You are currently browsing the tag archive for the ‘Em cartaz’ tag.

OS 7 DE CHICAGO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 52

Justiça tumultuada

Filmes de tribunal enfrentam sempre um dilema. O drama está sempre na palavra, o que há de imagem para mostrar além de pessoas falando? Aaron Sorkin, aqui diretor e roteirista, tenta resolver a questão basicamente com a montagem em Os 7 de Chicago.

O filme começa em alta voltagem, entrelaçando cenas reais de arquivo com outras com o elenco, cujos personagens vão sendo identificados por créditos na tela (alguns vão reclamar que o recurso é muito “televisivo”, mas não tem nada demais, Scorsese também já fez).

O tumulto que levou oito líderes diferentes de ativistas contra a guerra do Vietnã a serem julgados por incitarem a violência em Chicago durante a convenção do Partido Democrata não é mostrado no começo. Começamos a acompanhar a trama pelo julgamento e voltamos aos acontecimentos pelos depoimentos. Um recurso que também não é nenhuma novidade.

“Oito líderes”, você disse? Sim, oito estão sendo julgados. Sete representados pelo mesmo advogado e também Bobby Seale, dos Panteras Negras, que insiste que tem um advogado próprio. Ele não está presente, mas o juiz segue com o julgamento mesmo sem ele estar sendo legalmente defendido.

Esse caso é um dos mais emblemáticos julgamentos parciais e manipulados da história americana. O juiz ignora provas e depoimentos, pré-julga os réus desde o início, a procuradoria manipula a formação do júri. Sergio Moro ficaria orgulhoso.

Sorkin segue fazendo o que pode para que o filme não fique apenas no embate verbal. Ele ressalta as diferenças entre os réus (principalmente entre o certinho Tom Hayden vivido por Eddie Redmayne e o porralouca Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen). A narração dos acontecimentos passa a misturar freneticamente o interrogatório no tribunal, uma apresentação stand up de Abbie Hoffman, discussões privadas.

Esse vai e vem no tempo quase que é um reflexo narrativo dos ânimos exaltados e do tumulto nas ruas de que o filme trata. Às vezes é confuso em excesso, não consegue passar direito todas as informações. Mas é uma tentativa de sair da mesmice em que os filmes desse subgênero podem cair.

Esse quebra-cabeças sobre uma trama que parece mais simples do que como é mostrada tem, como trunfo, um poderoso elenco. Frank Langella, como um dos mais odiosos juízes do cinema; Joseph Gordon-Levitt, como o promotor que faz seu trabalho, mas tem sua ética; Mark Rylance, como o advogado de defesa; Michael Keaton, como um ex-procurador geral dos EUA. Atores sólidos, que mantêm o filme no prumo, nessas idas e vindas narrativas.

Onde ver: Netflix

The Trial of Chicago 7, 2020.
Direção: Aaron Sorkin. Elenco: Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Joseph Gordon Levitt, Frank Langella, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Michael Keaton, Caitlin Fitzgerald.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback

MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 50

Álbum de memórias

Minari é um daqueles filmes que precisam de bula? Faz diferença para o espectador saber que o que está na tela são memórias do diretor? Como é a recepção para o espectador que sabe disso e como é para aquele que vê como um filme contando uma história completamente inventada?

Uma parcela de quem não sabe do que está por trás do roteiro pode sair reclamando de mais um filme onde, na maior parte do tempo, “não acontece nada”. Quem conhece vai se emocionar mais com os pequenos acontecimentos na vida de uma família de imigrantes coreanos que se arrisca a tocar do zero uma fazenda no interior do Arkansas, nos EUA.

Não há nem uma grande questão com o preconceito. A quase totalidade dos conflitos está ali entre os integrantes da própria família: o pai que insiste na fazenda, a mãe que não compartilha desse sonho, o filho com problema no coração que não aceita bem a chegada da avó. A unidade da familia está em jogo, até mesmo quando chegam questões maiores, principalmente uma doença que vai desencadear outras situações.

O diretor-roteirista Lee Isaac Chung é americano no Colorado, filho de imigrantes coreanos. Ele consegue fazer um filme americano com um ponto de vista dos imigrantes que não parece uma “visão americana de um ponto de vista estrangeiro”. A maior parte falada em coreano, inclusive.

Há também uma excelente distribuição da atenção do filme entre os cinco membros da família. Isso, aliado a essa intensidade baixa na narrativa, lembra um pouco o ótimo As Coisas Simples da Vida (2000), de Edward Yang, co-produção Taiwan-Japão. Talvez, indo mais longe na ideia e no tempo, seja um herdeiro da obra cineasta japonês Yasujiro Ozu.

Não é uma credencial desprezível. Minari pode conquistar o espectador que se deixar levar por ele e pelos ótimos atores que dividem as alegrias e angústias dessa família. Como conquistou os votantes dessa temporada do Oscar, os quais o indicou em seis categorias, incluindo melhor filme e atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, a avó, atriz respeitadíssima na Coreia e com grandes chances de vencer).

Onde ver: cinemas

Minari, 2020.
Direção: Lee Isaac Chung. Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn.

MEU PAI
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 49

Labirinto mental

O título brasileiro verteu The Father para Meu Pai, mas isso não combina muito porque o ponto de vista do filme de Florian Zeller não é o da filha vivida por Olivia Colman. É inteiramente o do pai, Anthony, papel de um muito inspirado Anthony Hopkins.

Ele é o idoso londrino que vive sozinho em seu apartamento e resiste à ideia de ter uma cuidadora. A filha está tentando convencê-lo, já que vai se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo diariamente.

A segurança de Anthony consigo mesmo vai, no entanto, sendo colocada em xeque. De repente, o ex-marido da filha está no apartamento dizendo que o casal (que não se separou) é o dono do lugar e Anthony é que foi morar com eles. Ou a filha volta das compras, mas está completamente diferente. Ou situações já vividas parecem se repetir pouco depois.

Anthony estaria perdendo o juízo ou estariam tentando confundi-lo?

O filme é baseado em uma peça de sucesso de Florian Zeller, dramaturgo francês muito respeitado, que estreia na direção de cinema e que adaptou o texto com a ajuda de outro grande dramaturgo, o britânico (mas nascido em Portugal) Christopher Hampton. Para o papel, sua única opção era Anthony Hopkins. Tinha razão.

Filmes que tentam traduzir o que se passa na mente de seus protagonistas podem resultar numa grande jornada narrativa, e os bons exemplos vêm desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920). A ideia é fazer o espectador compartilhar ao máximo do sentimento de desconforto do personagem central.

A tática é bem empregada aqui, e uma chave importante para isso é Hopkins nos entregar um performance que consegue fácil a nossa empatia. Isso ajuda o espectador a passar por um trajeto que não é fácil: a deterioração da mente de um homem.

O filme poderia estabelecer um suspense, mas o objetivo não é estabelecer um jogo em que o espectador deve desvendar o que verdade ou mentira, se o protagonista está doente ou o estão enganando. Meu Pai deixa claro a confusão mental de Anthony quando, em sua primeira cena, mostra a chegada da filha Anne sem ser pela visão dele. É, aí, uma narrativa em terceira pessoa, a nossa visão objetiva do fato.

Por isso, quando Anne reaparece vivida por outra atriz, sabemos que é coisa da cabeça de Anthony, que estamos vendo isso pelos olhos dele. E que não deve ser essa a realidade.

Então, o que resta ao espectador é testemunhar, de dentro, a mente de um octogenário definhando. Como vemos a maior parte do filme por sua visão, sabemos pouco se o que estamos vendo é real (o relógio sempre perdido, o quadro na parede que some, o frango no jantar que se repete, uma sacola que muda de cor), a não ser pela âncora que são as cenas com a filha em que ele não está presente. Na maior parte do tempo, Meu Pai é um labirinto bem arquitetado, mas, talvez, sem final.

Onde ver: cinemas, Belas Artes a la Carte, Now, iTunes, Google Play, Sky Play (a partir de 28/4), Vivo Play (a partir de 28/4)

The Father, 2020.
Direção: Florian Zeller. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell.

