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03.12 - C5 - História-e

Coluna História. Correio da Paraíba, 12/3/2017.

Yeats, em 1903

Yeats, em 1903

Há 75 anos morria o poeta irlandês William Butler Yeats. Um dos grandes poetas da língua inglesa, ganhou o Nobel de literatura em 1923. Com outros escritores, foi responsável pelo movimento chamado Renascimento Literário Irlandês. Ezra Pound viajou a Londres para conhecê-lo porque Yeats seria “o único poeta merecedor de um estudo sério”.

Cena de Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, com Anthony Hopkins recitando Yeats:

Jules Verne

Julio Verne nasceu há 185 anos, em 1828. O maior escritor de aventura/ ficção científica de todos os tempos, o francês fez previsões em sua literatura de diversos avanços científicos e até da viagem do homem à Lua. No entanto, não é esse o seu maior mérito, mas o de criar narrativas fantásticas que levou seus leitores a viagens inesquecíveis – ao centro da Terra, por 20 mil léguas submarinas ou uma volta ao mundo em 80 dias.

MAILER

O escritor americano Norman Mailer faria hoje 90 anos – ele nasceu em 1923. Premiado duas vezes com o Prêmio Pulitzer, Mailer era considerado um dos pais do new journalism, ele ganhou os prêmios com os livros Os Exércitos da Noite (1968) e A Canção do Carrasco (1979). Ele chegou a aparecer como ator em Na Época do Ragtime (1981), ótimo filme de Milos Forman, e foi citado por Woody Allen em Dorminhoco (1973), na cena em que Woody, no futuro, identifica uma série de fotos de personalidades do século 20: “Este é Norman Mailer, ele foi um grande escritor. Ele doou seu ego para pesquisas da Faculdade de Medicina de Harvard”.

T0dos lá, hein? É amanhã.

E tem mais coisas interessantes no blog do lançamento.

Conversei com o Veríssimo semana passada. Não sobre sua vida de cronista, mas especificamente sobre As Cobras – Antologia Definitiva, a compilação de sua inesquecível tira. A matéria saiu domingo, no Correio da Paraíba, e aqui está ela.

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O Brasil, segundo As Cobras

Veríssimo foi às Cobras para driblar a ditadura: "Quando havia o risco da censura implicar com o texto, me socorria no desenho"

Pode ser que cobra seja muito fácil de desenhar – “Só tem pescoço”, diz o próprio criador, Luís Fernando Veríssimo -, mas não houve assunto que mexesse com a vida nacional que não foi tratado pelos dois ofídios que rastejaram pelas centenas de tiras escritas e desenhadas pelo gaúcho. As Cobras, uma das melhores tiras dos quadrinhos nacionais, agora retorna em uma bela edição: As Cobras – Antologia Definitiva (Objetiva, 200 páginas). Em conversa por e-mail, Veríssimo, famoso principalmente como cronista, conta como e porquê usou o desenho para também criar suas sátiras da política e do comportamento no Brasil.

Veríssimo já disse várias vezes que a escolha de cobras como estrelas de uma tira eram fruto de suas limitações como desenhista. Mas, se os traços são simples, o gaúcho – hoje com 74 anos – constrói uma mise-en-scene bastante efetiva como suporte para as piadas. “As cobras e seu meio existiam só em função da piada, o desenho em si nunca foi importante. Quanto mais simples melhor”, conta Veríssimo. “Se você gostava da construção das narrativas só posso agradecer, mas não era intencional”.

A filosofia das Cobras continua atual

A tira surgiu nos anos 1970. “Epoca da ditadura”, lembra o escritor. “Quando se podia dizer mais com desenho do que com textos. Sempre gostei muito de quadrinhos e quando passei a ter um espaço no jornal para fazer, teoricamente, o que quisesse nele, aproveitei. E muitas vezes, quando faltava tempo ou saco para o texto,  ou havia o risco da censura implicar com o texto, eu me socorria no desenho”.

E ele a manteve até os anos 1990. “Parei, como eu disse na época, porque estava fazendo coisas demais. E também porque não ficava bem um homem de sessenta anos ficar desenhando cobrinhas”, diz.

As cobras eram, geralmente, duas travando um breve diálogo. Podia ser sobre política, futebol, Deus, a finitude da vida ou qualquer outro assunto que rendesse a Veríssimo uma boa piada. Muitas vezes, contracenavam com alguns coadjuvantes. Vários deles, parecem que estão sempre aparecendo por aí, nos noticiários: Queromeu, o corrupião corrupto; Dudu, o alarmista; o candidato Alves Cruz; Durex, o adesista; Sulamita, a pulga lasciva; e por aí vai.

Em poucos traços, Veríssimo consegue estabelecer uma 'mise en scene'

“Eu gostava das cobras recem-nascidas, que saiam da casca para descobrir o Brasil e o mundo”, aponta o cronista. “Muitas nasciam precavidas, como a que já saiu do ovo com um habeas-corpus preventivo”.

Alguns personagens acabaram não entrando e a “antologia definitiva” renderia fácil um segundo volume. “Personagens como o chef Rienamange, o cozinheiro da crise, e o Zé do Cinto, que vivia apertando o cinto para sobreviver, podiam ter entrado. Continuam atuais”.

