Esta não é uma lista dos melhores filmes de todos os tempos, nem dos mais importantes. Não tem preocupação em cobrir lacunas, ser representativa de cinematografias ou estilos. Claro que considero todos os filmes aqui na categoria de ótimos para cima. Mas ela é basicamente guiada pela emoção e pelo prazer. Não tem muita serventia para se aprender sobre a história do cinema (embora tenha dicas muitos boas), a única coisa que é garantido aprender com ela é uma ideia geral do que gosto de assistir.

Então, é natural que meus diretores preferidos apareçam mais (Hitchcock, Billy Wilder, Woody Allen, Spielberg), que também se sobressaiam gêneros que me atraem especialmente (musicais, faroestes, comédias), e períodos específicos do tempo (a Hollywood clássica, os anos 1980).

A primeira vez que sentei para fazer uma lista de 100 filmes preferidos foi em 2005 (essa lista está aqui). Não é uma tarefa fácil, se você dedica a ela alguma atenção. Tanto que demorei 13 anos para fazer outra, aproveitando meus 30 anos de cinéfilo.

É bom que você tenha em mente que estes não são os únicos 100 filmes de que gosto, nem mesmo os únicos 100 filmes que amo. Na verdade, a primeira lista de filmes que imaginava possíveis de estar entre os 100 chegou perto de 500 filmes.

Ou seja: se você acha absurdo que um filme não esteja aqui, mesmo sendo uma lista tão pessoal, é possível que ele esteja entre esses 500.

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Pacto de Justiça

100. PACTO DE JUSTIÇA. Kevin Costner, 2003

A reputação de Kevin Costner nunca se recuperou totalmente dos problemas resultados da megalomania em Waterworld (1995) e O Mensageiro (1997). Mas este faroeste, onde ele divide o protagonismo com o grande Robert Duvall, ajudou muito. Ecos de Paixão dos Fortes (1946) e Os Brutos Também Amam (1953) e uma compreensão do drama da violência embalando grandes personagens. Minha cena: “Eu não tenho medo de você, Charley”, diz a personagem de Annette Bening. (Assista à cena)

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Rosa Purpura do Cairo - 0999. A ROSA PÚRPURA DO CAIRO. Woody Allen, 1985

É a grande depressão, então já não está fácil para ninguém. Para Cecilia (Mia Farrow), está ainda pior: ao voltar para casa após o trabalho, o que ela encontra é um marido violento e sem a menor vontade de procurar um emprego. Seu único refúgio é o cinema e o cinema vem a seu socorro quando um dos personagens na tela se apaixona pela espectadora que o vê repetidas vezes, e desce da tela para viver um romance com ela. Minha cena: Quando a magia do cinema se torna mais mágica. (Assista à cena)

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Banze no Oeste - 07

98. BANZÉ NO OESTE. Mel Brooks, 1974

Mel Brooks no máximo de sua forma demole com carinho o gênero do faroeste, começando por colocar um xerife negro como protagonista. Aqui, num filme da Warner Bros. ele se aproxima até dos desenhos do Pernalonga. A cidade é tão sem lei que uma velhinha é espancada sem dó. Ela se vira para câmera e pergunta: “Vocês já viram tanta crueldade assim?”. Minha cena: A cidade recepciona o novo xerife com pompa e circunstância. Até descobrir que ele é negro. (Assista à cena)

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Pacto de Sangue

97. PACTO DE SANGUE. Billy Wilder, 1944

Billy Wilder e Raymond Chandler se odiaram no processo do roteiro que adaptava o romance de James M. Cain. Podem ter sido momentos horríveis para os dois, mas quem ama o cinema só tem a agradecer. Saiu dali uma obra-prima do cinema noir – talvez a maior de todas. Barbara Stanwyck achou que era forte demais o papel da mulher que trama com o amante a morte do marido e Billy a desafiou: “Você é uma atriz ou um rato?”. Minha cena: O chefe fareja um assassinato e a resolução do caso está atrás da porta. (Assista à cena)

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Falcao Maltes - Reliquia Macabra

96. O FALCÃO MALTÊS – RELÍQUIA MACABRA. John Huston, 1941

O filme que inaugurou o subgênero do filme noir também redefiniu a carreira de Humphrey Bogart – antes quase sempre fazendo capangas de gangsters. Poucas estreias na direção foram tão sensacionais quanto esta de John Huston, adaptando o romance de Dashiel Hammett. Até hoje é, para mim, a quintessência de uma história de detetive. Minha cena: Sam Spade responde shakespeareanamente de que material é feito o falcão. (Assista à cena)

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Almas Gemeas-12

95. ALMAS GÊMEAS. Peter Jackson, 1994

A trilogia O Senhor dos Anéis é um grande trabalho, mas meu Peter Jackson preferido está aqui. Menos grandiloquente, mais incisivo, um equilíbrio fascinante entre delírio e a brutal vida real e ainda fez um bem danado ao mundo ao revelar Kate Winslet. Minha cena: As meninas perseguidas por Orson Welles em sua própria versão demente de O Terceiro Homem. (Assista à cena)

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Se Meu Apartamento Falasse-02

94. SE MEU APARTAMENTO FALASSE. Billy Wilder, 1960

Jack Lemmon empresta o apartamento para as escapadas amorosas do chefe. E se apaixona por Shirley MacLaine, ascensorista do prédio onde trabalha, sem saber que ela é a amante em questão. O relacionamento entre eles é um dos melhores cinemas a dois já feitos. Minha cena: “Cale a boca e dê as cartas”, um dos maravilhosos finais do mestre Billy. (Assista à cena)

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Imperdoaveis - 01

93. OS IMPERDOÁVEIS. Clint Eastwood, 1992

O faroeste era um gênero praticamente morto quando Clint voltou a ele e o virou carinhosamente do avesso. O grande pistoleiro mal consegue subir num cavalo, matar já não é tão simples. Ele tem que provar que não está superado. E o gênero também. Minha cena: “Já matei mulheres e crianças. Matei tudo o que anda e rasteja. E estou aqui para matar você, Little Bill, pelo que fez ao Ned”. (Assista à cena)

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Agora Seremos Felizes - 07

92. AGORA SEREMOS FELIZES. Vincente Minnelli, 1944

Clang, clang, clang faz o bonde, com Judy Garland e St. Louis a bordo. Minnelli leva ao musical uma narrativa episódica longe das histórias de bastidores até então predominantes no gênero: um ano na vida de uma família comum, porém extraordinária. Minha cena: “The trolley song”, e seus enquadramentos dentro do mesmo enquadramento só pela movimentação do elenco. (Assista à cena)

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Levada da Breca

91. LEVADA DA BRECA. Howard Hawks, 1938

Cary Grant, o hesitante paleontólogo cercado pelos esqueletos de dinossauro do Museu de História Natural. Katharine Hepburn, a estabanada riquinha que de repente aparece com uma onça de estimação. E é maluquice depois de maluquice a partir daí, não ficando osso de dinossauro sobre osso de dinossauro. Minha cena: Kate Hepburn arrasta sua onça pela coleira – mas é a onça errada! (Assista à cena)

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Depois do Vendaval - 18

90. DEPOIS DO VENDAVAL. John Ford, 1952

Feministas devem torcer o nariz paira esse filme, mas John Ford estabelece que a Irlanda é um mundo mítico e particular, que possui suas próprias regras. E, sem dúvida, a personagem de Maureen O’Hara é firme sobre o que acredita. John Wayne somos nós: pessoas de fora estranhando tudo aquilo e, no fim, caindo de amores. Relacionamentos tempestuosos, brigas antológicas, personagens incríveis. A Irlanda de verdade pode não ser assim, mas e daí? Minha cena: Vencido pelo ambiente ao seu redor, o “homem tranquilo” do título original vai buscar sua tempestuosa esposa na marra de dentro de um trem, arrasta-a até o irmão dela para fazer o que, afinal, ela queria: cobrar o dote. (Assista à cena)

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Procurando Nemo

89. PROCURANDO NEMO. Andrew Stanton, 2003

Um filho sequestrado, um pai que enfrenta tudo para resgatá-lo. Busca Implacável? Não, é uma animação da Disney que é um primor de narrativa paralela. A narrativa vai se alternando entre as sequências no aquário e a odisseia em mar aberto, até a convergência final. Minha cena: A história de Marlin atravessa o oceano. (Assista à cena)

