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Conheci as Chicas em 2007, quando as quatro moças fizeram um show no Seis e Meia, em João Pessoa. Foi amor à primeira audição, confesso: adoro grupos vocais, desde o MPB-4 até o Garganta Profunda. Os jogos vocais no palco me encantam e as Chicas são um prodígio nisso.

Enfim, tive a oportunidade de conversar com uma delas na semana passada, a Isadora Medella, por telefone. Ela estava em sua casa, no Rio (ou “apartamento meio casa”, como me descreveu). O papo foi publicado no Jornal da Paraíba de ontem e está aqui em versão entendida.

Em tempo: o grupo se apresenta hoje no Teatro Oi Casa Grande, no Rio, às 21 horas, lançando oficialmente o novo CD e o DVD. No dia 11, o show é em São Paulo, no Sesi na Avenida Paulista.

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Em busca do fervor do ao vivo

Chicas_foto_Paula Kossatz

Em pé: Fernanda Gonzaga e Amora Pêra; sentadas: Isadora Medella e Paula Leal - Chicas e "Tchicas"

A tradição de grupos vocais brasileiros é fortíssima, surgindo bem antes da bossa nova e permanecendo tantos anos depois do auge do movimento. O quarteto Chicas incluiu-se aí com graça e talento, a partir do primeiro disco, Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, e lança agora o primeiro DVD e segundo disco (primeiro ao vivo): Em Tempo de Crise Nasceu a Canção.

“A gente quis registrar o fervor do ao vivo”, conta Isadora Medella, que integra o grupo junto com Paula Leal, Amora Pêra e Fernanda Gonzaga (as duas últimas, filhas de Gonzaguinha e, portanto, netas de Luiz Gonzaga). “Muita gente veio falar com a gente que o fervor do ao vivo é que é o lance. O disco de estúdio não tem aquela anarquia”.É verdade que uma certa anarquia faz parte do barato das Chicas – tanto, que a edição do DVD é frenética, dividindo a tela na quase totalidade do show.

“A pessoa que vai ao show olha para uma chica, olha para outra, enquanto outra está fazendo mil coisas, lá”, diz a cantora, mostrando que o objetivo foi dar o máximo possível uma visão total do grupo. “A gente quis mostrar que, enquanto uma esta cantando, milhares de coisas estão acontecendo. A idéia era colocar isso muito evidente”. O quarteto opinou na decisão artística de dividir a tela, assim como no projeto inteiro. “A gente é, assim, meio insuportável”, brinca. “A gente não consegue abrir mão simplesmente e tudo o que é artístico é gerenciado por nós”.

As Chicas alternam as vozes às vezes de maneira tão frenética que impressiona quando Isadora revela que os arranjos vocais são meio anárquicos. “A gente escreve os arranjos para os instrumentos, mas na hora do vocal a gente não quer escrever, quer que fique essa coisa meio desorientada”, afirma Isadora. “A gente deixa ele fluir, ser intuitivo. É mais próximo da gente, dessa informalidade. A gente interfere muito no cantar da outra”.

Amora e Fernanda são mais ligadas à percussão, enquanto Isadora e Paula são ligadas à harmonia. “Mas só porque a gente estudou mais tempo”, acrescenta Isadora. Na hora das harmonias, as quatro trabalham juntas. “Sentamos as quatro em frente ao computador para trabalhar”, conta. “O importante é que você precisa estar em contato com a música e com o sentimento dela”.

Cuidando de gatinhos que foram deixados em sua porta no dia anterior, Isadora fala do começo do grupo. As quatro integrantes se encontraram no palco, mas do teatro, na peça Fullanas. “Era um teatro musicado onde as atrizes não sabiam tocar e cantar, então fizemos a parte musical”, lembra. “Aí, uma amiga nos convidou para abrir um espaço dela. E depois fomos chamadas para mais coisas”.

E, assim, de forma totalmente espontânea, as Chicas foram nascendo. “Foi uma coisa muito intuitiva”, diz Isadora. “Na verdade, a gente nunca quis gravar um disco: a gente foi seguindo o fluxo”. Mas o grupo acabou dando um tempo. “A gente terminou o primeiro momento com uma gravadora interessada, mas acabou acontecendo um intervalo de uns três, quatro anos”.

O grupo começou em 1996, parou entre 1999 e 2000 e voltou em 2004. “A gente voltou fazendo show e houve uma pressão dos amigos para gravar um disco”, lembra Isadora. “E falaram uma coisa interessante: que se a gente gravasse um disco, ia passar a existir. Ia materializar o trabalho”. Quem Vai Comprar Nosso Barulho?, de 2006, acabou ganhando o Prêmio Tim. “A gente viu a importância do disco para ir mais longe”, diz ela. “É como uma semente, que vai com o vento e chega aos lugares antes da gente. A gente foi até ao Acre por causa desse disco”.

Foram shows por todo o país, ciclo que está chegando ao final. “Como a gente é inquieta, já estava querendo fazer coisa nova”, conta Isadora. “Então, essa coisa do DVD foi muito isso: ‘Galera, vamos registrar esse show'”. Ao repertório do primeiro disco, entrou também “Caras e bocas”, a música de abertura da novela homônima, incluída no DVD como extra em uma nova versão.

O DVD registra bem tanto o talento vocal, quanto o bom gosto do repertório e a cota de teatro da qual o grupo nunca chegou a ser desfazer. “O teatro, pra gente, é muito importante. A teatralidade é um dos fatores principais para a escolha das músicas”, diz Isadora. “A gente fala muito texto também”. Ela une “A terceira margem do rio”, de Caetano, a trechos do conto original de Guimarães Rosa.

