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Minha coluna de hoje na CBN pode ser ouvida na internet. Falei da cerimônia borocoxô do Oscar; da estreia no Disney Plus de Cosmos, versão com Neil DeGrasse Tyson da série clássica com Carl Sagan; de Apocalypse Now – The Final Cut, a (até agora) versão definirva do clássico de Francis Ford Coppola, de graça na internet; e dos 80 anos do mitológico Cidadão Kane. Ouça aqui!

MANK
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 53

Tributo a um roteiro

Mank é sobre Herman J. Mankiewicz, o roteirista. Mas o filme é também sobre um roteiro: o que ele escreveu para Cidadão Kane (1941), obra seminal do cinema. Como fazer um filme sobre um sujeito preso a uma cama por causa de uma perna quebrada, ditando palavras a uma assistente?

Para a sorte do filme, o roteirista teve uma vida agitada, autodestrutiva (era um beberrão e apostador tão compulsivo que perdia milhares de dólares numa aposta sobre em quanto tempo uma folha cairia da árvore). Conviveu com poderosos, contrabandeando fatos e fofocas sobre eles para seu texto, uma biografia (mal) disfarçada de William Randolph Hearst, magnata da imprensa.

E ainda enfrentou Orson Welles, garoto-prodígio com uma presença (e ego) descomunal, para conseguir ter crédito no filme (para os registros: Mank escreveu o primeiro tratamento sozinho e boa parte das melhores ideias do filme são dele, mas Orson adicionou coisas depois). Além de tudo isso, tinha uma verve especial que o fazia vomitar em um jantar chique e emendar: “Não se preocupem: o vinho saiu junto com o peixe”.

David Fincher presta seu tributo ao cinema dos anos 1940 em geral e a Kane em particular tentando fazer com que seu filme pareça o máximo possível com uma produção daquela época, com uma direção de arte premiada com o Oscar (as filmagens do roteiro sendo escrito aconteceram no mesmo rancho em que o roteiro foi realmente elaborado). Mank emula especificamente Kane na fotografia em preto-e-branco que abusa da contraluz e da penumbra (de Erik Messerschimdt) e na música de Trent Reznor e Atticus Ross. E no roteiro que não segue uma estrutura de começo, meio e fim.

Mank também conta sua história através de um roteiro não linear, o que hoje é comum, mas era raro no começo dos anos 1940, quando Mankiewicz se atreveu a construir Kane assim. A diferença é que Kane é conduzido por depoimentos que levam aos flashbacks. Mank simplesmente vai e volta no tempo em 1939 e 1930 para mostrar elementos que marcaram a vida do roteirista e o teriam influenciado no roteiro.

Mank testemunhou a intimidade dos poderosos flutuando em sua realidade própria acima dos pequenos. Kane seria uma combinação entre Hearst, L.B. Mayer (dono da Metro) e o próprio Orson Welles.

Mas o filme reforça dois pontos em particular. Um é a atriz Marion Davies, amante de Hearst, para quem ele construiu San Simeon, uma propriedade nababesca que incluía até um zoológico. No filme, Mankiewicz vê como a esperta e engraçada Marion era forçada por Hearst, que financiava as produções que ela estrelava, a fazer melodramas. O paralelo dela em Kane é muito desfavorável e Mank, o personagem, repete que a personagem em seu roteiro não é Marion. Mank, o filme, tenta, assim, resgatar Marion Davies da imagem dela que Cidadão Kane, de propósito ou sem querer, cristalizou através dos tempos.

O outro ponto é político, a partir de uma eleição para o governo da Califórnia, onde o candidato de esquerda é sabotado por fake news: a edição de cinejornais encenados e com depoimentos inventados. Uma relação direta com o tempo em que vivemos, portanto.

Mank, então, faz mais sentido para quem viu Cidadão Kane? Certamente, e ainda mais para quem conhece as fofocas de bastidores – a contribuição de Mankiewicz em Kane foi obscurecida por anos a fio, mas foi resgatada por um artigo da crítica Pauline Kael republicada no livro Criado Kane e Outros Ensaios, base clara para este filme.

Para quem não viu Cidadão Kane, o que acontece? Não tenho como afirmar isso. É possível que a história de Mankiewicz, um bêbado na corda bamba, seja atraente. Mas aí só esse perfil de público pode dizer. O ideal, claro, é que todo mundo conhecesse bem Cidadão Kane. Independente de Mank.

Onde ver: Netflix

Mank, 2020.

Direção: David Fincher. Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey.

OS 7 DE CHICAGO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 52

Justiça tumultuada

Filmes de tribunal enfrentam sempre um dilema. O drama está sempre na palavra, o que há de imagem para mostrar além de pessoas falando? Aaron Sorkin, aqui diretor e roteirista, tenta resolver a questão basicamente com a montagem em Os 7 de Chicago.

O filme começa em alta voltagem, entrelaçando cenas reais de arquivo com outras com o elenco, cujos personagens vão sendo identificados por créditos na tela (alguns vão reclamar que o recurso é muito “televisivo”, mas não tem nada demais, Scorsese também já fez).

O tumulto que levou oito líderes diferentes de ativistas contra a guerra do Vietnã a serem julgados por incitarem a violência em Chicago durante a convenção do Partido Democrata não é mostrado no começo. Começamos a acompanhar a trama pelo julgamento e voltamos aos acontecimentos pelos depoimentos. Um recurso que também não é nenhuma novidade.

“Oito líderes”, você disse? Sim, oito estão sendo julgados. Sete representados pelo mesmo advogado e também Bobby Seale, dos Panteras Negras, que insiste que tem um advogado próprio. Ele não está presente, mas o juiz segue com o julgamento mesmo sem ele estar sendo legalmente defendido.

Esse caso é um dos mais emblemáticos julgamentos parciais e manipulados da história americana. O juiz ignora provas e depoimentos, pré-julga os réus desde o início, a procuradoria manipula a formação do júri. Sergio Moro ficaria orgulhoso.