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Os Sete Samurais

88. OS SETE SAMURAIS. Akira Kurosawa, 1954

Kurosawa se inspirou nos faroestes para criar um dos filmes definitivos do cinema, influente até hoje. Gerou várias imitações da história de um grupo de aventureiros que vai proteger uma aldeia pobre que é constantemente atacada por bandidos: de Sete Homens e um Destino (1960) a Vida de Inseto (1997). E tem aquela sequência de batalha antológica. Minha cena: “Nós sempre perdemos” (Assista à cena)

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Montanha dos Sete Abutres

87. A MONTANHA DOS SETE ABUTRES. Billy Wilder, 1951

Onde está a última cobra?, pergunta o repórter experiente enterrado em uma cidadezinha, ensinando a tirar o melhor proveito próprio de uma matéria. Quando um homem fica preso dentro de uma mina aparece sua chance de explorar o drama. Billy Wilder não perdoa: uma coleção de grandes diálogos detonam o sensacionalismo. Minha cena: “Sou um jornalista que vale mil dólares por dia. Você pode ficar comigo por nada”, mais um grande final do mestre Billy. (Assista à cena)

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Brilho Eterno

86. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS. Michel Gondry, 2004

O roteiro de Charlie Kaufman nos leva a a viagem dentro da mente de um homem que está tendo suas memórias da namorada apagadas – das mais recentes para as maos antigas. Assim, a história anda para a frente e para trás ao mesmo tempo, uma despedida que segue rumo à aurora da paixão. Minha cena: Presente, passado, memória e imaginação se misturam, no começo e fim de um amor que vai virando páginas em branco (Assista à cena)

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O Fabuloso Destino de Amelie Poulain

85. O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN. Jean-Pierre Jeunet, 2001

Um visual deslumbrante, uma direção esperta, uma trilha saborosa e uma protagonista otimista à toda prova formam o coquetel de personalidade de um filme que é quase um conto de fadas moderno, só que a protagonista é a fada-madrinha. Minha cena: Romance misterioso no parque, quase uma gincana. (Assista à cena)

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A Noite Americana - 0284. A NOITE AMERICANA. François Truffaut, 1973

Truffaut sempre amou o cinema e esta é sua grande declaração de amor ao seu ofício de fazer filmes. Um rol de personagens envolvidos na filmagem de um drama não muito bom  e em seus dilemas pessoais. O próprio Truffaut interpreta o diretor do filme-dentro-do-filme, que começa no primeiro dia de câmera rodando até o último, com o próprio trabalho sendo o verdadeiro drama. Minha cena: O balé de uma filmagem, o cinema reina. (Assista à cena)

 

 

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Forrest Gump o Contador de Historias-02

83. FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS. Robert Zemeckis, 1994

Um passeio por 30 anos da história dos Estados Unidos através do ponto-de-vista de um homem que mal sabe o que está acontecendo: se importando apenas com sua mãe, seus amigos e a garota que ele ama. Um épico intimista, que ganha muito com a construção admirável de Tom Hanks. Minha cena: Forrest Gump descobre que tem um filho. (Assista à cena)

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Esperanca e Gloria-02

82. ESPERANÇA E GLÓRIA. John Boorman, 1987

A Inglaterra sob as bombas nazistas e esses dias sob a visão de um garoto londrino. A cidade em escombros e a atmosfera da morte sempre por chegar são temperados por nostalgia e um surpreendente bom humor. O mundo infantil sobrevive apesar dos adultos. Minha cena: “Obrigado, Adolf!” (Assista à cena)

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Bela e a Fera-1991-24

81. A BELA E A FERA. Kirk Wise e Gary Trousdale, 1991

Na renascença da Disney, fim dos anos 1980/ começo dos 1990, um ponto alto foi aqui, neste conto-de-fadas que levava a Broadway para o desenho animado (tanto que a versão depois foi parar na Broadway mesmo) e namorava o suspense e o drama. E ainda possui uma animação de encher os olhos. Minha cena: Uma animação de encher os olhos em “Belle” (Assista à cena)

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Dia em que a Terra Parou-1951-03

80. O DIA EM QUE A TERRA PAROU. Robert Wise, 1951

Numa época em que viajantes do espaço eram quase sempre sinônimos de inimigos, o filme de Wise mostrava que nossos maiores inimigos somos nós mesmos. O extraterrestre que vem alertar a Terra sobre o pendor autodestrutivo da humanidade encontra resistência de autoridades e uma aliada em uma mulher comum. Minha cena: “Gort, Klaatu barada niktu”. (Assista à cena)

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Clube dos Cinco-15

79. CLUBE DOS CINCO. John Hughes, 1985

Cinco estereótipos adolescentes ficam presos juntos num sábado de manhã na escola, de castigo. Nesse tempo, verdades vão aparecendo, preconceitos vão sendo demolidos, ligações vão se formando. No fim, a antológica carta-provocação ao mundo adulto. Minha cena: As despedidas após uma transformadora manhã de castigo e a redação final. (Assista à cena)

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78. A SEPARAÇÃO. Asghar Farhadi, 2011

O que começa como um drama familiar sobre uma separação que ninguém quer de verdade, logo vai se tornando um filme de mistério, onde o espectador precisa ir, ele mesmo, desvendando segredos. O final em aberto é uma beleza particular dentro do filme. Minha cena: Na hora de decidir com quem vai ficar após o divórcio, a filha adia mesmo por alguns segundos o que sua palavras sentenciarão de vez: a separação de seus pais. (Assista à cena)

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77. CIDADÃO KANE. Orson Welles, 1941

Um filme-monumento que apontou para onde a sétima arte deveria ir – ou inescapavelmente terminaria indo. Além dos prodígios narrativos, dos ângulos de câmera, profundidade de campo e passagens de tempo ainda impactantes, das atrevidas relações com a vida real do magnata da imprensa William Randolph Heast, ainda há um senso de humor maravilhoso. Minha cena: O filme mostra seu cartão de visitas em um dos inícios mais criativos e impactantes da sétima arte. (Assista à cena)

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76. 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO. Stanley Kubrick, 1968

Um dos maiores filmes-enigma do cinema, uma jornada que vai da aurora do homem à sua provável evolução como ser, para algo depois de nós e que evidentemente não temos como compreender muito bem. Os homens pré-históricos, o balé espacial ao som do “Danúbio Azul” e um computador assassino de tão humano. A ferramenta nos serve e se volta contra nós. Minha cena: Os astronautas debatem em segredo o que fazer com HAL, o computador. Mas nós vemos algo que eles não sabem: ele lê lábios! (Assista à cena)

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Cidade dos Sonhos - 33

75. CIDADE DOS SONHOS. David Lynch, 2001

O mundo dentro da nossa cabeça e a ideia que se faz de si mesmo estão na gênese dessa obra-prima enigmática e sensual, que mistura sonhos, flashback, imaginação, pontos de vista subjetivos, mentiras e nonsense numa narrativa fascinante, sombria e mágica, de todas as narrativas fascinantes, sombrias e mágicas de David Lynch. Minha cena: “This is the girl”. Mas a garota certa era a outra. Mas isso, depois saberemos, na visão dela.  (Assista à cena)

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Mary Poppins - 10

74. MARY POPPINS. Robert Stevenson, 1964

“Absolutamente perfeita em todos os sentidos”, diz a fita métrica mágica que mede a governante de nariz empinado que desceu do céu e alterna rigidez e doçura ao cuidar de duas crianças endiabradas. Com uma Julie Andrews supercalifragilistic-expialidocious estreando no cinema, a modéstia deve ser mesmo difícil de manter. Ela ganhou o Oscar de melhor atriz, um reconhecimento raríssimo para uma atuação em filme infantil. Minha cena: Em um mundo de desenho animado, aprendemos o que dizer quando não sabemos o que dizer. (Assista à cena)

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Todas as Mulheres do Mundo

73. TODAS AS MULHERES DO MUNDO. Domingos Oliveira, 1967

Domingos Oliveira fez o filme para sua ex, a atriz e super musa Leila Diniz. Ela é o alvo da paixão de Edu, personagem de Paulo José, que precisa escolher entre ela e todas as mulheres do mundo. O filme tenta bravamente nos convencer de que é uma decisão difícil. Mas Leila é Leila. Minha cena: O corpo de Leila transformado em poema. (Assista à cena)

