You are currently browsing the tag archive for the ‘Nostalgia’ tag.

Uma maravilhosa arte em extinção, os créditos de abertura dos filmes ganharam muito em charme nos anos 1950 e 1960. Deixaram de ser unicamente cartelas com o nome do elenco e da equipe e se tornaram uma peça artística em particular dentro do filme.

Hoje em dia, nessa era apressada, os filmes empurram os créditos para o fim e às vezes o filme não tem nem título no começo, quanto mais créditos.

Enfim, começo por um dos mais emblemáticos: A Pantera Cor-de-Rosa (1963), de Blake Edwards. Muita gente conhece a pantera da série animada, sem se dar conta de que ela não surgiu ali, mas na abertura do filme homônimo (que era uma comédia de Blake Edwards sobre o roubo de um diamante chamado “pantera cor-de-rosa”).

A animação é da De Patie-Freleng, onde o “Freleng” diz respeito a Friz Freleng, célebre animador do Pernalonga em tempos anteriores na Warner Bros. Com a música-tema de Henry Mancini, o sucesso foi tão grande que a Pantera começou a estrelar curtas de animação no ano seguinte e voltou nas aberturas de outros oito filmes da série.

Liza Minnelli puxou a mãe, Judy Garland, em talento (em problemas também, mas isso é outra história). Infelizmente, ela apareceu para o cinema quando os grandes musicais já tinham saído de cena. Mas ainda deu tempo deu tempo de um trabalho para marcar época: Cabaret (1972), de Bob Fosse, pelo qual ganhou o Oscar de melhor atriz.

Bons tempos em que trilha de comercial era “Carinhoso”.

A lendária atriz sueca teria completado 100 anos sábado. Ela começou a carreira na Suécia, depois virou estrela em Hollywood, mas não ficou sentada nisso. Sempre perseguiu os bons papéis e os desafios, o que a levou a querer filmar com Rossellini, o papa do neorealismo na Itália. Aí, veio a paixão e ela trocou o marido dentista pelo cineasta italiano, o que levou à ira da turma da moral e dos bons costumes nos EUA.

Depois que a relação acabou (tendo, dela, nascido a futura – lindíssima – atriz Isabella Rossellini), Hollywood recebeu Ingrid de volta de braços abertos. Na maturidade, voltou à Suécia para um encontro de titãs do país com Ingmar Bergman, que não é seu parente. Vencedora de três Oscars, Ingrid morreu em 1982. Aqui estão seus dez grandes momentos, pra mim.

Ingrid Bergman - Indiscreta

“Indiscreta” (1955)

10. INDISCRETA (1958), de Stanley Donen

No segundo encontro com Cary Grant, Ingrid estrela uma comédia-romãntica do co-diretor de Cantando na Chuva. Seus papéis mais famosos eram sempre dramáticos, então é ótimo vê-la mostrando talento em algo mais leve. Já Cary Grant era um especialista no ramo. No filme, Ingrid começa um relacionamento com ele, mas descobre que ele mentia, e, enfurecida, quer vingança.

Ingrid Bergman - Joana d'Arc-02

“Joana d’Arc” (1948)

9. JOANA D’ARC (1948), de Victor Fleming

Com o diretor de …E o Vento Levou (1939) e O Mágico de Oz (1939), ela se arriscou aos 33 anos a viver a adolescente francesa que chegou a liderar o exército do país contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos, guiada, segundo ela, por Deus, e morrendo na fogueira após ser presa. Foi sua quarta indicação ao Oscar.

“Assassinato no Expresso Oriente” (1974)

8. ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (1974), de Sidney Lumet

Num elenco cheio de estrelas, Ingrid teve papel de destaque como uma das passageiras do trem onde ocorre o crime investigado por Hercule Poirot, nesta adaptação do livro mais clássico de Agatha Christie. Tanto que ela ganhou o Oscar de atriz coadjuvante, sua terceira estatueta.

Por Quem os Sinos Dobram-06

“Por Quem os Sinos Dobram” (1943)

7. POR QUEM OS SINOS DOBRAM? (1943), de Sam Wood

Depois da heroína romântica de Casablanca, Ingrid mostrou que não ia ficar surfando em um registro apenas. Cortou os cabelos para viver a moça que teve os pais mortos por franquistas na trama de Ernest Hemingway que se passa durante a Guerra Civil Espanhola. Foi sua primeira indicação ao Oscar.

