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Minha coluna de hoje na CBN pode ser ouvida na internet. Falei da cerimônia borocoxô do Oscar; da estreia no Disney Plus de Cosmos, versão com Neil DeGrasse Tyson da série clássica com Carl Sagan; de Apocalypse Now – The Final Cut, a (até agora) versão definirva do clássico de Francis Ford Coppola, de graça na internet; e dos 80 anos do mitológico Cidadão Kane. Ouça aqui!

MANK
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 53

Tributo a um roteiro

Mank é sobre Herman J. Mankiewicz, o roteirista. Mas o filme é também sobre um roteiro: o que ele escreveu para Cidadão Kane (1941), obra seminal do cinema. Como fazer um filme sobre um sujeito preso a uma cama por causa de uma perna quebrada, ditando palavras a uma assistente?

Para a sorte do filme, o roteirista teve uma vida agitada, autodestrutiva (era um beberrão e apostador tão compulsivo que perdia milhares de dólares numa aposta sobre em quanto tempo uma folha cairia da árvore). Conviveu com poderosos, contrabandeando fatos e fofocas sobre eles para seu texto, uma biografia (mal) disfarçada de William Randolph Hearst, magnata da imprensa.

E ainda enfrentou Orson Welles, garoto-prodígio com uma presença (e ego) descomunal, para conseguir ter crédito no filme (para os registros: Mank escreveu o primeiro tratamento sozinho e boa parte das melhores ideias do filme são dele, mas Orson adicionou coisas depois). Além de tudo isso, tinha uma verve especial que o fazia vomitar em um jantar chique e emendar: “Não se preocupem: o vinho saiu junto com o peixe”.

David Fincher presta seu tributo ao cinema dos anos 1940 em geral e a Kane em particular tentando fazer com que seu filme pareça o máximo possível com uma produção daquela época, com uma direção de arte premiada com o Oscar (as filmagens do roteiro sendo escrito aconteceram no mesmo rancho em que o roteiro foi realmente elaborado). Mank emula especificamente Kane na fotografia em preto-e-branco que abusa da contraluz e da penumbra (de Erik Messerschimdt) e na música de Trent Reznor e Atticus Ross. E no roteiro que não segue uma estrutura de começo, meio e fim.

Mank também conta sua história através de um roteiro não linear, o que hoje é comum, mas era raro no começo dos anos 1940, quando Mankiewicz se atreveu a construir Kane assim. A diferença é que Kane é conduzido por depoimentos que levam aos flashbacks. Mank simplesmente vai e volta no tempo em 1939 e 1930 para mostrar elementos que marcaram a vida do roteirista e o teriam influenciado no roteiro.

Mank testemunhou a intimidade dos poderosos flutuando em sua realidade própria acima dos pequenos. Kane seria uma combinação entre Hearst, L.B. Mayer (dono da Metro) e o próprio Orson Welles.

Mas o filme reforça dois pontos em particular. Um é a atriz Marion Davies, amante de Hearst, para quem ele construiu San Simeon, uma propriedade nababesca que incluía até um zoológico. No filme, Mankiewicz vê como a esperta e engraçada Marion era forçada por Hearst, que financiava as produções que ela estrelava, a fazer melodramas. O paralelo dela em Kane é muito desfavorável e Mank, o personagem, repete que a personagem em seu roteiro não é Marion. Mank, o filme, tenta, assim, resgatar Marion Davies da imagem dela que Cidadão Kane, de propósito ou sem querer, cristalizou através dos tempos.

O outro ponto é político, a partir de uma eleição para o governo da Califórnia, onde o candidato de esquerda é sabotado por fake news: a edição de cinejornais encenados e com depoimentos inventados. Uma relação direta com o tempo em que vivemos, portanto.

Mank, então, faz mais sentido para quem viu Cidadão Kane? Certamente, e ainda mais para quem conhece as fofocas de bastidores – a contribuição de Mankiewicz em Kane foi obscurecida por anos a fio, mas foi resgatada por um artigo da crítica Pauline Kael republicada no livro Criado Kane e Outros Ensaios, base clara para este filme.

Para quem não viu Cidadão Kane, o que acontece? Não tenho como afirmar isso. É possível que a história de Mankiewicz, um bêbado na corda bamba, seja atraente. Mas aí só esse perfil de público pode dizer. O ideal, claro, é que todo mundo conhecesse bem Cidadão Kane. Independente de Mank.

Onde ver: Netflix

Mank, 2020.

Direção: David Fincher. Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey.

OS 7 DE CHICAGO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 52

Justiça tumultuada

Filmes de tribunal enfrentam sempre um dilema. O drama está sempre na palavra, o que há de imagem para mostrar além de pessoas falando? Aaron Sorkin, aqui diretor e roteirista, tenta resolver a questão basicamente com a montagem em Os 7 de Chicago.

O filme começa em alta voltagem, entrelaçando cenas reais de arquivo com outras com o elenco, cujos personagens vão sendo identificados por créditos na tela (alguns vão reclamar que o recurso é muito “televisivo”, mas não tem nada demais, Scorsese também já fez).

O tumulto que levou oito líderes diferentes de ativistas contra a guerra do Vietnã a serem julgados por incitarem a violência em Chicago durante a convenção do Partido Democrata não é mostrado no começo. Começamos a acompanhar a trama pelo julgamento e voltamos aos acontecimentos pelos depoimentos. Um recurso que também não é nenhuma novidade.