Sorkin segue fazendo o que pode para que o filme não fique apenas no embate verbal. Ele ressalta as diferenças entre os réus (principalmente entre o certinho Tom Hayden vivido por Eddie Redmayne e o porralouca Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen). A narração dos acontecimentos passa a misturar freneticamente o interrogatório no tribunal, uma apresentação stand up de Abbie Hoffman, discussões privadas.

Esse vai e vem no tempo quase que é um reflexo narrativo dos ânimos exaltados e do tumulto nas ruas de que o filme trata. Às vezes é confuso em excesso, não consegue passar direito todas as informações. Mas é uma tentativa de sair da mesmice em que os filmes desse subgênero podem cair.

Esse quebra-cabeças sobre uma trama que parece mais simples do que como é mostrada tem, como trunfo, um poderoso elenco. Frank Langella, como um dos mais odiosos juízes do cinema; Joseph Gordon-Levitt, como o promotor que faz seu trabalho, mas tem sua ética; Mark Rylance, como o advogado de defesa; Michael Keaton, como um ex-procurador geral dos EUA. Atores sólidos, que mantêm o filme no prumo, nessas idas e vindas narrativas.

Onde ver: Netflix

The Trial of Chicago 7, 2020.
Direção: Aaron Sorkin. Elenco: Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Joseph Gordon Levitt, Frank Langella, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Michael Keaton, Caitlin Fitzgerald.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback

MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 50

Álbum de memórias

Minari é um daqueles filmes que precisam de bula? Faz diferença para o espectador saber que o que está na tela são memórias do diretor? Como é a recepção para o espectador que sabe disso e como é para aquele que vê como um filme contando uma história completamente inventada?

Uma parcela de quem não sabe do que está por trás do roteiro pode sair reclamando de mais um filme onde, na maior parte do tempo, “não acontece nada”. Quem conhece vai se emocionar mais com os pequenos acontecimentos na vida de uma família de imigrantes coreanos que se arrisca a tocar do zero uma fazenda no interior do Arkansas, nos EUA.

Não há nem uma grande questão com o preconceito. A quase totalidade dos conflitos está ali entre os integrantes da própria família: o pai que insiste na fazenda, a mãe que não compartilha desse sonho, o filho com problema no coração que não aceita bem a chegada da avó. A unidade da familia está em jogo, até mesmo quando chegam questões maiores, principalmente uma doença que vai desencadear outras situações.

O diretor-roteirista Lee Isaac Chung é americano no Colorado, filho de imigrantes coreanos. Ele consegue fazer um filme americano com um ponto de vista dos imigrantes que não parece uma “visão americana de um ponto de vista estrangeiro”. A maior parte falada em coreano, inclusive.

Há também uma excelente distribuição da atenção do filme entre os cinco membros da família. Isso, aliado a essa intensidade baixa na narrativa, lembra um pouco o ótimo As Coisas Simples da Vida (2000), de Edward Yang, co-produção Taiwan-Japão. Talvez, indo mais longe na ideia e no tempo, seja um herdeiro da obra cineasta japonês Yasujiro Ozu.

Não é uma credencial desprezível. Minari pode conquistar o espectador que se deixar levar por ele e pelos ótimos atores que dividem as alegrias e angústias dessa família. Como conquistou os votantes dessa temporada do Oscar, os quais o indicou em seis categorias, incluindo melhor filme e atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, a avó, atriz respeitadíssima na Coreia e com grandes chances de vencer).

Onde ver: cinemas

Minari, 2020.
Direção: Lee Isaac Chung. Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn.

MEU PAI
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 49

Labirinto mental

O título brasileiro verteu The Father para Meu Pai, mas isso não combina muito porque o ponto de vista do filme de Florian Zeller não é o da filha vivida por Olivia Colman. É inteiramente o do pai, Anthony, papel de um muito inspirado Anthony Hopkins.

Ele é o idoso londrino que vive sozinho em seu apartamento e resiste à ideia de ter uma cuidadora. A filha está tentando convencê-lo, já que vai se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo diariamente.

A segurança de Anthony consigo mesmo vai, no entanto, sendo colocada em xeque. De repente, o ex-marido da filha está no apartamento dizendo que o casal (que não se separou) é o dono do lugar e Anthony é que foi morar com eles. Ou a filha volta das compras, mas está completamente diferente. Ou situações já vividas parecem se repetir pouco depois.

Anthony estaria perdendo o juízo ou estariam tentando confundi-lo?

O filme é baseado em uma peça de sucesso de Florian Zeller, dramaturgo francês muito respeitado, que estreia na direção de cinema e que adaptou o texto com a ajuda de outro grande dramaturgo, o britânico (mas nascido em Portugal) Christopher Hampton. Para o papel, sua única opção era Anthony Hopkins. Tinha razão.

Filmes que tentam traduzir o que se passa na mente de seus protagonistas podem resultar numa grande jornada narrativa, e os bons exemplos vêm desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920). A ideia é fazer o espectador compartilhar ao máximo do sentimento de desconforto do personagem central.

A tática é bem empregada aqui, e uma chave importante para isso é Hopkins nos entregar um performance que consegue fácil a nossa empatia. Isso ajuda o espectador a passar por um trajeto que não é fácil: a deterioração da mente de um homem.

O filme poderia estabelecer um suspense, mas o objetivo não é estabelecer um jogo em que o espectador deve desvendar o que verdade ou mentira, se o protagonista está doente ou o estão enganando. Meu Pai deixa claro a confusão mental de Anthony quando, em sua primeira cena, mostra a chegada da filha Anne sem ser pela visão dele. É, aí, uma narrativa em terceira pessoa, a nossa visão objetiva do fato.

Por isso, quando Anne reaparece vivida por outra atriz, sabemos que é coisa da cabeça de Anthony, que estamos vendo isso pelos olhos dele. E que não deve ser essa a realidade.

Então, o que resta ao espectador é testemunhar, de dentro, a mente de um octogenário definhando. Como vemos a maior parte do filme por sua visão, sabemos pouco se o que estamos vendo é real (o relógio sempre perdido, o quadro na parede que some, o frango no jantar que se repete, uma sacola que muda de cor), a não ser pela âncora que são as cenas com a filha em que ele não está presente. Na maior parte do tempo, Meu Pai é um labirinto bem arquitetado, mas, talvez, sem final.

