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Não faltou ambição

Scarlett Johansson: invencível com meia fora de filme

Scarlett Johansson: invencível com meia fora de filme

Uma coisa que não se pode dizer sobre Lucy (Lucy, França, 2014) é que ele seja um filme de ação descompromissado. Pelo contrário, é bem ambicioso. Faz um exercício de imaginação, mesmo que seja de uma maneira escapista e não “para valer”, sobre temas que vão muito além do que deixa parecer sua sinopse.

Sinopse cuja premissa é a de uma garota comum, Lucy (Scarlett Johansson), que é obrigada a fazer dentro de si o transporte, de Taiwan para a Europa, de um pacote de uma nova e poderosa droga experimental. Mas o pacote se rompe dentro dela e o contato em excesso com a tal droga causa um efeito inesperado: o uso do seu cérebro parte do usuais 10% (segundo a tese do filme) para um aumento gradativo.

O resultado é o surgimento de verdadeiros “superpoderes”, como a telecinese, o domínio de ondas eletromagnéticas, a resistência a dor, entre outras capacidades. É uma mudança brusca já de saída no que, teorias à parte, acaba se tornando uma falha narrativa quando se estabelece uma personagem invencível logo na primeira meia hora de projeção, dominando inimigos fortemente armados com um simples aceno. Como criar uma ameaça convincente a ela? No ato final, o filme de Luc Besson (com roteiro também dele) tenta isso através dos inimigos que se aproximam enquanto ela não pode cuidar deles porque precisa ficar concentrada. Um tentativa de suspense do tipo “será que vai dar tempo” que soa como “o jeito que deu para criar um clímax”.

Apesar disso, Lucy é movimentado e tem a costumeira direção esperta de Besson, embora distante de seus dias mais criativos e contundentes (em Nikita, Criada para Matar, 1988, e O Profissional, 1994). Mais interessante é imaginar onde a personagem vai parar quando seu cérebro estiver funcionando a 100%. Também é um jogo “fácil” na medida em que o filme joga com a ideia de que está navegando em possibilidades totalmente desconhecidas dos espectadores e, portanto, literalmente tudo é possível.

Mas em determinado momento o filme, que já tinha em Lucy uma mistura de jedi com o Dr. Manhattan de Watchmen, ganha rapidamente ares de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) voltando à “aurora do homem” e questionando de leve quem ou o que, afinal, pode ser Deus. A questão do divino ligado ao conhecimento é curiosa, mas é a cena da “aurora do homem” o melhor momento do filme, com sua citação narrativa de 2001, mas também uma citação visual de Michelangelo. Já é mais do que os filmes de ação costumam entregar.

Lucy. Lucy. França, 2014. Direção: Luc Besson. Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi.

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