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Quem me conhece sabe que acho chuva um saco. Mas, em um fenômeno possivelmente interessante (mas provavelmente não), eu gosto de muitas cenas de filmes onde a chuva é um elemento importante – seja como composição do cenário, seja como simbolismo. Isso nos leva a mais um top 10.

Novica Rebelde - 1410 – A NOVIÇA REBELDE (1965)

“You are sixteen going on seventeen” canta o carteiro Rowlf para Liesl, sua namoradinha que deu aquela escapada do jantar em família para namorarem em segredo no jardim da casa. No meio do canto e dança, cai aquela chuvarada e eles se refugiam no solário.

Quatro Casamentos e um Funeral - 019 – QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

Um personagem no meio do filme diz que sonha com uma paixão que o atinja como um relâmpago. No fim do filme, passados os quatro casamentos e o funeral, os personagens de Hugh Grant e Andie MacDowell têm o seu clímax: sob a chuva que providencia o simbólico relâmpago.

Naufrago - 018 – NÁUFRAGO (2000)

É debaixo de uma chuva torrencial que o personagem de Tom Hanks reencontra a esposa (bem, ex-esposa) vivida por Helen Hunt, anos após viver isolado em uma ilha. É uma cena difícil e dolorosa, com todos os elementos de “o que poderia ter sido e não foi”, conduzida por dois grandes atores.

Homem-Aranha-04

7 – HOMEM-ARANHA (2002)

Um beijo que já está virando um clássico. Depois de salvar Mary Jane (Kirsten Dunst) de bandidos em uma rua escura, o Homem-Aranha (Tobey Maguire) desde sobre ela pendurado de cabeça para baixo na teia. Ela baixa parte da máscara dele e…

Match Point - 03

6 – MATCH POINT (2005)

Woody Allen não é exatamente conhecido por dirigir cenas sensuais. Também por isso, a cena em que Scarlett Johansson e Jonathan Rhys Meyers se rendem ao desejo proibido no campo, sob muita água, se destaca na filmografia do diretor.

Blade Runner-055 – BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

A chuva é constante na Los Angeles do futuro, cenário de Blade Runner. É também o cenário do clímax do filme, com o monólogo do replicante vivido por Rutger Hauer, no confronto decisivo por o caçador de andróides vivido por Harrison Ford.

Bonequinha de Luxo-15

4 – BONEQUINHA DE LUXO (1961)

Frustrada por seus sonhos de riqueza naufragarem e sem aceitar qualquer vínculo emocional, Holly Golightly (Audrey Hepburn) reage à declaração amorosa de Paul (George Peppard) expulsando seu fiel companheiro Gato de um taxi para um beco, debaixo do maior pé d’água. Logo se arrepende – e a procura pelo gato, sob água e a música de Henry Mancini, é um terno simbolismo do reencontro consigo mesma.

Inimigo Publico-10

3 – INIMIGO PÚBLICO (1931)

A chuva cai forte, mas o personagem de James Cagney não dá a mínima. Na cena, já um poderoso gangster, ele está esperando na rua o momento de entrar sozinho em um restaurante e acertar as contas ele mesmo com uma gangue rival. O tiroteio é acompanhado pelo espectador do lado de fora, ouvindo os tiros e apenas aguardando quem sairá vivo pela porta.

Sete Samurais - 04

2 – OS SETE SAMURAIS (1954)

O confronto final entre a pobre aldeia, liderada pelos sete samurais contratados, contra os bandidos que rotineiramente a atacam, acontece debaixo de um dos maiores pés d’água já vistos no cinema, o que torna tudo ainda mais desafiador, épico e dramático neste clássico de Kurosawa.

Antes do primeiro colocado, algumas menções honrosas: Deus desafiado em Forrest Gump, o Contador de Histórias (1994); visibilidade zero em Psicose (1960); a mensagem fatídica em Casablanca (1942); fuga sob a chuva em Um Sonho de Liberdade (1995); um beijo de Depois do Vendaval (1952); e o sexo na escadaria de 9½ Semanas de Amor (1986).

Cantando na Chuva - 25

1 – CANTANDO NA CHUVA (1952)

Dizem que Gene Kelly estava com 38 graus de febre no dia em que filmou a cena mais icônica de Cantando na Chuva: seu  personagem deixa a namorada em casa, parece que todos os seus problemas estão resolvidos e ele está tão feliz que não se importa com o aguaceiro: fecha o guarda-chuva, canta e sapateia pela rua. Leite foi misturado na água para que os pingos ficassem mais visíveis na filmagem. Kelly improvisou uma parte do número. E tudo foi feito em poucos e longos planos, que mostram a perícia não só de Kelly como da equipe inteira.

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Gershwin

11 de julho, há 80 anos: Morre, em 1937, aos 38 anos, o compositor e pianista americano George Gershwin. É um dos principais nomes da música nos EUA, navegando entre criações clássicas (como “Rhapsody in blue”, “An american in Paris”, a ópera Porgy and Bess) e canções populares, muitas delas com letras do irmão Ira (“Love is here to stay”, “They can’t take that away from me”). Sua música foi usada em diversos musicais clássicos de Hollywood e ele também compôs diretamente para alguns deles, como Vamos Dançar? (1937), com Fred Astaire e Ginger Rogers, de onde saiu sua única indicação ao Oscar, por “They can’t take that away from me”). Sinfonia de Paris  (1951), Oscar de melhor filme, é um dos longas composto só de canções de Gershwin. Morreu em consequência de um tumor no cérebro.

Duas Garotas Romanticas - 01

Cores e música: Catherine Deneuve e Fraçoise Dorléac

DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS
Sem borda - 04 estrelas

Bem mais do que em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), fica evidente em Duas Garotas Românticas (1967) o amor que o cineasta Jacques Demy tinha pelos musicais de Hollywood. A começar pelo formato, que troca os diálogos 100% cantados do filme anterior pela tradicional alternância entre diálogos e canções. Passa pela presença no elenco de grandes nomes do gênero nos EUA: George Chakiris e, principalmente, Gene Kelly. E se consagra pelo uso exuberante e apaixonado da dança, do que Chakiris foi craque e Kelly, um gênio.

Mas eles não são os atores principais, são um suporte de luxo. O protagonismo é todo das irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac, que interpretam gêmeas que ensinam dança e canto (Dorléac, que morreu três meses após o lançamento do filme, em um acidente, era um ano mais velha que Deneuve). A chegada de uma feira itinerante à sua cidade, Rochefort, vai agitar o fim de semana em que decidiram que vão tentar a vida artística em Paris.

As duas atrizes, assim como quase todo o elenco, são dubladas nas canções. A exceção é Danielle Darrieux, que interpreta a mãe da dupla, comandando um café que se torna um núcleo da trama, uma ciranda amorosa em que os vários personagens vão se cruzando enquanto isso não acontece aos casais destinados um ao outro.

Kelly é dublado nas canções e em parte dos diálogos, mas não em todos: em boa parte, ele mesmo fala em francês. O espectador versado em musicais percebe logo a diferença e pode estranhar, a princípio.

Mas a entrada de Kelly no filme, no meio da trama, é um golpe de misericórdia de um espetáculo adorável que já vinha funcionando bem. O homem parece ter luz própria e sublinha a credibilidade do filme.

Demy, também roteirista, não se acomoda com sua ciranda amorosa e faz experimentações em diversos momentos. Faz um uso exuberante das cores que é evidente como inspiração de La La Land (2017). Coloca vários dos números musicais ao ar livre, começando pelo dos créditos de abertura, em uma balsa suspensa.

