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Estrelas-04 e meia juntas-site

Glasnost galática

Grande ideia: a tripulação da Enterprise em uma glasnost intergalática

Grande ideia: a tripulação da Enterprise e a queda do Muro de Berlim no espaço

Quando o quinto Jornada nas Estrelas não rendeu o esperado nem artisticamente, nem comercialmente, parecia que as aventuras da tripulação original haviam chegado ao fim melancolicamente. Mas eis que a Paramount resolveu comemorar os 25 anos da série de TV com um novo filme. E Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida se tornou uma chance de se despedir em grande estilo, já que estava mais ou menos claro desde o início que este, sim, seria a derradeira produção reunindo Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy), McCoy (DeForest Kelley), Scotty (James Doohan), Uhura (Nichelle Nichols), Sulu (George Takei) e Chekov (Walter Koenig).

Assim, a produção cercou-se de alguns cuidados. Leonard Nimoy assumiu a produção executiva e convidou Nicholas Meyer (que já havia se envolvido com os dois melhores filmes da série no cinema até então: diretor de A Ira de Khan, 1982, e roteirista de A Volta para Casa, 1986) para reassumir o posto de diretor. O velho Spock também entrou com a ideia base: fazer um paralelo com a queda do Muro de Berlim e da glasnost soviética no espaço e no futuro.

Deu muito certo. A história começa com a explosão de uma das luas do Império Klingon, que determina o iminente colapso de energia do planeta e leva os velhos vilões da série a uma aproximação com a Federação. É a oportunidade da paz, finalmente. Mas velhos preconceitos vão dificultar esse caminho – um deles, o do capitão Kirk, que por muitos anos, no comando da Enterprise, enfrentou os klingons.

Por ironia, é exatamente a Enterprise (com uma nova vulcana, Valeris, vivida por Kim Cattrall, a bordo) que é enviada para fazer a escolta da delegação klingon que vem negociar a paz. Essa tensão é uma excelente sacada do filme, refletindo de perto as emoções palpáveis naqueles momentos históricos do começo dos anos 1990. De onde surge a ótima cena do jantar reunindo a tripulação da Enterprise e a da nave klingon, evidenciando não só o preconceito político, mas também o racismo, e onde tomamos conhecimento a respeito do gosto de alguns klingons por Shakespeare: “Você não leu Shakespeare se não tiver lido no original… em klingon”.

Quem diz a frase é o chanceler Gorkon (David Warner, cuja maquiagem foi criada para lembrar Abraham Lincoln), mas o klingon shakespeariano do filme, mesmo, é o general Chang (Christopher Plummer), que recita frases do bardo pelo filme todo. “A terra desconhecida”, mesmo, é uma citação de Shakespeare: do “to be or not to be” de Hamlet. A terra desconhecida, aí, é a morte, mas aqui é o futuro, para onde nos dirigimos e onde estamos desde a queda do muro e a falência dos regimes comunistas europeus (e para onde demos mais um passo ontem, quando foi anunciado o restabelecimento de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba). A ficção científica muitas vezes marca golaços ao, na verdade, versar não sobre o futuro, mas sobre seus dias atuais.

Mas um assassinato acontece e Kirk e McCoy são presos pelos klingons, julgados e jogados em uma prisão em um planeta isolado. O filme passa habilmente por diversos subgêneros: do drama político, ao filme de mistério, do filme de tribunal ao filme de prisão. E faz tudo isso bem, sempre gravitando em torno do tema central.

Foi uma bela decisão fazer com que o maior herói da série seja um dos maiores resistentes à “terra desconhecida” que se apresenta. Kirk tem diferenças com os klingons há muitos anos (a maior delas: a morte de seu filho em um filme anterior). Ter o que crescer com um personagem que está na estrada desde 1964 é algo admirável e contribui para o filme superar facilmente seus pequenos problemas (como o mistério não tão difícil de resolver, na verdade, mas que o filme encantadoramente se dedica a construir e manter).

Aliado a isso – e a elementos bacanas como o sangue púrpura em gravidade zero e o efeito morph antes do clipe “Black and white”, de Michael Jackson – está o clima de despedida permeando a série desde antes da primeira cena. O filme é dedicado a Gene Roddenberry, criador da série, que morreu dois dias depois de ver uma versão do filme. Na primeira cena, vemos que Sulu se tornou capitão de sua própria nave. Ele já deu seu passo adiante. Ainda no começo, quando a tripulação surge, convocada pela Federação, McCoy diz: “Deve ser uma festa de aposentadoria”. No final, na última cena do filme que Meyers fez com que fosse também a última a ser filmada, o diretor faz o elenco praticamente posar para uma foto na ponte da Enterprise. E os créditos finais começam com a assinatura do sexteto. Uma saída de cena muitíssimo digna, com direito a uma citação de Peter Pan que conecta Jornada nas Estrelas às fábulas imortais da humanidade. Não que, a essa altura, a série precisasse, claro.

Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida. Star Trek VI – The Undiscovered Country. Estados Unidos, 1991. Direção: Nicholas Meyers. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Nichelle Nichols, George Takei, Walter Koenig, Kim Cattrall, Chrisytopher Plummer, David Warner, Mark Lenard, Grace Lee Whitney, Michael Dorn, Iman, Christian Slater.

Crítica de Jornada nas Estrelas – O Filme
Crítica de Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan
Crítica de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock
Crítica de Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa
Crítica de Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira
Crítica de Star Trek

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A serpente na gaveta

Frases de um Billy Wilder afiado e Kirk Douglas dominando o filme todo em "A Montanha dos Sete Abutres"

Frases de um Billy Wilder afiado e Kirk Douglas dominando o filme todo em “A Montanha dos Sete Abutres”

Se 50 serpentes estão soltas em uma pequena cidade, causando o pânico à população, e 49 são encontradas, onde está a última? Ela pode estar em qualquer lugar, pronta para dar o bote, mas ninguém consegue encontrá-la. Onde ela estará? “Na minha gaveta”, diz o jornalista Charles Tatum (Kirk Douglas), ensinando o jovem fotógrafo que o acompanha como esticar o interesse por uma reportagem. E Billy Wilder dá uma lição do que é jornalismo à América. Ou, ao menos, do que é um certo jornalismo, escancarado sem dó nem piedade no clássico A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the HoleThe Big Carnival, Estados Unidos, 1951).

Não que o jornalismo gozasse de reputação intocável no cinema. Desde a peça The Front Page, de Ben Hecht, que, até ali, havia gerado dois filmes (A Última Hora, 1931; e Jejum de Amor, 1940), já se sabia que um jornalista decidido a fisgar um furo de reportagem podia não ser flor que se cheirasse. Para não deixar dúvidas, o próprio Wilder viria a fazer uma terceira adaptação da peça, em 1974: A Primeira PáginaThe Front Page era centrado em repórteres mais interessados em suas matérias do que no fato que estavam cobrindo, mas não mostrava a manipulação do público como A Montanha dos Sete Abutres viria a fazer – e muito menos com o cinismo e a virulência de Wilder.

A história começa com Tatum procurando um emprego num jornaleco de Albuquerque – ele foi parar lá depois de ser despedido de vários grandes jornais, por variadas razões. É um ambiente estranho para ele: na parede, bordado, um quadro com os dizeres “Diga a verdade”. É para ele que Tatum está olhando quando diz ao editor Boot (Porter Hall) que já mentiu para homens que usavam cinto e homens que usavam suspensórios – mas nunca foi idiota para mentir para um que usasse cintos e suspensórios ao mesmo tempo. E o convence parodiando uma máxima das redações: “Eu posso cuidar de grandes notícias ou pequenas notícias. E se não houver notícias, eu saio e mordo um cachorro”.

Aqui, como sempre, Wilder é diretor e co-roteirista (com Walter Newman e Lesser Samuels) e – como se vê – seu talento para diálogos antológicos já está afiado desde o começo do filme. Virão outros quando Tatum e o fotógrafo Herbie (Robert Arthur) saem para uma reportagem corriqueira e dão de cara com outra: um homem, Leo Minosa (Richard Benedict), que está soterrado em ruínas indígenas na Montanha dos Sete Abutres. O jornalista vê aí sua chance de ter uma grande matéria – aquela que o levará de volta à primeira divisão, a um grande jornal nova-iorquino.

Ele começa a armar uma teia para extrair o máximo que pode desse drama humano. Manipula o xerife para que o salvamento seja feito pelo meio mais difícil e, assim, ter mais tempo para explorar a história – e o xerife, para bancar o herói e garantir a reeleição. Outro exercício de sensacionalismo é a tristeza da esposa Lorraine (Jan Sterling), que, na verdade, parece mais interessada no jornalista que no marido preso embaixo da montanha. Quem é pior em A Montanha dos Sete Abutres? Difícil dizer, já que, como escreveu Ruy Castro, Billy Wilder não faz o melhor dos juízos do ser humano.

Se petardos são disparados para todo lado, alguns deles têm o povo americano bem na mira. Uma família de caipiras, passando por perto, resolve dar uma olhada rápida no que está acontecendo, antes de seguir viagem. Logo, estão com acampamento montado. Não demora, diante das centenas de pessoas que transformaram o salvamento no grande parque de diversões de um dos títulos originais, já estão se gabando para a imprensa de terem sidos os primeiros a chegar. O recado foi dado, porque nem a imprensa e nem o público gostaram de como Billy Wilder os via. Resultado: o filme naufragou na bilheteria. A Paramount tentou reverter a situação mudando o título do filme – de Ace in the Hole para The Big Carnival –, mas não adiantou.

Se a carapuça serviu, para ambos os lados, não foi à toa. O diretor sabia do que estava falando: foi jornalista até 1926, ainda na sua Áustria natal. Não só isso, mas a história de A Montanha dos Sete Abutres é baseada em um caso real, a de Floyd Collins, que ficou soterrado por 18 dias, em 1925, sendo material para uma festa da imprensa e do público. A versão de A Montanha dos Sete Abutres explora o pior de quase todos os personagens (“Eu não rezo. Desfia as minhas meias”, diz Lorraine) – até que o próprio Tatum é obrigado a ficar frente a frente com sua ética, e a partir daí começa a ser construído mais um dos finais inesquecíveis do velho Billy.

Mas até lá, predominam a arrogância, na interpretação de um Kirk Douglas que domina o filme todo. Como na cena em que Tatum, controlando as informações, ouve o pedido dos outros jornalistas que passam a pão e água: “Estamos no mesmo barco”. “Eu estou no barco. Vocês estão na água”.

A Montanha dos Sete Abutres. (Ace in the HoleThe Big Carnival). Estados Unidos, 1951. Direção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict. 

Nefretiti (Anne Baxter), a tentação de Moisés (Charlton Heston)

Acho que a maioria das pessoas que têm muito filme em casa deve passar pelo que eu passo: a indecisão na hora de escolher o que assistir. Periga sempre acabar fazendo ou pot-pourri de melhores cenas de várias coisas. Por isso, eu tento aproveitar certas datas para rever certos filmes. Foi o que aconteceu nesta Páscoa, com o ultraclássico Os Dez Mandamentos (1956).

Infelizmente, não consegui assisti-lo de uma vez só. Um almoço na casa da minha mãe interrompeu a sessão – pelo menos, consegui assistir até o intervalo que o filme realmente tem (só foi bem mais longo que o entreato normal).

Continua um belo filme. Solene, é claro: o tom é bem bíblico. Mas a história prende a atenção por suas 3h40. Curioso é o Cecil B. DeMille aparecendo antes dos créditos para apresentar o filme pessoalmente. E ainda tem Anne Baxter (que havia feito A Malvada seis anos antes), linda e sem vergonha, Yul Brynner sempre marcante, o exército de figurantes (que hoje seriam feitos por computador) e os efeitos que ainda impressionam (como a separação das águas do Mar Vermelho).

Infelizmente, não deu pra ver Desfile de Páscoa, com a Judy Garland e o Fred Astaire, que era meu programa para o feriado, de início. Mas na Sexta-Feira Santa eu vi “O beagle da Páscoa”, especial dos Peanuts, com minha sobrinha. E acabou que não fui ao cinema nem uma vez.

Transpirando sexo

Vivien e Brando: um duelo com dois vencedores

É sempre impressionante lembrar que Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, Estados Unidos, 1951) é uma produção do início dos anos 1950. Em plena vigência do Código Hays, a autocensura dos estúdios americanos, o filme de Elia Kazan era uma produção classe A que batia de frente com os censores praticamente em cada fotograma. O sexo transpirava pela camisa suada de Marlon Brando, e pelos os olhares lascivos de Kim Hunter e Vivien Leigh. Tanto é que Kazan venceu algumas das brigas contra o Código, mas não todas.

O filme foi produzido pela Warner, mas Kazan não era um contratado do estúdio. Ele foi chamado para dirigir a versão de Um Bonde Chamado Desejo, de Tenessee Williams, para o cinema por causa do grande sucesso da montagem que dirigiu na Broadway, no final dos anos 1940. Resistiu muito e, convencido pelo próprio Tennessee Williams, sabia que teria que ser flexível em certos pontos, mas foi inflexível em outros. E chamou os atores com quem trabalhou na versão para o palco: Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden, substituindo apenas Jessica Tandy pela estrela Vivien Leigh (que fez a peça em Londres, dirigida por Laurence Olivier).

A trama mostra a aristocrática professora Blanche Dubois (Vivien) chegar à casa da irmã Stella (Kim) em Nova Orleans de visita. Ela é casada com o brutamontes Stanley Kowalski (Brando), que, de cara, não se dá com a irmã da esposa. Histórias mal contadas sobre o destino da propriedade da família e as razões pelas quais Blanche está ali aumentam ainda mais as desconfianças dele e tornam o clima na casa cada vez mais asfixiante.

Nisso, Kazan tira um grande proveito da direção de arte e da esplêndida fotografia em preto-e-branco (de Harry Stradling), concentrando quase toda a ação nos cenários apertados da casa dos Kowalski em ebulição. A atmosfera parece úmida o tempo todo, contribuindo para as explosões de Kowalski, em contraste com os modos frágeis de lady de Blanche. O confronto entre essas duas personalidades sobe a temperatura do filme: de certa forma, as duas irmãs estão competindo pelas atenções do homem da casa.

A intensidade entre os atores é tanta, mesmo sem qualquer cena explícita, que o filme recebeu cortes nos detalhes. O Código Hayes, sob influência da Legião Católica de Decência, exigiu 68 mudanças no roteiro. A menção ao homossexualismo foi amenizada – mas está em meia palavras para qualquer bom entendedor.

O estupro também foi simbolicamente substituído pela quebra de um espelho durante uma briga – entender o que acontece ali é essencial para a reta final do filme. Até planos de olhares – que duram poucos segundos na tela – foram considerados indecentes e substituídos por outras tomadas. Por outro lado, o desfecho foi mudado drasticamente, também por razões moralistas.

A força trangressora do texto de Williams causou seus tremores até no Brasil. Foi em 1948 que a primeira montagem brasileira foi realizada, com Ziembinski na direção, e Henriette Morineau como Blanche. Foi através dela que o título foi mudado aqui para Uma Rua Chamada Pecado, pelo tradutor Carlos Lage. A mudança de “desejo” para “pecado” deixa no ar que o aspecto erótico do título original foi um mais condenatório.

Mesmo com todas as  mudanças forçadas, o filme continuou fortíssimo. A cena de reconciliação entre Stanley e Stella, a descida da escada de Kim Hunter é certamente uma das cenas mais eróticas dos anos 1950. E mesmo ali, o olhar da atriz para Brando de camiseta rasgada foi reduzido ao máximo em tempo. Tudo foi restaurado quando Uma Rua Chamada Pecado foi lançado em DVD – o final, que não foi cortado e, sim, mudado desde o roteiro, continuou.

Uma Rua Chamada Pecado é um dos dois únicos filmes da história a ganhar três dos quatro prêmios de interpretação no Oscar. Karl Malden e Kim Hunter venceram como coadjuvantes, e Vivien Leigh ganhou seu segundo prêmio como melhor atriz (o primeiro, claro, foi por …E o Vento Levou, em 1940). Vivien, integrada ao elenco por ser um maior chamariz de bilheteria, tem (com perdão a Jessica Tandy) uma das maiores performances já vistas no cinema.

Curiosamente, foi justamente Brando que não ganhou como melhor ator (perdeu para Humphrey Bogart, por Uma Aventura na África). Foi apenas seu segundo filme, mas depois dele todo mundo ficou sabendo quem era Marlon Brando. Vigoroso, selvagem e passional – bem ao estilo do Actor’s Studio – , ele está extraordinário e assustador.

Em um filme construído sobre o contraste entre a brutalidade e a fragilidade, outro contraste se sobressai: a da famosa estrela e o do iniciante ator, em um duelo em que ambos venceram.

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire). Estados Unidos, 1951. Direção: Elia Kazan. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Disponível em DVD no Brasil pela Warner.

O gênio Woody Allen se pautou em George Gershwin para compor o roteiro e a direção de Manhattan. E, como não poderia deixar de ser, o final é um gran finale: depois de uma decepção amorosa e de enumerar as coisas que fazem a vida valer à pena (cena que poderia estar aqui, aliás), ele Isaac chega ao rosto de Tracy, a namoradinha de 17 anos que ele dispensou pelo amor que não deu certo. Com Gershwin retumbante, ele corre para evitar que ela viaje para Londres – como ele sugeriu. E, chegando lá, ela se mostra mais uma vez mais madura do que ele. “O que são seis meses, se nos amamos?”, ela pergunta. “Não seja tão madura, ok?”, ele responde.

Manhattan (1979), dirigido por Woody Allen.

François Truffaut declara seu amor à arte de fazer filmes, sob a linda trilha de Georges Delerue e com a ajuda do belíssimo rosto de Jacqueline Bisset.

A Noite Americana (1973), dirigido por François Truffaut.

Elia Kazan leva o cinema dos anos 1950 além do limite da sensualidade permitida pelo famigerado Código de Produção, através de Marlon Brando e Kim Hunter. Se alguém gritar “Stella!!” em um filme – qualquer um – saiba: é referência a esta cena.

Uma Rua Chamada Pecado (1951), dirigido por Elia Kazan.

Para começar essa séria série, acho adequado que seja a minha cena favorita do meu filme favorito. Acompanhem Gene Kelly e Donald O’Connor, se puderem, em “Moses supposes” e reparem quanto cortes tem a cena. A dança não é construída na edição aqui, não, amigo: eles dançam mesmo.

Cantando na Chuva (1952), dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen.

½

As complicações do amor

O rosto enigmático de Léa remete à Nouvelle Vague

O cartaz já nos adianta o rosto enigmático da protagonista em A Bela Junie (La Belle Personne, França, 2008), personagem que vai ser o epicentro de conflitos amorosos assim que começa sua jornada em uma nova escola. Em torno dela, jovens e adultos amam, sofrem, brigam, chantageiam – mas o que ela quer, mesmo, nunca fica muito claro.

O olhar meio de tédio da atriz Léa Seydoux a aproxima de musas da Nouvelle Vague (Anna Karina, principalmente) e o tom da direção e roteiro de Christophe Honoré também remetem ao movimento, e mais especificamente a Truffaut: o amor como tema central, motivando todas as ações, um aspecto cotidiano e um olhar carinhoso para a juventude.

A chegada repentina de Junie à nova escola parece que é o detonador de todas as impulsividades amorosas que não existiam ou estavam escondidas. Ela é alvo do interesse de um colega tímido, mas também de um professor – que, por sua vez, é amado por um colega e outra aluna. O primo de Junie se relaciona com duas meninas, mas há mais alguém em segredo. E por aí vai.

O amor está sempre presente como um animal estranho, temeroso e que deve ser decifrado. É um aspecto presente também  em dois filmes anteriores de Honoré: Em Paris (2006) e Canções de Amor (2007). Em A Bela Junie, a narrativa é marcada pela simplicidade que ressalta o cotidiano, apenas em alguns momentos buscando planos mais rebuscados: como abrir o filme com a abertura dos portões da escola, e seu fechamento perto do fim ou uma cena quase musical estranha que antecede uma morte.

Honoré e Gilles Taurand fazem uma adaptação livre de uma obra de Madame de La Fayette, do século 17, amores jovens e arrebatadores não são novidade, mas são sempre atuais.

A Bela Junie. (La Belle Personne). França, 2008. Direção: Christophe Honoré. Elenco: Léa Seydoux, Louis Garrel, Esteban Carvajal-Alegría, Grégoire Leprince-Ringuet, Simon Truxillo, Agathe Bonitzer.

Um jovem I Love Lucy

Redford e Jane, ambos em ascensão e no auge da beleza

Quase não se faz mais filmes de Neil Simon. Ou se faz? O IMDb mostra, surpreendentemente, que o horrível Antes Só do que Mal Casado (2007) é uma adaptação de uma peça do dramaturgo nascido no Bronx, escrita em 1972. Mas, antes disso, o último havia sido o pouco memorável Perdidos em Nova York (1999), com Steve Martin e Goldie Hawn, outra adaptação de um texto antigo. Hollywood, pelo jeito, desaprendeu a saborear o texto de Simon, mas soube fazê-lo muito bem nos anos 1970 e mesmo no final dos 1960, como mostra o ótimo Descalços no Parque (Barefoot in the Park 1967).

A comédia romântica, dirigida pelo então estreante Gene Saks (que depois dirigiria Um Estranho Casal, 1968, também de uma peça de Simon), mostra um jovem casal que acaba de se casar. Depois de seis dias de amor em um quarto de hotel, chega a hora da realidade: a mudança para o novo apartamento, no quinto andar de um prédio sem elevador, onde a calefação não funciona em pleno inverno e até o teto tem um buraco.

Logo de cara, se percebe a principal característica de cada um deles. Ela, Corie, é uma brincalhona irrefreável. Ele, Paul, é um advogado que é certinho demais. Além disso, ela é interpretada por um esfuziante Jane Fonda, aos 29 anos, e ele por um Robert Redford aos 31. Ambos no auge da beleza e em plena afirmação artística.

Redford havia interpretado no palco o texto de Neil Simon (que também escreveu o roteiro do filme). Jane não, mas os dois astros já haviam estrelado Caçada Humana, em 1965. Tudo colaborou para a química perfeita entre eles, que, junto com os diálogos afiados de Neil Simon, rende comédia de primeiro nível. Em certo momento, parece que estamos vendo um ótimo episódio da juventude de I Love Lucy.

Com Redford e Jane estão também Midred Natwick (que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e também interpretou o texto na Broadway) e o surpreendente Charles Boyer. Nos anos 1930 e 1940, ele era um dos galãs exóticos dos filmes de Hollywood. Aqui, ele é um velho boêmio e galanteador que mora no andar de cima, com algumas esquisitices.

O filme não esconde sua cara teatral, passando-se quase todo dentro do apartamento, mas tira bom proveito dessa “claustrofobia” fazendo dos poucos e apertados cômodos mais motivos para o humor. A única saída mesmo fica para perto do fim, no Central Park. Outro dado é que as emoções mudam de maneira repentina, o que também é totalmente plausível, tendo em vista o comportamento amalucado de Corie.

Muito leve, em um ano onde o cinema americano vinha tratando de temas cada vez mais pesados (No Calor da Noite) e de maneira cada vez mais ousada (Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas), Descalços no Parque deve ter sido um sopro de alegria no meio daquele turbilhão.

Aliás, belo título, felizmente bem traduzido no Brasil.

Descalços no Parque. (Barefoot in the Park, Estados Unidos, 1967). Direção: Gene Saks. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Mildred Natwick, Charles Boyer. Disponível em DVD no Brasil.

Eu coleciono DVDs. Gostaria muito de ter na minha coleção Os Simpsons – O Filme. E Ensaio sobre a Cegueira. Mas não os tenho. E por quê? Porque a Fox, distribuidora dos dois filmes, inventou de lançá-los apenas em caixinhas fininhas que eles chamam de slim e eu chamo de “quase pirata”. Não comprei, claro, e não comprarei.

