You are currently browsing the tag archive for the ‘Diário de filmes’ tag.

CIDADÃO KANE
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 56

Uma narrativa para além das revoluções

Lançado há 80 anos, as revoluções narrativas que “Cidadão Kane” compilou dentro de si já foram absorvidas, reprocessadas, diluídas e subvertidas ao longo do tempo. Para um espectador de hoje, que não se esforçar em buscar o olhar do tempo em que o filme foi feito, pode ser desafiador encontrar esses elementos inovadores.

Fora isso, o que sobra então? Revendo o filme de Orson Welles, é um grande prazer reencontrar uma extrema habilidade narrativa. essas “revoluções” nada mais eram do que uma busca incansável por narrar cada cena de uma maneira criativa, inteligente e surpreendente. E esse modo vigoroso de contar a história sobrevive através desses oito décadas, não só numa revisita cinéfila a “Kane”, mas também em alguns dos melhores cineastas da atualidade.

Steven Spielberg, por exemplo, é um cineasta que sempre pensa: “Como posso deixar essa cena mais interessante?”. E isso de uma maneira que isso esteja adequado à narrativa, que tudo no fim não seja apenas um festival de momentos elaborados mal colados um no outro.

Diversos planos diferentes ligados por um plano-sequência que não se percebe, se o espectador não estiver realmente prestando atenção à câmera. Tem muito em Spielberg e tem em “Cidadão Kane”.

Por exemplo, a emblemática cena em que o pequeno Charles Foster Kane brinca na neve, a câmera recua e revela estar dentro da casa onde seus pais, recém-milionários, estão entregando seu destino a um banco para que a empresa seja tutora do garoto até a idade adulta.

Enquanto o debate sobre o futuro de Charles acontece em primeiro plano, o garoto continua em cena o tempo todo, lá no fundo, lá fora, visto pela janela.

Esse recurso da profundidade de campo já não era comum, numa época em que o padrão era desfocar o fundo para que o público prestasse atenção só nos atores em primeiro plano.

Mas a cena é também um plano-sequência em que a câmera começa no garoto, recua dois cômodos dentro da casa até depois de uma mesa e, em seguida e sem cortes, avança até a janela novamente.

O plano seguinte é visto pelo lado de fora, com a mãe em close chamando Charles pela janela, depois a família saindo em plano geral pela porta, para encontrarem Charles no meio da neve, onde se desenrola o diálogo. De novo, tudo sem cortes.

Essa busca pelo mais interessante já vem desde o primeiro segundo, onde a montagem começa da placa “Proibida a entrada” para “pular o muro” da propriedade nababesca de Kane, mostrar seus detalhes (sempre o castelo no lado superior direito da imagem) e terminar com o moribundo personagem, e o superclose de sua boca murmurando “Rosebud”.

Primeiro a morte, depois a vida contada em um cinejornal. Então, a equipe desse veículo, numa sala de projeção decide que precisam saber se a última palavra do magnata possui um significado oculto. Nessa cena, os personagens são todos mostrados em silhueta, ou na contraluz.

São momentos já muito comentados, assim como vários outros. O teto do jornal Inquirer, num tempo em que os cenários dos filmes quase não mostravam os tetos dos ambientes por dentro. Aí também, um plano-sequência com três ou quatro planos dentro dele.

Ou o momento em que Kane passa o controle do jornal para o banco: dois personagens à mesa, um de frente para o outro em primeiro plano, Kane de pé, entre eles, caminha para o fundo da sala, onde fica minúsculo abaixo de janelas que, agora vemos, são enormes.

O close na cantora de ópera, que se abre para o plano geral do palco e depois sobre muito até chegar a dois trabalhadores que assistem tudo lá de cima, e fazem sua crítica demolidora ao que ocorre lá embaixo (efeito conseguido pelo movimento de câmera mais uma trucagem que emenda dois planos com um cenário-miniatura entre eles).

Há também as passagens de tempo. O banqueiro que deseja “Feliz natal. Charles” e completa “e um feliz ano novo” numa cena que é um salto de mais de dez anos.

O casamento, que é mostrado da lua de mel à indiferença total em segundos, em sucessivos cafés da manhã: da proximidade ao distanciamento físico, e onde a esposa até termina lendo o jornal concorrente.

Ou Kane ambicionando a equipe do jornal concorrente, numa foto exposta numa vitrine, e a foto se torna a cena da equipe agora contratada pelo personagem e sendo novamente fotografada, simbolizando sua vitória.

O personagem passando derrotado por dois espelhos, gerando um reflexo infinito.

Ou Kane em primeiro plano, datilografando, o amigo Jedediah mais atrás e Bernstein lá no fundo, em silhueta, na porta iluminada.

Como esta, a composição das imagens e sempre saborosa: quem está na luz e quem está nas sombras; personagens em close e no extremo fundo do quadro ao mesmo tempo (conseguidos pelo trabalho de câmera e luz de Gregg Toland ou por efeitos combinados como a projeção de fundo); fusões em que a primeira imagem e a segunda se combinam em um jogo de luz e escuridão.

Isso tudo para seguir um roteiro (de Herman J. Mankiewicz e Welles) que também fugia do formato começo-meio-fim: começa com a morte do protagonista, resume sua vida do começo ao fim pelo cinejornal e, depois, mostra o que estaria por trás dos fatos pelos flashbacks dos coadjuvantes entrevistados por um dos repórteres.

Ao invés dos flashbacks contarem a vida de Kane em ordem cronológica, eles são quase temáticos: a riqueza e a falência; o jornal; as mulheres e a política; o isolamento. No fim, o mistério a ser desvenda, que guia a trama, só revela que um homem nunca consegue ser compreendido em sua totalidade.

A isso tudo que o filme contém, soma-se aquilo que aconteceu fora do set. Como Welles era o gênio do rádio aos 25 anos e chegou a Hollywood com poder para fazer o filme que quisesse e como quisesse, despertando a inveja de meio mundo; como Mankiewicz escreveu a primeira versão do roteiro se inspirando no poderoso e temido magnata da imprensa William Randolph Hearst, de quem já havia usufruído da hospitalidade várias vezes (entre outras coisas, o jornalismo sensacionalista e controverso, a aventura política, o castelo construído para a amante, de quem ele tentou alavancar a carreira); de como o roteirista teve que brigar para ter crédito no filme (história contada em “Mank”, da Netflix).

Há muitos, muitos detalhes em “Cidadão Kane” que valem observações e comentários. Cada cena é inspirada, tecnica ou narrativamente. E é isso o que garante sua permanência e sua influência ainda hoje.

Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play

“Citizen Kane”, 1941.
Direção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Everett Sloane.

MANK
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 53

Tributo a um roteiro

Mank é sobre Herman J. Mankiewicz, o roteirista. Mas o filme é também sobre um roteiro: o que ele escreveu para Cidadão Kane (1941), obra seminal do cinema. Como fazer um filme sobre um sujeito preso a uma cama por causa de uma perna quebrada, ditando palavras a uma assistente?

Para a sorte do filme, o roteirista teve uma vida agitada, autodestrutiva (era um beberrão e apostador tão compulsivo que perdia milhares de dólares numa aposta sobre em quanto tempo uma folha cairia da árvore). Conviveu com poderosos, contrabandeando fatos e fofocas sobre eles para seu texto, uma biografia (mal) disfarçada de William Randolph Hearst, magnata da imprensa.

E ainda enfrentou Orson Welles, garoto-prodígio com uma presença (e ego) descomunal, para conseguir ter crédito no filme (para os registros: Mank escreveu o primeiro tratamento sozinho e boa parte das melhores ideias do filme são dele, mas Orson adicionou coisas depois). Além de tudo isso, tinha uma verve especial que o fazia vomitar em um jantar chique e emendar: “Não se preocupem: o vinho saiu junto com o peixe”.

David Fincher presta seu tributo ao cinema dos anos 1940 em geral e a Kane em particular tentando fazer com que seu filme pareça o máximo possível com uma produção daquela época, com uma direção de arte premiada com o Oscar (as filmagens do roteiro sendo escrito aconteceram no mesmo rancho em que o roteiro foi realmente elaborado). Mank emula especificamente Kane na fotografia em preto-e-branco que abusa da contraluz e da penumbra (de Erik Messerschimdt) e na música de Trent Reznor e Atticus Ross. E no roteiro que não segue uma estrutura de começo, meio e fim.

Mank também conta sua história através de um roteiro não linear, o que hoje é comum, mas era raro no começo dos anos 1940, quando Mankiewicz se atreveu a construir Kane assim. A diferença é que Kane é conduzido por depoimentos que levam aos flashbacks. Mank simplesmente vai e volta no tempo em 1939 e 1930 para mostrar elementos que marcaram a vida do roteirista e o teriam influenciado no roteiro.

Mank testemunhou a intimidade dos poderosos flutuando em sua realidade própria acima dos pequenos. Kane seria uma combinação entre Hearst, L.B. Mayer (dono da Metro) e o próprio Orson Welles.

Mas o filme reforça dois pontos em particular. Um é a atriz Marion Davies, amante de Hearst, para quem ele construiu San Simeon, uma propriedade nababesca que incluía até um zoológico. No filme, Mankiewicz vê como a esperta e engraçada Marion era forçada por Hearst, que financiava as produções que ela estrelava, a fazer melodramas. O paralelo dela em Kane é muito desfavorável e Mank, o personagem, repete que a personagem em seu roteiro não é Marion. Mank, o filme, tenta, assim, resgatar Marion Davies da imagem dela que Cidadão Kane, de propósito ou sem querer, cristalizou através dos tempos.

O outro ponto é político, a partir de uma eleição para o governo da Califórnia, onde o candidato de esquerda é sabotado por fake news: a edição de cinejornais encenados e com depoimentos inventados. Uma relação direta com o tempo em que vivemos, portanto.

Mank, então, faz mais sentido para quem viu Cidadão Kane? Certamente, e ainda mais para quem conhece as fofocas de bastidores – a contribuição de Mankiewicz em Kane foi obscurecida por anos a fio, mas foi resgatada por um artigo da crítica Pauline Kael republicada no livro Criado Kane e Outros Ensaios, base clara para este filme.

Para quem não viu Cidadão Kane, o que acontece? Não tenho como afirmar isso. É possível que a história de Mankiewicz, um bêbado na corda bamba, seja atraente. Mas aí só esse perfil de público pode dizer. O ideal, claro, é que todo mundo conhecesse bem Cidadão Kane. Independente de Mank.

Onde ver: Netflix

Mank, 2020.

Direção: David Fincher. Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey.

OS 7 DE CHICAGO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 52

Justiça tumultuada

Filmes de tribunal enfrentam sempre um dilema. O drama está sempre na palavra, o que há de imagem para mostrar além de pessoas falando? Aaron Sorkin, aqui diretor e roteirista, tenta resolver a questão basicamente com a montagem em Os 7 de Chicago.

O filme começa em alta voltagem, entrelaçando cenas reais de arquivo com outras com o elenco, cujos personagens vão sendo identificados por créditos na tela (alguns vão reclamar que o recurso é muito “televisivo”, mas não tem nada demais, Scorsese também já fez).

O tumulto que levou oito líderes diferentes de ativistas contra a guerra do Vietnã a serem julgados por incitarem a violência em Chicago durante a convenção do Partido Democrata não é mostrado no começo. Começamos a acompanhar a trama pelo julgamento e voltamos aos acontecimentos pelos depoimentos. Um recurso que também não é nenhuma novidade.

“Oito líderes”, você disse? Sim, oito estão sendo julgados. Sete representados pelo mesmo advogado e também Bobby Seale, dos Panteras Negras, que insiste que tem um advogado próprio. Ele não está presente, mas o juiz segue com o julgamento mesmo sem ele estar sendo legalmente defendido.

Esse caso é um dos mais emblemáticos julgamentos parciais e manipulados da história americana. O juiz ignora provas e depoimentos, pré-julga os réus desde o início, a procuradoria manipula a formação do júri. Sergio Moro ficaria orgulhoso.

Sorkin segue fazendo o que pode para que o filme não fique apenas no embate verbal. Ele ressalta as diferenças entre os réus (principalmente entre o certinho Tom Hayden vivido por Eddie Redmayne e o porralouca Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen). A narração dos acontecimentos passa a misturar freneticamente o interrogatório no tribunal, uma apresentação stand up de Abbie Hoffman, discussões privadas.

Esse vai e vem no tempo quase que é um reflexo narrativo dos ânimos exaltados e do tumulto nas ruas de que o filme trata. Às vezes é confuso em excesso, não consegue passar direito todas as informações. Mas é uma tentativa de sair da mesmice em que os filmes desse subgênero podem cair.

Esse quebra-cabeças sobre uma trama que parece mais simples do que como é mostrada tem, como trunfo, um poderoso elenco. Frank Langella, como um dos mais odiosos juízes do cinema; Joseph Gordon-Levitt, como o promotor que faz seu trabalho, mas tem sua ética; Mark Rylance, como o advogado de defesa; Michael Keaton, como um ex-procurador geral dos EUA. Atores sólidos, que mantêm o filme no prumo, nessas idas e vindas narrativas.

