Roda Gigante 2

Justin Timberlake, Kate Winslet e Juno Temple: tragédia pairando no ar

ROGA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

A roda viva traçada por Woody Allen

por Renato Félix

Em determinado momento de Roda Gigante, o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que quer ser escritor, dá a Carolina (Juno Temple), a jovem que está se escondendo do marido gangster, um livro que analisa o teatro de Eugene O’Neill. É a senha da inspiração de Woody Allen para sua nova crônica das tragédias humanas: o ótimo Roda Gigante (2017).

O’Neill faz parte de um time de dramaturgos americanos que exploraram as entranhas das famílias americanas e suas relações. Sua peça mais conhecida é Longa Jornada Noite Adentro, um texto de 1941, que o dramaturgo manteve lacrada em um cofre com instruções para ser montada apenas após sua morte (provavelmente por retratar as disfunções de sua própria família em 1912). Ele morreu em 1953 , a primeira montagem é de 1956 e rendeu um Pulitzer póstumo a O’Neill.

O filme de Woody Allen se passa nos anos 1950, década da morte de O’Neill e da montagem póstuma. As tragédias criadas por nós mesmos, que se tornam prisões das quais alguns não conseguimos escapar, são os temas deste novo filme. Mas nem Mickey e nem Carolina são os grandes protagonistas de Roda Gigante. Este papel cabe a Ginny, mais um grande personagem feminino de Woody Allen e mais uma grande interpretação feminina em um de seus filmes: Kate Winslet.

Ginny é uma garçonete que vive em Coney Island e cujo marido que ela não ama, Humpty (Jim Belushi), trabalha no carrossel do histórico parque de diversões do lugar – ambiente que ela odeia e que a deixa com constantes dores de cabeça. O casal vive ainda com Richie (Jack Gore), filho do primeiro casamento de Ginny, e que tem um estranho impulso incendiário.

É uma vida quase miserável para Ginny, mas duas coisas acontecem: ela começa um caso com Mickey que devolve a ela o prazer de viver; e Carolina, filha de Humpty, reaparece, pedindo abrigo para se esconder, depois de ter delatado o marido. Quando Carolina também se interessa por Mickey e ele por ela, Ginny vê sua tábua de salvação para fora daquela vida afundar passo a passo.

A tragédia está pairando no ar. E a irresistível vontade de Richie de colocar fogo nas coisas pode ser uma metáfora de que uma hora essas pequenas fogueiras podem sair do controle.

É visualmente um dos filmes mais bonitos de Woody Allen – fotografia formidável de Vittorio Storaro, que usa de maneira impressionante o visual de parque de diversões como fundo melancólico para dramas humanos, assim como a luz dos neons, da noite, do entardecer.

A fotografia é beneficiada pela opção de Allen de usar menos os planos sequência de que tanto gosta: os longos diálogos sem cortes, muitas vezes com um dos personagens falando fora do enquadramento. Os diálogos aparecem em plano e contraplano mais que o usual para um filme de Allen dos anos 1980 para cá. Isso deixa Storaro livre para compor a luz das imagens de maneira a irem mudando durante o plano. O rosto de Winslet às vezes está sob a luz amarela de um farol, para depois ser banhada pelo azul da noite.

Mas os planos-sequência estão lá, surgindo em momentos-chave. Em um monólogo de Winslet confrontando acusações de seu amante. Num emocionalmente caótico, mas visualmente bem coreografado ajuste de contas da família. Na tocante imagem final, em que velhos diálogos são repetidos como se fossem o cotidiano, mas o desespero é transmitido pelo olhar.

O sabor do teatro é constante no filme. É fácil imaginar tudo aquilo acontecendo em um palco. Mickey, que narra o filme, até começa a contar a história por uma rubrica de texto tetral: “Entra Carolina”. Allen sai poucas vezes do registro mais direto para um mais figurativo (quando os efeitos dos analgésicos em Ginny são mostrados pela ausência do som dos brinquedos do parque de diversões, que a atormentam).

O aspecto teatral certamente beneficia Kate Winslet e sua grande composição de uma mulher rumo ao desequilíbrio – há um pouco de Blue Jasmine (e, portanto, da Blanche DuBois de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams) em Ginny. Não só ela, mas também Caroline, passam o filme tentando lidar com o resultado de suas escolhas e de como elas as encarceraram numa vida da qual as duas mulheres tentam escapar por alguma brecha.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple.

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