Como eu, muitos colecionadores internet afora não gastam seu suado dinheirinho em produtos de tão baixa qualidade. Resultado: a campanha “Me respeite, Fox”, a qual este blog apóia totalmente.

Há muitos outros motivos para que ela exista – séries descontinuadas (minha Ally McBeal, por exemplo, parou na terceira temporada e tive que recorrer à internet), inacreditáveis filmes lançados em envelopes de papelão e até mentiras no relançamento de produtos como “edição definitiva” e que se trata da mesmíssima edição já lançada anteriormente.

Veja os detalhes de tudo isso nesse post do Blog do Jotacê e se você é um consumidor minimamentew consciente faça também seu protesto contra a Fox. Inclusive enviando um e-mail para o vice-presidente de marketing da companhia nos Estados Unidos (o modelo e o endereço estão lá, no Jotacê).

O terror dentro de nós

Sexo e violência, no limite entre o psicológico e o sobrenatural

Lars von Trier não é conhecido por sua leveza. Seus filmes são sempre cruéis, firmemente dispostos que o ser humano tem o poder de despertar o pior de si mesmo, mesmo quando as intenções são (raramente) as melhores. Se otimismo normalmente já não é com ele, imagine em Anticristo (Antichrist, Dinamarca / Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009), escrito quando o diretor estava imerso em uma depressão que durou dois anos.

O filme mostra Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg como um casal que se isola em uma cabana numa floresta. Ele, terapeuta, a leva para lá para ajudá-la a superar o trauma da morte do filho. É um tratamento difícil, onde a mulher quer usar o sexo o tempo inteiro para aplacar a culpa infinita. Ao mesmo tempo, o ambiente não parece de maneira alguma colaborar para que ela melhore – antes pelo contrário.

Dividido em capítulos, o filme começa com um belíssimo prólogo, em câmera lentíssima. De cara, a cena de sexo mostra um dos aspectos do filme: o de ser explícito em quase tudo. As cenas eróticas e de violência são das mais fortes e angustiantes dos últimos tempos, em uma espiral chocante.

Ao mesmo tempo, Anticristo deixa em aberto as possíveis explicações – apontando principalmente para o drama/ suspense psicológico, mas sem fechar as portas para os elementos sobrenaturais. Mesmo que esses elementos estejam discretos – quem assistir esperando O Massacre da Serra Elétrica, vai se decepcionar. Para Von Trier – e isso não é nenhuma novidade – o verdadeiro terror está dentro de cada ser humano. É onde o caos reina, como diz uma certa personagem coadjuvante do filme: uma expressão que dá nome a um dos capítulos e poderia ser o do filme.

Anticristo. (Antichrist). Dinamarca / Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009. Direção: Lars von Trier. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg.

Perigo interno

O nazismo pode estar dentro de nós?

Qualquer toque na herança do nazismo na sociedade alemã abre uma ferida. E é um assunto que não se vê muito em filmes fora da Alemanha (O Leitor, 2008, foi uma exceção) e nem muitos filmes alemães costumam estrear por aqui. Já por esse aspecto, A Onda (Die Welle, Alemanha, 2008) é imperdível. Mas trata-se, sobretudo, de um filme excelente, que não tem medo de mexer no vespeiro e o faz bem e com estilo.

A trama começa justamente com alunos do ensino médio na Alemanha reclamando de carregar o peso da culpa pelo nazismo e afirmando que uma coisa assim nunca mais poderá acontecer. O professor, roqueiro e rebelde, propõe uma experiência: viver na sala de aula como uma autocracia, para que eles aprendam as características das ditaduras.

Os alunos embarcam na experiência – fundo demais. Logo, criam regras de disciplina, códigos próprios, um símbolo, um nome (“A Onda”) e excluem os jovens que não querem participar. O professor (Jürgen Vogel), também afetado, perde o controle em uma semana.

Ágil e vibrante, A Onda prende o espectador até o fim dando apenas algumas pistas sobre como tudo vai terminar. É também assustador, em uma observação mais cuidadosa, por mostrar didaticamente que o fantasma do fascismo continua por aí e, nas condições ideais, pode ressurgir, sim.

Por outro lado, o filme de Dennis Gansel se torna um pouco simplista ao acelerar o desenrolar dos fatos e amarrar tudo de maneira um tanto brusca na conclusão. Mas esse dado deveria ser encarado menos de maneira realista e mais como um recurso narrativo de uma fábula sombria. E que já aconteceu de verdade, não só em verdadeiras autocracias (Hitler e Mussolini à frente), mas nos fatos reais em que o filme é baseado (e que aconteceram na Califórnia dos anos 1960).

A Onda. (Die Welle). Alemanha, 2008. Direção: Dennis Gansel. Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Cristiane Paul.

Na encruzilhada da imprensa

Helen Mirren, Rachel McAdams e Russell Crowe: a apuração e o fechamento

Intrigas de Estado (State of Play, Estados Unidos/ Reino Unido/ França, 2009) não foi exatamente um sucesso nas bilheterias, o que nos leva a temer pela suspeita de que o público médio dos cinemas anda rejeitando projetos minimamente inteligentes. Com direção de Kevin Macdonald (de O Último Rei da Escócia, 2007) e roteiro de Tony Gilroy (diretor e roteirista de Contato de Risco, 2007, e Duplicidade, 2009), o filme é um hábil thriller político, com personagens excelentes e boas surpresas.

Adaptado de uma série de TV inglesa de 2003, o filme mostra o veterano jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) investigando um crime no subúrbio e uma blogueira da versão on line do jornal, Della Frye (Rachel McAdams), que escreve sobre o relacionamento do congressista Stephen Collins (Ben Affleck) com sua assistente que morre em um acidente no metrô. As investigações convergem para o mesmo ponto e, para complicar, Cal e Stephen são amigos de longa data. Como o congressista preside uma comissão que investiga um contrato militar, outros interesses aparecem.

Além da trama em si, há, como pano de fundo, a encruzilhada do jornalismo hoje. A rivalidade entre os dois jornalistas é um comentário a respeito de ética, isenção e checagem dos fatos num mundo em que a vontade de dar a informação primeiro às vezes acaba passando por cima de tudo isso e muitas vezes é mais importante fechar logo a edição e economizar horas extras que apurar tdo como se deve.

São muitos elementos muito bem orquestrados e apoiados por um elenco bem escolhido, onde nem Ben Affleck está mal (quem diria?). Russell Crowe, desalinhado e gordo, faz uma opção pela caracterização correta contra a imagem de galã. E Rachel McAdams faz mais uma boa aparição – é uma das boas atrizes para um futuro próximo. E ainda há Helen Mirren, em participação pequena, mas ainda o máximo.

Intrigas de Estado. (State of Play). Estados Unidos, 2009. Direção: Kevin Mcdonald. Elenco: Russell Crowe, Rachel McAdams, Ben Affleck, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Michael Berresse, Viola Davis.

Estes são filmes que estiveram em cartaz comercialmente no Brasil em 2009 (lançados a partir de dezembro de 2008), mas que passaram longe do circuito local. Um ou outro passou em festivais – o Cineport e o Fest Aruanda -, um ou outro foi exibido em sessão especial do MovieMobz.

Para a imensa maioria, o público de João Pessoa precisou de paciência para conferir em DVD ou se rendeu aos downloads ou aos piratas da esquina. Muitos documentários, vários filmes não falados em inglês, brasileiros com menos grana e até filmes com a cara de Hollywood.

Vejam o que perdemos enquanto tivemos que assistir Sex Drive – Rumo ao Sexo, Eu Odeio o Dia dos Namorados, Efeito Borboleta – Revelação, Flordelis – Basta uma Palavra para Mudar e Matadores de Vampiras Lésbicas

1 – “Apenas o Fim”, de Matheus Souza

Prêmio de júri popular e menção honrosa no Festival do Rio e melhor roteiro no Prêmio Contigo de Cinema. Exibido aqui apenas em uma sessão (concorridíssima) do Movie Mobz e depois outra no Fest Aruanda.

2 – “Desejo e Perigo”, de Ang Lee

Lee volta à China para uma mistura de espionagem e erotismo. Leão de Ouro no Festival de Veneza e indicado ao Globo de Ouro de filme de língua não inglesa.

