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The Post

DIÁRIO DE FILMES 2018: 10 – THE POST – A GUERRA SECRETA
Sem borda - 04 estrelas

Spielberg já declarou que este é “um filme de urgência” para ele. Aproveitou a história sobre liberdade de imprensa e mentiras governamentais sobre a Guerra do Vietnã para falar de hoje. Para tanto, aproveitou também a relação direta com Todos os Homens do Presidente (1976) para se inspirar no filme de Pakula, funcionando como um prelúdio, a ponto do final emendar com o começo do outro, que era sobre o Watergate. Resulta num clássico “drama de redação”,  com algumas observações das relações pouco institucionais da imprensa com o poder e da afirmação da mulher no mercado de trabalho. O começo é meio embaralhado para quem não conhece todos aqueles nomes e Tom Hanks está mais careteiro que o normal, mas o filme cresce bem na metade final.

The Post – A Guerra Secreta. The Post. Reino Unido/ EUA, 2017. Direção: Steven Spielberg. Elenco: Maryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk. No cinema.

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Viva - 02

Miguel e a bisavó Lupita: indo além do esperado

VIVA – A VIDA É UMA FESTA
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Saudade é vida

. por Renato Félix

Se existe vida além da morte, o que seria “a morte da morte”? Viva – A Vida É uma Festa (2017) dá sua visão: é o esquecimento. Nossos mortos continuam vivos em nossas memórias. Se nos esquecemos deles, eles deixam de existir. Com essa base, o estúdio de animação – que tem alternado seus melhores momentos com continuações meio no piloto automático – volta à sua melhor forma.

E essa melhor forma vem principalmente da combinação de roteiro e animação para esculpir personagens que conseguem transmitir grandes e complexas emoções, por mais que o filme não perca de vista o público infantil e o alto astral. Então, mais uma vez, humor, música e cores (mesmo no mundo dos mortos) são colocados como a base em que, quando menos se percebe, é construído algo que vai além.

O tema –  a morte –  é delicado e complexo, tanto que o marketing tentou desviar do assunto o melhor que pôde. O título brasileiro, então, exagera desnecessariamente na alegria. A vida não é uma festa para Miguel, o protagonista. O garoto quer ser músico, mas a família é contra: quer que ele siga a tradição sem graça dos parentes e seja um sapateiro.

O que ajuda o filme é que evidentemente a trama se passa no México, onde o Dia de Finados é encarado de uma maneira muito particular. Segundo a tradição, é o dia em que os mortos têm a permissão de visitar os parentes e amigos vivos. Enquanto a família tem um altar com fotos dos parentes que já se foram, Miguel tem o seu particular para Ernesto de la Cruz, um antigo ídolo da música.

Uma situação limite o leva, vivo, ao mundo dos mortos. E para voltar antes do fim do dia, o garoto vai ter que repensar valores familiares, sua vocação e descobrir segredos do passado. Conhece os antepassados, mas sua volta está ligada ao seu futuro e o levará ao encontro do ídolo em quem se espelha. Na jornada, terá a ajuda de Hector, uma caveira que parece ser apenas um alivio cômico, mas é o personagem em que Viva vai se apoiar para chegar mais longe.

O visual do mundo dos mortos é impressionante, começando pela ponte de pétalas que o liga ao mundo dos vivos e as plataformas inspiradas nas pirâmides astecas. Ter que conseguir o “visto de imigração” para passar “para o nosso lado” é uma situação que não pode estar ali por acaso.

E a animação aproveita para muitas brincadeiras visuais, lembrando tanto clássicos da Warner Bros. quanto o curta A Dança dos Esqueletos (1929), uma das primeiras Silly Symphonies da Disney.

A aventura misturada com comédia familiar começa a abraçar outras emoções quando entra em cena a possibilidade do esquecimento desses personagens mortos, mas com tanta vida, por parte de quem ficou por aqui (através da saudade). Coco, o título original (de que a Disney Brasil teve tanto medo de um trocadilho infame), se refere a personagem da bisavó, já sofrendo do mal de Alzheimer. É uma pena que o título brasileiro tenha desperdiçado essa relação com a personagem.

Linhas se cruzam e surgem algumas soluções que são mais fáceis e certos segredos que podem ser previstos a uma boa distância pelo espectador. Mas nada disso chega a ser um problema. As qualidades do filme de Lee Unkrich (é se segundo longa como diretor; o primeiro foi Toy Story 3) compensam, como centrar em dois personagens até então coadjuvantes (Hector e Coco, que aqui no Brasl foi rebatizada como Lupita) para construir uma cena de dimensão tão grande, que já está no rol daquelas da Pixar que arrancam lágrimas do espectador.

Viva! – A Vida É uma Festa. Coco. EUA, 2017. Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina. Vozes na dublagem original: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Alfonso Arau. Vozes na dublagem brasileira: Arthur Salerno, Leandro Luna, Nando Prado, Adriana Quadros.

* Crítica estendida da original publicada no Correio da Paraíba, em 13 de janeiro de 2018.

Touro Ferdinando

DIÁRIO DE FILMES 2018: 9 – O TOURO FERDINANDO
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A história é bem conhecida, seja pelo livro de Munro Leaf (ilustrado por Robert Lawson), de 1936, ou pelo curta animado da Disney, vencedor do Oscar, de 1938. O desafio da Blue Sky e do diretor Carlos Saldanha foi ampliar a trama. Esse trabalho é bem feito, adicionando uma fuga, uma vida paralela, mas o retorno ao andamento básico da trama: picado por uma abelha, o gentil Ferdinando sai doido e é confundido com um touro bravo, indo parar numa arena. O clímax contra o toureiro é muito bom. Uma coisa que atrapalha é o excesso de personagens: não basta ter um ouriço malandro, são três; não basta ter um cavalo arrogante, são três!

O Touro Ferdinando. Ferdinand. EUA, 2017. Direção: Carlos Saldanha. Vozes na dublagem original: John Cena, Kate McKinnon, Lily Day, David Tennant, Gina Rodriguez, Jeremy Sisto. Vozes na dublagem brasileira: Thalita Carauta, Maísa Silva, Otaviano Costa. No cinema.

Com Amor Van Gogh 2

DIÁRIO DE FILMES 2018: 6 – COM AMOR, VAN GOGH
Sem borda - 04 estrelas

Todo animado a partir de pinturas a óleo, o filme da polonesa Dorota Kobiela e do britânico Hugh Welchman é um evento visual. A narrativa bebe na fonte de Cidadão Kane para recontar os últimos dias do pintor holandês. Mais detalhes na minha crítica.

Com Amor, Van Gogh. Loving Vincent. Reino Unido/ Polônia, 2017. Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman. Vozes na dublagem original: Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan. No cinema.

