Regresso-14

por Renato Félix

Pode-se dizer qualquer coisa do mexicano Alejandro González Iñarritu, menos que ele é um diretor acomodado.Desde Amores Brutos (2000), ele sempre foi pautado pela busca em realizar filmes únicos, singulares. Às vezes fica só na pretensão, como em Babel (2006). Mas parece ter achado o ponto, com grandes acertos em seus dois últimos filmes. Ano passado, Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância (2014) ganhou o Oscar de melhor filme. Agora é O Regresso (2015) que vai tentar repetir o prêmio – e é um filme ainda melhor que Birdman.

Iñarritu parte da história real do caçador e explorador Hugh Glass que, em 1823, é brutalmente atacado por um urso, deixado para trás à beira da morte pelos companheiros (principalmente Fitzgerald,  o personagem de Tom Hardy, ótimo), sem suprimentos ou armas, mas sobrevive e atravessa o rigoroso inverno em um longa jornada busca de vingança. Uma história sobre obstinação que já parece inacreditável por si só. Até já havia rendido um filme: Fúria Selvagem (1971), com Richard Harris.

Aqui, o papel é de Leonardo DiCaprio, que dá tudo de si no personagem e mais uma vez entrega um admirável trabalho. Sua atuação foi acrescida de uma série de desafios na composição de Glass – de comer o fígado cru de um bisão sendo vegetariano a aprender a falar duas línguas indígenas, a fazer uma fogueira e técnicas de cura ancestrais. O resultado de seu trabalho está à altura da grandeza do filme, compondo perfeitamente com o que está ao seu redor, sem precisar brigar para não ser sufocado pela produção.

Já são famosas as opções de Iñarritu e do diretor de fotografia (também mexicano) Emmanuel Lubezki de filmar em temperaturas abaixo de zero e de usar só luz natural, o que limitou o tempo de filmagem a algumas horas por dia. A questão é: valeu a pena?

A primeira imagem na floresta já responde. A fotografia é um espanto, meio difusa, mas de longo alcance, valorizada pelos movimentos de câmera intricados e planos-sequência vertiginosos, que certamente não facilitaram nada o trabalho geral. Lubezki deve ganhar seu terceiro Oscar seguido (já levou por Gravidade e Birdman; se vencer de novo, ele será o único diretor de fotografia a conseguir esse tricampeonato na história do prêmio).

Essa combinação evoca Terence Malick e Andrei Tarkovsky, certamente com menos profundidade existencial, mas com uma narrativa mais precisa, firme e contundente. Vale destacar a trilha de Ryuichi Sakamoto, que contribui para a construção de um trabalho em diversos momentos hipnótico. Com ela, esta jornada violenta do homem contra a natureza se torna algo que namora o sublime.

Sem borda - 05 estrelas

O Regresso. The Revenant. Estados Unidos, 2015. Direção: Alejandro González Iñarritu. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson. 

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