Em outra cena, Catherine Deneuve anda pelas calçadas da cidade, enquanto o mundo dança à sua volta, em um grande plano sequência em que ela atravessa ruas e dobra esquinas. E há a cena do jantar em que não há música, mas os diálogos são rimados. E Gene Kelly faz uma citação, com Françoise Dorléac, da coreografia que dançou à beira do Rio Sena em Sinfonia de Paris (1951).

Há outras citações no filme, como Deneuve e Dorléac evocando, no número apresentado na feira, Marilyn Monroe e Jane Russell em Os Homens Preferem as Louras (1953), de Howard Hawks. Aí e em outro momentos do filme sobrou charme.

DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS. Les Demoiselles de Rochefort. França, 1967. Direção: Jacques Demy. Elenco: Catherine Deneuve, Françoise Dorléac, George Chakiris, Gene Kelly, Jacques Perrin, Michel Piccoli, Danielle Darrieux.

Coluna Cinemascope (#22). Correio da Paraíba, 15/2/2017

SEVEN BRIDES FOR SEVEN BROTHERS

O discurso do personagem, o discurso do filme

por Renato Félix

A jornalista Tatiana Learth, uma amiga querida, confessou dia desses que assiste a um filme mais pela mensagem que “de um modo cinéfilo”. Então, os temas e como ele são tratados pelo filme são os pontos de interesse dela. Por outro lado, já ouvi pessoas reclamando da ética de alguns filmes por causa do discurso de um personagem (de machismo, racismo ou o que for).

Aí, é preciso refletir e um pouco “de maneira cinéfila”: o discurso do personagem é o discurso do filme? Porque não necessariamente se trata da mesma coisa.

Por exemplo, meu colega Clóvis Roberto e eu há pouco conversávamos sobre Sete Noivas para Sete Irmãos (1954). Ora, os sete irmãos do filme são nitidamente machistas: são homens selvagens, criados sozinhos quase isolados da civilização. Esta civilização está representada na mulher, na primeira das sete noivas, Millie (Jane Powell). É ela que dá a eles um banho literal e outro de educação.

Mesmo assim, instigados pelo mais velho dos irmãos, que ouviu de Millie e reconta a seu modo a história do rapto das sabinas na Roma Antiga, eles sequestram as seis outras moças confiantes de que, com o tempo, como estão apaixonadas, acabarão aceitando e sendo felizes.

Quando chegam de volta, é Millie que os faz ver o quão errados estavam, expulsando-os de casa e refugiando-se lá dentro com as moças. Então, embora o discurso do protagonista Adam (Howard Keel) dizia que o sequestro e a conquista à força era a solução, ele não é endossado pelo filme.

Acontece o mesmo em diversos outros filmes. Por mais incômodo que uma fala assim seja, é preciso refletir se o filme está expondo para criticar esse discurso ou se está a favor.

FOTO: Sete Noivas para Sete Irmãos (1954)

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Coluna Cinemascope (#19). Correio da Paraíba, 25/1/2017

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O contexto ‘La La Land’

por Renato Félix

Na última vez que olhei, La La Land – Cantando Estações era o 27º filme de melhor média entre os usuários do IMDb. O 27º entre todos os filmes de todos os tempos.  Mesma média de O Silêncio dos Inocentes (1991), A Felicidade Não Se Compra (1946), Cidade de Deus (2002), Guerra nas Estrelas (1977) e Os Sete Samurais (1954).

No começo do mês, se tornou recordista isolado do Globo de Ouro, com sete prêmios. Ontem, se tornou recordista de indicações ao Oscar: 14 (empatado com A Malvada, 1950, e Titanic, 1997). No Rotten Tomatoes, que faz um levantamento das críticas nos EUA, são 93% de críticas positivas (283 favoráveis, 22 desfavoráveis).

É para tanto? É uma delícia de filme, sim, talvez até um cinco estrelas, mas essa aceitação já é algo para ser analisado além da qualidade do filme em si.