Onde ver: Netflix

The Trial of Chicago 7, 2020.
Direção: Aaron Sorkin. Elenco: Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Joseph Gordon Levitt, Frank Langella, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Michael Keaton, Caitlin Fitzgerald.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback

MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 50

Álbum de memórias

Minari é um daqueles filmes que precisam de bula? Faz diferença para o espectador saber que o que está na tela são memórias do diretor? Como é a recepção para o espectador que sabe disso e como é para aquele que vê como um filme contando uma história completamente inventada?

Uma parcela de quem não sabe do que está por trás do roteiro pode sair reclamando de mais um filme onde, na maior parte do tempo, “não acontece nada”. Quem conhece vai se emocionar mais com os pequenos acontecimentos na vida de uma família de imigrantes coreanos que se arrisca a tocar do zero uma fazenda no interior do Arkansas, nos EUA.

Não há nem uma grande questão com o preconceito. A quase totalidade dos conflitos está ali entre os integrantes da própria família: o pai que insiste na fazenda, a mãe que não compartilha desse sonho, o filho com problema no coração que não aceita bem a chegada da avó. A unidade da familia está em jogo, até mesmo quando chegam questões maiores, principalmente uma doença que vai desencadear outras situações.

O diretor-roteirista Lee Isaac Chung é americano no Colorado, filho de imigrantes coreanos. Ele consegue fazer um filme americano com um ponto de vista dos imigrantes que não parece uma “visão americana de um ponto de vista estrangeiro”. A maior parte falada em coreano, inclusive.

Há também uma excelente distribuição da atenção do filme entre os cinco membros da família. Isso, aliado a essa intensidade baixa na narrativa, lembra um pouco o ótimo As Coisas Simples da Vida (2000), de Edward Yang, co-produção Taiwan-Japão. Talvez, indo mais longe na ideia e no tempo, seja um herdeiro da obra cineasta japonês Yasujiro Ozu.

Não é uma credencial desprezível. Minari pode conquistar o espectador que se deixar levar por ele e pelos ótimos atores que dividem as alegrias e angústias dessa família. Como conquistou os votantes dessa temporada do Oscar, os quais o indicou em seis categorias, incluindo melhor filme e atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, a avó, atriz respeitadíssima na Coreia e com grandes chances de vencer).

Onde ver: cinemas

Minari, 2020.
Direção: Lee Isaac Chung. Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn.

MEU PAI
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 49

Labirinto mental

O título brasileiro verteu The Father para Meu Pai, mas isso não combina muito porque o ponto de vista do filme de Florian Zeller não é o da filha vivida por Olivia Colman. É inteiramente o do pai, Anthony, papel de um muito inspirado Anthony Hopkins.

Ele é o idoso londrino que vive sozinho em seu apartamento e resiste à ideia de ter uma cuidadora. A filha está tentando convencê-lo, já que vai se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo diariamente.

A segurança de Anthony consigo mesmo vai, no entanto, sendo colocada em xeque. De repente, o ex-marido da filha está no apartamento dizendo que o casal (que não se separou) é o dono do lugar e Anthony é que foi morar com eles. Ou a filha volta das compras, mas está completamente diferente. Ou situações já vividas parecem se repetir pouco depois.

Anthony estaria perdendo o juízo ou estariam tentando confundi-lo?

O filme é baseado em uma peça de sucesso de Florian Zeller, dramaturgo francês muito respeitado, que estreia na direção de cinema e que adaptou o texto com a ajuda de outro grande dramaturgo, o britânico (mas nascido em Portugal) Christopher Hampton. Para o papel, sua única opção era Anthony Hopkins. Tinha razão.

Filmes que tentam traduzir o que se passa na mente de seus protagonistas podem resultar numa grande jornada narrativa, e os bons exemplos vêm desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920). A ideia é fazer o espectador compartilhar ao máximo do sentimento de desconforto do personagem central.

A tática é bem empregada aqui, e uma chave importante para isso é Hopkins nos entregar um performance que consegue fácil a nossa empatia. Isso ajuda o espectador a passar por um trajeto que não é fácil: a deterioração da mente de um homem.

O filme poderia estabelecer um suspense, mas o objetivo não é estabelecer um jogo em que o espectador deve desvendar o que verdade ou mentira, se o protagonista está doente ou o estão enganando. Meu Pai deixa claro a confusão mental de Anthony quando, em sua primeira cena, mostra a chegada da filha Anne sem ser pela visão dele. É, aí, uma narrativa em terceira pessoa, a nossa visão objetiva do fato.

Por isso, quando Anne reaparece vivida por outra atriz, sabemos que é coisa da cabeça de Anthony, que estamos vendo isso pelos olhos dele. E que não deve ser essa a realidade.

Então, o que resta ao espectador é testemunhar, de dentro, a mente de um octogenário definhando. Como vemos a maior parte do filme por sua visão, sabemos pouco se o que estamos vendo é real (o relógio sempre perdido, o quadro na parede que some, o frango no jantar que se repete, uma sacola que muda de cor), a não ser pela âncora que são as cenas com a filha em que ele não está presente. Na maior parte do tempo, Meu Pai é um labirinto bem arquitetado, mas, talvez, sem final.

Onde ver: cinemas, Belas Artes a la Carte, Now, iTunes, Google Play, Sky Play (a partir de 28/4), Vivo Play (a partir de 28/4)

The Father, 2020.
Direção: Florian Zeller. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell.

BELA VINGANÇA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 33

Deboche atormentado

Uma pessoa consumida por uma missão autoimposta que se confunde entre vingança e justiça. Poderia ser o Batman, mas é Cassandra, a personagem de Carey Mulligan em Bela Vingança. O próprio nome da protagonista é bem pouco sutil: Cassandra, que previu e avisou todo mundo em Tróia da desgraça que viria com a guerra, mas ninguém deu ouvidos.

No filme, Cassie talvez seja, em si mesma, um aviso. Ela dedica sua vida a caçar predadores: homens nas baladas que tentam se aproveitar de mulheres bêbadas demais para saberem o que estão fazendo. Ela não se veste de morcego, nem tem apetrechos. Usa as armas que tem: planejamento e o uso de si mesmo como isca.

Um filme sobre um tema feminino, com uma mulher na criação e comando: Emerald Fennell é a diretora-roteirista que faz uma retumbante estreia nas duas funções em longas-metragens. Ela veio dos roteiros da série Killing Eve e seu rosto é conhecido principalmente como a Camilla Parker-Bowles de The Crown.