O livro divide as tiras em dez temas, entre eles existencialismo, futebol, Deus, poder, história, praia, literatura, espaço e um segmento para alguns coadjuvantes (“As cobras e outros bichos”) e outro para os filhotes. Algumas sequências são antológicas, como o técnico de futebol tentando orientar seu time obtuso, a pesquisadora que induz as respostas, ou os ‘Clássicos da literatura combinados’. “Não tenho preferencias”, conta Veríssimo. “Alguns dos clássicos combinados, como ‘Casablanca e senzala’, funcionam, outros não. Gosto das cobras diante do infinito. Uma dizendo ‘Como nós somos insignificantes diante do Universo’ e a outra perguntando ‘Vocês quem?’, por exemplo”.

Os "clássicos combinados" estão entre os grandes momentos do álbum

Veríssimo também tem outras produções de histórias em quadrinhos: ainda escreve e desenha a Família Brasil e escreveu a tira de Ed Mort (desenhada por Miguel Paiva) e as páginas do Analista de Bagé na Playboy (desenhadas por Edgar Vasques). É uma relação que, como leitor, começou desde cedo.

“Lia o Gibi e o Globo Juvenil como todo o mundo e gostava muito dos super-herois e de alguns americanos como o Krazy Kat”, lembra, apontando também o que lê hoje. “Gosto muito dos brasileiros: o Laerte, o Angeli, os irmãos Caruso, o Edgar Vasques, o Santiago, o Moa, o Adão. É muita gente boa. E também há genios como o Moebius, de quem vi uma exposição fantástica há pouco tempo, em Paris”.

Se As Cobras não estão rastejando por aí, certamente não é por falta de assunto. Seus personagens teriam muita coisa para contar. “O corrupião corrupto, claro, está atualissimo”, afirma Veríssimo. “Dudu, o alarmista, também. E Durex, o adesista, é um personagem eterno, que atravessa a história, desde os tempos biblicos”. Pode reparar: todos eles estão por aí, o que garante plenamente a atualidade e o ótimo humor de As Cobras.

O Bugu de Roger Cruz,...

Quando o primeiro MSP 50 foi lançado, muita gente que não é da área deve ter se surpreendido em haver no Brasil 50 quadrinistas talentosos, capazes de tais releituras dos personagens criados por Maurício de Sousa. Pois e estes outros 50 que estrelam MSP+50 – Maurício de Sousa por Mais 50 Artistas (Panini, 216 páginas, em capa dura ou cartonada)? Nele, revelações dividem espaço com grandes nomes como Rafael Grampá, Allan Sieber, Roger Cruz e Mozart Couto.

O editor Sidney Gusman, da Maurício de Sousa Produções, reuniu um time que realizou um trabalho tão bom quanto o primeiro álbum. A principal diferença é que o original tinha muito forte o clima de homenagem pelos 50 anos de carreira de Maurício e este não mais. “Eu pedi que esquecessem o negócio da homenagem e aproveitassem a chance para fazer a história que quisessem”, explica Gusman, por telefone, de São Paulo.

... a Mônica de Romahs,...

O resultado tem como uma grande qualidade, mais uma vez, a variedade. Há HQs que imaginam a Turma da Mônica por um tom realista (a de Rogério Vilela, por exemplo, autor de Joquempô), ou como HQ franco-belga (a de Ricardo Manhães), mangás (a de Kako) e por aí vai. Há estilos tão particulares que são até difícil definir (caso do Jotalhão minimalista de André Ducci e as HQs de Rafael Coutinho e Caco Galhardo).

“Eu podia montar um álbum só com HQs de super-heróis, ou tiras, ou underground”. conta o editor. “Mas isso não passaria o que eu quero para o livro”.

Tão variados quanto os estilos foi a escolha dos personagens – como no álbum original, os convidados tiveram liberdade. “Isso me deixou absolutamente feliz: ter o maior número possível de personagens, mas não queria pautar ninguém”, diz o editor.

Assim, Mônica e seus amigos aparecem muito, e o Chico Bento também. Mas dois que seriam menos cotados voltaram a se mostrar preferidos dos quadrinistas: o Piteco e o Astronauta.

...a Tina de Adriana Mello...

“O Astronauta é o mais próximo de ficção científica que o Maurício tem e antes as histórias dele tinham aquele caráter filosófico”, analisa Gusman. O Piteco e sua ambientação pré-histórica também se motraram atraentes a quem quis contar uma trama de aventura.

Mas há personagens  curiosos no centro de algumas histórias: Rosinha (a namorada do Chico Bento), a Pipa (normalmente coadjuvante da Tina, mas protagonista numa bela HQ de Fernanda Chiella), o Jeremias, o Bugu (que Roger Cruz coloca em um reality show!) e o Nico Demo. Essa variedade acbou surgindo naturalmente, mas uma ou outra vez Gusman acabou fazendo sugestões. “Disse ao André Ducci que ele poderia escolher quem quisesse, mas que, pelo trabalho dele, se ele desenhasse a turma do Jotalhão ficaria ótimo. E, mesmo assim, ele me respondeu: ‘Não tenha dúvida que é ele'”, conta Sidney.