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Sol E para Todos - 22

72. O SOL É PARA TODOS. Robert Mulligan, 1962

Pela visão dos filhos pequenos, um advogado defende, em uma cidade racista, um negro acusado de estuprar uma branca. O menino e a menina (o filme é narrado por ela já adulta) vivem suas próprias aberturas e descobertas. Atticus Finch, papel de Gregory Peck, foi eleito em votação do American Film Institute o maior herói do cinema americano. Minha cena: As crianças impedem um linchamento e salvam o pai. (Assista à cena)

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Viagem de Chihiro

71. A VIAGEM DE CHIHIRO. Hayao Miyazaki, 2001

Um dos maiores mestres da animação no mundo, o cineasta japonês arma um conto simbólico de identidade e perda. Muitos são os simbolismos e certamente quanto menos familiriazado com a cultura japonesa, mais se perde dos detalhes. Mas o fascínio é poderoso e permanece. Minha cena: o encanto do dragãobé quebrado em pleno voo e Chihiro e ele caem, lágrimas de emoção subindo no ar. (Assista à cena)

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70. THE COMMITMENTS – LOUCOS PELA FAMA. Alan Parker, 1991

Música é recorrente na filmografia de Alan Parker, mas, de alguma maneira, The Commitments tem um espírito mais vibrante. O fato é que há um casamento mágico entre a música, a ambientação em Dublin e os ótimos personagens. Minha cena: a montagem com “Nowhere to run” e a banda ensaiando por Dublin. As meninas dançando entre as roupas estendidas no varal, o baixista no frigorífico, o pianista sobre o caminhão, o vocalista no metrô, e o guitarrista no meio da rua, dizendo às crianças “Sou negro e tenho orgulho disso”. (Assista à cena)

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Ratatouille

69. RATATOUILLE. Brad Bird, 2007

Um rato na cozinha pode ser nojento, mas e se o rato for um talento da gastronomia? A animação parte dessa situação para falar de arte e preconceito, com um roteiro cheio de ótimas ideias e ótimo ritmo. Não é qualquer filme que consegue fazer da leitura de uma crítica um de seus melhores momentos, Minha cena: o momento proustiano do ratatouille. (Assista à cena)

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68. RASHOMON. Akira Kurosawa, 1950

Certos filmes são definidores de um estilo narrativo. Rashomon é um deles. Um assalto numa floresta é recontado em quatro versões bem diferentes entre si. Qual seria a verdadeira? E o que essas versões dizem sobre a vaidade, a vergonha, a empáfia, a maldade? E quantas vezes este filme foi citado/ imitado? Minha cena: a esposa do samurai, rendida, fita o sol entre as copas das árvores. (Assista à cena)

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Um Corpo que Cai

67. UM CORPO QUE CAI. Alfred Hitchcock, 1958

Na primeira parte, o ponto de vista do detetive com medo de altura que segue a mulher de um amigo. Na segunda, o ponto de vista da mulher idêntica à que ele não conseguiu salvar. Praticamente só sabemos o que o protagonista da vez sabe, nesta história mórbido-romântica de obsessão que desbancou Cidadão Kane do posto de melhor filme de todos os tempos na última pesquisa da Sight and Sound. Minha cena: Pela obsessão de Scottie (James Stewart) surge em Judy (Kim Novak) o fantasma da morta Madeleine. (Assista à cena)

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66. A LISTA DE SCHINDLER. Steven Spielberg, 1993

Spielberg usa a história real de um alemão aproveitador que passa por uma mudança ao testemunhara perseguição aos judeus na II Guerra para traçar uma súmula do holocausto. É o filme que enterrou de vez a bobagem de que ele não era um diretor de filmes “sérios”. Minha cena: a invasão do gueto, a virada de Schindler. (Assista à cena)

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E o Vento Levou-78

65. …E O VENTO LEVOU. Victor Fleming, 1939

Folhetim-mor de Hollywood, com essa nostalgia esquisita e romântica do escravocrata sul dos Estados Unidos, antes, durante e depois da Guerra da Secessão. Mas tem personagens maiores que a vida e cenas pra não esquecer nunca, como a de Scarlett O’Hara de Vivien Leigh jurando que nunca mais passará fome, a silhueta na contraluz daquele glorioso céu pintado. Minha cena: Scarlett dá de cara com o horror da guerra, uma multidão de mortos e feridos no meio da rua, a câmera subindo do close dela para a bandeira em farrapos. (Assista à cena)

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A Vida de Brian - 02

64. A VIDA DE BRIAN. Terry Jones, 1979

Um sujeito que nasce numa manjedoura em Belém, mas é a vizinha a de Cristo. Um grupo de revolucionários judeus que acha que outros grupos revolucionários judeus são mais inimigos que o Império Romano. Um Pilatos que fala como o Hortelino. Uma crucificação que vira um número musical. O botão do absurdo estava ligado no máximo nesta obra-prima aloprada do grupo Monty Python. Minha cena: Os centuriões romanos sofrem para não rir na cara do chefe Pilatos enquanto ele diz o nome dos amigos romanos, todos trocadilhos infames. (Assista à cena)

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Um Convidado Bem Trapalhão

63. UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO. Blake Edwards, 1968

Blake Edwards já tinha encenado uma festa maluca em Bonequinha de Luxo (1961). Aqui, ele faz a festa durar praticamente o filme todo (o título original é exatamente The Party). O trunfo é Peter Sellers, demolindo essa casa metida a besta. Minha cena: O banco na mesa de jantar é baixo demais, é perto da porta da cozinha e quem está sentado nele é Peter Sellers. (Assista à cena)

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King Kong - 1933 - 17

62. KING KONG. Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, 1933

Pela primeira vez o efeito especial era o protagonista do filme. Kong era um boneco de 45 centímetros, animado quadro a quadro e interagindo com os atores em complexas combinações de stop motion e projeção de fundo, que ainda hoje impressionam (mesmo que a arte da animação em si obviamente tenha evoluído muito desde então). Minha cena: no alto do Empire State, Kong vira uma imagem icônica. (Assista à cena)

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Fanny e Alexander-04

61. FANNY E ALEXANDER. Ingmar Bergman, 1982

Arte e opressão religiosa, dois temas caros a Bergman, desta vez sob o olhar de dois pequenos irmãos. Da felicidade de viver em uma família de artistas, sua vida muda drasticamente quando o pai morre e a mãe se casa com um bispo. A compilação para cinema de uma minissérie de TV é um dos mais belos filmes do grande cineasta sueco. Minha cena: O teatro de brinquedo e a introdução ao mundo perfeito de Alexander. (Assista à cena)

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Ninotchka

60. NINOTCHKA. Ernst Lubitsch, 1939

A maravilhosa Greta Garbo é a sisudíssima agente soviética que faz jogo duro para o conquistador americano que oferece a ela a boa vida de Paris. Lubitsch usa sua picardia para detonar a política internacional de todos os lados, e isso com a II Guerra ali na esquina. Minha cena: Garbo ri, e o filme faz disso um momento antológico. (Assista à cena)

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Divertida Mente - 01

59. DIVERTIDA MENTE. Pete Docter, 2015

Traduzir questões psicológicas complexas em uma animação para todas as idades é apenas uma das muitas qualidades dessa animação brilhante: uma aventuras estrelada pelas emoções que povoam a mente de uma menina, e que é, também, sobre seu duro processo de crescimento. Uma obra-prima. Minha cena: Descobre-se que a tristeza tem sua importância. (Assista à cena)

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Filhos do Paraiso

58. FILHOS DO PARAÍSO. Majid Majidi, 1997

Garoto perde o único par de sapatos da irmã. Como são muito pobres, não há outro. Como são crianças, não querem de jeito nenhum levar uma surra do pai. Como são iranianos, meninos e meninas estudam separados, em turnos diferentes, o que leva ao estratagema de dividirem o único par de sapatos restante enquanto tentam descobrir onde está o outro, antes que o pai descubra. Uma pérola, uma bolha de sabão cinematográfica. Minha cena: Zahra perde um dos tênis em uma vala e o persegue em desespero, enquanto ele vai sendo levado pela água. (Assista à cena)