Emerald tempera seu tema pesado com algum deboche. Os homens são tão perigosos quanto patéticos. Cassie é tão atormentada quanto divertida. Isso acaba levando o filme a momentos meio forçados na verossimilhança.

Como uma cena em que a personagem ataca a pauladas o carro de um valentão do trânsito, que acaba fugindo. Todo valentão é, no fundo, um covarde? Psicologicamente pode até ser, mas o risco de ela se dar mal seria bem grande. Deu sorte, então? Nessa incursões contra o privilégio masculino, há quanto tempo ela vem tendo sorte?

E o próprio final, suprassumo do planejamento – digno, mais uma vez, de um Batman – exige bastante suspensão de descrença. Mas a simpatia pela personagem acaba compensando.

O trauma que redefiniu a vida de Cassie é algo que aconteceu a uma amiga, mas que o filme não revela de cara (também não é muito difícil de imaginar). Isso dá a Cassie um objetivo maior, contra o culpado maior.

Por outro lado, um interesse amoroso por um antigo colega que reaparece (um sujeito sensível, compreensivo, divertido e, ainda por cima, tem como profissão tratar de criancinhas doentes) a faz repensar sua missão. Dar a Cassie o vislumbre de um outro caminho a seguir é dramaticamente interessante e o filme se esforça (talvez demais) em ser convincente sobre essa opção.

Então às vezes o filme de Fennel canta muito a jogada, às vezes torna sua sátira um pouco esquemática demais. Mas a força de Bela Vingança (um título brasileiro bem ruim) é a performance de Carey Mulligan.

Ela guia o filme nesse equilíbrio difícil, de um real um pouco irreal, e é chocante que um crítico americano tenha escrito que a atriz era uma escolha inadequada por não ter o “physique du rôle” para o papel (“Ele basicamente disse que eu não era gostosa o suficiente”, reclamou Carey, com razão).

Mulligan, uma excelente atriz que já se provou diversas outras vezes, domina a cena plenamente. A combinação entre diretora e atriz mostra uma química que, por si só, sustenta o filme numa patamar alto. Não é sempre que essa química acontece e, aqui, ela foi muito bem aproveitada. É fundamental para que o filme permaneça firme na memória de quem o assiste muito depois da sessão.

Onde ver: cinemas

Promising Young Woman, 2020.
Direção: Emerald Fennel. Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie

O SOM DO SILÊNCIO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 30

Ilha acústica

Mergulhar no ponto de vista de seu personagem pode ser um desafio para um filme e, se der certo, um grande achado. No caso de O Som do Silêncio, Ruben, o baterista de heavy metal vivido por Riz Ahmed, tem uma perda brutal de audição.

O filme de Darius Mader (estreando nos longas de ficção; ele vem da área de documentários) faz isso: tenta fazer o espectador compartilhar com Ruben de sua agonia ao se perceber sem conseguir ouvir o mundo ao seu redor.

Então, o desenho de som é fundamental: ruídos, distorções, vozes abafadas. E, no momento em que o baterista vai ao encontro de alguma ajuda em uma comunidade de surdos, a ausência de legendas na linguagem de sinais é fundamental para que o espectador se sinta tão perdido e deslocado quanto o personagem.

Não por acaso, quando ele começa a entender essa comunicação, as legendas surgem na tela.

Esses recursos e a atuação admirável de Riz Ahmed fazem o espectador se envolver com a trama, que é despida de glamourizações e elementos de realce dramático (como uma trilha sonora que sobressai, por exemplo).

Paul Raci, como o líder da comunidade, atuando quase inteiramente em linguagem de sinais, também merece menção pela ótima atuação (ele não é surdo, mas seus pais eram).

Como Ruben vai se adaptar a essa “ilha” e como ele vai reencontrar o mundo no retorno. Nesse ponto, o filme se assemelha de maneira bastante curiosa a Náufrago, o ótimo filme que Robert Zemeckis dirigiu em 2000. Em um mundo de ouvintes, ser surdo torna você um solitário? O filme joga esse pergunta e deixa no ar para que reflitamos sobre ela.

Onde ver: Amazon Prime, Now, Google Play, Looke, Apple TV, Claro Vídeo

Sound of Metal, 2020.
Direção: Darius Marder. Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Almaric

PROCURANDO NEMO
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 23

Busca frenética

Quinto longa da Pixar, Procurando Nemo ainda não se aventura em dilemas mais ambiciosos os quais a produtora abordaria mais tarde (a morte, o sentido da vida, o fim do mundo, a velhice, o amadurecimento das emoções…). Ainda é um tema básico do amor incondicional entre pai e filho, superando barreiras muito maiores que eles (no caso, dois peixinhos de repente separados pela imensidão do oceano).

Por uma lado também dá para identificar aqui o fio narrativo comum a filmes de ação como Busca Imnplacável, com Liam Neeson, ou Comando para Matar, com Schwarzenegger: pais que enfrentam tudo para salvar o rebento sequestrado.

Mas a narrativa é irresistível, estabelecendo duas situações paralelas que vão se alternando: uma, o filho Nemo tentando uma fuga da prisão com seus novos amigos no aquário; outra, o pai superprotetor e traumatizado Marlin superando seus medos para atravessar o mar em busca do filho. As passagens de um cenário a outro são precisas e mantém a história girando no ponto exato.

Junto a ele, Dory, a peixinha que sofre com perda de memória recente. Como ela, outros coadjuvantes brilham, como a tartaruga hiponga Crush, o pelicano Nigel e o tubarão Bruce, que está no programa de comedores de peixes anônimos. Nemo, com grande visual e simplicidade na ambição, ainda mantém seu charme e encanto intactos.

Onde ver: DVD, blu-ray, Disney +

Finding Nemo, 2003.
Direção: Andrew Stanton. Co-direção: Lee Unkrich. Vozes na dublagem original: Albert Brooks, Ellen DeGeneres, Alexander Gould, Willem Dafoe, Allison Janney, Geoffrey Rush, Eric Bana. Vozes na dublagem brasileira: Julio Chaves, Maira Góes, Gustavo Pereira (dublagem de 2003), Caio Bismarck (redublagem de 2013), Marcio Simões, Guilherme Briggs

A BELA INTRIGANTE
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 22

À caça da obra-prima

O duelo entre um pintor e sua modelo em um filme que tenta decifrar a construção de uma obra artística – supostamente, a “caça” a uma obra-prima. Mas em quatro horas de duração? Bem, aliado às conversas sobre o papel de cada um no processo, da possibilidade da modelo ser entendida também como autora, do trabalho duro (exaustivo, bem pouco sexy), o filme usa como trunfo colocar Emmanuelle Béart, uma das atrizes mais lindas do mundo naquela época, nua por mais ou menos três dessas quatro horas. A discussão elevada tem o apoio incontornável desse elemento mundano.