Muitos autores se tornaram conhecidos no mercado através do MSP 50 e, agora, do MSP+50. “Você não tem noção do tanto de autor que pegou frila por causa dos álbuns”, conta Sidney Gusman. “O Vítor Cafaggi, das Aventuras do Pequeno Parker, até está publicando em jornal”. Por isso, se antes o caráter era de homenagem, agora a idéia se sustenta sozinha. “Os álbuns se tornaram um catálogo do que há de melhor na HQ nacional”, continua.  “A maioria desses autores nunca foi tão lida quanto nesses álbuns”.

O sucesso ajudou a fortalecer uma continuação. “Com o MSP 50, foi a primeira vez que uma HQ apareceu na lista das mais vendidas da Bienal (o álbum foi lançado na Bienal do Rio, em 2009)”, lembra Gusman. A estratégia de lançamento do novo álbum usou muito o twitter: os convidados foram revelados aos poucos, assim como, depois, alguns previews das páginas. E os quatro principais portais do país também receberam previews, que colocaram em suas capas no mesmo dia.

E vem aí mais um, incentivado pelo próprio Maurício de Sousa. “Ele entrou na minha sala e disse: ‘Eu sei que você não quer, mas tem que fazer o terceiro. Tem mais 50?’. Respondi: ‘Fácil’. ‘Então faz, Sidão!’”. O terceiro álbum, antes mesmo de ser anunciado, já tinha “candidatos” que se ofereciam enviado até histórias já prontas para o editor. “Já tem caras na internet me mandando Os Sousa!”, espanta-se. “Mais de 120 pessoas já pediram para entrar no livro”.

...e Pipa e Zecão por Fernanda Chiella

Mas ele também avisou que esse expediente não adianta porque a seleção é feita a partir dos trabalhos naturais dos autores. Atualmente, a lista já está pronta e Sidney Gusman está convidando os participantes do terceiro álbum. A relação de carinho dos quadrinistas brasileiros com a obra de Maurício de Sousa é algo que encanta Sidney Gusman e mostra como o projeto é mesmo especial. “Tem cara que pira, quando eu ligo e convido. Tem caraque grita, tem cara que chora”, revela.

Mas, embora um dos nortes do projeto seja a diversificação dos convidados por estados brasileiros, nenhum quadrinista paraibano está no MSP 50 ou no MSP+50. Sidney Gusman garante que, no terceiro álbum, a história será diferente: tem paraibano na lista. Mas ele mantém a sete chaves qualquer um dos nomes.

Catalisador dos álbuns, Maurício ainda se emociona com o projeto. “Ele me revelou uma vez: ‘O álbum me faz sentir desenhista de novo’”, confidencia Sidney Gusman. Que venha o terceiro, então.

*Versão estendida de matéria publicada no Correio da Paraíba.

Mais:

– Leia a minha entrevista com Maurício de Sousa (em quatro partes)
– Assista o Comic Show sobre Maurício de Sousa
– Minha entrevista com Sidney Gusman sobre o MSP 50
– Crítica do MSP 50
– Matéria sobre Turma da Mônica – Romeu e Julieta

Barreto, um artista da crítica

Há quem ache que crítica não é arte. Pode ser, mas pode ser também que a arte da crítica seja justamente “não ser arte”: ser simples, clara, objetiva, direta e coerente na análise. Assim, um material destinado a preencher um espaço em um jornal diário e depois ser esquecido com o tempo às vezes ganha um caráter atemporal ou mesmo se torna uma representação importante de uma época. Antônio Barreto Neto já tinha tudo isso, mas faltava uma coisa: uma compilação de seu trabalho em livro. Não falta mais: será lançado hoje, dia 14, Cinema por Escrito – Crítica de Filmes em A União, uma reunião de seus textos sobre cinema escritos no diário entre 1964 e 1981. O lançamento é na Fundação Casa de José Américo (Av. Cabo Branco, 3336, Cabo Branco, João Pessoa – tel.: 3214.8523), às 19 horas.

A organização é do jornalista Sílvio Osías, que também escreve o prefácio e o intitula, apropriadamente “Ao mestre, com carinho”. Osías conta que foi a admiração por Barreto que o levou ao jornalismo – e, agora editor geral de A União, chegou a hora de retribuir. “Era um projeto muito antigo”, diz ele. “Cheguei até a conversar com ele sobre isso na década de 1990, mas a coisa não avançou. De vez em quando, eu pensava em fazer. Agora, eu tinha os dois instrumentos: os arquivos do jornal para pesquisar e a editora”.

Nos anos 1960, Barreto chegou a escrever diariamente, em uma época de especial efervescência na crítica cinematográfica paraibana. A partir dos anos 1980, seus textos foram ficando cada vez mais esporádicos, mas escreveu até sua morte. E por estes anos todos, aquelas características citadas no início do texto que podem fazer da crítica uma arte ficaram marcadas na memória de seus leitores.

Vladimir Carvalho, um dos mais importantes documentaristas do Brasil e hoje morando em Brasília, colaborava com críticas de cinema no mesmo jornal quando Barreto começou a trabalhar e às vésperas de assumir o ofício. “Ele era excepcionalmente dotado desse tipo de coisa. Era o melhor de nós todos”, afirma. “É aquele crítico que nasceu pronto. E fazia sem nenhuma pretensão, no batente do jornal”. Para ele, o lançamento do livro veio a calhar. “É oportuníssimo”, comemora. “De certa forma, as novas gerações não conheceram o Barreto. Isso é preservar uma coisa que estava guardada na gaveta do tempo”.

“Ele não foi só um modelo para mim, foi quase uma musa”, conta João Batista de Brito, o crítico de herdou a tocha daquela geração. “Daquela turma todinha que fez crítica nos anos 1960, era ele quem se destacava. Era quem tinha o texto melhor e analisava com mais pertinência”. Cinéfilo, João Batista era um leitor de Barreto, mas só o conheceu pessoalmente nos anos 1980, quando ele próprio começou a publicar seus textos. “Embora não tivesse uma formação acadêmica – só veio a fazer universidade maduro –, ele tinha muita leitura de cinema e literatura. Ler Barreto é conhecer o que houve de melhor nesse período”.

Nas páginas de Cinema por Escrito, Barreto conversa com o leitor sobre alguns dos mais importantes filmes lançados no período que o livro abrange – e vários relançamentos. Os anos 1960 estão lá com O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, ou O Bebê de Rosemary, de Polanski. Os 1970, com O Poderoso Chefão, de Coppola, Guerra nas Estrelas, de George Lucas, A Noite Americana, de François Truffaut, Amarcord, de Fellini. E as reprises dão espaço a Janela Indiscreta, de Hitchcock, A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra, Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, e Cidadão Kane, de Orson Welles, entre outros.

Livros imortalizando o trabalho de críticos históricos de vez em quando aparecem: alguns americanos, de Pauline Kael (1001 Noites no Cinema) e Roger Ebert (A Magia do Cinema e Grandes Filmes), chegaram a ter versões brasileiras; Ruy Castro organizou dois volumes com trabalhos de Antonio Moniz Vianna (Um Filme por Dia) e José Lino Grünewald (Um Filme É um Filme); e algumas edições já reúnem parte do trabalho de João Batista de Brito (Imagens Amadas é a mais importante delas). Barreto Neto agora entra para o rol, podendo ser apreciado por quem acha que um texto claro e preciso também é uma arte. E alguém não acha?

* Publicado no Jornal da Paraíba, em 13/6/2010 (e atualizada).

Pessoal de Sampa, neste sábado será lançado o livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, do amigão da vizinhança Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos. Quem estiver na cidade, não perca: será às 19h30, na HQ Mix Livraria, que fica na Praça Roosevelt, centro da cidade.

A seguir, a ampla matéria que fiz sobre o livro para o Jornal da Paraíba. Paulo vem a João Pessoa no dia 22, para lançar o livro na Comic House (Esquina 200, esquina da Nego com a Navegantes).

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"Bienvenido", com supercapa de Liniers

Se falamos de quadrinhos argentinos, uma palavra vem à mente antes de qualquer outra: Mafalda. A menininha criada por Quino foi publicada só até 1973, mas aionda hoje é a referência para as histprietas portenhas. Mas há muito mais em um mercado onde a prata da casa goza de um prestígio invejável. O jornalista paulista Paulo Ramos, que informa e comenta a respeito do mercado editorial da HQ no Brasil diariamente no Blog dos Quadrinhos, analisa a saga da nona arte entre os hermanos no livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, que será lançado em breve pela Zabatana Books. A bela capa é de Liniers, autor de Macanudo, e o prefácio é de Adão Iturrusgarai, quadrinista brasileiro que hoje vive lá.

A obra será lançada em João Pessoa em 22 de maio, na gibiteria Comic House, em Tambaú. Ramos mostra, no livro, que a Mafalda é a referência, mas o mundo dos quadrinhos no país vizinho é muito mais rico do que se pensa. “A ideia do livro surgiu em viagens a Buenos Aires, embora eu não soubesse disso na época”, conta, por telefone, de São Paulo. O jornalista esteve na capital argentina quatro vezes entre 2007 e 2008. “Já me incomodava muito saber bastante sobre HQs europeias, japonesas e americanas e não conhecer melhor as argentinas”, lembra.

Embora essas viagens não tivessem como intenção uma pesquisa, o interesse natural de Paulo Ramos o intrigou ainda mais. “Na primeira viagem, já deu pra saber que havia uma coisa diferente, uma grande variedade”,  diz ele. Resultado: precisou comprar uma mala extra para poder trazer todos os quadrinhos que comprou por lá.

Com isso, no blog, ele postou uma série chamada “Muito além da Mafalda”, onde já apontava os nomes que tinham chamado sua atenção. “Por conta da série, muitas pessoas começaram a me sugerir um livro sobre o assunto”, conta.

