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Um equilíbrio difícil

Daniel Radcliffe e Zoe Kazan: carisma e diálogos espirituosos

Daniel Radcliffe e Zoe Kazan: charme e diálogos espirituosos

A comédia-romântica é um subgênero bastante menosprezado pela crítica, mas, na verdade, é bem difícil de fazer (de fazer bem feito, claro). Ela demanda um equilíbrio muito difícil entre seguir e se afastar de certas regras, e precisa se manter interessante mesmo sendo, em boa medida, previsível. Será que? (What If/ The F Word, Canadá/ Irlanda, 2013) é um dos que conseguem um bom resultado.

A trama se passa em Toronto e Daniel Radcliffe é Wallace, o estudante de medicina que passou por um rompimento difícil do qual ainda não se recuperou um ano depois. Ele conhece em uma festa Chantry (Zoe Kazan), a prima de seu melhor amigo Allan (Adam Driver, da série Girls) e ela é a garota perfeita: charmosa, esperta, um papo incrível, a química é automática e inegável. O problema: ela tem namorado.

Os dois acabam firmando uma amizade cada vez maior (a “palavra com f” do título no Canadá é “friends”), enquanto Wallace mantém em segredo seu interesse por ela – algo que ele até gostaria de fazer desaparecer, mas tem grandes dificuldades em domar. E ele ainda vai precisar lidar com a pressão dos amigos, sempre perguntando sobre a possibilidade de um romance. E tudo vai ficando mais complicado nessa relação muito particular.

Pois é, há muito de Harry & Sally, Feitos um para o Outro (1989) em Será Que?, mesmo que o filme do canadense Michael Dowse seja baseado em uma peça. O filme dribla essa semelhança apostando bem no carisma de seus protagonistas. Radcliffe vai deixando Harry Potter para trás e Zoe, neta do grande cineasta Elia Kazan e ela própria também roteirista (é dela o roteiro de Ruby Sparks, a Namorada Perfeita, 2012, outra comédia-romântica ótima), foge do padrão supermodelo de beleza, mas é uma gracinha com talento evidente.

No registro visual, o diretor aproveita a profissão de Chantry – animadora – para usar um desenho animado dela mesma como comentário da trama. Mas uma das melhores coisas do filme é mais simples e diz respeito a como a amizade entre Chantry e Wallace vai sendo construída: quando ajudam um carteiro a recolher cartas que voam, por exemplo, ou a emblemática imagem dos dois debaixo de um mesmo guarda-chuva esperando o sinal abrir para atravessarem a rua, imagens que pontuam diálogos gostosamente espirituosos e velozes.

É bom, também, que os tradicionais amigos dos protagonistas com quem eles podem discutir seus dilemas, sempre presentes no subgênero, não sejam apenas mais um ponto de comédia, mas que possuam também os seus próprios dilemas. O espectador vai acompanhando também o desenrolar da relação amorosa de Allan e sua cara-metade, aparentemente tão pirada quanto ele. Dilemas estes que não apenas românticos, mas dizem respeito à vida – ou melhor, a se estabelecer em uma vida adulta que está começando, o que também é um tema forte e bem desenvolvido em Será que?

Será que? What If/ The F Word. Irlanda/ Canadá, 2013. Direção: Michael Dowse. Elenco: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Megan Park, Mackenzie Davis, Rafe Spall, Oona Chaplin.

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