É esse mundo conservador-baixo astral, com reacionários dando cria como gremlins de banho tomado, que está nos fazendo necessitar que o cinema nos eleve – e La La Land é o filme certo na hora certa? É uma boa aposta. O escapismo (e o musical, em particular) foi ao auge na Grande Depressão americana. E a vitória de i no Oscar não tinha tudo a ver com o baixo-astral pós-Nixon, Watergate e Vietnã?

A isso pode contribuir o deserto de musicais no cinema. Certo, um ou outro aparecem, mas não no estilo da Hollywood clássica, tipo anos 1940/ 1950, aqueles com Fred Astaire, Gene Kelly, Judy Garland. Quando um filme abraçou o estilo com tanta disposição, sinceridade e sem cinismo, ele se tornou um representante daquele cinema maravilhoso, todo concentrado em um filme só. E parte do público reencontrou e outra simplesmente descobriu esse prazer.

É o contexto possível para o fenômeno La La Land.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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Coluna Cinemascope (#18). Correio da Paraíba, 18/1/2017

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“La La Land – Cantando Estações” (2016)

Gostar ou não de musicais

por Renato Félix

Enquanto escrevo, ainda não assisti a La La Land – Cantando Estações, filme mais comentado deste começo de ano e que, como tal, vai gerando tanto comentários elogiosos como outros nem tanto. E, sendo um musical, inevitavelmente surgem os “eu não gosto de musicais” e suas variações.

Eu, que adoro musicais, não vejo problema nisso, a não ser em algumas justificativas. “Ninguém sai cantando assim na vida real”, por exemplo. Não ouço reclamações assim em, digamos, filmes de super-heróis (“Ninguém sai voando na vida real”) ou com certos aspectos da linguagem do cinema em quase todos os filmes (“Não toca música de fundo em cenas românticas na vida real”).

Realidade, verossimilhança, não é a questão. Acho que uma das questões é o esquema narrativo particular de um musical, onde canções vão costurando a narrativa, integradas a ela ou as comentando. O que, na percepção de alguns, é uma “interrupção da história”.

A questão é o espectador se adaptar a uma forma diferente de contar a história. É mais fácil para uns que para outros. De  certa forma, um filme como Os Miseráveis (2012), que é praticamente todo cantado, como uma ópera, pode ser até mais fácil – desde que a cobaia o assista em condições de temperatura e pressão ideais: do começo ao fim, sem interrupções ou distrações, passando pela estranheza inicial para seu cérebro se ajustar que a realidade ali “é assim mesmo” e aceitá-la.

Importante também é gostar da música. Quem não gosta da grande música americana dos anos 1940 e 1950 pode achar difícil encarar um filme com Sinatra. Por outro lado, deve ser esse um dos fatores que leva tanta gente a gostar de um filme medíocre como Moulin Rouge (2001): com a trilha compilando o greatest hits de uma geração fica fácil.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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“Make’em laugh”, aquele número em que Donald O’Connor canta sobre como é ser um comediante e sai tropeçando, batendo a cara, dando cambalhotas e dançando com (e apanhando de) um boneco é um dos grandes número de Cantando na Chuva (1952). E é um plágio. A história é esta: o filme é uma reunião de canções de Arthur Freed e Nacio Herb Brown escritas nos anos 1920, produzido agora pelo próprio Freed. Stanley Donen, que co-dirigiu com Gene Kelly, sentiu falta de um número solo para O’Connor e pediu a Freed uma música nova, algo “no estilo de ‘Be a clown’, de Cole Porter”. Quando Freed trouxe a canção, as semelhanças estavam na cara. Porter aparentemente nunca reclamou e a cena é brilhante, para dizer o mínimo. No entanto, esta aqui é a canção original: “Be a clown”, cantada duas vezes em O Pirata (1948), a segunda delas no final do filme, um encantador número de palhaços com Gene e a magistral Judy Garland.

O Pirata. The Pirate (1948). Direção: Vincente Minnelli. Elenco: Judy Garland, Gene Kelly, Walter Slezak, Gladys Cooper.