Onde ver: DVD (na caixa A Arte de Jacques Rivette)

La Belle Noiseuse, 1991.
Direção: Jacques Rivette. Elenco: Michel Piccoli, Emmanuelle Béart, Jane Birkin.

RELATOS DO MUNDO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 21

Duelo entre humanismo e incivilização

O faroeste como gênero cinematográfico percorreu uma longa travessia desde os primórdios do cinema (com O Grande Roubo de Trem, 1903) até hoje. O western passou a refletir sobre si mesmo, se questionou, tentou combinar seu lado épico com um traço mais humano e socialmente respeitável.

Este Relatos do Mundo é um reflexo disso. Sua história-base é a do Capitão Kidd, ex-combatente da guerra civil americana que faz uma jornada perigosa para levar ao lar Johanna, uma garotinha que ele encontra perdida. Ela, porém, foi criada desde pequenininha pela tribo de índios que a sequestrou, nem fala uma palavra sequer de inglês.

O paralelo automático para o cinéfilo é, claro, Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Ele próprio um filme que já trazia o faroeste em bases mais complexas. O protagonista vivido por John Wayne passa o filme no encalço dos nativos que sequestraram sua sobrinha. A busca leva anos e, quando ele a encontra, ela já se tornou uma comanche.

Mas Wayne é tão racista que diz abertamente que prefere ver a sobrinha morta. Ele não é um herói, ou, pelo menos, não nesses momentos. Já iam longe os dias inocentes em que ele ia derrubando índios como dominós com seus tiros.

Tom Hanks não é John Wayne. Sua persona cinematográfica está mais para James Stewart ou Gary Cooper. Ao encontrar a menina (a ótima alemã Helena Zengel, 12 anos), ele não trata automaticamente o povo kiowa como inimigo. Ele tenta a tolerância, busca compreender a menina e a língua dela, enquanto ela tenta compreender a dele.

O personagem de Hanks é um homem mais esclarecido que a média da região: seu trabalho é viajar de cidade em cidade lendo jornais para uma plateia que não sabe ler, não tem tempo ou dinheiro para comprar um exemplar. Ele transporta notícias, novidades da ciência, do clima, da política e histórias extraordinárias. É um humanista.

No perigoso trajeto, Kidd e Johanna encontram todo tipo de preconceitos e intolerâncias. É um duelo entre a civilização e um Estados Unidos ainda incivilizado. Uma batalha que ainda perdura e que vivenciamos hoje mesmo no Brasil.

Em um momento, quando os Kiowa aparecem, não são nem como adversários, nem como amigos irrealistas naquele tempo. É uma aparição meio fantasmagórica, após uma tempestade de areia. Figuras misteriosas, ainda indecifráveis para aquele homem, mas não inimigos imediatos. Ainda assim, uma mistura de medo e fascínio.

A direção de Paul Greengrass vai na contramão de suas narrativas nervosas da série Jason Bourne, se adequando à trama. Na encenação, faz falta que o personagem de Hanks se esforce um pouco mais no diálogo, tentando se explicar por gestos e não apenas falando uma língua que a garota não entende. Significa que, no começo, ele não está se importando muito com essa comunicação? Pode ser.

Ainda com Rastros de Ódio como uma espécie de espelho reverso, Relatos do Mundo evoca diretamente o filme de John Ford ao citar o famoso plano da imagem de John Wayne sozinho do lado de fora da casa, emoldurado pela porta. Mas aqui, usado para ressaltar a diferença entre os dois filmes, os dois protagonistas, as duas visões de mundo.

Onde ver: Netflix

News of the World, 2020.
Direção: Paul Greengrass. Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Mare Winningham. 

O MIADO DO GATO
⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 20

Reconstituição da fofoca

“The Cat’s Meow!”. A primeira vez que vi essa expressão foi em Cantando na Chuva, no número “All I do is dream of you”. Significa algo como “é o máximo” (a tradução literal do título brasileiro é engraçada, mas não faz sentido nenhum).

Peter Bogdanovich tenta captar o espírito da Hollywood dos anos 1920 nessa adaptação de uma peça que imagina os fatos em torno de um mistério real: a morte do produtor Thomas Ince, em 1924. Não houve autópsia, a causa da morte não foi determinada, ninguém foi interrogado.

Bogdanovich ouviu de Orson Welles a fofoca: Ince teria sido morto por William Randolph Hearst, poderosíssimo magnata da imprensa que inspirou Cidadão Kane, clássico dirigido por Welles. Hearst reuniu um grupo para um passeio em seu iate.

Lá, descobriu a relação entre sua amante, a atriz Marion Davies, e Charles Chaplin – e teria matado Ince por engano, pensando que fosse Chaplin.

O filme, que completa 20 anos este ano, avisa no começo que se trata do “boato mais ouvido”. E através dele, o diretor traça seus retratos de uma nova realeza criada por uma arte naquele momento tão nova como o cinema. É difícil ver Eddie Izzard como Chaplin, e Edward Herrmann parece muito frágil como Hearst (estamos acostumados à imagem mais dura e ameaçadora do magnata, disfarçada em Cidadão Kane ou direta no recente Mank).

Mas Kirsten Dunst está bem como Marion Davies, a amante fiel de Hearst, que o amava de verdade. Se tudo aconteceu ou não, esse Olimpo cinematográfico foi real e é nele que o diretor estava mais interessado.

Onde ver: DVD

The Cat’s Meow, 2001.
Direção: Peter Bogdanovich. Elenco: Kirsten Dunst, Eddie Izzard, Edward Herrmann, Cary Elwes, Joanna Lumley, Jennifer Tilly

ÚLTIMA HORA
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 19

Tinta de máquina de escrever nas veias

Ben Hecht e Charles MacArthur escreveram a peça The Front Page, de 1928, com base em suas experiências como repórteres em Chicago. Levaram ao palco um espírito de vale tudo pela notícia, em que puxar o tapete dos outros era só um dos talentos dos melhores no ofício.

A trama se passa quase toda na sala de imprensa de um complexo de tribunal e cadeia em Chicago, onde repórteres de vários jornais passam tempo à espera da execução de um suposto revolucionário comunista condenado por assassinato. Walter Burns (Adolphe Menjou), um editor implacável, faz de tudo para que seu melhor repórter, Hildy Johnson (Pat O’Brien) cubra a notícia. Mas Hildy está largando tudo para se casar.