Onde ver: cinemas, Belas Artes a la Carte, Now, iTunes, Google Play, Sky Play (a partir de 28/4), Vivo Play (a partir de 28/4)

The Father, 2020.
Direção: Florian Zeller. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell.

BELA VINGANÇA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 33

Deboche atormentado

Uma pessoa consumida por uma missão autoimposta que se confunde entre vingança e justiça. Poderia ser o Batman, mas é Cassandra, a personagem de Carey Mulligan em Bela Vingança. O próprio nome da protagonista é bem pouco sutil: Cassandra, que previu e avisou todo mundo em Tróia da desgraça que viria com a guerra, mas ninguém deu ouvidos.

No filme, Cassie talvez seja, em si mesma, um aviso. Ela dedica sua vida a caçar predadores: homens nas baladas que tentam se aproveitar de mulheres bêbadas demais para saberem o que estão fazendo. Ela não se veste de morcego, nem tem apetrechos. Usa as armas que tem: planejamento e o uso de si mesmo como isca.

Um filme sobre um tema feminino, com uma mulher na criação e comando: Emerald Fennell é a diretora-roteirista que faz uma retumbante estreia nas duas funções em longas-metragens. Ela veio dos roteiros da série Killing Eve e seu rosto é conhecido principalmente como a Camilla Parker-Bowles de The Crown.

Emerald tempera seu tema pesado com algum deboche. Os homens são tão perigosos quanto patéticos. Cassie é tão atormentada quanto divertida. Isso acaba levando o filme a momentos meio forçados na verossimilhança.

Como uma cena em que a personagem ataca a pauladas o carro de um valentão do trânsito, que acaba fugindo. Todo valentão é, no fundo, um covarde? Psicologicamente pode até ser, mas o risco de ela se dar mal seria bem grande. Deu sorte, então? Nessa incursões contra o privilégio masculino, há quanto tempo ela vem tendo sorte?

E o próprio final, suprassumo do planejamento – digno, mais uma vez, de um Batman – exige bastante suspensão de descrença. Mas a simpatia pela personagem acaba compensando.

O trauma que redefiniu a vida de Cassie é algo que aconteceu a uma amiga, mas que o filme não revela de cara (também não é muito difícil de imaginar). Isso dá a Cassie um objetivo maior, contra o culpado maior.

Por outro lado, um interesse amoroso por um antigo colega que reaparece (um sujeito sensível, compreensivo, divertido e, ainda por cima, tem como profissão tratar de criancinhas doentes) a faz repensar sua missão. Dar a Cassie o vislumbre de um outro caminho a seguir é dramaticamente interessante e o filme se esforça (talvez demais) em ser convincente sobre essa opção.

Então às vezes o filme de Fennel canta muito a jogada, às vezes torna sua sátira um pouco esquemática demais. Mas a força de Bela Vingança (um título brasileiro bem ruim) é a performance de Carey Mulligan.

Ela guia o filme nesse equilíbrio difícil, de um real um pouco irreal, e é chocante que um crítico americano tenha escrito que a atriz era uma escolha inadequada por não ter o “physique du rôle” para o papel (“Ele basicamente disse que eu não era gostosa o suficiente”, reclamou Carey, com razão).

Mulligan, uma excelente atriz que já se provou diversas outras vezes, domina a cena plenamente. A combinação entre diretora e atriz mostra uma química que, por si só, sustenta o filme numa patamar alto. Não é sempre que essa química acontece e, aqui, ela foi muito bem aproveitada. É fundamental para que o filme permaneça firme na memória de quem o assiste muito depois da sessão.

Onde ver: cinemas

Promising Young Woman, 2020.
Direção: Emerald Fennel. Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie

O SOM DO SILÊNCIO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 30

Ilha acústica

Mergulhar no ponto de vista de seu personagem pode ser um desafio para um filme e, se der certo, um grande achado. No caso de O Som do Silêncio, Ruben, o baterista de heavy metal vivido por Riz Ahmed, tem uma perda brutal de audição.

O filme de Darius Mader (estreando nos longas de ficção; ele vem da área de documentários) faz isso: tenta fazer o espectador compartilhar com Ruben de sua agonia ao se perceber sem conseguir ouvir o mundo ao seu redor.

Então, o desenho de som é fundamental: ruídos, distorções, vozes abafadas. E, no momento em que o baterista vai ao encontro de alguma ajuda em uma comunidade de surdos, a ausência de legendas na linguagem de sinais é fundamental para que o espectador se sinta tão perdido e deslocado quanto o personagem.

Não por acaso, quando ele começa a entender essa comunicação, as legendas surgem na tela.

Esses recursos e a atuação admirável de Riz Ahmed fazem o espectador se envolver com a trama, que é despida de glamourizações e elementos de realce dramático (como uma trilha sonora que sobressai, por exemplo).

Paul Raci, como o líder da comunidade, atuando quase inteiramente em linguagem de sinais, também merece menção pela ótima atuação (ele não é surdo, mas seus pais eram).

Como Ruben vai se adaptar a essa “ilha” e como ele vai reencontrar o mundo no retorno. Nesse ponto, o filme se assemelha de maneira bastante curiosa a Náufrago, o ótimo filme que Robert Zemeckis dirigiu em 2000. Em um mundo de ouvintes, ser surdo torna você um solitário? O filme joga esse pergunta e deixa no ar para que reflitamos sobre ela.

Onde ver: Amazon Prime, Now, Google Play, Looke, Apple TV, Claro Vídeo

Sound of Metal, 2020.
Direção: Darius Marder. Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Almaric

PROCURANDO NEMO
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 23

Busca frenética

Quinto longa da Pixar, Procurando Nemo ainda não se aventura em dilemas mais ambiciosos os quais a produtora abordaria mais tarde (a morte, o sentido da vida, o fim do mundo, a velhice, o amadurecimento das emoções…). Ainda é um tema básico do amor incondicional entre pai e filho, superando barreiras muito maiores que eles (no caso, dois peixinhos de repente separados pela imensidão do oceano).