BELA VINGANÇA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 33

Deboche atormentado

Uma pessoa consumida por uma missão autoimposta que se confunde entre vingança e justiça. Poderia ser o Batman, mas é Cassandra, a personagem de Carey Mulligan em Bela Vingança. O próprio nome da protagonista é bem pouco sutil: Cassandra, que previu e avisou todo mundo em Tróia da desgraça que viria com a guerra, mas ninguém deu ouvidos.

No filme, Cassie talvez seja, em si mesma, um aviso. Ela dedica sua vida a caçar predadores: homens nas baladas que tentam se aproveitar de mulheres bêbadas demais para saberem o que estão fazendo. Ela não se veste de morcego, nem tem apetrechos. Usa as armas que tem: planejamento e o uso de si mesmo como isca.

Um filme sobre um tema feminino, com uma mulher na criação e comando: Emerald Fennell é a diretora-roteirista que faz uma retumbante estreia nas duas funções em longas-metragens. Ela veio dos roteiros da série Killing Eve e seu rosto é conhecido principalmente como a Camilla Parker-Bowles de The Crown.

Emerald tempera seu tema pesado com algum deboche. Os homens são tão perigosos quanto patéticos. Cassie é tão atormentada quanto divertida. Isso acaba levando o filme a momentos meio forçados na verossimilhança.

Como uma cena em que a personagem ataca a pauladas o carro de um valentão do trânsito, que acaba fugindo. Todo valentão é, no fundo, um covarde? Psicologicamente pode até ser, mas o risco de ela se dar mal seria bem grande. Deu sorte, então? Nessa incursões contra o privilégio masculino, há quanto tempo ela vem tendo sorte?

E o próprio final, suprassumo do planejamento – digno, mais uma vez, de um Batman – exige bastante suspensão de descrença. Mas a simpatia pela personagem acaba compensando.

O trauma que redefiniu a vida de Cassie é algo que aconteceu a uma amiga, mas que o filme não revela de cara (também não é muito difícil de imaginar). Isso dá a Cassie um objetivo maior, contra o culpado maior.

Por outro lado, um interesse amoroso por um antigo colega que reaparece (um sujeito sensível, compreensivo, divertido e, ainda por cima, tem como profissão tratar de criancinhas doentes) a faz repensar sua missão. Dar a Cassie o vislumbre de um outro caminho a seguir é dramaticamente interessante e o filme se esforça (talvez demais) em ser convincente sobre essa opção.

Então às vezes o filme de Fennel canta muito a jogada, às vezes torna sua sátira um pouco esquemática demais. Mas a força de Bela Vingança (um título brasileiro bem ruim) é a performance de Carey Mulligan.

Ela guia o filme nesse equilíbrio difícil, de um real um pouco irreal, e é chocante que um crítico americano tenha escrito que a atriz era uma escolha inadequada por não ter o “physique du rôle” para o papel (“Ele basicamente disse que eu não era gostosa o suficiente”, reclamou Carey, com razão).

Mulligan, uma excelente atriz que já se provou diversas outras vezes, domina a cena plenamente. A combinação entre diretora e atriz mostra uma química que, por si só, sustenta o filme numa patamar alto. Não é sempre que essa química acontece e, aqui, ela foi muito bem aproveitada. É fundamental para que o filme permaneça firme na memória de quem o assiste muito depois da sessão.

Onde ver: cinemas

Promising Young Woman, 2020.
Direção: Emerald Fennel. Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie

O SOM DO SILÊNCIO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 30

Ilha acústica

Mergulhar no ponto de vista de seu personagem pode ser um desafio para um filme e, se der certo, um grande achado. No caso de O Som do Silêncio, Ruben, o baterista de heavy metal vivido por Riz Ahmed, tem uma perda brutal de audição.

O filme de Darius Mader (estreando nos longas de ficção; ele vem da área de documentários) faz isso: tenta fazer o espectador compartilhar com Ruben de sua agonia ao se perceber sem conseguir ouvir o mundo ao seu redor.

Então, o desenho de som é fundamental: ruídos, distorções, vozes abafadas. E, no momento em que o baterista vai ao encontro de alguma ajuda em uma comunidade de surdos, a ausência de legendas na linguagem de sinais é fundamental para que o espectador se sinta tão perdido e deslocado quanto o personagem.

Não por acaso, quando ele começa a entender essa comunicação, as legendas surgem na tela.

Esses recursos e a atuação admirável de Riz Ahmed fazem o espectador se envolver com a trama, que é despida de glamourizações e elementos de realce dramático (como uma trilha sonora que sobressai, por exemplo).

Paul Raci, como o líder da comunidade, atuando quase inteiramente em linguagem de sinais, também merece menção pela ótima atuação (ele não é surdo, mas seus pais eram).

Como Ruben vai se adaptar a essa “ilha” e como ele vai reencontrar o mundo no retorno. Nesse ponto, o filme se assemelha de maneira bastante curiosa a Náufrago, o ótimo filme que Robert Zemeckis dirigiu em 2000. Em um mundo de ouvintes, ser surdo torna você um solitário? O filme joga esse pergunta e deixa no ar para que reflitamos sobre ela.

Onde ver: Amazon Prime, Now, Google Play, Looke, Apple TV, Claro Vídeo

Sound of Metal, 2020.
Direção: Darius Marder. Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Almaric

RELATOS DO MUNDO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 21

Duelo entre humanismo e incivilização

O faroeste como gênero cinematográfico percorreu uma longa travessia desde os primórdios do cinema (com O Grande Roubo de Trem, 1903) até hoje. O western passou a refletir sobre si mesmo, se questionou, tentou combinar seu lado épico com um traço mais humano e socialmente respeitável.

Este Relatos do Mundo é um reflexo disso. Sua história-base é a do Capitão Kidd, ex-combatente da guerra civil americana que faz uma jornada perigosa para levar ao lar Johanna, uma garotinha que ele encontra perdida. Ela, porém, foi criada desde pequenininha pela tribo de índios que a sequestrou, nem fala uma palavra sequer de inglês.

O paralelo automático para o cinéfilo é, claro, Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Ele próprio um filme que já trazia o faroeste em bases mais complexas. O protagonista vivido por John Wayne passa o filme no encalço dos nativos que sequestraram sua sobrinha. A busca leva anos e, quando ele a encontra, ela já se tornou uma comanche.

Mas Wayne é tão racista que diz abertamente que prefere ver a sobrinha morta. Ele não é um herói, ou, pelo menos, não nesses momentos. Já iam longe os dias inocentes em que ele ia derrubando índios como dominós com seus tiros.

Tom Hanks não é John Wayne. Sua persona cinematográfica está mais para James Stewart ou Gary Cooper. Ao encontrar a menina (a ótima alemã Helena Zengel, 12 anos), ele não trata automaticamente o povo kiowa como inimigo. Ele tenta a tolerância, busca compreender a menina e a língua dela, enquanto ela tenta compreender a dele.

O personagem de Hanks é um homem mais esclarecido que a média da região: seu trabalho é viajar de cidade em cidade lendo jornais para uma plateia que não sabe ler, não tem tempo ou dinheiro para comprar um exemplar. Ele transporta notícias, novidades da ciência, do clima, da política e histórias extraordinárias. É um humanista.

No perigoso trajeto, Kidd e Johanna encontram todo tipo de preconceitos e intolerâncias. É um duelo entre a civilização e um Estados Unidos ainda incivilizado. Uma batalha que ainda perdura e que vivenciamos hoje mesmo no Brasil.

Em um momento, quando os Kiowa aparecem, não são nem como adversários, nem como amigos irrealistas naquele tempo. É uma aparição meio fantasmagórica, após uma tempestade de areia. Figuras misteriosas, ainda indecifráveis para aquele homem, mas não inimigos imediatos. Ainda assim, uma mistura de medo e fascínio.

A direção de Paul Greengrass vai na contramão de suas narrativas nervosas da série Jason Bourne, se adequando à trama. Na encenação, faz falta que o personagem de Hanks se esforce um pouco mais no diálogo, tentando se explicar por gestos e não apenas falando uma língua que a garota não entende. Significa que, no começo, ele não está se importando muito com essa comunicação? Pode ser.

Ainda com Rastros de Ódio como uma espécie de espelho reverso, Relatos do Mundo evoca diretamente o filme de John Ford ao citar o famoso plano da imagem de John Wayne sozinho do lado de fora da casa, emoldurado pela porta. Mas aqui, usado para ressaltar a diferença entre os dois filmes, os dois protagonistas, as duas visões de mundo.

