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OS 15 MELHORES DE 1969

Butch Cassidy - 01

 

1 — BUTCH CASSIDY

Na linhagem dos “bandidos simpáticos”, poucos se comparam à dupla formada por Newman e Redford em Butch Cassidy. O filme é de uma época em que o faroeste passava por uma revisão. Menos glamour, um pouco mais de sujeira, abraçando um pouco o que vinha sendo feito na Itália. Butch e Sundance também ganhavam uma releitura menos interessada na fidelidade histórica e mais em inseri-los no simbolismo da rebeldia dos anos 1960, um pouco como havia sido feito em Bonnie & Clyde, dois anos antes. Newman, Redford e Katharine Ross desfilam charme pelo filme todo.
(Butch Cassidy and the Sundance Kid, Estados Unidos). Direção: George Roy Hill. Roteiro: William Goldman. Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Katharine Ross, Strother Martin.

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Meu Odio Sera Sua Heranca - 01

2 — MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA

Zack Snyder devia assistir a esse filmes três vezes por dia até aprender como usar a câmera lenta para propósitos dramáticos. Numa época em que sangue não era gasto em galões no cinema, Peckinpah era conhecido como o mestre da violência. Mas também por causa de sua carga dramática. Aqui, ele um canto do cisne do faroeste, com a missão final de pistoleiros veteranos.
(The Wild Bunch, Estados Unidos). Direção: Sam Peckinpah. Roteiro: Walon Green e Sam Peckinpah, argumento de Walon Green e Roy N. Sickner. Elenco: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien, Warren Oates, Strother Martin.

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Z - 02

3 — Z

Costa-Gavras se tornou conhecido por um cinema fortemente político. E aqui ele denuncia a ditadura militar grega, através de um jornalista que investiga o assassinato de um líder da oposição. Foi o primeiro filme de língua não inglesa indicado ao Oscar de melhor filme.
(Z, França/ Argélia). Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras e Ben Barzman, dialogos de Jorge Semprún, baseado em romance de Vasilis Vasilikos. Elenco: Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, François Pérrier, Jacques Perrin.

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Perdidos na Noite - 01

4 — PERDIDOS NA NOITE

Jon Voight chega a Nova York para ganhar a vida como prostituto. O ingênuo caipira encontra um trapaceiro de rua, o “Ratso” Rizzo vivido por Dustin Hoffman. Os dois atores comandam este, que foi o primeiro filme para maiores de 18 a vencer o Oscar. Um filme sobre amizade na sarjeta. E tem aquele improviso maravilhoso de Hoffman com o taxi: “Hey, I’m walking here!”.
(Midnight Cowboy, Estados Unidos). Direção: John Schlesinger. Roteiro: Waldo Salt, baseado em romance de James Leo Herlihy. Elenco: Jon Voight, Dustin Hoffman, Sylvia Miles, Brenda Vaccaro, Jennifer Salt.

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Charlie Brown e Snoopy-04

5 — CHARLIE BROWN E SNOOPY/ UM GAROTO CHAMADO CHARLIE BROWN

A turma da tira Peanuts, escrita e desenhada por Charles M. Schulz, já aparecia na TV em especiais de pouco mais de 20 minutos desde 1965, com O Natal de Charlie Brown, no ritmo de uma ou duas vezes por ano. Em 1969, Charlie, Lucy, Linus e o cãozinho Snoopy chegavam às telonas em um longa que mantinha o estilo simples das produções para a TV e os mesmos temas recorrentes da frustração e medo da rejeição.
(A Boy Named Charlie Brown, Estados Unidos). Direção: Bill Melendez. Roteiro: Charles M. Schulz, baseado em sua própria tira de quadrinhos. Vozes na dublagem original: Peter Robbins, Pamelyn Ferdin, Glenn Gilger.

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Macunaima - 02

6 — MACUNAÍMA

O romance modernista de Mário de Andrade ganhou uma versão irreverente pelas mãos de Joaquim Pedro de Andrade, com dois atores-ícones do cinema nacional dividindo o papel-título (Grande Otelo e Paulo José) e ainda Dina Sfat.
(Brasil). Direção e roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, baseado em romance de Mário de Andrade. Elenco: Grande Otelo, Paulo José, Dina Sfat, Jardel Filho, Milton Gonçalves, Joanna Fomm, Zezé Macedo, Wilza Carla.