3 – “Valsa com Bashir”, de Ari Folman

Um “documentário em animação” sobre a guerra entre Israel e Líbano. Indicado a melhor filme de lingua não inglesa no Oscar e no Bafta. Vencedor do César de melhor filme não francês. Melhor trilha sonora e mais três indicações no European Film Awards. E Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa.

4 – “Frost/ Nixon”, de Ron Howard

Os Estados Unidos têm a chance de acertar as contas com o ex-presidente em uma entrevista histórica. Indicado a cinco Oscars, incluindo filme, direção e ator (Frank Langella). Indicado também a seis Baftas e cinco Globos de Ouro.

5 – “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel

Documentário mais comentado do país no ano passado, vencedor da categoria no Prêmio Contigo de Cinema.

6 – “Coco Antes de Chanel”, de Anne Fontaine

Os primeiro anos de uma das mais famosas estilistas do mundo, com a protagonista de Amélie. Três indicações ao European Film Awards.

7 – “Deixa Ela Entrar”, de Tomas Alfredson

O filme sueco mostra a relação entre um garoto e uma menina vampira e foi outro comentadíssimo do ano passado. 56 prêmios internacionais, como nos festivais de Tribeca e Bruxelas e os círculos de críticos de Chicago e Londres.

8 – “O Grupo Baarder Meinhof”, de Uli Edel

Um olhar sobre o grupo terrorista alemão dos anos 1960 e 1970, indicado a melhor de filme de língua não inglesa no Oscar, no Bafta e no Globo de Ouro.

9 – “O Equilibrista”, de James Marsh

O crime artístico do século: um equilibrista tenta atravessar, em 1974, de uma torre do World Trade Center para a outra na corda bamba. Oscar de documentário e mais 27 prêmios internacionais – entre eles, melhor não-ficção para o Círculo de Criticos de Nova York.

10 – “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski

Documentário que descortina a Operação Bandeirantes, que investigava e torturava membros de organizações de esquerda e era financiada por banqueiros e empresários – um deles, o Boilesen do título. Filme aplaudido e elogiado no É Tudo Verdade, Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

11 – “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme

Anne Hathaway em atuação muito elogiada, que rendeu a ela indicações ao Oscar, no Globo de Ouro e escolhida como a melhor atriz de 2008 pelo National Board of Review.

12 – “Milk – A Voz da Igualdade”, de Gus van Sant

O Oscar de melhor ator, simplesmente. Premiação repetida no Círculo de Críticos de Nova York e em vários outros prêmios.

13 – “O Desinformante”, de Steven Soderbergh

É de Steven Soderbergh e está indicado a dois Globos de Ouro – incluindo melhor ator/ drama para Matt Damon.

14 – “Juventude”, de Domingos de Oliveira

Uma belíssima reflexão sobre a velhice, sob a ótica do genial Domingos de Oliveira – nosso Woody Allen. Passou aqui no Cineport, em maio. Três prêmios em Gramado, incluindo direção e roteiro.

15 – “A Partida”, de Yojiro Takita

O Oscar de melhor filme de língua não inglesa foi para esse japonês que conta sobre um violoncelista que tem que trabalhar preparando mortos para o funeral. 10 prêmios da Academia Japonesa de Cinema.

16 – “Vigaristas”, de Rian Johnson

Meu Deus, é com a Rachel Weisz! Ela se mete nas confusões de Adrien Brody e Mark Ruffalo, dois irmãos trambiqueiros planejando o último golpe.

17 – “Se Nada Mais Der Certo”, de José Eduardo Belmonte

Melhor filme e melhor atriz (Caroline Abras) no Festival do Rio. Belmonte é um cineasta radical, mas bem interessante.

18 – “Sinédoque, Nova York”, de Charlie Kaufman

O roteirista Charlie Kaufman (de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) estréia na direção.

19 – “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet

Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de filme de língua não inglesa.

20 – “Um Táxi para a Escuridão”, de Alex Gibney

Oscar de documentário, denunciando as torturas do exército americano no Afeganistão.

21 – “Budapeste”, de Walter Carvalho

Dirigido pelo paraibano Walter Carvalho, muito ptovavelmente o melhor diretor de fotografia em atividade no país, adaptando livro do Chico Buarque. Passou aqui no Fest Aruanda e só.

22 – “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh

Sally Hawkins derrotou Meryl Streep em Mamma Mia! no Globo de Ouro de atriz/ musical ou comédia por este filme. Ela interpreta uma professora tão otimista que enlouquece os que estão em volta. Sally também ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim e foi a melhor do ano também para os círculos de críticos de Nova York e Los Angeles.

23 – “Os Falsários”, de Stefan Ruzowitsky

Oscar de melhor filme de língua não inglesa de 2007, contando a história real da maior falsificação da história, empreendida pelos nazistas em 1936.

24 – “Garapa”, de José Padilha

Melhor documentário do Festival de Havana, e do mesmo diretor de Ônibus 174 e Tropa de Elite, enfoca a miséria brasileira.

25 – “Ninho Vazio”, de Daniel Burman

O filme argentno tem a grande Cecilia Roth (de Tudo sobre Minha Mãe) no elenco.

26 – “Rebobine, por Favor”, de Michel Gondry

A comédia cheia de referências pop (em que um grupo precisa refazer, pauperrimamente, sucesso pop do cinema) não só passou longe dos cinemas daqui, como ainda chegou ao DVD com o cretiníssimo subtítulo Uma Loucadora Muito Louca.

27 – “Titãs – A Vida Até Parece uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves

O documentário sobre a banda é outro que só passou em uma solitária sessão no Fest Aruanda.

28 – “Gomorra”, de Matteo Garrone

Modernas famiglias criminosas italianas em um filme indicado ao Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e vencedor em Cannes do Grande Prêmio do Festival, além de cinco European Film Awards (melhor filme, inclusive).

29 – “A Garota de Mônaco”, de Anne Fontaine

A comédia dramática francesa revelou a linda Louise Borgouin, que foi indicada a revelação no César.

30 – “Um Conto de Natal”, de Arnaud Desplechin

A grande Catherine Deneuve lidera o elenco desse acerto de contas familiar, indicado a nove Césars (ganhou o de ator coadjuvante, com Jean-Paul Roussillon).

31 – “Cinzas do Passado”, de Wong Kar-Wai

O diretor de Amor à Flor da Pele, 2046 e Um Beijo Roubado relançou seu épico histórico de 1994 em versão redux (que, por contraditório que soe, continua querendo dizer “bem mais longo”).

32 – “Alô, Alô, Terezinha”, de Nelson Hoineff

O documentário que celebra o trash nos programas de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, um dos maiores comunicadores desse país.

33 – “A Teta Assustada”

O filme peruano foi o vencedor latino do Festival de Gramado, e também ganhou no Festival de Berlim o Urso de Ouro e o prêmio da Fipresci. Ganhou também festivais em Guadalajara, Havana, Lima e Montreal.

34 – “O Visitante”, de Thomas McCarthy

Richard Jenkins finalmente obteve algum reconhecimento e foi indicado ao Oscar de melhor ator por este filme. Ele ganhou no Festival de Moscou e no National Board of Review.

35 – “A Bela Junie”, de Christophe Honoré

A nova vida de uma garota de 16 anos em uma nova escola, após a morte da mãe. Três indicações ao César, incluindo atriz revelação (Léa Seydoux).

36 – “Fumando Espero”, de Adriana Dutra

Documentário em primeira pessoa de Adriana, enquanto tentava parar de fumar.

37 – “Stella”, de Sylvie Verheyde

A história de uma menina que mora com os pais em cima de um bar e convive com os clientes à noite, na Paris dos anos 1970. O resultado é que ela sabe mais de poquer que de gramática. E é um retrato autobiográfico da própria diretora aos 11 anos.

38 – “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral

A volta de Suzana Amaral, que não dirigia um filmes desde Uma Vida em Segredo (2001) e, antes disso, A Hora da Estrela (1985). O road movie já rendeu dois prêmios de melhor ator para Gero Camilo: no Festival do Rio (como coadjuvante) e na APCA, em São Paulo.