“Anastácia, a Princesa Esquecida” (1956)

6. ANASTÁCIA, A PRINCESA ESQUECIDA (1956), de Anatole Litvak

O filme marcou a volta de Ingrid aos Estados Unidos, após os anos na Itália. A recepção não poderia ser melhor: um papel que deu a ela seu segundo Oscar de melhor atriz. Ela interpreta a mulher com amnésia que é treinada para se passar pela princesa que teria escapado do massacre dos Romanov durante a revolução russa.

“Sonata de Outono” (1978)

5. SONATA DE OUTONO (1978), de Ingmar Bergman

Na maturidade, Ingrid voltou à sua Suécia natal para atuar em um drama do maior cineasta do país, e com o mesmo sobrenome (embora não fossem parentes). Ela interpreta a pianista famosa, uma mãe dura com uma relação dificílima com a filha vivida por Liv Ullman. Foi sua sétima e última indicação ao Oscar.

“À Meia-Luz” (1944)

4. À MEIA-LUZ (1944), de George Cukor

Ingrid é a moça frágil enredada em uma trama na qual o marido (antes gentil, depois cada vez mais sinistro) faz de tudo para que ela enlouqueça. Primeiro Oscar da atriz, que está estupenda como a mulher que vai gradativamente perdendo o controle sobre si mesma. A história inspirou a trama de Daniel Filho e Renata Sorrah em Rainha da Sucata, lembram?

“Stromboli” (1950)

3. STROMBOLI (1950), de Roberto Rossellini

Encantada com neo-realismo italiano, Ingrid resolveu tomar parte daquilo. Se ofereceu para filmar com o diretor e o resultado foi Stromboli, o encontro do neo-realismo com uma superestrela de Hollywood. Ela é a mulher que se casa com um pescador e vai morar nessa vila, Stromboli, sempre ameaçada por um vulcão. Ingrid faria outros cinco filmes com Rossellini.

“Interlúdio” (1946)

2. INTERLÚDIO (1946), de Alfred Hitchcock

Segundo dos três filmes que fez com Hitchcock, ela é obrigada a espionar para os americanos um grupo nazista no Rio de Janeiro. E, para isso, é levada até a casar com o chefe deles. Suspense, espionagem, romantismo em um Rio de back projection e um dos mais notáveis beijos do cinema.

Antes do primeiro lugar, algumas menções honrosas: Intermezzo – Uma História de Amor (1939); O Médico e o Monstro (1941); Quando Fala o Coração (1945); Os Sinos de Santa Maria (1945); Europa 51 (1952); Romance na Itália (1954); Flor de Cacto (1969).

“Casablanca” (1942)

1. CASABLANCA (1942), de Michael Curtiz

Ingrid é Ilsa Lundl, que aparece no Rick’s Cafe Americaine, em Casablanca, no Marrocos, e transforma a vida do dono do bar, Rick (Humphrey Bogart) num inferno. Eles viviam um romance em Paris, bem quando os nazistas invadiram, mas na hora da fuga ela deu o cano e ele nunca se recuperou. E quem vai censurá-lo? Ilsa tem sua justificativa: era casada com um líder da resistência, achava que tinha ficado viúva e, de repente, fica sabendo que o marido estava vivo. Além do compromisso de esposa, se fez valer o compromisso com a causa. Agora, estão todos em Casablanca, ela e o marido tentando chegar a salvo na América e Rick de posse dos salvo-condutos que podem viabilizar isso. Conta-se que, como o roteiro era escrito e reescrito o tempo todo, Ingrid não sabia com quem iria terminar ou por quem deveria estar apaixonada. O que ajudou a compor sua personagem dividida neste clássico imortal. Imortal como a atriz.

Baba Quase Perfeita

Em grande fase na carreira, há 20 anos Robin Williams estrelava Uma Babá Quase Perfeita. Na comédia de Chris Columbus, o comediante teve mais uma oportunidade de usar vozes e combinar humor e sentimentalismo, o que ele já vinha fazendo em Bom Dia, Vietnã (1987), As Aventuras do Barão Munchausen (1988), Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Tempo de Despertar (1991), O Pescador de Ilusões (1991) e Aladdin (1992).

