Tom e Jerry - 1946 - The Cat Concerto

‘The Cat Concerto’, 1946: fase mais clássica e um dos sete Oscars da dupla

Perseguição sem fim

Qual o tempo de vida médio de um gato? E de um camundongo? Bom, isso não importa para Tom & Jerry. A dupla chega aos 75 anos de criação em plena forma: estrelando uma nova série animada que estreou no ano passado no Canadá e nos Estados Unidos. Seus clássicos também passam diariamente na TV e estão disponíveis em DVD e blu-ray. É uma perseguição sem fim.

Tom e Jerry - 2014

‘O Show de Tom & Jerry’: a nova (e muito boa) versão da dupla

A nova série, O Show de Tom & Jerry, teve sua primeira temporada exibida pelo Cartoon Network no ano passado e agora faz parte do canal Boomerang (diariamente às 10h e às 22h), que também exibe as versões antigas. E são várias essas versões. A nova animação propõe um diálogo maior com os clássicos dirigidos por Hanna-Barbera nos anos 1940 e 1950, inclusive usando os mesmos efeitos sonoros, mas Tom & Jerry mudaram bastante ao longo dos anos.

'Puss gets the boot', 1940: a estreia de Tom (ainda Jesper) e Jerry

‘Puss gets the boot’, 1940: a estreia de Tom (ainda Jesper) e Jerry

Para começar, os primeiros 161 episódios com a dupla foram produções feitas para o cinema. William Hanna e Joseph Barbera dirigiram o primeiro deles, Puss Gets the Boot, e os 113 seguintes para a Metro-Goldwyn-Mayer. O primeiro deles deveria ser apenas um curta isolado. Tom aparecia com outro nome: Jasper. E o nome de Jerry nem aparecia. O desenho ainda é exibido e fácil de reconhecer: é aquele em que o ratinho se aproveita da ameaça da dona da casa, Mammy Two Shoes (a mulher de meia-idade negra de quem só vemos suas pernas e o avental – seu rosto só aparece uma vez na série, e a jato), de expulsar o gato se algum vaso for quebrado e enlouquece o bichano derrubando tudo até conseguir quebrar alguma coisa.

Esse curta, indicado ao Oscar, foi produzido por Rudolh Ising. Fred Quimby produziu a série até 1955, período em que a animação da série passou a ter traços mais leves, mas ágeis e o nível de violência subiu gradativamente, espelhando as animações loucas de Tex Avery, também diretor na Metro.

Também é o período em que Tom & Jerry se tornaram os personagens mais premiados do Oscar. Seus filmes venceram sete vezes a categoria de melhor curta de animação: The Yankee Doodle Mouse (1943), Mouse Trouble (1944), Quiet, Please! (1945), The Cat Concerto (1946), The Little Orphan (1948), The Two Mouseketeers (1952) e Johann Mouse (1953). Além desses, a série teve outras seis indicações. A fama era tanta que apareceram no filme Marujos do Amor (1945; Jerry dança com Gene Kelly) e ao lado de Esther Williams em Salve a Campeã (1953).

'Busy Buddies', 1957: traços mais leves e família branca

‘Busy Buddies’, 1957: traços mais leves, Cinemascope e família branca

Em 1956, Quimby se aposentou e a dupla Hanna-Barbera assumiu também a função de produtora. A série teve uma mudança grande no visual a partir daí.

Mammy Two Shoes já não aparecia desde 1952. Visto como um estereótipo racista, suas aparições foram editadas e até substituídas por uma mulher branca quando alguns episódios foram para a TV. Mammy, no entanto, foi depois considerada inofensiva: e até uma qualidade do desenho em mostrar uma personagem negra que vivia bem, num período em que o estereótipo dominava. A personagem voltou na série de TV de 2006, mas branca.

Outras cenas, traziam os personagens com a cara pintada de preto para emendar no estereótipo, atitude comum na época, mas que depois se tornou uma séria ofensa racial nos Estados Unidos. Alguns episódios foram limados de compilações em DVD e depois inseridos, mas com aviso sobre o “possível material ofensivo”. O Cartoon Network do Brasil  chegou a censurar dois curtas.

A partir de 1954, os donos de Tom, passam  a ser um casal branco. Em 1956, a mostrar o rosto. Os traços passam a ser mais finos, as cores mais claras e o design reflete bem mais os anos 1950. A produção passou de vez a ser produzida na tela larga do Cinemascope, a tentativa do cinema de combater a concorrência da TV.

'Switchin' kittin'', 1961: fase bem menos requintada, produzida em Praga

‘High steaks’, 1962: fase bem menos requintada, produzida em Praga

Mas a MGM fechou seu estúdio de animação em 1957. Em 1961, encomendou 13 episódios à Rembrandt Films, que produziu os curtas em Praga, Tchecoslováquia (hoje, República Tcheca). Animação com bem menos refinamento, produzida por William L. Snyder e dirigida por Gene Deitch, americano trabalhando em Praga, que havia sido animador da UPA e nem mesmo gostava de Tom & Jerry. Tom agora era o mascote de um homem nervoso e coadjuvantes recorrentes como o cão Spike, o gato Butch e o camundongo Espeto deixaram de aparecer.