Viva

DIÁRIO DE FILMES 2018: 5 – VIVA – A VIDA É UMA FESTA
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A Pixar hoje parece dividida em dois modelos de produção: as continuações feitas meio no piloto automático para lucrar com os personagens já conhecidos; e a pérolas genuínas do estúdio, feitas com risco e aprofundamento. Viva está no segundo tipo, que já nos deu obras-primas como Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Wall-E (2008) e Divertida Mente (2015). A trama sobre um garoto mexicano que quer ser músico contra a posição da família e vai parar no mundo dos mortos, com muita cor e humor, vai se desenrolando sobre temas mais complexos, como saudade e o que seria “a morte dos mortos”: o esquecimento. Visualmente, é bem elaborado, e há momentos especialmente tocantes.

Viva! – A Vida É uma Festa – Coco. EUA, 2017. Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina. Vozes na dublagem original: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Alfonso Arau. Vozes na dublagem brasileira: Arthur Salerno, Leandro Luna, Nando Prado, Adriana Quadros. No cinema.

Com Amor Van Gogh

Metalinguagem do filme evoca estilo de Van Gogh

COM AMOR, VAN GOGH
Sem borda - 04 estrelas

Um mundo pintado a óleo

por Renato Félix

É difícil não se impressionar. Uma equipe de 100 artistas, comandados pelos diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, pintou centenas e centenas de quadros a óleo que foram animados para gerar Com Amor, Van Gogh (2017), filme em que o jovem filho de um carteiro é encarregado de entregar uma carta do pintor holandês, um ano após a morte dele. Viajando à procura da família de Van Gogh, vai conhecendo pessoas que o conheceram e foram retratadas por ele.

Começa aí um processo narrativo semelhante ao de Cidadão Kane (1941). O jovem Armand ouve de cada um versões sobre a vida de Van Gogh, passando pela infância e pelo episódio dramático do corte da própria orelha. Mas os relatos são especialmente sobre seus últimos dias, que desembocaram no tiro que deu contra si mesmo, resultando na morte do pintor dois dias depois.

Armand questiona a versão do suicídio – ele terá mesmo se matado ou terá sido assassinado? – e procura entender o intenso artista e seus tormentos. A narrativa segue o modelo de Cidadão Kane de perto, com cada depoimento puxando uma cena do passado (mostradas em preto-e-branco). Através delas, quadros de Van Gogh são recriados quando surgem os personagens com quem ele conviveu e pintou.

Não é uma narrativa que busca inovação e talvez até seja didática demais. Mas o projeto todo é comovente pelo carinho pelo seu personagem, que transborda de cada cena. Muito, claro, pelo esforço em narrar tudo seguindo o estilo visual de Van Gogh. Uma metalinguagem e tanto.

A técnica fica mais evidente nos momentos coloridos e, curiosamente, as cenas  com “movimento de câmera” dão uma curiosa sensação de que é o cenário que está se movimentando, não os personagens. As cenas em preto-e-branco “escondem” mais as pinceladas. Mas a graça, claro, não é escondê-las, mas que a técnica esteja bem evidente. Um retrato visual fiel da realidade, afinal, não era pretendido por Van Gogh e, também não o é pelo filme.

Com Amor, Van Gogh. Loving Vincent. Reino Unido/ Polônia, 2017. Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman. Vozes na dublagem original: Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan. No cinema.

Star Wars - Os Ultimos Jedi - 32

Daisy Ridley e Mark Hamill: ela é a protagonista

STAR WARS – OS ÚLTIMOS JEDI
Sem borda - 04 estrelas

Passagem de bastão

por Renato Félix

Na sua origem, a saga Star Wars é uma colcha de retalhos de referências. Aos antigos seriados de cinema de Flash Gordon dos anos 1930,  a filmes japoneses de samurai, a faroestes e filmes de capa-e-espada da Hollywood clássica. A trilogia original é bem isso e, agora, ela própria é uma fonte de referências. E, assim, na nova trilogia, do qual Star Wars – Os Últimos Jedi (2017) é o novo capítulo,  a série faz referência principalmente a si mesma.

Assim, qualquer razoável iniciado em Star Wars vai encontrar ecos de episódios passados por todo o novo filme (como já acontecia em O Despertar da Força, 2015, o filme anterior). Desde o começo em alta voltagem com uma batalha espacial, visto antes em Ataque dos Clones (2002), ao muitos elementos e situações que citam diretamente O Retorno de Jedi (1983). Ou na busca por um mestre distante e há muito isolado, vista em O Império Contra-Ataca (1980).

O segundo filme desta nova trilogia também reafirma que os grandes personagens clássicos não são os protagonistas: são, na verdade, um forte apoio para os novos rostos. Sim, Luke Skywalker (Mark Hamill) está de volta e tem alguns grandes momentos reservados a ele, mas seu principal papel é encaminhar Rey (Daisy Ridley) nas artes jedi. O filme, e isso é ainda mais claro que em O Despertar da Força, é uma passagem de bastão.

Uma parte considerável do filme se detém nos esforços de Rey para convencer Luke a sair da toca e ajudar a Resistência, em vias de ser erradicada. Enquanto Luke tem sua crise com o passado e suas crenças, ela tem diálogos à distância com seu grande inimigo, Kylo Ren (Adam Driver), um recurso dramático muito bem conduzido.

A trama se separa em dois outros núcleos dramáticos: em um, a General Leia (Carrie Fisher) precisa conduzir a fuga da Resistência, acossada pelas forças da Primeira Ordem, e domar a impetuosidade de seu melhor piloto, Poe (Oscar Isaac, que ganha mais espaço); no outro, Finn (John Boyega) e uma nova personagem, Rose (Kelly Marie Tran), vão a um planeta-cassino à procura de um decodificador para ajudar a despistar a Primeira Ordem.

Nesse segmento, aparecem umas pequenas tintas políticas. Rose aponta o dedo para aquela elite, afirmando que “ninguém ganha tanto dinheiro assim se não for com a guerra”.  Comentários sociais que vão reverberar nos belos momentos finais do filme.

A sequência também serve ao (lento) desenvolvimento do personagem de Boyega e introduz o de Benicio del Toro, um malandro pouco confiável, mas com uma visão de mundo bem-vinda a Star Wars.

A saga sempre se banhou na maniqueísmo, contrapondo um lado claramente bom e outro claramente mau. Ao conduzir a história, George Lucas procurou borrar essas fronteiras em O Retorno de Jedi (1983) ao tratar da redenção de Darth Vader e, desajeitadamente, na trilogia-prelúdio, ao narrar a queda de Anakin Skywalker.

Mas derrapou feio quando sua sanha revisionista mudou, em 1997, a cena em que Han Solo atira a sangue-frio e à traição no caçador de recompensas Greedo, em Guerra nas Estrelas (1977). Lucas não resistiu à tentação de “desborrar” a fronteira, primeiro fazendo Solo “atirar depois” e, depois, “atirar ao mesmo tempo”.

DJ, o personagem de Del Toro, em certo momento rouba a nave de um comerciante de armas, de quem tanto os vilões da Primeira Ordem quanto os mocinhos da Resistência usaram os serviços. Um tímido, mas eloquente, tom de cinza em uma saga que prima pelo preto no branco.

O filme tem momentos de visual arrebatador (principalmente a luta na sala vermelha e o combate no planeta coberto de sal) e humor (em situações inesperadas, inclusive). Também contraria um artifício narrativo tradicional na série, que é ignorar o fato de que o som não se propaga no espaço para gerar mais emoção nos combates espaciais. Desta vez, em uma cena chave (envolvendo a sempre ótima Laura Dern), o diretor Rian Johnson optou por retirar o som e gerar a emoção pela ausência dele.

Parênteses: O fato de que cinemas tiveram que colocar avisos para que a plateia soubesse que isso é de propósito faz pensar a que ponto de emburrecimento chegou uma parcela do público dos cinemas. Fecha parênteses.

E, algo que faz diferença tanto em como o filme foi feito quanto como ele é assistido, Os Últimos Jedi marca a despedida de Carrie Fisher.

A atriz morreu em dezembro de 2016, cerca de um ano antes da estreia do filme. Mas já tinha filmado todas as suas cenas para Os Últimos Jedi. O filme, então, e a plateia minimamente informada são conscientes o tempo todo dessa despedida. Não dá para não ter atenção sobre como Leia é tratada e como o filme resolveu ou não seu desfecho na trama.

Há outras coisas, mas isso, sem dúvida, tornou a experiência de Os Últimos Jedi diferente.

Star Wars – Os Últimos Jedi. Star Wars – The Last Jedi. EUA, 2017. Direção: Rian Johnson. Elenco: Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Carrie Fisher, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Benicio del Toro, Laura Dern. Voz: Frank Oz. Em captura de movimento: Lupita Nyong’o, Andy Serkis.

* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba, em 20/12/2017

Roda Gigante 2

Justin Timberlake, Kate Winslet e Juno Temple: tragédia pairando no ar

ROGA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

A roda viva traçada por Woody Allen

por Renato Félix

Em determinado momento de Roda Gigante, o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que quer ser escritor, dá a Carolina (Juno Temple), a jovem que está se escondendo do marido gangster, um livro que analisa o teatro de Eugene O’Neill. É a senha da inspiração de Woody Allen para sua nova crônica das tragédias humanas: o ótimo Roda Gigante (2017).

O’Neill faz parte de um time de dramaturgos americanos que exploraram as entranhas das famílias americanas e suas relações. Sua peça mais conhecida é Longa Jornada Noite Adentro, um texto de 1941, que o dramaturgo manteve lacrada em um cofre com instruções para ser montada apenas após sua morte (provavelmente por retratar as disfunções de sua própria família em 1912). Ele morreu em 1953 , a primeira montagem é de 1956 e rendeu um Pulitzer póstumo a O’Neill.

O filme de Woody Allen se passa nos anos 1950, década da morte de O’Neill e da montagem póstuma. As tragédias criadas por nós mesmos, que se tornam prisões das quais alguns não conseguimos escapar, são os temas deste novo filme. Mas nem Mickey e nem Carolina são os grandes protagonistas de Roda Gigante. Este papel cabe a Ginny, mais um grande personagem feminino de Woody Allen e mais uma grande interpretação feminina em um de seus filmes: Kate Winslet.

Ginny é uma garçonete que vive em Coney Island e cujo marido que ela não ama, Humpty (Jim Belushi), trabalha no carrossel do histórico parque de diversões do lugar – ambiente que ela odeia e que a deixa com constantes dores de cabeça. O casal vive ainda com Richie (Jack Gore), filho do primeiro casamento de Ginny, e que tem um estranho impulso incendiário.

É uma vida quase miserável para Ginny, mas duas coisas acontecem: ela começa um caso com Mickey que devolve a ela o prazer de viver; e Carolina, filha de Humpty, reaparece, pedindo abrigo para se esconder, depois de ter delatado o marido. Quando Carolina também se interessa por Mickey e ele por ela, Ginny vê sua tábua de salvação para fora daquela vida afundar passo a passo.

A tragédia está pairando no ar. E a irresistível vontade de Richie de colocar fogo nas coisas pode ser uma metáfora de que uma hora essas pequenas fogueiras podem sair do controle.

É visualmente um dos filmes mais bonitos de Woody Allen – fotografia formidável de Vittorio Storaro, que usa de maneira impressionante o visual de parque de diversões como fundo melancólico para dramas humanos, assim como a luz dos neons, da noite, do entardecer.

A fotografia é beneficiada pela opção de Allen de usar menos os planos sequência de que tanto gosta: os longos diálogos sem cortes, muitas vezes com um dos personagens falando fora do enquadramento. Os diálogos aparecem em plano e contraplano mais que o usual para um filme de Allen dos anos 1980 para cá. Isso deixa Storaro livre para compor a luz das imagens de maneira a irem mudando durante o plano. O rosto de Winslet às vezes está sob a luz amarela de um farol, para depois ser banhada pelo azul da noite.

Mas os planos-sequência estão lá, surgindo em momentos-chave. Em um monólogo de Winslet confrontando acusações de seu amante. Num emocionalmente caótico, mas visualmente bem coreografado ajuste de contas da família. Na tocante imagem final, em que velhos diálogos são repetidos como se fossem o cotidiano, mas o desespero é transmitido pelo olhar.

O sabor do teatro é constante no filme. É fácil imaginar tudo aquilo acontecendo em um palco. Mickey, que narra o filme, até começa a contar a história por uma rubrica de texto tetral: “Entra Carolina”. Allen sai poucas vezes do registro mais direto para um mais figurativo (quando os efeitos dos analgésicos em Ginny são mostrados pela ausência do som dos brinquedos do parque de diversões, que a atormentam).

O aspecto teatral certamente beneficia Kate Winslet e sua grande composição de uma mulher rumo ao desequilíbrio – há um pouco de Blue Jasmine (e, portanto, da Blanche DuBois de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams) em Ginny. Não só ela, mas também Caroline, passam o filme tentando lidar com o resultado de suas escolhas e de como elas as encarceraram numa vida da qual as duas mulheres tentam escapar por alguma brecha.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple.

Roda Gigante

DIÁRIO DE FILMES 2018: 1 – RODA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

Woody Allen situa seu filme nos anos 1950, em uma decadente, mas ainda barulhenta Coney Island, com seus parques de diversões, neons e praias. Aí, trama um entrelaçado de tragédias humanas centrado principalmente na infeliz Ginny (Kate Winslet). Seu caso com o salva-vidas vivido por Justin Timberlake e a vaga esperança de escapar de sua vida miserável junto ao marido bruto que ela não ama e o parque de diversões que ela odeia passam a ser ameaçada pela aparição da filha do marido, fugindo do marido gangster e que também se interessa pelo salva-vidas. A luz incrível de Vittorio Storaro faz deste um dos filmes visualmente mais bonitos de Allen. O diretor reduz os planos-sequência, usando mais os planos e contraplanos, deixando os planos mais longos para monólogos de Winslet e uma grande de desestabilização da família. A inspiração teatral está sempre presente, assim como o ar de tragédia.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple. No cinema, 3/1

Film Box Office

Flash (Ezra Miller), Batman (Ben Affleck) e Mulher-Matavilha (Gal Gadot): mudança de rota

LIGA DA JUSTIÇA
Sem borda - 2,5 estrelas

Sofrendo com o ‘Efeito Martha’

por Renato Félix

A primeiríssima cena de Liga da Justiça (2017) é muito importante para entender os rumos que o filme toma, em relação ao que vinha sendo feito com esse universo DC compartilhado no cinema. Ela mostra o Super-Homem (Henry Cavill) respondendo, após um salvamento, perguntas de algumas crianças para uma filmagem em celular. Embora meio constrangido, ele atende às crianças com atenção e paciência antes de sair voando.