Pode ser por causa do contexto, pode ser isoladamente, pode ser por causa da montagem ou da construção do plano. O cinema nos deu filmes maravilhosos e, dentro deles, cenas maravilhosas. Mas também segundos maravilhosos, momentos dentro da construção de uma cena que parecem justificar tudo. E, afinal, a vida é feita de segundos.

Magico de Oz

Judy Garland abrindo a porta e o preto-e-branco se tornando colorido em O Mágico de Oz (1939). Veja aqui (aos 3min57)

Luzes da Cidade-02

A florista, outrora cega, segurando a mão do vagabundo e reconhecendo pelo tato aquele que ela sempre achou que era rico, em Luzes da Cidade (1931). Veja aqui (aos 2min).

Noite Americana

O diretor vivido por Truffaut ouvindo ao telefone a música de amor que George Delerues compôs para Quero apresentar Pamela e desembrulhando o pacote de livros de cinema que recebeu, com livros sobre Hitchcock, Godard e outros em A Noite Americana (1973). Veja aqui.

Spartacus

Jean Simmons erguendo o bebê para mostrá-lo ao crucificado Kirk Douglas, como símbolo de uma vitória pela liberdade apesar de tudo no final de Spartacus (1960). veja aqui.

ET

O exato momento em que as bicicletas levantam voo em meio aos carros de polícia em E.T., o Extraterrestre (1982). Veja aqui.

Bonequinha de Luxo

Audrey se despedindo do marido peça janela do ônibus e dizendo “Entenda, Doc. Eu te amo, mas não sou mais Lula Mae” (e “Moon river” ao fundo, claro), em Bonequinha de Luxo (1961). Veja aqui (aos 2min42).

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Corisco pulando para trás e a edição glauberiana cortando pra ele à direita, à esquerda, à direita, à esquerda em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Veja aqui (a 1min07).

Janela Indiscreta

A entrada em cena de Grace Kelly em Janela Indiscreta (1954). Veja aqui.

Ritmo Louco-02

Ginger Rogers e Fred Astaire sobem dançando a longa escada e rodopiam inúmeras vezes no clímax do número musical mais dramático de Ritmo Louco (1935). Veja aqui (aos 5min50).

Cinderela-02

Cinderela reproduzida em incontáveis bolhas de sabão enquanto esfrega o chão em Cinderela (1950). Veja aqui.

Noites de Cabiria

Depois de tudo o que aconteceu, Cabiria, cercada por jovens festeiros, volta a sorrir no último plano de Noites de Cabiria (1957). Veja aqui (em 2min15).

Quanto Mais Quente Melhor-02

Marilyn Monroe passa pelos travestidos Jack Lemmon e Tony Curtis na plataforma da estação e o trem sopra atrevidamente o vapor em sua bunda – que é, claro, de onde os dois não tiram os olhos em Quanto Mais Quente Melhor (1959). Veja aqui.

Cinema Paradiso

A pequena imagem do filme projetado percorrendo a parede até aparecer gigante em uma fachada do lado de fora do cinema, em Cinema Paradiso (1989). Veja aqui.

Manhattan

Mariel Hemingway dizendo “Nem todo mundo se corrompe” para Woody Allen no final de Manhattan (1979). Veja aqui.

the beatles she loves you1

Há 50 anos, em 1963, “She loves you” chegava ao primeiro lugar das paradas britânicas. Continua sendo o single mais vendido dos Beatles no Reino Unido e, segundo John Lennon, foi ideia de Paul McCartney mudar o habitual “I love you” para o então pouco usual “she loves you”, uma canção na terceira pessoa. os Beatles gravaram uma versão em alemão (“Sie liebt dich”) e o “yeah-yeah-yeah” do refrão batizou de certa maneira aquela aurora do rock (o primeiro filme do grupo, em 1964, A Hard Day’s Night, não por acaso chamou-se aqui Os Reis do Iê-Iê-Iê).

