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Glasnost galática

Grande ideia: a tripulação da Enterprise em uma glasnost intergalática

Grande ideia: a tripulação da Enterprise e a queda do Muro de Berlim no espaço

Quando o quinto Jornada nas Estrelas não rendeu o esperado nem artisticamente, nem comercialmente, parecia que as aventuras da tripulação original haviam chegado ao fim melancolicamente. Mas eis que a Paramount resolveu comemorar os 25 anos da série de TV com um novo filme. E Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida se tornou uma chance de se despedir em grande estilo, já que estava mais ou menos claro desde o início que este, sim, seria a derradeira produção reunindo Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy), McCoy (DeForest Kelley), Scotty (James Doohan), Uhura (Nichelle Nichols), Sulu (George Takei) e Chekov (Walter Koenig).

Assim, a produção cercou-se de alguns cuidados. Leonard Nimoy assumiu a produção executiva e convidou Nicholas Meyer (que já havia se envolvido com os dois melhores filmes da série no cinema até então: diretor de A Ira de Khan, 1982, e roteirista de A Volta para Casa, 1986) para reassumir o posto de diretor. O velho Spock também entrou com a ideia base: fazer um paralelo com a queda do Muro de Berlim e da glasnost soviética no espaço e no futuro.

Deu muito certo. A história começa com a explosão de uma das luas do Império Klingon, que determina o iminente colapso de energia do planeta e leva os velhos vilões da série a uma aproximação com a Federação. É a oportunidade da paz, finalmente. Mas velhos preconceitos vão dificultar esse caminho – um deles, o do capitão Kirk, que por muitos anos, no comando da Enterprise, enfrentou os klingons.

Por ironia, é exatamente a Enterprise (com uma nova vulcana, Valeris, vivida por Kim Cattrall, a bordo) que é enviada para fazer a escolta da delegação klingon que vem negociar a paz. Essa tensão é uma excelente sacada do filme, refletindo de perto as emoções palpáveis naqueles momentos históricos do começo dos anos 1990. De onde surge a ótima cena do jantar reunindo a tripulação da Enterprise e a da nave klingon, evidenciando não só o preconceito político, mas também o racismo, e onde tomamos conhecimento a respeito do gosto de alguns klingons por Shakespeare: “Você não leu Shakespeare se não tiver lido no original… em klingon”.

Quem diz a frase é o chanceler Gorkon (David Warner, cuja maquiagem foi criada para lembrar Abraham Lincoln), mas o klingon shakespeariano do filme, mesmo, é o general Chang (Christopher Plummer), que recita frases do bardo pelo filme todo. “A terra desconhecida”, mesmo, é uma citação de Shakespeare: do “to be or not to be” de Hamlet. A terra desconhecida, aí, é a morte, mas aqui é o futuro, para onde nos dirigimos e onde estamos desde a queda do muro e a falência dos regimes comunistas europeus (e para onde demos mais um passo ontem, quando foi anunciado o restabelecimento de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba). A ficção científica muitas vezes marca golaços ao, na verdade, versar não sobre o futuro, mas sobre seus dias atuais.

Mas um assassinato acontece e Kirk e McCoy são presos pelos klingons, julgados e jogados em uma prisão em um planeta isolado. O filme passa habilmente por diversos subgêneros: do drama político, ao filme de mistério, do filme de tribunal ao filme de prisão. E faz tudo isso bem, sempre gravitando em torno do tema central.

Foi uma bela decisão fazer com que o maior herói da série seja um dos maiores resistentes à “terra desconhecida” que se apresenta. Kirk tem diferenças com os klingons há muitos anos (a maior delas: a morte de seu filho em um filme anterior). Ter o que crescer com um personagem que está na estrada desde 1964 é algo admirável e contribui para o filme superar facilmente seus pequenos problemas (como o mistério não tão difícil de resolver, na verdade, mas que o filme encantadoramente se dedica a construir e manter).

Aliado a isso – e a elementos bacanas como o sangue púrpura em gravidade zero e o efeito morph antes do clipe “Black and white”, de Michael Jackson – está o clima de despedida permeando a série desde antes da primeira cena. O filme é dedicado a Gene Roddenberry, criador da série, que morreu dois dias depois de ver uma versão do filme. Na primeira cena, vemos que Sulu se tornou capitão de sua própria nave. Ele já deu seu passo adiante. Ainda no começo, quando a tripulação surge, convocada pela Federação, McCoy diz: “Deve ser uma festa de aposentadoria”. No final, na última cena do filme que Meyers fez com que fosse também a última a ser filmada, o diretor faz o elenco praticamente posar para uma foto na ponte da Enterprise. E os créditos finais começam com a assinatura do sexteto. Uma saída de cena muitíssimo digna, com direito a uma citação de Peter Pan que conecta Jornada nas Estrelas às fábulas imortais da humanidade. Não que, a essa altura, a série precisasse, claro.

Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida. Star Trek VI – The Undiscovered Country. Estados Unidos, 1991. Direção: Nicholas Meyers. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Nichelle Nichols, George Takei, Walter Koenig, Kim Cattrall, Chrisytopher Plummer, David Warner, Mark Lenard, Grace Lee Whitney, Michael Dorn, Iman, Christian Slater.

Crítica de Jornada nas Estrelas – O Filme
Crítica de Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan
Crítica de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock
Crítica de Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa
Crítica de Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira
Crítica de Star Trek

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