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Os Brutos Também Amam

57. OS BRUTOS TAMBÉM AMAM. George Stevens, 1953

Em uma região do oeste em que agricultores são ameaçados e mortos por poderosos pecuaristas, uma família dá emprego a um homem que veio do nada. Mas ele tem um passado, um passado que preferiria esquecer. Mas, para ajudar àqueles que o acolheram – um pai, uma mãe, uma criança que o idolatra – ele volta a ser o que era. Minha cena: o garoto observa escondido o ajuste de contas – para ele, ainda mais um duelo de gigantes. (Assista à cena)

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Muito Barulho por Nada

56. MUITO BARULHO POR NADA. Kenneth Branagh, 1993

Branagh banha de sol o texto de Shakespeare e às vezes o tempera com patetices para um resultado que é uma delícia. Mas o ingrediente principal é o duelo de tagarelices entre Benedick (Branagh) e Beatrice (Emma Thompson), dois turrões cujo amor vai ser despertado pelas armações dos amigos. Embalados pela Toscana e pelo planos-sequência do diretor. Minha cena: O primeiro bate-boca entre Benedick e Beatrice, com Kenneth e Emma no máximo do charme, já dá o clima. (Assista à cena)

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55. BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS. Christopher Nolan, 2008

Depois do ótimo reinício de Batman Begins (2005), Nolan levou o universo do personagem no cinema mais longe. Reinventando personagens e tradições, fez do Coringa de Heath Ledger um personagem disposto a enlouquecer uma cidade inteira e seus paladinos. Ele provoca os personagens, o herói (e a plateia) a ultrapassar seus limites éticos. Minha cena: Batman e Coringa num diálogo decisivo, como faces iguais invertidas numa carta de baralho, como duas faces da mesma moeda (mas uma delas riscada). (Assista à cena)

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Bonequinha de Luxo - 01

54. BONEQUINHA DE LUXO. Blake Edwards, 1961

O filme nem tem coragem de chamar diretamente de garota de programa a Holly Golightly de Audrey Hepburn. Ela “ganha dinheiro de homens para usar o toilete”. Mais à vista está seu jeito amalucado e sua caçada por um marido rico. Enquanto isso, vive em seu apartamento bagunçado, com um gato sem nome e embaixo do apê de um escritor sustentado pela amante rica e casada. Há humor, há romance, há beleza e há melancolia. Minha cena: ‘Moon river’ na janela é um dos momentos definitivos de Audrey no cinema. (Assista à cena)

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Hannah e Suas Irmas - 01

53. HANNAH E SUAS IRMÃS. Woody Allen, 1986

Combinar drama e comédia é sempre um equilíbrio delicado, mas Woody Allen conseguiu um grande feito aqui. Centrou o drama em Hannah (Mia Farrow) e Lee (Barbara Hershey) e a comédia em seu próprio personagem, Mickey. Com isso,  estabelece um painel de família e amigos em dois anos, com direito a culpas e redenções. Minha cena: Apaixonado pela irmã da mulher, Michael Caine a seduz com um poema de e.e. cummings. (Assista à cena)

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Assassinato por Morte - 12

52. ASSASSINATO POR MORTE. Robert Moore, 1976

Os maiores detetives do mundo são convidados para um jantar e um assassinato. Sensacional reunião de paródias de célebres detetives da literatura, com um elencão (Peter Sellers, Peter Falk, Maggie Smith, David Niven, Truman Capote, Elsa Lanchester, Alec Guinness…). Já não se fazem mais filmes assim. Minha cena: As coisas são complicadas quando um mordomo cego precisa dar instruções a uma cozinheira surda e que não fala. (Assista à cena)

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Ser ou Nao Ser-05

51. SER OU NÃO SER. Ernst Lubitsch, 1942

Na Varsóvia da II Guerra, uma companhoa teatral se envolve numa combinação de trama de espionagem e adultério. Um clássico das identidades trocadas, do entra-e-sai, do timing perfeito. O último filme da maravilhosa Carole Lombard. Minha cena: Quando Hitler vira uma piada e nem os alemães deixam de rir (“Heil, myself”). (Assista à cena)

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Wall-E

50. WALL-E. Andrew Stanton, 2008

Uma obra-prima desde o primeiro segundo: “Out there” com cenas lindas do espaço. Aqui dentro, na Terra, montanhas de lixo maiores que os arranha-céus. Lá embaixo, o único robô que restou limpando o planeta vazio de gente. 40 minutos praticamente sem diálogos se seguem, embalados em romance e humor. No espaço, a humanidade aguarda, obesa, preguiçosa e presa a redes sociais (tudo ainda mais que hoje). O chapliniano Wall-E estará lá para bagunçar tudo e resgatar a humanidade na humanidade. Minha cena: “Computador, defina ‘dança'”. (Assista à cena)

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01 - Indiana Jones e o Templo da Perdição

49. INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO. Steven Spielberg, 1984

Talvez os mais vibrantes 20 minutos iniciais de um filme: do clube Obi-Wan, na China, ao leito de um rio na Índia. Spielberg costuma dizer que acha essa continuação sombria demais. Em comparação com os demais da série, sim. Mas, rapaz, é uma montanha russa digna da corrida sobre os trilhos perto do fim. Minha cena: Os heróis cercados na ponte suspensa. (Assista à cena)

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Cidade de Deus-22

48. CIDADE DE DEUS. Fernando Meirelles, 2002

Cerca de 20 anos em uma comunidade carioca e a ascensão do crime. O grande lance, no entanto, são os personagens (principalmente a dinâmica entre o criminoso por vocação Zé Pequeno e seu parceiro Bené) e a narrativa cheia de boas ideias (da galinha fugitiva aos dois flashbacks em sequência no “Dadinho é o caralho! Meu nome é Zé Pequeno, porra!”). Minha cena: A despedida do “malandro mais responsa da favela”. (Assista à cena)

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Golpe de Mestre - 11

47. GOLPE DE MESTRE. George Roy Hill, 1973

Paul Newman, Robert Redford e o diretor George Roy Hill repetem a parceria que deu tão certo quatro anos antes em Butch Cassidy. Agora, a ambientação de faroeste é trocada para a era dos gansgters, nos anos 1930. Redford é um trapaceiro que acaba botando as mãos na grana que, ele acaba sabendo, é de um chefão do crime. Ele acaba procurando um veterano golpista para ajudá-lo a se safar dessa. Uma trama repleta de personagens que podem ser uma coisa ou outra, muito charme, referências ao estilo narrativos dos filmes da época e essa trilha incrível que resgata os ragtimes de Scott Joplin (rearranjados por Marvin Hamlisch). Minha cena: O golpe dentro do golpe na abertura já dá o recado. (Assista à cena)

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O Milagre de Anne Sullivan

46. O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN. Arthur Penn, 1962

Hellen Keller nasceu cega e surda. Não existe comunicação entre ela e sua família. E o filme mostra a luta (a batalha, a guerra) de uma professora para trazer a garota para o mundo. Como fazê-la entender que as coisas têm um nome? Minha cena: O momento sublime em que a água do conhecimento chega. (Assista à cena)

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Bons Companheiros - 04

45. OS BONS COMPANHEIROS. Martin Scorsese, 1990

“Desde que me conheço por gente, eu sempre quis ser um gangster”. Esse épico alucinado sobre mafiosos, potencializado pelas cenas improvisadas e neto dos melhores filmes de gangsters dos anos 1930, ainda tem aquele plano sequência histórico dentro da boate. Minha cena: Nunca diga a Joe Pesci que dele é um sujeito engraçado. (Assista à cena)

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bonnie and clyde

44. BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS. Arthur Penn, 1967

O casal real de assaltantes que viveu um fulgurante amor bandido virou um símbolo de rebeldia jovem e, mais do que isso, da rebeldia de um cinema jovem americano que bebia na fonte dos rebeldes cinematográficos francesas da nouvelle vague. Há o carisma irresistível de Faye Dunaway e Warren Beatty, já brincando com fogo quando ele mostra sua arma e ela a toca com o olhar mais lascivo do mundo. Minha cena: Bonnie e Clyde se olham, já sabem o que vai acontecer. Depois, tiros, sangue, uma grande câmera lenta. (Assista à cena)

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When Harry Met Sally

43. HARRY E SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO. Rob Reiner, 1989

Harry e Sally se conhecem, não se dão bem, se reencontram e se tornam grandes amigos. Tem mais alguma coisa aí? É uma comédia-romântica, então é claro que tem, mas o roteiro de Nora Ephron a direção de Reiner navegam com habilidade nesse mar, com grande diálogo conduzido por dois atores de muito carisma, situações espirituosas, muito charme, um quê de Woody Allen no retrato amoroso de Nova York. Minha cena: naquele restaurante, um dos melhores orgasmos do cinema. (Assista à cena)