Trata-se de um novo personagem na franquia, alguém que não foi apareceu em O Homem de Aço (2013) e nem em Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (2016) – mesmo que nesses filmes houvesse um que tenha tido o mesmo nome e tenha sido interpretado pelo mesmo ator deste. É uma caracterização completamente diferente.

Para quem defendia a versão dos primeiros filmes dizendo que era uma “atualização” do personagem, que era um “Super-Homem para os novos tempos”, que aquele Super-Homem “não tinha mais lugar nos tempos de hoje”, talvez tenha sido uma grande surpresa essa virada.

Terá sido a influência de Joss Whedon, que assumiu o filme na reta final? Ou Zack Snyder aprendeu com as críticas e abandonou o argumento do “Super-Homem nunca visto antes” que usava em O Homem de Aço, voltando finalmente ao personagem nos velhos moldes?

O fato é que Liga da Justiça parece uma continuação que não assistiu aos filmes anteriores da franquia. E isso, que normalmente seria um ponto negativo, não é: é positivo. A única saída para se safar do que foi plantado em O Homem de Aço só poderia ser essa: esquecer o tanto quanto possível os filmes anteriores assinados pelo próprio Snyder (Whedon, que escreveu e dirigiu os dois Vingadores, não assina aqui como diretor, apenas como co-roteirista).

Já era conhecida a orientação de se levar aos cinemas um filme mais relaxado e divertido, e isso fica evidente desde a primeira cena. Mas não são raras as vezes em que fica evidente demais, como no fato de qualquer diálogo do Flash (Ezra Miller) ter a obrigação de tentar fazer graça. Muitas piadas simplesmente não dão certo, mas algumas, vale ressaltar, até que funcionam bem – como a que envolve o Aquaman (Jason Momoa) e o laço mágico da Mulher-Maravilha e o Flash partindo para cima do Super-Homem.

Já é um avanço. Mas, no geral, o filme simplesmente carece de brilho. Quando é observado à luz do universo compartilhado da DC no cinema, ele reflete a arquitetura apressada e desajeitada dessa construção. Mulher-Maravilha (2017), por exemplo, é o filme imediatamente anterior, lançado também este ano, mas se passa 100 anos antes deste – e, ainda assim, Diana (Gal Gadot) fala sem parar no amor perdido na I Guerra. Mesmo que uma amazona imortal tenha uma percepção de tempo diferente da nossa, não convence.

E por que o Batman (Ben Affleck) iria convocar alguém vestido não como o Homem-Morcego, mas como Bruce Wayne, sem qualquer zelo por sua identidade secreta? A explicação só pode ser essa: acharam ótima a ideia de Affleck jogar um batarangue e Barry Allen, o Flash em sua identidade secreta, pegá-lo no ar com sua supervelocidade e deduzir: “Você é o Batman!”. Mas, para chegar a esse momento, a construção de cenas e diálogos é péssima.

Infelizmente, Liga da Justiça é cheia de momentos assim. Momentos que podemos chamar de Efeito Martha (quem assistiu Batman vs. Superman vai entender): pensar em uma cena de efeito e simplesmente não construir minimamente bem o alicerce dramático para chegar lá.

O vilão é outro ponto fragilíssimo do filme. A reunião dos principais super-heróis do mundo merecia alguém com mais peso e carisma que um inimigo da terceira divisão da DC Comics, sem qualquer carisma e cujas motivações são tão rasas. Se tivesse pelo menos dois elementos do tripe importância-carisma-motivação, escaparia. Mas o Lobo da Estepe passou longe de qualquer um deles.

O CGI também não ajuda nada, competindo com o não bigode de Henry Cavill (a ausência mais presente do filme) pelo título de visual incômodo do filme.

Os heróis chegam a funcionar a contento juntos e – quem diria? –  o filme melhora quando o Super-Homem entra em cena (mesmo que a justificativa para sua volta seja mais um dos elementos forçados do roteiro). Como se simbolicamente renegasse o estabelecido nos filmes anteriores de Snyder, Danny Elfman (autor das trilhas dos Batman de Tim Burton e dos Homem-Aranha de Sam Raimi) entra no lugar de Hans Zimmer e traz momentos… da trilha clássica de John Williams para Superman – O Filme (1978)!

Liga da Justiça. Justice League. EUA, 2017. Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, J.K. Simmons, Jeremy Irons, Jesse Eisenberg, Robin Wright, Connie Nielsen, Amber Heard, Diane Lane, Billy Crudup. Em cartaz.

 

Estreias 10.26

Atenção para as estreias do cinema no circuito paraibano nesta quinta, 26 de outubro. É uma semana movimentada, com nove estreias e uma reestreia.

O blockbuster da semana é o elogiado Thor – Ragnarok, o terceiro solo do deus do trovão. Cris Hemsworth tem a companhia de Mark Ruffalo como Hulk, Tom Hiddleston como Loki e de Cate Blanchett, a grande vilã. Estreia quinta em JP (Cinépolis Manaíra, Centerplex MAG, Cinesercla Tambiá, Cinépolis Mangabeira), CG (Cinesercla Partage) e Patos (Cine Guedes).

Premiado em Berlim, Uma Mulher Fantástica lidera as estreias do Cine Banguê, em João Pessoa, sábado. Também chegam por lá o elogiado As Duas Irenes, a partir de segunda, e o documentário Gaga – O Amor pela Dança, a partir de domingo. E, a partir de domingo, a reestreia de Como Nossos Pais, da Laís Bodanzky, que já esteve em cartaz, mas por pouco tempo.

Em tempo: neste sábado, a partir das 15h, o Banguê exibe uma mostra comemorando o Dia da Animação. Em tempo 2: a reestreia do antológico  Cidade dos Sonhos no Banguê já tem data: é no dia 2.

O Centerplex MAG exibe sozinho três estreias: Manifestotour de force experimental em que Cate Blanchett interpreta 13 personagens (e ela, lembrando, ainda está também em Thor – Ragnarok); O Formidável, sobre Jean-Luc Godard e do diretor de O Artista, Michel Hazanavicius (que passa apenas sábado e domingo); e A Menina Indigo, do diretor de Nosso Lar.

O criticado Pelé – O Nascimento de uma Lenda, produção americana sobre a juventude do rei do futebol, entra só no Cinépolis Manaíra. E ainda tem a animação europeia Missão Cegonha, em JP (Cinépolis Manaíra, Cinesercla Tambiá e Cinépolis Mangabeira).