Que eu me lembre, a palavra “brega” não era tão disseminada no vocabulário nacional até que essa novela das sete entrou no ar. Brega & Chique (1987) mostrava uma divertida e bem sacada inversão, ao fazer a ricaça vivida por Marília Pêra perder a fortuna (e a pose) e a mulher de subúrbio Glória Menezes virar uma nova-rica. Muita risada garantida, com um elenco que ainda tinha Marco Nanini antes da TV Pirata e, por tabela, da associação com o núcleo Guel Arraes. A abertura alterna mulheres em versões brega e chique de um jeito que a gente nem sabe bem onde começa um e termina o outro (ainda mais se tratando dos divertidos anos 1980). A edição ágil e algo sexy ganham pontos, assim como a música antológica do Ultraje a Rigor. A abertura teve problemas de censura – em boa parte da novela havia uma impagável folhinha de parreira que o politicamente correto fez a Globo incluir para encobrir a bunda do cidadão, no final. E lembram da Doris Giesse? Ela está entre as moças que aparecem.
Sem borda - 04 estrelas

Elas por Elas <<
>> Pedra sobre Pedra

 

elas-por-elas-02

O reencontro de antigas amigas de colégio era o mote de Elas por Elas (1982). A abertura muito bacana se passa nos anos 1950, em preto-e-branco, numa festa da juventude das personagens (lembra a da minissérie Anos Dourados, que é posterior). Ao som da ótima música-tema dos Fevers, elas vão emergindo maduras das imagens congeladas e transformadas em fotografias: Aracy Balabanian, Ester Góes, a linda Sandra Bréa, Mila Moreira, Eva Wilma e Maria Helena Dias. Os detalhes das cenas da festa (como a cara de desaprovação de duas velhotas para toda aquela agitação) enriquecem a peça.

stars-blue-4-0½

A Viagem <<
>> Brega & Chique

max steiner

O compositor austríaco Max Steiner nasceu em 1888, há 125 anos. Steiner é um dos maiores autores de trilha sonora da era de ouro de Hollywood, tendo estudado na juventude com Brahms e Robert Fuchs. Seu trabalho em King Kong (1933) meio que definiu o funcionamento da trilha sonora para o cinema. Ele compôs mais de 300 trilhas e foi indicado ao Oscar 24 vezes. Ganhou três: O Informante (1935), A Estranha Passageira (1942) e Desde que Partiste (1944). Mas sua grande trilha, é claro, é a de …E o Vento Levou (1939). Seus acordes poderosos eram sua marca maior e outras trilhas memoráveis são as de Casablanca (1942) e Rastros de Ódio (1956), entre outras.

Muito Barulho por Nada

Uma das melhores adaptações de Shakespeare para o cinema, Muito Barulho por Nada estreou em 1993, há 20 anos. Kenneth Branagh, diretor e ator do filme, tirou a comédia do confinamento dos quartos e salas designados pelo bardo para colocar a história sob o sol da Toscana italiana, em belíssimas cenas externas. Equilibrou monólogos sem corte com humor rasgado e sensualidade e tirou proveito da ótima partitura de Patrick Doyle (a sequência dos créditos iniciais é arrebatadora). E contou com um elenco quase todo sublime, entre veteranos de sua companhia teatral shakespeareana e britânica, uma grande contribuição americana de Denzel Washington e a sensacional Emma Thompson (musa retroativa número 1 de 1993). Difícil não sair do filme com um sorriso no rosto.

Kate Pierson-02

Se nos anos 1980 “as garotas só queriam se divertir”, como diz a canção da Cyndi Lauper, nenhuma parecia se divertir mais do que a americana Kate Pierson, uma das vocalistas da banda The B-52’s. Ela nasceu em 1948, está completando 65 anos hoje! Kate continua na ativa com o grupo, que retomou os trabalhos e até esteve no Brasil recentemente. Kate é tão bacana que de vez em quando ela é convidada para alguma participação especial: como em “Shiny happy people”, com o REM, e “Candy”, dueto com Iggy Pop. Ela toca guitarra, baixo e teclado e está trabalhando num álbum solo.