Onde ver: Netflix

News of the World, 2020.
Direção: Paul Greengrass. Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Mare Winningham. 

NOMADLAND
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 18

Ventos neo-realistas

O filme que ganhou o Globo de Ouro, o Bafta e é aposta forte para o Oscar é uma visão atenta e generosa sobre pessoas que são obrigadas ou que de alguma maneira optam viver em trailers nas estradas e de subempregos. Frances McDormand, excelente como sempre, é a protagonista, que contracena com diversos coadjuvantes que interpretam a si mesmos.

Com isso, a diretora Chloé Zhao reforça a pegada de realismo social e de observação sobre uma realidade econômica que muita gente prefere colocar pra baixo do tapete. No caso de Fern, a personagem de Frances McDormand, ela não foi levada a essa situação só por ter perdido o emprego: ela perdeu uma cidade inteira.

O local onde morava virou uma cidade-fantasma depois que a fábrica onde todos trabalhavam foi fechada. Se tornou uma nômade e descobriu que existe uma comunidade de nômades que se apoiam durante a jornada errante. Frances mergulhou na personagem, dormindo na van e trabalhando nas funções em que a personagem trabalha.

Então, muito do filme tem esse caráter de documentário, dedicado a mostrar a rotina desse modo de vida, as relações que se criam, os encontros e desencontros. Essa urgência em retratar uma questão atual, com uma atriz profissional de grande gabarito contracenando com não-atores que fazem parte do meio retratado, aproxima o filme de movimentos neo-realistas, como o iraniano dos anos 1990 ou, indo mais longe no tempo, o italiano dos anos 1940 e 1950.

A trama, por sua vez, não apresenta uma história com começo, meio e fim. Nomadland é um filme que apresenta uma situação e suas particularidades. Como seus personagens, vai um pouco com o vento. E, com isso, sem apelar para o melodrama, consegue momentos muito humanos e tocantes.

Onde ver: cinemas

Nomadland, 2020.
Direção: Chloé Zhao. Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Swankie.

Na minha coluna da CBN João Pessoa desta sexta, falei sobre a estreia de Meu Pai, com Anthony Hopkins, o festival de documentários É Tudo Verdade (online e gratuito) e sobre a obra da cineasta belga Chantal Akerman, agora disponível restaurada no streaming. Ouça aqui!

(Foto: Olivia Colman e Anthony Hopkins, em Meu Pai)

LIGA DA JUSTIÇA DE ZACK SNYDER
⭐½
Diário de Filmes 2021: 36

Egotrip sem freios

Na primeiríssima cena do corte de Liga da Justiça que esteve nos cinemas em 2017, o Super-Homem é visto pela lente de um celular, filmado por algumas crianças que fazem algumas perguntas ao herói após um salvamento. Meio constrangido, ele reserva um tempinho para responder as perguntas. Além da boca esquisita de Henry Cavill (que tentou eliminar em CGI o bigode que o ator ostentava na ocasião), saltava aos olhos o reencontro da plateia com um personagem que fazia tempo não era visto no cinema: o Super-Homem.

Aquele Super-Homem, pelo menos, e não a versão carrancuda que Zack Snyder imprimiu em O Homem de Aço e Batman vs. Superman. Aquele personagem da abertura de Liga era uma novidade neste universo compartilhado da DC no cinema, e foi fruto direto da troca de comando na direção do filme (a trilha de Danny Elfman até resgatou de leve o tema clássico de John Williams).

Como quase todo mundo sabe, Snyder teve que sair do projeto antes de conclui-lo para lidar com uma tragédia pessoal. A Warner chamou Joss Whedon para terminar o filme, na expectativa de, no fim, ter algo mais próximo ao clima dos dois Vingadores que Whedon dirigiu.

Ele fez o que deu pra fazer com o material que tinha. Não foi muito.

O resultado foi meio uma criatura de Frankenstein, um remendo que terminou não sendo nem um filme padrão de Snyder (que mesmo assim continuou tendo a assinatura solo como diretor), nem um filme de Whedon (que é creditado apenas como co-roteirista). Era um filme meio esquizofrênico, que brigava consigo mesmo o tempo todo.

Mas Zack Snyder tem um grupo de fãs ruidosos, que logo fez campanha para ver o “corte original” do diretor (que não existia, visto que ele não havia editado nada). Snyder abraçou a campanha, fez seu lobby e conseguiu o aval da Warner para fazer sua montagem mais pessoal, com o estúdio de olho em dar um gás em seu serviço próprio de streaming.

Então, a primeira coisa a considerar é: Liga da Justiça de Zack Snyder é a versão original do diretor? A resposta é “não”.

É a visão dele combinando o que pretendia no começo mais suas ideias após ver a versão finalizada por Whedon (o que achou que deu certo, o que achou que deu errado, inclusive sobre o que ele mesmo tinha feito). E ainda o que mais resolveu fazer sabendo que, sendo uma produção para o streaming e não para o cinema, poderia entregar um filme com mais tempo de duração.

Daí, chegamos às 4 horas e dois minutos de duração. O Poderoso Chefão – Parte II (1974) tem 3h22. Ben-Hur (1959) tem 3h32. Lawrence da Arábia (1962) tem 3h48. …E o Vento Levou (1939) tem 3h58. É evidente que no caso de Liga não é para tanto: essas 4h02 são de um diretor sem freio algum para sintetizar o próprio filme. Uma viagem sem volta a uma egotrip.

Faltou limite e o filme se confia no fato de que, já que é para o streaming mesmo, o público pode assisti-lo como minissérie, se quiser. O novo Liga é até dividido em capítulos, para facilitar essa opção.

É claro que há ganhos nessa metragem maior que a da outra versão. Notadamente para o personagem Ciborgue, que ganhou uma história mais detalhada e com peso dramático maior. Também o Flash recebeu alguns momentos melhores.

E, considerando o remendo que é a outra versão, esta é, sem dúvida, mais coerente. É decorrência direta e lógica de O Homem de Aço e Batman vs. Superman. Agora, se isso faz dela um filme melhor, são outros quinhentos. Porque ser uma decorrência lógica, nesse caso, implica em também mergulhar em tudo o que os dois filmes anteriores têm de problemáticos. Snyder é fiel a seu – digamos assim – estilo: tons cinzas e marrons, caras emburradas e infinitas câmeras lentas, que são o que o diretor realmente acredita que dão intensidade dramática a um filme.

Então tem coisas melhores que a versão finalizada por Whedon? Sim. Tem coisas piores? Tem, também.

Visto de uma vez, é um filme interminável. Isso é quase literal: conclui, por assim dizer, com um epílogo inacreditável de longo, que empilha cenas sem parar depois de a história ter acabado. Não só aí, mas pelo meio do filme também brotam cenas e personagens inúteis, enxertados apenas para a alegria dos leitores que vão reconhecê-los dos quadrinhos.

O maior exemplo disso é o Caçador de Marte. Um personagem bem menos conhecido (se não for quase desconhecido) por quem não é leitor da DC, ausente da versão de Joss Whedon e que aparece em duas cenas que não dizem nada. Pelo contrário, o espectador fica se perguntando por que, afinal, ele não toma parte da ação, já que estava por ali.

O que ficou de fora foi tudo o que Whedon filmou a mais para dar uma levantada no astral da outra versão. Por exemplo, o momento em que o Super-Homem deixa momentaneamente de lutar com o vilão para – vejam só – salvar diretamente pessoas em perigo.

Para Zack Snyder, tendo em vista os filmes anteriores e esta versão, salvar pessoas é um inconveniente. O pouco interesse do Super-Homem em salvar pessoas no meio da destruição do quebra-pau em Metrópolis, em O Homem de Aço, virou piada, mas o diretor não aprendeu com isso.

Agora, a solução de Snyder para evitar novos memes é convenientemente localizar a ação do clímax e do combate com o vilão em uma área desabitada. Na versão de Whedon, há moradores ali, inocentes que precisam ser protegidos e ajudados. Agora – que confortável – não é preciso salvar ninguém e os heróis podem se concentrar naquilo que interessa de verdade ao diretor: a troca supostamente épica de sopapos com o vilão da vez.

Uma coisa importante a levar em conta é que o pior da Liga de Whedon (com exceção da boca esquisita de Henry Cavill) já estava no que Zack Snyder tinha feito até sair do projeto. E está de volta.

O Batman, por exemplo, recruta o Aquaman e o Flash no começo do filme. Mas faz isso como Bruce Wayne (!), revelando de primeira sua identidade secreta a desconhecidos. A ideia já é ridícula por si só, mas a construção das cenas torna tudo ainda pior: parece que só importou o momento de efeito (Barry Allen pegando o batarangue que Bruce Wayne atira e descobrindo, assim, que Wayne é o Batman), mas a construção da cena para chegar lá é feita de qualquer jeito.

Darkseid, vilão icônico da DC, criação de Jack Kirby que fez história até nos Superamigos, foi vendido como uma grande novidade dessa nova versão, mas não rende 10% do anunciado. Só age em flashback e sonhos. Na hora H, ainda temos que nos contentar mesmo é com o Lobo da Estepe.

Ou seja: o grande vilão de Liga da Justiça de Zack Snyder continua sendo um capanga, um personagem da quarta divisão da DC Comics, com carisma zero e sem uma motivação minimamente interessante. Aliás, tanto Darkseid quanto seu ajudante, e também os cenários sem qualquer verdade, parecem ter saído direto de um videogame.

E, por fim, ainda tem esse formato 4:3, quase quadrado, como os das TVs antigas, um troço injustificável. Foi justificado como uma “opção artística” do diretor porque se aproxima da tela imax. Mas, francamente… no streaming? Parece só mais um entre tantos caprichos gratuitos do diretor com essa versão.

Onde ver: Google Play, Looke, AppleTV, YouTube.

Zack Snyder’s Justice League, 2021.
Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, J.K. Simmons, Jeremy Irons, Willem Dafoe, Jesse Eisenberg, Robin Wright, Connie Nielsen, Amber Heard, Diane Lane, Billy Crudup.

***

LEIA MAIS:

Meu comentário para a CBN sobre Liga da Justiça de Zack Snyder. Tem coisas melhores que a versão finalizada por Whedon? Tem. Tem coisas piores? Tem também.

Para ouvir, clique aqui.

MULHER-MARAVILHA 1984
⭐½
Diário de Filmes 2021: 4

Não há nada de errado em um filme que pretenda ser leve, alegre, descompromissado, engraçado. Não é esse o problema do segundo filme solo da Mulher-Maravilha. Os problemas são o mau roteiro e a má direção. A nova aventura da princesa amazona estabelece contradições com que não consegue lidar, desdenha da inteligência do espectador e disfarça como humor vergonhas inaceitáveis da trama (como um poder de tornar as coisas invisíveis que, sem trocadilho, aparece do nada). Um esforçozinho em fazer as coisas um pouco mais inteligentes já melhoraria muito o filme. Do jeito que está, parece que apenas desejaram que fosse bom e pronto. Não funcionou.

Onde ver: cinemas, Now, Looke, Google Play, Apple TV, UOL Play, Vivo Play

WW84, 2019
Direção: Patty Jenkins. Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal.

Bacurau - 06

BACURAU
⭐⭐⭐⭐⭐

O Nordeste contra-ataca ou ‘O senhor já combinou com os russos?’ 

por Renato Félix  

Bacurau é um filme bastante estudado, no que diz respeito à narrativa. Há um jogo muito grande de entregar e sonegar informações do espectador. Quem assiste pode ir deduzindo elementos, mas também ser ocasionalmente enganado por pistas falsas, enquanto outras reais vão passando despercebidas. Por essa razão, é muito difícil conversar sobre o filme sem abordar algumas de suas surpresas e seus efeitos. Portanto, revelações sobre o enredo (os não tão populares spoilers) vêm a seguir. Vá em frente por conta e risco. E, se for, vá na paz.

O filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se passa em um povoado do fim do mundo do sertão nordestino: Bacurau. O tempo é o futuro próximo. Trata-se, então, de uma ficção científica? Empurrando o espectador para este lado, o filme chega a plantar um disco voador em determinado momento do filme. Não um qualquer, mas um com toda a cara de filme americano dos anos 1950, tipo O Dia em que a Terra Parou (1951).

No clássico de Robert Wise, um alienígena chega à Terra para alertar sobre a crescente violência em nosso planeta. Não deu certo: os habitantes de Bacurau, que começam o filme lidando com seus próprios problemas, logo se dão conta que estão sendo vítimas de um ataque misterioso.

Quem seriam os agressores, a ameaça? O filme vai nos contando aos poucos, e o disquinho voador, que segue uma primeira imagem que vê a Terra do ponto de vista do espaço, dá toda a pinta de algo como um ataque alienígena. Uma invasão como em Vampiros de Almas (1956), em que os aliens se disfarçam de humanos para conquistar a Terra a partir de uma cidadezinha do interior dos EUA (a trama era parábola da paranoia anticomunista).

O disquinho, de aparência tão falsa que incomoda, é uma das pistas falas: é um drone, na verdade. Mas as pessoas quem estão por trás são, sem dúvida, alienígenas àquela terra, embora deste mesmo planeta.

Embora o filme não se preocupe em esmiuçar detalhes — o que nos coloca apenas um pouco menos no mesmo isolamento que os habitantes de Bacurau —, o grupo de estrangeiros está ali para caçar os habitantes do povoado. É uma espécie de safari.

O filme, nesse ponto, reflete uma das faces mais aterradoras da sociedade estadunidense: as armas no cotidiano e os seguidos massacres a cidadãos comuns indefesos. Um dia, alguém pega uma arma, se dirige a uma escola ou restaurante e abre fogo. Caça outras pessoas.

Aparentemente, nesse futuro próximo, grupos de predadores supremacistas chegaram à conclusão que a ânsia de matar não precisa ser contra os de seu próprio país. Se organizaram para caçadas “seguras” a pessoas em terras para as quais eles não ligam — e tampouco o governo local. Na visão deles, pode até haver um viés ecológico nisso: eles não matam animais em perigo de extinção na África, mas seres humanos — o que, afinal,  o planeta tem sobrando.

O supremacismo branco é um dos poucos elementos que ficam muito claro em Bacurau: na cena em que os estrangeiros debocham dos brasileiros brancos, seus aliados, e que se acham iguais aos estrangeiros. Esses brasileiros são, também, alienígenas: surgem em suas motos e roupas coloridas, não tendo nada a ver com os habitantes dali. Seu comportamento também mostra isso, ao darem pouco caso ao convite para conhecer melhor a história do lugar, visitando o pequeno museu dali.

O fator de identificação com o povo de Bacurau — portanto, do sertão nordestino — ou com os alienígenas — os estrangeiros brancos — certamente provocou algumas das críticas perplexas e assustadas que Bacurau recebeu, principalmente em veículos da região Sudeste.

O que acontece em seguida foi avisado em pistas cifradas no decorrer do filme. A placa de boas-vindas — “Bacurau — Se for, vá na paz” — está mais para um aviso a quem passa por ela. A definição do que significa o nome da cidade — um pássaro que só sai à noite porque “é brabo” — também.

Mais do que a ficção científica, deixada mais de lado quando os mistérios vão ficando mais claros, é o faroeste a fonte de onde os diretores bebem. Não só no plano do prefeito no povoado, a câmera subindo para mostrá-lo só na rua (decalcado de Matar ou Morrer, 1952), mas sobretudo na reta final, uma espécie de versão de Sete Homens e um Destino (1960), sem os sete homens.

No faroeste de John Sturges (e no filme em que ele se baseia, Os Sete Samurais, de Kurosawa, de 1954), um povoado é periodicamente saqueado por bandidos que aparecem, roubam tudo e vão embora. Os habitantes procuram um grupo de caubóis (ou samurais, no original) para defendê-los. E os guerreiros acabam treinando o povo para enfrentar os opressores. No fim, não só os guerreiros, mas a comunidade dá cabo dos vilões.

Aqui, o povo não precisa desses professores: sua história de enfrentamento das opressões que vêm de fora já os treinou. A explosão de violência contra a violência de quem se considera superior a ponto de achar que a vida do outro não vale nada não deixa a plateia incólume: é espertamente embalada nesses códigos do faroeste, que mostram como são ainda efetivos.

