JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback