A entrevista a seguir foi publicada no Correio da Paraíba no dia 4 de maio, logo após o Cine-PE. No festival, ele mostrou o documentário O Mercado de Notícias, que tem estreia nacional hoje (incluindo João Pessoa) – o filme acabou premiado como o melhor doc do festival. No dia seguinte à exibição, almoçamos juntos para esta entrevista, que aproveito a estreia do filme para resgatar.

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Jorge Furtado dirigindo a peça dentro do filme

Jorge Furtado dirigindo a peça dentro do filme

Recife, PE – O cineasta gaúcho Jorge Furtado tem seus admiradores pelos filmes que dirige – principalmente O Homem que Copiava (2003), Meu Tio Matou um Cara (2004) e Saneamento Básico, o Filme (2007), todos com uma boa dose de comédia. Mas agora ele embarca em um gênero diferente: o documentário. Em O Mercado de Notícias, exibido no festival Cine-PE, ele se propôs algo ousado: analisar a grande imprensa brasileira em seus diversos aspectos éticos, políticos e mercadológicos.

Entrevistou um seleto grupo de jornalistas – Jânio de Freitas, Renata LoPrete, Luís Nassif, Mino Carta, Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Geneton Moraes Neto, José Roberto de Toledo e outros – e pontuou com a encenação de uma peça que descobriu e traduziu: O Mercado de Notícias, do inglês Ben Jonson, de 1625! O filme trata de fontes, publicidade, liberdade de imprensa e os erros do jornalismo, com alguns casos emblemáticos – José Serra e a bolinha de papel, a acusação sem fundamento contra os donos da Escola Base, e o suposto quadro de Picasso vítima do descaso no INSS que ganhou capa de jornal (e, no fim, era só um pôster comum do quadro original).

O projeto ambicioso já virou um site (http://www.omercadodenoticias.com.br) com a função de continuar estudando o assunto. Jorge Furtado conversou com o CORREIO sobre o filme e as inquietações que o levaram a pensar sobre a grande imprensa do Brasil, com todo o seu “gauchês”.

 

– Como esse filme foi surgindo pra você? Eu sei que você já falava sobre isso no seu blog, sobre questões da imprensa, mas como é que você começou a prestar atenção nisso?

– Tem vários assuntos que eu tratava no blog e que eu pensava: “Isso aqui dá pra filmar”. Quando começou a juntar material, começou a ter muita coisa, eu disse: “Olha, isso aqui… É um assunto interessante, um assunto que ninguém tá falando”. É uma questão muito importante e pouquíssimo comentada porque a imprensa não se critica. Isso aí, na entrevista do Jânio, que tá inteira já no site e eu não usei no filme – aliás, revendo a entrevista eu devia ter usado – ele diz: “A imprensa brasileira vive uma coisa assim: eu te protejo, tu me proteges e nós nos protegemos”. Ninguém nem comenta. O Globo jamais diz assim: “A Folha errou”. E nem a Folha: “O Globo publicou isso, assim, que não é verdade”. Existe um certo compadrio, assim. Esse assunto tá meio interditado. É um assunto meio proibido. Aí, bom, como é que seria um documentário sobre isso? Eu sempre usei a internet, desde 1997, para botar textos alternativos à imprensa. Vê, 1997 ainda era governo Fernando Henrique. E aí esse processo, com o Lula em 2002, se radicalizou muito. A imprensa virou realmente um partido de oposição. Ela publicava o que queria e da maneira que queria, e não tinha muito espaço para a contestação. Daí, eu comecei a me interessar por esse assunto. E em 2006, resolvi fazer o filme. E quando achei a peça, pensei: “Vou usar a peça como linha condutora para essa conversa”.

 

– Entre os casos que você cita no filme, o público gostou muito do Picasso do INSS (em 2004, a Folha deu na capa com alarde que um quadro de Picasso estava vivendo um descaso no INSS, o que repercute no Brasil e no exterior; mas a observação de alguns leitores logo apontou que se tratava de uma reprodução fotográfica, sem valor algum). Você filmou o verdadeiro em Nova York. Foi lá para isso?