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007 a Servico de Sua Majestade - 03

7 — 007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE

O senso comum aponta George Lazenby como o pior ator a encarnar James Bond. É difícil discordar. O interessante é que isso acontece em um ótimo exemplar da série, que tenta humanizar um pouco o agente 007 e tem Diana Rigg como uma das melhores bondgirls (ou bondwoman, como se diz hoje).
(On Her Majesty’s Secret Service, Reino Unido). Direção: Peter Hunt. Roteiro: Richard Maibaum, com diálogos adicionais por Simon Raven, baseado em romance de Ian Fleming. Elenco: George Lazenby, Telly Savallas, Diana Rigg, Gabriele Ferzetti, Lois Maxwell, Bernard Lee, Desmond Llewelyn.

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Dragao da Maldade contra o Santo Guerreiro - 01

8 — O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO

Glauber voltou aqui ao personagem mítico Antônio das Mortes, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), alçando-o ao papel principal e fazendo-o refletir sobre sua atividade de matador de cangaceiros. Ganhou melhor direção em Cannes.
(França/ Brasil/ Alemanha Ocidental/ Estados Unidos). Direção e roteiro: Glauber Rocha. Elenco: Maurício do Valle, Odete Lata, Othon Bastos, Hugo Carvana, Jofre Soares.

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Sem Destino - 01

9 — SEM DESTINO

Emblemático talvez seja a melhor palavra para Sem Destino. Um filme que, em sua história dos motoqueiros que viajam pelos EUA, resume em si um espírito daquela época no que diz respeito à contracultura. A própria produção do filme foi louquíssima, como eram os personagens e aqueles dias.
(Easy Rider, Estados Unidos). Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Phil Spector.

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Assaltante Bem Trapalhao - 01

10 — UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO

Primeiro filme valendo pontos de Woody Allen como diretor, é uma comédia rasgada sobre um assaltante de banco que não tinha nada de gênio do crime. Allen já mostrava que tinha vontade de ir além, ao brincar um pouco com a narrativa dos documentários, inserindo depoimentos para contar a história.
(Take the Money and Run, Estados Unidos). Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen e Michael Rose. Elenco: Woody Allen, Janet Margolin, Michael Hillaire.

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Noite dos Desesperados - 01

11 — A NOITE DOS DESESPERADOS

O filme se passa nos anos 1930, época da Grande Depressão nos EUA, e o cenário é uma desumana maratona de dança onde personagem sem qualquer esperança jogam suas últimas fichas em busca de uma virada na vida — ou morrer. Tambpem marcou uma virada na carreira de Jane Fonda em busca de papéis mais fortes — no ano anterior, ela havia feito Barbarella!
(They Shoot Horses, Don’t They?, Estados Unidos). Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe e Robert E. Thompson, baseado em romance de Horace McCoy. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Susannah York, Gig Young, Red Button, Bonnie Bedelia, Bruce Dern.

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Flor de Cacto-07

12 — FLOR DE CACTO

Adaptação de uma comédia de sucesso da Broadway, revelou Goldie Hawn, que acabou ganhando um Oscar de coadjuvante. Walter Matthau é o protagonista do roteiro maluquete, sobre um dentista que finge que é casado pra não ter que firmar compromisso com a “amante”. Mas aí sua enfermeira, vivida por Ingrid Bergman, precisa fingir que é a esposa.
(Cactus Flower, Estados Unidos). Direção: Gene Saks. Roteiro: I.A.L. Diamond, baseado em peça de Abe Burrows, por sua vez versão da peça francesa de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy. Elenco: Walter Matthau, Ingrid Bergman, Goldie Hawn.

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Alo Dolly - 01

13 — ALÔ, DOLLY!

Barbra Streisand pós Oscar por A Garota Genial é a grande estrela deste musical da Broadway dirigido no cinema por Gene Kelly – um dos maiores astros e coreógrafos do gênero, aqui ele só é diretor (foi indicado ao Globo de Ouro). Barbra e Walter Matthau não se deram e o filme tem coisa demais, mas ainda é bem divertido. E ainda tem a aparição de Louis Armstrong, sua última no cinema.
(Hello, Dolly!, Estados Unidos). Direção: Gene Kelly. Roteiro: Ernest Lehman, baseado na peça musical de Michael Stewart, por sua vez baseado na peça de Thornton Wilder, por sua vez versão da peça francesa de Johann Nestroy. Elenco: Barbra Streisand, Walter Matthau, Michael Crawford, Marianne McAndrew.