O cinema de gênero é abraçado por Bacurau e é fator importante para a vibração das plateias. Além do faroeste, Rambo também está lá (a violência do filme ganha até uma autosátira: quando um personagem pergunta se outro não foi “longe demais”, é Bacurau dando uma piscadela sobre si mesmo). Não à toa seus personagens se tornaram familiares ao público, frases vão sendo repetidas, memes são feitos. Coisa que o cinema brasileiro recente alcançou poucas vezes — com Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), principalmente.

De certa forma, Kléber Mendonça Filho fez o seu próprio “filme de boneco”, termo que ele usa para se referir aos filmes de super-herói.

Houve quem reclamasse da falta de profundidade nos personagens de Bacurau. É verdade, mas não se trata muito de um filme “de personagem” (como foi Aquarius, o longa anterior de Mendonça, de 2016), mas “de grupos”, de comunidades. Há, claro, excelentes caracterizações básicas — como Disney ensinou lá atrás, em Branca de Neve e os Sete Anões (1937), ao definir que cada anão tinha que ter uma característica predominante, para que o público diferenciasse facilmente um do outro.

Muitos dos personagens de Bacurau poderiam até ganhar seus próprios filmes, prelúdios que contam sua história anterior.

Claro que, paralelo a essas questões narrativas, existe a alegoria política e social. Não dá para não relacionar o Nordeste atacado por supremacistas estrangeiros aliados ao poder, em Bacurau, com o Brasil atual, da extrema-direita no poder, revanchista contra a região que, no geral, votou contra sua ascensão. O contra-ataque de Bacurau é a metáfora da resistência do Nordeste.

A catarse da reta final do filme pega o espectador na veia porque não é só uma revanche contra o ataque físico. É contra a soberba e a arrogância de quem se acha melhor que os outros, a ponto de nem levar esse outros em consideração como oponentes. De desconsiderar suas vidas e história (uma visitinha ao museu não teria feito nada mal).

Diz que na Copa do Mundo de 1958, o técnico Vicente Feola fez uma preleção com os jogadores da Seleção Brasileira sobre o jogo a seguir com a União Soviética. Com seu quadro de “xizinhos” e “bolinhas” mostrou a estratégia em campo que, sem dúvida, traria a vitória ao Brasil. Até que Garrincha levantou a mão: “Está bem, professor. Mas o senhor já combinou com os russos?”.

Os alienígenas de Bacurau foram de férias para o safari perfeito. Só esqueceram de combinar com o povo de Bacurau.

BACURAU — Brasil/ França, 2019. Direção: Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Elenco: Barbara Colen, Sonia Braga, Udo Kier, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Ingrid Trigueiro, Thardelly Lima, Karine Teles, Buda Lira, Suzy Lopes, Danny Barbosa, Jamila Facury. Em cartaz.

Era uma Vez em Hollywood - 01

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio: elementos ficcionais para fazer diferença

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD
Sem borda - 04 estrelas

Brincando de narrativa e namoro com Sharon Tate  

Renato Félix

Há dois tipos possíveis de espectadores para o Era uma Vez em… Hollywood (2019) do Tarantino: aqueles que conhecem a história de Sharon Tate e aqueles que nem sabem quem ela foi. E há outros dois tipos de espectadores para o Era uma Vez em… Hollywood do Tarantino: os que viram Bastardos Inglórios (2009) e os que não viram.

Como o espectador se enquadra dentro dessas caixinhas, e o cruzamento e combinações entre elas, certamente influi nas expectativas e antecipações da trama. O filme, sem dúvida, conversa muito mais com quem, por exemplo, conhece a história de Sharon Tate, que, interpretada por Margot Robbie, protagoniza uma das duas histórias paralelas entre as quais a narrativa vai e volta. A outra é a de dois personagens ficcionais: o ator decadente Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê e parceiro Cliff Booth (Brad Pitt).

O filme acompanha a jornada de Dalton para recuperar a carreira. Ator de TV que sente já não estar fazendo mais o sucesso de antes, ele sofre e procura novas oportunidades, sempre com o fiel Booth ao lado, dando suporte. É uma Holywood em mudança: o antigo star system e a força do modelo antigo dos estúdios estava ficando para trás, e novos rostos estavam aparecendo, como o do diretor polonês Roman Polanski, que havia acabado de emplacar o sucesso estrondoso de O Bebê de Rosemary (1968) e estava casado com a lindíssima Sharon Tate.

Enquanto mostra Dalton e Booth, Tarantino também mostra Sharon e seu momento de atriz em ascensão, flanando por Los Angeles, dançando em uma festa da Mansão Playboy, curtindo se assistir no cinema e tirar fotos com pessoas que não sabem bem ainda quem ela é (mas, se está em um filme, está valendo). A interseção entre as duas tramas é que Dalton e Sharon Tate são vizinhos e quem conhece a história passa o filme aguardando que essas tramas convirjam para um momento capital.

Para esse espectador, qualquer sinal da presença da Família Manson é um arrepio na espinha, que tende a crescer com a aproximação desse momento fatídico.

Mas e para quem não conhece a vida de Sharon Tate? Seria interessante saber como são as expectativas e antecipações do filme para esse espectador específico.

Assim como, para quem assistiu Bastardos Inglórios e, assim, já sabe do que Tarantino é capaz ao lidar com fatos históricos. Para estes, mais cartas estão na mesa e já se considera que algumas surpresas podem ou não acontecer: para um espectador escolado, passam a ser, então, possibilidades.

Então cruzamentos diferentes podem resultar em experiências de recepção sensivelmente diferentes. Quem conhece a história de Sharon Tate e viu Bastardos Inglórios acompanha o filme de uma maneira. Quem conhece a história, mas não assistiu ao filme de 2009, de outra. Para quem não sabe dos fatos, ter ou não assistido a Bastardos tende a não fazer muita diferença, acredito.

Era uma Vez em Hollywood - 2019 - 06

Margot Robbie como Sharon Tate: flanando

Apoiada nessas duas jornadas — a de Rick Dalton/ Cliff Booth e a de Sharon Tate —, Era uma Vez em… Hollywood é um grande passeio pelo meio cinematográfico de 1969. O cenário é muito importante, as ruas e carros, o cinema de rua com um concierge, o drive-in, as cidades cenográficas abandonadas (agora ocupados como moradia por hippies muito suspeitos). E Tarantino, um cinéfilo fervoroso, que em seus filmes sempre vai beber nas fontes de seus gêneros preferidos, aproveita para brincar de recriar a estética e a narrativa de tudo o que pode.

Então, se Rick Dalton aparece em cenas de seriados de faroeste ou policiais, o cineasta não perde a oportunidade de reproduzir o estilo dessas cenas. DiCaprio é até inserido em uma cena de Fugindo do Inferno (1963), como se fosse uma possibilidade que não aconteceu de ele ficar com o papel que acabou com Steve McQueen (que aparece como personagem no filme). Entrevistas, programas musicais, western spaghetti, comerciais de cigarro: Tarantino faz sua própria versão de tudo isso. Cabe ao espectador compartilhar ou não dessa curtição do diretor — e, por isso, um cinéfilo tende a sair mais satisfeito de Era uma Vez em… Hollywood.

O tratamento do filme com Sharon Tate era uma temeridade. Como o cinismo de Tarantino lidaria com um tema tão delicado? Mas o clima é praticamente de namoro. Até na cena em que Sharon, na pele de Margot Robbie, se assiste no cinema em Arma Secreta contra Matt Helm (1968), pés sobre a cadeira da frente, o filme não “recria” a cena, como vinha sendo a regra: prefere usar a cena real. Desse modo, a verdadeira Sharon Tate aparece brevemente em cena nesse momento de Era uma Vez em… Hollywood. O final, já apontado como um momento sentimental incomum na obra do diretor, é outro elemento desse sentimento carinhoso do filme pela atriz.

A partir daqui, o texto traz informações sobre o enredo. Ou seja: os populares spoilers.

Como em Bastardos Inglórios, Tarantino usa o cinema para fazer “justiça com as próprias mãos”. Desta vez, também para se vingar de assassinos cruéis (Hitler em Bastardos Inglórios e a Família Manson, aqui), mas também para salvar diretamente a quem o diretor se referiu em entrevistas como “um anjo”.

