Forma da Agua - 02

Sally Hawkins e Doug Jones: com tudo o que têm direito

A FORMA DA ÁGUA
Sem borda - 04 estrelas

Testando as intolerâncias

. por Renato Félix

Guillermo del Toro é conhecido por amar monstros, mas ele ama, sobretudo, algumas facetas do cinema do passado, que ele vai revisitando em seus filmes. Ele salpica de referências seu A Forma da Água, que ganhou o Festival de Veneza e o Oscar de melhor filme (quatro, no total). A mais óbvia, claro, é que seu homem-anfíbio remete  diretamente a O Monstro da Lagoa Negra (1954), filme B que ganhou status de cult com o tempo.

A criatura desperta a empatia da faxineira muda vivida pela excelente Sally Hawkins, funcionária do laboratório secreto que o aprisiona. Ela é um tipo entre Chaplin e Amélie Poulain. O envolvimento cresce até que ela decide salvá-lo.

O coquetel de referências e citações mais e menos diretas gerou um certo debate sobre se isso diminui ou não o filme. Mesmo que isso não seja nenhuma novidade no cinema, de algumas décadas para cá. As referências a um cinema do passado são a base do cinema de Quentin Tarantino, por exemplo.

Falou-se em cópia e até em plágio. A relação entre Elisa, a personagem de Hawkins, e o homem-anfíbio vivido por Doug Jones, remete facilmente às versões de King Kong (1933/ 1976/ 2005) ou a ET (1982). E já anda na internet um meme que mostra que há muitos pontos em comum com a trama de Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984).

Mas há uma diferença fundamental. Em Splash, o “peixe” é metade Daryl Hannah, que ainda deixa de lado a cauda para se tornar totalmente Daryl Hannah nos momentos convenientes. È bem mais fácil para o público aceitar o amor entre diferentes quando eles não são assim tão diferentes: romances entre seres humanos e seres não humanos não são novidade no cinema – desde que o não humano seja, basicamente, uma figura humana.

Em A Forma da Água, Del Toro busca um equilíbrio difícil nesse sentido. Procura não facilitar tanto para a plateia, mas também não pode perdê-la. Aqui, o anfíbio ainda é uma forma humanoide, anda em duas pernas, tem dois olhos e uma boca (um  rosto reconhecível), mas as semelhanças parecem parar por aí. A pele é escamosa, os olhos são diferentes, ele não “fala”.

O filme tenta sustentar a estranheza da plateia, enquanto vai tentando vencê-la mesmo assim, através do lirismo. Elisa vai descobrindo e mostrando ao espectador que há sentimentos e inteligência ali. A Forma da Água testa o espectador, convidando a vencer a resistência a esse “amor diferente”. E nesse ponto é um amor romântico correspondido e nada de platônico, com tudo o que tem direito, inclusive sexo.

Assim, A Forma da Água não é tanto uma ficção científica ou um filme de monstro tradicionais. Testado em suas intolerâncias, cabe ao espectador embarcar ou não nessa fantasia romântica, com uma dose forte de nostalgia. Del Toro chega a incluir um número musical aos moldes dos anos 1930, outra referência cinéfila usada pelo diretor – mas, mais uma vez provocando o espectador, colocando seu monstro como um Fred Astaire.

A cena é outra referência direta, no caso ao número “Let’s face the music and dance”, com Fred e Ginger Rogers, de Nas Águas da Esquadra (1936). Vencer a estranheza é ser brindado pelo belo momento em que Elisa ganha uma voz além dela, como o musical clássico hollywoodiano costumava ser o sentimento além do sentimento.

Testado em suas intolerâncias (há paralelos com racismo e homofobia ao longo do filme, com nos personagens de Octavia Spencer e Richard Jenkins), cabe ao espectador embarcar ou não nessa fantasia romântica, com uma dose forte de nostalgia. Boa parte da trama se passa em apartamentos sobre um cinema exibindo A História de Ruth (1960) e As Noites de Mardi Gras (1958). Efetivamente, o cinema em si é o alicerce de A Forma da Água.

A Forma da Água. The Shape of Water. EUA, 2017. Direção: Guillermo del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Doug Jones.