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Matou a Família e Foi ao Cinema - 1969 - 01

14 — MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

Exemplar do cinema marginal brasileiro, terceiro longa de Bressane. Parte da premissa literal do título, um rapaz que mata os pais e vai ao cinema, para outros contos curtos de violência, como o das meninas que se apaixonam e matam a mãe de uma delas. Teve uma refilmagem muito ruim em 1991, com Cláudia Raia.
(Brasil). Direção e roteiro: Júlio Bressane. Elenco: Márcia Rodrigues, Renata Sorrah, Vanda Lacerda, Antero de Oliveira.

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Bravura Indomita - 1969 - 05

15 — BRAVURA INDÔMITA

Garota determinada procura um profissional que a ajude a prender o homem que matou seu pai. Consegue o xerife bebum, caolho e decadente vivido por John Wayne. Um papel longe dos costumeiros papéis invencíveis do astro, o que rendeu a ele um Oscar. Bem bom, rendeu uma refilmagem ainda melhor, dirigida pelos irmãos Coen em 2010.
(True Grit, Estados Unidos). Direção: Henry Hathaway. Roteiro: Marguerite Roberts, baseado no romance de Charles Portis. Elenco: John Wayne, Kim Darby, Glen Campbell, Robert Duvall, Dennis Hopper, Strother Martin.


Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.


OUTRAS LISTAS:

 

Matador -1950 - 03

O MATADOR (Henry King, 1950)

Diário de Filmes 2019: 35

No começo de O Matador, o pistoleiro Johnny Ringo (Gregory Peck) para numa birosca para tomar um trago. É reconhecido e provocado por um valentão local, que quer saber se Ringo é tão bom quanto a fama. Ringo não quer confusão, mas é pressionado até ter que matar o sujeito em defesa própria. Quantas vezes isso não terá acontecido com o pistoleiro, depois que ficou famoso? Quantas vezes ainda não acontecerá?

Agora, ele só quer chegar à sua cidade e rever um amor do passado e seu filho. Lá, passa o filme quase todo no saloon, à espera da resposta da amada. Do lado de fora, a cidade em polvorosa, com curiosos, gente querendo vingança, inconsequentes querendo se provar.

Faroestão psicológico sobre um homem que é rápido, mas não tanto quanto a própria reputação. Um filme que não fez grande sucesso de público na época (Zanuck, chefão da Fox, culpou o bigodão de Gregory Peck), mas está entre os clássicos do gênero, influenciando muitos filmes que vieram depois.

Balada de Buster Scruggs

THE BALLAD OF BUSTER SCRUGGS (Joel Coen e Ethan Coen, 2018)
Sem borda - 04 estrelas
Diário de Filmes 2019: 19

Os irmãos Coen falam da inevitabilidade da morte e do acaso nesse faroeste em episódios. A apresentação mostra a capa de um livro abrindo, no modelo dos antigos contos-de-fadas adaptados pela Disney. Livro, aliás, que é, em si mesmo, uma peça de ficção. A atmosfera progride da farsa bem humorada do fanfarrão Buster Scruggs ao sombrio encontro numa diligência onde personagens podem dar uma nova perspectiva a seus problemas quando veem como certas pessoas lidam com a morte. É raro ver um filme em episódios que mantém em cada uma das partes um nível tão bom.

Rastros de Ódio

DIÁRIO DE FILMES 2018: 16 – RASTROS DE ÓDIO
Sem borda - 05 estrelas

Ethan Edwards é um herói? Não necessariamente. Sim, ele passa anos numa árdua e incansável busca por sua sobrinha Debbie, raptada por índios que dizimaram a família da garota. Mas pode muito bem matá-la, se ela tiver virado índia – ele diz que é melhor morrer que viver como índio. Para não deixar dúvidas sobre seu racismo, trata mal Martin, o irmão adotado de Debbie, um mestiço que ele mesmo encontrou e deu para o irmão criar. Mesmo que seja Martin que fique sempre a seu lado na busca. Um monumental John Wayne é o alicerce dessa obra-prima de um John Ford que mostrava um ponto de vista bem mais complexo que o de seus primeiros faroestes.

Rastros de Ódio. The Searchers. Estados Unidos, 1956. Direção: John Ford. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood. Em DVD.

