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O GAROTO
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 13

100 anos de risos e, talvez, uma lágrima

100 anos este ano de O Garoto. “Um filme com um sorriso – e, talvez, uma lágrima”, diz a primeira cartela do filme, primeiro longa dirigido por Charles Chaplin. O espírito já está posto desde o princípio: a comédia misturada com o melodrama, que Chaplin sabia fazer como ninguém.

Talvez fosse um aviso, para o espectador que estivesse esperando só as risadas. Mas o drama é que abre o filme, com a mulher que se vê obrigada a abrir mão de seu bebê. Ela tenta deixá-lo com uma família rica, mas, por circunstâncias do destino, ele vai parar nos braços do paupérrimo Carlitos, que até tenta, mas não consegue se livrar dele naquele primeiro momento.

Alguns anos depois, vem a famosa cena que mostra o entrosamento entre esse pai e esse filho. Eles trabalham juntos: Carlitos é o vidraceiro que providencialmente aparece para consertar as janelas que o moleque quebra.

São transgressores contra uma sociedade que não os entende e logo se voltará contra eles quando tenta separá-los. Vem aí a grande sequência dramática do filme: o garotinho chorando no caminhão pelo pai e Carlitos correndo pelos telhados para alcançá-lo. Merece, sem dúvida, a lágrima prometida no começo do filme.

É tocante, ainda mais quando se pensa na infância miserável e sem pai do próprio Chaplin. O retrato da vizinhança pobre vem da lembrança de seus próprios dias difíceis em Londres: a pobreza, a mãe com problemas mentais, a possibilidade de ir parar num orfanato (chegando a fugir da polícia para evitar isso). De uma maneira ou de outro, tudo isso está no filme.

A química entre Chaplin e Coogan é admirável e vem da relação que o cineasta cultivou com o astro mirim fora dos sets: o levava a parques de diversões e a passeios. Essa proximidade por ter vindo da infância sem pai de Charlie ou do fato de que ele mesmo havia perdido há pouco tempo um filho, de seu casamento com Mildred Harris: o bebê morreu três dias depois de nascer. De qualquer forma, resultou em uma relação sincera de carinho que foi captada perfeitamente pelo filme.

Chaplin relançou o filme em 1971. Com a reedição, ficou mais curto: de 1h08 para 50min, eliminando cenas que o diretor naquele momento considerou excessivamente sentimentais (todas envolvendo o sofrimento da mãe, vivida por Edna Purviance, parceira de longa da data de Chaplin em seus filmes). O Garoto ganhou também uma bela trilha sonora composta por Chaplin.

O filme, que foi concebido como curta e foi crescendo na duração durante a produção, mudou a carreira de Chaplin. Ele já tinha criado a United Artists em 1919 (seu próprio estúdio, em sociedade com o diretor D.W. Griffith e os astros Douglas Fairbanks e Mary Pickford) e O Garoto seria um dos últimos produtos de seu contrato com a First National. O sucesso estrondoso redirecionou sua carreira para os longas-metragens.

E ainda em 1921 as memórias que estão por todo lado em O Garoto ganham vida quando Chaplin visita a Inglaterra, para onde não tinha voltado desde 1912, quando viajou para os Estados Unidos. Foi quando reencontrou sua mãe, a quem mantinha sob cuidados em seu país natal, e a levou para morar com ele e o irmão Sidney nos EUA.

Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, YouTube

The Kid, 1921
Direção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Jackie Coogan, Edna Purviance.

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