Por uma lado também dá para identificar aqui o fio narrativo comum a filmes de ação como Busca Imnplacável, com Liam Neeson, ou Comando para Matar, com Schwarzenegger: pais que enfrentam tudo para salvar o rebento sequestrado.

Mas a narrativa é irresistível, estabelecendo duas situações paralelas que vão se alternando: uma, o filho Nemo tentando uma fuga da prisão com seus novos amigos no aquário; outra, o pai superprotetor e traumatizado Marlin superando seus medos para atravessar o mar em busca do filho. As passagens de um cenário a outro são precisas e mantém a história girando no ponto exato.

Junto a ele, Dory, a peixinha que sofre com perda de memória recente. Como ela, outros coadjuvantes brilham, como a tartaruga hiponga Crush, o pelicano Nigel e o tubarão Bruce, que está no programa de comedores de peixes anônimos. Nemo, com grande visual e simplicidade na ambição, ainda mantém seu charme e encanto intactos.

Onde ver: DVD, blu-ray, Disney +

Finding Nemo, 2003.
Direção: Andrew Stanton. Co-direção: Lee Unkrich. Vozes na dublagem original: Albert Brooks, Ellen DeGeneres, Alexander Gould, Willem Dafoe, Allison Janney, Geoffrey Rush, Eric Bana. Vozes na dublagem brasileira: Julio Chaves, Maira Góes, Gustavo Pereira (dublagem de 2003), Caio Bismarck (redublagem de 2013), Marcio Simões, Guilherme Briggs

A BELA INTRIGANTE
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 22

À caça da obra-prima

O duelo entre um pintor e sua modelo em um filme que tenta decifrar a construção de uma obra artística – supostamente, a “caça” a uma obra-prima. Mas em quatro horas de duração? Bem, aliado às conversas sobre o papel de cada um no processo, da possibilidade da modelo ser entendida também como autora, do trabalho duro (exaustivo, bem pouco sexy), o filme usa como trunfo colocar Emmanuelle Béart, uma das atrizes mais lindas do mundo naquela época, nua por mais ou menos três dessas quatro horas. A discussão elevada tem o apoio incontornável desse elemento mundano.

Onde ver: DVD (na caixa A Arte de Jacques Rivette)

La Belle Noiseuse, 1991.
Direção: Jacques Rivette. Elenco: Michel Piccoli, Emmanuelle Béart, Jane Birkin.

RELATOS DO MUNDO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 21

Duelo entre humanismo e incivilização

O faroeste como gênero cinematográfico percorreu uma longa travessia desde os primórdios do cinema (com O Grande Roubo de Trem, 1903) até hoje. O western passou a refletir sobre si mesmo, se questionou, tentou combinar seu lado épico com um traço mais humano e socialmente respeitável.

Este Relatos do Mundo é um reflexo disso. Sua história-base é a do Capitão Kidd, ex-combatente da guerra civil americana que faz uma jornada perigosa para levar ao lar Johanna, uma garotinha que ele encontra perdida. Ela, porém, foi criada desde pequenininha pela tribo de índios que a sequestrou, nem fala uma palavra sequer de inglês.

O paralelo automático para o cinéfilo é, claro, Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Ele próprio um filme que já trazia o faroeste em bases mais complexas. O protagonista vivido por John Wayne passa o filme no encalço dos nativos que sequestraram sua sobrinha. A busca leva anos e, quando ele a encontra, ela já se tornou uma comanche.

Mas Wayne é tão racista que diz abertamente que prefere ver a sobrinha morta. Ele não é um herói, ou, pelo menos, não nesses momentos. Já iam longe os dias inocentes em que ele ia derrubando índios como dominós com seus tiros.

Tom Hanks não é John Wayne. Sua persona cinematográfica está mais para James Stewart ou Gary Cooper. Ao encontrar a menina (a ótima alemã Helena Zengel, 12 anos), ele não trata automaticamente o povo kiowa como inimigo. Ele tenta a tolerância, busca compreender a menina e a língua dela, enquanto ela tenta compreender a dele.

O personagem de Hanks é um homem mais esclarecido que a média da região: seu trabalho é viajar de cidade em cidade lendo jornais para uma plateia que não sabe ler, não tem tempo ou dinheiro para comprar um exemplar. Ele transporta notícias, novidades da ciência, do clima, da política e histórias extraordinárias. É um humanista.

No perigoso trajeto, Kidd e Johanna encontram todo tipo de preconceitos e intolerâncias. É um duelo entre a civilização e um Estados Unidos ainda incivilizado. Uma batalha que ainda perdura e que vivenciamos hoje mesmo no Brasil.

Em um momento, quando os Kiowa aparecem, não são nem como adversários, nem como amigos irrealistas naquele tempo. É uma aparição meio fantasmagórica, após uma tempestade de areia. Figuras misteriosas, ainda indecifráveis para aquele homem, mas não inimigos imediatos. Ainda assim, uma mistura de medo e fascínio.

A direção de Paul Greengrass vai na contramão de suas narrativas nervosas da série Jason Bourne, se adequando à trama. Na encenação, faz falta que o personagem de Hanks se esforce um pouco mais no diálogo, tentando se explicar por gestos e não apenas falando uma língua que a garota não entende. Significa que, no começo, ele não está se importando muito com essa comunicação? Pode ser.

Ainda com Rastros de Ódio como uma espécie de espelho reverso, Relatos do Mundo evoca diretamente o filme de John Ford ao citar o famoso plano da imagem de John Wayne sozinho do lado de fora da casa, emoldurado pela porta. Mas aqui, usado para ressaltar a diferença entre os dois filmes, os dois protagonistas, as duas visões de mundo.

Onde ver: Netflix

News of the World, 2020.
Direção: Paul Greengrass. Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Mare Winningham. 

20 – E AGORA, AONDE VAMOS? (Et Maintenant on Va Où?)