Katy Jurado - Matar ou Morrer

5 de julho, há 15 anos: Morre, em 2002, aos 78 anos, a atriz mexicana Katy Jurado. Ela começou sua carreira em seu país natal, em 1943, em uma era dourada para o cinema mexicano. A partir de 1951, começou a trabalhar em Hollywood, principalmente em faroestes. O maior deles foi Matar ou Morrer (1952), que rendeu a ela um Globo de Ouro, o primeiro para uma latina. Foi indicada ao Oscar por Lança Partida (1954).

Coluna Cinemascope (#23). Correio da Paraíba, 22/2/2017

Brutos Tambem Amam - 09

“Os Brutos Também Amam” (1953)

Os defeitos dos perfeitos

por Renato Félix

O fotógrafo de cinema João Carlos Beltrão me contou certa vez que o montador João Ramiro Mello dava aulas na UFPB e, mostrando à classe o faroeste clássico Os Brutos Também Amam (1953), desafiou os alunos: “Ache um defeito nesse filme!”.

Haverá um filme sem defeitos? Creio que a apreciação de um filme parte de qualidades que compensem problemas, sendo que o grande filme não é necessariamente aquele sem defeitos, mas, mais importante, é aquele cujas qualidades são tão grandes que eclipsam os eventuais defeitos.

Por exemplo, quem liga para o evidente erro de montagem em O Encouraçado Potemkin (1925)? Mas logo de montagem, sendo o cinema soviético referência nesse quesito? Pois é. O fato é que, na sequência da escadaria de Odessa (mas logo nessa, uma das fundamentais da história? Sim, logo nessa), a mãe cujo filhinho escapa de suas mãos enquanto descem os degraus, fugindo dos atiradores, assiste horrorizada o filho ser pisoteado mais acima. Porém, quando se aproxima dele, é de cima para baixo.

Pior acontece em Cantando na Chuva (1952), o maravilhoso musical da Metro, outra figurinha fácil no álbum dos melhores filmes do mundo. Em duas cenas o montador só podia estar cochilando. Na primeira, quando o professor de dicção está dizendo trava-línguas para Don (Gene Kelly) e Cosmo (Donald O’Connor) está ao seu lado fazendo caretas, o momento em que o professor o flagra e se assusta repete-se.

Na segunda, um corte brusco no movimento quando Gene Kelly e Cyd Charisse estão na dança sensual do “Broadway Melody Ballet”, como se uma parte dos fotogramas tivessem sido cortados.

Mas quem liga? Isso é o que faz um grande filme.

FOTO: Os Brutos Também Amam (1953)

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Coluna Cinemascope (#3). Correio da Paraíba, 5/10/2016.

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“O Homem que Matou o Facínora” (1962)

A crítica não é uma pessoa só

por Renato Félix

Sempre gosto de contar essa história. Peter Bogdanovich, diretor do clássico A Última Sessão de Cinema (1971) lançou um livro de críticas de filme e convidou outro crítico para escrever o prefácio. Aí o convidado (não lembro o nome) lascou lá: “Peter é um ótimo crítico, a não ser por achar que O Homem que Matou o Facínora é um dos melhores filmes de todos os tempos, quando todo mundo sabe que é um dos piores”.

É mais ou menos isso. O João Batista de Brito, que me contou o causo (se me lembro bem; ele deve até ter esse livro, que, aliás, também não lembro qual é), deve contar melhor essa história.

Enfim, o que interessa é isso: não é interessante que dois críticos que se admiram divirjam tanto a respeito de um filme a ponto de um deles considerar como “um dos melhores” e outro como “um dos piores”?

Bem, na verdade, não é nada incomum. Muitas vezes se fala “a crítica” como se esta fosse uma pessoa só, ou uma entidade misteriosa em que todos os integrantes pensam do mesmo jeito. Não deveria ser necessário dizer que não, não é assim.

A arte é subjetiva e o cinema não é diferente. Muitas vezes os motivos que alguém pode considerar qualidades em um filme são exatamente os motivos que outro considera uma fraqueza.

Mesmo seu crítico de cabeceira vai divergir de você várias vezes. Não há nada de mais nisso. O papel da crítica é estimular a reflexão do leitor, mesmo que os dois não estejam de acordo. Cabe ao leitor entender os motivos daquela opinião (e ao crítico cabe se fazer entender) e formar a sua com base maior do que um “gostei/ não gostei”.

Em tempo: estou com o Bogdanovich, claro.