Cena anterior: Footloose – Ritmo Louco

Se alguém achou que o diretor-roteirista de Whiplash entende de música, ele foi mais longe: o novo filme de Damien Chazelle é o musical La La Land, que abriu o Festival de Veneza esta semana e foi aplaudido de pé na exibição para a imprensa. É o romance entre um pianista de jazz (Ryan Gosling) e uma aspirante a atriz (Emma Stone) em Los Angeles. Ainda sem data de estreia no Brasil (nos EUA, entra em cartaz no dia 16 de dezembro).

“You like potato, I like ‘potahto’/ You like tomato and I like ‘tomahto’”

George Gershwin notou que Fred Astaire e Ginger Rogers pronunciavam as palavras de maneira diferente. E criou para eles esta obra-prima chamada “Let’s call the whole thing off” para o sétimo dos 10 filmes de Fred e Ginger juntos. E a dupla dança sobre patins!

Vamos Dançar? Shall We Dance. Estados Unidos, 1937. Direção: Mark Sandrich. Elenco: Fred Astaire, Ginger Rogers, Edward Everett Horton.

Cena anterior: Onde Começa o Inferno

Liza Minnelli puxou a mãe, Judy Garland, em talento (em problemas também, mas isso é outra história). Infelizmente, ela apareceu para o cinema quando os grandes musicais já tinham saído de cena. Mas ainda deu tempo deu tempo de um trabalho para marcar época: Cabaret (1972), de Bob Fosse, pelo qual ganhou o Oscar de melhor atriz.

A coisa com a que mais discordo no Globo de Ouro é essa separação entre “drama” e “musical ou comédia”. A separação em “drama” e “comédia” por si só pode ter o pretexto de dar mais visibilidade à comédia, sempre preterida pelo drama nessa premiações (por exemplo, sabe qual foi a última comédia a ganhar o Oscar de melhor filme? E o melhor ator em uma comédia? E a melhor atriz? Pensa aí).

Porém, o que essa separação realmente faz é criar um gueto para a comédia. Repare como o “grande vencedor” do Globo é sempre o que ganha na categoria “drama”. A comédia fica sendo como uma segunda divisão, menos importante.

Pior é colocar “musical ou comédia”. Por que os musicais deveriam concorrer com as comédias? Se há uma sepração entre “drama” e “comédia”, por que Os Miseráveis, um musical dramático, deve disputar um prêmio de melhor filme com Moonrise Kingdom, uma comédia? O resultado: Os Miseráveis ganhou, fazendo com que dois dramas (e nenhuma comédia) tenham sido premiados como melhor filme no Globo de Ouro do ano passado.

O que mostra, de novo, que a comédia é desprezada.

Isto posto, vamos conhecer os cinco indicados a melhor filme/ musical ou comédia no Globo de Ouro 2015 (lista completa no IMDb):

Globo de Ouro - filme comédia

FILME/ MUSICAL OU COMÉDIA: Birdman; O Grande Hotel Budapeste; Um Santo Vizinho; Caminhos da Floresta; Pride.

Birdman, do espanhol Alejandro González-Iñarritú, tem Michael Keaton como um ator famoso por interpretar um super-herói e desistiu de voltar para um quarto filme para se reinventar dirigindo uma peça na Broadway. O filme gira em torno da acidentada noite de estreia, onde ele deve lidar com seu passado, sua filha, um ator difícil, um crítico do New York Times. O filme tira proveito da metalinguagem, afinal todo mundo lembra que Michael Keaton foi o Batman nos dois filmes de Tim Burton em 1989 e 1992 e sua carreira não demorou a desandar depois disso. Indicado também a melhor direção, ator/ musical ou comédia (Keaton), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Emma Watson), roteiro (Iñarrituú, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo) e trilha sonora original (Antonio Sanchez). Estreia no Brasil: 22 de janeiro.