Meu Amigo Totoro

Hayao Miyazaki é um gênio da animação japonesa e um de seus trabalhos mais marcantes, Meu Amigo Totoro, foi lançado em 1988, há 25 anos. A história das duas filhas de um professor, no Japão do anos 1950, que fazem amizade com espíritos da floresta possui o quociente de ternura e beleza que seriam as marcas consagradas de Miyzazaki, um gênio da animação japonesa – admirado, entre outros pelo pessoa da Pixar.

stars-blue-4-0

Livros sobre o oceano

Anne Bancroft, como Helene Hanff: o presente de aniversário rendeu um Bafta de melhor atriz

Anne Bancroft, como Helene Hanff: o presente de aniversário rendeu um Bafta de melhor atriz

Fazer um filme ancorado uns 90% em trocas de cartas não deve ser fácil. É o que acontece em Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (84 Charing Cross Road, Reino Unido/ Estados Unidos, 1987) – aliás, um dos piores títulos nacionais já vistos num cartaz de cinema ou home video (por ser o que hoje chama-se de spoiler e, ao mesmo tempo, induzir o espectador numa direção no mínimo questionável). Enfim, o filme é sobre a troca de correspondências entre uma atrevida aspirante a escritora nova-iorquina e um fleumático gerente de livraria londrina.

Ela procura edições antigas de livros que não encontra em Nova York – e por um precinho razoável. Ele manda os livros e a troca de cartas e pacotes se desenvolve em uma amizade que atravessa os anos e envolve aqueles à volta dos dois. O filme contorna o que poderia ser um festival de cenas de gente escrevendo e lendo (e há muitas) com as situações cotidianas dos personagens. Muitas vezes, há uma dupla narrativa: o que se conta nas cartas é uma coisa e o que se vê na tela é outra, sem uma relação imediata.

Outro recurso interessante é o uso da câmera como interlocutor. Mais interessante ainda é como esse uso aparece em uma progressão. Durante quase todo o filme, só Helene (Anne Bancroft, que ganhou do marido Mel Brooks os direitos de filmagem do livro de presente de aniversário – e levou o Bafta de melhor atriz) tem o direito de olhar para a tela e falar com ela como se falasse com Fred (Anthony Hopkins), seu correspondente.

É um mecanismo curioso, que não “substitui” a carta sendo escrita. Começa aparecendo como uma ou outra frase no final de uma carta – como se sublinhasse um recado especifico de Helene para Fred. Há um outro momento em que a leitura da carta de Helene para Fred está em off, enquanto ela cuida de um bebê – mas em um momento muito específico do áudio, ela dá uma olhadela para a câmera, um curioso momento em que as duas narrativas se cruzam.

Só perto do final, há uma sequência em que Helene e Fred dialogam pela mágica da montagem. É quando o filme concede a ele, também, o “direito” de falar para a câmera. E aí, os dois falando “ao vivo” suas cartas e intercalando comentários, o espectador tem o gostinho de ver os dois conversando – coisa que a distância e um oceano no meio tem impedido.

A história começa nos anos 1940, com a Inglaterra ainda passando privações após a II Guerra, e vai até o fim dos anos 1960, e a turbulência da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Através destes anos, fala-se muito de literatura e da vida cotidiana. Os créditos finais mostram que é uma história real, elemento de que o filme não faz alarde. O livro de Helene Hanff virou uma peça e, daí, o roteiro de Hugh Whitemore.

Será amor a forte ligação entre Helene Hanff e Fred? Bom, o filme não avança sobre isso e não há traço de qualquer arroubo romântico do qual o título nacional tenta nos convencer (“criatividade” motivada, certamente, pelo intraduzível título original, que é o endereço da livraria em Londres).

Não se fala abertamente em amor e Fred (com toda sua fleuma britânica – ou o que os americanos esperam dos britânicos, sem esquecer que o ponto de vista do filme é o de Helene) até parece feliz no casamento – sua esposa é vivida por Judi Dench. O filme parece tomar a posição de deixar que o espectador tire suas próprias conclusões – quem quiser ver amor, verá; quem quiser ver “apenas” uma grande amizade transcontinental, também o verá.

O “apenas” vai entre aspas porque uma grande amizade não será nunca um “apenas”. E isso justifica também essa visão do filme.

Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (84 Charing Cross Road, Reino Unido/ Estados Unidos, 1987). Direção: David Hugh Jones. Elenco: Anne Bancroft, Anthony Hopkins, Judi Dench, Jean De Baer, Eleanor David, Mercedes Ruehl.

