007 – SEM TEMPO PARA MORRER
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 132

O Bond que ama demais

Ano que vem, as aventuras de 007 no cinema completam 60 anos e 007 – Sem Tempo para Morrer é o 25º filme oficial da série. Quem é familiar com a trajetória de Bond nas telonas e prestar um pouco de atenção sabe farejar quais são as tradições e, dentro delas, as pequenas mudanças que podem indicar alguma coisa ou referências que são mais do que mera autocitação.

Por exemplo, a vinheta do tiro no começo do filme (e que voltou ao começo em 007 contra Spectre, quando vinha sempre no final na era Daniel Craig) desta vez não tem o sangue derramado. O que isso quer dizer? Quer dizer alguma coisa?

A tradicional cena antes dos créditos geralmente traz alguma peripécia de Bond ou os vilões já colocando a mão na massa. Desta vez, começa com a bondgirl: uma passagem da infância de Madeleine Swann (Léa Seydoux), mulher que conquistou o coração de Bond no filme anterior e a primeira a retornar com protagonismo de um filme para o outro. Uma antecipação para sua importância na trama?

Da mesma forma, bondmaníaco de verdade reconhece assim que é dita a frase “Temos todo o tempo do mundo” e suas implicações sombrias plantadas em 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (1969). Sem Tempo para Morrer volta não só nisso ao único filme de Bond estrelado por George Lazenby.
O tema instrumental daquele filme é ouvido durante uma conversa em que M (Ralph Fiennes) e Bond filosofam sobre “o de sempre, uma ameaça global”. E a bela canção, com Louis Armstrong, também volta a ser ouvida.

Não são referências gratuitas. O Bond interpretado por Lazenby, menosprezado por muitos anos, era uma mudança para o personagem tendo em vista a versão anterior, de (ninguém menos que) Sean Connery. Em vez de durão, implacável, machista, em A Serviço Secreto de Sua Majestade o agente podia mostrar medo e realmente se apaixonava. Até se casava, para logo depois perder a mulher, assassinada.

Então faz sentido esse tributo ao Bond de Lazenby, sendo a versão de Daniel Craig um 007 durão por fora, mas que, por dentro, ama para valer e sofre pesado por amor. Esse conceito é crucial em 007 – Sem Tempo para Morrer, é mais importante que a aventura em si.

Tanto que disputa espaço na trama e tempo de tela com os vilões, que nem aparecem tanto (Christoph Waltz, de novo como Blofeld, e Rami Malek). Curiosamente, o perigo que Bond precisa enfrentar envolve uma contaminação global e a restrição de contato. Acaba estando em sintonia com nossos dias de pandemia, mas o filme é uma produção anterior que acabou sendo adiada. Mas a trama agora se presta a essa ressignificação.

Essa necessidade de acomodar esses dois lados também faz do filme o mais longo da série, com 2h43 de duração. Não só o filme, mas a sequência pré-créditos também é a mais longa da série, começando com um dado da infância de Madeleine e depois mostrando o idílio com Bond na Itália até tudo ruir em uma grande cena onde uma DR acontece dentro do Aston Martin sob uma chuva de balas. Uma imagem que resume brilhantemente o filme.

Depois esse “capítulo final” também rende uma pequena homenagem ao primeiro filme da série, com a sequência dos créditos evocando os círculos coloridos de 007 contra o Satânico Dr. No (1962), assim como a ambientação na Jamaica. Aí aparecem Jeffrey Wright, sempre muito bem como Felix Leiter (o velho amigo da CIA, a quem Bond chama de irmão), e Lashana Lynch, como a gente que ocupou o lugar deixado por Bond ao se aposentar.

Bond desenvolve com ela uma relação de provocação sem hostilidade. E Ana de Armas, agente cubana que trabalha a seu lado em parte do filme, reluz em cena: Bond acha legal sua empolgação quase ingênua com a missão.

São mulheres tão capazes quanto o agente e isso sempre reverbera por aí como uma novidade. embora já tenha acontecido várias outras vezes (Barbara Bach, Carey Lowell, Michelle Yeoh, Halle Berry…). É o mesmo com o “Bond sensível”, que já apareceu na versão de Lazenby, ou “sério e realista”, que vimos quando Timothy Dalton interpretou o personagem.

O que realmente foi novidade nessa era Daniel Craig foi o fato de que os cinco filmes com o ator formarem um arco fechado do personagem. Os 20 primeiros filmes da série não se preocupavam quase nada com uma continuidade muito severa. Mas algumas referências, como Bond ser viúvo, acabavam reaparecendo, mesmo quando o ator principal mudava.

Mas não havia um reinício (ou, em português, reboot). Com a chegada de Daniel Craig, pela primeira vez a série realmente resetou a história. Seu Bond estava em início de carreira em 007 – Cassino Royale (2006), ainda adquirindo a licença para matar. A morte de Vesper Lynd (Eva Green) reverberou nos filmes seguintes, depois a organização terrorista Spectre surgiu como responsável por ações criminosas em todos os filmes com Craig (de forma até forçada, aliás).

Então, também é lógico que Sem Tempo para Morrer procure se colocar como o desfecho das aventuras do 007 Daniel Craig. Uma cápsula com começo, meio e fim dentro da série maior. “James Bond will return”, mas agora com um novo ator e novo começo e só o futuro dirá se os reinícios serão a rotina ou se voltaremos à velha dinâmica mais despreocupada em que o ator mudava, mas Bond era o mesmo, com aventuras eram fechadas em si mesmas.

Onde ver: cinemas.

No Time to Die, 2021.
Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge, do argumento de Purvism Wade e Fukunaga, a partir de personagens de Ian Fleming. Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Lashana Lynch, Rami Malek, Ana de Armas, Ralph Fiennes, Christoph Waltz, Ben Whishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright.