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Eu Daniel Blake

DIÁRIO DE FILMES 2018: 11 – EU, DANIEL BLAKE
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Em uma poderosa denúncia sobre um sistema que esmaga pessoas, Ken Loach mostra a crueldade da lógica da desumanização dos serviços em uma sociedade tida por muitos como um paraíso desejado. Daniel Blake é jogado em um labirinto burocrático kafkiano, onde sua médica o proíbe de voltar ao trabalho após um ataque cardíaco, mas a empresa que avalia o seguro-saúde para o governo britânico nega a ele o benefício. Ainda assim, ele encontra tempo e disposição para ajudar uma mãe e os filhos dela que parecem em situação ainda pior. Sóbrio, mas muito contudente.

Eu, Daniel Blake. I, Daniel Blake. Reino Unido/ França/ Bélgica, 2016. Direção: Ken Loach. Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Brianma Shann, Sharon Percy. Na Netflix.

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Capitalismo - Uma Historia de Amor - 02

DIÁRIO DE FILMES 2018: 7 – CAPITALISMO – UMA HISTÓRIA DE AMOR
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Michael Moore investiga o que esteve por trás da crise americana provocada pela bolha habitacional e as tramoias dos bancos atrás de cada vez mais lucros – uma história de terror que depois gerou o filme A Grande Aposta (2015). Sempre combinando opiniões fortes e provocações com doses de bom humor, Moore escancara as engrenagens de um sistema que privilegiou as corporações em um momento crítico do país a um alto custo social. Para mostrar que o problema não é de hoje, o cineasta volta, em alguns momentos, a seu primeiro filme, Roger & Eu (1989).

Capitalismo – Uma História de Amor. Capitalism – A Love Story. Estados Unidos, 2009. Direção: Michael Moore. No Netflix.

Com Amor Van Gogh 2

DIÁRIO DE FILMES 2018: 6 – COM AMOR, VAN GOGH
Sem borda - 04 estrelas

Todo animado a partir de pinturas a óleo, o filme da polonesa Dorota Kobiela e do britânico Hugh Welchman é um evento visual. A narrativa bebe na fonte de Cidadão Kane para recontar os últimos dias do pintor holandês. Mais detalhes na minha crítica.

Com Amor, Van Gogh. Loving Vincent. Reino Unido/ Polônia, 2017. Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman. Vozes na dublagem original: Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan. No cinema.

Ultimo Desafio - 01

DIÁRIO DE FILMES 2018: 4 – O ÚLTIMO DESAFIO
Sem borda - 2,5 estrelas

Me lembro quando Rodrigo Santoro falou sobre este filme, que quis fazer porque era um sonho de fã fazer um filme com Schwarzenegger. Todo o filme, na verdade, emite essa aura de fã pelo velho Schwarza, dando a ele algumas frases legais (“Você ferrou o meu carro!”, diz o bandido; “Você ferrou o meu dia de folga”, ele responde) e o situando numa atmosfera de faroeste: um xerife que, com seus poucos ajudantes, tenta impedir a fuga de um bandido. Não dá pra não pensar em John Wayne em Onde Começa o Inferno (1959).

O Último Desafio. The Last Stand. EUA, 2013. Direção: Jae-woo Kim. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Forest Whitaker, Jaimie Alexander, Rodrigo Santoro, Peter Stormare, Johnny Knoxville, Luis Guzman, Eduardo Noriega, Harry Dean Stanton. Na TV, 7/1

Missao Madrinha de Casamento - 03

DIÁRIO DE FILMES 2018: 3 – MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO
Sem borda - 2,5 estrelas

Foi boa a revisão de Missão Madrinha de Casamento, o filme subiu um pouco no meu conceito. A parte referente à trama do casamento, mesmo, aquela rivalidade entre Kristen Wiig (a velha melhor amiga de vida bagunçada) com Rose Byrne (a nova melhor amiga perfeitinha) continua me parecendo bem bobo, rotineiro e sem graça. Mas quando o filme foca só em Kristen melhora muito. Um destaque é a cena em que a personagem, confeiteira que desistiu da profissão e está bem pra baixo em casa, é mostrada preparando a massa, colocando pra cozinhar e decorando um único cupcake pra ela mesma.

Missão Madrinha de Casamento. Bridesmaids. EUA, 2011. Direção: Paul Feig. Elenco: Kristen Wiig, Rose Byrne, Maya Rudolph, Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Ellie Kemper, Wendi McLendon Covey, Jill Clayburgh. Na TV, 6/1

Murder on the Orient Express (2017) Kenneth Branagh

DIÁRIO DE FILMES 2018: 2 – ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE
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Das dezenas de romances de mistério que Agatha Christie escreveu, Assassinato no Expresso do Oriente é um dos mais populares, e com seu personagem mais popular, Hercule Poirot, detetive que rivaliza com Sherlock Holmes, se não no tamanho da fama além da literatura, certamente em capacidade dedutiva e excentricidades. Mas Kenneth Branagh estava disposto a não retratar este apenas como apenas mais um caso para Poirot. Ao contrário da (ótima) versão de 1974 de Sidney Lumet, o detetive é abalado em suas certezas pela trama que vai descobrindo a partir do assassinato de um sujeito condenável a bordo do Expresso do Oriente, que acaba preso no meio de seu trajeto por uma avalanche. Não por acaso, começa como em um filme de James Bond, com Poirot desvendando um caso em jerusalém que não tem nada a ver com a história central, a não ser por mostrar a absoluta confiança que o detetive tem em si mesmo.

Assassinato no Expresso do Oriente. Murder on the Orient Express. EUA/ Malta, 2017. Direção: Kenneth Branagh. Elenco: Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Daisy Ridley, Penépole Cruz, Willem Dafoe, Johnny Depp, Derek Jacobi. No cinema, 3/1

Roda Gigante

DIÁRIO DE FILMES 2018: 1 – RODA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

Woody Allen situa seu filme nos anos 1950, em uma decadente, mas ainda barulhenta Coney Island, com seus parques de diversões, neons e praias. Aí, trama um entrelaçado de tragédias humanas centrado principalmente na infeliz Ginny (Kate Winslet). Seu caso com o salva-vidas vivido por Justin Timberlake e a vaga esperança de escapar de sua vida miserável junto ao marido bruto que ela não ama e o parque de diversões que ela odeia passam a ser ameaçada pela aparição da filha do marido, fugindo do marido gangster e que também se interessa pelo salva-vidas. A luz incrível de Vittorio Storaro faz deste um dos filmes visualmente mais bonitos de Allen. O diretor reduz os planos-sequência, usando mais os planos e contraplanos, deixando os planos mais longos para monólogos de Winslet e uma grande de desestabilização da família. A inspiração teatral está sempre presente, assim como o ar de tragédia.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple. No cinema, 3/1

Estrelas Alem do Tempo - 06

Um ambiente veladamente (mas não muito) hostil: Taraji P. Henson em “Estrelas Além do Tempo”

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO
Sem borda - 04 estrelas

A inteligência não tem cor 

É de se pensar que a Nasa, a agência espacial americana, é e sempre foi um lugar à frente de seu tempo. Onde o futuro chega primeiro. Mas Estrelas Além do Tempo (2016), indicado ao Oscar de melhor filme, mostra que, nos anos 1950 e 1960, em certos aspectos, a agência espacial americana era um ambiente tão retrógrado quanto os piores locais dos Estados Unidos na época. O filme é centrado em matemáticas negras que trabalham na agência: em um prédio separado, usando banheiros e bebedores separados dos brancos.

Taraji P. Henson, Janelle Monäe e Octavia Spencer interpretam as três personagens reais em que o filme se concentra: respectivamente Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, que são algumas histórias contadas no livro-reportagem homônimo de Margot Lee Shetterly.

São as “hidden figures” do título original, bem melhor que o brasileiro. Johnson é requisitada para ajudar nos cálculos para levar um americano ao espaço pela primeira vez (e trazê-lo de lá em segurança). De repente, é a única pessoa negra em um ambiente veladamente (mas nem tanto) hostil. Vaughan luta para ter a chance de estudar para se tornar engenheira, embora as leis do estado não permitam que ela almeje ir tão longe. E Jackson, chefe da sessão, lida com a ameaça de demissão de todas as matemáticas pela informática, que já está batendo na porta.

Há filmes que se destacam por seus voos narrativos. Não é caso aqui. O diretor Theodore Melfi prefere não ousar, e dar todo o destaque à história que conta, importante e interessante. O filme segue de maneira bastante tradicional, deixando para o elenco e as personagens que interpretam a responsabilidade de elevar o filme. Também seus coadjuvantes dão conta (entre eles, Maheshala Ali. Que ano desse ator! Fez também Moonlight, pelo qual ganhou o Oscar, e ainda foi o vilão da série Luke Cage).

Mas o destaque mesmo é o trio central, que leva a trama com brilho. Se ainda é necessário mostrar, está aí mais uma prova de que a inteligência e o talento não têm cor ou sexo.

Estrelas Além do Tempo. Hidden Figures. EUA, 2016. Direção: Theodore Melfi. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali.

Castelo Vogelod - 01

Um crime volta à baila: Arnold Kroff e Olga Tschechowa em ‘O Castelo Vogelöd’

O CASTELO VOGELÖD
Estrelas-03 e meia juntas-site

O alemão F.W. Murnau enfileirou filmes maravilhosos (Nosferatu, 1922; A Última Gargalhada, 1925; Fausto, 1926; Aurora, 1927). O Castelo Vogelöd é de um pouco antes dessa fase. É um filme que parece se interessar menos pela criatividade visual, que veríamos nos filmes seguintes, e mais por sua trama rocambolesca.

É uma história de mistério que se passa numa mansão no campo, onde ricaços reúnem-se para uma caçada. Mas aparece uma visita inconveniente: um conde que é suspeito de matar o irmão. É ainda mais inconveniente porque os anfitriões aguardam a chegada da viúva, que, claro, não gosta nada de estar no mesmo lugar que o conde.

Mas ela é convencida a ficar porque também está para chegar um parente que é padre e com quem ela precisa desabafar. A partir da chegada do religioso, o clima de mistério se estabelece: sobre o passado, com relação ao que realmente aconteceu, e sobre o presente, porque um desaparecimento movimenta a trama. Um pesadelo responde pelo elemento fantástico que surge no filme.

Aos olhos de hoje, milhares e milhares de filmes depois, o mistério é facilmente desvendável e certas motivações parecem inocentes. É difícil imaginar o quanto uma ou outra reviravolta impactou a plateia da época. A restauração da coleção Expressionismo Alemão, que a Obras-Primas do Cinema lançou em DVD, impressiona, mas é verdade também que os filmes que Murnau dirigiu depois se mantiveram bem mais impactantes (um deles, Fausto, também está nesta coleção).

O Castelo Vogelöd. Schloss Vogelöd. Alemanha, 1921. Direção: F.W. Murnau. Roteiro: Carl Mayer, baseado em romance de Rudolf Stratz. Elenco: Lothar Mehrnet, Olga Tschechowa, Paul Bildt, Arnold Korff. 

Rocco e Seus Irmaos - 03

ROCCO E SEUS IRMÃOS
Sem borda - 05 estrelas

Não sou o maior dos admiradores do cinema de Visconti. Não gosto de Sedução da Carne (1954), nem de Morte em Veneza (1971). Mas gosto demais de O Leopardo (1963) e, principalmente, de Rocco e Seus Irmãos. Há muitos anos, eu não o revia, no entanto. Ele não deixa o melhor dos sentimentos ao sair dele.

Visconti não alivia ao contar a história da família Parondi. A chegada com esperanças na mudança do sul pobre da Itália para Milão, metrópole do norte do país, está sempre à sombra dos problemas e com cheiro de tragédia. A intranquilidade é evidenciada no contraste entre os dois irmãos que protagonizam o filme: Rocco (Alain Delon) e Simone (Renato Salvatore).

O filme é dividido em capítulos mais ou menos centrados em cada um dos cinco irmãos, mas o bondoso e correto Rocco e o egoísta e malandro Simone dominam a cena. O conflito explode quando eles se envolvem com a mesma mulher, a prostituta Nadia (Annie Girardot).

Visconti quebra as expectativas quando coloca Rocco, que seria o pilar moral do filme, em situações onde precisa escolher entre a família e “o que é certo”. Ele é empurrado pela trama a fazer escolhas que vão engasgando o espectador que se envolve com a história.

É uma espiral descendente, com Nadia no centro dela. Um dos irmãos mais jovens, Ciro (Max Cartier) acaba ganhando corpo do meio pro fim do filme (que não me lembrava como é longo: 2h57 de duração) ao se tornar um contraponto para Rocco, até o momento mais decisivo para a unidade da família Parondi.

Com bela fotografia em preto-e-branco de Giuseppe Rotunno (principalmente na muito impressionante cena entre Rocco e Nadia na catedral de Milão) e música de Nino Rota, Rocco e Seus Irmãos ainda traz um pouco o gosto do neo-realismo, que Visconti frequentou nos anos 1940, mesmo o diretor já tendo abraçado produções com mais dinheiro e de época nos anos 1950. Mas o que se sobressai é a questão central: até onde ser bom é bom?

Rocco e Seus Irmãos. Rocco i Suoi Fratelli/ Rocco et Ses Frères. Itália/ França, 1960.  Direção: Luchino Visconti. Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Roger Hanin, Suzy Delair, Claudia Cardinale.

HER

Namoro virtual: Joaquin Phoenix em “Ela”

ELA
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A relação das pessoas com inteligências artificiais são um tema caro ao cinema, desde Metrópolis (1926), passando por filmes como Blade Runner (1982), D.A.R.Y.L. (1985), O Exterminador do Futuro (1984), Inteligência Artificial (2001), Simone (2002), Eu, Robô (2004). Com diferenças de temas e gêneros. Ela (2013) aborda um viés pouco comum: o romance.

Na história, Theodore (Joaquin Phoenix) é o redator de uma empresa especializada em criar cartas falsamente manuscritas e pessoais para seus clientes. Solitário desde que a esposa (Rooney Mara) decidiu se divorciar, ele compra um novo sistema operacional que interage com o dono em um nível pessoal inédito, adaptado ao cliente e evoluindo a partir do diálogo entre eles.

“Samantha” (voz de Scarlett Johansson) se mostra atenciosa, bem humorada, super competente e curiosa. Pode, nesse futuro em que já é banal falar com máquinas, acontecer o amor entre uma pessoa e um sistema operacional? Há diferença nisso para um namoro com uma pessoa distante via internet? Essa inteligência artificial, na medida em que aprende e demonstra sentimentos e prazer, é uma “pessoa sem corpo”? Essa relação é o reflexo de uma humanidade cada vez mais atenta a seus equipamentos eletrônicos que às pessoas à sua volta?

E se essas inteligências artificiais passarem a tomar suas próprias decisões? Qual o passo seguinte? Se elas se comunicarem entre si?

Todas essas questões são tratadas pelo filme de maneira delicada, envolvendo a relação entre Theodore e Samantha, com as idas e vindas que muitos casais conhecem bem. O filme de Spike Jonze tem a sacada de escolher a atriz ideal para a “mocinha”: Scarlett Johansson tem uma voz marcante e sedutora. Aliás, em termos de voz, destaque também para a engraçada participação de Kristen Wiig, a “Gatinha Sexy” que Theodore encontra em uma sala de bate-papo.

Ela. Her. Estados Unidos, 2013. Direção e roteiro: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Chris Pratt, Rooney Mara, Olivia Wilde. Vozes: Scarlett Johansson, Kristen Wiig.

sherlock-the-six-thatchers-01

Amanda Abbington, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, em “Sherlock – The Six Thatchers” (2017)

 03 – SHERLOCK – THE SIX THATCHERS

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Antes da estreia da quarta temporada de Sherlock (você sabe, cada episódio da série é um longa-metragem, por isso ele está aqui), os produtores fizeram questão de avisar que seria a mais sombria delas. E eles falavam sério. Mas a grande capacidade narrativa da série garante que, mesmo assim, ela não chega a destoar do tom geral. É o que acontece no episódio de abertura, The Six Thatchers.

O “Thatchers” do título é referente mesmo a Margaret Thatcher, ex-primeira ministra britânica. Como sempre, trata-se de uma referência indireta a uma história original de Arthur Conan Doyle (neste caso, o conto “The Adventure of the Six Napoleons”). Aqui, trata-se de seis estátuas únicas e raras da Dama de Ferro, que alguém está destruindo uma a uma.

Mas esse mistério só entra em cena com o episódio já avançado. A estreia de Rachel Talalay na direção de um episódio da série (ela dirigiu filmes como Tank Girl, 1995, e, recentemente, alguns episódios de séries da DC, como Supergirl e Flash) estabelece um clima antes de mudar de direção.

Começa lidando com a herança do final da terceira temporada: Sherlock (Benedict Cumberbatch) acusado de assassinato e encaminhado para o exílio. Após o interlúdio do episódio especial The Abominable Bride, a série lida com aquele desfecho chocante “elucidando” a situação através das manobras do irmão Mycroft (Mark Gatiss) já no começo deste episódio.

Seguimos com Sherlock resolvendo freneticamente casos menores enquanto aguarda os desdobramentos do que parece ser uma anunciada vingança póstuma de Moriarty. Quando as seis estátuas entram em cena, as complicações da trama vão enredar o passado de Mary Watson (Amanda Abbington), mais uma vez revelando-se uma grande personagem na série. Ela chega a protagonizar um duelo de sagacidade com Sherlock.

Não só ao passado de Mary, mas também às fraquezas de John (Martin Freeman) agora que o casal tem um bebê e o mergulho de Sherlock na própria obsessão são os lembretes sombrios quem vão entremeando o humor e a ação, uma prévia de momentos difíceis que não tardarão a chegar.

Sherlock – The Six Thatchers. Sherlock – The Six Thatchers. Reino Unido, 2017. Direção: Rachel Talalay. Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Amanda Abbington, Mark Gatiss. Download.

mia-madre-02

Margherita Buy e John Turturro em “Mia Madre”

2 – MIA MADRE

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Logo no começo de Mia Madre, uma cineasta que dirige um filme sobre questões sociais (uma fábrica italiana comprada por um americano e que pode fechar colocando todos os trabalhadores na rua) se questiona a cerca do ângulo de câmera que está sendo usado, que mensagem ele vai passar. É uma personagem muito comprometida com seu trabalho. Mas há uma tormenta chegando para complicar sua vida: a doença da sua mãe e o astro de Hollywood que vai atuar em seu filme.

Nanni Moretti já possui uma bela carreira construída principalmente sobre o trânsito entre comédia e drama. Aqui, ele pende mais para o drama, quando trata dos conflitos pessoais de Margherita (Margherita Buy): a mãe, a filha, um relacionamento recém-terminado.

Mas há momentos cômicos reservados a John Turturro, como o astro vaidoso a ponto de mentir descaradamente sobre sua carreira (se gaba de ter trabalhado com Kubrick) e que faz questão de atuar em italiano sem saber a língua. Mas, inseguro, tem dificuldades em decorar quase todas as suas cenas.

O filme é o retrato da vida confusa de Margherita, tendo que lidar com tudo isso ao mesmo tempo e dizendo clichês que nem sabe mais o que significam. Como a repetida instrução para que os atores não sejam só o personagem, mas sejam também eles mesmo, o que só deixa o elenco também confuso.

O fio condutor é a provável morte da mãe. O filme todo é uma espécie de despedida, em que os valores dela – uma professora de latim aposentada, que dá suas últimas aulas, já de cama, à neta – vão ficando como legado. Nesse sentido, é bonita  e simbólica a visita de um ex-aluno e o momento em que ela acontece, para mostrar que muito dessa mulher seguirá vivendo.

Mia Madre. Mia Madre. Itália/ Framça/ Alemanha, 2015. Direção: Nanni Moretti. Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti. 2º filme. Em DVD.

bruxa-02

1 – A BRUXA

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas

Desenhista de produção e figurinista, Robert Eggers estreou na direção de longas com um belo trabalho em A Bruxa (2015). Aproveitou bem o clima opressivo-religioso da região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos do século XVII, onde aconteceu a paranoia da caça ás bruxas e, desde então, um terreno fértil para inspirar situações de terror. Para isso, seu foco é uma família cujas crenças não são aceitas pela vila em que vivem e que acabam se isolando em uma casa no meio de uma floresta.

A situação da família isolada, em um filme de suspense e/ou terror, não é nenhuma novidade – antes pelo contrário, é um baita clichê. Portanto saber lidar tão bem com essa situação também é mérito de Eggers, autor também do roteiro. Ele evita os sustos fáceis e explora o desconforto, a solidão, o desamparo e os conflitos entre os membros da família.

E aquele entre a jovem Thomasin (Anna Taylor-Joy, praticamente uma estreante) e seus irmãos mais novos é o detonador da trama. Aos seus cuidados, o bebê da família inexplicavelmente some na floresta e circunda a casa. É mais um passo de uma série de fatos que vão assombrando a família e aumentando a tensão entre eles.

Uma hora, os gêmeos menores uma hora dizem que falam com o bode, Black Phillip. Em outro momento, Thomasin, para assustá-los, finge que é uma bruxa – algo que vai se voltar contra ela mais tarde. Se há ou não algo sobrenatural acontecendo, é um mistério que o filme, que afirma usar diálogos e situações ocorridas realmente na época, vai aumentando até perto do final, enquanto a família vai se desintegrando.

A Bruxa aproveita os espaços e a luz natural: é imersivo e claustrofóbico, mesmo nos espaços abertos. Nesse aspecto, como em outros – o perigo à espreita em algum lugar, a paranoia, crianças com elementos sombrios – acaba se assemelhando até a A Fita Branca (2009).

A Bruxa. The Witch. Estados Unidos/ Reino Unido/ Canadá/ Brasil, 2015. Direção: Robert Eggers. Elenco: Anna Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw. 1º filme. Em DVD.

 

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O INVENTOR DA MOCIDADE

Sem borda - 04 estrelas

A primeira cena de O Inventor da Mocidade, antes dos créditos, mostra a porta da frente de uma casa e Cary Grant quase saindo dela, quando é interrompido pela voz (suponho) do diretor: “Ainda não, Cary”. Já é uma amostra de que o disparate total vai dar a ordem nessa comédia maluca temporã, da mesma dupla diretor-ator do clássico Levada da Breca (1938), mas produzida e lançada em anos em que Jerry Lewis já começava a dominar o gênero.