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cabiria

42. NOITES DE CABÍRIA. Federico Fellini, 1957

Um dos melhores filmes de Fellini está justamente no entroncamento de sua herança neo-realista com o aspecto subjetivo e delirante que seus filmes ganhariam dali para a frente. E é todo construído sobre uma personagem icônica: a prostituta de bom coração e ingênua que só quer conhecer um amor e largar essa vida, mas é passada para trás o tempo todo. Giuletta Masina, uma pequena gigante. Minha cena: Cabiria, toda tristeza, é cercada por um grupo de jovens que são a alegria plena. (Assista à cena)

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Guerra nas Estrelas-14

41. GUERRA NAS ESTRELAS. George Lucas, 1977

Quando Guerra nas Estrelas estreou, ele não era o “episódio 4”, nem Uma Nova Esperança. Era só Guerra nas Estrelas, o primeiro e único, que, se desse errado, ficaria por ali mesmo, sem a necessidade de prolongar a história. Como sabemos, deu mais do que certo. Mais do que a estrondosa bilheteria (atualizado pela inflação, só perde para …E o Vento Levou), virou um ícone cultural, com um punhado de personagens imortais (Darth Vader, Luke Skywalker, Han Solo, Princesa Leia, C-3PO…). Numa época muito baixo astral nos EUA (Vietnã, Watergate…), Lucas jogou no liquidificador os seriados de Flash Gordon, os filmes de Kurosawa no Japão feudal, os filmes de capa-e-espada, os faroestes para resgatar o sabor de uma simples aventura. Minha cena: ao ser resgatada da “torre”, Leia (Carrie Fisher) assume as rédeas da ação, redefinindo o papel das princesas no cinema. (Assista à cena)

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Magico de Oz-05

40. O MÁGICO DE OZ. Victor Fleming, 1939

Judy Garland já tinha 16 anos. O leão é um homem (Bert Lahr) vestido de leão. O horizonte é nitidamente um cenário pintado. Mas há uma magia misteriosa nessa produção da Metro que leva qualquer suspensão de descrença às alturas. O Kansas em sépia contra o Oz colorido. A “pequena menina com uma grande voz” tornando “Over the rainbow” um dos maiores momentos musicais da história do cinema. Margaret Hamilton fazendo de sua Bruxa Má do Oeste uma das vilãs definitivas da sétima arte. Tem alguma coisa nessa magia, mesmo quando prestamos atenção no homem atrás das cortinas. Minha cena: A porta se abre do sépia para o colorido mundo de Oz, um momento de fascínio eterno. (Assista à cena)

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Psicose

39. PSICOSE. Alfred Hitchcock, 1960

Hitch fez um daqueles filmes que dividem as águas no cinema. Nunca um filme de um diretor respeitado tinha combinado tão diretamente sexo, sangue e psicologia como Psicose. E o cineasta de novo mostrou que era mestre em dirigir a plateia, ao estabelecer uma heroína e dar cabo dela de maneira chocante antes da metade do filme. E a trilha de Bernard Herrman, uma obra-prima dentro da obra-prima. Minha cena: não tem como não ser a cena do chuveiro. (Assista à cena)

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Era uma Vez no Oeste

38. ERA UMA VEZ NO OESTE. Sergio Leone, 1968

Se o western-spaghetti imprimiu um novo estilo mais sujo e despojado ao faroeste, Leone abraçou o clássico americano neste seu épico, sem deixar de lado sua própria herança. Nem as heranças que de quem quis perto dele, como a participação de Woody Strode no começo do filme, forte pela presença dele em si mesma, e a escalação do sempre bom moço Henry Fonda como o terrível vilão, com direito a uma entrada em cena onde a plateia dissesse “Meu Deus, é o Henry Fonda!”. A simbiose com a trilha de Ennio Morricone tem momentos gloriosos, a direção cria a interpretação de Charles Bronson e há uma série de diálogos antológicos (“Eles não tinham dólares naquele tempo”; “Mas já tinham filhos da puta”). Minha cena: Claudia Cardinale, divina, chega aos cafundós do Oeste, a câmera sobe ao som de Morricone e daqui a pouco descortina-se o Monument Valley. (Assista à cena)

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Jovem Frankenstein - 01

37. O JOVEM FRANKENSTEIN. Mel Brooks, 1974

Mel Brroks levou a paródia a outro nível. O neto do doutor Frankenstein (que, por vergonha, mudou seu nome para Fronkonsteen) herda o castelo do avô e retoma suas experiências. Brooks filma em preto-e-branco e usa cenários do Frankenstein original de 1931. Palco armado para uma comédia sem freios, protagonizada por um elenco que inclui seus parceiros de confiança. Minha cena: o novo doutor Frankenstein decide encarar o monstro e determina aos ajudantes que não abram a porta, mesmo que ele implore. Cinco segundos depois… (Assista à cena)

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thelma e louise

36. THELMA & LOUISE. Ridley Scott, 1991

Tudo o que elas queriam era curtir um final de semana na estrada. Mas este é um mundo de homens. Uma tentativa de estupro, um assassinato, de repente elas viram fugitivas da polícia, do marido de uma, do namorado da outra. Estrada afora, sem destino, vivem a aventura de suas vidas, emolduradas por grandes imagens e grande música. Minha cena: A revanche contra um caminhoneiro machistão. (Assista à cena)

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35. ARIZONA NUNCA MAIS. Ethan Coen e Joel Coen, 1987

Um ladrão incorrigível e uma policial se apaixonam. O drama é que eles não podem gerar um bebê. Quando um casal rico têm quíntuplos, por que não pegar um? Afinal, eles já têm muitos, não é verdade? Uma comédia maluca que consolidou o talento dos Coen, com uma fotografia brilhante de Barry Sonnenfeld. Minha cena: a longa, maluca, hilariante, criativa sequência da perseguição que começa com o assalto a uma conveniência para roubar… fraldas. (Assista à cena)

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Cinema Paradiso

34. CINEMA PARADISO. Giuseppe Tornatore, 1988

Existem muitas declarações de amor que o cinema faz a si mesmo, mas poucas são tão emotivas quanto a história do garoto pobre de uma cidadezinha dos cafundós da Itália e sua amizade com o velho projecionista do cineminha da cidade. Numa época em que o jeito de assistir filmes já vinha mudando, o filme é uma saudade de antigas idas aos cinemas-poeira. Minha cena: O cinema cristaliza emoções e, depois, esse nascimento do amor pelo cinema volta em um filme de beijos. (Assista à cena)

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33. AURORA. F.W. Murnau, 1927

Murnau já tinha dirigido obras-primas na Alemanha e manteve o nível formidável ao chegar em Hollywood. Uma história de amor com momentos sublimes e terríveis. Um exemplo máximo da linguagem do cinema na fase muda. Minha cena: A amante da cidade enfeitiça o marido do interior com imagens de uma delirante metrópole. (Assista à cena)

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Manhattan - 02

32. MANHATTAN. Woody Allen, 1979

Não foi a primeira nem a última vez que Woody Allen mostrou seu amor pela cidade de Nova York. Mas não houve outra como esta: a cidade no preto-e-branco esplendoroso da fotografia de Gordon Willis, a “Rhapsody in blue” de Gershwin explodindo na tela, tudo emoldurando a trama de adultos romanticamente imaturos e uma jovem que sabe mais que todos eles. Minha cena: “Você precisa ter mais fé nas pessoas”. (Assista à cena)

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A Roda da Fortuna

31. A RODA DA FORTUNA. Vincente Minnelli, 1953

“Eu sou só um animador”, diz o personagem de Fred Astaire. “Só”?? Em baixa no cinema, o ator-cantor-dançarino do filme volta a Nova York para atuar no espetáculo de velhos amigos. Mas entram em cena um diretor com mania de grandeza e uma bailarina clássica (a divina Cyd Charisse) com quem vai ser preciso acertar os ponteiros. Até lá, números saborosos (como “I love Louisa”, sucesso de Fred nos palcos nos anos 1920) e incríveis (como o “The girl hunt ballet”, um filme noir musical dentro do filme), tudo com a direção classuda de Minnelli e a coreografia de Michael Kidd. Minha cena: Fred e Cyd caminham pelo Central Park de mentirinha da Metro e, daqui a pouco, estão dando alguns dos mais pelos passos de dança do cinema. (Assista à cena)