Mas o teatro também tem a ver com o espírito meio anárquico das Chicas. “É essa liberdade que o teatro tem, de não seguir regras”, afirma Isadora. Certamente ajudou o grupo a superar os problemas de som de um dos primeiros shows em Recife e realizar a apresentação toda acústica e cantando à capela para um teatro com três mil lugares. “A gente achou que não podia sair dali sem fazer um show”, lembra.

As Chicas estiveram em Recife mais uma vez na semana passada, desta vez sem maiores problemas e já mostrando o novo show – que abre com “Can’t buy me love”, dos Beatles. Além do show Em Tempo de Crise Nasceu a Canção, o quarteto continua fazendo o Barulinho por aí – um show infantil.

“A gente resolveu fazer esse show por dois motivos. Um: pela presença constante de crianças na platéia das Chicas”, conta Isadora. “E quando a Fernanda ficou grávida, ela teve que passar três meses afastada. Então, fizemos um show chamado Trabalho de Parto, com um set só de músicas infantis em homenagem a ela. A galera pirou nesse set”.

Realizar esse show mostrou-se um acerto. “A aceitação do Barulinho é inacreditável”, diz. “Aí, a gente deixa fluir mesmo a união do teatro com a música”. Para quem não viu, há um número do espetáculo incluído como extra do DVD.

As Chicas já começam a trabalhar no próximo disco de estúdio. “Estamos colocando no papel”, conta. “As idéias já temos, estamos conversando. Mas ele deve sair talvez para o meio ou o final do ano que vem”.

E, para terminar, existe uma maneira certa de falar o nome do grupo? Seria “tchicas“, como “meninas” em espanhol, ou “chicas“, como apelido para “Franciscas”? “Fica ao gosto do cliente”, brinca Isadora. “Acho que tem essa coisa bem brasileira de vir de ‘Francisca’ e tenho certeza que, quando a gente for para fora do Brasil, vai rolar muito. O nome tem humor, acho que tem a ver com a gente”.

My Fair Lady-13

Audrey, na versão florista de "My Fair Lady"...

A notícia de que vão refilmar My Fair Lady – Minha Bela Dama não me abalou como poderia. Isso porque os nomes envolvidos me pareceram bastante adequados. O mais importante, claro, é quem será a nova Eliza Doolittle, a florista pobre que é educada para ser uma dama, personagem criada por George Bernard Shaw na peça original, Pigmalião. E vivida no cinema por ninguém menos que Audrey Hepburn – razão pela qual eu deveria estar com os dois pés atrás para qualquer refilmagem que se aventurasse.

Enfim. A nova Eliza será Keira Knightley. Uma atriz britânica bonita e que já se provou bastante eficiente quando exigida. Tem o típico físico da Audrey – ou seja: é magricela, mas um encanto. Nunca a ouvi cantar, mas, até aí, Audrey também não cantou em My Fair Lady – foi dublada (contra a vontade, diga-se).

A direção é de Joe Wright, que dirigiu Keira nos ótimos Orgulho & Preconceito e Desejo e Reparação, e parece ter bem mais a ver com o projeto que no nome anterior que estava na função: Danny Boyle (de quem gosto muito, de Cova Rasa a Quem Quer Ser um Milionário?). Para o professor grosseirão Henry Higgins (papel que deu o Oscar a Rex Harrison), o cotado é Daniel Craig. Grosseirão ele sabe ser – é só ver os dois filmes que estrelou como James Bond.

Piratas do Caribe-O Bau da Morte-15

...e Keira Knightley, que pode ser a próxima no papel

Mas o grande lance que me animou está no roteiro. Quem vai escrever o filme é simplesmente uma das mulheres vivas mais talentosas desse mundo das artes: Emma Thompson. Não estranhe e não esqueça que ela já ganhou um justíssimo Oscar pelo roteiro de Razão e Sensibilidade, em 1996. Mas e as músicas? Será que serão as mesmas? Sim, porque note que não é uma nova adaptação de Pigmalião, é uma refilmagem de My Fair Lady. Logo, será também um musical.

Por falar nisso, descobri hoje que a Paramount vai relançar a edição dupla de My Fair Lady já lançada pela Warner – mas com outra capa. Uma nova oportunidade para quem deixou de comprar aquela edição, que é excelente – não só pelo filme, mas pelos extras, que incluem um excelente making of e cenas com a voz original de Audrey cantando em dois números.

Em tempo: é engraçado, me lembro que em VHS esse filme saiu pela Fox. Em DVD, saiu pela Warner (o estúdio original do filme e, agora, pela Paramount). Complicado esse mundinho dos filmes e suas distribuidoras…

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O Irã, em tons de cinza

O passado em preto-e-branco, o presente a cores

O passado em preto-e-branco, o presente a cores

A HQ Persépolis é uma autobiografia: Marjane Satrapi escreveu e desenhou sua própria história – e, por tabela, a história de seu país, o Irã, a partir do fim dos anos 1970. Vieram os prêmios, o sucesso e a adaptação para o cinema, em uma animação igualmente celebrada: Persépolis (Persepolis, França/ Estados Unidos, 2007).

Marjane dirige o filme ao lado do francês Vincent Paronnaud, também quadrinhista. A trama é transposta com compreensível abreviação de algumas passagens (a série original é composta de quatro livros), mas muita fidelidade e, principalmente, o clima que mistura o tom de fábula, o bom humor alternando com o tom de reportagem da vida no Irã e a combinação de um visual simples, mas muito elaborado.

O traço de Marjane, que nas HQs lembram xilogravuras, foi sensivelmente “amaciado” para a animação, sem prejuízo algum. O filme continua batendo duro na opressão da mulher na sociedade iraniana pós-Revolução Islâmica e é eficiente ao mostrar o antes e o depois do país na infância de Marjane, sua criação em uma família de classe média progressista, a guerra vista de dentro de casa e a inadequação da jovem mulher na Europa, depois de crescida – ponto em que o filme se torna a história de uma iraniana em busca de sua identidade e da relação com seu país.

A maior parte do tempo em preto e branco, Persépolis é visualmente deslumbrante, com grandes resultados nos efeitos – o uso de silhuetas ou de imagens oníricas. E consegue passar um sentimento complexo de amor e angústia pelo país que, ainda por cima, nos ajuda a minimizar estereótipos.

Persépolis (Persépolis, França/ Estados Unidos, 2007). Direção: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud. Vozes na dublagem original: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes Benites. Disponível em DVD no Brasil.

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A verdade e a lenda

Nem Lee Marvin pode com John Wayne

Nem Lee Marvin pode com John Wayne

Em 2003, ano do centenário do faroeste, eu consultei 15 cinéfilos paraibanos sobre seus filmes preferidos no gênero. Cada um podia citar cinco filmes – e em 13 das listas estava O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, Estados Unidos, 1962). Foi o mais votado, ficando à frente de outros westerns normalmente mais badalados. Por que essa adoração? Não é tão fácil responder. É um filme atípico dentro do gênero e da filmografia do diretor que – a história já foi contada mil vezes – certa vez se levantou numa reunião de diretores e se apresentou: “Meu nome é John Ford. Eu faço westerns”.

Em 1962, Ford já vinha fazendo westerns há uns 40 anos. É notável como a psicologia de seus filmes vai ficando mais complexa no transcorrer desses anos. Os índios, por exemplo, não eram muito mais que uma ameaça à espreita para atacar e ser abatida em No Tempo das Diligências (1939) continuaram uma ameaça, mas com justificativas em Rastros de Ódio (1956) e nem aparecem em O Homem que Matou o Facínora (1962). E, dois anos depois, seriam até redimidos por ele, em Crepúsculo de uma Raça (1966).

Ford, que nunca se preocupou muito em transmitir “mensagens” em seus faroestes, fala bastante de política em O Homem que Matou o Facínora. O fio condutor é a história do jovem Ransom Stoddard (James Stewart), contada em flashback por ele mesmo, já um veterano senador. Idealista, ele chega à Shinbone para tentar a vida no oeste e é recebido da pior maneira – é atacado ainda na estrada pela gangue liderada pelo sádico Liberty Valance (Lee Marvin). As atividades de Valance não são segredo para ninguém em Shinbone, mas nenhum cidadão tem coragem de enfrentá-lo – o único que realmente o intimida, o rancheiro Tom Doniphon (John Wayne), está mais interessado em cuidar da própria vida.

Isso inclui a paixão por Hallie (Vera Miles), que trabalha num restaurante. É Doniphon que encontra Stoddard na estrada e é para o restaurante que ele o leva para ser cuidado. Começa aí uma relação complicada de amizade, respeito, idéias opostas e rivalidade (pelo amor de Hallie) entre os dois. Wayne e Stewart empreendem um dos maiores duelos do cinema, o que foi um toque genial de Ford ao escalar o elenco. Para Doniphon, não dá para ficar na cidade, sob a mira de Valance, sem uma arma. Rance não quer matá-lo, quer que ele seja preso, quer lei e ordem. Mas não há lei em Shinbone que, ainda por cima, é localizada numa região que ainda não é um estado da União.

O tempo todo no filme, Rance é pressionado para o lado contrário – e, mesmo assim, monta uma escola, ensina noções de democracia e igualdade e involuntariamente se torna o líder da campanha para tornar a região aberta num estado.

Num filme com esse tom político, Ford resolveu tocar no papel da imprensa, através do jornalista Dutton Peabody (Edmond O’Brian). Um papel não muito claro, diga-se: dono, editor, redator e – como ele mesmo diz – faxineiro do jornal da cidade, Peabody vai de noticiar o nascimento de bebês à luta dos pequenos fazendeiros contra os grandes criadores de gado. Assume o jornalismo como uma missão, mesmo que vá contra os poderosos. “É notícia, e eu sou um jornalista”, diz.

Mas quando algumas verdades são reveladas, a frase dita é a que marcou o filme: “Aqui é o oeste. Quando a lenda se torna verdade, imprima-se a lenda”. Ford imprimiu a lenda pela maior parte de sua carreira e, só nesta fase final, num período revisionista da história do mundo, tentou pender para o lado das verdades. Mas, com essa frase, parece querer dizer que ele, quando o assunto era o oeste, a lenda é que contava.

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, Estados Unidos, 1962). Direção: John Ford. Elenco: James Stewart, John Wayne, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O’Brien, Andy Devine, Woody Strode, Lee Van Cleef, Strother Martin, John Carradine, Jeanette Nolan, John Qualen.

Com o lançamento em DVD da minissérie Capitu, tive a oportunidade de entrevistar o diretor Luiz Fernando Carvalho pela terceira vez: a primeira foi frente-a-frente, nas filmagens de A Pedra do Reino, em Taperoá, e a segunda foi por e-mail às vésperas do lançamento da minissérie. Está também foi por e-mail e o diretor gentilmente respondeu, falando muito sobre as coisas em que acredita.

Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido: "Esse é o meu Dom Casmurro. E ele é único"

Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido: "Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da Terra"

A primeira pergunta é a seguinte: na primeira produção do Projeto Quadrante, A Pedra do Reino, o volume de críticas negativas foi tão grande quanto o de positivas. Isso te fez repensar decisões em relação a essa segunda produção?
Trago as costas cheias de cicatrizes por ter feito A Pedra do Reino como fiz, e, sinceramente, buscava a mesma comunicação que busquei agora com Capitu, de Machado de Assis. Por outro lado, o público em geral é formado por uma linguagem padronizada e, do meu modo, sigo lutando contra essa aberração, duvidando de certas verdades tidas como absolutas. O resultado de todas estas reflexões talvez seja a semente de minhas tentativas. Em A Pedra do Reino, tinha total consciência de que se tratava de um romance hermético, mas instigante em seu universo humano e estético, por tanto, além de homenagear o aniversário de seu autor, era fundamental presentear ao país seu universo poético sem desfigurá-lo. Não faria o menor sentido enxertar quinze personagens para saírem explicando o livro, ou soltar piadinhas aqui e ali, para transformar Quaderna num palhaço palatável para a classe média. Quaderna está ali, com todos os seus espinhos, que são a sua filosofia e sua mitologia. Quando me aproximei d’A Pedra do Reino, de universo hermético, centrado na cultura do Nordeste, o espectador do Sul pode se perder. Mas também pode se perguntar: “o que será Guerra de Princesa?” e, a partir daí, aprender sobre seu próprio país. É um ganho infelizmente não computável.

Como você sentiu a repercussão desta vez?
Para minha felicidade, a maioria dos telespectadores de Capitu foi de jovens. O horário era muito tarde, certos episódios entraram perto da meia-noite, apesar disso, Capitu registrou média de 15 pontos na madrugada. Para o horário, uma bela audiência! A obrigatoriedade de ler Machado de Assis nas escolas torna sua literatura oficial e sisuda, pouco lúdica, distanciando os jovens menos preparados. Busquei dialogar com este distanciamento, que acaba por gerar um certo preconceito de que Machado é chato e antigo. Ele é atual e moderno. Pensei na necessidade de se desfazer esse tal preconceito que percebi entre os adolescentes que, nos dias de hoje, estão plugados ao mundo todo, às várias manifestações artísticas, em várias línguas, via internet. Algumas escolas precisam encontrar em Machado um grande criador: interativo, imagético, emocional, irônico, melancólico e atemporal.

Me parece que você tem uma visão bem particular sobre as adaptações no que diz respeito ao texto. Você tenta preservar ao máximo a narração literária e busca formas de mantê-la na tela. É o que parece acontecer em Lavoura Arcaica, Pedra do Reino e em Capitu. É assim mesmo? Como você vê a questão da adaptação?
Não acredito em adaptação, no sentido ortodoxo do termo, como injetar num romance novos personagens, palavras, tramas explicativas e paralelas ou mesmo desfechos que não existam. Sou completamente contra esse tipo de assassinato. Procuro entrar no livro como um leitor e extrair uma resposta criativa a essa leitura. Em Capitu, não há uma única palavra ou vírgula que não seja de Machado. Logo, o Enigma permanece. Por isso também optei por outro título, Capitu, onde a idéia de uma tentativa de aproximação com o romance Dom Casmurro ficaria ainda mais clara, revelando não se tratar apenas de uma transposição de um suporte para outro, mas sim de um diálogo com a obra original. E nasceu daí uma outra tentativa: o diálogo com a personagem Capitu, que é tão misteriosa. Portanto, trata-se um ensaio sobre a dúvida. Não absolvo Capitu e não a condeno.  Capitu é um personagem que pertence ao mundo da Literatura e seu mistério sobrevive graças ao diálogo com a imaginação dos leitores e espectadores.

Sempre volta, por ocasião de lançamento de algum filme nacional, a questão do debate sobre o que seria linguagem de cinema e linguagem de TV. Na época de A Pedra do Reino houve quem dissesse que a minissérie não era um produto adequado para a televisão. Há diferença pra você?
No intuito de elogiar, as pessoas falam que meu trabalho na televisão é cinema, mas eu discordo. Agradeço o elogio, mas discordo. Cinema para mim é uma coisa e televisão é outra, é a diferença é uma questão de linguagem.  Em nenhum de meus trabalhos para tv, tive o desejo de assistir aos episódios emendados uns aos outros, partes com partes, como se formassem um filme, porque sabia, de antemão, que não constituiriam um filme. Pelo menos um “filme” que me interessaria realizar. Portanto, gostaria de insistir que Capitu e todas as outras realizações são um projeto de TV e para a TV, mas, talvez, simplesmente, uma outra TV. É certo, por outro lado, que não tenho sequer uma classificação mais plausível, muito menos um nome para tal processo no qual eu sinta essa experiência híbrida com a literatura e a tv perfeitamente traduzida. O que vejo é simplesmente um conjunto de tentativas sinceras.

