Bangue_foto Rafael Passos

Foto de Rafael Passos do novo Bangüê por dentro: ainda faltava a tela, não falta mais

por Renato Félix

Em 1992, 1993, por aí, eu ia ao Cine Bangüê uma vez por semana, praticamente sem saber nada sobre o filme em cartaz. Aqui em João Pessoa, ele era a balsa de uma cinema off-Hollywood em anos onde só haviam três cinemas (de rua) na cidade: o Municipal, o Plaza (já rendido aos filmes pornô) e o Tambaú.

Naqueles dias eu estava começando na universidade e frequentava a Gibiteca Henfil, no Espaço Cultural. Eram meu primeiros anos como cinéfilo, descobrindo o que a história do cinema me reservava. Essa combinação deve ter me feito descobrir a existência do cinema do Espaço Cultural (não me lembro como foi).

Ainda por cima, era baratinho. E, para quem está achando que eram só filmes indecifráveis, no fim de semana à tarde havia uma programação de cinema infantil que me fez assistir a Bambi (1942) e Cinderela (1950) no cinema e rever A Pequena Sereia (1989). E foi no Bangüê que assisti a filmes como Cinema Paradiso (1988) e The Commitments (1991).

Meus amigos Ulisses Xavier e Heleno Bernardo foram diretores lá, cuidando da programação. Um novo Bangüê será inaugurado daqui a pouco, o que me traz à memória algumas histórias vividas lá.

Como a sessão de Dogma, de Kevun Smith. Dizia-se que a esposa de Luciano Wanderley não permitiria que aquele filme que tirava sarro de ícones do Cristianismo fosse exibido nos cinemas dele (i.e. os outros três da cidade). Sugeri a alguém (me lembro assim) que o Bangüê devia aproveitar e passar.

Resultado: sessão lotada, a maior fila que vi para entrar naquele cinema de uns 600 lugares. Meu amigo João Carlos Beltrão dizia que eram os fãs querendo ver Alçanis Morissette interpretando Deus.

Houve um tempo em que foi criada uma comissão de convidados para elaborar a programação. Me lembro de perturbar uma amiga que integrava esse time dizendo que Casablanca havia sido relançado no Brasil em cópia nova e que o Bangüê tinha que trazer o filme.

E trouxe mesmo. Cinema cheio pra ver Rick e Ilsa em tela grande.

Depois fiz parte de uma nova turma de consultores e foi a época em que outros clássicos passaram lá: Noites de CabíriaBonequinha de Luxo entre eles. Uma maravilha.

Mas o Bangüê acabou arrefecendo. Era um cinema grande demais pata um público, em geral, mínimo. Fazia um frio de lascar.Houve algumas tentativas de retomada que não vingaram.

Em uma dessas vezes, o filme que reabriu o Bangüê foi Dogville, que havia sido solenemente ignorado pelo circuitão local, que já tinha se mudado para os shoppings. Outra dessas retomadas foi com a folclórica sessão de A Festa da Menina Morta na qual, diz-se, cenas fortes não agradaram muito as autoridades presentes.

Isso teria abreviado a nova vida do cinema na ocasião. Não sei. Mas sei que o insolúvel problema de som da sala era um obstáculo que parecia intransponível. Não havia reforma do sistema de som ou visita de especialista da Dolby que desse jeito.

Dependendo do lugar em que sentássemos, ouvíamos mais ou menos bem ou não ouvíamos nada. Me lembro de uma sessão de Edifício Master em que fui embora por não entender absolutamente nada do que era dito. Considerando que é um documentário com uma série de entrevistas, imagina o problema.

Hoje, neste momento, um novo Bangüê (ainda com trema, como está no letreiro) está sendo inaugurado. Muitos anos depois da promessa de que uma nova sala, menor, seria construída – aliás, desculpa que foi dada para a demolição da pista de skate do Espaço Cultural, que muita gente não perdoa até hoje.

Enfim, um novo Bangüê. Menor, antenado às novas tecnologias e, esperamos, com um bom som. Que alie as necessidades de espaço exibidor do efervescente cinema paraibano com uma programação integrada ao circuitão que nos dê o que não costumamos ter.

Já avançamos bastante nesse aspecto. O Cinespaço do MAG dá algum espaço ao cinema off-Hollywood (poderia ser mais). O Cinépolis do Manaíra abriu uma sessão de cinema de arte bem interessante (poderiam ser mais sessões). O Bangüê tem que ser, por vocação, um passo além desses dois.

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