O Grande Hotel Budapeste é a nova joia de Wes Anderson. O filme se passa numa Europa imaginária, em um hotel no entre-guerras, onde o conciérge (Ralph Fiennes) e seu novo boy (Tony Revolori) se veem às voltas com uma pintura renascentista roubada e a fortuna de uma família em jogo. Tem todas as qualidades dos melhores filmes de Anderson: seus planos muito particulares e simetricamente rigorosos, aquela mistura de comédia maluca e atmosfera de contos-de-fadas e um elenco impressionante (Willem Dafoe, Saoirse Ronan, Harvey Keitel, Edward Norton, Jude Lawm Bill Murray, Tilda Swinton, Léa Seydoux…). Indicado também a direção, ator/ musical ou comédia (Fiennes) e roteiro (Anderson). Estreou no Brasil em julho, mas vergonhosamente para os exibidores locais não entrou em cartaz em João Pessoa.

Um Santo Vizinho é a estreia na direção de longas de Theorore Melfi, com Bill Murray no papel principal. Fala da amizade de um garoto de 12 anos cujos pais acabaram de se separar com o vizinho do lado: um misantropo e hedonista veterano da Guerra do Vietnã. O elenco ainda tem Melissa McCarthy, Naomi Watts e Rafinha Bastos. Ok, não é o Rafinha Bastos, mas o padre-professor do trailer parece muito com ele! Indicado também a ator/ musical ou comédia. Estreia no Brasil prevista só para 5 de fevereiro.

Caminhos da Floresta é de Rob Marshall (de Chicago, 2003), baseado no musical de Stephen Sondheim, que estreou na Broadway em 1987. Um padeiro e sua esposa, sem filhos e amaldiçoados por uma bruxa, precisam procurar ítens mágicos dos contos-de-fadas. E aí encontram Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, João (do pé de feijão) e outros dos irmãos Grimm. Meryl Streep é a bruxa, Emily Blunt é a esposa do padeiro, Anna Kendrick é Cinderela, Johnny Depp é o Lobo Mau.  Indicado também a atriz/ musical ou comédia (Emily) e atriz coadjuvante (Meryl). Estreia no Brasil em 29 de janeiro.

Pride, de Matthew Warchus. A história de um grupo de ativistas gays que apoiam os mineiros na greve em que enfrentaram o governo de Margaret Thatcher na Inglaterra de 1984 – com os mineiros ficando bem relutantes em receber tal apoio. Bill Nighy e Imelda Staunton estão no elenco. Ainda sem estreia prevista no Brasil.

 

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As vantagens da imperfeição

Hugh Jackman e Anne Hathaway: soluços entre o canto

Hugh Jackman e Anne Hathaway: soluços entre o canto

Por incrível que pareça, talvez seja mais facil alguém que não goste de musicais sair satisfeito do esplendoroso Os Miseráveis (Les Misérables, Reino Unido, 2012) do que do modelo que Hollywood tornou clássico. Em um filme como, digamos, Sinfonia de Paris (1951), os opositores do gênero podem sentir “solavancos” narrativos quando 0 filme passa do dialogo à música e vice versa e não aceitar bem a convivência entre cenas “realistas” e números musicais. Um formato de ópera, como em Os Miseráveis causa uma estranheza nesse publico logo de saída, mas, todo cantado, é capaz de convencê-lo a aceitar essa opção narrativa como “a” realidade proposta pelo filme e se deixar envolver por ela.

Já quem gosta de musicais vai encontrar um dos melhores exemplares do gênero das últimas décadas. O diretor Tom Hooper já tinha definido um estilo visual particular para O Discurso do Rei (2010) e 0 faz de novo em Os Miseráveis. Os principais numeros musicais são filmados em close e em plano-sequência – 0 principal caso é 0 do número “I dreamed I dream”, que rendeu 0 Oscar de coadjuvante para Anne Hathaway. 4 minutos e 41 segundos que valem ouro para um ator.

