Marília Pêra com o troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado (Foto: Edison Vara)

Marília Pêra com o troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado (Foto: Edison Vara)

Em agosto deste ano, tive a honra de estar presente à coletiva de imprensa dada por Marília Pêra no Festival de Gramado. Ela seria homenageada pelo festival naquela mesma noite – um momento bonito, em que ela foi surpreendida pela presença dos três filhos, que foram entregar o Troféu Oscarito.

Fiz duas ou três perguntas: perguntei sobre Carmen Miranda e sobre Jogo de Cena. O texto – em que optei por tópicos para o mínimo de espaço possível para as minhas palavras e o máximo para as de Marília – foi publicado no Caderno 2 do Correio da Paraíba do dia seguinte. Segue aqui o texto, neste dia triste em que essa diva da atuação brasileira nos deixou, pouco menos de quatro meses após aquele dia.

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Gramado, RS – Em um festival de poucas estrelas no tapete vermelho, Marília Pêra brilhou absoluta. Ela foi homenageada com o Troféu Oscarito na noite de terça, aplaudida de pé por um Palácio dos Festivais lotado. Marília ganhou dois Kikitos em sua carreira: por Bar Esperança (1983) e Anjos da Noite (1987). Ela foi surpreendida pela presença de seus três filhos (Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena), que entregaram o troféu. Mais cedo, ela conversou com os jornalistas.

Início no teatro – “Comecei na tragédia. Medeia, aos 4 anos. Morria todo dia (risadas da plateia). Claro, minha mãe me matava (mais risadas). Era a madame (Henriette) Morrineau: com ciúme do meu pai, ela matava os filhos. Eu era a menina que morria estrangulada todos os dias”.

Novo disco – “Estou gravando um disco agora pela Biscoito Fino. Um disco de músicas românticas, que deverá se transformar num docudrama musical. Achei que seria O Fino da Fossa, músicas tristes, mas durante as reuniões foi mudando”.

Carmen Miranda (Marília interpretou Carmen, que morreu há 60 anos, diversas vezes)– “A primeira vez que cantei Carmen Miranda, eu era bailarina do Carlos Machado no México. E havia lá uma vedete chamada Vera Regina e ela fazia um pot-pourri da Carmen Miranda. E ela precisou voltar ao Brasil. E o Carlos Machado falou pro Juan Carlos Berardi, o coreógrafo: ‘Vê se alguma dessas meninas aí afina’. Aí, era eu mesmo. E eu cantei pela primeira vez, em 1963. E depois, em 1972, fiz A Pequena Notável, um texto de Ary Fontoura com direção de Mauricio Sherman… E de lá pra cá interpretei Carmen Miranda… mil vezes. Quando ela morreu, eu tinha 11 anos. Eu estava saindo do balé e fui ao velório dela, fui vê-la. Tenho essa ligação com ela”.

Hector Babenco – “Ele queria em O Rei da Noite que fossem o Paulo (José) e a Dina (Sfat). A Dina não podia, não sei porquê. Então ele queria a Darlene Glória, queria um mulherão. E o Paulo sugeriu o meu nome. Então, ele aceitou, mas eu não era bem o que ele queria. Ele não me tratava mal… mas ele não me tratava. Depois, declarou que só foi perceber o meu trabalho depois do filme montado. Já quando me chamou pro Pixote ele sabia muito bem o que queria”.

Ser atriz – “Eu tinha a paixão. Eu queria. Queria porque era um meio de sobrevivência e queria porque era a minha alegria, a minha felicidade. O Zé Mayer disse uma coisa tão bonita: nessa profissão você não tem limite. Você pode fazer o que você quiser, sendo ator. Você pode sentir todas as emoções do universo. Isso é uma liberdade sem fim, se você pensa assim”.

Jogo de Cena (no filme de Eduardo Coutinho, mulheres dão depoimentos e atrizes os repetem) – “É a diferença entre o que você é e o que você finge que é. O Coutinho queria que a gente no filme interpretasse ‘nada’. É muito difícil. A gente tinha de ser o que a outra pessoa tinha confessado, sem interpretar. Quando a gente interpretava, ele interrompia. Eu tive medo, fiquei com taquicardia. Todo aquele filme eu fiz com o coração na boca. Nem sei o que eu acho de mim no filme”.

Ópera – “Eu me mato para ver a Anna Netrebko onde ela estiver, é a maior cantora lírica atualmente. Gosto muito da grandiosidade da ópera. Tudo que se vê em Broadway é nada diante do que as óperas fazem”.

PERFIL:

– Marília Pêra nasceu no Rio de Janeiro, em 1943

– Vem de uma família de atores: seus pais eram Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, que integravam a companhia teatral de Henriette Morineau.A avó, Antonia Marzullo, também era atriz.

– A partir dos 14 anos, foi bailarina, participando de musicais e teatro de revista.

– Sua estreia na TV foi em Rosinha do Sobrado, em 1965.

– No cinema, estreou como bailarina em uma chanchada com Oscarito e Sonia Mamede. Com um personagem, a estreia foi em O Homem que Comprou o Mundo (1968), de Eduardo Coutinho

– Em 1968, estava no elenco da peça Roda Vida, de Chico Buarque, e foi presa pela ditadura.

– Como diretora, estreou em 1978, com a peça infantil A Menina e o Vento. Seu grande sucesso na função é O Mistério de Irma Vap, com Ney Latorraca e Marco Nanini, que ficou 12 anos em cartaz, de 1986 a 1998.

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