 


TRAILERS:

  • Thor – Ragnarok:

  • Uma Mulher Fantástica:

  • As Duas Irenes:

  • Manifesto:

  • O Formidável:

  • Gaga – O Amor pela Dança:

  • A Menina Indigo:

  • Pelé – O Nascimento de uma Lenda:

  • Missão Cegonha:

  • Como Nossos Pais:

Estrelas Alem do Tempo - 06

Um ambiente veladamente (mas não muito) hostil: Taraji P. Henson em “Estrelas Além do Tempo”

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO
Sem borda - 04 estrelas

A inteligência não tem cor 

É de se pensar que a Nasa, a agência espacial americana, é e sempre foi um lugar à frente de seu tempo. Onde o futuro chega primeiro. Mas Estrelas Além do Tempo (2016), indicado ao Oscar de melhor filme, mostra que, nos anos 1950 e 1960, em certos aspectos, a agência espacial americana era um ambiente tão retrógrado quanto os piores locais dos Estados Unidos na época. O filme é centrado em matemáticas negras que trabalham na agência: em um prédio separado, usando banheiros e bebedores separados dos brancos.

Taraji P. Henson, Janelle Monäe e Octavia Spencer interpretam as três personagens reais em que o filme se concentra: respectivamente Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, que são algumas histórias contadas no livro-reportagem homônimo de Margot Lee Shetterly.

São as “hidden figures” do título original, bem melhor que o brasileiro. Johnson é requisitada para ajudar nos cálculos para levar um americano ao espaço pela primeira vez (e trazê-lo de lá em segurança). De repente, é a única pessoa negra em um ambiente veladamente (mas nem tanto) hostil. Vaughan luta para ter a chance de estudar para se tornar engenheira, embora as leis do estado não permitam que ela almeje ir tão longe. E Jackson, chefe da sessão, lida com a ameaça de demissão de todas as matemáticas pela informática, que já está batendo na porta.

Há filmes que se destacam por seus voos narrativos. Não é caso aqui. O diretor Theodore Melfi prefere não ousar, e dar todo o destaque à história que conta, importante e interessante. O filme segue de maneira bastante tradicional, deixando para o elenco e as personagens que interpretam a responsabilidade de elevar o filme. Também seus coadjuvantes dão conta (entre eles, Maheshala Ali. Que ano desse ator! Fez também Moonlight, pelo qual ganhou o Oscar, e ainda foi o vilão da série Luke Cage).

Mas o destaque mesmo é o trio central, que leva a trama com brilho. Se ainda é necessário mostrar, está aí mais uma prova de que a inteligência e o talento não têm cor ou sexo.

Estrelas Além do Tempo. Hidden Figures. EUA, 2016. Direção: Theodore Melfi. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali.

Glow - 2017 - 01

Lindas garotas da luta livre: “Glow”

Coluna Cinemascope (#41). Correio da Paraíba, 5/7/2017 

Mulheres, ringue, anos 1980

por Renato Félix

Antes dessa moda dos vale-tudos e UFC, houve a luta livre, o telecatch. Não cheguei a ver os áureos tempos de Ted Boy Marino e companhia, mas era espectador de um programa americano do gênero, que o SBT exibia lá nos anos 1980. Esses programas combinavam lutas e encenações, os lutadores encarnavam personagens e havia muito mais fantasia que escoriações e sangue.

Lembro até hoje de personagens desse programa. O Sr. Maravilha, a dupla Abelhas Assassinas e, claro, Hulk Hogan, que já era o maioral absoluto ali.

Por isso, parece algo absolutamente natural que os anos 1980 sejam a ambientação da ótima série Glow, que estreou há poucos dias  na Netflix. Mas, mais do que isso, é uma ambientação verdadeira, porque existiu mesmo uma série chamada Glow – Gorgeous Ladies of Wrestling (“Garotas bonitas da luta livre”), que colocava mulheres no ringue, entre 1986 e 1989.

As lutadoras/ atrizes interpretavam personagens como Liberty, Colonel Ninotchka, Zelda the Brain e por aí vai. A série da Netflix meio que reconta como surgiu o show original, com personagens mais ou menos baseados nos verdadeiros nomes. Agora temos Liberty Bell, Zoya the Destroya, Britannica, Beirut the Mad Bomber…

A série consegue reproduzir bastante do aspecto de diversão do período e transita pelo terreno espinhoso do comentário sobre o papel reservado às mulheres no meio artístico naquela época. Alison Brie, ótima atriz da série Mad Men, abre Glow lendo falas fortes para um teste, mas é advertida: “Você está lendo a fala do homem”. A da mulher é tipo “A sua esposa está na linha 2”.

A luta livre, por mais aproveitadora que pareça ser da figura feminina, é, para aquelas personagens, naquele contexto, a oportunidade de desenvolver um trabalho artístico e de ter um reconhecimento. Glow é bem carinhosa com suas personagens, apesar dos golpes da vida.

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Blow Up - Depois Daquele Beijo-21

David Hemmings em “Blow Up”: a captura enigmática de uma atmosfera

BLOW UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO
Sem borda - 04 estrelas

Há um mistério em Blow Up e ele é bem mais o próprio filme que o assassinato que o fotógrafo Thomas, vivido por David Hemmings, parece descobrir nas ampliações de fotos despretensiosas tiradas por ele num parque. Como bom mistério, o diretor Michelangelo Antonioni deixa pistas verdadeiras e falsas e convida o espectador a desvendar os sentidos do que desenrola na tela.

O filme começa e termina com um grupo de mímicos em cena. A princípio, eles cruzam gratuitamente o caminho do fotógrafo, que vinha de fotografar desvalidos, como um deles, mas entra em seu carrão e parte para o estúdio, onde vai conduzir sessões com belas modelos. No fim, ele os reencontra naquele clássico jogo de tênis sem bola. Mas que, ainda assim, sai da quadra e que ele recolhe no gramado e devolve. Para em seguida ouvirmos o som da bola inexistente.

Enigmático (é baseado em conto de Julio Cortázar, que faz uma ponta no filme), Blow Up deixa a cargo do espectador dar tratos à bola para decifrar enigmas como esse. O fotógrafo amplia as fotos, percebe um rosto assustado, descobre um homem armado nos arbustos, vê o que pode ser um corpo caído nas imagens granuladas. Quem matou? Quem morreu? Por que motivo? Houve mesmo um crime?

Em termos de narrativa, sobressaem-se os planos belos e rigorosos de Antonioni. No pano de fundo, mas talvez até de maior importância, está a captura de um momento particular da história da capital inglesa: a atmosfera efervescente da Swinging London, a moda, a música.

Talvez Blow Up seja um filme maior pela soma das partes (o show de rock dos Yardbirds com a plateia impassível, mas que se solta quando Jeff Beck destrói sua guitarra; a sessão de fotos com a realmente famosa modelo Veruschka, pelo chão; além das já citadas) do que pelo todo. Ou será maior pelo todo, tão sedutor quanto enigmático?

Blow Up – Depois Daquele Beijo. Blowup. Reino Unido/ Itália/ Estados Unidos, 1966. Direção: Michelangelo Antonioni. Elenco: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles, Jane Birkin, Veruschka von Lehndorff, The Yardbirds (Jeff Beck, Jimmy Page, Keith Relf).