Flashdance2_001Pyxurz

“What a feeling! Bein’s believing! I can have it all, now I’m dancing for my life!”. Uma das mais empolgante canções já feitas, “Flashdance… What a feeling” é a grande arma de Flashdance – Em Ritmo de Embalo, filme que foi lançado há 30 anos, em 1983. Dirigido por Adrian Lyne, com uma estética publicitária que ele repetiria em 9½  Semanas de Amor (1986), e uma dança totalmente construída na montagem, à base de dublês de corpos e especialistas para cada parte mais difícil (o break, o salto sobre a câmera, etc). A história da soldadora que quer ser bailarina, mas até lá usa o talento em uma boate em danças sensuais, é banal. Mas, enfim, tem a música – essa, sim, um clássico imortal.

don-adams-ca01

Don Adams, o eterno Agente 86, nasceu em 1923, há 90 anos. De comediante stand-up nos anos 1950, ele só chegou aos  pequenos papéis na TV na década seguinte. Mas, aí, rapidamente emplacou o papel principal que definiria sua carreira: Maxwell Smart na antológica Agente 86, que durou cinco temporadas (de 1965 a 1970) e passou da TV preto-e-branco para a colorida. Ele voltaria ao personagem em um filme (A Bomba que Desnuda, 1980), um telefilme (Agente 86… De Novo?!, 1989) e a retomada da série em 1995, que durou só sete episódios. Ele ganhou três Emmys consecutivos pelo papel de Maxwell Smart (de 1967 a 1969). Ele também foi dublador: é dele a voz do Inspetor Bugiganga (1983-1986)!

Ann-Miller-d0c77

A segunda maior sapateadora da história dos musicais, Ann Miller completa 90 anos hoje. A dançarina texana fez pequenos papéis na RKO e na Columbia até a MGM escalá-la para Desfile de Páscoa (1948). Ganhou um número só dela (“Shakin’ the blues away”) e arrasou. Emendou outra grande participação de Um Dia em Nova York (1949). Seu terceiro grande filme é Dá-me um Beijo (1953). Depois que a época dos grandes musicais passou, ela faz TV e Broadway. Sua última grande aparição foi como a síndica de Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch. Morreu em 2004.

PS: A maior sapateadora foi Eleanor Powell.

Howard Hawks

Os mineiros entraram definitivamente na rota das grandes mostras. Primeiro, foi a de Chaplin, com a obra completa do gênio. Hoje, começa outra, dedicada à obra completa de Howard Hawks.

É um excelente resgate, visto que Hawks faz tempo é pouco citado entre os grandes de todos os tempos. Na pesquisa que o blog aqui fez com cinéfilos paraibanos em 2010 sobre seus cineastas preferidos, dos 100 ouvidos apenas um citou Hawks entre seus cinco – e fui eu mesmo.

Enfim, sejam bem-vindos os filmes de Hawks, o cineasta dos homens com uma missão. E também um dos mais versáteis do cinemão de Hollywood, deixando clássicos no filme de gãngster, nas comédias malucas, no musical e, principalmente, no faroeste.

Algumas histórias sobre ele são muito boas como a de que estava pescando com o amigo Ernest Hemingway e este o desafiou a fazer um filme a partir de um livro ruim. Hawks devolveu: “Faço um filme bom do seu pior livro”. Hemingway escolheu e o filme foi Uma Aventura na Martinica (1944), que, ainda por cima, revelou Lauren Bacall.

Foi Hawks também que se indignou porque um xerife ficava pedindo ajuda a todo mundo para encarar um bandido em Matar ou Morrer (1952) e fez um filme em que o xerife, contra todo mundo, mantém o bandido preso: Onde Começa o Inferno (1959), tão antológico quanto seu “espelho”.

Hawks talvez não esteja sendo tão lembrado por não ter sido exatamente um revolucionário ou um inventor no cinema. Foi, no entanto, um exímio contador de histórias, um talentosíssimo narrador. Como você vê a seguir, nessa nossa lista de dez grandes Howard Hawks.

