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A verdadeira magia

Colin Firth e Emma Stone: o  contraste entre o arrogante e a espontânea

Colin Firth e Emma Stone: o contraste entre o arrogante e a espontânea

Toda vez que Woody Allen faz um filme de menor pretensão – o que se tornou bastante comum após sua fase de ouro nos anos 1980 – é a mesma coisa: os cinéfilos se dividem entre aquele que acreditam que a criatividade do cineasta acabou e aqueles que defendem que mesmo um filme menor de Woody é melhor do que a maioria (se você ainda não percebeu, este crítico costuma ser da segunda turma).

A verdade é que Magia ao Luar (Magic on the Moonlight, Estados Unidos, 2014) está consideravelmente distante dos momentos mais inspirados de Allen (o último desses momentos foi Meia-Noite em Paris, de 2011). Mas é preciso ter em mente que esses “momentos mais inspirados” são coisas para entrar no panteão do cinema. Assim, não falta com o que se deleitar neste novo filme.

A história começa com Stanley (Colin Firth), um mágico inglês que se apresenta nos palcos de Paris como chinês. Uma noite, ele recebe um colega (Simon McBurney) que o convida a ir à Riviera desmascarar uma falsa vidente (Emma Stone) que está claramente enganando uma rica família americana que caiu de amores por ela e suas previsões. Apesar de trabalhar apresentando mágica às plateias (ou até por causa disso), Stanley é um cético terminal e tem muito orgulho disso, sem fazer o menor esforço para esconder sua desagradável arrogância. O contraste com o jeito espontâneo de Sophie, a vidente, e a complexidade crescente do relacionamento que se forma entre eles dá seguimento à trama.

Trata-se de uma comédia romântica aparentemente bastante simples, temperada com um pouquinho de mistério (não muito, qualquer cinéfilo experiente mata logo a dúvida se a personagem de Emma Stone é ou não uma impostora). Acontece que, embora seja o fio condutor da trama, esse mistério importa menos do que a visão de Woody sobre um de seus assuntos preferidos: a dúvida se existe ou não um mundo além do que este em que vivemos.

O cineasta costuma paradoxalmente ser um cético que sempre coloca em seus filmes magia como sendo algo que existe, à revelia do que acreditam seus personagens (e do que ele mesmo, ateu de carteirinha, acredita). Há exemplos disso em filmes tão diferentes como Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (1982), Contos de Nova York (1989), Simplesmente Alice (1990), Neblina e Sombras (1991) e Scoop – O Grande Furo (2006).

Aqui, quando menos se espera, Woody mostra que está menos fazendo um filme de mistério e mais fabulando sobre o que ele acredita ser a magia verdadeira da vida. E isso ainda é emoldurado pelo sul da França e o tradicional e delicioso jazz de suas trilhas (em Magia ao Luar, ele nos faz querer ouvir mais das big bands de Leo Reisman e de Bix Beiderbeicke). Combinar esses elementos não deixa de ser – menor aqui, maior ali – uma magia que Woody Allen sabe bem como fazer.

Magia ao Luar – Magic in the Moonlight. Estados Unidos, 2014. Direção: Woody Allen. Elenco: Colin Firth, Emma Stone, Símon McBurney, Marcia Gay Harden.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

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