Divertida Mente

Raiva (Léo Jaime), Nojinho (Dani Calabresa), Alegria (MIá Mello), Medo (Otaviano Costa) e Tristeza (Katiuscia Canoro): a sala de controle da mente está prestes a sair do controle

Sem borda - 05 estrelas

Roda viva de emoções

Na sala de controle da mente de uma menina de 11 anos, as emoções trabalham juntas para manter tudo sobre controle. Riley é uma criança feliz, então a Alegria domina a cena, secundada pela Raiva, o Nojinho e o Medo, enquanto a Tristeza é sempre deixada meio de escanteio, sem muito o que fazer. Mas a menina precisa enfrentar uma nova realidade, o que balança o coreto de suas emoções, que viram uma bagunça. É o tema de Divertida Mente (Inside Out, Estados Unidos, 2015), animação da Disney/ Pixar atualmente em cartaz.

Depois de alguns filmes meio no piloto automático, a Pixar entrega um filme no nível de excelência de Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Wall-E (2008) e Toy Story 3 (2010). Na direção, o mesmo Pete Docter que supera seus já ótimos Monstros S.A. (2001) e Up – Altas Aventuras (2009).

A imaginação do que acontece por dentro de Riley quando ela muda de Minnesota, onde viveu a infância, para uma desconhecida e a princípio problemática San Francisco, é nada menos que brilhante. É uma mudança difícil, para não dizer traumática.

Agora pense nos seus filhos: se tudo correr bem, as crianças são mesmo dominadas pela alegria em seus primeiros anos. Mas chega inevitavelmente o momento em que as coisas ficam confusas e é preciso encarar a tristeza por alguma coisa. Nós, claro, evitamos como podemos que a tristeza domine nossos pequenos. É dessa forma que a Alegria age no filme: ela nem mesmo entende por que a Tristeza está ali e, para evitar que Riley fique para baixo, a todo custo impede a Tristeza de fazer alguma coisa.

O filme, no fundo, é sobre isso: descobrir a importância (e até a beleza) da tristeza em nossas vidas. Entender que – apesar de querermos – ninguém é feliz sempre e ficar triste faz parte da vida, e uma parte importante. Como cenário está o momento de mudança dessa garota, em que sua personalidade (visível através das “ilhas” de honestidade, família, hóquei e bobeira) está mudando e as memórias de infância vão ficando para trás.

Crescer não é fácil pra ninguém, mas aqui isso é mostrado de maneira até épica (já que as escalas são maiores no mundo “dentro da mente”). Acidentalmente expulsas da sala de controle, Alegria e Tristeza precisam voltar com memórias fundamentais de Riley. Enquanto isso, as emoções da garota ficam confusas e a levam a atitudes extremas que ela não tinha antes. O que é mostrado em cenas grandiosas, como uma ilha de personalidade ruindo ou em detalhes como a cor do “céu” em sua mente.

A dupla passa pelo arquivo de memórias, a terra da imaginação, o trem do pensamento, a escuridão do subconsciente, os sonhos e pelas memórias que vão sendo apagadas para sempre. Tudo é orquestrado por um roteiro firme e ostentando um design elaborado.

Sem dúvida, é um filme que tem o mérito de não tentar agradar as crianças pelo caminho mais fácil. Embora não deixe de ter personagens fofinhos e cores vivas, ele não se acomoda no encantamento infantil e busca um “algo a mais” muito bem-vindo. Mesmo que o filme vá em direção àquele clímax grandiloquente já esperado da aventura, a resolução é inteligente e o conjunto é um primor.

E vale lembrar que a dublagem brasileira também faz um ótimo trabalho, com Miá Mello (Alegria), Katiuscia Canoro (Tristeza), Dani Calabresa (Nojinho), Léo Jaime (Raiva) e Otaviano Costa (Medo) sempre soando como personagens e nunca como celebridades contratadas.

Divertida Mente é uma animação que torna visíveis conceitos complexos e abstratos. Não possui romance ou vilões propriamente ditos. E mostra a incrível roda viva interna que todos nós acabamos sendo uma vez ou outra.

Divertida Mente. Inside Out. Estados Unidos, 2015. Direção: Pete Docter. Vozes na dublagem brasileira: Miá Mello, Katiuscia Canoro, Dani Calabresa, Otaviano Costa, Léo Jaime.

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