Mulher-Maravilha - 07

Choque de realidade: Gal Gadot em “Mulher-Maravilha”

‘MULHER-MARAVILHA’
Estrelas-03 e meia juntas-site

O universo da DC Comics é muito caro pra mim. São os super-heróis da minha infância, são os cânones dos quais todos os outros são derivados (por aproximação ou oposição). São os modelos primordiais. Por isso tem doído bastante vê-los tão maltratados nos quadrinhos e no cinema. Desisti dos quadrinhos quando a editora tentou enfiar goela abaixo aquela coisa triste chamada “Novos 52”. E no cinema, um festival de tranqueiras tentando montar aos trancos e barrancos um universo compartilhado, como o que a Marvel construiu (com bem mais paciência e inteligência).

Isto posto, a alegria de constatar que conseguiram fazer de Mulher-Maravilha um filme. E não um amontoado de ideias ruins ou mal executadas, como os três exemplares anteriores desse universo compartilhado.

A ambientação na I Guerra Mundial provou-se um grande acerto. Nascida e criada na idílica Themiscyra (antes conhecida como Ilha Paraíso), povoada só por amazonas e isolada do mundo, Diana (Gal Gadot) socorre o aviador Steve Trevor (Chris Pine) que cai ali. E toma conhecimento da guerra que está consumindo o mundo. E decide deixar a ilha para ajudar acabar com a guerra no “mundo dos homens”.

A partir daí, o filme combina um humor leve ancorado na estranheza com que a princesa amazona vê os costumes do mundo de 1918 – especificamente em Londres. As roupas, o papel da mulher na sociedade, ver um bebê (o último em sua ilha havia sido ela mesma).

Ao entrarmos na guerra, Diana vai tomando contato com as complexidades da humanidade. Mesmo que o filme trate várias delas de leve, é quando ele cresce: o sofrimento de pessoas humildes, o racismo, não poder salvar a todos, as mortes gratuitas. Em certa medida, um índio diz que seu povo “foi morto pelo povo dele”, referindo-se ao branco Trevor, aliado de ambos. Como compreender coisas assim? O filme lida muito bem com o impacto disso na personagem.

O mundo é meio o inimigo, e isso compensa um pouco as fragilidades dos vilões do filme. Danny Huston faz o que pode, mas seu personagem é pobre e não ajuda. E, quando o deus Ares se revela, nunca convence, nem seu estratagema. Pior, a sequência final direciona desnecessariamente o filme para o simplismo quando ele navegava bem em mares mais complexos. Também parece um clímax de combate grandioso posto ali meio que por obrigação.

A espanhola Elena Anaya, como a Doutora Veneno, se sai melhor fazendo um tipo propositalmente caricato, mas o filme não a aproveita bem. Sua participação é bem menor do que poderia.

Mas, enfim, o filme também se vale bem do carisma de Gal Gadot e Chris Pine e da boa química entre eles. Há um clima de romance bem conduzido, equilibrando bem com o humor e as cenas de ação.

Cenas de ação, aliás, que exageram nas câmeras lentas: nenhuma amazona pode dar um pulo sequer que para no ar. Esses momentos são incontáveis, de bonitos tornam-se logo banais e repetitivos e, curiosamente, só dão um descanso justamente no combate final.

Felizmente, a construção da personagem é que é o motor do filme: quando ela destrói uma torre para parar um atirador alemão que ataca seu grupo e surge depois lá em cima, é difícil não ver que ali está a Mulher-Maravilha. Em termos de DC no cinema, ultimamente, isso já é muita coisa.

Mulher-Maravilha. Wonder Woman. Estados Unidos, 2017. Direção: Patty Jenkins. Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história de Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs. Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Lilly Aspell.

Coluna Cinemascope (#20). Correio da Paraíba, 1/2/2017

Saltimbancos Trapalhoes - Rumo a Hollywood - 01

Sumiram com os Saltimbancos

por Renato Félix

Faz alguns anos que Renato Aragão não aparece semanalmente em um programa na TV aberta. E só pode ser essa a razão (imediatista e rasa) para que as companhias exibidoras tenham simplesmente desprezado a volta do trapalhão aos cinemas, com Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood.

O filme não chegou a entrar em cartaz nas quatro sessões em nenhuma sala paraibana: teve duas numa sala do Cinespaço MAG, outras duas em uma sala do Cinépolis Manaíra e só duas também nos Cinesercla do Tambiá Shopping e do Partage Shopping, este em Campina. No Cinépolis Mangabeira, nem passou.

E olhe que, além de ser estrelado por Renato Aragão e Dedé Santana, trata-se de uma nova versão de um de seus maiores sucessos, que levou 5 milhões de pessoas aos cinemas em 1981/ 1982. E fez grande sucesso recente como musical de teatro, de onde esta nova versão foi adaptada. Na trilha, as mesmas canções de Chico Buarque que são cantadas até hoje por adultos e crianças.

Hoje, o filme não pode ser visto em João Pessoa: esta semana, passou apenas sábado e domingo. Na Paraíba, está sendo exibido apenas em Remígio. Provavelmente estará fora da programação já amanhã. E podia ser pior: soube que em Porto Alegre nem chegou a passar.

Minha infância foi pegando longas filas, dobrando o quarteirão, para ver o novo filme dos Trapalhões no cinema. Ok, os tempos são outros, mas a verdade é que o filme nem foi testado: os cinemas trataram de matar sua carreira no nascedouro.

Enquanto isso, filmes com youtubers estreiam com pompa e circunstância, ocupando várias salas. Não dá para não ter uma ponta de tristeza com as opções que nossos exibidores tomam.

FOTO: Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood (2016)

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Coluna Cinemascope (#19). Correio da Paraíba, 25/1/2017

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O contexto ‘La La Land’

por Renato Félix

Na última vez que olhei, La La Land – Cantando Estações era o 27º filme de melhor média entre os usuários do IMDb. O 27º entre todos os filmes de todos os tempos.  Mesma média de O Silêncio dos Inocentes (1991), A Felicidade Não Se Compra (1946), Cidade de Deus (2002), Guerra nas Estrelas (1977) e Os Sete Samurais (1954).

No começo do mês, se tornou recordista isolado do Globo de Ouro, com sete prêmios. Ontem, se tornou recordista de indicações ao Oscar: 14 (empatado com A Malvada, 1950, e Titanic, 1997). No Rotten Tomatoes, que faz um levantamento das críticas nos EUA, são 93% de críticas positivas (283 favoráveis, 22 desfavoráveis).

É para tanto? É uma delícia de filme, sim, talvez até um cinco estrelas, mas essa aceitação já é algo para ser analisado além da qualidade do filme em si.

É esse mundo conservador-baixo astral, com reacionários dando cria como gremlins de banho tomado, que está nos fazendo necessitar que o cinema nos eleve – e La La Land é o filme certo na hora certa? É uma boa aposta. O escapismo (e o musical, em particular) foi ao auge na Grande Depressão americana. E a vitória de i no Oscar não tinha tudo a ver com o baixo-astral pós-Nixon, Watergate e Vietnã?