Porém, ele tem tinta de máquina de escrever correndo nas veias, e ela fala mais alto quando o condenado escapa no meio da noite e pode, de quebra, expor um escândalo de corrupção. Cheia de personagens entrando e saindo de cena, e metralhando diálogos, a peça acabou levada às telas nos primeiros anos do cinema falado. Numa época de muitos diálogos empolados e “importantes”, Última Hora, que completa 90 anos este ano, ajudou a consolidar o coloquialismo de falas espirituosas.

Lewis Milestone era um diretor que não se dobrava à tirania do som naqueles anos (quando o protagonismo dos microfones restringia o movimento das câmeras). Já tinha mostrado isso em Sem Novidades no Front, no ano anterior. Aqui, há vários planos de encher os olhos, como o plano-sequência da caminhada de Burns pela redação do jornal, que começa com o editor sentado em sua mesa, visto através do vidro (mas não sabemos disso até a câmera se afastar), seguido por outros dois na gráfica (um com a câmera baixa, outro com o personagem visto por trás das máquinas).

O diretor até usa o som de modo bem criativo, quando Burns se apoia numa máquina de escrever para soltar um sonoro “filho da puta” que se torna inaudível pelo barulho da máquina na hora exata.

The Front Page gerou outras três adaptações. Jejum de Amor (1940), antológica, é dirigida por Howard Hawks e adiciona romance ao transformar Hildy em personagem feminino (Cary Grant e Rosalind Russell estrelam o filme). A Primeira Página (1974) é o tributo de Billy Wilder, com Walter Matthau e Jack Lemmon. E Troca de Maridos (1988), não tão bom quanto os outros, mas ainda interessante, de novo muda o sexo de um dos personagens (Burt Reynolds, Kathleen Turner e Christopher Reeve estrelam).

O original, menos conhecido hoje que as versões de Hawks e Wilder, mantém seu frescor, humor e agilidade, que escondem um pouco a importância que ele teve na naturalização dos diálogos no cinema americano e no surgimento da comédia maluca (ou screwball comedy) na década.

Onde ver: YouTube

The Front Page, 1931.
Direção: Lewis Milestone. Elenco: Adolphe Menjou, Pat O’Brien, Mary Brian, Edward Everett Horton

NOMADLAND
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 18

Ventos neo-realistas

O filme que ganhou o Globo de Ouro, o Bafta e é aposta forte para o Oscar é uma visão atenta e generosa sobre pessoas que são obrigadas ou que de alguma maneira optam viver em trailers nas estradas e de subempregos. Frances McDormand, excelente como sempre, é a protagonista, que contracena com diversos coadjuvantes que interpretam a si mesmos.

Com isso, a diretora Chloé Zhao reforça a pegada de realismo social e de observação sobre uma realidade econômica que muita gente prefere colocar pra baixo do tapete. No caso de Fern, a personagem de Frances McDormand, ela não foi levada a essa situação só por ter perdido o emprego: ela perdeu uma cidade inteira.

O local onde morava virou uma cidade-fantasma depois que a fábrica onde todos trabalhavam foi fechada. Se tornou uma nômade e descobriu que existe uma comunidade de nômades que se apoiam durante a jornada errante. Frances mergulhou na personagem, dormindo na van e trabalhando nas funções em que a personagem trabalha.

Então, muito do filme tem esse caráter de documentário, dedicado a mostrar a rotina desse modo de vida, as relações que se criam, os encontros e desencontros. Essa urgência em retratar uma questão atual, com uma atriz profissional de grande gabarito contracenando com não-atores que fazem parte do meio retratado, aproxima o filme de movimentos neo-realistas, como o iraniano dos anos 1990 ou, indo mais longe no tempo, o italiano dos anos 1940 e 1950.

A trama, por sua vez, não apresenta uma história com começo, meio e fim. Nomadland é um filme que apresenta uma situação e suas particularidades. Como seus personagens, vai um pouco com o vento. E, com isso, sem apelar para o melodrama, consegue momentos muito humanos e tocantes.

Onde ver: cinemas

Nomadland, 2020.
Direção: Chloé Zhao. Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Swankie.

TUDO ENTRE NÓS
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 17

Compêndio rememorado

Amigos de adolescência, dois dos maiores compositores da música popular e líderes da maior banda de rock da história, John Lennon e Paul McCartney estavam rompidos e afastados desde o fim dos Beatles em 1970. Em 1976, Lennon havia se recolhido à vida familiar, depois de deixar expirar o contrato com a gravadora. Paul, por sua vez, estava vivendo grande sucesso liderando os Wings. E aí, um dia, Paul estava em Nova York e foi ao edifício Dakota visitar o velho parceiro.

Esse telefilme do canal musical VH1 imagina como teria sido esse encontro: os dois ex-beatles passando a tarde juntos, expondo suas dores, acertando suas contas, meditando, fumando um baseado, rememorando momentos felizes, tocando uma musiquinha juntos. A visita realmente aconteceu, mas o conteúdo do encontro é imaginação do roteiro (menos a quase aparição surpresa no Saturday Night Live, que quase aconteceu mesmo). Também não foi o primeiro reencontro da dupla após o fim dos Beatles.

Essa licença poética ajuda a dar mais significado ao fato da visita. O que aconteceu ali é um compêndio rememorado de elementos da vida dos dois amigos e dos Beatles: quase tudo é, de alguma maneira, citado ou discutido (embora sem músicas do grupo na trilha).

A direção ficou a cargo de um velho conhecido dos Beatles: Michael Lindsay-Hogg, diretor de alguns clipes do grupo e do documentário Let it Be (1970). É um retrato simpático e honesto, bem interpretado (especialmente por Aidan Quinn como Paul McCartney). Focado basicamente em uma conversa entre dois amigos com muita roupa suja para lavar.

Onde ver: YouTube

Two of Us, 2000.
Direção: Michael Lindsay-Hogg. Elenco: Aidan Quinn, Jared Harris, Neil Foster.

LOUCOS DE PAIXÃO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 16

Sexo, desencanto e depressão

Fez bastante barulho o encontro sexual entre Susan Sarandon (a garçonete mais velha e desencantada) e James Spader (o rico deprimido mais jovem). O filme não vai muito além de um romance entre pessoas bem diferentes, que precisam aceitar e superar isso e não resistem à atração, mesmo com tanto contra.

Mas ele narra bem essa história e toca um pouco nas questões de preconceito e aceitação social de um casal como esse. Cada personagem tem seus demônios particulares e isso é bom para o drama. O final meio conto-de-fadas destoa (o original foi mudado após exibições-teste).

Mas Susan é um mulheraço, claro: a cena de sexo ardente deu o que falar na época.

