Viva - 02

Miguel e a bisavó Lupita: indo além do esperado

VIVA – A VIDA É UMA FESTA
Estrelas-04 e meia juntas-site

Saudade é vida

. por Renato Félix

Se existe vida além da morte, o que seria “a morte da morte”? Viva – A Vida É uma Festa (2017) dá sua visão: é o esquecimento. Nossos mortos continuam vivos em nossas memórias. Se nos esquecemos deles, eles deixam de existir. Com essa base, o estúdio de animação – que tem alternado seus melhores momentos com continuações meio no piloto automático – volta à sua melhor forma.

E essa melhor forma vem principalmente da combinação de roteiro e animação para esculpir personagens que conseguem transmitir grandes e complexas emoções, por mais que o filme não perca de vista o público infantil e o alto astral. Então, mais uma vez, humor, música e cores (mesmo no mundo dos mortos) são colocados como a base em que, quando menos se percebe, é construído algo que vai além.

O tema –  a morte –  é delicado e complexo, tanto que o marketing tentou desviar do assunto o melhor que pôde. O título brasileiro, então, exagera desnecessariamente na alegria. A vida não é uma festa para Miguel, o protagonista. O garoto quer ser músico, mas a família é contra: quer que ele siga a tradição sem graça dos parentes e seja um sapateiro.

O que ajuda o filme é que evidentemente a trama se passa no México, onde o Dia de Finados é encarado de uma maneira muito particular. Segundo a tradição, é o dia em que os mortos têm a permissão de visitar os parentes e amigos vivos. Enquanto a família tem um altar com fotos dos parentes que já se foram, Miguel tem o seu particular para Ernesto de la Cruz, um antigo ídolo da música.

Uma situação limite o leva, vivo, ao mundo dos mortos. E para voltar antes do fim do dia, o garoto vai ter que repensar valores familiares, sua vocação e descobrir segredos do passado. Conhece os antepassados, mas sua volta está ligada ao seu futuro e o levará ao encontro do ídolo em quem se espelha. Na jornada, terá a ajuda de Hector, uma caveira que parece ser apenas um alivio cômico, mas é o personagem em que Viva vai se apoiar para chegar mais longe.

O visual do mundo dos mortos é impressionante, começando pela ponte de pétalas que o liga ao mundo dos vivos e as plataformas inspiradas nas pirâmides astecas. Ter que conseguir o “visto de imigração” para passar “para o nosso lado” é uma situação que não pode estar ali por acaso.

E a animação aproveita para muitas brincadeiras visuais, lembrando tanto clássicos da Warner Bros. quanto o curta A Dança dos Esqueletos (1929), uma das primeiras Silly Symphonies da Disney.

A aventura misturada com comédia familiar começa a abraçar outras emoções quando entra em cena a possibilidade do esquecimento desses personagens mortos, mas com tanta vida, por parte de quem ficou por aqui (através da saudade). Coco, o título original (de que a Disney Brasil teve tanto medo de um trocadilho infame), se refere a personagem da bisavó, já sofrendo do mal de Alzheimer. É uma pena que o título brasileiro tenha desperdiçado essa relação com a personagem.

Linhas se cruzam e surgem algumas soluções que são mais fáceis e certos segredos que podem ser previstos a uma boa distância pelo espectador. Mas nada disso chega a ser um problema. As qualidades do filme de Lee Unkrich (é se segundo longa como diretor; o primeiro foi Toy Story 3) compensam, como centrar em dois personagens até então coadjuvantes (Hector e Coco, que aqui no Brasl foi rebatizada como Lupita) para construir uma cena de dimensão tão grande, que já está no rol daquelas da Pixar que arrancam lágrimas do espectador.

Viva! – A Vida É uma Festa. Coco. EUA, 2017. Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina. Vozes na dublagem original: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Alfonso Arau. Vozes na dublagem brasileira: Arthur Salerno, Leandro Luna, Nando Prado, Adriana Quadros.

* Crítica estendida da original publicada no Correio da Paraíba, em 13 de janeiro de 2018.