39 – “O Milagre de Santa Luzia”, de Sérgio Roizemblit

Um belo retrato de um dos mais brasileiros dos instrumentos: a sanfona. O guia, Brasil afora, é o grande Dominguinhos. O doc passou em sessão única no Fest Aruanda.

40 – “Um Homem Bom”, de Vicente Amorim

A estréia do diretor Vicente Amorim em uma produção internacional – com Viggo Mortensen no papel principal – foi pouco comentada, mas deveríamos ter tido a oportunidade de ver no cinema.

41 – “Há Tanto Tempo que Te Amo”, de Philippe Claudel

Belo drama francês, com a diva inglesa Kristin Scott Thomas. Passou aqui em sessão única do MovieMobz.

42 – “W”, de Oliver Stone

A cinebiografia de Oliver Stone de Bush Junior. Prometia um barulhão e acabou mal fazendo um traquezinho, mas a gente tinha que ver no cinema. Mas o Josh Brolin conseguiu ainda algumas indicaçõesinhas de ator por aí (a mais importante, no Círculo de Críticos de Londres).

43 – “Che 2 – A Guerrilha”, de Steven Soderbergh

A primeira parte passou aqui, mas e a segunda? Necas. O serviço completo, né? Por favor.

44 – “Loki – Arnaldo Baptista”, de Paulo Henrique Fontenelle

O documentário sobre o ex-mutante passou – na mesma semana – no Fest Aruanda e em sessão do MovieMobz. Pareceu até que tinha entrado em cartaz, mas repetiu a sina dos documentários e foi ignorado pelo circuitinho.

Completando a lista, filmes que estrearam no Brasil em dezembro e ainda tem chances matemáticas de passar nos cinemas locais (chances reais? Alguns mais do que outros):

45 – “Ervas Daninhas”, de Alain Resnais

É o novo filme de Alain Resnais, um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. Em um mundo justo e com bom senso, seria ser o suficiente para garantir sua exibição. Chance de passar: virtualmente zero.

46 – “Abraços Partidos”, de Pedro Almodóvar

O novo Almodóvar, com a nossa maravilhosa Pe. Tem dividido opiniões por aí, mas dane-se. Chance de passar: bastante razoável. Todos os filmes de Almodóvar desde Carne Trêmula (1997) têm passado aqui, nem que seja em sessões reduzidas.

47 – “O Fantástico Sr. Raposo”, de Wes Anderson

Animação stop-motion de um diretor que não é ligado ao gênero. Chance de passar: possível. Afinal é animação e estamos em férias. A ignorância dos exibidores vai ajudar: se soubessem quem é Wes Anderson, provavelmente a chance cairia.

48 – “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee

O novo de Ang Lee, de novo investigando as entranhas da America. Chance de passar: como esse é falado em inglês, pode até ser.

49 – “Nova York, Eu Te Amo”, de vários diretores

Os pequenos curtas que declaram amor a Nova York, tal qual os de Paris, Te Amo. Chance de passar: incerta. Paris, Te Amo passou aqui, é verdade, mas foi no MAG, que está com os cinemas fechados. O Box não passou Paris e o Tambiá deve achar “inteligente demais” para o público deles, que eles acham incapazes de acompanhar uma legenda.

50 – “Julie & Julia”, de Nora Ephron

Meryl Streep e Amy Adams contando duas histórias paralelas e separadas no tempo que envolve cozinha. A diretora é a mesma das boas comédias românticas Sintonia de Amor e Mensagem para Você e roteirista do genial Harry & Sally. Chance de passar:boa. Por que não? É Hollywood, tem atrizes conhecidas, parece leve e divertido. Só o que pode atrapalhar é o engarrafamento de filmes no começo do ano.

>> 50 filmes não exibidos em João Pessoa em 2010

Álbum de memórias

Rosemary, Kaye, Crosby e Vera-Ellen: nostalgia

Mesmo com o total domínio da Metro quando o assunto era o gênero musical, na era clássica de Hollywood, os outros estúdios produziam seus próprios exemplares e tinham, cada um, suas armas próprias. A da Paramount – que, aliás, tinha Audrey Hepburn só aproveitou a chance de usá-la em musicais uma vez, em Cinderela em Paris (1957) – foi Bing Crosby. O maior cantor popular de todos os tempos estrelou vários filmes no estúdio – muitos da série Road to, com Bob Hope e Dorothy Lamour – mas o mais lembrado é mesmo Natal Branco (White Christmas, Estados Unidos, 1954).

Não é para menos. O título já levava o nome da canção de extremo sucesso, compsta por Irving Berlin e vencedora do Oscar em Duas Semanas de Prazer (1942), onde foi cantada pelo próprio Crosby – e ele já a havia cantado uma segunda vez, em Romance Inacabado (1946). E a gravação da música pelo cantor em disco – segundo Ruy Castro no livro Tempestade de Ritmos, contando informações da biografia de Bing pelo historiador e crítico de jazz Gary Giddins – ficou 20 anos nas paradas de sucesso americanas, de 1942 a 1962. Ou seja: quando Natal Branco foi produzido e lançado pela Paramount, ambos – canção e cantor – continuavam no auge.

No filme, Crosby teve o acompanhamento de luxo de Rosemary Clooney (tia de George), Danny Kaye (substituindo na última hora Donald O’Connor) e Vera-Ellen (que já havia mostrado ser ótima, na sua brejeirice, em Um Dia em Nova York, de 1949). Na distribuição de peças, Crosby e Kaye são Bob Wallace e Phil Davis, ex-soldados que passam a formar uma dupla de cantores-dançarinos, e depois produtores.

Rosemary e Vera-Ellen são Betty e Judy Haynes, irmãs que têm um ato e que a dupla masculina é convidada a avaliar. Como Phil acha que Bob trabalha demais, levando-o também a trabalhar mais do que gostaria, e que uma esposa seria a solução para relaxar Bob, arma-se uma trama para uni-lo à mais velha, Betty (embora Rosemary Clooney, 26 anos na época, fosse sete anos mais nova que Vera-Ellen).

A comédia de erros vai desembocar em Vermont, num hotel que está sem clientes porque a esperada neve, atração turística, não deu as caras. O dono é o general Waverly (Dean Jagger), que comandou o batalhão da dupla durante a II Guerra. Tudo coverge para um grande show que é preparado para salvar o hotel – mesmo cenário de Duas Semanas de Prazer, num filme que pretendia ter Fred Astaire repetindo com Crosby a dupla que fizeram no filme de 1942, e que também tinha todas as canções compostas por Irving Berlin.

No tabuleiro, Crosby e Rosemary respondem pela excelência vocal. Ela foi uma das grandes cantoras dos anos 1950 e estava ainda começando a carreira no cinema, interrompida logo em seguida por uma série de filhos e problemas pessoais. O quesito dança fica com Kaye e Vera-Ellen – ela, particularmente, dá sucessivos shows durante o filme. Também era o final de carreira para ela: Natal Branco foi seu penúltimo filme. A dançarina vinha lutando contra a anorexia e uma artrite a levou à aposentadoria precoce.

Mas a época do Natal não é o tema do filme, mas uma ambientação. Em 1954, as memórias da II Guerra Mundial ainda estavam bem vivas e o tema do filme é esse sentimento muitas vezes difícil dos soldados que voltam para casa e se sentem inadequados. E essa nostalgia do companheirismo da caserna responde pelos momentos mais tocantes e deve ter calado fundo aos veteranos.

Curiosa é a aparição da televisão como elemento de comunicação de massa – usada pelo personagem de Bing Crosby para dar um recado importante a mais pessoas no menor tempo possível. Lembre-se, era 1954. A televisão era, então, uma concorrente crescente do cinema. Não por acaso, Natal Branco também foi a estréia do sistema widescreen da Paramount, o VistaVision (um tipo de CinemaScope mais aberto).

O diretor Michael Curtiz não era habituado em musicais e isso deve ter refletido em um pontual olhar “documental”, a decisão de filmar os números de palco em alguns momentos não como se estvessem sendo apresentados para a câmera – como era de costume. E apostou no improviso: fez Crosby e Kaye repetirem em cena uma paródia de Rosemary e Vera-Ellen que faziam nos bastidores. Crosby, muito à vontade, também improvisou diálogos e apostou em seu carisma. Deu certo, como se sabe.

