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Informação e manipulação

Rosamund Pike: enigmática, fantamagórica, interpretação exemplar

Rosamund Pike: enigmática, fantamagórica, interpretação exemplar

A primeira e a última imagem de Garota Exemplar (Gone Girl, Estados Unidos, 2014) são a mesma: o rosto de Rosamund Pike como Amy Dunne, a esposa cujo desaparecimento é a mola propulsora da trama do filme dirigido por David Fincher. Ambas possuem um quociente grande de enigma, mesmo que de maneiras diferentes.

O filme tem, na sua primeira parte, duas narrativas que seguem paralelas. Uma começa quando Nick (Ben Affleck), um jornalista que virou dono de bar no interior, denuncia o desaparecimento de sua esposa (interpretada de maneira excelente por Rosamund, com algo de fantasmagórico). As pistas vão aparecendo e apontando aos poucos que pode ter acontecido coisa pior – e que Nick pode até estar envolvido.

Garota Exemplar não mostra de saída como se deu o desaparecimento: mostra Nick chegando em casa e encontrando a cena do crime e, rapidamente, a câmera vai para fora da casa, de onde ouvimos seu grito. A cena seguinte já é chegada da polícia para investigar. Assim, não sabemos de nada, não sabemos nem o que Nick está pensando – só o que ele diz à polícia e à irmã (e a nós).

Ao mesmo tempo, o filme vai intercalando o ponto de vista de Amy sobre o seu casamento, através de seu diário – que, aí, ao contrário, só nós, espectadores, estamos “lendo” no momento, os personagens no filme só lidarão com ele mais adiante.

São visões conflitantes as de Nick e Amy. E o filme é muito habilidoso em nos alimentar com informações e também em escondê-las de nós. Envolvidos, mal nos damos conta de que estamos ouvindo o tempo todo declarações em primeira pessoa, pontos de vista subjetivos e que, como tal, estão sujeitos às interpretações pessoais de quem conta. Ou quem conta pode estar até mentindo. Vai saber.

Mas este é só o “primeiro filme” em Garota Exemplar. O filme muda bastante após sua primeira virada na trama. Sim, primeira, porque há outras. Uma ou outra vez, a mudança de rota exige muita exposição verbal, mas nada que comprometa. Entra em cena, por exemplo, o ex-namorado rico (Neil Patrick Harris) que nunca se recuperou do fim da relação com Amy: ele pode estar envolvido de alguma maneira?

É claro que Fincher não manipula bem apenas a história, mas também a predisposição do espectador sobre o que vê. Por exemplo, qual o comportamento natural ao assistir a um flashback que é contado por um personagem? Garota Exemplar usa de maneira, bem, exemplar, a predisposição que o espectador tem em reagir a determinadas situações no filme. A manipulação é espelhada na pontuação cada vez mais importante da mídia sensacionalista no filme. É ela que vai determinando a imagem de um casamento que vai se quebrando ou não – e o que é privado vai ganhando cada vez mais importância no que tem de público. Alinhadíssimo com os dias atuais.

Garota Exemplar. (Gone Girl). Estados Unidos, 2014. Direção: David Fincher. Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Patrick Fugit, Sela Ward.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

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