'The Unshrinkable jerry Mouse', 1964: a fase de Chuck Jones, com tudo o que ele herdou dos Looney Tunes

‘The Unshrinkable Jerry Mouse’, 1964: a fase de Chuck Jones, com tudo o que ele herdou dos Looney Tunes

Muito melhor foi a versão de Chuck Jones, de 1963 a 1967, que trazia muito do que o diretor havia feito com os Looney Tunes na Warner Bros. (a semelhança entre Tom e o Coiote que caçava o Papa-Léguas é inegável). Jones, que havia sido demitido da Warner, havia criado a independente Sib Tower 12 Productions.

Muitas vezes brilhante e com personalidade própria, esses 34 desenhos têm cores vivias, um grande uso da música, personagens muito expressivos e o timing cômico típico de Jones, que produziu todos e dirigiu a maior parte deles. Reunidos, são um pequeno clássico dentro do universo de Tom & Jerry, o suficiente para serem lançados em uma coleção própria (no Brasil, em dois volumes, onde eles finalmente puderam ser vistos em widescreen, após muitos anos sendo exibidos na TV com as bordas cortadas). Foram os últimos curtas de Tom & Jerry para o cinema (até ser lançado um curta isolado em 2005).

'The Tom & Jerry Show', 1975: amiguinhos na primeira série de TV

‘The Tom & Jerry Show’, 1975: amiguinhos na primeira série de TV

A dupla passou a ter uma nova vida na TV. Primeiro com a exibição dos curtas já existentes. Oito anos depois do último curta de Chuck Jones, vieram as produções para a televisão, começando com The Tom and Jerry Show (1975-1977), produção da Hanna-Barbera que praticamente zerou a violência do desenho, fazendo com que o gato e o rato (agora de gravata borboleta) fossem, na maior parte dos episódios, bons amigos e até parceiros em vários empregos (como veterinários e entregadores)!

Uma fórmula tipo Zé Colmeia-Catatau que durou 48 episódios.

'The Tom and Jerry Comedy Show', 1980: série produzida pela Filmation tinha animação e trilha paupérrimas

‘The Tom and Jerry Comedy Show’, 1980: série produzida pela Filmation tinha animação e trilha paupérrimas

Seguiu-se uma péssima série da Filmation em 1980, que voltou à dinâmica da perseguição, mas era mal desenhada e abusava de uma paupérrima e repetitiva trilha sonora. Repetitivos também eram os movimentos dos personagens, uma limitação típica da Filmation. A série, pelo menos, se esforçou e trazer velhos coadjuvantes de volta.

'Tom & Jerry Kids', 1990: de volta à Hanna-Barbera, na moda da infantilização de personagens

‘Tom & Jerry Kids’, 1990: de volta à Hanna-Barbera, na moda da infantilização de personagens

Uma nova encarnação de Tom & Jerry só apareceria dez anos depois e novamente pela batuta da Hanna-Barbera. Foi Tom & Jerry Kids (1990-1994), um desenho feito na esteira das diversas infantilizações de velhos astros do desenho animado (como Os Flintstones nos Anos Dourados e O Pequeno Scooby-Doo, ambos também da Hanna-Barbera). Não era de passar vergonha, mas também não marcou. Teve quatro temporadas, mais que as duas séries animadas anteriores.

'Aventuras de Tom e Jerry', 2006: bom esforço para voltar ao estilo original

‘Aventuras de Tom e Jerry’, 2006: bom esforço para voltar ao estilo original

Aventuras de Tom & Jerry, já na Warner, em 2006, seria uma tentativa de voltar ao estilo original. A série durou até 2008 e foi a primeira dos personagens na TV produzida em widescreen e primava por uma atualização das situações, investindo em referências pop modernas. Agora, é a vez de O Show de Tom & Jerry tentar se aproximar dos velhos clássicos da dupla.

'Tom & Jerry e o Mágico de Oz', 2011: um bom longa da dupla, direto para vídeo

‘Tom & Jerry e o Mágico de Oz’, 2011: um bom longa da dupla, direto para vídeo

A dupla voltou ao cinema em 1992, mas em um longa-metragem. Tom & Jerry – O Filme tinha uma novidade e tanto: os personagens descobriam que podiam falar. Foi interessante, mas felizmente eles voltaram à rotina da comédia sem diálogos mesmo em longas seguintes. De 2002 para cá, 10 novos longas produzidos direto para vídeo foram lançados (como o muito bom Tom & Jerry e o Mágico de Oz, de 2011, uma refilmagem em animação bastante fiel do clássico de 1939, com o gato e o rato inseridos na trama).

Tudo isso prova que o público vai sempre torcer para que Jerry escape – para, assim, a perseguição nunca acabar. (Renato Félix)

* Versão estendida de matéria publicada em 20 de fevereiro no Correio da Paraíba.

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