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Onde Começa o Inferno

30. ONDE COMEÇA O INFERNO. Howard Hawks, 1959

Diz a lenda que Howard Hawks não admitia a trama de Matar ou Morrer (1952): um xerife que sai pela cidade pedindo ajuda aos civis para enfrentar um bando que vem matá-lo. Onde Começa o Inferno seria a resposta: um xerife faz de tudo para evitar que um bando solte um integrante preso, com a ajuda apenas de um velho aleijado, um bebum, um jovem e uma moça atrevida. Um profissional fazendo o que tem que fazer, tema muito caro a Hawks. Faroeste puro, sem qualquer outro tema enobrecedor a não ser a aventura em si mesma. Minha cena: A situação é tensa, mas os quatro profissionais dão um tempo para uma camaradagem masculina, dividindo duas canções na delegacia. (Assista à cena)

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007 contra Goldfinger

29. 007 CONTRA GOLDFINGER. Guy Hamilton, 1964

Já tinham havido dois filmes anteriores de James Bond que não tinham sido nada mal (na verdade, o segundo, Moscou contra 007, de 1963, é ótimo), mas Goldfinger é o grande clássico da franquia. E por quê? Porque reúne os elementos que fariam da série um ícone pop: bond girls incríveis (Shirley Eaton pintada de ouro, Honor Blackman botando para quebrar), capangas caricatos (Oddjob e sua cartola de aba cortante), o Aston Martin cheio de truques, um supervilão e o espírito de autoparódia. Minha cena: O laser corta a mesa em direção àquela região que Bond tanto preza. “Você espera que eu fale?”, ele pergunta, tentando ganhar tempo. “Não, sr. Bond, eu espero que morra”. (Assista à cena)

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Aventuras de Robin Hood

28. AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD. Michael Curtiz e William Keighley, 1938

Já houve trocentos Robin Hoods depois de Errol Flynn, mas nenhum que chegasse sequer perto de sua combinação de graça, agilidade, bom humor. Uma aventura capa-e-espada primordial, este filme segue emblemático com um punhado de cenas antológicas. Para tirar qualquer dúvida: qual o Robin Hood mais citado pelo Pernalonga? Pois é. Minha cena: Robin e o xerife de Nottingham ajustam contas no duelo de espadas na escadaria do castelo, com suas sombras gigantes nas paredes. (Assista à cena)

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Apertem os Cintos

27. APERTEM OS CINTOS! O PILOTO SUMIU… David Zucker, Joe Abrahams, Jerry Zucker, 1980

Tripulação de passageiros de um voo são envenenados ao comer peixe estragado. A única salvação é um ex-piloto de guerra traumatizado que está a bordo assumir os controles. Sinopse de filme catástrofe para um resultado que é uma total esculhambação com o gênero. Apertem os Cintos é perfeito em sua maluquice, a demolição dos clichês, a subversão sem cerimônia da lógica, e é ainda melhor quando se percebe que é uma refilmagem (reproduzindo muitas vezes cenas e diálogos praticamente iguais) do muito metido a sério Entre a Vida e a Morte, drama de 1957. Minha cena: “Capitão, quando vamos pousar?”. “Não tenho certeza”. “Não pode me dar uma previsão?”. “Bem… Talvez daqui a duas horas”. “Só pode me dar uma previsão daqui a duas horas?”. Não, esta: “Esta mulher precisa ser levada a um hospital”. “Um hospital? Mas o que é?”. “É um prédio branco, com pacientes, mas isso não é importante agora”. Não, esta: o homem tira dramaticamente o óculos escuros do rosto e… tem outro par de óculos escuros por baixo para outra tirada dramática. Não esta: os repórteres na coletiva dizem que… (Assista à cena)

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Assim Estava Escrito - 01

26. ASSIM ESTAVA ESCRITO. Vincente Minnelli, 1952

Um diretor, uma atriz e um roteirista são chamados para um novo projeto. É de um produtor com quem os três já trabalharam e foram amigos (e que ela amou), mas agora está na pior. Cada um lembra o que viveu com ele, os sonhos, a ambição e traições, numa série de flashbacks. Mais uma vez Hollywood vê a si mesma, aqui de maneira pouco romântica: a necessidade criativa do produtor vivido por Kirk Douglas justifica passar pro cima de qualquer coisa ou de qualquer um. Paralelo ao drama, aulas de cinema. Minha cena: O produtor e o diretor debatem como melhorar o filme B Os Homens-Gato. “Do que as pessoas têm mais medo?”. (Assista à cena)

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Tempos Modernos

25. TEMPOS MODERNOS. Charles Chaplin, 1936

“Vocês não são máquinas. Vocês são homens!”, diria Chaplin quatro anos depois em O Grande Ditador. Mas isso já estava dito em Tempos Modernos, uma comédia engraçadíssima, mas também uma porrada contra as condições às quais os operários eram submetidos. Carlitos enlouquece de tanto apertar porcas e parafusos, é submetido a uma máquina de comer para que não precise parar o trabalho para se alimentar, apanha da polícia e vai preso por segurar uma bandeira vermelha. Também é o filme em que fala pela primeira vez: Carlitos improvisa uma canção com palavras inventadas, o sentido só existe na mímica. Minha cena: Perdendo o ritmo da linha de produção, Carlitos é engolido pelas engrenagens da fábrica. (Assista à cena)

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MSDBATO EC002

24. DE VOLTA PARA O FUTURO. Robert Zemeckis, 1985

Contos de máquina do tempo não eram novidade em 1985, mas fazê-la no formato de um carro bacana era. A trama a bordo também: um adolescente viajava para 30 anos antes, conhecia seus pais tão adolescentes quanto ele e acabava virando a paixão da própria mãe – o que, além das implicações edipianas, ameaçava sua própria existência. Tudo se encaixa com perfeição e a revisita moderna do tema virou, ela própria, um clássico. Minha cena: Marty acorda e dá de cara com sua mãe, jovem, linda e atrevida, que acha que o nome do rapaz é Calvin Klein porque viu na cueca dele. (Assista à cena)

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A Malvada

23. A MALVADA. Joseph L.Mankiewicz, 1950

“Apertem os cintos! Vai ser uma noite turbulenta”, diz a personagem de Bette Davis. Turbulência não falta nesse filme sobre os bastidores do teatro, focado em uma grande atriz envelhecendo, Margo Channing (Davis), e uma devotada fã, Eve (Anne Baxter), que vira sua assistente, mas que tem suas ambições. Um filme feito de um monte de diálogos sensacionais, um monte deles envolvendo a personagem da grande Thelma Ritter. Minha cena: O colunista canalha coloca, implacável, as cartas na mesa: “Nós temos isso em comum: desprezo pela humanidade, incapacidade de amar e ser amado, ambição insaciável e talento. Nós merecemos um ao outro”. (Assista à cena)

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Um Lugar ao Sol

22. UM LUGAR AO SOL. George Stevens, 1951

É o primeiro da chamada “trilogia da formação da América” de Stevens (seguido por Os Brutos Também Amam, 1953, e Assim Caminha a Humanidade, 1956). Um jovem pobre (Montgomery Clift) ganha um emprego ralé na fábrica de um parente rico. Começa a namorar uma colega (Shelley Winters), mas se apaixona pela filha linda do patrão (uma inacreditavelmente deslumbrante Elizabeth Taylor). A gravidez da namorada complica sua vida. Um conto de romance e ambição, um comentário ferino sobre a América do pós-guerra e suas desigualdades, narrado esplendidamente por Stevens. Minha cena: Em um passeio de barco, Montgomery Clift tem pensamentos criminosos sobre Shelley Winters. (Assista à cena)

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Monty Python em Busca do Cálice Sagrado-02

21. MONTY PYTHON EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO. Terry Gilliam e Terry Jones, 1974

Ninguém pode dizer que não foi avisado. Logo nos créditos iniciais, o grupo Monty Python deixa claro que a esculhambação e o nonsense reinam nessa adaptação da história do Rei Arthur. Há discussões lógicas sobre se uma mulher é ou não uma bruxa (conclusão: se ela pesar o mesmo que um pato, é uma bruxa), cavaleiros virtuosos atacados por damas encarceradas e no cio, um (outro) musical de Camelot, historiadores e animadores mortos, debates sobre o voo de andorinhas, coelhinhos monstruosos, os cavaleiros que dizem “Ni”, um cavaleiro negro que não se entrega mesmo com braços e pernas decepados… Minha cena: A travessia da ponte da morte, só possível para responder a três perguntas – um erro significa a morte. (Assista à cena)

