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Martin Freeman: o filme é melhor quando se concentra nele

Martin Freeman: o filme é melhor quando se concentra nele

Não há novidades em O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit – The Battle of Five Armies, Estados Unidos/ Nova Zelândia, 2014): o que vinha funcionando  nos dois filmes anteriores da trilogia continua funcionando e o que não funciona continua não funcionando. É nítido (e já era desde o começo) que a decisão de inflar a adaptação do livro para três filmes de cerca de 2h30 comprometeu a qualidade de cada um deles.

O problema se acentua de diversas formas neste ato final. Para quem não conhece o livro, o que parecia ser um grande clímax no final do segundo filme, A Desolação de Smaug (2013), com o dragão alçando voo para destruir a cidade do lago ao pé da montanha de onde foi expulso pelo anões e o hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), se mostra pouco mais de um apêndice, que teria ficado melhor lá no final do filme do meio, mesmo (desde que ele fosse mais curto, claro).

O diretor Peter Jackson se desembaraça disso para se concentrar mesmo é na batalha do título. A propósito, Reinaldo José Lopes fez, na Folha, um paralelo excelente do filme com a cena em que um troll enorme, com um aríete amarrado à testa, é usado para abrir um rombo numa muralha, durante a batalha, com uma cabeçada.

Pois é. O terceiro Hobbit é, por tempo demais, como esse troll desembestado, dando cabeçadas por cerca de 40 minutos de batalha. Jackson é um diretor inteligente, mas na ânsia de soar épico e grandioso e tentando desesperadamente tirar de onde não tem, é frequentemente apenas barulhento, desengonçado e hiperbólico. A Batalha dos Cinco Exércitos é um filme com elefantíase, que às vezes parece assustadoramente com algum filme de Michael Bay (principalmente nas câmeras que circulam sobrevoando personagens parados e passam repetidamente por exércitos infinitos produzidos em CGI).

Ainda bem que, pela mesma analogia, o filme melhora bastante quando se concentra em Bilbo, o hobbit que, afinal, batiza o livro-base e a trilogia.

Quando se volta para Bilbo, o filme reduz a escala, equilibra melhor as emoções e esquece um pouco o forçado tom épico que tenta impor no grito. Para isso, ajuda muitíssimo a interpretação de Freeman, que – por obra sua mesmo, ou de Jackson, ou do que Tolkien orientou desde os livros, ou de tudo junto – é uma construção de personagem muito mais interessante que a de Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) na trilogia O Senhor dos Anéis. Em vez do tom melodramático e choraminguento dos hobbits na trilogia anterior, Freeman é autoirônico e contido, representando a coragem dos pequenos com muito mais sobriedade e demonstrando um equilíbrio que, no fim, faria muito bem ao filme como um todo.

Ou seja: O Hobbit –  A Batalha dos Cinco Exércitos é um filme que, por querer ser mais do que deveria, nunca chega ao que poderia ter sido.

O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos. (The Hobbit – The Battle of Five Armies). Nova Zelândia/ Estados Unidos, 2014. Direção: Peter Jackson. Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Hugo Weaving. Voz na dublagem original: Benedict Cumberbatch.

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