Em uma comunidade assombrada pela violência, onde cristãos e muçulmanos estão sempre à beira de um conflito, as mulheres tomam para si o desafio constante de manter a paz no local. E a diretora-roteirista-atriz libanesa conta isso como um musical!
França/ Líbano/ Egito/ Itália/ Catar. Direção: Nadine Labaki. Roteiro: Rodney El Haddad, Bassam Habib, Jihad Hojeily e Nadine Labaki, com colaboração de Thomas Bidegain. Elenco: Nadine Labaki, Yvonne Maalouf, Antoinette Noufaily.

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19 – ROCK BRASÍLIA – ERA DE OURO

Em 1988, o documentarista paraibano Vladimir Carvalho registrou imagens e fez entrevistas com bandas de Brasília. Sabia que tinha algo ali, embora não muito bem o quê. Mais de 20 anos depois, partiu do material para contar não só a história do rock na capital, mas da própria Brasília, a ditadura e a redemocratização. Leia a minha crítica.
Brasil. Direção e roteiro: Vladimir Carvalho.

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18 – A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life)

Existencial e com passagens abstratas, o filme de Terrence Malick é um desafio para o espectador. É uma narrativa com uma boa dose poética sobre conflitos familiares, entre o caminho da natureza e o caminho da graça, representados por pai e mãe “brigando” dentro do filho. Leia a minha crítica.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Terrence Malick. Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Fiona Shaw.

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17 – GIGANTES DE AÇO (Real Steel)

Lutador que nunca teve brilho ganha a oportunidade de enfrentar o campeão e pode, enfim, mostrar que é alguém. Rocky, um Lutador? Não, Gigantes de Aço: uma afetuosa e muito bem contada fábula mezzo futurista sobre um reencontro emocional de pai e filho através de um robô lutador criado para ser um sparring, mas com “alma” de vencedor.
Estados Unidos/ Índia. Direção: Shawn Levy. Roteiro: John Gatins, com argumento de Dan Gilroy e Jeremy Leven, baseado em conto de Richard Matheson. Elenco: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie.

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16 – AS CANÇÕES

Eduardo Coutinho firme na sua “fórmula” de documentários minimalistas, mas que conseguem extrair a alma dos entrevistados: anônimos, que simplesmente entravam e contavam suas histórias a partir de canções que as marcaram.
Brasil. Direção: Eduardo Coutinho.

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15 – CAPITÃO AMÉRICA, O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America, First Avenger)

O ainda nascente universo cinematográfico compartilhado da Marvel volta no tempo para contar a origem do Capitão América. A base são os quadrinhos originais de Jack Kirby e Joe Simon, lançadas em 1941, em plena II Guerra Mundial. O diretor, Joe Johnston, do querido Rocketeer (1991), foi bem adequado e a ambientação nos anos 1940 é uma delícia. O gran finale acelerou em direção ao primeiro Vingadores.
Estados Unidos. Direção: Joe Johnston. Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos quadrinhos de Joe Simon e Jack Kirby. Elenco: Chris Evans, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Hugo Weaving, Dominic Cooper, Stanley Tucci, Samuel L. Jackson, Toby Jones.

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14 – PINA (Pina)

Wim Wenders deleita o espectador com um tributo à coreógrafa Pina Bausch. Um projeto de 20 anos que apostou muito no visual e foi exibido em 3D.
Alemanha/ França/ Reino Unido/ Estados Unidos. Direção e roteiro: Wim Wenders.

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13 – O PALHAÇO

A antítese entre rir e chorar está na composição de Selton Mello de um palhaço em crise de identidade. Diretor, roteirista e protagonista, ele faz uma bela homenagem aos cômicos clássicos, com participações muito especial de Moacyr Franco e de Jorge Loredo. Sem falar na reverência a Paulo José. Leia a minha crítica.
Brasil. Direção: Selton Mello. Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato. Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Moacyr Franco, Jorge Loredo, Fabiana Karla, Jackson Antunes, Ferrugem.

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12 – PLANETA DOS MACACOS – A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes)

O grande clássico de 1968 ganhou um prelúdio que vai no exato ponto dramático, espelha a nascente consciência de um macaco com um humano que sofre de Alzheimer e usa de maneira exemplar a tecnologia da captura de movimento. Foi uma volta bem por cima. Leia a minha crítica.
Estados Unidos. Direção: Rupert Wyatt. Roteiro: Rick Jaffa e Amanda Silver, baseado na premissa do romance de Pierre Boulle. Elenco: James Franco, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton. Captura de movimento e voz: Andy Serkis.

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11 – ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA (Bir Zamanlar Anadolu’da)

Uma noite de trabalho duro de um grupo com policiais, um procurador e um médico acompanhando um homem que deve apontar onde enterrou o sujeito que ele matou, mas não lembra direito onde foi. Durante essas horas, a história de vida de alguns deles, algumas tragédias, o absurdo da burocracia na rotina da profissão.
Turquia/ Bósnia e Herzegovina. Direção: Nuri Bilge Ceylan. Roteiro: Ercan Kesal, Ebru Ceylan e Nuri Bilge Ceylan. Elenco: Muhammet Uzuner, Taner Birsel, Yilmaz Erdogan, Firat Tanis.

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10 – HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – PARTE 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2)

O capítulo final da saga dos bruxos adolescentes é um grande clímax. Em ritmo acelerado, é o oitavo filme da série (a parte 2 diz respeito a ser a metade final da adaptação do último livro) mostrando os mocinhos em busca dos elementos para derrotar o grande vilão e a grande batalha final. Há espaço para algum rebuscamento visual e para atenção a um personagem que se revela fundamental e ressignificador de toda a saga: Severo Snape. Leia a minha crítica.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: David Yates. Roteiro: Steve Kloves, baseado no livro de J.K. Rowling. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Helena Bonham Carter, Tom Felton, Bonnie Wright, Evanna Lynch, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Julie Walters, Mark Williams, James Phelps, Oliver Phelps, Jim Broadbent, Jason Isaacs, David Thewlis, John Hurt, Emma Thompson, Kelly Macdonald, Gemma Jones, Helen McCrory, Ciarán Hinds, Warwick Davis, Gary Oldman, Geraldine Sommerville, Adrian Rawlins, Michael Gambon.