Natal Branco (White Christmas). Estados Unidos, 1954. Direção: Michael Curtiz. Elenco: Bing Crosby, Danny Kaye, Rosemary Clooney, Vera-Ellen, Dean Jagger, Mary Wickes, Anne Whitfield. Disponível em DVD pela Paramount.

Este post é para alguns amigos que pediram e estão acostumados com esse tipo de ajuda. Não fique constrangido: você pode pular para o próximo ou encará-lo como dicas pra você mesmo, se quiser.

Meu aniversário está aí e compreendo meus amigos que costumam quebrar a cachola para me dar um presentinho. Com meus mais de 600 DVDs na estante, é difícil saber o que eu tenho e o que não tenho. Eu costumava ter uma lista num site que minha linda amiga Vívian montou certa vez (agora, desativado). Assim, vou dar umas dicas para ajudar os interessados.

Por exemplo, tem uns livros do Ruy Castro que eu ainda não tenho. Como o mais recente, O Leitor Apaixonado. Mas também posso aceitar o Era no Tempo do Rei ou o Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero Musical. Ou ainda, alguma coisa editada e traduzida por ele, como O Livro dos Insultos, com textos de H.L. Mencken.

Há DVDs, sim, que eu quero ter e ainda não consegui. Por exemplo, o Persépolis duplo, os qualquer uma das três temporadas da série clássica de Jornada nas Estrelas, ou até Alf, o E.Teimoso. Ainda nas série, poderia ser qualquer uma das quatro temporadas de A Gata e o Rato.

E não acharia mal ganhar a edição dupla de Homem de Ferro, por exemplo. Ou o quarto volume da série animada do Batman (atenção, hein? Eu já tenho as três primeiras).

Há diversos clássicos que estão na minha mira. Ser ou Não Ser, A Caixa de Pandora (e se alguém se aventurar em me dar a edição importada da Criterion Collection, também não reclamo, hehehe).

Vale até ficar na promessa de mimos que estão saindo aí neste fim de ano. Por exemplo, as extraordinárias edições comemorativas de 70 anos de …E o Vento Levou e O Mágico de Oz, que só saem em dezembro. A Warner prometeu muita coisa para este fim de ano: a reedição em widescreen dos DVDs da série Harry Potter, o genial Intriga Internacional de Hitchcock em edição dupla e extras (espero) legendados, e o primeiro volume da coleção dos desenhos de Charlie Brown e Snoopy restaurados e em ordem cronológica

E por falar em Peanuts, a L&PM está lançando este mês o primeiro volume do sensacional Peanuts Completo. Vou fazer a coleção, é óbvio. Mas há muita coisa de quadrinhos aí que são uma tentação. Retalhos, o Gênesis de Crumb (o Vladimir Carvalho me ligou de Brasília para dizer que comprou e achou sensacional) e até o Turma da Mônica – Romeu & Julieta (o MSP 50 e o Bidu 50 Anos, naturalmente, já tenho). Ou o Verão Índio, no Manara e do Hugo Pratt.

Falando em Pratt, também fico feliz com qualquer edição de Corto Maltese ou Tintim, já que não tenho nenhuma. Mas as primeiras são, respectivamente, A Balada do Mar Salgado e Tintim no País dos Sovietes – só para lembrar.

Na linha dos super-heróis também tem muita coisa legal. Tem a Biblioteca DC Mulher Maravilha ou Os Novos Titãs, mas mesmo um da serie Grandes Clássicos DC, como Lanterna Verde e Arqueiro Verde, eu gostaria de ganhar. Só não vale Batman – Ano Um, que eu já tenho. Ou as séries Crônicas, DC 70 Anos e Superman 70 Anos, que também já tenho.

De Asterix, então, a lista é grande, porque eu tenho uns 15, mas falta mais da metade da coleção. Pode ser qualquer um desses: A Cizânia, Asterix entre os Helvéticos, O Domínio dos Deuses, Os Louros de César, O Adivinho, O Presente de César, A Grande Travessia, Asterix entre os Belgas, O Grande Fosso, A Odisséia de Asterix, O Filho de Asterix, As 1001 Horas de Asterix, A Rosa e o Gládio ou A Galera de Obelix. Ou até o novo O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro, que está saindo este mês.

CD? Qualquer um da nova edição dos Beatles serve.

Conheci as Chicas em 2007, quando as quatro moças fizeram um show no Seis e Meia, em João Pessoa. Foi amor à primeira audição, confesso: adoro grupos vocais, desde o MPB-4 até o Garganta Profunda. Os jogos vocais no palco me encantam e as Chicas são um prodígio nisso.

Enfim, tive a oportunidade de conversar com uma delas na semana passada, a Isadora Medella, por telefone. Ela estava em sua casa, no Rio (ou “apartamento meio casa”, como me descreveu). O papo foi publicado no Jornal da Paraíba de ontem e está aqui em versão entendida.

Em tempo: o grupo se apresenta hoje no Teatro Oi Casa Grande, no Rio, às 21 horas, lançando oficialmente o novo CD e o DVD. No dia 11, o show é em São Paulo, no Sesi na Avenida Paulista.

***

Em busca do fervor do ao vivo

Chicas_foto_Paula Kossatz

Em pé: Fernanda Gonzaga e Amora Pêra; sentadas: Isadora Medella e Paula Leal - Chicas e "Tchicas"

A tradição de grupos vocais brasileiros é fortíssima, surgindo bem antes da bossa nova e permanecendo tantos anos depois do auge do movimento. O quarteto Chicas incluiu-se aí com graça e talento, a partir do primeiro disco, Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, e lança agora o primeiro DVD e segundo disco (primeiro ao vivo): Em Tempo de Crise Nasceu a Canção.

“A gente quis registrar o fervor do ao vivo”, conta Isadora Medella, que integra o grupo junto com Paula Leal, Amora Pêra e Fernanda Gonzaga (as duas últimas, filhas de Gonzaguinha e, portanto, netas de Luiz Gonzaga). “Muita gente veio falar com a gente que o fervor do ao vivo é que é o lance. O disco de estúdio não tem aquela anarquia”.É verdade que uma certa anarquia faz parte do barato das Chicas – tanto, que a edição do DVD é frenética, dividindo a tela na quase totalidade do show.

“A pessoa que vai ao show olha para uma chica, olha para outra, enquanto outra está fazendo mil coisas, lá”, diz a cantora, mostrando que o objetivo foi dar o máximo possível uma visão total do grupo. “A gente quis mostrar que, enquanto uma esta cantando, milhares de coisas estão acontecendo. A idéia era colocar isso muito evidente”. O quarteto opinou na decisão artística de dividir a tela, assim como no projeto inteiro. “A gente é, assim, meio insuportável”, brinca. “A gente não consegue abrir mão simplesmente e tudo o que é artístico é gerenciado por nós”.

As Chicas alternam as vozes às vezes de maneira tão frenética que impressiona quando Isadora revela que os arranjos vocais são meio anárquicos. “A gente escreve os arranjos para os instrumentos, mas na hora do vocal a gente não quer escrever, quer que fique essa coisa meio desorientada”, afirma Isadora. “A gente deixa ele fluir, ser intuitivo. É mais próximo da gente, dessa informalidade. A gente interfere muito no cantar da outra”.

Amora e Fernanda são mais ligadas à percussão, enquanto Isadora e Paula são ligadas à harmonia. “Mas só porque a gente estudou mais tempo”, acrescenta Isadora. Na hora das harmonias, as quatro trabalham juntas. “Sentamos as quatro em frente ao computador para trabalhar”, conta. “O importante é que você precisa estar em contato com a música e com o sentimento dela”.

Cuidando de gatinhos que foram deixados em sua porta no dia anterior, Isadora fala do começo do grupo. As quatro integrantes se encontraram no palco, mas do teatro, na peça Fullanas. “Era um teatro musicado onde as atrizes não sabiam tocar e cantar, então fizemos a parte musical”, lembra. “Aí, uma amiga nos convidou para abrir um espaço dela. E depois fomos chamadas para mais coisas”.