Para isso, ele prepara o personagem de Brad Pitt no imaginário do espectador. O coloca como um adversário à altura de Bruce Lee (Mike Moh), aqui retratado antes da fama, e saindo sem dificuldade do ninho da Família Manson após esmurrar um dos integrantes da seita. Com isso, ele antecipa que existe um elemento ficcional que poderia fazer diferença na história real.

E nesse ponto, Tarantino deixa sua marca da violência gráfica temperada com humor, como um substituto ao horror da vida real. No final, o terno encontro que pode até redimir o personagem de DiCaprio (Rick Dalton fará um filme com Polanski? Quem sabe ele estará em Chinatown?) é mais uma vez o diretor dizendo que, nos filmes dele, ele é quem manda — e nem a História (com “h” maiúsculo) manda mais do que ele.

Era uma Vez em… Hollywood. Once Upon a Time… in Hollywood. Reino Unido/ EUA/ China, 2019. Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Dakota Fanning, Bruce Dern, Luke Perry, Damian Lewis, Al Pacino, Nicholas Hammond. 2h41. 16 anos. Em cartaz nos cinemas (confira locais e sessões na Paraíba).

Começa nesta quinta a 10ª edição do Festival Varilux do Cinema Francês, em 77 cidades do país. Em João Pessoa, as sessões serão novamente no Centerplex, no MAG Shopping: quatro filmes por dia, até o dia 19. São 16 filmes da mais recente produção francesa inéditos no Brasil , e mais um clássico — no caso, Cyrano (1990), de Jean-Paul Rappeneau e com Gérard Depardieu, grande filme que vi no Cine Banguê lá no começo dos anos 1990.

Confira aqui nesta post um guia do festival. Primeiro, os filmes, com seus trailers e os dias e horários das sessões de cada um. Lá embaixo, a programação por dia.

— OS FILMES:

— AMOR À SEGUNDA VISTA: Homem se dá conta que está vivendo em uma realidade paralela, onde sua esposa não o conhece mais e tenta conquistá-la de novo. É do diretor de Uma Família de Dois. Qui 6, 16h35; Sex 7, 18h50; Qua 12, 18h45; Dom 16, 21h10.

***

— ASTERIX E O SEGREDO DA POÇÃO MÁGICA: Todo ano o festival programa um filme infantil, geralmente uma animação. Este ano é a nova animação com os personagens dos quadrinhos de René Goscinny e Albert Uderzo. Desta vez, a trama não é baseada em nenhum dos álbuns clássicos, mas uma história original. Pela primeira vez, também, Asterix estrela uma animação digital. Sab 8, 17h15; Dom 9, 14h30; Dom 16, 17h15.

***

— ATRAVÉS DO FOGO: É um drama sobre um bombeiro que se fere num incêndio e fica com o rosto desfigurado. Agora, terá que aprender a viver de novo. Sex 7, 16h35; Seg 10, 14h30; Ter 18, 21h05.

***

— BOAS INTENÇÕES: O filme segue uma professora que ensina francês para imigrantes, mas não consegue deixar de extrapolar a ajuda para outras áreas. Seg 10, 16h45; Dom 16, 15h15; Qua 19, 20h45.

***

— CYRANO: O clássico do festival é o filme de 1990 dirigido por Jean-Paul Rapenneau e estrelado por Gérard Depardieu, adaptação da peça clássica sobre o poeta narigudo que é apaixonado pela bela Roxane (Anne Girardot), mas, complexado com a própria aparência, acaba ajudando um rival bonito, mas tapado (Vincent Pérez), a conquistá-la. Dom 9, 16h15; Seg 17, 14h45.

***

— CYRANO, MON AMOUR: Além de Cyrano, o festival traz essa comédia que narra o processo de criação da peça pelo autor, Edmond Rostand. É uma adaptação de um sucesso dos palcos franceses. Dom 9, 18h50; Qui 13, 17h15; Sex 14, 15h00; Sab 15, 21h15.

***

— OS DOIS FILHOS DE JOSEPH: Menino de 13 anos que está amadurecendo começa a repensar o pai e o irmão mais velho como exemplos a seguir. Sex 7, 14h45; Qui 13, 21h15; Ter 18, 19h15; Qua 19, 16h50.

***

— FILHAS DO SOL: O filme mostra a luta das guerreiras de um batalhão de soldadas curdas na guerra do Curdistão, acompanhadas por uma fotógrafa francesa. Seg 10, 20h50; Ter 11, 14h40; Ter 18, 17h00.

***

— FINALMENTE LIVRES: Esta comédia teve nove indicações ao César (o Oscar francês), incluindo melhor filme, direção, ator (Pio Marmal), atriz (Adèle Haenel), ator coadjuvante (Damien Bonnard), atriz coadjuvante (Audrey Tautou, sempre lembrada como a Amélie Poulain) e roteiro original. É a história de uma policial que descobre que o marido, que morreu como herói, não era boa peça. Então tenta reparar os erros dele. Sab 8, 19h00; Qua 12, 15h00; Dom 16, 19h00.

***

— GRAÇAS A DEUS: O novo filme de François Ozon é sobre um grupo de homens que decide enfrentar o padre que abusou deles quando eram crianças e a instituição que insiste em protegê-lo. Levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. Dom 9, 21h00; Sab 15, 18h35; Seg 17, 21h00.

***

— UM HOMEM FIEL: Dirigido por Louis Garrel, com ele, Laetitia Casta e Lily-Rose Depp (a filha de Vanessa Paradis e Johnny Depp, e a cara da mãe), mostra um intrincado triângulo amoroso com ramificações familiares. Ter 11, 21h15; Qua 12, 17h10; Sab 15, 15h00; Seg 17, 17h20.

***

— INOCÊNCIA ROUBADA: Uma bailarina enfrenta as memórias de um abuso na infância e as implicações dessa revelação. Qui, 14h30; Sex 14, 17h10; Seg 17, 18h55.

***

— MEU BEBÊ: Uma mulher com dificuldades de encarar a filha mais velha saindo de casa. Sab 8, 21h10; Qui 13, 19h25; Qua 19, 15h.

***

— O MISTÉRIO DE HENRI PICK: Um filme de mistério literário. Uma editora encontra um manuscrito e, ao publicá-lo, o livro vira um best seller. Mas a viúva do autor, um pizzaiolo morto dois anos antes da publicação, diz que ele nunca escreveu nada. E um crítico (Fabrice Luchini) resolve investigar e provar que se trata de uma fraude. Sex 7, 21h10; Ter 11, 19h15; Sab 15, 16h35; Ter 18, 15h.

***

— O PROFESSOR SUBSTITUTO: Mais um filme de mistério. Um professor substituto lida com uma classe de alunos muito inteligentes, muito unidos, mas também perturbadores. Seg 10, 18h45; Qui 13, 15h10; Qua 19, 18h40.

***

— QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU: A grande Juliette Binoche é uma mulher que cria um perfil falso mais jovem e vai se enredando no relacionamento virtual com um rapaz. Qui 6, 21h15; Sab 8, 15h15; Qua 12, 21h05; Sex 14, 19h15.

***

— A REVOLUÇÃO EM PARIS: Mês que vem, a Revolução Francesa completa 230 anos. E este filme volta àqueles dias em que o povo se rebelou contra a monarquia em tom épico, contando histórias de pessoas comuns e de personagens como o rei Luís XVI. Qui 6, 18h55; Ter 11, 16h55; Sex 14, 21h15.

***

— A PROGRAMAÇÃO POR DIA:

QUINTA, 6:
14h30: Inocência Roubada
16h35: Amor à Segunda Vista
18h55: A Revolução em Paris
21h15: Quem Você Pensa que Sou?