A isso pode contribuir o deserto de musicais no cinema. Certo, um ou outro aparecem, mas não no estilo da Hollywood clássica, tipo anos 1940/ 1950, aqueles com Fred Astaire, Gene Kelly, Judy Garland. Quando um filme abraçou o estilo com tanta disposição, sinceridade e sem cinismo, ele se tornou um representante daquele cinema maravilhoso, todo concentrado em um filme só. E parte do público reencontrou e outra simplesmente descobriu esse prazer.

É o contexto possível para o fenômeno La La Land.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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“Moana – Um Mar de Aventuras” (2016)

4 – MOANA – UM MAR DE AVENTURAS

por Renato Félix

Em determinado momento de Moana – Um Mar de Aventuras, o semideus polinésio Maui a chama – com desdém – de princesa. “Não sou uma princesa”, ela retruca. “É a filha do chefe, é a mesma coisa”, rebate ele, e emenda: “Se usa um vestido e tem um bichinho de parceiro, é uma princesa”. A personagem-título de sua nova animação é mais uma tentativa da Disney de dar um passo à frente na modernização do conceito de “princesa”, um patrimônio cultural e de marketing do estúdio desde Branca de Neve, em 1937.

Moana não é uma princesa decorativa: é treinada para um dia governar. Desafia o pai o tempo todo no seu contrasenso de comandar um povo da Polinésia e ter medo do mar. Um dia, o destino faz a menina navegar como seus antepassados para encontrar Maui e reverter uma maldição que chega à sua ilha.

Se em A Princesa e o Sapo (2009), a princesa resiste ao romance por aspirações profissionais (mas se rende no decorrer do filme), se em Valente (2012) a princesa rejeitava seus pretendentes, e se em Frozen (2013) o príncipe se revelava o vilão (e o verdadeiro interesse amoroso estava em segundo plano), nesta progressão agora não há qualquer sinal de príncipe encantado à vista. A relação entre Moana e Maui está mais para irmão mais velho/ irmã caçula.

Mas mesmo com esse esforço de modernização, em termos de narrativa ainda é difícil não relacionar motivações e parte da jornada de Moana às de outras princesas Disney, como Ariel, de A Pequena Sereia (1989, dos mesmos diretores John Musker e Ron Clements) ou Belle, de A Bela e a Fera (1991).

Como Ariel, Moana tem curiosidade pelo mundo além das fronteiras do seu, mas é tolhida pelo pai. As duas possuem, ainda no primeiro terço de seus filmes, uma canção de “eu anseio por mais”, assim como outras princesas Disney. Foi “Part of your world” para Ariel em A Pequena Sereia, “Almost there” para Tiana em A Princesa e o Sapo (outro Musker-Clements), “When will my life begin?” para Rapunzel em Enrolados (2010), e é “How far I’ll go” em Moana.

É uma bela canção (que está indicada ao Oscar) de uma bela trilha, que reflete um cuidado da produção ao trabalhar com a cultura local. As canções ficaram a cargo de uma parceria entre o letrista novaiorquino Lin-Manuel Miranda e o músico Opetaia Foa’i. Dos números musicais, o melhor é “You’re welcome”, em que Maui (Dwayne Johnson no original; o cantor de musical Saulo Vasconcellos, na versão brasileira) bravateia seu heroísmo, com ótimos recursos visuais.

O visual arrebatador é um dos pontos em que Musker e Clements mostram a competência de sempre. Assim como no carisma dos personagens e um humor que sobrevive a certos atalhos fáceis e desnecessários do roteiro, como os bichinhos que não contribuem em nada para a trama (apesar de o galo burro ser ocasionalmente engraçado). Ou como o mar “vivo” que ajuda a heroína, que sempre parece um recurso forçado (embora também tenha ocasionalmente sua graça).

Aliás, a relação de Moana com o mar podia ser mais próxima na introdução da história. Embora ela seja naturalmente atraída por ele e, além disso, seja “a escolhida” desde bebê para reverter a maldição, não há nenhuma cena da garota em intimidade com o mar, mesmo morando em uma aldeia à beira-mar. Nem um simples mergulho.

No fim, Musker e Clements, oriundos das animações feitas à mão, fazem uma estreia muito boa na animação digital. É uma pena, somente, que isso signifique mais uma pá de cal nos longas feitos à mão, que renderam vários dos melhores exemplares do gênero. O último longa para o cinema a sair da própria Disney foi justamente A Princesa e o Sapo, já há seis anos.

Moana – Um Mar de Aventuras. Moana. Estados Unidos, 2016. Direção: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House. Vozes na dublagem brasileira: Any Gabrielly, Saulo Vasconcelos, Saulo Javan, Mariana Elisabetsky. No cinema (Cinespaço MAG). Revisão.

06.09 - Estreias

Há três estreias esta semana, dos quais Invocação do Mal 2 parece ser o de maior prestígio. O primeiro Truque de Mestre, sinceramente, acho bem fraco para me empolgar com esse segundo. E Katherine Heigl não inspira a menor confiança. A maior atração da semana, sem dúvida, é o Festival Varilux de Cinema Francês, com 15 filmes ainda inéditos do circuito brasileiro, mais o clássico Um Homem, uma Mulher.

JOÃO PESSOA

Entram quinta em JP:
– INVOCAÇÃO DO MAL 2 (Cinépolis Manaíra [2D leg, 2D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira [2D dub])
– TRUQUE DE MESTRE – O 2º ATO (Cinépolis Manaíra [2D leg, 2D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira [2D dub])
– CASAMENTO DE VERDADE (Cinespaço MAG 1 [2D leg])

Pré-estreia em JP:
– COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Cinépolis Manaíra [2D leg]; Cinespaço MAG [2D leg], Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira [2D dub]), apenas quinta a domingo
– AS TARTARUGAS NINJA – FORA DAS SOMBRAS (Cinépolis Manaíra [3D leg, 3D dub]; Cinespaço MAG [2D dub], Cinesercla Tambiá [3D dub]; Cinépolis Mangabeira [3D dub]), diariamente

Especial:
– FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS (Cinespaço MAG [2D leg]), diariamente

Até quarta em JP:
– CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL (Cinépolis Manaíra [2D leg, 2D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub])
– ANGRY BIRDS – O FILME (Cinépolis Manaíra [2D dub, 3D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira [2D dub}

Continuam em JP:
– JOGO DO DINHEIRO (Cinespaço MAG [2D leg]
– X-MEN – APOCALIPSE (Cinépolis Manaíra [2D leg, 2D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira (2D dub]).
– DE AMOR E TREVAS (Cine Bangüê [2D leg]), apenas sábado e domingo
– SUÍTE FRANCESA (Cinépolis Manaíra [2D leg])
– CEMITÉRIO DO ESPLENDOR (Cine Bangüê [2D leg]), apenas sábado
– MAIS FORTE QUE BOMBAS (Cine Bangüê [2D leg]), apenas quinta
– WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS (Cinépolis Manaíra [2D leg, 3D leg, 2D dub, 3D dub]; Cinespaço MAG [2D leg, 2D dub]; Cinesercla Tambiá [2D dub]; Cinépolis Mangabeira [3D dub]
– ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO (Cinépolis Manaíra [2D leg, 2D dub]; Cinespaço MAG [2D leg], Cinesercla Tambiá [2D dub, 3D dub]; Cinépolis Mangabeira [3D dub])
– O CIÚME (Cine Bangüê [2D leg]), apenas domingo
– EXILADOS DO VULCÃO (Cine Bangüê [2D leg]), apenas quinta
– UMA LOUCURA DE MULHER (Cinépolis Manaíra [2D em port]; Cinesercla Tambiá [2D em port])
– PEPPA PIG – AS BOTAS DE OURO E OUTRAS HISTÓRIAS (Cinépolis Manaíra [2D dub]), apenas sábado e domingo