FOTO: O Homem que Matou o Facínora (1962)

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No meio de um dos maiores faroestes de todos os tempos, o diretor Howard Hawks arrumou um tempo para aproveitar o talento dos dois cantores de seu elenco: o crooner Dean Martin e o astro jovem Ricky Nelson. Eles cantam “My rifle, my pony and me” e “Get along home, Cindy” e criam um momento de camaradagem entre os delegados que estão segurando um assassino na cadeia e aguentando a pressão da gangue que quer soltá-lo. Até o Walter Brennan acompanha, faltou só o John Wayne cantar também.

Onde Começa o Inferno. Rio Bravo. Estados Unidos, 1959. Direção: Howard Hawks. Elenco: John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Ricky Nelson, Walter Brennan.

Cena anterior: Cabaret.

Eu não sou nenhum fã de Django Livre (2012), mas levo fé neste Os Oito Odiados, novo faroeste do Quentin Tarantino, que teve seu primeiro trailer para valer lançado hoje pela The Weinstein Company. O filme tem Chaning Tatum, Samuel L. Jackson, Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh no elenco. E Ennio Morricone fazendo a trilha original! Estreia no Natal, nos EUA, e 14 de janeiro no Brasil.

Houve um tempo em que se dizia que nenhuma continuação era superior ao original (só O Poderoso Chefão 2 – Parte 2O Império Contra-Ataca, o que sempre é discutível, mas era o que se dizia). Hoje já existem muitas partes 2 melhores que a parte 1, mas parece que sobre as partes 3 alguma maldição acontece. O senso comum costuma apedrejá-las (pergunte o que o pessoal acha de Homem-Aranha 3Homem de Ferro 3X-Men – O Confronto Final, por exemplo – em tempo: gosto dos três).

Então vamos a um top 10 de partes 3 que burlam isso aí. São filmes bem aceitos por público em geral e pela crítica e, às vezes, até melhores que o original.

"Star Wars – A Vingança dos Sith"

“Star Wars – A Vingança dos Sith”

10 – STAR WARS – A VINGANÇA DOS SITH (2005)

A segunda trilogia da série Guerra nas Estrelas é cheia de problemas e o próprio A Vingança dos Sith tem alguns bem sérios. Mas é inegável que também é bastante superior aos dois primeiros e possivelmente o único que realmente não faz feio com relação à trilogia original. RT: 80%.

"De Volta para o Futuro – Parte III"

“De Volta para o Futuro – Parte III”

9 – DE VOLTA PARA O FUTURO – PARTE III (1990)

Filmado simultaneamente com a parte II, tem uma diferença razoável com relação aos anteriores por se passar quase inteiramente no velho oeste. Acaba então se tornando uma deliciosa paródia do gênero. E faz isso muito bem, além de também cumprir muito bem o papel de encerrar a história. RT: 73%.

"O Ultimato Bourne"

“O Ultimato Bourne”

8 – O ULTIMATO BOURNE (2007)

Os dois primeiros filmes já são muito bons, mas o terceiro realmente fecha com chave de ouro a trilogia. Paul Greengrass está muito inspirado nas cenas de perseguição e de luta e no ritmo das revelações que vão aparecendo para elucidar a história do agente que, no primeiro filme, começa desacordado e perseguido por colegas sem saber o motivo. RT: 93%.

"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban"

“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”

7 – HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004)

Para o terceiro filme da série, houve uma mudança de direção: saiu o burocrático Chris Columbus e entrou o mexicano Alfonso Cuarón, que imprimiu mudanças visíveis: reduziu muito o ar glamouroso e de conto-de-fadas da escola de bruxaria e nos brindou com a sequência antológica em que Harry fica frente a frente com Sirius Black e outra, a da volta no tempo. Nenhum filme que veio depois conseguiu superá-lo (talvez o sétimo dos oito, mas a discutir). RT: 91%.

"O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei"

“O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”

6 – O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI (2003)

A trilogia O Senhor dos Anéis foi filmada numa tirada só, mas a edição foi um de cada vez. Isso deve ter ajudado o diretor Peter Jackson a corrigir problemas a cada passo e controlar, por exemplo, sua tendência ao exagero. Ou isso, ou o exagero se justifica pelo clímax gigante que é o capítulo final da saga. RT: 95%.

