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* Publicado no Facebook em 25 de junho.

Do dia de ontem, foi o obituário do El País Brasil que teve a melhor sacada: “O cantor que ninguém conhecia, exceto milhões”. Um fenômeno social e uma amostra de onde a música brasileira popular foi parar. Existe uma cisão quase total.

Não vou aqui ficar no resmungado fácil (“Não escuto música ruim mesmo”, de um lado; “Esses metidos a intelectual preconceituosos”, de outro). Há outros elementos que levam a essa situação surpreendente em que um nicho ainda é um nicho, mesmo que reúna milhões de pessoas.

Não sou um estudioso do assunto, só algumas coisas me ocorreram.

Faz todo o sentido eu não conhecer o cantor. O universo da música breganeja simplesmente não me interessa. Não ouço rádio de músicas populares há anos – simplesmente não dá. Da mesma forma, evito programas musicais na TV aberta. Tudo o que era o habitat natural do cantor morto ontem. Seu nome vinha numa calçada e eu, naturalmente, estava em outra.

Mas mesmo assim, eu sei quem é (e você também sabe) Luan Santana. Ou Anitta ou Valeska Popozuda, pra ir em outro gênero. De alguma maneira, eles furaram esse bloqueio. Não escuto nenhum deles, mas a ideia é justamente essa: a de que não precisamos escutar alguns artistas para saber quem eles são. Não fui eu quem atravessou a rua, foram eles que, em algum momento, vieram parar na minha calçada.

Por alguma razão, isso não aconteceu (ou não tinha acontecido ainda) com o rapaz que morreu ontem. Não sei o motivo, mas ele está por aí. Deve haver mais de um e um deles pode ser o de que essa rua que separa as calçadas nunca foi tão larga.

E isso não é uma justificativa nem uma condenação, apenas um fato. O mercado da música hoje, por mil motivos, leva a isso. E, dependendo de com quem você anda, o trânsito entre as calçadas aumenta ou diminui. É natural, funciona assim não só na música, mas em toda a área da cultura e do conhecimento na vida.

Mas, como eu disse, no que se refere à música, o mercado tem tornado isso pior. Antes era mais fácil você ter contato com tudo. Pensando o fenômeno a partir de mim mesmo, a música que eu achava ruim se tornou indizivelmente pior de meados dos anos 1990 pra cá. Pra você ver, Luan Santana faz eu achar Zezé di Camargo e Luciano bons em comparação (e nunca gostei de nada que eles tenham feito e que entrou no meu radar).

Mas, voltando, antes era mais fácil ter contato com tudo (ou quase tudo). Talvez porque o ruim não era tão ruim pra mim. Mas um programa como o Globo de Ouro podia trazer, numa mesma edição, Kátia cantando “Não está sendo fácil”, Rosana cantando “Como uma deusaaaaaa”, Lulu Santos, José Augusto, Paralamas, Luiz Caldas, Legião Urbana cantando “Faroeste caboclo”. Até Gal Costa (ok, cantando “Um dia de domingo”, mas, ainda assim, era a Gal Costa).

Seja lá o que você considerasse música boa ou ruim, dava pra esperar passar o ruim pra chegar na boa. Ou, mesmo que você mudasse de canal pra dar um tempo e voltar, até que a música que você detestava passasse, já era: você já tinha visto o anúncio, talvez o comecinho da música. Podia continuar não gostando, mas sabia da existência do artista.

E assim como o Globo de Ouro, havia o Chacrinha e tantos outros. Chico e Caetano não andavam muito por lá, mas eles tiveram um programa só deles no horário nobre da Globo!

Desde os anos 1960, a TV foi um grande palco para a música brasileira, mas a variedade que existia sumiu da TV aberta. A TV aberta tem andado numa calçada só, sem atravessar a rua. E minha turma não anda por lá, nem tem as lojas que eu gosto.

Foi preciso isso para a TV aberta sobreviver após a internet e a TV a cabo? Bom, não sei, pode ser, mas o fato é que é assim agora e é uma pena.

Como eu disse, alguns artistas atravessam a rua ou gritam de lá pro lado de cá e a gente consegue vê-los. O cantor que morreu ontem não atravessou a rua e nem gritou pra cá. Não que ele de forma alguma precisasse – até onde sei (naturalmente, não muito), ele estava feliz na calçada dele, andando com a turma dele.

E nem eu acho que, também até onde sei, faria alguma questão de que ele atravessasse a calçada algum dia.

Apenas as coisas são como são e esse fenômeno de ontem – o sujeito idolatrado por uma multidão e totalmente ignorado por outra – é um fato a se pensar sobre como vai a música brasileira hoje e pra onde ela talvez esteja indo. Nichos hermeticamente fechados, mesmo que reunindo milhões de pessoas.

Pra você ver, eu escrevi tudo isso e nem lembro do nome do rapaz. Acho que Cristiano alguma coisa. Moura, talvez.

Bom, sei que era goiano.

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