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9 – A PELE QUE HABITO (La Piel que Habito)

Almodóvar namora o suspense com essa história de um brilhante cirurgião plástico que cria uma pele artificial e usa isso para remodelar uma pessoa que mantém prisioneira. Uma trama de identidade complexa, com um quê de Frankenstein, Pigmalião e Um Corpo que Cai.
Espanha. Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar e Augustin Almodóvar, baseado em Thierry Jonquet. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.

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8 – X-MEN – PRIMEIRA CLASSE (X – First Class)

A franquia dos mutantes da Marvel vinha meio por baixo depois do terceiro X-Men e do primeiro filme solo do Wolverine. Uma renovação apareceu com este filme-prelúdio, que usou bem demais a ambientação nos anos 1960. Música e tela dividida no estilo da época, além de um entrelaçamento com um fato histórico: a crise dos mísseis em Cuba. A cena de Magneto (Michael Fassbender) caçando nazistas na Argentina e o assassinato com uma moeda já estão no canône dos filmes de super-heróis. Leia a minha crítica.
Estados Unidos. Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaughn, baseado em argumento de Sheldon Turner e Bryan Singer, baseado em quadrinhos criados por Stan Lee e Jack Kirby. Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, January Jones, Rose Byrne, Hugh Jackman, Rebecca Romijn.

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7 – MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible Ghost Protocol)

Com Tom Cruise como produtor de si mesmo, a série quase sempre deixou de ser a aventura de um grupo para ser a de um super protagonista rodeado de seus coadjuvantes. Este quarto filme é onde isso menos acontece, e também o que melhor mostra que seus heróis também sentem medo (o que faz o espectador ter ainda maior empatia por eles). Não por acaso é o melhor da série. Com o grande achado de escalar Brad Bird para a direção (após animações como Os Incríveis), o filme é emocionante e divertido do início ao fim.
Estados Unidos. Direção: Brad Bird. Roteiro: Josh Appelbaum e André Nemec, baseado na série de TV de Bruce Geller. Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Paula Patton, Michael Nyqvist, Léa Seydoux, Tom Wilkinson, Ving Rhames.

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6 – POLISSIA (Polisse)

O cotidiano de uma unidade da polícia francesa que enfrenta abusos a jovens e crianças. A diretora-roteirista-atriz Maïwenn entrelaça os dramas dos integrantes da equipe policial, da repórter fotográfica que registra esses dias, além, claro, dos casos retratados.
França Direção: Maïwenn. Roteiro: Maïwenn e Emmanuelle Bercot. Elenco: Karin Viard, JoeyStarr, Marina Fois, Maïwenn.

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5 – INTOCÁVEIS (Intouchables)

A história real de uma amizade improvável entre um tetraplégico rico e seu cuidador imigrante virou este filme irresistível. Driblando o melodrama com bastante alto-astral, revelou o talento e carisma de Omar Sy.
França. Direção e roteiro: Olivier Nakache e Éric Toledano, baseado no relato autobiográfico de Philippe Pozzo di Borgo. Elenco: Omar Sy, François Cluzet, Anne Le Ny.

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4 – A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo)

Scorsese fazendo um filme infantil parecia algo completamente fora de propósito. Mas ninguém duvida que essa é uma história para crianças que parece ter sido feita também para ele: a trama do garotinho que mora escondido no relógio de uma estação de trem se entrelaça à história real do ostracismo do pioneiro do cinema George Méliès, reencontrado anos depois de ser empurrado para o desaparecimento, anônimo, à frente de uma lojinha de brinquedos numa estação. Scorsese fez em 3D, através do que colocou no formato espertamente os primeiros curtas do cinema, dos Lumière e de Méliès, apresentando-os a uma nova geração.
Reino Unido/ Estados Unidos/ França. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan, baseado no livro de Brian Selznick. Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Jude Law, Ray Winstone, Richard Griffiths.

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3 – O ARTISTA (The Artist)

Um filme mudo para falar do fim do cinema mudo. No foco, duas histórias cruzadas: o do astro que entra em decadência por não aceitar a mudança, e a da garota cujo estrelato nasce com os diálogos sonoros nos filmes. Mimetizando com brilhantismo a narrativa do fim dos anos 1920, ainda usa o som da melhor maneira metalinguística numa cena capital e faz de ser mudo a razão de ser do próprio filme. Leia a minha crítica.
França/ Bélgica/ Estados Unidos. Direção e roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Malcolm McDowell.

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2 – MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris)

Woody Allen faz seu protagonista viajar no tempo para contracenar com os grandes artistas que povoavam a capital francesa nos anos 1920. O cineasta despeja litros de admiração bem humorada por figuras como Salvador Dalí, Ernest Hemingway, o casal Zelda e F. Scott. Fitzgerald, Man Ray, Cole Porter, Picasso, Luís Buñuel, envolvidos numa atmosfera de romance que a cidade-luz provoca em todos os estrangeiros. Leia a minha crítica.
Espanha/ Estados Unidos/ França. Direção e roteiro: Woody Allen. Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Tom Hiddleston, Alison Pill, Kathy Bates, Adrien Brody, Corey Stoll, Michael Sheen, Léa Seydoux, Carla Bruni.