Em tempo: a mostra, no Cine Humberto Mauro, começa hoje com Levada da Breca (1938) e segue por um mês com exibições diárias – quase todas em 35mm. Inclui até filmes mudos e curiosidades como O Proscrito (1948) em que ele acabou não creditado como diretor no final. Há também um curso com Inácio Araújo, debates e palestras. Confira a programação completa.

10 - "O Inventor da Mocidade" (1952)

10 – “O Inventor da Mocidade” (1952)

Comédia com Marilyn antes da fama e chimpazés.

9 - "Bola de Fogo" (1941)

9 – “Bola de Fogo” (1941)

Roteiro de ninguém menos que Billy Wilder, antes de ele mesmo começar a dirigir.

8 - "Paraíso Infernal" (1939)

8 – “Paraíso Infernal” (1939)

Aventura tipicamente hawksiana: um grupo de homens faz a perigosíssima correspondência aérea na América do Sul, custe o que custar.

7 - "Os Homens Preferem as Loiras" (1953)

7 – “Os Homens Preferem as Loiras” (1953)

Raro filme de Hawks em que as mulheres comandam a ação, e o diretor contribui de novo para a criação do mito Marilyn Monroe. Leia mais.

6 - "Scarface, a Vergonha de uma Nação" (1932)

6 – “Scarface, a Vergonha de uma Nação” (1932)

Um dos filmes de gangster essenciais.

5 - "À Beira do Abismo" (1946)

5 – “À Beira do Abismo” (1946)

Hawks reuniu Bogart e Bacall (casal que formou em Uma Aventura na Martinica) adaptando o romance de Raymond Chandler.

4 - "Jejum de Amor" (1940)

4 – “Jejum de Amor” (1940)

De novo Cary Grant em uma comédia romântica (e maluca) sobre jornalismo.

3 - "Rio Vermelho" (1948)

3 – “Rio Vermelho” (1948)

Hawks recontou O Grande Motim, que se passa no mar, no Velho Oeste!

2 - "Levada da Breca" (1938)

2 – “Levada da Breca” (1938)

A quintessência da comédia maluca, com Katharine Hepburn e Cary Grant no máximo.

1 - "Onde Começa o Inferno" (1959)

1 – “Onde Começa o Inferno” (1959)

Não há a chegada da civilização, a luta dos pioneiros ou outra coisa além de uma aventura de faroeste pura e contada com maestria.

 

stars-blue-5-0

Vidas cruzadas nos trilhos da estação

Celia Johnson e Trevor Howard: amor e culpa

Celia Johnson e Trevor Howard: amor e culpa

Antes dos grandes épicos que marcam sua carreira de diretor – como Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965) – David Lean dirigiu filmes “menores” na Inglaterra. O “menores” vai entre aspas por razões óbvias para quem viu alguns desses filmes: Desencanto (Brief Encounter, Inglaterra, 1945) só é menor no quesito dinheiro envolvido. Um drama intimista, Desencanto é um dos grandes filmes de amor do cinema. Sua simplicidade esconde a complexidade de suas emoções.

O filme é uma adaptação da peça Still Life, de Noel Coward, produzida por ele próprio. Lean e Coward mantiveram uma boa parceria naqueles anos, em quatro filmes: Nosso Barco, Nossa Alma (1942), que os dois dirigiram; Este Povo Alegre (1944); Uma Mulher do Outro Mundo (1945); e Desencanto. Curiosamente, não há créditos para o roteiro que, segundo o IMDb, é de Anthony Havelock-Allan, Ronald Neame (que dirigiria A Primavera de uma Solteirona, em 1969) e Lean. A omissão pode ter acontecido para reforçar Noel Coward como autor da história. Em todo caso, é o trio que concorreu ao Oscar pelo filme, como melhor história – Desencanto também concorreu a direção e atriz.

O filme tem um início exemplar: na lanchonete de uma estação de trem, a vida segue normal para os personagens que depois vamos ver que estão sempre por ali, mas em trânsito (o guarda da estação, a dona do lugar, a empregada mais jovem dela). Em um canto, estão Celia Johnson e Trevor Howard, em uma mesa. Não dizem nada, até que entra uma amiga faladeira de Laura (Celia), dizendo coisas sem importância. Chega o trem de Alec (Howard) e ele precisa ir. Se despede de Laura sem palavras, apenas com uma mão em seu ombro.