Onde ver: DVD

White Palace, 1990.
Direção: Luis Mandoki. Elenco: Susan Sarandon, James Spader, Jason Alexander, Kathy Bates, Eileen Brennan.

O REVERSO DA FORTUNA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 15

Navegando num mistério real

Adaptar uma história real em que o tema central é um julgamento por assassinato em que não se sabe bem o que é verdade e o que é mentira não é fácil. Ainda mais quando a escolha é colocar a narração na boca da possível vítima, em coma, com ela precisando manter o mistério.

Ela, no caso, é a riquíssima esposa vivida por Glenn Close. O acusado, o marido, um aristocrata arrogante vivido por Jeremy Irons (que ganhou o Oscar), condenado no primeiro julgamento e inocentado no segundo. Papel difícil de Jeremy Irons, que rendeu um Oscar ao ator.

Navegando entre as estratégias da defesa e flashbacks, o filme do diretor iraniano é inteligente e alterna com destreza o cotidiano plebeu e algo caótico do advogado (o filme é baseado no livro dele sobre o caso) e a vida (e não vida) de nariz empinado dos ricaços.

Onde ver: DVD

Reversal of Fortune, 1990.
Direção: Barbet Schroeder. Elenco: Jeremy Irons, Glenn Close, Ron Silver, Annabella Sciorra, Christine Baranski, Julie Hagerty

LIGA DA JUSTIÇA DE ZACK SNYDER
⭐½
Diário de Filmes 2021: 36

Egotrip sem freios

Na primeiríssima cena do corte de Liga da Justiça que esteve nos cinemas em 2017, o Super-Homem é visto pela lente de um celular, filmado por algumas crianças que fazem algumas perguntas ao herói após um salvamento. Meio constrangido, ele reserva um tempinho para responder as perguntas. Além da boca esquisita de Henry Cavill (que tentou eliminar em CGI o bigode que o ator ostentava na ocasião), saltava aos olhos o reencontro da plateia com um personagem que fazia tempo não era visto no cinema: o Super-Homem.

Aquele Super-Homem, pelo menos, e não a versão carrancuda que Zack Snyder imprimiu em O Homem de Aço e Batman vs. Superman. Aquele personagem da abertura de Liga era uma novidade neste universo compartilhado da DC no cinema, e foi fruto direto da troca de comando na direção do filme (a trilha de Danny Elfman até resgatou de leve o tema clássico de John Williams).

Como quase todo mundo sabe, Snyder teve que sair do projeto antes de conclui-lo para lidar com uma tragédia pessoal. A Warner chamou Joss Whedon para terminar o filme, na expectativa de, no fim, ter algo mais próximo ao clima dos dois Vingadores que Whedon dirigiu.

Ele fez o que deu pra fazer com o material que tinha. Não foi muito.

O resultado foi meio uma criatura de Frankenstein, um remendo que terminou não sendo nem um filme padrão de Snyder (que mesmo assim continuou tendo a assinatura solo como diretor), nem um filme de Whedon (que é creditado apenas como co-roteirista). Era um filme meio esquizofrênico, que brigava consigo mesmo o tempo todo.

Mas Zack Snyder tem um grupo de fãs ruidosos, que logo fez campanha para ver o “corte original” do diretor (que não existia, visto que ele não havia editado nada). Snyder abraçou a campanha, fez seu lobby e conseguiu o aval da Warner para fazer sua montagem mais pessoal, com o estúdio de olho em dar um gás em seu serviço próprio de streaming.

Então, a primeira coisa a considerar é: Liga da Justiça de Zack Snyder é a versão original do diretor? A resposta é “não”.

É a visão dele combinando o que pretendia no começo mais suas ideias após ver a versão finalizada por Whedon (o que achou que deu certo, o que achou que deu errado, inclusive sobre o que ele mesmo tinha feito). E ainda o que mais resolveu fazer sabendo que, sendo uma produção para o streaming e não para o cinema, poderia entregar um filme com mais tempo de duração.

Daí, chegamos às 4 horas e dois minutos de duração. O Poderoso Chefão – Parte II (1974) tem 3h22. Ben-Hur (1959) tem 3h32. Lawrence da Arábia (1962) tem 3h48. …E o Vento Levou (1939) tem 3h58. É evidente que no caso de Liga não é para tanto: essas 4h02 são de um diretor sem freio algum para sintetizar o próprio filme. Uma viagem sem volta a uma egotrip.

Faltou limite e o filme se confia no fato de que, já que é para o streaming mesmo, o público pode assisti-lo como minissérie, se quiser. O novo Liga é até dividido em capítulos, para facilitar essa opção.

É claro que há ganhos nessa metragem maior que a da outra versão. Notadamente para o personagem Ciborgue, que ganhou uma história mais detalhada e com peso dramático maior. Também o Flash recebeu alguns momentos melhores.

E, considerando o remendo que é a outra versão, esta é, sem dúvida, mais coerente. É decorrência direta e lógica de O Homem de Aço e Batman vs. Superman. Agora, se isso faz dela um filme melhor, são outros quinhentos. Porque ser uma decorrência lógica, nesse caso, implica em também mergulhar em tudo o que os dois filmes anteriores têm de problemáticos. Snyder é fiel a seu – digamos assim – estilo: tons cinzas e marrons, caras emburradas e infinitas câmeras lentas, que são o que o diretor realmente acredita que dão intensidade dramática a um filme.

Então tem coisas melhores que a versão finalizada por Whedon? Sim. Tem coisas piores? Tem, também.

Visto de uma vez, é um filme interminável. Isso é quase literal: conclui, por assim dizer, com um epílogo inacreditável de longo, que empilha cenas sem parar depois de a história ter acabado. Não só aí, mas pelo meio do filme também brotam cenas e personagens inúteis, enxertados apenas para a alegria dos leitores que vão reconhecê-los dos quadrinhos.

O maior exemplo disso é o Caçador de Marte. Um personagem bem menos conhecido (se não for quase desconhecido) por quem não é leitor da DC, ausente da versão de Joss Whedon e que aparece em duas cenas que não dizem nada. Pelo contrário, o espectador fica se perguntando por que, afinal, ele não toma parte da ação, já que estava por ali.

O que ficou de fora foi tudo o que Whedon filmou a mais para dar uma levantada no astral da outra versão. Por exemplo, o momento em que o Super-Homem deixa momentaneamente de lutar com o vilão para – vejam só – salvar diretamente pessoas em perigo.

Para Zack Snyder, tendo em vista os filmes anteriores e esta versão, salvar pessoas é um inconveniente. O pouco interesse do Super-Homem em salvar pessoas no meio da destruição do quebra-pau em Metrópolis, em O Homem de Aço, virou piada, mas o diretor não aprendeu com isso.

