“Primeiras Vezes” (Editora Nemo)

A pornografia remete, claro, ao sexo explícito. Mas se fizermos um exercício de imaginação definindo-a pelo aspecto narrativo, e descontando o sexo, podíamos defini-la como filmes (ou quadrinhos) marcados por um certo tipo de cenas que são a única coisa que importa ao consumidor do produto – e tudo mais entre elas é pura enrolação à qual o filme (ou a HQ) não dá maior atenção (crédito da ideia da definição, se me lembro bem, a João Batista de Brito). Afinal, quem quer saber da historinha do entregador que vai encontrar a mulher seminua e sozinha em casa, se o que interessa e vê-los transando?

'1+1', ilustrado por Virginie Augustin

‘1+1’, ilustrado por Virginie Augustin

Primeiras Vezes (Editora Nemo, 112 páginas, R$ 32,90) quebra esse paradigma. Há sexo explícito à vontade nessa coletânea de dez histórias escritas pela francesa Sibylline e desenhada cada uma por um ilustrador diferente. Mas há também um surpreendente (para o gênero) ótimo texto, com personagens interessantes e bem construídos, mesmo em histórias de tão poucas páginas. Não sou um leitor muito assíduo de quadrinhos eróticos, mas este é o melhor que li nos últimos anos.

'2+1', ilustração de Vince

‘2+1’, ilustração de Vince

As narrativas eróticas são temperadas por dilemas existenciais e confissões sensoriais que vão bem além do puro tesão. Cada um dos capítulos é dedicado a uma primeira vez diferente: começa pela evidente primeira transa e segue pela estreia com um brinquedo erótico, no sexo com outra mulher, em uma transa a três, no sadomasoquismo e por aí vai.

Sibylline, 37 anos, mostra-se extremamente versátil na maneira de contar cada história. Algumas são puxadas por um diálogo naturalista, uma dispensa completamente as falas, outras são basicamente narradas em primeira pessoa.

'X-Rated', ilustrado por Dave McKean

‘X-Rated’, ilustrado por Dave McKean

O que todas possuem em comum é o ponto de vista feminino. Isso até mesmo quando se trata de uma boneca em tamanho real, comprada por um rapaz para satisfazer seus prazeres, na história Inerte, desenhada por Rica. É uma das mais interessantes (e estranhas) histórias do conjunto. Primeiras Vezes foge, talvez naturalmente, das mulheres estereotipadas comuns no gênero da HQ erótica. Em vários momentos, a reflexão é tão importante quanto a entrega aos desejos neste álbum.

A variedade dos traços é um elemento importante. São muito diferentes uns dos outros, indo do anatomicamente mais atraente (Sex-Shop, de Capucine; 2+1, de Vince) ao traço mais rebuscado ou radical (Primeira Vez, de Alfred; X-Rated, de Dave McKean), passando pelo cartunesco delicado (Fantasia, de Jerome d’Aviau; 1+1, de Virginie Augustin; Submissão, de Cyril Pedrosa).

'Submissão', ilustrado por Cyril Pedrosa

‘Submissão’, ilustrado por Cyril Pedrosa

Poucos dos desenhistas da edição são conhecidos no Brasil. Notadamente, Pedrosa, por Três Sombras, e o britânico McKean, por Batman – Asilo Arkham e pelas capas de Sandman. Mas eles garantem uma bem-vinda diversidade no traço, o que também foge do comum nesse tipo de publicação, marcada por uma busca pela representação próxima do realismo.

Primeiras Vezes é, pelo conjunto, uma grande HQ. Consegue ir além do sexo pelo sexo sem deixar de ser ótima no erotismo.

Primeiras Vezes. Premières Fois. De Sibylline (roteiro), Alfred, Capucine, Jérôme d’Aviau, Virginie Augustin, Vince, Rica, Olivier Vatine, Cyril Pedrosa, Dominique Bertail e Dave McKean. Editora Nemo, 112 páginas. R$ 39,90.

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