— SEXTA, 7:
14h45: Os Dois Filhos de Joseph
16h35: Através do Fogo
18h50: Amor à Segunda Vista
21h10: O Mistério de Henri Pick

— SÁBADO, 8:
15h15: Quem Você Pensa que Sou
17h15: Asterix e o Segredo da Poção Mágica
19h: Finalmente Livres
21h10: Meu Bebê

— DOMINGO, 9:
14h30: Asterix e o Segredo da Poção Mágica
16h15: Cyrano
18h50: Cyrano, Mon Amour
21h: Graças a Deus

— SEGUNDA, 10:
14h30: Através do Fogo
16h45: Boas Intenções
18h45: O Professor Substituto
20h50: Filhas do Sol

TERÇA, 11:
14h40: Filhas do Sol
16h55: A Revolução em Paris
19h15: O Mistério de Henri Pick
21h15: Um Homem Fiel

— QUARTA, 12:
15h: Finalmente Livres
17h10: Um Homem Fiel
18h45: Amor à Segunda Vista
21h05: Quem Você Pensa que Sou

— QUINTA, 13:
15h10: O Professor Substituto
17h15: Cyrano, Mon Amour
19h25: Meu Bebê
21h15: Os Dois Filhos de Joseph

— SEXTA, 14:
15h: Cyrano, Mon Amour
17h10: Inocência Roubada
19h15: Quem Você Pensa que Sou
21h15: A Revolução em Paris

— SÁBADO, 15:
15h: Um Homem Fiel
16h35: O Mistério de Henri Pick
18h35: Graças a Deus
21h15: Cyrano, Mon Amour

— DOMINGO, 16:
15h15: Boas Intenções
17h15: Asterix e o Segredo da Poção Mágica
19h: Finalmente Livres
21h10: Amor à Segunda Vista

— SEGUNDA, 17:
14h45: Cyrano
17h20: Um Homem Fiel
18h55: Inocência Roubada
21h: Graças a Deus

— TERÇA, 18:
15h: O Mistério de Henri Pick
17h: Filhas do Sol
19h15: Os Dois Filhos de Joseph
21h05: Através do Fogo

QUARTA, 19:
15h: Meu Bebê
16h50: Os Dois Filhos de Joseph
18h40: O Professor Substituto
20h45: Boas Intenções

Estreias 03.14

Em João Pessoa:

Estreiam esta semana:
— ‘O PARQUE DOS SONHOS’ (Cinépolis Manaíra; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira) — estreia amanhã
— ‘SUPREMA’ (Cinépolis Manaíra) — estreia amanhã
— ‘MALIGNO’ (Cinépolis Manaíra; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira) — estreia amanhã
— ‘VINGANÇA A SANGUE-FRIO’ (Cinépolis Manaíra; Cinépolis Mangabeira) — estreia amanhã
— ‘SUEÑO FLORIANÓPOLIS’ (Cine Banguê) — estreia sábado
— ‘O CASO DO HOMEM ERRADO’ (Cine Banguê) — estreia domingo

Reestreia amanhã:
— ‘O PROCESSO’ (Cine Banguê)

Só até hoje:
— ‘A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2’ (Cinépolis Manaíra; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira)
— ‘SAI DE BAIXO — O FILME’ (Cinépolis Manaíra; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira)
— ‘ALITA — ANJO DE COMBATE’ (Centerplex MAG; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira)
— ‘BARONESA’ (Cine Banguê)

Continuam:
— ‘CAPITÃ MARVEL’ (Cinépolis Manaíra; Centerplex MAG; Cinesercla Tambiá; Cinépolis Mangabeira)
— ‘NO PORTAL DA ETERNIDADE’ (Cinépolis Manaíra)
— ‘GREEN BOOK — O GUIA’ (Cinépolis Manaíra)
— ‘A MULA’ (Cinépolis Manaíra)
— ‘TITO E OS PÁSSAROS’ (Cine Banguê)
— ‘LEMBRO MAIS DOS CORVOS’ (Cine Banguê)
— ‘A CAMINHO DE CASA’ (Cinépolis Manaíra; Cinépolis Mangabeira)
— ‘CINDERELA POP’ (Cinépolis Manaíra; Cinesercla Tambiá)

* ‘O CASO DO HOMEM ERRADO’ tem exibição especial hoje, gratuita e com debate com a diretora, no Cine Banguê.
* ‘A CINCO PASSOS DE VOCÊ’ tem pré-estreias sábado e domingo, no Cinépolis Manaíra e Cinépolis Mangabeira
* ‘WIFI RALPH — QUEBRANDO A INTERNET’ tem sessão única no Centerplex MAG na sexta pela manhã

***

Em Campina (Cinesercla Partage):

Entra amanhã:
— ‘O PARQUE DOS SONHOS’
— ‘MALIGNO’

Só até hoje:
— ‘SAI DE BAIXO — O FILME’
— ‘ALITA — ANJO DE COMBATE’
— ‘GREEN BOOK — O GUIA’

Continuam:
— ‘CAPITÃ MARVEL’
— ‘CINDERELA POP’

* ‘A CINCO PASSOS DE VOCÊ’ tem pré-estreia sábado e domingo

***

Em Patos (Cine Guedes):

Estreiam amanhã:
— ‘MALIGNO’

Só até hoje:
— ‘A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2’
— ‘SAI DE BAIXO — O FILME’
— ‘ALITA — ANJO DE COMBATE’

Continuam:
— ‘CAPITÃ MARVEL’
— ‘A CAMINHO DE CASA’

***

Em Guarabira (Cinemaxx Cidade Luz):

Estreia amanhã:
— ‘MALIGNO’

Só até hoje:
— ‘SAI DE BAIXO — O FILME’

Continuam:
— ‘CAPITÃ MARVEL’
— ‘A CAMINHO DE CASA’

***

Em Remígio (Cine RT):

Continua:
— ‘CAPITÃ MARVEL’

***

Em Solânea (Cinemaxxi da Serra):

Continua:
— ‘CAPITÃ MARVEL’

***

Em Catolé do Rocha (Cine Garden 7):

Continua:
— ‘CAPITÃ MARVEL’

* As programações são enviadas pelas companhias exibidoras. Qualquer alteração, naturalmente, é de responsabilidade delas.

Roma - 01

ROMA (Alfonso Cuarón, 2018)
⭐⭐½
Diario de Filmes2019: 3

Nostalgia embalada em estética poderosa, Roma é um canto a um lugar e época bem específicos: um bairro da capital mexicana nos anos 1970. E se apoia num microcosmo que engloba questões de classe, étnicas, turbulência política, dramas pessoais. É uma narrativa que, mais que contar uma história que vai de um ponto inicial a uma conclusão, é uma observação emotiva sobre eventos episódicos, que mudam tudo e não mudam nada. E elevou a produção de longas para streaming a outro patamar.

Na Netflix.

bumblebee

BUMBLEBEE (Travis Knight, 2018)
½
Diário de Filmes 2019: 1

Uma mistura de ET’ King Kong e Se Meu Fusca Falasse, esse prelúdio é, de longe, a melhor coisa da franquia Transformers (pelo menos do que vi: desisti no terceiro, porque não aguentei mais). Não é só um amontoado de cenas de ação mal dirigidas e com um humor questionável, como os anteriores. Tem coração, um diretor competente (que veio do mundo da animação) e uma jovem grande atriz que faz muita diferença. Hailee Steinfeld interpreta, na prática, monólogos em boa parte do filme e está sempre muitíssimo bem.

No cinema (Cinépolis Manaíra).

O Fest-Aruanda começa hoje aqui em João Pessoa e, sem mais delongas, segue aqui um guia dos filmes que serão exibidos no festival. O local é o Cinépolis Manaíra e a entrada é franca! A programação tem também debates e lançamentos de livros (veja completa no site do festival).

QUINTA
19h30 – Curta: Ary Barroso — Ele Era Assim, de Angela Zoé; longa: Todas as Canções de Amor, de Joana Mariani

O curta é um documentário sobre o compositor, radialista e flameguista Ary Barroso, pela diretora do longa Henfil, que está estreando por aí. O longa tem Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso como um casal que encontra uma fita K7 que embalou a história de amor de outro casal.

***

SEXTA
14h – Curtas vencedores do concurso Vídeo do Minuto contra a Corrupção; curta: Vidas Cinzas, de Leonardo Martinelli

O curta é um falso documentário em que, no meio dessa crise toda, o governo corta as cores do Rio de Janeiro, deixando a cidade cinza.

18h – Curta: Parto Sim!, de Kátia Mesel; longa: Torre das Donzelas, de Susanna Lira

A cineasta pernambucana, de 50 anos de carreira, mostra um curta de ficção sobre uma situação real: as mulheres de Fernando de Noronha devem deixar a ilha aos sete meses de gestação porque não há hospitais no local. Torre das Donzelas é o primeiro dos dois documentários de Susanna no dia: é sobre a resistência das mulheres durante a ditadura.

