BELA VINGANÇA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 33

Deboche atormentado

Uma pessoa consumida por uma missão autoimposta que se confunde entre vingança e justiça. Poderia ser o Batman, mas é Cassandra, a personagem de Carey Mulligan em Bela Vingança. O próprio nome da protagonista é bem pouco sutil: Cassandra, que previu e avisou todo mundo em Tróia da desgraça que viria com a guerra, mas ninguém deu ouvidos.

No filme, Cassie talvez seja, em si mesma, um aviso. Ela dedica sua vida a caçar predadores: homens nas baladas que tentam se aproveitar de mulheres bêbadas demais para saberem o que estão fazendo. Ela não se veste de morcego, nem tem apetrechos. Usa as armas que tem: planejamento e o uso de si mesmo como isca.

Um filme sobre um tema feminino, com uma mulher na criação e comando: Emerald Fennell é a diretora-roteirista que faz uma retumbante estreia nas duas funções em longas-metragens. Ela veio dos roteiros da série Killing Eve e seu rosto é conhecido principalmente como a Camilla Parker-Bowles de The Crown.

Emerald tempera seu tema pesado com algum deboche. Os homens são tão perigosos quanto patéticos. Cassie é tão atormentada quanto divertida. Isso acaba levando o filme a momentos meio forçados na verossimilhança.

Como uma cena em que a personagem ataca a pauladas o carro de um valentão do trânsito, que acaba fugindo. Todo valentão é, no fundo, um covarde? Psicologicamente pode até ser, mas o risco de ela se dar mal seria bem grande. Deu sorte, então? Nessa incursões contra o privilégio masculino, há quanto tempo ela vem tendo sorte?

E o próprio final, suprassumo do planejamento – digno, mais uma vez, de um Batman – exige bastante suspensão de descrença. Mas a simpatia pela personagem acaba compensando.

O trauma que redefiniu a vida de Cassie é algo que aconteceu a uma amiga, mas que o filme não revela de cara (também não é muito difícil de imaginar). Isso dá a Cassie um objetivo maior, contra o culpado maior.

Por outro lado, um interesse amoroso por um antigo colega que reaparece (um sujeito sensível, compreensivo, divertido e, ainda por cima, tem como profissão tratar de criancinhas doentes) a faz repensar sua missão. Dar a Cassie o vislumbre de um outro caminho a seguir é dramaticamente interessante e o filme se esforça (talvez demais) em ser convincente sobre essa opção.

Então às vezes o filme de Fennel canta muito a jogada, às vezes torna sua sátira um pouco esquemática demais. Mas a força de Bela Vingança (um título brasileiro bem ruim) é a performance de Carey Mulligan.

Ela guia o filme nesse equilíbrio difícil, de um real um pouco irreal, e é chocante que um crítico americano tenha escrito que a atriz era uma escolha inadequada por não ter o “physique du rôle” para o papel (“Ele basicamente disse que eu não era gostosa o suficiente”, reclamou Carey, com razão).

Mulligan, uma excelente atriz que já se provou diversas outras vezes, domina a cena plenamente. A combinação entre diretora e atriz mostra uma química que, por si só, sustenta o filme numa patamar alto. Não é sempre que essa química acontece e, aqui, ela foi muito bem aproveitada. É fundamental para que o filme permaneça firme na memória de quem o assiste muito depois da sessão.

Onde ver: cinemas

Promising Young Woman, 2020.
Direção: Emerald Fennel. Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie