O songbook da sanfona

A Funarte lança um livro virtual reunindo 83 partituras de grandes compositores brasileiros da sanfona

.. por Renato Félix

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Leo Rugero, com Luizinho Calixto (foto: Rafael Passos)

O sanfoneiro e pesquisador Leo Rugero ligou para Glorinha Gadelha. Ele queria partituras de Sivuca para publicar no oitavo volume de Partituras Brasileiras Online, dedicado ao instrumento. “Claro, mas escreve as partituras aí. O Sivuca não escrevia música pra acordeon. Ele escrevia para os outros tocarem”, ela respondeu. E assim foi com Renato Borghetti, Hermeto Pascoal, Gennaro e diversos compositores que estão no livro virtual, disponível de graça no site da Funarte.

Com o nome Sanfonas do Brasil, o projeto foi encomendado pela fundação a Rugero. No projeto de partituras virtuais, há volumes reunindo grupos de compositores (como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Milton Nascimento) e três dedicados às “violas do Brasil”. Agora, é a vez das sanfonas.

“Escrevi um texto bem longo sobre o percurso histórico da sanfona no Brasil, que foi publicado na íntegra”, conta Rugero. Na sequência vem as partituras de 28 compositores. “Tentando contemplar o máximo as nossas regiões. Claro, sabendo que logicamente um volume é só uma amostra de um universo tão vasto como o do acordeon no Brasil”.

Muito identificada com uma música de origem popular, já seria esperado que vários autores nunca tivessem passado suas composições para partituras. Mas Rugero foi surpreendido quando mesmo pesos pesados da sanfona não tinham esse registro em papel.

01.26 - C1 - Partituras da sanfonaO resultado é que Rugero tomou para si o trabalho extra não só de reunir esse material, mas de transcrever as músicas desses monstros sagrados para as partituras a serem publicadas. O livro ficou com cerca de 60% de material transcrito por ele, contra cerca de 40% de material cedido pelos autores.

Além de Sivuca, Glorinha Gadelha, Renato Borghetti, Hermeto Pascoal e Gennaro, o livro conta com obras de Oswaldinho do Acordeon, Zé Calixto, Luizinho Calixto, Severo, Chico Chagas, entre outros. Duas grandes ausências, no entanto, se fazem notar: Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

“Isso foi bem chato. São dois nomes obrigatórios”, explica. “Mas a Funarte não dispunha de um valor para as edições. Então esse livro dependia realmente da generosidade dos autores de ceder a edição dos livros para a Funarte”.

Os inventariantes dos dois demoraram muito a dar uma resposta sobre a cessão dos direitos. O prazo apertou e, mesmo com as partituras prontas, Rugero foi obrigado a fechar o livro sem músicas de Gonzagão e Dominguinhos.

Mesmo assim, o registro é um bem-vindo apoio para a pesquisa da música para o instrumento no Brasil, cuijo conhecimento na área há muito tempo costumava ser passado de músico para músico quase informalmente. “Na tradição acordeonista brasileira temos pouquíssimas fontes de pesquisa. Praticamente não existem” diz o pesquisador. “Há um recorte da música produzida para o acordeon que é um registro fonográfico. Aí, a música não é mais ensinada como de pai para filho. É aprendida por um processo de escuta. E, nisso, a música começa a passar por muitas mutações”.

* Matéria publicada no Correio da Paraíba em 26 de janeiro de 2020.