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Curtindo a Vida Adoidado - 02

20. CURTINDO A VIDA ADOIDADO. John Hughes, 1986

John Hughes elevou os filmes com adolescentes a outro nível. Ao lado da comédia, de um certo besteirol que acompanhava os filmes que falavam de jovens nos anos 1980, Hughes injetava preocupações reais. Ferris Bueller trava um duelo com o diretor de sua escola e com a própria irmã: o estudante “sequestra” o melhor amigo e a namorada para um último dia de folga antes de se formarem no ensino médio; o diretor e a irmã tentam desmascará-lo. Há muitas sacadas de direção que fazem deste um filme especial. Minha cena: Bueller e a irmã se encaram em um último duelo na volta para casa. (Assista à cena)

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Imperio Contra-Ataca - 01

19. O IMPÉRIO CONTRA-ATACA. Irwin Kershner, 1980

Se Guerra nas Estrelas já era um retorno aos antigos seriados de aventuras em capítulos no cinema dos anos 1930 e 1940, do tipo “será que nosso herói vai escapar? Continua na próxima semana”, O Império Contra-Ataca era mais ainda. Terminava sua história no mesmo clima, em suspenso (mas em vez de “na próxima semana”, era “daqui a três anos”). Até chegar aí, dividia seus personagens, apostava em plots paralelos, lanlava novos personagens memoráveis e reservava aquela revelação estarrecedora sobre as relações familiares entre o principal herói e o principal vilão. Minha cena: “Não, Luke. Eu sou seu pai”, é claro. (Assista à cena)

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Quanto Mais Quente Melhor

18. QUANTO MAIS QUENTE MELHOR. Billy Wilder, 1959

Dois músicos pés-rapados testemunham um acerto de contas entre gangsters. Para fugir, se vestem de mulher para viajar com uma banda feminina. Tudo certo, não estivesse a bordo do trem uma tentação na pela de Marilyn Monroe. Tony Curtis e Jack Lemmon absolutamente impagáveis, um quiproquó cheio de corre-corres, identidades trocadas e frases geniais. Não é por acaso que foi eleito a maior comédia americana de todos os tempos pelo American Film Institute. Minha cena: “Olha como ela se mexe! Parece gelatina com molas. Não dá, é um sexo totalmente diferente!”. (Assista à cena)

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Superman - O Filme

17. SUPERMAN – O FILME. Richard Donner, 1978

Numa época com vários filmes de super-heróis estreando por ano, talvez seja difícil imagina o impacto do primeiro Superman. O primeiro filme de super-heróis de grande orçamento, levado a sério, equilibrando como poucos antes ou depois sensações de encantamento e piscadelas de “não dá pra levar tão a sério”; inocência e malícia. Acha o bom mocismo do herói engraçado, mas também crê que se alguém pode salvar gatinhos de árvores, é ele. Nos fez acreditar que não só um homem pode voar, mas filmes também podem. Minha cena: Mais de uma hora de filme rolando, o Super-Homem alça voo para salvar Lois Lane caindo do prédio. “Você me pegou? E quem pega você?”. (Assista à cena)

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Intriga Internacional

16. INTRIGA INTERNACIONAL. Alfred Hitchcock, 1959

Antes de James Bond, houve Roger Thornhill. O publicitário é enredado por engano em uma trama de espionagem internacional, cheia de ação, humor e cenários impactantes, como a famosa cena do ataque aéreo no milharal. Com isso, e Cary Grant no papel principal, roteiro de Ernest Lehmann no roteiro, Robert Burks na fotografia e Bernard Herrmann na trilha sonora, Hitchcock construiu um de seus filmes mais divertidos. Minha cena: O clímax no alto do Monte Rushmore. (Assista à cena)

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Rastros de Ódio

15. RASTROS DE ÓDIO. John Ford, 1956

Até um grande mestre como John Ford pode amadurecer e Rastros de Ódio é exemplo disso. A trama em que um ex-soldado e seu sobrinho mestiço caçam por anos a fio a tribo que matou a família de seu irmão e levou sua sobrinha tem uma série de subtextos na construção de suas cenas, na interpretação de alguns de seus atores, na postura de seus personagens. A voz dos nativos americanos começa a ser ouvida, o cara pálida já não é visto tanto como herói. Tudo começa a ficar embaralhado, sob a moldura estonteante do Monument Valley. Minha cena: John Wayne fica do lado de fora, uma das maiores imagens finais da história do cinema. (Assista à cena)

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Cacadores da Arca Perdida-17

14. OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA. Steven Spielberg, 1981

“Se a aventura tem um nome, o nome é Indiana Jones”, dizia o slogan do segundo filme da série, lançado três anos depois deste. A frase era herdeira deste primeiro, uma revisita aos seriados de aventura dos anos 1930 e 1940, não por acaso situando sua trama na mesma época. De alta velocidade e muito bom humor, com um personagem que já nasceu ícone, Caçadores e os demais da série são filmes também sobre o cinema. Minha cena: A sequência inicial no templo (alçapões, dardos envenenados voando, bola gigante) é uma sensacional apresentação do personagem. (Assista à cena)

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Novica Rebelde-02

13. A NOVIÇA REBELDE. Robert Wise, 1965

Numa década quando os musicais começavam a desaparecer, alguns ainda mostravam a força criativa do gênero. Um deles é A Noviça Rebelde, que tinha como alicerces o carisma absurdo de Julie Andrews, as paisagens embasbacantes de Salzburgo e a direção simétrica e inspirada de Robert Wise. E sete crianças que sustentam o charme geral do filme. Minha cena: Quando Julie ensina “Do-re-mi” às crianças, está nos ensinando tiodos a cantar. (Assista à cena)

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A Princesa e o Plebeu

12. A PRINCESA E O PLEBEU. William Wyler, 1953

O filme que revelou Audrey Hepburn ao mundo, como a princesa cansada de sua rotina diplomática real e que resolve dar um rolê em Roma por conta própria. Gregory Peck é o repórter espertinho que passa o dia com ela, sem mostrar que sabe quem ela, é para fazer uma reportagem. Os dois, claro, se apaixonam. Não era tão comum Hollywood filmar em locações na época, por isso o filme de Wyler aproveita o que pode da cidade eterna. Mas o trunfo é Audrey. Minha cena: A princesa vê o repórter entre seus pares e uma comunicação sem palavras vira um dos melhores finais de filmes já feitos. (Assista à cena)

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ET o Extraterrestre - 21

11. E.T., O EXTRATERRESTRE. Steven Spielberg, 1982

Segundo Spielberg, foi Truffaut quem disse a ele que o cineasta deveria fazer um filme para crianças. E deu extremamente certo a combinação de temas que já eram caros a ele (a ficção científica, o interesse curioso e simpático pelo outro que vem do espaço, a vida nas cidadezinhas americanas) com o ponto de vista infantil. Fora a mãe de Elliott, até a metade do filme todos os adultos são vistos da cintura para baixo, de costas ou com o rosto encoberto. ET é mais uma das crianças. Os adultos é que são os verdadeiros alienígenas. Minha cena: A fantástica corrida de bicicletas no clímax, com a música incrível de John Williams e o final na cena da Lua, agora tão icônica quanto a de Méliès. (Assista à cena)

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10. NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA. Woody Allen, 1977

Woody Allen vinha de uma série de comédias malucas, embora com algumas referências intelectuais e artísticas no tempero. O jogo virou aqui, quando passou a mirar nos relacionamentos modernos, a vida em Nova York e o pensamento cultural contemporâneo. Também apostou em uma narrativa mais aberta, não linear, com quebras sem aviso da quarta parede, inserção de animação, legendas que contrariam o diálogo, metáforas, um monte de coisas. E, com tudo isso, ainda é um filme engraçadíssimo, cheio de ótimos personagens, uma Diane Keaton divina e possui uma abertura e encerramento antológicos, dignos de um maravilhoso humorista que entende bem o seu ofício. Minha cena: Allen e Keaton travam uma paquera quase surrealista no apartamento dela, e legendas mostram o que estão realmente pensando. (Assista à cena)