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1 – A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader az Simin)

Asghar Farhadi começa seu filme com um casal de frente para um juiz que não se vê. Falam diretamente para a câmera portanto, o juiz somos nós, os espectadores. O dilema: a mulher que se separar porque o marido não quer se mudar com ela para fora do Irã; ele não quer sair do país, porque o pai doente depende dele; a mulher não pode ir sozinha porque o marido ficaria com a guarda da filha do casal, que só poderia sair do país com o consentimento dele. No meio desse impasse, o marido é acusado pela a cuidadora do pai idoso de ter sido violento, causando a morte do bebê que ela esperava. Um caso policial no meio de um drama pessoal, com a filha do casal, vértice da situação mesmo não querendo, testemunhando tudo num papel ingrato de juíza dos próprios pais. Um fenomenal trabalho de narrativa, com informações dadas, suprimidas e adiadas, extraindo o melhor de certezas e dúvidas.
Irã/ França/ Austrália. Direção e roteiro: Asghar Farhadi. Elenco: Payman Maadi, Leila Hatami, Sarina Farhadi, Sareh Bayat, Shahab Hosseini.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente. Esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

Meu comentário na CBN nesta sexta foi sobre a estreia de Druk Mais uma Rodada, de Tomas Vinterberg, com duas indicações importantes ao Oscar, dicas do Festival Sesc Melhores Filmes, online e gratuito e com homenagem a Marcelia Cartaxo, a volta da novela O Salvador da Pátria no canal Viva, e a estreia de Radioactive, cinebiografia de Marie Curie na Netflix. Ouça aqui!

(foto: Mads Mikkelsen em Druk Mais uma Rodada)

O MIADO DO GATO
⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 20

Reconstituição da fofoca

“The Cat’s Meow!”. A primeira vez que vi essa expressão foi em Cantando na Chuva, no número “All I do is dream of you”. Significa algo como “é o máximo” (a tradução literal do título brasileiro é engraçada, mas não faz sentido nenhum).

Peter Bogdanovich tenta captar o espírito da Hollywood dos anos 1920 nessa adaptação de uma peça que imagina os fatos em torno de um mistério real: a morte do produtor Thomas Ince, em 1924. Não houve autópsia, a causa da morte não foi determinada, ninguém foi interrogado.

Bogdanovich ouviu de Orson Welles a fofoca: Ince teria sido morto por William Randolph Hearst, poderosíssimo magnata da imprensa que inspirou Cidadão Kane, clássico dirigido por Welles. Hearst reuniu um grupo para um passeio em seu iate.

Lá, descobriu a relação entre sua amante, a atriz Marion Davies, e Charles Chaplin – e teria matado Ince por engano, pensando que fosse Chaplin.

O filme, que completa 20 anos este ano, avisa no começo que se trata do “boato mais ouvido”. E através dele, o diretor traça seus retratos de uma nova realeza criada por uma arte naquele momento tão nova como o cinema. É difícil ver Eddie Izzard como Chaplin, e Edward Herrmann parece muito frágil como Hearst (estamos acostumados à imagem mais dura e ameaçadora do magnata, disfarçada em Cidadão Kane ou direta no recente Mank).

Mas Kirsten Dunst está bem como Marion Davies, a amante fiel de Hearst, que o amava de verdade. Se tudo aconteceu ou não, esse Olimpo cinematográfico foi real e é nele que o diretor estava mais interessado.

Onde ver: DVD

The Cat’s Meow, 2001.
Direção: Peter Bogdanovich. Elenco: Kirsten Dunst, Eddie Izzard, Edward Herrmann, Cary Elwes, Joanna Lumley, Jennifer Tilly

ÚLTIMA HORA
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 19

Tinta de máquina de escrever nas veias

Ben Hecht e Charles MacArthur escreveram a peça The Front Page, de 1928, com base em suas experiências como repórteres em Chicago. Levaram ao palco um espírito de vale tudo pela notícia, em que puxar o tapete dos outros era só um dos talentos dos melhores no ofício.

A trama se passa quase toda na sala de imprensa de um complexo de tribunal e cadeia em Chicago, onde repórteres de vários jornais passam tempo à espera da execução de um suposto revolucionário comunista condenado por assassinato. Walter Burns (Adolphe Menjou), um editor implacável, faz de tudo para que seu melhor repórter, Hildy Johnson (Pat O’Brien) cubra a notícia. Mas Hildy está largando tudo para se casar.

Porém, ele tem tinta de máquina de escrever correndo nas veias, e ela fala mais alto quando o condenado escapa no meio da noite e pode, de quebra, expor um escândalo de corrupção. Cheia de personagens entrando e saindo de cena, e metralhando diálogos, a peça acabou levada às telas nos primeiros anos do cinema falado. Numa época de muitos diálogos empolados e “importantes”, Última Hora, que completa 90 anos este ano, ajudou a consolidar o coloquialismo de falas espirituosas.

Lewis Milestone era um diretor que não se dobrava à tirania do som naqueles anos (quando o protagonismo dos microfones restringia o movimento das câmeras). Já tinha mostrado isso em Sem Novidades no Front, no ano anterior. Aqui, há vários planos de encher os olhos, como o plano-sequência da caminhada de Burns pela redação do jornal, que começa com o editor sentado em sua mesa, visto através do vidro (mas não sabemos disso até a câmera se afastar), seguido por outros dois na gráfica (um com a câmera baixa, outro com o personagem visto por trás das máquinas).

O diretor até usa o som de modo bem criativo, quando Burns se apoia numa máquina de escrever para soltar um sonoro “filho da puta” que se torna inaudível pelo barulho da máquina na hora exata.

The Front Page gerou outras três adaptações. Jejum de Amor (1940), antológica, é dirigida por Howard Hawks e adiciona romance ao transformar Hildy em personagem feminino (Cary Grant e Rosalind Russell estrelam o filme). A Primeira Página (1974) é o tributo de Billy Wilder, com Walter Matthau e Jack Lemmon. E Troca de Maridos (1988), não tão bom quanto os outros, mas ainda interessante, de novo muda o sexo de um dos personagens (Burt Reynolds, Kathleen Turner e Christopher Reeve estrelam).

O original, menos conhecido hoje que as versões de Hawks e Wilder, mantém seu frescor, humor e agilidade, que escondem um pouco a importância que ele teve na naturalização dos diálogos no cinema americano e no surgimento da comédia maluca (ou screwball comedy) na década.

Onde ver: YouTube

The Front Page, 1931.
Direção: Lewis Milestone. Elenco: Adolphe Menjou, Pat O’Brien, Mary Brian, Edward Everett Horton

NOMADLAND
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 18

Ventos neo-realistas

O filme que ganhou o Globo de Ouro, o Bafta e é aposta forte para o Oscar é uma visão atenta e generosa sobre pessoas que são obrigadas ou que de alguma maneira optam viver em trailers nas estradas e de subempregos. Frances McDormand, excelente como sempre, é a protagonista, que contracena com diversos coadjuvantes que interpretam a si mesmos.

