Daisy Riodley, John Boyega (e BB8): filme confia (e faz bem em confiar) nos novos personagens

Daisy Ridley, John Boyega (e BB8): filme confia (e faz bem em confiar) nos novos personagens

Estrelas-04 e meia juntas-site

Nostalgia com um pé no futuro

Renato Félix

Os fãs puderam, enfim, relaxar (ou ficar ainda mais animados): Star Wars – O Despertar da Força é um legítimo seguidor da trilogia original da série Guerra nas Estrelas e não guarda qualquer maior relação estética com a trilogia-prelúdio. É uma realização impressionante nesse ponto: 32 anos após O Retorno de Jedi (1983), chega a ser estranho assistir algo inédito e que soa ao mesmo tempo tão familiar.

Aos não-fãs (e até aos desconfiados e maltratados por terem se iniciado na série pela trilogia-prelúdio), vale a aposta de ir ao cinema: Star Wars – O Despertar da Força é pautado em novos personagens que encaram a história original como uma lenda, algo de que apenas ouviram falar. É com isso que o filme dialoga muito bem com quem só conhece a série de ouvir o papo dos amigos que a curtem ou das zilhões de referências que aparecem por aí o tempo todo, de comerciais de TV a pegadinhas do Programa Silvio Santos.

O Despertar da Força é um grande acerto também em diversos outros aspectos. J.J. Abrams parece ter nascido para comandar esse projeto. Ele próprio já tinha feito os dois Star Trek que dirigiu soarem mais como Guerra nas Estrelas do que como a série original Jornada nas Estrelas. Se George Lucas achava que tinha limitações tecnológicas quando produziu a trilogia original (1977-83) e que não as tinha mais quando produziu, escreveu e dirigiu a trilogia-prelúdio (1999-2005), se refestelando mais do que devia nos efeitos digitais, Abrams compreende que as “limitações” dos anos 1970 e 1980 sempre foram, de fato, uma vantagem.

Assim, o novo filme minimiza os efeitos digitais em prol do uso de maquetes e efeitos realizados no set sempre que possível.  Foi uma opção que fez diferença e valeu a pena. Com isso, o novo Star Wars retorna a um futuro “velho”, meio sucateado, nos confins da galáxia e que parece mais real.

Outro acerto é o investimento na construção de novos personagens muito bons. Tanto a catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) quanto o stormtrooper desertor Finn (John Boyega) e o novo vilão, Kylo Ren (Adam Driver), são complexos e funcionam muito bem. São mais complexos, na verdade, que os protagonistas da trilogia original, que sempre foram bastante arquetípicos. Mesmo Leia (Carrie Fisher), que renegava o estereótipo da princesa a ser salva, mas acabava sendo arquetípica para o outro lado.

O filme confia nesses personagens, nessa nova geração. Quando Han Solo entra em cena, O Despertar da Força já começou há algum tempo e, sem perceber, o espectador está acompanhando apenas personagens novos, com grandes possibilidades de estar totalmente envolvido pela trama e sem dar pela falta dos medalhões até então. Mas os astros vêm e o filme dá a cada um uma entrada solene em cena.

Abrams teve a nobreza e esperteza de convocar Lawrence Kasdan para acompanhá-lo no roteiro. Roteirista do melhor filme da série, O Império Contra-Ataca (1980), ele certamente também fez diferença. O filme entrega e sonega informação ao espectador com muita destreza. Constrói uma bela aventura sem se preocupar em ser explicadinho, leva a atenção do espectador para onde quer e, no fim, boa parte dos personagens continua com histórias não reveladas, guardadas para os próximos episódios.

Como não se trata de Lost, Abrams não terá infindáveis episódios para criar mistérios e, depois, não saber como resolvê-los. O que ele fez é colocar as pulgas nas orelhas dos espectadores, que passaram a especular o que este ou aquele personagem representa. E manter um pouco da aura de mistério que foi parte importante da divulgação de O Despertar da Força.

O principal deles era a respeito da maneira como seria a participação de Mark Hamill como Luke Skywalker. Não por acaso, a primeira frase do letreiro incial é “Luke Skywalker está desaparecido”. Boa parte da trama deste sétimo episódio gira em torno da busca por ele, o último jedi. A Primeira Ordem (o que restou do Império) e a Resistência (liderada pela ex-princesa e agora general Leia, vivida de novo por Carrie Fisher) querem encontrá-lo.

É a essa trama que os novos personagens são jogados depois de se conhecerem. Ao lado disso, muito da trama repete passos de Guerra nas Estrelas (1977; rebatizado desnecessariamente a partir de 1999 como Star Wars – Uma Nova Esperança) e O Retorno de Jedi (1983). Nisso, o filme aposta em um caminho mais fácil, de identificação imediata com os velhos fãs maltratados com a trilogia-prelúdio.

Mas há que considerar que o espírito original da série era esse mesmo: Guerra nas Estrelas revisitava os seriados de Flash Gordon dos anos 1930 (que passavam em episódios no cinema sempre com o “continua na próxima semana” no final), os filmes japoneses de samurais, os capa-e-espada e os faroestes clássicos. Nada mais natural, portanto, que o novo Star Wars remeter à sua própria versão de quase 40 anos antes.

O que importa é que a combinação disso com os novos personagens e as ligações entre eles funcionou bem demais. É um grande retorno, mas dando um significativo passo à frente.

Star Wars – O Despertar da Força. Star Wars – The Force Awakens. Estados Unidos, 2015. Direção: J.J. Abrams. Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Anthony Daniels, Kenny Baker, Max von Sydow, Simon Pegg, Warwick Davis.

(ampliado do texto publicado no Correio da Paraíba, em 19/12/2015)

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