21h – Mostra competitiva de curtas-metragens

22h – Longa: Mussum — Um Filme do Cacildis, de Susanna Lira

O documentário foca o músico e humorista que fez sucesso primeiro em Os Originais do Samba e, depois, como o carismático integrante dos Trapalhões.

Mussum - Um Filme do Cacildis - 01

Mussum — Um Filme do Cacildis

***

SÁBADO
11h – Longa: Os Trapalhões no Auto da Compadecida, de Roberto Farias

Entre as homenagens do festival a Roberto Farias, que morreu este ano, está esta re-exibição do filme de 1987, em que os Trapalhões fizeram sua adaptação da peça de Ariano Suassuna

Trapalhoes no Auto da Compadecida - 01

Os Trapalhões e o Auto da Compadecida

15h – Longa: Rebento, de André Morais

O filme abre a série inédita de seis longas paraibanos exibidos em uma mesma edição do Aruanda. Premiado em alguns festivais, incluindo a atuação visceral de Ingrid Trigueiro, como uma mulher obrigada a conviver com uma tragédia pessoal.

18h20 – Longa: Beiço de Estrada, de Eliézer Rolim

No segundo paraibano da mostra, Eliézer transforma em filme sua própria peça, montada nos anos 1980 e que revelou uma geração de grandes atores paraibanos. No elenco, Darnele Glória, Jackson Antunes e Mayana Neiva.

21h – Mostra competitiva de curtas-metragens

21h50 – Longa: Som, Sol & Surf: Saquarema, de Hélio Pitanga

O documentário aborda a revolução comportamental em uma pequena cidade do Rio, através de um festival de música que se tornou histórico nos anos 1970.

***

DOMINGO
11h – Longa: Os Trapalhões no Auto da Compadecida, de Roberto Farias

Segunda exibição do filme que reuniu Os Trapalhões e Ariano Suassuna.

15h – Longa: Estrangeiro, de Edson Lemos Akatou

É o terceiro paraibano do festival. Este mostra uma mulher que retorna às suas origens na praia de Tabatinga, depois de anos vivendo em trânsito após um trauma.

18h – Longa: O Seu Amor de Volta — Mesmo que Ele Não Queira, de Bertrand Lira

Quarto paraibano no festival, o documentário conta as histórias de amores perdidos e na crença da magia para resgatá-los.

Seu amor de volta Foto Alessandro-Potter 02

O Seu Amor de Volta — Mesmo que Ele Não Queira

21h30 – Longa: Azougue Nazaré, de Tiago Melo; longa: Clementina, de Ana Rieper

Dois longas em sequência nesta noite. No primeiro, numa zona canavieira, um pasto acredita que o maracatu é coisa do diabo. E coisas sobrenaturais começam a acontecer. O segundo é um documentário sobre a cantora Clementina de Jesus.

Clementina - 01

Clementina

***

SEGUNDA
15h30 – Longa: Corisco & Dadá, de Rosemberg Cariry

Na homenagem a Chico Diaz, a exibição deste filme de 1996, bem no começo da Retomada, onde Diaz é o cangaceiro Corisco e Dira Paes é a companheira Dadá.

Corisco e Dadá - 01

Corisco & Dadá

17h30 – Longa: Sol Alegria, de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira

Pai e filha co-dirigem e atuam neste, que é o quinto longa paraibano neste Fest Aruanda. É um cenário rocambolesco em que pastores controlam o governo, uma família comete um atentato, se refugia com uma falange comandada por freiras não convencionais e um mapa pode salvar a humanidade à beira do apocalipse. Ney Matogrosso e Everaldo Pontes estão no elenco.

21h – Mostra competitiva de curtas-metragens

22h – Longa: Adoniran — Meu Nome É João Rubinato, de Pedro Serrano

O documentário de Serrano é a primeira de suas duas produções sobre o sambista paulista Adoniran Barbosa neste Aruanda (o outro é o curta, Dá Licença de Contar, na quarta).

***

TERÇA
14h30 – Longa: Zuzu Angel, de Sérgio Rezende; média: Waldick — Sempre no Meu Coração, de Patrícia Pillar

A programação é uma homenagem a Patrícia Pillar. Ela estrela Zuzu Angel, de 2006, sobre a estilista que enfrentou a ditadura nos anos 1970, e dirige o doc de 2008 sobre Waldick Soriano.

18h – Longa: Ambiente Familiar, de Torquato Joel

Documentarista de grandes trabalhos, em seu primeiro longa Torquato Joel experimenta a ficção. Trata-se de uma história de três rapazes que formam uma família. É o sexto longa paraibano no festival.

21h20 – Longa: Simonal, de Leonardo Domingues

O filme é a cinebiografia de Wilson Simonal, sua carreira de incrível sucesso e as polêmicas envolvendo sua relação com a ditadura e o exílio que o mercado musical aplicou a ele.

***

QUARTA
14h – Longa: Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de Roberto Farias

A homenagem a Roberto Farias inclui dois dos três filmes que dirigiu estrelados por Robert Carlos. Neste, o cantor interpreta a si mesmo, perseguido por um vilão vivido pelo maior vilão do cinema brasileiro, José Lewgoy. A história é desculpa para uma série de esquetes, com direito a um passeio de helicóptero por um lindíssimo Rio de Janeiro dos anos 1960. Segundo a programação oficial, este filme será exibido no auditório do Hotel Luxxor Cabo Branco.

16h – Longa: Humberto Mauro, de André di Mauro

Um documentário sobre um dos diretores fundamentais do cinema brasileiro. Segundo a programação oficial, este filme será exibido no auditório do Hotel Luxxor Cabo Branco.

20h – Curta: Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano; longa: Roberto Carlos a 300km por Hora, de Roberto Farias

Dá Licença de Contar é um simpaticíssimo curta que mescla a vida e a obra de Adoniran Barbosa. Paulo Miklos vive o compositor que, com seus amigos Matogrosso e Joca, vive as histórias de “Samba do Arnesto”, “Trem das onze”, “Saudosa maloca”, etc. Já Roberto Carlos a 300km por Hora é o último filme estrelado pelo cantor, e o único em que não interpreta a si mesmo, mas, sim, outro personagem: é um mecânico que deseja ser piloto de corridas e ama a filha do patrão.

Ilha dos Cachorros

“Ilha dos Cachorros”, de Wes Anderson

São quatro as estreias nos cinemas paraibanos hoje (veja todos os filmes em cartaz na Paraíba, locais e horários de exibição aqui). A que me interessa mais é Ilha dos Cachorros (2018), de Wes Anderson, animação stop-motion do diretor cujos filmes têm um dos visuais mais interessantes do cinema americano hoje. O filme entra em cartaz na sessão Cinema de Arte, do Cinépolis Manaíra.

É a segunda vez que ele realiza uma obra no formato. A outra foi O Fantástico Sr. Raposo (2009). Mas o filme mantém, nos talentos vocais, seu hábito de dirigir grandes elencos, com seus colaboradores habituais: Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban e Frances McDormand vivem aparecendo nos filmes de Anderson. Em João Pessoa (Cinépolis Manaíra).

Hotel Artemis

Jeff Goldblum e Jodie Foster em “Hotel Artemis”

Em Hotel Artemis (2018), Jodie Foster volta a aparecer como atriz, cinco anos após Elysium. Ela é a enfermeira que comanda um ala que cuida de criminosos perigosos e descobre que um dele está para cometer um assassinato. Em João Pessoa (Cinépolis Manaíra, Centerplex MAG).

 

O blockbuster da semana é O Predador (2018), quarto da série que começou com… O Predador (1987). Sim, a continuação tem o mesmo nome do primeiro filme. Em João Pessoa (Cinépolis Manaíra, Centerplex MAG, Cinesercla Tambiá, Cinépolis Mangabeira), Campina (Cinesercla Partage) e Patos (Cine Guedes).

Marvin (2017) é mais um filme francês egresso do Festival Varilux que entra em cartaz. É sobre um jovem que quer ser ator e foge da família opressora para tentar viver esse sonho. Isabelle Huppert está no elenco, interpretando ela mesma. Em João Pessoa (Centerplex MAG).

Páginas

Sigam-me os bons (no Twitter)