E, assim, de forma totalmente espontânea, as Chicas foram nascendo. “Foi uma coisa muito intuitiva”, diz Isadora. “Na verdade, a gente nunca quis gravar um disco: a gente foi seguindo o fluxo”. Mas o grupo acabou dando um tempo. “A gente terminou o primeiro momento com uma gravadora interessada, mas acabou acontecendo um intervalo de uns três, quatro anos”.

O grupo começou em 1996, parou entre 1999 e 2000 e voltou em 2004. “A gente voltou fazendo show e houve uma pressão dos amigos para gravar um disco”, lembra Isadora. “E falaram uma coisa interessante: que se a gente gravasse um disco, ia passar a existir. Ia materializar o trabalho”. Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, de 2006, acabou ganhando o Prêmio Tim. “A gente viu a importância do disco para ir mais longe”, diz ela. “É como uma semente, que vai com o vento e chega aos lugares antes da gente. A gente foi até ao Acre por causa desse disco”.

Foram shows por todo o país, ciclo que está chegando ao final. “Como a gente é inquieta, já estava querendo fazer coisa nova”, conta Isadora. “Então, essa coisa do DVD foi muito isso: ‘Galera, vamos registrar esse show'”. Ao repertório do primeiro disco, entrou também “Caras e bocas”, a música de abertura da novela homônima, incluída no DVD como extra em uma nova versão.

O DVD registra bem tanto o talento vocal, quanto o bom gosto do repertório e a cota de teatro da qual o grupo nunca chegou a ser desfazer. “O teatro, pra gente, é muito importante. A teatralidade é um dos fatores principais para a escolha das músicas”, diz Isadora. “A gente fala muito texto também”. Ela une “A terceira margem do rio”, de Caetano, a trechos do conto original de Guimarães Rosa.

Mas o teatro também tem a ver com o espírito meio anárquico das Chicas. “É essa liberdade que o teatro tem, de não seguir regras”, afirma Isadora. Certamente ajudou o grupo a superar os problemas de som de um dos primeiros shows em Recife e realizar a apresentação toda acústica e cantando à capela para um teatro com três mil lugares. “A gente achou que não podia sair dali sem fazer um show”, lembra.

As Chicas estiveram em Recife mais uma vez na semana passada, desta vez sem maiores problemas e já mostrando o novo show – que abre com “Can’t buy me love”, dos Beatles. Além do show Em Tempo de Crise Nasceu a Canção, o quarteto continua fazendo o Barulinho por aí – um show infantil.

“A gente resolveu fazer esse show por dois motivos. Um: pela presença constante de crianças na platéia das Chicas”, conta Isadora. “E quando a Fernanda ficou grávida, ela teve que passar três meses afastada. Então, fizemos um show chamado Trabalho de Parto, com um set só de músicas infantis em homenagem a ela. A galera pirou nesse set”.

Realizar esse show mostrou-se um acerto. “A aceitação do Barulinho é inacreditável”, diz. “Aí, a gente deixa fluir mesmo a união do teatro com a música”. Para quem não viu, há um número do espetáculo incluído como extra do DVD.

As Chicas já começam a trabalhar no próximo disco de estúdio. “Estamos colocando no papel”, conta. “As idéias já temos, estamos conversando. Mas ele deve sair talvez para o meio ou o final do ano que vem”.

E, para terminar, existe uma maneira certa de falar o nome do grupo? Seria “tchicas“, como “meninas” em espanhol, ou “chicas“, como apelido para “Franciscas”? “Fica ao gosto do cliente”, brinca Isadora. “Acho que tem essa coisa bem brasileira de vir de ‘Francisca’ e tenho certeza que, quando a gente for para fora do Brasil, vai rolar muito. O nome tem humor, acho que tem a ver com a gente”.

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Audrey, na versão florista de "My Fair Lady"...

A notícia de que vão refilmar My Fair Lady – Minha Bela Dama não me abalou como poderia. Isso porque os nomes envolvidos me pareceram bastante adequados. O mais importante, claro, é quem será a nova Eliza Doolittle, a florista pobre que é educada para ser uma dama, personagem criada por George Bernard Shaw na peça original, Pigmalião. E vivida no cinema por ninguém menos que Audrey Hepburn – razão pela qual eu deveria estar com os dois pés atrás para qualquer refilmagem que se aventurasse.

Enfim. A nova Eliza será Keira Knightley. Uma atriz britânica bonita e que já se provou bastante eficiente quando exigida. Tem o típico físico da Audrey – ou seja: é magricela, mas um encanto. Nunca a ouvi cantar, mas, até aí, Audrey também não cantou em My Fair Lady – foi dublada (contra a vontade, diga-se).

A direção é de Joe Wright, que dirigiu Keira nos ótimos Orgulho & Preconceito e Desejo e Reparação, e parece ter bem mais a ver com o projeto que no nome anterior que estava na função: Danny Boyle (de quem gosto muito, de Cova Rasa a Quem Quer Ser um Milionário?). Para o professor grosseirão Henry Higgins (papel que deu o Oscar a Rex Harrison), o cotado é Daniel Craig. Grosseirão ele sabe ser – é só ver os dois filmes que estrelou como James Bond.

Piratas do Caribe-O Bau da Morte-15

...e Keira Knightley, que pode ser a próxima no papel

Mas o grande lance que me animou está no roteiro. Quem vai escrever o filme é simplesmente uma das mulheres vivas mais talentosas desse mundo das artes: Emma Thompson. Não estranhe e não esqueça que ela já ganhou um justíssimo Oscar pelo roteiro de Razão e Sensibilidade, em 1996. Mas e as músicas? Será que serão as mesmas? Sim, porque note que não é uma nova adaptação de Pigmalião, é uma refilmagem de My Fair Lady. Logo, será também um musical.

Por falar nisso, descobri hoje que a Paramount vai relançar a edição dupla de My Fair Lady já lançada pela Warner – mas com outra capa. Uma nova oportunidade para quem deixou de comprar aquela edição, que é excelente – não só pelo filme, mas pelos extras, que incluem um excelente making of e cenas com a voz original de Audrey cantando em dois números.

Em tempo: é engraçado, me lembro que em VHS esse filme saiu pela Fox. Em DVD, saiu pela Warner (o estúdio original do filme e, agora, pela Paramount). Complicado esse mundinho dos filmes e suas distribuidoras…

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O Irã, em tons de cinza

O passado em preto-e-branco, o presente a cores

O passado em preto-e-branco, o presente a cores

A HQ Persépolis é uma autobiografia: Marjane Satrapi escreveu e desenhou sua própria história – e, por tabela, a história de seu país, o Irã, a partir do fim dos anos 1970. Vieram os prêmios, o sucesso e a adaptação para o cinema, em uma animação igualmente celebrada: Persépolis (Persepolis, França/ Estados Unidos, 2007).

Marjane dirige o filme ao lado do francês Vincent Paronnaud, também quadrinhista. A trama é transposta com compreensível abreviação de algumas passagens (a série original é composta de quatro livros), mas muita fidelidade e, principalmente, o clima que mistura o tom de fábula, o bom humor alternando com o tom de reportagem da vida no Irã e a combinação de um visual simples, mas muito elaborado.

O traço de Marjane, que nas HQs lembram xilogravuras, foi sensivelmente “amaciado” para a animação, sem prejuízo algum. O filme continua batendo duro na opressão da mulher na sociedade iraniana pós-Revolução Islâmica e é eficiente ao mostrar o antes e o depois do país na infância de Marjane, sua criação em uma família de classe média progressista, a guerra vista de dentro de casa e a inadequação da jovem mulher na Europa, depois de crescida – ponto em que o filme se torna a história de uma iraniana em busca de sua identidade e da relação com seu país.

A maior parte do tempo em preto e branco, Persépolis é visualmente deslumbrante, com grandes resultados nos efeitos – o uso de silhuetas ou de imagens oníricas. E consegue passar um sentimento complexo de amor e angústia pelo país que, ainda por cima, nos ajuda a minimizar estereótipos.

Persépolis (Persépolis, França/ Estados Unidos, 2007). Direção: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud. Vozes na dublagem original: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes Benites. Disponível em DVD no Brasil.

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