Depois da série do blog, Paulo Ramos  voltou outras duas vezes a Buenos Aires – aí, sim, para pesquisa e entrevistas para o futuro livro – que, naturalmente, não é uma reprodução da série do blog. “É muito mais aprofundado”, afirma. “Veja cada capítulo como uma reportagem autoexplicativa, dividido por temas, onde cada um pode ser lido de maneira independente”.

O começo, claro, é pela Mafalda – cuja compilação Toda Mafalda é um cult por aqui há anos. “Não dá pra discutir quadrinho argentino pra brasileiro sem começar por ela”, explica. “O que pouca gente conhece  é a importância da Mafalda pro quadrinho de lá. É, assim: Carlos Gardel, Che, Evita… e Mafalda”. O capítulo começa pela inauguração de uma estátua dedicada à personagem em Buenos Aires.

O capítulo seguinte aborda as bancas de jornal – os quioscos. Hoje, aocontrário do Brasil, poucos quadrinhos são vendidos ali – eles passaram para as livrarias e gibiterias (ou comiquerías, como são conhecidas por lá). Para Ramos, os quioscos são importantes para conhecer o passado do quadrinho argentino, através de publicações que ainda hoje podem ser encontradas: Patoruzú e a revista de ilustrações Caras y Caretas.

Há também um capítulo dedicado ao jornal Clarín, que dedica desde 1973 sua última página a publicação de tiras. E desde 1980, essa página é 100% nacional. “Até hoje, essa página é tão famosa quanto a capa do jornal”, conta Ramos. “O leitor lê a capa, depois a última página e só depois o resto do jornal. Hoje, os três principais jornais publicam tiras 100% argentinas”.

Ramos aborda algumas tiras em particular, com seu diálogo com a realidade argentina e dá espaço nobre à de Liniers. “Analiso o fenômeno dele e sua entrada na Folha”, diz. “Lá, seus livros esgotam”. Os jornais ganham mais um capítulo, que trata das coleções de quadrinhos publicadas pelos periódicos. “O Clarín publicou a Biblioteca Clarín de la Historieta, com 20 volumes e calhamaços de 400 páginas. Depois lançaram mais 15”, conta Ramos. Publicada entre 2004 e 2007, é apenas uma das várias coleções que os jornais publicaram por lá.

O jornalista também escreve sobre as historietas de resistência, que bateram de frente com a ditadura, reservando para o capítulo final a dramática história de Hector Germán Oesterheld, autor de Che (que foi publicada aqui no ano passado). Oesterheld, criador de várias HQs, como a clássica El Eternauta, foi sequestrado, torturado e morto pela ditadura militar argentina – não só ele, como suas quatro filhas, genros e netos. Ramos fez uma entrevista com Elsa Oesterheld, viúva de Hector. “Sem exagero, é uma das entrevistas mais fortes que já fiz na vida”, diz.

Ramos também comenta sobre a revista Fierro, publicada junto com o jornal Página 12 e onde saem as tiras do brasileiro Adão Iturrusgarai, autor de Aline. “É a principal revista de lá, hoje”. E traça uma painel histórico-econômico do país enquanto fala das histórias em quadrinhos, chegando até aos independentes e à internet, passando pela invasão das HQs americanas e do mangá nos tempos de equiparação entre o peso e o dólar. Fala da terrível crise econômica pela qual passou o país e que quase destruiu o mercado e de sua recuperação. “É um país menor que o nosso, mas eles leem infinitamente mais”, revela. “Há na Argentina uma cultura da história em quadrinhos mais presente na vida das pessoas”.

“Por mais abstrato que você faça o filme, por mais que você disfarce e modernize, é que nem o jazz. No jaz existe uma melodia e você quer voltar a ela. Mesmo as pessoas que fizeram jazz moderno, como o Charlie Parker, têm um respeito enorme pela melodia. Podem pirar, mas têm a melodia ali. E quando os músicos acabam abstraindo tanto que não se percebe mais a melodia, as pessoas perderam o interesse pelo jazz, em grande medida.

A mesma coisa é verdade no cinema ou no teatro. É ótimo ser novo e original na estrutura, mas você sempre precisa voltar para o que acontece depois, porque é isso que os espectadores querem saber”.

Woody Allen, em Conversas com Woody Allen, de Eric Lax.

Você já assistiu aos filmes Suores Frios, A Mulher que Viveu Duas Vezes e Dentre os Mortos? É bem possível que sim, já que todos eles são o mesmo filme: Um Corpo que Cai (1958) – que, aliás, no original chama-se Vertigo. Estas são as traduções literais dos títulos que o filme de Hitchcock recebeu na França, na Itália e na Espanha – uma curiosidade da qual trata o livro Hollywood em Outras Línguas – A Tradução de Títulos de Filmes e Seus Problemas (Ed. UFPB, 110 páginas), do crítico de cinema João Batista de Brito. Ele analisa 20 filmes que, como Um Corpo que Cai, receberam os títulos mais diferentes em diversos países. O lançamento é hoje, no Zarinha Centro de Cultura (Av. Nego, 140, Tambaú, João Pessoa – tel.: 4009.1111), às 19h30.