Como se sabe, Hooper optou por uma estratégia arriscada: não fazer seu elenco gravar as canções antes para, em frente às câmeras, dublá-las, como sempre se faz nos musicais desde que o cinema passou a ser sonoro; ele decidiu fazê-los cantar no set. Com isso, preferiu perder a perfeição técnica do canto em prol de uma emoção mais genuína que ressaltasse a muito dramática história clássica de Vitor Hugo. O resultado são cenas intensas, da combinação da atuação em cima do lance e a orquestração adicionada depois, já se moldando à interpretação dos atores.

No caso, os atores usavam pontos em que ouviam apenas um piano fora de estúdio que servia de guia para que não saíssem do tom. E muitos de seus movimentos também foram improvisados – o primeiro solo de Jean Valjean foi filmado com uma steadicam que seguia o ator Hugh Jackman. Na cena, Valjean acaba de se livrar de voltar para a cadeia por um padre a quem ele tinha roubado, mas que, por misericórdia, negou o roubo aos policiais que o prenderam. Valjean havia passado anos na cadeia por roubar um pão para sua irmã. A partir do solo, onde faz uma dolorida reflexão sobre sua vida, decide recomeçar a vida sob outra identidade. Anos mais tarde, envolve-se com o drama de Fantine, pobre trabahadora empurrada para a prostituição, tendo no encalço o policial Javert (Russell Crowe), para quem Valjean é apenas um criminoso fugitivo.

A ambientação, o passo atrás dado pela França após a Revolução Francesa, é riquíssima, e a expectativa de uma nova revolução está no ar. O drama pessoal de Jean Valjean caminha ao lado da vibração política de jovens estudantes conspirando e aguardando o apoio dos cidadãos parisienses quando o combate começar. Números como “Do you hear the people sing” e “One day more!” (este, lembrando o antológico “Quintet” de Amor, Estranho Amor, de 1961) são muito eloquentes.

A “imperfeição” do canto joga a favor do filme, com a multicelebrada Anne Hathaway ganhando fácil o Oscar (estando na tela por meros 15 minutos), Hugh Jackman na possivelmente melhor interpretação de sua carreira e revelando Elizabeth Barks (ótima como Eponine, seu papel de estreia no cinema, mas que ela interpretou nos palcos) – os três soluçando entre os versos de seus solos. Russell Crowe foi criticado: mas está apenas em um outro registro, eficiente como contraponto ao tom mais operístico dos demais protagonistas. Entre estes, se incluem Amanda Seyfried e Isabelle Allen, como, respectivamente Cosette adulta e criança. Eddie redmayne tem um momento ótio em “Empty chairs at empty tables” e em “Red and black”, em dueto/ duelo com Aaron Tveit. Helena Bonham-Carter e Sacha Baron Cohen respondem pelos momentos mais cômicos, como o casal de estajadeiros que cria (e explora) Cosette.

Ajuda muito, claro, o score de Claude-Michel Schonberg, Alain Boublil and Herbert Kretzmer ser excelente. Uma grande musica é 0 ponto de partida para um grande filme musical. Nos adaptações recentes dos musicais de palco para o cinema, há cada vez mais música. Este, que é todo música, tem mais história que qualquer um deles.

Os Miseráveis. Les Misérables. Reino Unido, 2012. Direção: Tom Hooper. Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Daniel Huttlestone, Isabelle Allen.

Ivy (Megan Hilty) cantando “Second hand white baby grand”, em “Smash”

Ontem revi o 12º episódio de Smash no Universal Channel. A reta final da primeira temporada da série é excelente, mas um momento em particular chegou ao sublime, para mim – e ontem assisti o episódio mais uma vez só para vê-lo de novo. É “Second hand white baby grand”, o número musical que encerra o episódio.

