CRUELLA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 106

Sobrou estilo, faltou vilania

Nessa dependência do cinemão de Hollywood de produzir filmes que se apoiam em personagens já conhecidos, um nicho recente tem sido o de colocar no centro da narrativa vilões carismáticos. Pode ser um desafio interessante, se o filme se propuser a mantê-los como vilões. De maneira bem mais preguiçosa, os roteiros não se arriscam a isso (ou não têm talento para) e transformam personagens maus toda vida em mal compreendidinhos.

A Disney já havia cometido esse erro de maneira gritante em “Malévola” que, de bruxa implacável, virou uma mãezona de cara fechada. Cruella não escapa disso.

Em 101 Dálmatas, tanto o desenho de 1961 quanto o filme com atores de 1996, Cruella De Vil (ou Cruela Cruel, na dublagem da animação) simplesmente sequestra 99 filhotinhos de dálmata com a intenção de matá-los e fazer um casaco. Este prelúdio se propõe a ser a “origem” da vilã. Mas aqui, apesar de muita pose, ela nunca faz nada de vilã realmente. Apesar de ser tão talentosa como ladra quanto como estilista.

Na verdade, o filme de Craig Gillespie usa o velho truque da vilã pior que a vilã que dá nome ao filme, o que justifica as ações da protagonista.

A necessidade autoimposta de fazer referências a 101 Dálmatas também criam situações forçadas além da conta. A própria aparição dos cachorros é sempre desnecessária. Anita e Roger, casal que é dono dos dálmatas adultos na história original, também surgem de maneira forçada (ela, subaproveitada; ele, completamente desnecessário, em cena só por obrigação).

São problemas, mas felizmente o filme tem muitas qualidades. Começando pelas duas atrizes principais. Emma Stone é uma ótima escolha para Cruella, chegando perto da escalação perfeita que foi Glenn Close em 1996. E Emma Thompson, como a Baronesa, estilista com quem Cruella passa a rivalizar, deita e rola. De uma relação “O Diabo Veste Prada”, a coisa evolui para um duelo de arrogâncias bem divertido.

Em torno disso, o diretor australiano traz sua verve narrativa que ele ostentou em “Eu, Tonya”. “Cruella” é um filme esperto, que é ambientando na Londres dos anos 1970 e tira proveito disso. No visual, além da direção de arte e dos figurinos caricatos, o filme elabora alguns planos sequências e usa o familiar recurso das manchetes de jornais, porém as mostrando integradas às cenas.

E na trilha sonora, desfila canções de The Clash, David Bowie, Rolling Stones, Queen, Blondie, Supertramp e outros.

É um filme que poderia ir muito mais longe, mesmo dentro da caixa das produções-para-a-família da Disney, mas também entrega mais elaboração do que seria esperado. Tenta, nisso, reverberar a personalidade exuberante da sua protagonista. Só que Cruella De Vil é mais que uma garota genial que fala de maneira arrogante. O filme quer torná-la mais “complexa”, mas, paradoxalmente, também a diminui.

Uma continuação já está no gatilho. Vamos ver o que acontece.

Onde ver: Disney Plus.

Cruella, 2021.
Direção: Craig Gillespie. Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Mark Strong.