– Foi uma coincidência total. Eu fui a Nova York por causa do Emmy e aí falei pra minha esposa: “Vamos ver o Picasso”. O quadro é do Metropolitan. Fui direto pra sala do Picasso, mas o quadro não estava lá. Aí, fala com o guarda, com o gerente: “Cadê o quadro do Picasso?”. “Não sei”. Voltamos pro hotel e vi no jornal: exposição no Guggenheim, “Picasso em preto-e-branco”. Aí, pensei: “Mas o quadro não é em preto-e-branco. Mas vamos lá”. E ele estava lá. Filmei com uma câmera escondida. É engraçado porque basta olhar. Ele é desenhado a pincel. No pôster, é exatamente a mesma pincelada, só que em preto-e-branco. Quem é que achou que isso era um Picasso? Só quem não prestou atenção nem em um, nem no outro – é só olhar, são idênticos. Nenhum dos jornalistas que fizeram a matéria pensou em medir com uma régua! Qualquer obra de arte clássica tem as dimensões oficiais – nenhum disse as dimensões, eu tive que calcular o tamanho por uma tomada que tinha do lado, pra saber que o quadro do INSS tinha 30 centímetros. Mas é porque a pauta tava pronta: era mostrar o quadro com a foto do Lula ao fundo!

 

– A gente ainda está tentando entender as manifestações do ano passado, mas o papel da imprensa foi duplamente atacado. Ao mesmo tempo as pessoas diziam que a imprensa estava contra o governo e as manifestações estavam sendo incentivadas por ela e também diziam que a imprensa não estava mostrando as manifestações porque estava contra o povo. Que leitura você fez disso?

– Foi bem estranho. Realmente não deu pra entender muito bem. Porque quando começou parecia que o governo estava navegando num mar tranquilo. De repente, com as manifestações de rua, a popularidade da Dilma cai e a imprensa percebe que aquilo ali é uma maneira, talvez, de minar essa popularidade. “O governo está sendo contestado, vamos divulgar isso aqui”. Só que a imprensa foi pra rua e foi recebida na porrada. Aí, começaram a filmar de cima dos edifícios porque não podiam ir lá embaixo. O movimento poderia ter ido contra o governo e usar a imprensa, mas a imprensa é um dos alvos dos protestos. E um protesto muito despolitizado… Esse movimento contra a política é uma coisa meio cíclica. Se tu pensar, em 1964, os golpistas diziam que a política só tinha corrupto. No Getúlio já era assim!

 

– E como você compara a imprensa no governo FHC com a do governo Lula?

– Fernando Henrique foi totalmente apoiado pela imprensa durante oito anos. Não tem um caso que eu possa dizer que a imprensa pegou no pé de Fernando Henrique. Nada, zero. O resto é recente: no momento em que o Lula se elegeu, o que é que acontece? Essas transformações mesmo tímidas do governo Lula, essa incorporação de uma multidão na classe média, esse investimento no mercado interno – que acabou salvando o Brasil de uma crise externa – isso criou uma idéia de que pela via democrática, pela eleição, vai ser difícil de tomar o poder de novo. Porque são 6% da população que vê notícia. 94% da população está pouco se lixando.

 

– É daí que vem a ênfase na corrupção quando se fala de política?

– Pois é. Aí o que que se faz? O Jânio (Quadros) se elegeu com essa ideia, de criminalizar a política. O Collor foi a mesma coisa. E agora, de novo: só se fala em política pra se falar de roubo, de corrupção. E a imprensa tem um papel decisivo nisso. O viés é sempre esse. Aí o que é que tá acontecendo? Na última pesquisa deu que 62% das pessoas dizem que não vão votar em ninguém! Um descrédito total da política. E isso é um terror porque sem política como é que faz?

 

– Você não acha que é complexo no Brasil isso no sentido de que quando o PT se elegeu, com toda uma esperança por trás de que certas coisas mudariam, e de repente, por causa do jogo da política, teve que buscar aliados no Sarney e o próprio Collor passando a fazer parte da base do governo. Isso não acabou também dando um certo nó na cabeça dessa pessoas? De pensar: “Meu Deus, mudou o quê, então?”

– Sei, se o Sarney tá apoiando, se o Collor tá apoiando, o que mudou? É, a política real tem esse problema. Uma coisa é tu vender na televisão e na campanha: “Somos totalmente diferentes”. Mas aí tu assume e “Não, não somos tão diferentes assim”. O PT acaba apostando um pouco eu acho nessa ideia de que 94% das pessoas não estão nem aí pro noticiário político. “Minha vida melhorou, vou votar”. Mas o espaço para a discussão pública, o debate público, vira uma loucura. Só se fala em grampo, em grampo, corrupção, roubalheira. Ninguém discute tendência política, propostas pro país, nada. E a imprensa tem um papel decisivo nisso.

 

– Alguém comenta no filme que a imprensa conservadora radicalizou de um jeito na luta contra o governo que uma pequena imprensa do outro lado também teve que radicalizar. E aí ficou uma  coisa Veja contra a CartaCapital, uma coisa de extremos.