"007 – Operação Skyfall"

“007 – Operação Skyfall”

5 – 007 – OPERAÇÃO SKYFALL (2012)

Ok, ok, sabemos que Skyfall é o 23º filme da série James Bond. Mas desde que 007 – Cassino Royale reiniciou a série em 2006, então podemos entender o filme como o terceiro dessa nova fase (fizemos isso também com A Vingança dos Sith, oras). E o sentimento foi de “até que enfim!”. Depois de um ótimo filme que tinha pouco do James Bond que o cinema consagrou e um segundo que nem era muito bom, nem era muito Bond, este conseguiu ser excelente e fazer Daniel Craig envergar bastante da autoparódia que acompanhava o agente desde Sean Connery. Além disso, há a fotografia sensacional de Roger Deakins e sacadas como colocar a M de Judi Dench como a principal bondgirl do filme. RT: 92%.

Indiana Jones e a Ultima Cruzada-26

“Indiana Jones e a Última Cruzada”

4 – INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

Steven Spielberg achou o segundo filme da série muito sombrio (gente tendo o coração arrancado do peito… aquelas coisas), então caprichou na comédia em A Última Cruzada. O golpe de mestre foi escalar Sean Connery como o pai de Indy (fazia todo o sentido, já que de certa forma James Bond foi o “pai” de Indiana Jones). Como o original, aqui também tivemos uma corrida apostada contra os nazistas por um tesouro bíblico. RT: 88%.

"Toy Story 3"

“Toy Story 3”

3 – TOY STORY 3 (2010)

Parecia ser difícil superar o excelente segundo filme, de 1999. Além disso, o terceiro filme surgia sob a sombra de puro oportunismo (detentora dos direitos, a Disney ia tocá-lo sozinha quando a Pixar estava para deixar a parceria com o estúdio). Mas Pixar conseguiu surpreender e entregar, 11 anos depois, uma continuação melhor ainda, que vira um filme de prisão, chega no limite do suspense para um filme infantil e com um final de deixar o coração apertado. RT: 99%.

"Três Homens em Conflito"

“Três Homens em Conflito”

2 – TRÊS HOMENS EM CONFLITO (1966)

É a terceira parte da trilogia do Homem sem Nome, de Sergio Leone. Os anteriores – Por um Punhado de Dólares (1964) e Por uns Dólares a Mais (1965) – foram eclipsados por esta ciranda de trapaças e violências entre o bom (Clint Eastwood), o mau (Lee Van Cleef) e o feio (Eli Wallach). Seria o máximo do western spaghetti, não fosse Era uma Vez no Oeste (1968), do próprio Leone. RT: 97%.

"007 contra Goldfinger"

“007 contra Goldfinger”

1 – 007 CONTRA GOLDFINGER (1963)

Em Goldfinger, James Bond finalmente estava completo como o personagem que se tornaria um dos mais conhecidos do universo da ficção (muito mais do que na literatura). Os dois filmes anteriores contribuíram muito para isso (principalmente o segundo, Moscou contra 007, de 1963), mas aqui todos os elementos chegaram ao ponto ideal: um vilão megalomaníaco, capangas magistrais, bondgirls de tirar o fôlego, cenas antológicas (a beldade que morre folheada a ouro, o raio laser que corta a mesa em direção a 007) e a autoparódia, o não-se levar-muito-a-sério (no começo do filme, Bond sai do mar de escafandro e já tem um smoking por baixo). Ainda é o melhor dos até agora 23 filmes de Bond. RT: 96%.

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Filme-se a lenda

Henry Fonda é Wyatt Earp, Cathy Dows é Clementine: ela é a civilização chegando a Tombostone

Henry Fonda é Wyatt Earp, Cathy Dows é Clementine: ela é a civilização chegando a Tombostone

John Ford dizia a propósito de Paixão dos Fortes (My Darling Clementine, Estados Unidos, 1946) que tinha ouvido a história de Wyatt Earp da boca do próprio. Não se sabe o que exatamente o ex-xerife contou a ele, mas parece mais ser uma bravata de Ford, na linha da frase assinatura do filme que faria 16 anos depois, O Homem que Matou o Facínora (1962): “Quando a lenda é mais interessante que a verdade, publique-se a lenda”. Mas não é uma bravata: o diretor conheceu mesmo Earp, nos seus primeiros tempos de diretor em Hollywood.

Ford não está interessado na verdade, e, sim, na lenda. Considerado o Homero do cinema, ele construiu uma mitologia sobre o velho oeste americano. Por isso, as polêmicas em torno da vida de Wyatt Earp são deixadas de lado aqui. O vemos, com seus irmãos, chegando aos arredores de Tombstone, conduzindo gado. Embora o nome da cidade seja icônico (significa “tumba” ou “lápide”), ela existe mesmo – a dublagem brasileira a traduziu de modo bem curioso: Cemitério.