Sem palavras, mas com uma eloquência e tanto. O filme começa com o casal central sendo mostrado como um figurante, para aos poucos ir ganhando o protagonismo na cena. Depois, o filme entra o foco em Laura, voltando para casa com a amiga chata. E é quando ouvimos sua voz interior falando de seu momento turbulento. E só quando ela chega em casa e está sentada na poltrona em frente ao marido meio sem graça que faz palavras-cruzadas é que ouvimos seus pensamentos começarem a contar a história.

Assim, a história é narrada em flashback por Laura. Grande sacada é ela fazer essa narração mental ao marido – a quem, claro, não pode contar nada de verdade. Ela vive em um casamento tranquilo, no subúrbio e vai semanalmente à cidade para movimentar um pouco a vidinha: fazer compras e ir ao cinema. Um dia conhece o médico Alec, quando este a ajuda a se livrar de um cisco no olho na lanchonete da estação. Uma série de outros acasos, por um lado, e a insistência de Alec, por outro, levam a outros encontros inocentes – até que eles se apaixonam, coisa que percebemos bem antes deles.

Ele também é casado e os encontros dos amantes, em meio à crise moral permanente de Laura, precisam ser nos poucos dias em que Laura vai à cidade. São encontros pontuados pela estação de trem, locação que abre e fecha o filme. Laura e Alec são vidas que se cruzam, como trens que se cruzam nos trilhos da estação. A luz do trem passando nos rostos dos personagens, os sons, tudo é usado como reflexo das emoções dos personagens. Perto do fim, tudo isso somado a um close do rosto transtornado de Celia Johnson é um plano espelho de outro, com o rosto de Greta Garbo como Anna Karenina (1935).

Evidentemente, é preciso pensar como os personagens e entender seus dilemas, massacrados por anos e anos de liberação sexual no cinema. E, considerando que tudo na história de Laura e Alec – com exceção da cena inicial cheia de lacunas – nos é mostrada pelo ponto-de-vista da mulher (e em um momento especialmente turbulento), é preciso imaginar o que é realista e o que está sublinhado pelas emoções de Laura. Note: nas palavras cruzadas do marido, “romance” cruza com “delírio”… Ela pode até estar ouvindo Rachmaninoff na cabeça dela enquanto relembra sua história de amor clandestina.

Os personagens paralelos voltam sempre a aparecer, nos lembrando que outras vidas continuam a acontecer, sem se darem conta do drama O quociente de culpa que arrasa Laura por quase todo o filme também pode refletir um pouco das emoções travadas que costumamos atribuir como o jeito de ser tipicamente britânico daquela época. Em todo caso, se o espectador se transportar para a pela de um dona-de-casa do subúrbio inglês e um casamento monótono dos anos 1940 – e ele deveria ser capaz disso – vai compreender o tumulto interno de Laura e dar um novo sentido ao “Concerto para piano número 2” de Rachmaninoff.

Desencanto (Brief Encounter, Reino Unido, 1945). Direção: David Lean. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond.

The Merry Old Soul (1933)
Direção: Walter Lantz, William Nolan. Produção: Walter Lantz.
Indicado ao Oscar de curta de animação em 1934.

Aqui, temos o casamento de um rei no mundo dos contos-de-fadas. O desafortunado monarca – que é a cara do Oliver Hardy – descobre logo que a esposa tem uma infinidade de bebês. As gags partem daí – ótima a cena em que se pensa que o rei está lavando roupa e ele está é dando banho nas crianças, numa verdadeira linha de produção. O trocadilho do título que usa uma expressão comum a respeito do sul dos Estados Unidos, trocando por soul (o gênero musical), não esconde que este curta tem a música como fio condutor neste exemplar de Walter Lantz (que comandaria o Pica-Pau anos depois) para a Universal, apresentado aqui na série Merrie Melodies.

Indicado ao Oscar 1934: Arranhando o Céu <<
>> Vencedor do Oscar 1935: A Tartaruga e a Lebre

Sigam-me os bons (no Twitter)

julho 2017
D S T Q Q S S
« jun    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Cenas da Vida

Páginas

Estatísticas

  • 1,253,234 hits