Cary Grant foi um ator que se saía tão bem quanto galã romântico quanto num aloprado papel cômico como este: um cientista dedicado a criar uma fórmula para o rejuvenescimento e que, por acidente, tem seu preparo remisturado por um dos macacos do laboratório. Testando o produto em si mesmo, o cientista rejuvenesce mentalmente até a infância.

Cary se entrega bravamente ao papel, assim como Ginger Rogers, que interpreta sua esposa e também é afetada pela fórmula em determinado momento. Tudo vai num crescendo cada vez mais em direção ao mais desenfreado absurdo. Só não chega a romper as barreiras da realidade (bem, a da proposta pelo filme) como os filmes vindouros de Mel Brooks e do trio Zucker-Abrahams-Zucker.

O Inventor da Mocidade injustamente acabou ficando injustamente para a história como “um filme de Marilyn Monroe”. Marilyn estava às vésperas de se tornar a grande estrela que foi: no ano seguinte emplacaria três filmes de sucesso que redefiniram sua carreira. Aqui, embora estampe as capas de DVDs e blu-rays do filme, ainda é coadjuvante.

Mas seu papel também tem destaque: é a secretária sexy da empresa para a qual Cary trabalha e divide com ele algumas das loucuras em que ele se mete. Seu brilho é evidente no meio de duas estrelas consagradas como Cary e Ginger. O próprio Howard Hawks viu logo: a colocou em Os Homens Preferem as Loiras (1953), fez ela canta “Diamonds are a girl’s best friend” e criou um momento antológico que ajudou a consolidar o mito.

Monkey Business. Estados Unidos, 1952. Direção: Howard Hawks. Elenco: Cary Grant, Ginger Rogers, Marilyn Monroe, Charles Coburn, Hugh Marlowe. Visto em DVD.

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CREED, NASCIDO PARA LUTAR

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Creed é, antes de tudo, uma simpática e bonita declaração de amor à série Rocky (que completou 40 anos ontem). Isso, partindo de um ponto de vista inteligente: não o próprio Rocky, mas o filho de um antigo rival e depois amigo. Adonis é filho de Apollo Creed (chamado na dublagem brasileira com o engraçado título de Apollo Doutrinador), gosta e leva jeito par ao boxe e abandona um emprego para seguir no esporte.

Não quer expor a relação com o pai campeão, mas vai pedir ajuda a Rocky para treiná-lo. Não há muita novidade na trama (Rocky é reticente, mas acaba convencido e se afeiçoa pelo rapaz quase como um pai – como acontece, por exemplo, em Menina de Ouro, de Eastwood). Mas Ryan Coogler consegue demonstrar seu carinho pelos personagens.

A trilha “namora” a música emblemática de Bill Conti para a série original o tempo todo, até render-se no inevitável final, que cita Rocky de forma muito mais direta e até desnecessária. Mas é um beco sem saída: em sua grande luta, se Adonis vence, é um grande clichê do cinema; se perde, mas se torna um vencedor moral, é uma situação que a própria série Rocky tornou um clichê próprio.

Creed. Estados Unidos, 2015. Direção: Ryan Coogler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson.

Soy Cuba o Mamute Siberiano

Soy Cuba, o Mamute Siberiano. Brasil, 2005. Direção: Vicente Ferraz. Documentário. Nos primeiros anos da Revolução Cubana, uma equipe cinematográfica soviética aporta na ilha para criar um filme épico sobre o país. Ferraz reconstitui com fartos depoimentos a história de Soy Cuba, o filme que acabou não agradando nem cubanos nem soviéticos e acabou esquecido por décadas, até ser resgatado do limbo por Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. A produção dirigida por Mikhail Kalatozov recebeu, desde então, os devidos elogios pelas belíssimas imagens (que o doc brasileiro usa à vontade).
Sem borda - 04 estrelas

Visto no Canal Curta!

Estrelas-03 e meia juntas-site

Gemma Arterton e Fabrice Luchini

Gemma Arterton e Fabrice Luchini

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte. Gemma Bovery. França/ Reino Unido, 2014. Direção: Anne Fontaine. Elenco: Fabrice Luchini, Gemma Arterton, Jason Flemyng, Isabelle Candelier. Quando descobre que uma jovem e casada inglesa que se mudou para a região chama-se Gemma Bovery, padeiro francês passa a observá-la e a encontrar outros elementos em comum entre a vida da moça e a história de Madame Bovary. Adaptação da história em quadrinhos de Posy Simmonds, que já teve outra obra levada ao cinema e protagonizada também pela linda Gemma Arterton: O Retorno de Tamara (2010). Funciona bastante bem, graças a uma narrativa fluida, que alterna algum humor e momentos sexy, e um elenco com as peças principais bem escolhidas: Gemma e o excelente Fabrice Luchini.

Mad Max - Estrada da Fúria-08

Sem borda - 04 estrelas Mad Max – Estrada da Fúria. Mad Max – Fury Road. Austrália/ Estados Unidos, 2015. Direção: George Miller. Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hout, Hugh Keays-Byrne, Rosie Huntington-Whiteley, Zoë Kravitz. No futuro, em uma Terra pós-apocalíptica, homem que vive pelas estradas se envolve com a fuga das esposas do líder opressor de uma comunidade e que estão em busca de uma povoado que promete ser um paraíso em meio à devastação. O filme é um retorno ao universo da trilogia estrelada por Mel Gibson nos anos 1970 e 1980 e dirigida pelo mesmo George Miller, mas sem a preocupação de definir exatamente se é uma continuação ou reinício da saga. Na prática, trata-se quase o tempo todo de uma fuga alucinada pelo deserto, com muitas proezas de dublês e algum comentário sobre a posição da mulher na sociedade. Interessante (e sinal dos tempos) é a substituição da gasolina pela água, como líquido precioso cuja posse gera os conflitos: na época dos primeiros Mad Max, o mundo vivia a crise do petróleo, hoje é o aquecimento global. O último filme não infantil do australiano como diretor havia sido O Óleo de Lorenzo, do longínquo 1992, e seus dois últimos filmes foram os dois Happy Feet (2006 e 2011).

Christine Fernandes

Christine Fernandes

Sem borda - 2,5 estrelasLara. Brasil, 2002. Direção: Ana Maria Magalhães. Roteiro: Ana Maria Magalhães e Rita Buzzar. Elenco: Christine Fernandes, Maria Manoella, Caco Ciocler, Tuca Andrada, Monique Lafond, Heloísa Périssé, Ana Beatriz Nogueira, Mariana Lima, José Celso Martinez Corrêa. Nos anos 1950, uma descendente de italianos cujos pais cometeram suicídio e que passou por um orfanato, começa a despontar como modelo e se torna uma das maiores musas do cinema brasileiro. Cinebiografia de Odete Lara, vivida por Christine em seu anos de estrelato, por Maria Manoella na juventude e por Luanne Louback quando criança. O filme tem um curioso pudor em mudar os nomes de personagens muito conhecidos, numa espécie de declaração de tomar as liberdades que achar necessária com os fatos (Odete Lara é sempre chamada apenas de Lara, há uma cena com a própria Odete em um filme passando na TV sem que fique claro se há relação na história ou não com a personagem de Christine e personalidades como Glauber Rocha também aparecem sob outro nome). A atriz participou de filmes importantes, teve uma vida conturbada e se afastou da atuação buscando uma vida mais tranquila e espiritual. O filme tenta captar isso, mas a falta de recursos por vezes fica muito evidente (por exemplo, em uma cena de passeata contra o regime militar). Mas é difícil pensar em uma atriz mais ideal que a linda Christine para viver Odete Lara. Manoella, por outro lado, parece deslocada, unidimensional e não rende.

Filme completo no Youtube.

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