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Rejeitando a depressão

Augustus (Ansel) e Hazel (Shailene): atores são ponto positivo

Augustus (Ansel Elgort) e Hazel (Shailene Woodley): atores são ponto positivo

Em uma das primeiras cenas de A Culpa É das Estrelas (The Fault in Our Stars, EUA, 2014), a adolescente Hazel (Shailene Woodley) tenta convencer os pais enfaticamente de que não está sofrendo de depressão. Não deixa de ser uma declaração de postura do filme de Josh Boone.

Hazel sofre de câncer e mal pode respirar – precisa andar sempre com um tubo de oxigênio a tiracolo. Mas – apesar do diagnóstico da depressão e de um certo ceticismo a respeito de sua condição – ela lida com isso melhor do que o padrão esperado. Não fica se lamentando e tem sempre uma resposta afiada para tudo.

Ainda assim é obrigada a ir a um grupo de apoio a portadores de câncer e lá conhece Augustus (Ansel Elgort), um rapaz que parece em permanente estado de alegria e que sempre tem a coisa certa a dizer. Uma das razões de tanta autoconfiança é que há um ano e meio ele não tem sinais do câncer que levou metade de sua perna direita.

Como Hazel, o filme também não quer carregar o estigma de “filme de doença”. Mesmo quem não leu o best seller de John Green sabe imediatamente que o romance ali é inevitável e é nele que o filme se apóia para ser leve e não baixo astral.

Mesmo que, para isso, não se escape de diversos clichês. Um deles é o retrato de uma cidade europeia como uma espécie de reino de conto-de-fadas para americanos, onde tudo é mais sofisticado e a História transborda, onde se bebe champanhe no jantar (porque por alguma razão os personagens não se dão a esse luxo em seu país) e onde se encontrar músicos tocando Vivaldi no meio da rua de madrugada. Nenhuma novidade: na Hollywood clássica a cidade era sempre Paris, em A Culpa É das Estrelas é Amsterdam.

A fada madrinha que se revela não ser exatamente quem se imagina também não é novidade desde, pelo menos, O Mágico de Oz e a realidade do “homem atrás das cortinas”. E qualquer um com alguma experiência em prestar atenção aos filmes sabe que, quando o jovem casal deixa a casa do escritor, aquele último e rápido plano dele observando é o sinal de que aquela não é sua última aparição – pena que seu retorno seja tão mal cuidado no filme. Também não é preciso ser gênio para prever o final, desde que o filme abre com o enunciado de que você pode aliviar ao contar uma história triste, mas não será este o caso (em boa parte, é).

A idealização de Augustus pelo filme é tanta que, quando ele finalmente se fragiliza, já não parece real. Ainda se pode dar o desconto de que, afinal, se trata se uma história contada em primeira pessoa – então, é a visão de Hazel sobre seu grande amor, onde a idealização é até esperada (mesmo com sua postura ceticista.

Mas, felizmente, há compensações. Começa pela dupla de atores: Elgort se vira bem com seu personagem simpático, mas difícil de convencer; e Shailene é ótima desde Os Descendentes (2011). Há boas sacadas, como a cena na histórica casa de Anne Frank. A metáfora é bem óbvia e o filme faz questão de escancará-la com trechos do Diário flutuando em áudio acima dos personagens, mas, se é para fazer, ela ao menos surge no momento ideal dentro da trama. E a ideia de adiar o romance de fato, mesmo que o amor ali esteja claro, ajuda na condução da história. No fim das contas, não ter pressa, hoje em dia, é uma virtude admirável – mesmo que os personagens não tenham todo o tempo do mundo.

 A Culpa É das Estrelas. (The Fault in Our Stars). EUA, 2014. Direção: Josh Boone. Elenco: Shailene Woodley, Ansel Egort, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Lotte Verbeek.

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