Ele não está interessado em confusão, apenas em fazer a barba sossegado na cidade. Mas nem isso ele consegue: um bêbado atirando no saloon em frente mostra que a polícia, ali, é incapaz de resolver até o mais simples problema – ainda de espuma na cara, é ele que domina o atirador e o arrasta pelos calcanhares. Mas só aceita o convite para ser xerife quando está emocionalmente envolvido: os Clanton, pai e filhos, barões de gado locais, roubam seu rebanho e matam James, o mais novo dos Earp, que ficou tomando conta enquanto os três mais velhos foram a Tombstone.

Uma cidade onde um adolescente é morto covardemente por causa de gado precisa de redenção. É o plano maior de Wyatt Earp, embalado na rivalidade entre os Earp e os Clanton e na espera até que o inevitável ajuste de contas aconteça – no agora famoso Ok Corral. Entre esses momentos, se constrói a história da amizade entre Wyatt Earp e John “Doc” Holliday, pistoleiro e médico (na verdade, dentista) que comanda o jogo em Tombstone (um relacionamento ao qual inúmeros faroestes voltariam pelas décadas seguintes). Se a princípio, os dois deveriam estar em lados opostos, logo o respeito mútuo põe a casa em ordem. O xerife deixa claro a Holliday que o enfrentaria se fosse preciso, mas não é nele que está interessado.

Henry Fonda interpreta Wyatt Earp como um homem cansado da violência de outras épocas e que procura um novo estilo de vida. Embora não fuja da ação, não a procura: gosta de ficar balançando sobre as pernas traseiras de uma cadeira na varanda em frente à delegacia, vendo o movimento de uma cidade ainda em construção. A chegada da civilização ao Oeste é um tema caro a Ford e o cotidiano de Tombstone rumo ao progresso ganha muito espaço no filme: como na cena da dança, no tablado da igreja que ainda está em construção, e o cômico personagem do ator shakespeariano (Alan Mowbray, ainda por cima inglês) que chega com sua trupe à cidade.

Victor Mature é Doc Holliday – provavelmente o tuberculoso mais em forma do mundo (o ator seria Sansão na superprodução de Cecil B. DeMille, dois anos depois). É outro personagem que encontrou em Tombstone um local ideal para fugir do passado. Arranjou até uma garota: Chihuahua (Linda Darnell, que faz jus ao nome), a mexicana que faz as vezes de cantora do saloon de Doc – e que, no filme, substitui a verdadeira mulher de Doc. É violento e bêbado, mas há mais neste homem desesperançado: não é qualquer um que recita Shakespeare de cor, como faz quando salvam o inglês de ser atormentado pelos Clanton.

A Clementine do título não existe na história verdadeira. É mais um elemento icônico que Ford e os roteiristas Samuel G. Engel e Winston Miller (que se basearam na biografia de Earp por Stuart N. Lake) puseram em Paixão dos Fortes. A mulher distinta que contrasta com a aparência mundana de Chihuahua. O filme vai mostrar que isso não é à toa: Clementine (Cathy Downs) parece um oásis de delicadeza na aridez do Oeste (Ford filmou tudo no seu querido Monument Valley). Se os homens maus não abalam Wyatt Earp e Doc Holliday, é Clementine quem consegue desconcertar os heróis e levá-los a momentos impensáveis: o xerife dança com ela na cena do baile da igreja, uma cena memorável de toda a filmografia de John Ford. A cena final mostra que a professora é mais um elemento da chegada da civilização àquela região dos Estados Unidos. Não é à toa que é ela quem está no título do filme (a partir da canção folk de 1884).

Da mesma forma, o filme é cheio de cenas icônicas: o juramento por dias melhores que Wyatt faz na lápide de James; o confronto moral entre Earp e Holliday, um medindo o outro antes que sua aliança não declarada seja firmada; a determinada caminhada dos heróis até o local do duelo, para os “negócios de família”. Tudo isso mesclando o cotidiano na barbearia, no saloon e na missa com a viva sensação de que algo maior está acontecendo nas entrelinhas daquelas ações tão casuais.