A música é uma memória de Marilyn Monroe sobre sua mãe (contexto, para quem não assiste: Smash é sobre os bastidores da criação de um musical da Broadway sobre a vida de Marilyn, e a disputa de duas atrizes pelo papel principal). Não vou entrar em muitos detalhes da trama, mas basta saber que essa música vai ser ensaiada completa pela primeira vez e uma das protagonistas, Karen (Katharine McPhee) é escalada para isso – e, no processo de aprendizado da música, foi muito elogiada por todos.

No entanto, no dia do ensaio, ela é enganada por sua concorrente, Ivy (Megan Hilty) que no momento está apenas no coro. Nesse momento da série, Ivy já havia sido a Marilyn escolhida, mas havia caído em desgraça: foi substituída por uma atriz famosa e entrou em crise. Seria sua chance de virar uma estrela, mas acabou tendo que voltar para o coro do musical onde trabalhava antes. Para piorar, entra em cena bêbada, arruina a apresentação do dia e é demitida.

Na pior, acaba tendo uma chance de voltar a Bombshell, o espetáculo retratado em Smash – mas no coro. Só que, com a artimanha para afastar Karen, acaba ganhando a chance de interpretar a canção neste ensaio.

A cena está neste link (só a encontrei numa espécie de youtube chinês).

(ATUALIZAÇÃO: estamos em 2013 e finalmente achei o número no youtube. Segue abaixo)

Na música o “Second hand white baby grand” é um piano de segunda mão e quebrado que a mãe de Marilyn teria comprado de um astro do cinema mudo (ao menos, na canção). E o refrão diz que algo de segunda mão e quebrado ainda pode emitir um belo som ou, em geral, ter algo de bom para dar (leia a letra aqui).

Não é desconhecida a difícil história de Marilyn com sua mãe, Gladys, emocionalmente instável (para dizer o mínimo). Ela abandonou a filha ainda criança, e Marilyn (ainda Norma Jeane Baker) acabou passando boa parte da infância sendo criada por outras famílias (o pai dela até hoje não se sabe 100% quem é) e chegou a ficar sob a guarda do Estado e parar em um orfanato.

Durante esse tempo, ela chegou a viver alguns meses  com a mãe, que reapareceu dizendo que havia encontrado um lar – mas acabou se mostrando incapaz de cuidar da filha. É dessas idas e vindas que fala a canção, talvez comparando o piano à mãe de Marilyn – mas certamente falando da própria Marilyn, que passou o resto da vida se achando rejeitada por causa da infância infeliz e cometendo seus próprios erros.

Isso já é um grande lance da música (de Marc Shaiman e Scott Wittman, como as demais da série), mas há ainda uma quarta camada de significação da música: ela fala, naquele momento, da própria Ivy.

Após anos trabalhando duro como corista da Broadway, inegavelmente muito talentosa e depois de ser escolhida para o papel principal, ela é substituída, considerada instável e consegue este momento através de uma atitude muito sacana. E, com tudo isso, a cena é emocionante a ponto de bagunçar nossas racionalidades! Ela aí também é um ‘piano quebrado de segunda mão’ mostrando que ainda pode ter algo de bom para dar – e perceber isso dá ao número uma força muito maior.

E há a maneira como o número é apresentado para nós, espectadores de casa. O normal, em Smash, nesses números que são apresentados nas cenas de ensaio, é a série “imaginar” como seria o número pronto, no palco. Então, começa com os atores com roupas de ensaio e caixotes no lugar dos adereços de cena e, em algum momento, eles aparecem com o figurino, a atriz caracterizada de Marilyn, iluminação.

Em “Second hand white baby grand”, essa “muleta” nem é usada. O foco é mesmo Ivy e, tirando as cenas mostrando outros personagens em sua intimidade, basta ela em cima de seu caixote, com sua roupa simples e o olhar embevecido de sua audiência no momento, os colegas e chefes.

A série não diz se eles sabem que ela está cantando sobre si mesma. E nem mesmo se a própria Ivy sabe. Eu gosto de pensar, pela expressão de Megan Hilty perto do fim, que ela vai se dando conta disso no decorrer do número.

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