Fun Home

Uma página original da sequência inicial de ‘Fun Home’: raro momento de leveza

FUN HOME – UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA .
Em nome do pai .

Relações familiares e suas complicações. Às vezes mais, às vezes menos complexas. A quadrinista americana Alison Bechdel resolveu expor os muito complexos pormenores de sua família no célebre álbum Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, que foi eleito o livro do ano pela revista Time, em 2006, e chegou à Broadway em 2015, em um musical que faturou cinco prêmios Tony.

Bechdel conta sua infância e juventude vivendo em uma casa grande e antiga com sua família que administra uma funerária (ironicamente apelidada de “fun home”, considerando que “fun” é a palavra em inglês para “diversão”). Seu pai é obcecado pela restauração do lugar e uma pessoa difícil e distante com os filhos. Quando ela revela à família que é lésbica, descobre que o pai mantinha há anos uma vida gay paralela. Pai que morre em circunstâncias que podem indicar um suicídio.

A literatura é um elo entre os dois através dos anos e Bechdel mostra isso com muitas referências (a Proust, James Joyce, Colette, F. Scott Fitzgerald, entre outros) e mesmo trechos dos livros que marcaram sua vida. Em cenas onde algum personagem esteja segurando um livro, ela faz sempre questão de mostrar o nome na capa.

Em muitas autobiografias em quadrinhos, há um preguiçoso estilo em que o desenho de cada quadro é pouco mais que um recurso ilustrativo para a narração que já conta tudo em um recordatório. Bechdel abusa do recurso do recordatório (que é aquela narração em terceira ou primeira pessoa que não está em um balão, não faz parte do diálogo da cena), a ponto de praticamente todos os quadrinhos do álbum acompanharem um.

Fun Home - capaMas em sua HQ os recordatórios ganham uma refinada função de reflexão e autoanálise para as cenas mais diretas retratadas pelas ilustrações. A quadrinista não recua do desafio de construir as cenas com as sequência de imagens, em vez de resumir toda uma situação a um quadro só – o tal recurso preguiçoso comum das autobiografias em quadrinhos.

Esse conto de amadurecimento começa com uma brincadeira infantil entre pai e filha: ele deitando no chão, a erguendo no ar com seus pés. Pai e filha brincando de maneira que não vamos mais ver no decorrer no livro. Nas páginas seguintes, há um relato de aproximações, tensões e distanciamentos que se alternam e boa parte das vezes a jovem mente de Alison não consegue distinguir qual é o quê.

Há um bom espaço também para que seja apresentado e discutido o papel da mãe, uma aspirante a atriz que vai ficando sufocada, no casamento e na família. Mas a mãe já havia sido o tema de um álbum anterior de Bechdel: Você É  Minha Mãe? – Um Drama em Quadrinhos (Cia. das Letras, 2013).

Curiosamente, o álbum pouco entra na vida íntima dos dois irmãos de Alison. Haverá  um terceiro álbum explorando essa face da juventude da quadrinista? Ou essas memórias complexas e desconcertantes terão encontrado paz?

FUN HOME – UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA. De Alison Bechdel (roteiro e desenho). Editora: Todavia. Tradução: André Conti. Páginas: 240. Formato: 16 x 23 cm. Preço: R$ 54,90 (impresso) e R$ 39,90 (e-book).

* Publicado originalmente no Correio da Paraíba, edição de 3/11/2018.

 

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