Com isso, a diretora Chloé Zhao reforça a pegada de realismo social e de observação sobre uma realidade econômica que muita gente prefere colocar pra baixo do tapete. No caso de Fern, a personagem de Frances McDormand, ela não foi levada a essa situação só por ter perdido o emprego: ela perdeu uma cidade inteira.

O local onde morava virou uma cidade-fantasma depois que a fábrica onde todos trabalhavam foi fechada. Se tornou uma nômade e descobriu que existe uma comunidade de nômades que se apoiam durante a jornada errante. Frances mergulhou na personagem, dormindo na van e trabalhando nas funções em que a personagem trabalha.

Então, muito do filme tem esse caráter de documentário, dedicado a mostrar a rotina desse modo de vida, as relações que se criam, os encontros e desencontros. Essa urgência em retratar uma questão atual, com uma atriz profissional de grande gabarito contracenando com não-atores que fazem parte do meio retratado, aproxima o filme de movimentos neo-realistas, como o iraniano dos anos 1990 ou, indo mais longe no tempo, o italiano dos anos 1940 e 1950.

A trama, por sua vez, não apresenta uma história com começo, meio e fim. Nomadland é um filme que apresenta uma situação e suas particularidades. Como seus personagens, vai um pouco com o vento. E, com isso, sem apelar para o melodrama, consegue momentos muito humanos e tocantes.

Onde ver: cinemas

Nomadland, 2020.
Direção: Chloé Zhao. Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Swankie.

TUDO ENTRE NÓS
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 17

Compêndio rememorado

Amigos de adolescência, dois dos maiores compositores da música popular e líderes da maior banda de rock da história, John Lennon e Paul McCartney estavam rompidos e afastados desde o fim dos Beatles em 1970. Em 1976, Lennon havia se recolhido à vida familiar, depois de deixar expirar o contrato com a gravadora. Paul, por sua vez, estava vivendo grande sucesso liderando os Wings. E aí, um dia, Paul estava em Nova York e foi ao edifício Dakota visitar o velho parceiro.

Esse telefilme do canal musical VH1 imagina como teria sido esse encontro: os dois ex-beatles passando a tarde juntos, expondo suas dores, acertando suas contas, meditando, fumando um baseado, rememorando momentos felizes, tocando uma musiquinha juntos. A visita realmente aconteceu, mas o conteúdo do encontro é imaginação do roteiro (menos a quase aparição surpresa no Saturday Night Live, que quase aconteceu mesmo). Também não foi o primeiro reencontro da dupla após o fim dos Beatles.

Essa licença poética ajuda a dar mais significado ao fato da visita. O que aconteceu ali é um compêndio rememorado de elementos da vida dos dois amigos e dos Beatles: quase tudo é, de alguma maneira, citado ou discutido (embora sem músicas do grupo na trilha).

A direção ficou a cargo de um velho conhecido dos Beatles: Michael Lindsay-Hogg, diretor de alguns clipes do grupo e do documentário Let it Be (1970). É um retrato simpático e honesto, bem interpretado (especialmente por Aidan Quinn como Paul McCartney). Focado basicamente em uma conversa entre dois amigos com muita roupa suja para lavar.

Onde ver: YouTube

Two of Us, 2000.
Direção: Michael Lindsay-Hogg. Elenco: Aidan Quinn, Jared Harris, Neil Foster.

LOUCOS DE PAIXÃO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 16

Sexo, desencanto e depressão

Fez bastante barulho o encontro sexual entre Susan Sarandon (a garçonete mais velha e desencantada) e James Spader (o rico deprimido mais jovem). O filme não vai muito além de um romance entre pessoas bem diferentes, que precisam aceitar e superar isso e não resistem à atração, mesmo com tanto contra.

Mas ele narra bem essa história e toca um pouco nas questões de preconceito e aceitação social de um casal como esse. Cada personagem tem seus demônios particulares e isso é bom para o drama. O final meio conto-de-fadas destoa (o original foi mudado após exibições-teste).

Mas Susan é um mulheraço, claro: a cena de sexo ardente deu o que falar na época.

Onde ver: DVD

White Palace, 1990.
Direção: Luis Mandoki. Elenco: Susan Sarandon, James Spader, Jason Alexander, Kathy Bates, Eileen Brennan.

O REVERSO DA FORTUNA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 15

Navegando num mistério real

Adaptar uma história real em que o tema central é um julgamento por assassinato em que não se sabe bem o que é verdade e o que é mentira não é fácil. Ainda mais quando a escolha é colocar a narração na boca da possível vítima, em coma, com ela precisando manter o mistério.

Ela, no caso, é a riquíssima esposa vivida por Glenn Close. O acusado, o marido, um aristocrata arrogante vivido por Jeremy Irons (que ganhou o Oscar), condenado no primeiro julgamento e inocentado no segundo. Papel difícil de Jeremy Irons, que rendeu um Oscar ao ator.

Navegando entre as estratégias da defesa e flashbacks, o filme do diretor iraniano é inteligente e alterna com destreza o cotidiano plebeu e algo caótico do advogado (o filme é baseado no livro dele sobre o caso) e a vida (e não vida) de nariz empinado dos ricaços.

Onde ver: DVD

Reversal of Fortune, 1990.
Direção: Barbet Schroeder. Elenco: Jeremy Irons, Glenn Close, Ron Silver, Annabella Sciorra, Christine Baranski, Julie Hagerty

Na minha coluna da CBN João Pessoa desta sexta, falei sobre a estreia de Meu Pai, com Anthony Hopkins, o festival de documentários É Tudo Verdade (online e gratuito) e sobre a obra da cineasta belga Chantal Akerman, agora disponível restaurada no streaming. Ouça aqui!

(Foto: Olivia Colman e Anthony Hopkins, em Meu Pai)

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