MANK
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 53

Tributo a um roteiro

Mank é sobre Herman J. Mankiewicz, o roteirista. Mas o filme é também sobre um roteiro: o que ele escreveu para Cidadão Kane (1941), obra seminal do cinema. Como fazer um filme sobre um sujeito preso a uma cama por causa de uma perna quebrada, ditando palavras a uma assistente?

Para a sorte do filme, o roteirista teve uma vida agitada, autodestrutiva (era um beberrão e apostador tão compulsivo que perdia milhares de dólares numa aposta sobre em quanto tempo uma folha cairia da árvore). Conviveu com poderosos, contrabandeando fatos e fofocas sobre eles para seu texto, uma biografia (mal) disfarçada de William Randolph Hearst, magnata da imprensa.

E ainda enfrentou Orson Welles, garoto-prodígio com uma presença (e ego) descomunal, para conseguir ter crédito no filme (para os registros: Mank escreveu o primeiro tratamento sozinho e boa parte das melhores ideias do filme são dele, mas Orson adicionou coisas depois). Além de tudo isso, tinha uma verve especial que o fazia vomitar em um jantar chique e emendar: “Não se preocupem: o vinho saiu junto com o peixe”.

David Fincher presta seu tributo ao cinema dos anos 1940 em geral e a Kane em particular tentando fazer com que seu filme pareça o máximo possível com uma produção daquela época, com uma direção de arte premiada com o Oscar (as filmagens do roteiro sendo escrito aconteceram no mesmo rancho em que o roteiro foi realmente elaborado). Mank emula especificamente Kane na fotografia em preto-e-branco que abusa da contraluz e da penumbra (de Erik Messerschimdt) e na música de Trent Reznor e Atticus Ross. E no roteiro que não segue uma estrutura de começo, meio e fim.

Mank também conta sua história através de um roteiro não linear, o que hoje é comum, mas era raro no começo dos anos 1940, quando Mankiewicz se atreveu a construir Kane assim. A diferença é que Kane é conduzido por depoimentos que levam aos flashbacks. Mank simplesmente vai e volta no tempo em 1939 e 1930 para mostrar elementos que marcaram a vida do roteirista e o teriam influenciado no roteiro.

Mank testemunhou a intimidade dos poderosos flutuando em sua realidade própria acima dos pequenos. Kane seria uma combinação entre Hearst, L.B. Mayer (dono da Metro) e o próprio Orson Welles.

Mas o filme reforça dois pontos em particular. Um é a atriz Marion Davies, amante de Hearst, para quem ele construiu San Simeon, uma propriedade nababesca que incluía até um zoológico. No filme, Mankiewicz vê como a esperta e engraçada Marion era forçada por Hearst, que financiava as produções que ela estrelava, a fazer melodramas. O paralelo dela em Kane é muito desfavorável e Mank, o personagem, repete que a personagem em seu roteiro não é Marion. Mank, o filme, tenta, assim, resgatar Marion Davies da imagem dela que Cidadão Kane, de propósito ou sem querer, cristalizou através dos tempos.

O outro ponto é político, a partir de uma eleição para o governo da Califórnia, onde o candidato de esquerda é sabotado por fake news: a edição de cinejornais encenados e com depoimentos inventados. Uma relação direta com o tempo em que vivemos, portanto.

Mank, então, faz mais sentido para quem viu Cidadão Kane? Certamente, e ainda mais para quem conhece as fofocas de bastidores – a contribuição de Mankiewicz em Kane foi obscurecida por anos a fio, mas foi resgatada por um artigo da crítica Pauline Kael republicada no livro Criado Kane e Outros Ensaios, base clara para este filme.

Para quem não viu Cidadão Kane, o que acontece? Não tenho como afirmar isso. É possível que a história de Mankiewicz, um bêbado na corda bamba, seja atraente. Mas aí só esse perfil de público pode dizer. O ideal, claro, é que todo mundo conhecesse bem Cidadão Kane. Independente de Mank.

Onde ver: Netflix

Mank, 2020.

Direção: David Fincher. Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey.