Vladimir Carvalho é muita coisa e uma delas é esta: um dos melhores papos deste país. Qualquer conversa com ele pode ir longe e é tão agradável quanto informativa, educativa e inspiradora sobre a arte, o trabalho e o Brasil. Seus 80 anos, hoje, renderam a capa do Caderno 2 do Correio da Paraíba e minha matéria, em versão estendida, está aqui.

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O cinema de verdade de Vladimir

Vladimir, em sua casa, em Brasília, com uma câmera do mesmo modelo que filmou "Aruanda" (foto: Vívian Corrêa)

Vladimir, em sua casa, em Brasília, com uma câmera do mesmo modelo que filmou “Aruanda” (foto: Vívian Corrêa)

Um tanto avesso a comemorações de aniversário (segundo ele, já há uns 30 anos), Vladimir Carvalho já tinha planejado passar o dia de hoje em Recife, trabalhando. Neste período, iria filmar entrevistas e ambientação para o longa que está rodando sobre o artista plástico Cícero Dias. Mas o seu cinegrafista se machucou e os planos foram cancelados. Assim, seus 80 anos, aos quais chega hoje, serão em Brasília mesmo. “No máximo, faço um almoço ou um jantar em casa mesmo”, conta. “Gosto de comemorar quando é trabalho, quando é a estreia de um filme…”.

Paraibano de Itabaiana, Vladimir é reconhecidamente um dos maiores documentaristas do país, com um trabalho sempre voltado à discussão do Brasil e questões de poder e trabalho. Esses temas estão presentes até em Rock Brasília – Era de Ouro (2011), seu filme mais recente. Seu legado também extrapola sua obra, passando por seu irmão mais novo, Walter Carvalho, um dos grandes diretores de fotografia do cinema brasileiro (de Central do Brasil, 1998, entre muitos outros) e que hoje também é um cineasta respeitado (de Raul – O Início, o Fim e o Meio, 2012, entre outros) – iniciado no fazer cinematográfico por Vladimir nos anos 1970. E, por extensão, o legado chega ao filho de Walter, Lula Carvalho, hoje também um premiado diretor de fotografia do cinema brasileiro (dos dois Tropa de Elite, 2007 e 2010, e de RoboCop, 2014).

“Vladimir é o documentarista mais completo do cinema brasileiro”, crava o crítico Carlos Alberto Mattos, que biografou o cineasta em Pedras na Lua e Pelejas no Planalto, volume da coleção Aplauso. “Digo isso pela variedade de dispositivos que ele já utilizou em seus filmes, da evocação lírica de O País de São Saruê (1971) à epopeia trágica de Conterrâneos Velhos de Guerra (1990); da ressignificação de arquivos em Brasília Segundo Feldman (1979) à busca pessoal de ressonâncias históricas em O Homem de Areia (1980) e Rock Brasília, só para ficar em alguns exemplos. Digo isso também pela disposição do realizador para tratar do antropológico, do cultural e do político sem traçar fronteiras muito claras entre cada uma dessas categorias”.

Vladimir, eu e Walter, no Cineport de 2014: irmão e sobrinho também são legados (foto: Suzy Lopes)

Vladimir, eu e Walter, no Cineport de 2014: irmão e sobrinho também são legados (foto: Suzy Lopes)

“Além da obra filmada e das reflexões sobre documentários, Vladimir exibe uma rara qualidade: um entusiasmo inesgotável – pelo cinema, pela vida”, adiciona Susana Schild, de O Globo. “Simples, direto, pés no chão – mas sempre tomado pela paixão”. “O cineasta de visão notável sobre a sociedade brasileira e sua história, cujas obras nos suscitam reflexão”, define o crítico cearense Pedro Martins Freire, do site Cinema e Artes.

“Eu tenho a noção de dever cumprido dentro das minhas possibilidades”, reflete Vladimir. “Eu só filmo se aquilo é um apelo que vem de dentro pra fora. Que, se eu não fizer, vou sentir um desconforto. Algo que está em acordo com a minha formação, visão de mundo. Por sorte, atravessei até aqui sem me subjugar”.

O mestre e eu, em sua casa, em 2013 (foto: Vívian Corrêa)

O mestre e eu, em sua casa, em 2013 (foto: Vívian Corrêa)

Sua produção atual sobre Cícero Dias, pintor pernambucano que viveu de 1907 a 2003, foi influenciado pelo modernismo nos anos 1920 e participou da cena cultural francesa dos anos 1930, também é algo que “veio de dentro”.

“Quando eu era garoto, vi uma discussão entre meu pai e um tio um tanto quanto reacionário, em que meu pai defendia uma exposição de Cícero Dias em Recife em 1948, exposição que foi um choque cultural na cidade”, lembra Vladimir. Com O Homem de Areia, sobre José Américo de Almeida, e O Engenho de Zé Lins (2007), sobre José Lins do Rêgo, o cineasta, que foi fundador da Escola de Arte Tomás Santa Roza nos anos 1960 (junto com nomes como Raul Córdula e Breno Mattos) acredita concluir uma trilogia informal sobre o modernismo.

Essa subjetividade no olhar e na escolha dos temas também é uma das qualidades saudadas do documentário de Vladimir. “Minha admiração por sua obra tem a ver também com a maneira como ele, muito antes da maioria, desmentiu os preceitos de objetividade e neutralidade que o documentário infelizmente herdou do jornalismo”, diz Carlos Alberto Mattos. “Seus filmes sempre foram engajados e pessoais. Vladimir fez da sua presença dentro da cena de muitos filmes o instrumento de afirmação do seu ponto de vista, ou pelo menos do seu desejo de investigar. São 80 anos de um cinema criativo, intrépido, mas gentil ao mesmo tempo. Como uma fruta plantada no Nordeste e colhida mais que doce no Planalto Central”.

C01A jornalista Maria do Rosário Caetano, da Revista de Cinema, chama a atenção para a relação muito próxima que Vladimir sempre manteve com a Paraíba, mesmo há décadas morando em Brasília. “Vladimir esteve, em sua juventude, em dois projetos que têm tudo a ver com a Paraiba: Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, e Cabra Marcado para Morrer (1964, primeira fase), de Eduardo Coutinho. Depois realizou seus filmes mais importantes na Paraíba e em Brasília. No maior deles, Conterrâneos Velhos de Guerra, somou a Paraíba (o Nordeste como um todo) à nova capital. Seus conterrâneos que ergueram no Planalto Central, a ‘Tebas moderna’, o motivaram a construiu uma ‘epópera’ arrebatadora. A Paraíba está entranhada na alma dele”.

Outro dado que move o cineasta é a vontade de saber mais. “Porque vou filmar isso se não me acrescenta?”, pergunta, dando um exemplo de O Homem de Areia: vários anos antes do documentário, em 1966 ou 1967 (ele não lembra a data com precisão), Vladimir entrevistou José Américo para o Correio da Paraíba. O contato impactante ficou dentro dele até a filmagem do documentário, em 1979. “Nem sei porque me mandaram para essa entrevista, eu era muito inexperiente. Quando terminamos, Zé Américo pediu pra ver o que eu tinha anotado”, lembra. “Aí, pegou uma caneta e rubricou minhas anotações. ‘Pode mostrar lá para o seu chefe’, me disse”.

É o caso de Cícero Dias, curiosidade adormecida que desembocou no próximo filme, que deve ficar pronto até o final do ano. Curiosidade que vem desde menino, de modo que a declaração de Vladimir sobre a idade se justifica: “A ficha ainda não caiu. Não me habituei a ver esse senhorzinho de cabeça branca no espelho. Acho que é – como dizem? – crise de identidade (risos)”.

* Versão estendida de matéria publicada no dia 31 de janeiro, no Correio da Paraíba.

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