– É, mas eu acho essa avaliação injusta com a CartaCapital. Porque não se compara com a Veja. Tu pode dizer o seguinte: a CartaCapital sem dúvida apóia a Dilma, a tendência é mais de esquerda, de apoio ao governo… Mas faz jornalismo! Tem boas matérias, tem informação, tem um certo equilíbrio – mesmo, às vezes, críticas ao governo. A Veja abandonou o jornalismo há muito tempo.

 

– É melhor ser claro no apoio, mesmo que o apoio seja esse conservador, ou buscar uma imparcialidade?

– Eu acho que é melhor ser aberto. Dizer “Eu apoio, voto em…”. Tem uma frase que diz “A política nos reúne sobre a melhor maneira de nos separar”. É isso, a política é dizer “eu não concordo com isso, mas vamos conversar, vamos ver o que se vai fazer”. Mas tem que ser um debate aberto, franco e que proponha um avanço. E não simplesmente tu dizer que eu sou ladrão e eu digo que tu é assassino. Talvez os dois tenham razão (risos), mas não se vai a lugar nenhum. Não é um debate, é uma troca de ofensas. E nessa sociedade midiática aí em que a fama e a infâmia parece que são sinônimos, as pessoas querem aparecer de qualquer jeito.

 

– A radicalização parece ainda maior na internet, não?

– A tendência é se radicalizar, cada um falando pro seu nicho. Também tem isso, né? O Raimundo Pereira no filme – o Raimundo acho que é o último comunista do planeta; o Niemeyer morreu e sobrou ele – diz assim: “Eu não sou um dos maiores admiradores da burguesia, mas o jornal burguês reúne um monte de gente”. Tem esporte, tem política, tem economia, tem cultura, tem de tudo, tu te informa mais ou menos ali, e pode haver dentro do jornal uma certa pluralidade e tu acaba lendo alguém com quem tu não concorda. O que acontece na internet? As pessoas só leem alguém com quem elas concordam. Aí o cara é fã do blogueiro tal, ele entra lá e só lê aquele cara, com quem ele já concorda.

 

– É no jornal impresso que essa pluralidade ainda pode ser encontrada?

– Dentro de qualquer veículo tem bons jornalistas. Nesse domingo foi o último dia de ombudsman da Suzana Singer na Folha e ela fez uma análise interessante: na questão da opinião, a Folha nada de braçada, é o único jornal que tem Reinaldo Azevedo e o Jânio no mesmo espaço. Uma pluralidade… Acho inaceitável que a Folha tenha colocado o Reinaldo Azevedo pra escrever, mas enfim… Tem uma pluralidade ali dentro: pode pegar o jornal e vai ver gente a favor e gente contra. No jornalismo, não. Ela mesmo diz: no jornalismo, ela é igual ao Estadão, ao Globo

 

– Essa pluralidade pode render conflitos dentro do próprio jornal, não é?

– A minha irmã é jornalista e trabalhou na sucursal da Veja no Rio Grande do Sul. Uma vez ela fez uma matéria sobre a Jussara Cony, que é uma deputada comunista, que se elegeu lá pelo PC do B, e foi a mais votada em Porto Alegre, mas não se elegeu porque o PC do B não faz o coeficiente eleitoral. Aí, a minha irmã achou interessante e fez uma matéria. Pô, ela fez 100 mil votos e não se elegeu! Aí, os caras: “Não, não vamos publicar”. “Mas por quê?”. “Porque ela é muito feia”. Ela é realmente feia, mas, enfim, o que tem a ver com o assunto (risos)? Quer dizer, às vezes o repórter, dentro do jornal, faz a matéria. Mas não sai, não publicam. É ridículo, um negócio incrível! Como diz o Paulo Moreira Leite: quando o editor não quer publicar uma matéria e não quer dizer que não quer, diz: “Vamos checar mais”. Vai checar pra sempre!

 

– Qual o papel do jornalista nisso tudo, então?

– O jornalista é uma profissão fundamental. E cada vez mais fundamental nessa confusão de informações que a gente recebe toda hora, alguém que diga – bom, se esse cara, se o Jânio tá dizendo… Ele pesquisou, ele não tá dizendo isso à toa. Bons jornalistas, né? Mas ao mesmo tempo, a indústria jornalística tá passando por uma revolução total.

 

– Sua pesquisa vai continuar no site?

– Vai. Ontem mesmo a (jornalista) Maria do Rosário Caetano me passou um texto do (economista) Paul Singer sobre a escandalização da política, “Escândalos em série”, na Folha. E eu vou botar no site. Vou continuar alimentando o site com textos sobre jornalismo, vou colocar todas as entrevistas, vou colocar a peça inteira e até fazer mais entrevistas.

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