Por que High Noon (“Meio-dia”) virou Matar ou Morrer no Brasil, Só Ante o Perigo na Espanha e O Comboio Apitará Três Vezes na França? É uma dúvida com a qual João Batista convive desde os anos 1980, quando, em seus primeiros anos de textos publicados, já publicou alguns ensaios a respeito e deu palestras em congressos de semiótica. O livro reúne esses pensamentos. “Eu faço uma primeira parte teórica, sobre a tipologia do título”, conta ele. Depois apresenta uma hipótese: cada título diz respeito a particularidades do país que traduz.

Na sequência, vêm as análises das traduções dos 20 filmes – onde ainda estão Sindicato de Ladrões (1954 – chamado On  the Waterfront no original; La Lay del Silencio na Espanha; Fronte del Porto na Itália; e Há Lodo no Cais em Portugal), Juventude Transviada (1955 – Rebel without a Cause no original; La Fureur de Vivre na França), Clamor do Sexo (1961 – Splendor in the Grass no original; La Fièvre dans le Sang na França) e Candelabro Italiano (1962 – Rome Adventure no original; Gli Amante Devoro Imparare na Itália; Viver É o que Importa em Portugal), entre outros.

Se nenhum desses títulos brasileiros corresponde literalmente ao original em inglês, o que o livro mostra é que esse não é um hábito do Brasil, com o qual o espectador é obrigado a conviver até hoje (The Time Traveler’s Wife, deste ano, por exemplo, virou Te Amarei para Sempre). “Muitos títulos são estapafúrdios, mas essa coisa não é de nenhum país especialmente”, diz João Batista.

A hipótese lançada no início é, no fim do livro, defendida e logo depois contradita. “Em muitos casos, países com a mesma língua intitulam filmes de maneira diferente”, explica, citando no livro exemplos de Portugal, México, Argentina e até da Inglaterra. “Porém, desses países todos, muitos preferem copiar as reintitulações dos vizinhos e não traduzir o original americano”. É a torre de Babel do cinema.

JBB vê as traduções

João Batista de Brito lança seu novo livro amanhã, às 19h30 no Zarinha. Em Hollywood em Outras Línguas, ele investiga porque alguns filmes têm títulos absolutamente diferentes uns dos outros em vários países. Tem texto amanhã no Jornal da Paraíba e aqui, mas anota aí na agenda: 19h30, no Zarinha!

Nasce o termo “Bossa Nova”

O evento continuou repercutindo e seu interesse foi promovido das páginas da reportagem geral para as de assuntos culturais, com as discussões sobre o tipo de música que se apresentara na Arquitetura. Era jazz? Não era jazz? A expressão “samba moderno”, que vinha se usando até então, foi, afinal e definitivamente, substituída por Bossa Nova — imposta com grande senso de marketing por Ronaldo Bôscoli, em Manchete, auxiliado por seus discípulos Moysés Fuks, em Ultima Hora, e João Luiz de Albuquerque, em Radiolândia.

Quando Bôscoli decidiu-se por um show na Escola Naval, no Centro, no dia 13 de novembro, o que seria apenas mais um festival de samba-session já passou a se chamar “Segundo comando da operação Bossa Nova”. Ao som da balançadinha “Menina feia”, com um quarteto formado por Luizinho Eça e três irmãos Castro Neves, o apresentador Bôscoli entrou no palco e ainda se sentiu obrigado a explicar o que era “Bossa  Nova”. Não conseguindo, escolheu a saída mais fácil: “É o que há de moderno, de totalmente novo e de vanguarda na música brasileira”.

A platéia na Escola Naval entendeu muito bem. Eles eram cerca de mil  cadetes e  jovens oficiais da Marinha, todos de cabelo reco, num auditório onde  cabiam seiscentos  bem sentados. Era o que o próprio Bôscoli classificou como sendo “a Bossa Nova numa praça de guerra”. Bossa Nova foi uma expressão de que se usou e se abusou durante as duas horas de espetáculo, como se fosse um brinquedo que todos ali tivessem acabado de ganhar.

chega-de-saudade2 chega-de-saudade2
Chega de Saudade
, de Ruy Castro
Companhia das Letras

Morando com João Gilberto

Tudo parecia tão róseo naquele começo de ano que João Gilberto nem se abalou quando Sérgio Ricardo também lhe pediu que fosse morar em outro lugar. João passava o dia dormindo na sala e Sérgio achava que isto constrangia seus pais e sua irmã, que viviam com ele. Era como se João Gilberto fosse uma peteca, que se jogava para lá e para cá. Mas, desta vez, a extração foi sem dor. João pegou seus tarecos, enfiou-os numa mala 3×4 e foi para onde, como logo descobriu, deveria ter ido há muito tempo: o apartamento de Ronaldo Bôscoli na rua Otaviano Hudson.

No quarto-e-sala de Ronaldo, do tamanho de uma casa de boneca, moravam agora, em tempo integral, Bôscoli, Chico Feitosa, João Gilberto e o amável moleque-de-recados (1,80m, seiscentos watts de potência na voz) Luís Carlos Dragão. Os quatro já bastariam para tornar o lugar ligeiramente crowdy, quase uma cena de Uma noite na ópera com os irmãos Marx, mas o quórum era engrossado com freqüência pela presença de um contra-regra da TV Continental, Luís Carlos Miéle, cuja barba ocupava um espaço extra. Miéle, que só tinha uma calça, embora fosse uma calça de smoking, estava se tornando uma atração fixa do apartamento.