No entanto, você criou um clássico da TV brasileira, que são aqueles cinco capítulos iniciais da novela Renascer (e digo ‘criou’ porque a direção teve demais a ver com a repercussão que aquele início de novela teve). Como você vê essa questão da linguagem?
Em relação a Renascer, o pouco que realizei em novelas foi no caminho de tentar humanizar sua narrativa, na maioria das vezes forjada de forma hegemônica e excessivamente industrial. Se na televisão, entre um take e outro, tenho a sensação de estar sendo vigiado por todos os lados, no cinema, ao contrário, é como se [mesmo sem fazer a mínima força para que isso aconteça] estivesse sozinho em meu quarto, fazendo coisas, falando com meus segredos, revelando-me sem ninguém ver: livre, dentro do cativeiro do rigor. Porém, sabendo da dimensão que a televisão alcança neste nosso Brasil, tratá-la apenas como diversão me parece bastante contestável. Precisamos de diversão, mas também precisamos nos orientar e entender o mundo. Os limites cabem a cada um. De minha parte, procuro um diálogo entre os que sabem e os que não sabem; um diálogo simples, sóbrio e fraterno, no qual aquilo que para o homem de cultura média é adquirido e seguro torne-se também patrimônio para o homem mais comum, pobre, e que, em relação a tantas questões, encontra-se ainda abandonado. Esta é a televisão que sonho ver no futuro. Ou sigo por este caminho ou, sinceramente, nada faz sentido.

Como isso foi pensado para Capitu?
Encontrar a narrativa para dialogar e atualizar a visão que os jovens tinham sobre este romance do Século XIX foi, ao mesmo tempo, meu maior prazer e meu o maior desafio. Falo da busca por um modo “inconfiável” de narrar, assim como o fez Machado de Assis. E este modo, que é todo feito de retalhos do tempo e dos espaços, onde, a principio, não correspondem em verdade ao tempo e ao espaço onde as ações estão se desenvolvendo, mas que, ao serem alinhavadas pela montagem, ganham o aspecto de verdade. Este jogo narrativo entre verdade e imaginação é o elemento da narrativa que mais me interessou, e ele está diretamente ligado ao personagem Dom Casmurro. Ele é o tecelão que arquiteta esta colcha de retalhos. A literatura nos ensina a ver as várias camadas do real, pois consegue trabalhar nas entrelinhas. A vida não fica restrita a ação e reação, causa e efeito, moral da história, bem e mal.

Em A Pedra do Reino você usou muitos atores nordestinos (paraibanos, principalmente), por conta da postura do projeto Quadrante de formar grande parte do elenco a partir de atores locais. Por isso, o elenco era praticamente todo desconhecido. Como Capitu é um projeto carioca, há nomes mais familiares – desde a estrela Maria Fernanda Cândido a Michel Melamed, que é conhecido por quem acompanha a cena teatral, e César Cardareiro, que fez o Sítio do Picapau Amarelo. Como foi a escolha do elenco? Há realmente uma preocupação por escalar um grande nome ou uma predileção por novos nomes? Ou você não se preocupa com isso ou não tem preferências a respeito?
Os talentos locais trazem consigo seus territórios, suas memórias. Um conjunto ético e estético, e, além da construção da fabulação, promovem, a um só golpe, uma reflexão que busca um retrato mais justo do país. Também não sigo sempre o mesmo procedimento. Existem os testes, mas também acontecem encontros em que sou arrastado. Por outro lado, o país tem muitos talentos, e este baú deve ser revirado de cabeça para baixo. Não precisaríamos ficar batendo sempre na mesma tecla, principalmente quando o papel não exige necessariamente um rosto consagrado pela mídia. Então qual é o sentido? Não há sentido!  Identifico um certo exagero nas escalações, não estou falando exclusivamente de tv, falo de um modo geral, toda a indústria dita cultural produz esta distorção, que a meu ver não contribui em nada para a narrativa, nem mesmo para o mercado. Estes excessos produzem, isto sim, uma espécie de desmitificação das personagens, que, por sua vez, acabam rendendo pouco à história.  Até mesmo os grandes atores são vulneráveis a dilução de seus talentos pelo excesso de exposição desnecessária.  Quanto ao Michel, há algum tempo o acompanhava de longe. O trabalho dele é um conjunto de felicidades, mas, essencialmente, trata-se de um artista puro. Não ligo se fica fora de moda essa tentativa de definir meu encontro com um intérprete, mas ao conjunto enorme, dentre outras coisinhas, somam-se: dignidade humana e artística, sensibilidade, inteligência, e uma generosidade com tudo e com todos. Esse é o meu querido Dom Casmurro. Não há outro igual na face da terra.

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Crônicas dublinenses

Os negros da Irlanda em ação

Os negros da Irlanda em ação

Em alguns filmes, por algum mistério, tudo dá certo. É o que aconteceu com The Commitments – Loucos pela Fama (The Commitments,  Irlanda/ Reino Unido/ Estados Unidos, 1991) que ficou famoso por sua música, mas vai bem além disso, se mostrando uma bela crônica dublinense permeada por ótimos diálogos e detalhes saborosos. Está, finalmente, saindo em DVD no Brasil.

O filme é sobre um grupo de jovens de Dublin que se reúnem para formar  uma banda de soul, capitaneados por um empresário tão jovem quanto eles (Robert Arkins). Os integrantes são bem heterogêneos, logo o talento (aprimorado por trabalho duro) convive desde o início com os problemas de relacionamento, além dos trabalhos para pagar as contas.

