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“Moana – Um Mar de Aventuras” (2016)

4 – MOANA – UM MAR DE AVENTURAS

por Renato Félix

Em determinado momento de Moana – Um Mar de Aventuras, o semideus polinésio Maui a chama – com desdém – de princesa. “Não sou uma princesa”, ela retruca. “É a filha do chefe, é a mesma coisa”, rebate ele, e emenda: “Se usa um vestido e tem um bichinho de parceiro, é uma princesa”. A personagem-título de sua nova animação é mais uma tentativa da Disney de dar um passo à frente na modernização do conceito de “princesa”, um patrimônio cultural e de marketing do estúdio desde Branca de Neve, em 1937.

Moana não é uma princesa decorativa: é treinada para um dia governar. Desafia o pai o tempo todo no seu contrasenso de comandar um povo da Polinésia e ter medo do mar. Um dia, o destino faz a menina navegar como seus antepassados para encontrar Maui e reverter uma maldição que chega à sua ilha.

Se em A Princesa e o Sapo (2009), a princesa resiste ao romance por aspirações profissionais (mas se rende no decorrer do filme), se em Valente (2012) a princesa rejeitava seus pretendentes, e se em Frozen (2013) o príncipe se revelava o vilão (e o verdadeiro interesse amoroso estava em segundo plano), nesta progressão agora não há qualquer sinal de príncipe encantado à vista. A relação entre Moana e Maui está mais para irmão mais velho/ irmã caçula.

Mas mesmo com esse esforço de modernização, em termos de narrativa ainda é difícil não relacionar motivações e parte da jornada de Moana às de outras princesas Disney, como Ariel, de A Pequena Sereia (1989, dos mesmos diretores John Musker e Ron Clements) ou Belle, de A Bela e a Fera (1991).

Como Ariel, Moana tem curiosidade pelo mundo além das fronteiras do seu, mas é tolhida pelo pai. As duas possuem, ainda no primeiro terço de seus filmes, uma canção de “eu anseio por mais”, assim como outras princesas Disney. Foi “Part of your world” para Ariel em A Pequena Sereia, “Almost there” para Tiana em A Princesa e o Sapo (outro Musker-Clements), “When will my life begin?” para Rapunzel em Enrolados (2010), e é “How far I’ll go” em Moana.

É uma bela canção (que está indicada ao Oscar) de uma bela trilha, que reflete um cuidado da produção ao trabalhar com a cultura local. As canções ficaram a cargo de uma parceria entre o letrista novaiorquino Lin-Manuel Miranda e o músico Opetaia Foa’i. Dos números musicais, o melhor é “You’re welcome”, em que Maui (Dwayne Johnson no original; o cantor de musical Saulo Vasconcellos, na versão brasileira) bravateia seu heroísmo, com ótimos recursos visuais.

O visual arrebatador é um dos pontos em que Musker e Clements mostram a competência de sempre. Assim como no carisma dos personagens e um humor que sobrevive a certos atalhos fáceis e desnecessários do roteiro, como os bichinhos que não contribuem em nada para a trama (apesar de o galo burro ser ocasionalmente engraçado). Ou como o mar “vivo” que ajuda a heroína, que sempre parece um recurso forçado (embora também tenha ocasionalmente sua graça).

Aliás, a relação de Moana com o mar podia ser mais próxima na introdução da história. Embora ela seja naturalmente atraída por ele e, além disso, seja “a escolhida” desde bebê para reverter a maldição, não há nenhuma cena da garota em intimidade com o mar, mesmo morando em uma aldeia à beira-mar. Nem um simples mergulho.

No fim, Musker e Clements, oriundos das animações feitas à mão, fazem uma estreia muito boa na animação digital. É uma pena, somente, que isso signifique mais uma pá de cal nos longas feitos à mão, que renderam vários dos melhores exemplares do gênero. O último longa para o cinema a sair da própria Disney foi justamente A Princesa e o Sapo, já há seis anos.

Moana – Um Mar de Aventuras. Moana. Estados Unidos, 2016. Direção: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House. Vozes na dublagem brasileira: Any Gabrielly, Saulo Vasconcelos, Saulo Javan, Mariana Elisabetsky. No cinema (Cinespaço MAG). Revisão.

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