Nascimento de uma Nação-08

O nascimento de uma linguagem (e de uma polêmica)

O cinema nasceu em 1895, mas a linguagem do cinema tem outra data de nascimento: 8 de fevereiro de 1915, dia da estreia de O Nascimento de uma Nação. Nele, o cineasta David W. Griffith reuniu todas as experimentações que vinham sendo feitas até então (muitas delas por ele mesmo) e estabeleceu uma “gramática” para o cinema.

É difícil para a plateia moderna comum, sem intimidade com a história do cinema e 100 anos de uso da linguagem (e da possibilidade de sua subversão) depois, perceber que revolução foi essa. Tudo hoje parece ser o tradicional, mas pode apostar: não era.

Movimentos de câmera, transformar uma batalha com centenas de extras em algo muito maior apenas pela orquestração dos ângulos de câmera e os cortes, filmagens noturnas, montagem paralela em perseguições. Tudo era novo e excitante. Mesmo o close, um dos instrumentos narrativos mais básicos do cinema atual, era novidade e virou regra em O Nascimento de uma Nação. Griffith praticamente disse: “O cinema é isso aqui”.

E realmente todo o cinema que veio depois é filho de O Nascimento de uma Nação: de Janela Indiscreta (1954) a Guardiões da Galáxia (2014), passando pelos “filhos rebeldes” como Acossado (1960).

E numa época em que longas-metragens eram raros, o filme de Griffith transformou esse modelo de duração na dominante do mercado de exibição cinematográfica. E O Nascimento de uma Nação não só era um longa como era um épico de 3h10.

Um épico sobre os efeitos da Guerra Civil Americana 50 anos após o seu término, baseado no romance The Clansman, de Thomas Dixon Jr. A história acompanha duas famílias: os Stoneman, pró-Norte, e os Cameron, pró-Sul. Lillian Gish, musa do diretor, foi a atriz principal.

O filme seria uma unanimidade se não fosse por elementos que até hoje mancham sua reputação. Como se sabe, um dos pilares da Guerra Civil Americana foi a libertação dos escravos, que os estados do Sul, produtores de algodão, rejeitavam. O Norte ganhou e os negros foram libertados.

O que O Nascimento de uma Nação mostra são negros pouco inteligentes, agressivamente sexuais, aproveitadores de um novo status. Como se não bastasse, foram interpretados por atores brancos com o rosto pintado (que nos EUA, hoje, é tido como um sério desrespeito). E ainda: quem vem salvar o dia é um grupo de homens brancos que se unem para, mascarados (mais que isso, vestindo capuzes), enfrentar os negros. The Clansman, pegou?

Isso mesmo, a Ku Klux Klan é nada menos que a heroína em O Nascimento de uma Nação.

Tudo isso não passou despercebido na época. A NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, ou “associação nacional para o avanço das pessoas de cor”, em tradução literal) organizou protestos e tentou banir o filme. Até a exibição de O Nascimento de uma Nação em cinemas motivou mais protestos.

Embora pareça hoje incrível, Griffith negou o racismo (no ano seguinte dirigiu Intolerância como resposta às acusações que o surpreenderam). O crítico Roger Ebert concluiu, em texto de 2003, que o filme reflete bem sua época: o que não faltava eram pessoas que eram racistas e nem desconfiavam que eram.

E refletir sua época, mesmo nesse aspecto sombrio e por mais triste que seja, acaba sendo uma das qualidades de O Nascimento de uma Nação (assim como O Triunfo da Vontade, de 1935, é hoje reconhecido como um grande filme, mesmo que seja uma propaganda nazista). “Um grande filme que defende o mal”, resumiu Ebert.

A sociedade dos Estados Unidos teve muito o que caminhar desde então. É muito significativo que o presidente de então, Woodrow Wilson, o tenha assistido em uma exibição  na Casa Branca (a primeira de um filme lá) e que, em janeiro, Barack Obama, primeiro presidente negro dos EUA, tenha assistido Selma lá. Indicado ao Oscar de melhor filme, Selma fala da luta dos negros por direitos civis nos anos 1960, liderados por Martin Luther King.

Com todas as ponderações possíveis, O Nascimento de uma Nação desafia a compreensão da própria arte e coloca em xeque a, para alguns, obrigatória relação entre “qualidade artística” e “intenção ideológica”. Não há como negar a importância decisiva que o filme de Griffith tem para a história do cinema. É um monumento que, a cada revisão ou leitura sobre, precisa derrotar sua própria herança sombria para fazer valer aquilo que o faz grande e presente em cada filme que assistimos hoje.

* Publicado no Correio da Paraíba, em 8 de fevereiro.

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