Narrativa. “Narrativa” é uma palavra que muita gente tem usado de forma negativa nos últimos tempos.

“Narrativa do golpe”, pra não admitir que foi golpe. “Narrativa de vítima”, pra dizer que a pessoa está inventando ou reforçando uma condição de vítima que ela não tem – ou, pelo menos, não tem tanto assim.

Injustiça com a palavra. “Narrativa” é a belíssima arte de contar histórias. Novelas, filmes, desenhos animados: quanto melhor a narrativa, melhor é.

É a narrativa que me interessa nessas formas de arte. E também foi assim neste BBB.

Um jogo que combina direcionamento e improviso, com regras impostas pela produção e a dinâmica interna imprevisível de seus jogadores, tem narrativa?

Claro. A edição do programa se esforça em construir narrativas e personagens, tornar tudo o mais “novela” possível. Se seu elenco já proporciona isso naturalmente, melhor ainda.

O pessoal da má vontade e aqueles que foram além, mergulhando de cabeça na xenofobia, não demorou a tentar colar em Juliette o rótulo da “narrativa de vítima”. Como se ela não tivesse sofrido de verdade com a exclusão por parte dos outros participantes, liderados pela cantora que se diz educada porque é “de Curitiba”.

Juliette (e sua talentosíssima equipe de maketing aqui fora – que cresceu junto com ela) soube aproveitar esse fato? Sem dúvida, mas o fato existiu e se repetiu.

Mas num reality show como esse, a narrativa pode ser cortada abruptamente. A história pode não pegar, pode tomar um caminho errado, pode definhar. O acaso é uma ameaça constante e que quase nunca falha contra qualquer narrativa mais redonda.

E aí aconteceu o contrário: o acaso ajudou a narrativa. A história que estava sendo contada foi ficando logo cada vez mais evidente, mais forte e até com “turning points” precisos.

Lucas e ela foram excluídos por quase todos os outros. Se viram, se entenderam, se acolheram, se apoiaram. Quando ele não aguentou e pediu para sair, disse para ela: “Ganha essa porra!”.

Primeiro “turning point” importante: ela foi ao seu primeiro paredão, na segunda semana. Poderia ter escapado na prova bate-e-volta, mas não apenas não se salvou, como Karol Conká é que sobreviveu. Na votação popular, houve muita gente que defendeu sua saída porque “ela não saberá jogar contra Karol Conká e seus asseclas”. Que engano.

Ela não saiu, se reorganizou e não baixou a cabeça para os vilões. Firmou uma aliança importante com Sarah e Gil: o G3. Juntos, eles foram derrubando o Gabinete do Ódio, um membro por vez.

Quando Sarah ganhou sua prova do líder, épica, a primeira “final de Copa do Mundo” desse Big Brother, Juliette nos conquistou para valer aqui em casa. Enquanto Sarah distribuía suas pulseiras para o quarto do líder, a despachada da Juliette não se fez de rogada: “Sarah, não esquece de mim, não, pelo amor de Deus!”. E depois ainda se mudou de mala e cuia para o quarto da líder.

Com o Gabinete do Ódio dizimado, novo “turning point”. Diferenças na visão de jogo e Sarah começa a alimentar uma desconfiança quanto a Juliette. Isso evolui para um ranço e contamina Gilberto, que chega ao ápice de questionar, entre outras coisas, a relação da Juliette com suas referências nordestinas.

Põe em dúvida as amizades dela, dizendo que é puro interesse. Põe em dúvida as lágrimas da aliada, nordestina como ele.

Juliette vira alvo de seux ex-aliados, um novo Gabinete do Ódio. Está de novo excluída. De novo, só. Não é prioridade para ninguém.

“Turning point”. Carla Diaz, no quarto secreto após sair em um paredão falso, vê os ataques – e vê também Juliette a defendendo, quando outros falavam mal da, pensavam eles, eliminada. Ao voltar para casa, Carla não faz muita coisa, mas faz isto: fala bem de Juliette para seus aliados, a fechada dupla Camilla e João.

Juliette conversa, conversa. Tenta resolver. Esmaga moralmente Gilberto. Não adianta.

O acaso joga a favor de novo. Juliette ganha na sorte a oportunidade de obrigar alguém a revelar seu voto secreto. Numa jogada perfeita, que saber o voto da Sarah. “Juliette”, ela entrega, sendo então desmascarada.

Depois, quando é colocada no paredão, direciona (querendo ou não – o acaso, de novo?) uma votação aberta que faz com que Sarah também termine no paredão. O duelo de vida e morte termina com a rival derrotada.

Mas essa vitória é disfarçada porque todos os colegas acham que Sarah foi derrotada pela briga com um terceiro elemento, Rodolffo. Ninguém imagina a força de Juliette. Nem ela mesmo sabe.

Ainda coleciona plaquinhas de adjetivos ruins dadas pelo resto do elenco, nas dinâmicas de “jogo da discórdia” do programa. É votada pela casa no confessionário, a amiga Viih Tube a salva. É votada em seguida pela casa em votação aberta, a amiga líder a salva de novo. Mas é puxada ao paredão em um contragolpe. E, na prova bate-e-volta, escapa pela terceira vez na mesma noite.

O acaso a favor da narrativa.

Juliette já havia encontrado em Camilla de Lucas uma nova aliada. Mas tinha a sina de perdedora dentro da casa: não havia ganhado nenhuma prova do líder, nenhuma prova do anjo. Se lamentava por não poder ver fotos ou vídeos da família, privilégios dos vencedores. Reagia mal quando via a vitória escapar por entre os dedos.

Restava uma prova do líder. Na última prova, no último momento possível, ela escolhe o número certo entre três possibilidades e vence. Não sabe, mas essa vitória é comemorada com gritos nas vizinhanças pelo Brasil. O acaso, sempre ele.

Foi outra final de Copa do Mundo.

O que não é acaso é o seu carisma. Potencializado por sua equipe nas redes sociais, é verdade. Mas uma base consistente, que se aliou a uma narrativa de superação de adversidades que se construiu pela dinâmica interna dos participantes, por uma visão inteligente do ambiente adverso e por uma ajudinha do acaso. Carisma misturado com autenticidade, resistência e humor.

Vai à final, ninguém lá dentro sabe direito como. Descobre, num vídeo que resume sua trajetória, que foi mais perseguida do que imaginava (mas ainda menos do que foi na verdade). No discurso final, o apresentador exalta sua resiliência e revela o que aqui fora todos sabiam, mas ela e os outros dois finalistas ainda não. Eles descobriram juntos:

“Você nunca esteve sozinha, em nenhum momento. No palco (pódio) montado pelo público, você nunca saiu do primeiro lugar”.

No show final, lá estava Juliette, a protagonista absoluta do BBB 21, assistindo a Lucas, que estava de volta, de surpresa, cantando em meio a outros ex-BBBs desta edição. Um de frente para o outro, mãos juntas, embora separadas pelo acrílico que isolava o palco. “Eu me lembro de tudo, irmão, eu estava lá também”, dizia a música.

ISSO, compadre, é que é narrativa. Com começo, meio, reviravoltas e final. Final feliz.