Apesar desta explosão populacional, João Gilberto sentia-se confortável. Por exemplo: ocupava o banheiro por um mínimo de duas horas, toda vez que entrava nele. Os outros não eram mesquinhos de se importar com isto — desciam à rua e iam fazer no botequim. E, se fosse preciso, até dividiriam com ele suas escovas de dentes. Sua chegada bagunçou o fuso horário do apartamento. Como João Gilberto só dava expediente à noite, os outros o acompanhavam acordados madrugada adentro, ouvindo-o falar e cantar como se ele fosse fazer um voto de silêncio perpétuo a partir do dia seguinte. A diferença era a de que, às nove da manhã, João Gilberto resolvia ir dormir, enquanto Ronaldo, Feitosa e Miéle saíam direto para o trabalho. Bôscoli era repórter da Manchete e fazia um frila como redator de contracapas e do material de imprensa da Odeon.

Numa das raras vezes em que conseguiu dormir e acordar em hora decente — porque iria participar de um almoço com o presidente JK no velho prédio da Manchete, na rua Frei Caneca —, Bôscoli teve uma surpresa: na hora de sair, procurou seu melhor terno e não o encontrou. Deu também pela falta de João Gilberto. Ele não voltara da rua. Nem ele, nem o terno. Quando ficou sabendo que João precisara do terno para ir cantar em São Paulo, Ronaldo decidiu tomar providências: vestiu seu segundo melhor terno (o que já usava todo dia) e foi almoçar com Juscelino.

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Chega de Saudade, de Ruy Castro
Companhia das Letras

Os joelhos de Nara

A chegada de Ronaldo Bôscoli em 1957 alterou a paisagem no apartamento de Nara. Ele levou a tiracolo seu amigo Chico Feitosa, apelidado imediatamente de Chico Fim-de-noite, pela sua canção com Ronaldo. Os dois se espremiam numa quitinete na rua Otaviano Hudson, em Copacabana, a qual abrigava ainda um crioulo, Luís Carlos Dragão, de profissão indefinida. Dragão contribuía para o aluguel fazendo pequenos mandados para os outros, como levar diariamente a coluna de Bôscoli à Última Hora, da qual ele era agora colaborador, ou ir à esquina comprar Coca-Cola para Chico Feitosa. Mas sua principal ocupação era dormir. Quando ferrava no sono, nem a Terceira Guerra Mundial conseguiria acordá-lo. Certa manhã, Ronaldo e Chico transportaram-no dormindo pela escada de serviço, quatro andares abaixo, com cama e tudo, até a entrada do prédio. Quando acordou e viu que estava quase na rua, Dragão tomou a única atitude que considerou sensata: virou- se para o outro lado e continuou roncando. Bôscoli levou Feitosa ao apartamento de Nara, não apenas porque ele era um bamba no violão e os dois estivessem compondo juntos. No último ano, Bôscoli passara por um surto paranóico que o fazia ter medo de sair de casa. Agora já  conseguia sair à rua, mas nunca sozinho. Era Feitosa quem o acompanhava, ida e volta, tanto para o trabalho, na velha sede da Manchete na rua Frei Caneca, quanto para o consultório da psicanalista Iracy Doyle, a mesma de Hélio Pellegrino. Feitosa passou também a trazer e levar Bôscoli ao apartamento de Nara, mas, em pouco tempo, esse serviço de carreto ficou desnecessário: beneficiando-se da extrema liberalidade do casal Leão, Ronaldo praticamente instalou-se na casa de Nara — e foi ela que passou a acompanhá-lo para todo lado, de táxi ou de bonde. Observando melhor o que passara desapercebido a Menescal e Lyra, ele foi o primeiro a olhar para os joelhos morenos e rechonchudos de Nara com os olhos de um homem. O que era natural, considerando-se que, em 1957, Bôscoli tinha 28 anos, contra os verdes vinte de seus antecessores. Ela também viu nele o que não podia ver nos dois meninos: Ronaldo era poeta, jornalista, experiente, andava com  Tom, Vinícius e Newton Mendonça, conhecia a noite e o dia, e, como ela, era mortalmente tímido — uma timidez que ele reprocessava num humor tão ácido quanto hilariante e que, na época, já lhe rendia um escrete de inimigos. Alguma garota de quinze anos poderia resistir a isto? Nara se encantou com ele, e seus pais também — a tal ponto que o velho Jairo fazia uma divertida vista grossa ao dar pela falta de camisas, meias e cuecas em seu armário. Sabia que estavam em Ronaldo.

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Chega de Saudade, de Ruy Castro
Companhia das Letras

Na matéria que escrevi para o Jornal da Paraíba não coube um décimo das histórias que deveriam ser contadas lá sobre Ronaldo Bôscoli. Acho que todas estão compiladas no Chega de Saudade, do Ruy Castro, então vou colocando uns trechos do livro aqui para que vocês vejam como Bôscoli merecia sua própria minissérie!