Os atores são realmente músicos e cantores da região, e o talento musical foi decisivo para conseguirem os papeis na seleção de elenco pelo diretor inglês Alan Parker (um especialista no gênero, que dirigiu Fama, 1978, e Evita, 1996). São figuras memoráveis, desde a linda Imelda (Angeline Ball), que é chamada para a banda pelos dotes físicos, mas se mostra uma grande cantora, passando pela figuraça do trompete Joey “The Lips” Fagan (Johnny Murphy), até o segurança psicopata promovido a baterista (Dave Finnegan). O anterior, Billy (Dick Massey) dizia que sua inspiração era o Animal, dos Muppets.

O resultado não poderia ser melhor – tanto que o filme não só rendeu duas trilhas sonoras de grande sucesso como a banda fictícia passou para o mundo real, com parte do elenco original fazendo shows. E, entre as músicas, uma interessante visão sobre a região pobre da capital da Irlanda. Quando um dos músicos questiona o gênero escolhido, o soul, como sendo muito brancos para tocá-lo, o empresário Jimmy sai com essa: “Os irlandeses são os negros da Europa. Os dublinenses são os negros da Irlanda. E os dublinenses do norte são os negros de Dublin. Por isso, diga ‘Sou negro e me orgulho disso’”.

O filme é recheado de detalhes saborosos, que vão das gêmeas que falam ao mesmo tempo, como os sobrinhos do Pato Donald, às referências cifradas (como a aparição do garoto das capas dos discos Boy, 1980, e War, 1983, então adolescente), passando pelo fato de que os irmãos que hoje formam a banda The Corrs aparecem em pontas no filme (a vocalista Andrea é a irmã Sharon), as piadas em torno de Elvis Presley, e da sinceridade e proletariedade do soul, defendidas por Jimmy de maneira absolutamente panfletária. É para curtir várias vezes e por todos os seus aspectos.

The Commitments – Loucos pela Fama (Irlanda/ Reino Unido/ Estados Unidos, 1991). Direção: Alan Parker. Elenco: Robert Arkins, Johnny Murphy, Andrew Strong, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Ken McCluskey, Glen Hansard, Félim Gormley, Bronagh Gallagher, Michael Aherne, Dave Finnegan, Dick Massey, Colm Meaney, Andrea Corr. Disponível em DVD no Brasil.

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Deus estava contra

A tripulação da Enterprise se prepara para encontrar Deus - mas este não é o maior de seus problemas

A tripulação da Enterprise se prepara para encontrar Deus - mas este não é o maior de seus problemas

Depois de um filme extremamente bem sucedido que flertou mais com a comédia, a série Jornada nas Estrelas caiu na tentação de repetir a fórmula. Mas essa decisão da Paramount entrou em choque com a idéia de William Shatner para dirigir o quinto filme, uma séria e pretensamente filosófica busca por Deus. O conflito de visões prejudicou seriamente Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira (Star Trek V – The Final Frontier, Estados Unidos, 1989), que tem que conviver até hoje com um estigma: o de ser o pior da série. Embora não seja o desastre que quase todo mundo aponta.

Aliado a um problema já de concepção, estava o orçamento apertado. Shatner teve que driblar a falta de recursos para os efeitos especiais do filme e, por mais micos que tenha pago, escapou por pouco do pior de todos: um homem de pedra criado para a seqüência final onde deveriam ser um bando deles. Os testes com a criatura (o resultado pode ser visto nos extras da edição especial do filme) lembram a cena do teste de figurino dos homens-gato de Assim Estava Escrito (1952).

Ainda bem que o ator-diretor decidiu não usá-lo, mesmo com o dinheiro gasto (a Industrial Light and Magic não foi a responsável pelos efeitos porque estava envolvida em outro projeto), e fez uma gambiarra na resolução do quinto filme da série. A resolução deveria ser bem mais longa, mas teve que ser abreviada, complicando ainda mais um filme já comprometido.

O começo do filme mostra um vulcano diferente do que costumamos conhecer – tão expansivo quanto fanático religioso. É Sybok (Laurence Luckinbill, no papel que originalmente seria de Sean Connery), que está firme na tentativa de chegar ao centro da galáxia e encontrar nada menos que Deus, que ele acredita estar lá. Para isso, seqüestra a Enterprise e graças a algum poder de sugestionar pessoas, acaba conseguindo aliados dentro da nave. Nada porém capaz de abalar a amizade entre Kirk (Shatner), Spock (Leonard Nimoy) e McCoy (DeForest Kelley).

Ao tratar do relacionamento entre os três protagonistas da série é que A Última Fronteira se sai melhor. A combinação de tolice e sinceridade quando reencontramos os três em um acampamento é um belo prelúdio para o momento de provação no qual Spock e McCoy são obrigados a encarar suas maiores dores interiores – ali, sim, uma grande cena e um dos melhores momentos dedicados ao personagem de McCoy em todos os filmes e séries de Jornada nas Estrelas.

O problema maior sem dúvida foi a obrigação de incluir piadas na trama. Em A Volta para Casa havia um elemento que provocava isso naturalmente – a inadequação da tripulação da Enterprise a 1986, para onde tinham voltado no tempo. Agora, não há nada. O que os fãs mais lembram são a dança seminua de uma Uhura de meia idade (Nichelle Nichols) e o engenheiro-chefe Scotty (James Doohan) batendo a cabeça e caindo desacordado logo após dizer que conhecia a Enterprise como a palma da mão (o que deveria ser verdade).