 

CAMPINA GRANDE (Cinesercla Partage)

Entram quinta em CG:
– INVOCAÇÃO DO MAL 2 [2D dub]
– TRUQUE DE MESTRE – O 2º ATO [2D dub]

Pré-estreia em CG:
– COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ [2D dub], apenas quinta a domingo
– AS TARTARUGAS NINJA – FORA DAS SOMBRAS [3D dub], diariamente

Só até quarta em CG:
– CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL (Cinesercla Partage [2D dub])
– ANGRY BIRDS – O FILME (Cinesercla Partage [2D dub]

Continuam em CG:
– X-MEN – APOCALIPSE [2D dub]
– WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS [2D dub].
– ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO [3D leg, 3D dub)
– UMA LOUCURA DE MULHER [2D em port]

 

PATOS (Cine Guedes)

Entra quinta em Patos:
– INVOCAÇÃO DO MAL 2 [2D dub]

Pré-estreia em Patos:
– AS TARTARUGAS NINJA – FORA DAS SOMBRAS [3D dub], diariamente

Só até quarta em Patos:
– ANGRY BIRDS – O FILME (Cine Guedes [2D dub])

Continuam em Patos:
– X-MEN – APOCALIPSE (Cine Guedes [3D dub])
– ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO (Cine Guedes [3D dub])

 

REMÍGIO (Cine RT)

Entra quinta em Remígio:
– INVOCAÇÃO DO MAL 2 [2D dub]
– ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO [2D dub])

Só até quarta em Remígio:
– X-MEN – APOCALIPSE (Cine RT [2D dub])

Continuam em Remígio:
– WARCRAFT – O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS [2D dub]

 

O QUE ESTREIA NO BRASIL, MAS NÃO AQUI?

A Despedida, filme brasileiro com Nelson Xavier e Juliana Paes; o francês A Odisseia de Alice; Os Sonhos de um Sonhador – A História de Frank Aguiar, de título autoexplicativo; Vampiro 40 Graus, com Fausto Fawcett (!)

Batman V. Superman: Dawn Of Justice

Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, o primeiro encontro no cinema dos  dois principais super-heróis dos quadrinhos, é um filme cheio e vazio ao mesmo tempo.  É soterrado por referências a histórias clássicas dos personagens, mas faltou uma história que as ligasse bem. É repleto de ideias de tramas, mas não consegue desenvolver razoavelmente bem uma sequer.

Com Zack Snyder novamente na direção, os personagens da DC Comics voltam a sofrer com a mão pesada do diretor (como O Homem de Aço já havia sofrido em 2013). Dedicado a imprimir um visual de impacto, Snyder é muito pobre de narrativa – suas câmeras lentas em excesso e gratuitas já viraram uma marca do diretor, mas uma marca negativa.

Criatividade também não é o seu forte: ele tem fervor em copiar grandes momentos dos gibis, mas não em transformá-los em grandes momentos cinematográficos. Basicamente, fica na xerox. Aqui, há citações de Batman, o Cavaleiro das TrevasCrise nas Infinitas TerrasA Morte do Super-Homem e outras, mas parecem espalhadas a esmo.

Várias só farão sentido lá na frente, nos próximos filmes e se revelam incompreensíveis para quem não é íntimo do material original nos quadrinhos. E um pouco disso também vale para as cenas brevíssimas em que aparecem outros heróis (Flash, Ciborgue e Aquaman), algo tão gratuito que, se retirado do filme, não faria a menor falta.

E quando Snyder inventa, se sai ainda pior. O exemplo mais claro aqui é o Lex Luthor vivido por Jesse Eisenberg, uma “atualização” que o transformou em um sub-Mark Zuckerberg (que Eisenberg interpretou em A Rede Social, vocês sabem).

Atualização, aliás, em termos. Depois de leitores de HQ chatos reclamarem por anos a fio do Luthor cômico de Gene Hackman nos filmes do Super-Homem dos anos 1970/ 1980, e de sua releitura por Kevin Spacey em Superman – O Retorno, este filme traz um… Luthor engraçado? Ainda não deu para entender qual a intenção do filme com isso.

O filme não é uma perda total. Há um ou outro momento interessante, ou, como está no começo do texto, premissas boas mal desenvolvidas. O conflito central entre Batman e Superman é pífio. A explicação não convence e a luta em si menos ainda, acontecendo por um motivo tolo e podendo ser evitada por uma frase banal.

Sem falar na já famosa resolução do conflito, uma originalmente boa sacada totalmente desperdiçada por falta de um roteiro minimamente inteligente: uma palavra dita de maneira incrivelmente forçada resolve o assunto e muda o status de “ameaça à humanidade” para “amigo”. Acabou virando piada (e com justiça, é uma cena péssima). Essa pressa está presente em muitos momentos, e pode refletir o excesso de ideias (e seu mal aproveitamento). O desfecho do filme, por exemplo, usa uma carta grande como uma ejaculação precoce.

Curiosamente, a vontade de ser épico o leva a uma contradição: mesmo com a pressa, a edição não sabe como terminar o filme, com alguns incômodos “falsos finais” até a verdadeira cena final.

Em termos de representação dos personagens, o Super-Homem é um caso perdido. O que foi feito em O Homem de Aço se reflete da pior maneira aqui: um personagem apático o tempo inteiro. O Batman de Ben Affleck é decente, e chega a ter alguns momentos muito bons, mas equilibrado com outros totalmente sem brilho (sem falar que é enrolado com muita facilidade e seus motivos para rivalizar com o Super-Homem são muito frágeis). A Mulher-Maravilha é um dos bons momentos do filme – Gal Gadot convence, talvez porque apareça pouco, e dá esperanças para seu filme solo.

Batman vs. Superman insiste em querer ser “sério”, mas só consegue ser sisudo e baixo astral. É preciso lembrar que não há de errado em um filme de super-heróis querer ser sério. Nem leve. Há excelentes exemplares de um lado (Batman, o Cavaleiro das TrevasCapitão América – O Soldado Invernal) e de outro (Homem de FerroOs Vingadores – The Avengers). Mas de um lado ou de outro há que se contar uma boa história. E isso Batman vs. Superman – A Origem da Justiça não faz.

Batman vs. Superman – A Origem da Justiça. Batman v. Superman – Dawn of Justice. Estados Unidos, 2016. Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly HUnter, Gal Gadot, Michael Shannon, Ezra Miller, Jason Momoa.

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