Agora, a solução de Snyder para evitar novos memes é convenientemente localizar a ação do clímax e do combate com o vilão em uma área desabitada. Na versão de Whedon, há moradores ali, inocentes que precisam ser protegidos e ajudados. Agora – que confortável – não é preciso salvar ninguém e os heróis podem se concentrar naquilo que interessa de verdade ao diretor: a troca supostamente épica de sopapos com o vilão da vez.

Uma coisa importante a levar em conta é que o pior da Liga de Whedon (com exceção da boca esquisita de Henry Cavill) já estava no que Zack Snyder tinha feito até sair do projeto. E está de volta.

O Batman, por exemplo, recruta o Aquaman e o Flash no começo do filme. Mas faz isso como Bruce Wayne (!), revelando de primeira sua identidade secreta a desconhecidos. A ideia já é ridícula por si só, mas a construção das cenas torna tudo ainda pior: parece que só importou o momento de efeito (Barry Allen pegando o batarangue que Bruce Wayne atira e descobrindo, assim, que Wayne é o Batman), mas a construção da cena para chegar lá é feita de qualquer jeito.

Darkseid, vilão icônico da DC, criação de Jack Kirby que fez história até nos Superamigos, foi vendido como uma grande novidade dessa nova versão, mas não rende 10% do anunciado. Só age em flashback e sonhos. Na hora H, ainda temos que nos contentar mesmo é com o Lobo da Estepe.

Ou seja: o grande vilão de Liga da Justiça de Zack Snyder continua sendo um capanga, um personagem da quarta divisão da DC Comics, com carisma zero e sem uma motivação minimamente interessante. Aliás, tanto Darkseid quanto seu ajudante, e também os cenários sem qualquer verdade, parecem ter saído direto de um videogame.

E, por fim, ainda tem esse formato 4:3, quase quadrado, como os das TVs antigas, um troço injustificável. Foi justificado como uma “opção artística” do diretor porque se aproxima da tela imax. Mas, francamente… no streaming? Parece só mais um entre tantos caprichos gratuitos do diretor com essa versão.

Onde ver: Google Play, Looke, AppleTV, YouTube.

Zack Snyder’s Justice League, 2021.
Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, J.K. Simmons, Jeremy Irons, Willem Dafoe, Jesse Eisenberg, Robin Wright, Connie Nielsen, Amber Heard, Diane Lane, Billy Crudup.

***

LEIA MAIS:

A VERDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 14

Quatro anos antes, Brigitte Bardot apareceu para o mundo (e como veio ao mundo) em E Deus Criou a Mulher. Em A Verdade, ela tentou dar um passo para um desafio dramático maior. Esplendorosa, é a jovem de vida livre que está sendo julgada pelo assassinato do amante. A moralidade entra na balança, enquanto a história trágica de amor (ou não) é contada em flashback, ainda com doses generosas do corpo de Bardot.

Onde ver: DVD, YouTube

La Verité, 1960.
Direção: Henri-Georges Clouzot. Elenco: Brigitte Bardot, Sami Frey, Marie-Jose Nat.

O GAROTO
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 13

100 anos de risos e, talvez, uma lágrima

100 anos este ano de O Garoto. “Um filme com um sorriso – e, talvez, uma lágrima”, diz a primeira cartela do filme, primeiro longa dirigido por Charles Chaplin. O espírito já está posto desde o princípio: a comédia misturada com o melodrama, que Chaplin sabia fazer como ninguém.

Talvez fosse um aviso, para o espectador que estivesse esperando só as risadas. Mas o drama é que abre o filme, com a mulher que se vê obrigada a abrir mão de seu bebê. Ela tenta deixá-lo com uma família rica, mas, por circunstâncias do destino, ele vai parar nos braços do paupérrimo Carlitos, que até tenta, mas não consegue se livrar dele naquele primeiro momento.

Alguns anos depois, vem a famosa cena que mostra o entrosamento entre esse pai e esse filho. Eles trabalham juntos: Carlitos é o vidraceiro que providencialmente aparece para consertar as janelas que o moleque quebra.

São transgressores contra uma sociedade que não os entende e logo se voltará contra eles quando tenta separá-los. Vem aí a grande sequência dramática do filme: o garotinho chorando no caminhão pelo pai e Carlitos correndo pelos telhados para alcançá-lo. Merece, sem dúvida, a lágrima prometida no começo do filme.

É tocante, ainda mais quando se pensa na infância miserável e sem pai do próprio Chaplin. O retrato da vizinhança pobre vem da lembrança de seus próprios dias difíceis em Londres: a pobreza, a mãe com problemas mentais, a possibilidade de ir parar num orfanato (chegando a fugir da polícia para evitar isso). De uma maneira ou de outro, tudo isso está no filme.

A química entre Chaplin e Coogan é admirável e vem da relação que o cineasta cultivou com o astro mirim fora dos sets: o levava a parques de diversões e a passeios. Essa proximidade por ter vindo da infância sem pai de Charlie ou do fato de que ele mesmo havia perdido há pouco tempo um filho, de seu casamento com Mildred Harris: o bebê morreu três dias depois de nascer. De qualquer forma, resultou em uma relação sincera de carinho que foi captada perfeitamente pelo filme.

Chaplin relançou o filme em 1971. Com a reedição, ficou mais curto: de 1h08 para 50min, eliminando cenas que o diretor naquele momento considerou excessivamente sentimentais (todas envolvendo o sofrimento da mãe, vivida por Edna Purviance, parceira de longa da data de Chaplin em seus filmes). O Garoto ganhou também uma bela trilha sonora composta por Chaplin.

O filme, que foi concebido como curta e foi crescendo na duração durante a produção, mudou a carreira de Chaplin. Ele já tinha criado a United Artists em 1919 (seu próprio estúdio, em sociedade com o diretor D.W. Griffith e os astros Douglas Fairbanks e Mary Pickford) e O Garoto seria um dos últimos produtos de seu contrato com a First National. O sucesso estrondoso redirecionou sua carreira para os longas-metragens.

E ainda em 1921 as memórias que estão por todo lado em O Garoto ganham vida quando Chaplin visita a Inglaterra, para onde não tinha voltado desde 1912, quando viajou para os Estados Unidos. Foi quando reencontrou sua mãe, a quem mantinha sob cuidados em seu país natal, e a levou para morar com ele e o irmão Sidney nos EUA.

Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, YouTube

The Kid, 1921
Direção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Jackie Coogan, Edna Purviance.

Páginas

Sigam-me os bons (no Twitter)