Talvez Ford não estivesse contando a história de Wyatt Earp e Doc Holliday, mas, em um nível maior, a história dos Estados Unidos. Ou então, como conta o historiador John Mack Faragher no livro Passado Imperfeito, o historiador do cinema John Tuska perguntou uma vez a John Ford o motivo de, tendo conhecido pessoalmente o velho Wyatt Earp, descartar os fatos como exatamente aconteceram. Com a rabugice que lhe era peculiar, Ford devolveu: “O senhor gostou do filme?”. Tuska não teve outra opção a não ser admitir que Paixão dos Fortes era um de seus filmes favoritos. “Que mais quer, então?”.

Paixão dos Fortes. (My Darling Clementine). Estados Unidos, 1946. Direção: John Ford. Elenco: Henry Fonda, Linda Darnell, Victor Mature, Walter Brennan, Tim Holt, Cathy Downs, Ward Bond, Alan Mowbray, John Ireland, Roy Roberts, Jane Darwell, Grant Withers, Mae Marsh.

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Escravo do estilo

Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio: antagonistas submetidos a clímax vazio

Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio: antagonistas submetidos a clímax vazio

Como nos dois Kill Bill, Quentin Tarantino se deu o presente de mergulhar em outra de suas referências cinematográficas: o faroeste-espaguete sub-Sergio Leone, costumeiramente de tão baixo status quanto os filmes de kung fu que inspiraram os dois (ótimos) filmes com Uma Thurman. Depois da excelente abertura de Bastardos Inglórios (2010), que se passava na II Guerra mas era totalmente calcada no western italiano, as expectativas eram bem altas para este Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012).

Tarantino alia a releitura de um gênero por ele querido a uma inversão cênica: dá o protagonismo a um cowboy negro (Jamie Foxx), um escravo libertado por um caçador de recompensas alemão (Chistoph Waltz), e que só pensa em libertar sua mulher (Kerry Washington, linda), mantida escrava na fazenda de um cruel senhor de terras (Leonardo DiCaprio).

Um cowboy negro não é exatamente uma novidade já foi tema de outra releitura (e um clássico do cinema): Banzé no Oeste (1974), de Mel Brooks. Mas Tarantino leva o filme a uma segunda inversão, que resulta nos momentos psicologicamente mais interessantes de Django Livre: Django, o escravo, precisando fingir ser um mercador de escravos e tendo que mostrar todo um desprezo pelo negros prisioneiros como ele mesmo era até pouco tempo antes. Tentaram criar uma certa polêmica nas cenas em que negros tratam negros como subalternos – principalmente no que diz respeito ao personagem de Samuel L. Jackson -, mas é bobagem. Trata-se de uma situação dramática legítima e bem eficiente.

É pena que Tarantino se torne cada vez mais escravo do próprio estilo – só isso para explicar a razão de o filme ter quase meia hora a mais além de seu verdadeiro final. O turning point é um “confronto moral” entre os personagens de DiCaprio e Waltz que, na prática, é um clímax vazio, ancorado em uma premissa frágil e, parece claro, criado apenas para que um momento visual aconteça.

Tudo, a partir deste ponto, é barriga. Nem serve à história e nem Tarantino está tão inspirado para fazer só do estilo um momento antológico. Se, com isso,Tarantino está de novo querendo dizer que dita as leis em seus filmes (como o fez subvertendo a história em Bastardos Inglórios), já está na hora de parar.

O filme tem momentos ótimos, mas antes disso: a cena de abertura, o saloon, Waltz contando a lenda de Broonhilde tirando dramaticade das sombras projetadas da fogueira, e, para os cinéfilos, toda a brincadeira macaqueando o estilo dos spaghetti-westerns (com zoons indo e vindo, a mesma música de abertura do Django de 1966, música de Ennio Morricone, etc.) e o encontros dos dois Djangos – o de Tarantino e Franco Nero, o original de 1966, aqui naturalmente em outro papel em sua breve participação.

Na maior parte do tempo, Tarantino parece mais preocupado em contar bem sua história e menos preocupado em deixar seu estilo gritar. Ele é, claro, um grande cineasta e a prova é que, mesmo assim, o filme é, sim, cheio de um estilo colorido e inteligente próprio dele. A derrapada no fim, porém, não é um acaso: parece indicar que o diretor ainda não conseguiu totalmente a alforria de si mesmo. A questão é: será isso o que ele quer?

Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012). Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Don Johnson, Quentin Tarantino, Franco Nero, Russ Tamblyn.

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