Para cada uma das duas cenas há uma explicação, mas é difícil perdoar. Shatner não deu mesmo sorte. Até pediu dinheiro à Paramount para uma reedição do material para o lançamento em DVD (como Robert Wise recebeu para sua “versão do diretor” do primeiro filme), mas nem isso conseguiu. Em tempo: mancada também da distribuidora brasileira que não percebeu a referência do título ao texto clássico de abertura da série e traduziu o familiar “fronteira final” como “última fronteira”.

Jornada nas Estrelas V – A Última Fronteira (Star Trek V – The Final Frontier). Estados Unidos, 1989. Direção: William Shatner. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, George Takei, Laurence Luckinbill, David Warner, Charles Cooper. Disponível em DVD no Brasil.

Assista ao Comic Show sobre o universo de Jornada nas Estrelas

Crítica de Jornada nas Estrelas – O Filme
Crítica de Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan
Crítica de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock
Crítica de Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa
Crítica de Star Trek

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Humanismo no calor da hora

Capra e sua posição otimista em plena Grande Depressão

Capra e sua posição otimista em plena Grande Depressão

Numa lista dos maiores filmes de Frank Capra, Loucura Americana (American Madness, Estados Unidos, 1932) dificilmente é citado. Mas ninguém pode negar como ele se integra bem à filmografia do diretor siciliano de nascimento, mas muito americano (sua família emigrou para os Estados Unidos quando ele estava há poucos dias de completar seis anos). Aqui, ele já não era um iniciante: dirigia filmes desde 1926 (mas ainda assinava Frank R. Capra). Estava à vontade para um grande comentário sobre a Grande Depressão, no calor da hora.

O filme foi realizado entre a quebra da Bolsa de 1929 e o New Deal promovido por Franklin Roosevelt. Se passa praticamente todo dentro de um banco, em dois dias. Os personagens são expostos em uma longa seqüência do cotidiano da agência, onde o foco é o banqueiro Dickson (Walter Huston) que tem por política emprestar dinheiro aos correntistas pobres mesmo contra a posição dos diretores. Para ele, é esse dinheiro circulando que vai ajudar a evitar mais desemprego.

Ele é durão, mas acredita nas pessoas. Empregou como caixa Matt Brown (Pat O’Brien), um sujeito que já teve problemas com a polícia e hoje é namorado de sua secretária, Helen (Constance Cummings). Tudo começa a dar errado quando uma noite o banco é assaltado. Na manhã seguinte espalha-se o boato de que não há dinheiro e os correntistas correm para a agência para retirarem seu dinheiro. Como está tudo aplicado, não há como atender a todos gerando uma bola de neve. Problemas pessoais envolvendo a  mulher de Dickson, Phyllis (Kay Johnson), ainda complicam tudo para ele.

Há muitos elementos que lembram o que Capra faria nos filmes seguintes, principalmente A Felicidade Não Se Compra (1946). Dickson é um George Bailey menos emotivo, mas ainda preocupado com as pessoas em volta e afetado por elas. O desenrolar da corrida ao banco e até o final também lembram um dos filmes definitivos de Capra. Loucura Americana combina a aposta no povo, a afirmação otimista de que um homem pode fazer a diferença e ser reconhecido por isso e denuncia o descaso dos poderosos com a coletividade. Tudo o que compôs a combinação de populismo e humanismo que marcam o cinema do diretor.

Ninguém pode afirmar, no entanto, que o cineasta não acreditava no que propunha. E mais: que ele não sabia exatamente como contar essas histórias. Já em Loucura Americana, seu domínio narrativo é espantoso. A primeira parte do filme é um mosaico que vai mostrando o cotidiano dos vários personagens durante uma manhã no mesmo lugar: o banco. Em pouquíssimos momentos durante toda a história a câmera sai dali. E ainda há as cenas de multidão, muito bem conduzidas. E, de quebra, um delicioso visual anos 1920, que ainda estava valendo naquele começo dos 1930, em alguns personagens. O roteiro é de Robert Riskin, que escreveu nada menos que 13 filmes de Capra.

Loucura Americana (American Madness). Estados Unidos, 1932. Direção: Frank Capra. Elenco: Walter Huston, Pat O’Brien, Kay Johnson, Constance Cummings, Gavin Gordon, Arthur Hoyt, Sterling Holloway. Disponível em DVD no Brasil.

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Jornada ecológica

A tripulação em plenos anos 1980

A tripulação em plenos anos 1980

As viagens no tempo sempre foram um tema muito querido a Jornada nas Estrelas – que o diga J.J. Abrams e seu novo Star Trek (2009), atualmente em cartaz nos cinemas. Durante a série clássica, os tripulantes da Enterprise já haviam voltado à época em que o programa era produzido – no caso, 1968. Quase 20 anos depois, havia chegado a vez de isso acontecer no cinema: em Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa (Star Trek IV – The Voyage Home, Estados Unidos, 1986), forte candidato a ser considerado o melhor filme da série.

A Volta para Casa começa pouco depois do fim de À Procura de Spock (1984), encerrando uma trilogia particular que começou em A Ira de Kahn (1982). Se o anterior era corajoso por deixar Spock de fora – por causa dos eventos do final do segundo filme -, neste é a nave Enterprise, sempre um personagem à parte, que mal dá as caras.