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9. OS INTOCÁVEIS. Brian De Palma, 1987

Al Capone, fazendo a barba (visto totalmente de cima), diz que há violência em Chicago, mas não vinda dele. Em seguida, uma garotinha corre atrás de um homem para entregar a sacola que ele esqueceu e um bar – e a sacola explode. Corta para uma mulher preparando a marmita do marido e, no fim de um plano sequência ao som de Ennio Morricone, está o marido, de costas, agoniado pela notícia da explosão, que acaba de ler no jornal. É Eliott Ness, mas só veremos seu rosto e ouviremos sua voz na cena seguinte, quando assume a liderança da guerra contra os gangsters. É o começo sensacional de Os Intocáveis e o filme continua assim – até o final. De Palma usa todo o seu arsenal narrativo (só não tem a tela dividida, mas por pouco), numa maravilhosa releitura dos filmes de gangsters de era clássica. Minha cena: o tiroteio na escadaria da estação de trem – câmera subjetiva, câmera lenta, uso seletivo do som, o carrinho de bebê citando diretamente O Encouraçado Potemkin. (Assista à cena)

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casablanca

8. CASABLANCA. Michael Curtiz, 1942

“De todas as biroscas em todas as cidades do mundo todo, ela tinha que entrar logo na minha…”. O durão Rick (Humphrey Bogart) sofria por amor em Casablanca desde que Ilsa (Ingrid Bergman) não apareceu para a fuga juntos quando os nazistas tomaram Paris (“Lembro de tudo: os alemães vestiam cinza e você, azul”). Ela reaparece casada com um líder da resistência contra os nazistas (“De todos os cantos da Europa, centenas, milhares se levantarão para tomar nosso lugar. Nem mesmo os nazistas podem matar tão rápido”). E a chama, apesar de tudo, reacende (“Nós sempre teremos Paris”). Um festival de classe, romance e frases maravilhosas nos diálogos. E olha que o roteiro foi sendo re-escrito durante as filmagens! Minha cena: Bogart, Bergman, o aeroporto, ela vai ou fica? (“Nossos problemas são só um bocado de feijões nesse mundo louco”). (Assista à cena)

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Poderoso Chefao - 27

7. O PODEROSO CHEFÃO. Francis Ford Coppola, 1972

“Eu acredito na América”. O impressionante começo nos introduz a um balé visual (com fotografia de Gordon Willis, o príncipe das trevas) de um épico intimista, um filme sobre família com sangue respingando na tela, amor verdadeiro, mas ódio não – porque não é pessoal, são negócios. Com a ressurreição artística de um Marlon Brando assombroso, talvez só Casablanca possa concorrer com este filme no quesito diálogos inesquecíveis. Minha cena: Michael Corleone (Al Pacino) batiza o filho da irmã e renega Satanás; ao mesmo tempo, seus inimigos são detonados um a um, sem piedade. (Assista à cena)

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O Homem que Matou o Facinora

6. O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. John Ford, 1962

“Aqui é o Oeste. Quando a lenda se torna verdade, imprima-se a lenda”. A frase parece fazer todo o sentido quando se olha em retrospecto para a carreira de John Ford, um grande mitificador do gênero. Aqui, no entanto, ele parece querer botar mais os pés no chão. Fala de política, de educação, de imprensa livre, da civilização tentando se instalar no meio da barbárie. John Wayne, seu grande herói havia décadas, deixa o protagonismo para o advogado fracote e idealista vivido por James Stewart. Os dois travam um duelo moral impressionante pelo filme adentro. E Lee Marvin, o Liberty Valance do título original e o facínora no título brasileiro, faz valer o epíteto: é um dos grandes vilões do cinema. Minha cena: A sentença definitiva. (Assista à cena)

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Luzes da Cidade-02

5. LUZES DA CIDADE. Charles Chaplin, 1931

Diretor, roteirista, astro, autor da trilha sonora e dono do próprio estúdio, Chaplin podia se dar esse luxo: parar a produção do filme até encontrar a maneira ideal de fazer com que, sem palavras, uma florista cega confundisse um maltrapilho com um milionário. Ele testou várias ideias até chegar àquela que ajudou a transformar o filme numa joia do cinema. Mas isso (as ideias exatas, na medida exata) vem desde a abertura: ele começa seu primeiro filme após o advento do cinema falado mostrando seu nariz torcido para os diálogos e amor pelo cinema mudo. E vai até o último plano. Minha cena: “Agora você pode ver?”; “Sim, agora eu posso”. Possivelmente o melhor final de filme de todos os tempos. (Assista à cena)

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Felicidade Nao Se Compra

4. A FELICIDADE NÃO SE COMPRA. Frank Capra, 1946

Integrando a não pequena lista de filmes que não fizeram sucesso de público quando lançados, mas que depois acabaram redescobertos e alçados à condição de clássicos, esta fábula de Capra traz os componentes de otimismo costumeiros na obra do diretor. Eles estão concentrados no personagem de James Stewart, um rapaz que quer viver aventuras pelo mundo, mas é obrigado a ficar em sua cidadezinha cuidando da companhia de crédito do pai, através da qual pessoas pobres podem financiar casas, fugindo do banco do ricaço da cidade. Um revés, porém, o faz acreditar que seria melhor que ele nunca tivesse existido. E aí entra em cena um anjo que o mostrará o contrário. Minha cena: O final, uma linda ode à amizade, já citado diversas vezes em outros filmes. Feliz Natal! (Assista à cena)

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Janela Indiscreta

3. JANELA INDISCRETA. Alfred Hitchcock, 1954

Preso a seu apartamento por causa da perna engessada, um fotógrafo começa a desconfiar que o morador de um apartamento do prédio em frente deu um fim na esposa. James Stewart, Grace Kelly e Thelma Ritter, que trio! Em um filme que Hitchcock conduz praticamente todo dentro do apartamento do fotógrafo, contando pequenas histórias nas janelas que Stewart observa. Minha cena: Uma metáfora linda do cinema quando Grace invade o apartamento suspeito. E aquele final com o anel! (Assista à cena)

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Crepusculo dos Deuses

2. CREPÚSCULO DOS DEUSES. Billy Wilder, 1950

“Você é Norma Desmond. Você era grande”. “Eu SOU grande. Os filmes é que ficaram pequenos”. O encontro entre um roteirista fracassado e cínico (William Holden) e uma estrela do cinema mudo esquecida desde que o som apareceu (Gloria Swanson) resultou em um dos maiores socos na cara do cinema contra ele mesmo. Billy Wilder metralha diálogos antológicos, mistura influências do filme noir com diversas referências ao cinema mudo (a começar pela própria Gloria, ela mesma uma estrela cuja carreira acabou com o advento do som). Minha cena: O final inesquecível, o derradeiro protagonismo da estrela em frente às câmeras, se dirigindo à plateia, descendo mais fundo ao inferno da loucura. (Assista à cena)

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1. CANTANDO NA CHUVA. Gene Kelly e Stanley Donen, 1952

Mesmo quem não curte musicais costuma ser simpático a Cantando na Chuva. Não é para menos. Ao lado de seus números musicais, o filme é uma comédia irresistível. Além disso, é cheio de saborosas referências à transição do cinema mudo para o cinema falado. Além disso, tem Jean Hagen como uma incrível Lina Lamont, a estrela do cinema mudo que se vê em apuros quando surge o som porque tem uma voz esganiçada. Além disso, tem Cyd Charisse, que não diz uma palavra, mas explode na tela como a mulher fatal do número “Broadway melody ballet”. Além disso, tem Debbie Reynolds, 19 aninhos, acompanhando à altura os monstros da dança Gene Kelly e Donald O’Connor em “You were meant for me” e “Good morning”. Além disso, tem um dois dos melhores números de sapateado do cinema em “Moses supposes” (o outro é “Begin the beguine”, com Fred Astaire e Eleanor Powell em Melodia da Broadway de 1940). Além disso, tem Gene Kelly com talento até debaixo d’água naquela cena que não pode faltar em nenhuma antologia do cinema que preze seu nome. Minha cena: “Singin’ in the rain” é icônica, mas a que mais me faz sorrir é Gene e Donald aprontando com o professor de dicção em “Moses supposes”. É simplesmente o máximo. (Assista à cena)

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