***

O encontro entre Tom e Vinícius

O encontro entre T. & V. transformou a música brasileira e é natural que qualquer pessoa gostaria de se atribuir a sua paternidade. Os dois realmente se encontraram no Villarino — e Lúcio Rangel não teve culpa de ver a história simplificada desse jeito por Aloysio de Oliveira —, mas esse encontro foi apenas a formalização de uma campanha que já vinha sendo feita  há dias para acoplá-los como parceiros. Na própria véspera, por exemplo, Vinícius havia passado horas ouvindo a respeito de Tom por uma pessoa a quem, na época, ele era todo ouvidos: seu cunhado Ronaldo Bôscoli. Bôscoli e seu amigo Chico Feitosa tinham ido à casa de Vinícius, na rua  Henrique Dumont, expressamente para vender-lhe a idéia de convidar Tom para musicar Orfeu — e Vinícius havia comprado. Grande ano, 1956.

Bôscoli, cuja árvore genealógica parece ter um artista em cada galho (sobrinho-bisneto da compositora Chiquinha Gonzaga, sobrinho dos homens de teatro Geysa Bôscoli e Jardel Bôscoli, primo do radialista Héber de Bôscoli e do ator Jardel Filho), tinha 22 anos em 1951 quando conheceu Vinicius. O poeta rondava sua irmã Lila, de dezenove anos, e Ronaldo não estava gostando da história — incrível como as irmãs de antigamente precisavam de proteção. Era uma daquelas erupções amorosas de Vinicius, que depois se tornariam corriqueiras. Mas aquela parecia novidade porque Vinícius ainda estava casado com Tati, sua primeira mulher.

(…)

Mas Vinicius convenceu Ronaldo de suas ótimas intenções para com Lila e efetivamente separou-se de Tati para viver com ela. Embora se diga que ele sempre saiu de seus casamentos levando apenas a folclórica escova de dentes, aquela parece ter sido a única vez que ele fez isto. O fato é que, vivendo dos magros cruzeiros que o Itamaraty pagava aos diplomatas estacionados no Brasil, Vinícius descobriu que precisava faturar uns extras: ele e Lila estavam passando a arroz e ovo num apartamento sem luz nem geladeira, na rua Francisco Otaviano, e isto não ficava bem para o autor de Poemas, sonetos e baladas.

Ronaldo Bôscoli era repórter na Ultima Hora de Samuel Wainer, a quem Vinícius foi pedir umas colaborações. Wainer, com típica generosidade, garantiu ao poeta um cheque de trinta em trinta dias, em troca de sorver-lhe o sangue: entregou-lhe a critica de cinema, arrancou-lhe uma crônica diária e encarregou-o do “correio sentimental”, no qual, sob o pseudônimo de Helenice, Vinicius respondia às palpitações amorosas das leitoras — o que o divertia muito.

(…)

O suplício durou dois anos, mas, em 1953, Vinícius deixou para trás a crônica  diária, a crítica de filmes e as aflitas leitoras de Helen ice, pegou Lila pelo braço e foi assumir em dólares o seu posto na embaixada brasileira em Paris, onde escreveu Orfeu.

Ronaldo Bôscoli, que ficara por aqui, continuara repórter na Última Hora, mas seu amor pela imprensa estava pegando um terceiro lugar fácil — a música e as mulheres disputavam os dois primeiros. O endereço destas preferências era o clube Tatuís, em Ipanema, com as festas organizadas pelo diretor social Walter Clark. O Tatuís colecionava as moças mais bonitas do Rio de Janeiro, o que explica por que Bôscoli não saía de lá, mas a música que se tocava ali era quase tão boa — a cargo, muitas vezes, de Candinho, seu diretor musical, e eventualmente dos pianistas Newton Mendonça ou Tom Jobim. Bôscoli conhecera Jobim na praia e o reencontrara no Tatuís em 1953, mas isto só teria alguma conseqüência daí a três  anos, em 1956, quando seu cunhado Vinicius estava na captura de alguém moderno  para musicar Orfeu.

Bôscoli e seu amigo Francisco Libório Feitosa (Chico Feitosa, futuro Chico Fim- de-noite) foram à casa do poeta aquela noite. Por indicação de Bôscoli, Feitosa tornara-se secretário de Vinícius e estava funcionando como seu assistente na produção de Orfeu. Muita coisa vinha sendo acertada nesses encontros. Lila desenharia os figurinos. Candinho faria, por trás das cortinas, o violão que Orfeu pareceria tocar. Ronaldo, a pedido de Vinícius, estava introduzindo gírias e expressões populares no texto da peça, para fazê-la parecer mais moderna. O poeta achava Bôscoli uma autoridade em tudo que estava se passando de novo na rua — é bom não esquecer que, depois de treze anos de casamento e outros tantos fora do Brasil, o ainda formal e conservador Vinícius sentia-se bastante desatualizado da realidade brasileira. Este foi um dos motivos que o levaram a apostar na indicação de Jobim por Ronaldo.

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Chega de Saudade, de Ruy Castro
Companhia das Letras

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