Na verdade, a tripulação está a bordo de uma nave klingon e retornando para a Terra quando descobre que uma espécie de sonda vai destruindo tudo pelo caminho porque seu chamado não está encontrando resposta. A aniquilação do planeta parece certa até a descoberta: o som esperado é o que as baleias jubarte emitem no fundo do mar.

Porém, no século 23 elas estão extintas. omo única solução, a nave volta a 1986 com a inusitada missão de “raptar” duas baleias e voltar com elas para aproximadamente 300 anos no futuro e fazê-las se comunicar com a sonda. O que o capitão Kirk (William Shatner), o Sr. Spock (Leonard Nimoy), o Dr. McCoy (DeForest Kelley) e cia. encontram é uma cultura mais estranha que as alienígenas com as quais eventualmente esbarram em suas viagens espaciais.

Em San Francisco, eles têm que lidar com computadores obsoletos (para o século 23), medicina antiquada, paranóia anticomunista e até punks. O resultado é uma série de piadas ótimas que tornaram este o filme mais engraçado da série, tendo como rival em momentos cômicos apenas o clássico episódio “Problemas aos pingos”, da segunda temporada.

A  equipe também estava afiada. Nimoy assumiu a direção pela segunda vez e com segurança suficiente para brincar à vontade com os personagens. Nicholas Meyer (que havia dirigido A Ira de Kahn e voltaria à função em A Terra Desconhecida, de 1991) colaborou no roteiro, escrito também pelo produtor Harve Bennett e por Steve Meerson  e Peter Krikes (a partir da história de Nimoy e Bennett).

O roteiro mostra mais uma vez uma das forças de Jornada nas Estrelas: a preocupação científica e se mostrar antenada com os problemas da época em que é prodzida, mesmo por baixo de muita ação e bom humor. Aqui, isso surge como o aviso ecológico contra a caça indiscriminada e perigo de extinção das baleias. Mas o filme sabiamente evita um tom moralista ou professoral e se concentra na química entre os personagens e no equilíbrio entre ação e comédia.

E deu mais do que certo: é um grande prazer, acima de tudo, assistir a Jornada nas Estrelas IV – A  Volta para Casa.

Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa. (Star Trek IV – The Voyage Home, Estados Unidos, 1986). Direção: Leonard Nimoy. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, Catherine Hicks, James Doohan, Nichelle Nichols, George Takei, Walter Koenig, Mark Lenard, Jane Wyatt, Robin Curtis, Grace Lee Whitney, Jane Wiedlin, Majel Barrett. Disponível em DVD pela Paramount.

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Crítica de Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan
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Estrela encoberta

A equipe (quase) completa

A equipe (quase) completa

Em uma época em que praticamente não existia spoilers (muito menos, se espalhando como praga como acontece hoje pela internet) e as pessoas não tinham, cada uma, uma câmera em seus telefones portáteis (que também não existiam), Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock (Star Trek III – The Search for Spock, Estados Unidos, 1984) pôde apostar no mistério a respeito do personagem mais popular da série. Quem viu o final do segundo, sabe o que aconteceu com o Sr. Spock (ja fazem 27 anos, mas, ok, não vou contar), e é exatamente a cena que abre o filme – com direito ao monólogo “Espaço, a fronteira final”.

Leonard Nimoy, intérprete do personagem desde 1964, só aparece nos créditos de abertura como diretor do filme (é sua estréia na função). E o público continuaria se perguntando: afinal, Spock aparece ou não nesse filme? Uma coisa pode ser dita: é um Jornada nas Estrelas que tem a coragem de não ter o Spock – ou não na quase totalidade do tempo, ou não como imaginamos.

O filme começa logo após o fim do segundo e tem sua trama ainda ligada ao Projeto Gênesis, que pode dar vida a qualquer planeta estéril. Mas também pode eliminar a vida anteriormente existente no local: portanto, é uma arma e tanto e interessa muito a uma nave klingon nas redondezas. Esta é a primeira vez que a raça bélica, maior inimiga da Federação, aparece para valer nos filmes (no primeiro filme, estão apenas no prólogo em uma “participação especial”).

A Enterprise entra na trama porque o almirante Kirk (William Shatner) precisa cumprir uma promessa de Spock e o Dr. McCoy (DeForest Kelley) demonstra um estranho comportamento que também diz respeito ao vulcano. Como a Federação não quer ajudar, a tripulação trama o roubo da nave estelar e joga de volta ao Planeta Gênesis.

É uma boa estréia para Nimoy, com um filme ligeiro e eficiente – e um final muito bom. Kirstie Alley, que havia aparecido bem com a vulcana Saavik em A Ira de Khan (1982), foi substituída por Robin Curtis neste filme. Saavik era uma nova personagem e a mudança não deve ter causado qualquer comoção – ao contrário do que aconteceria com qualquer um do elenco original. Robin não é tão marcante quanto Kirstie, mas dá conta do papel.

À Procura de Spock não costuma ser relacionado entre os melhores filmes da série, mas também não é um dos piores. É bastante competente e divertido, mantendo vivo o espírito da série criada por Gene Roddenberry – incrivelmente apoiado na ausência de seu principal personagem.

Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock. (Star Trek III – The Search for Spock, Estados Unidos, 1984). Direção: Leonard Nimoy. Elenco: William Shatner, DeForest Kelley, Christopher Lloyd, James Doohan, George Takei, Nichelle Nichols, Walter Koenig, Robin Curtis, Merritt Butrick, Leonard Nimoy, Miguel Ferrer, Mark Lenard, Grace Lee Whitney. Disponível em DVD pela Paramount.

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