu favor, a Costa Rica rebelou-se: levou seus cidadãos ao portão do palácio do fidalgo Uruguai e o destronou do feudo. De tochas e espadas na mão, eles agora marcham para enfrentar a Rainha Inglaterra e o papado italiano.

Poderia ser Messi. O Maracanã estava dividido entre argentinos e nós – brasileiros e bósnios, unidos como uma nação separada pelo Atlântico e por meia Europa. Fruto de nossas rivalidades ancestrais em nossas próprias cidades e que se unem para ampliarem-se internacionalmente quando se trata da Argentina. Era fácil torcer contra a Argentina até meados do segundo tempo. Mas como, depois de dar um passe, receber de volta, avançar imparavelmente, fazer um bósnio atropelar o outro como se este fosse um sérvio, Messi armar o chute com a perna esquerda, como não torcer para que aquela bola entrar? Nesses dois ou três segundos, nos argentinizamos todos, uma licença mais do que poética na nossa rivalidade.

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