“Oito líderes”, você disse? Sim, oito estão sendo julgados. Sete representados pelo mesmo advogado e também Bobby Seale, dos Panteras Negras, que insiste que tem um advogado próprio. Ele não está presente, mas o juiz segue com o julgamento mesmo sem ele estar sendo legalmente defendido.

Esse caso é um dos mais emblemáticos julgamentos parciais e manipulados da história americana. O juiz ignora provas e depoimentos, pré-julga os réus desde o início, a procuradoria manipula a formação do júri. Sergio Moro ficaria orgulhoso.

Sorkin segue fazendo o que pode para que o filme não fique apenas no embate verbal. Ele ressalta as diferenças entre os réus (principalmente entre o certinho Tom Hayden vivido por Eddie Redmayne e o porralouca Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen). A narração dos acontecimentos passa a misturar freneticamente o interrogatório no tribunal, uma apresentação stand up de Abbie Hoffman, discussões privadas.

Esse vai e vem no tempo quase que é um reflexo narrativo dos ânimos exaltados e do tumulto nas ruas de que o filme trata. Às vezes é confuso em excesso, não consegue passar direito todas as informações. Mas é uma tentativa de sair da mesmice em que os filmes desse subgênero podem cair.

Esse quebra-cabeças sobre uma trama que parece mais simples do que como é mostrada tem, como trunfo, um poderoso elenco. Frank Langella, como um dos mais odiosos juízes do cinema; Joseph Gordon-Levitt, como o promotor que faz seu trabalho, mas tem sua ética; Mark Rylance, como o advogado de defesa; Michael Keaton, como um ex-procurador geral dos EUA. Atores sólidos, que mantêm o filme no prumo, nessas idas e vindas narrativas.

Onde ver: Netflix

The Trial of Chicago 7, 2020.
Direção: Aaron Sorkin. Elenco: Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Joseph Gordon Levitt, Frank Langella, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Michael Keaton, Caitlin Fitzgerald.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback

MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 50

Álbum de memórias

Minari é um daqueles filmes que precisam de bula? Faz diferença para o espectador saber que o que está na tela são memórias do diretor? Como é a recepção para o espectador que sabe disso e como é para aquele que vê como um filme contando uma história completamente inventada?

Uma parcela de quem não sabe do que está por trás do roteiro pode sair reclamando de mais um filme onde, na maior parte do tempo, “não acontece nada”. Quem conhece vai se emocionar mais com os pequenos acontecimentos na vida de uma família de imigrantes coreanos que se arrisca a tocar do zero uma fazenda no interior do Arkansas, nos EUA.

Não há nem uma grande questão com o preconceito. A quase totalidade dos conflitos está ali entre os integrantes da própria família: o pai que insiste na fazenda, a mãe que não compartilha desse sonho, o filho com problema no coração que não aceita bem a chegada da avó. A unidade da familia está em jogo, até mesmo quando chegam questões maiores, principalmente uma doença que vai desencadear outras situações.

O diretor-roteirista Lee Isaac Chung é americano no Colorado, filho de imigrantes coreanos. Ele consegue fazer um filme americano com um ponto de vista dos imigrantes que não parece uma “visão americana de um ponto de vista estrangeiro”. A maior parte falada em coreano, inclusive.

Há também uma excelente distribuição da atenção do filme entre os cinco membros da família. Isso, aliado a essa intensidade baixa na narrativa, lembra um pouco o ótimo As Coisas Simples da Vida (2000), de Edward Yang, co-produção Taiwan-Japão. Talvez, indo mais longe na ideia e no tempo, seja um herdeiro da obra cineasta japonês Yasujiro Ozu.

Não é uma credencial desprezível. Minari pode conquistar o espectador que se deixar levar por ele e pelos ótimos atores que dividem as alegrias e angústias dessa família. Como conquistou os votantes dessa temporada do Oscar, os quais o indicou em seis categorias, incluindo melhor filme e atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, a avó, atriz respeitadíssima na Coreia e com grandes chances de vencer).

Onde ver: cinemas

Minari, 2020.
Direção: Lee Isaac Chung. Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn.

MEU PAI
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 49

Labirinto mental

O título brasileiro verteu The Father para Meu Pai, mas isso não combina muito porque o ponto de vista do filme de Florian Zeller não é o da filha vivida por Olivia Colman. É inteiramente o do pai, Anthony, papel de um muito inspirado Anthony Hopkins.

Ele é o idoso londrino que vive sozinho em seu apartamento e resiste à ideia de ter uma cuidadora. A filha está tentando convencê-lo, já que vai se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo diariamente.

A segurança de Anthony consigo mesmo vai, no entanto, sendo colocada em xeque. De repente, o ex-marido da filha está no apartamento dizendo que o casal (que não se separou) é o dono do lugar e Anthony é que foi morar com eles. Ou a filha volta das compras, mas está completamente diferente. Ou situações já vividas parecem se repetir pouco depois.

Anthony estaria perdendo o juízo ou estariam tentando confundi-lo?

O filme é baseado em uma peça de sucesso de Florian Zeller, dramaturgo francês muito respeitado, que estreia na direção de cinema e que adaptou o texto com a ajuda de outro grande dramaturgo, o britânico (mas nascido em Portugal) Christopher Hampton. Para o papel, sua única opção era Anthony Hopkins. Tinha razão.

Filmes que tentam traduzir o que se passa na mente de seus protagonistas podem resultar numa grande jornada narrativa, e os bons exemplos vêm desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920). A ideia é fazer o espectador compartilhar ao máximo do sentimento de desconforto do personagem central.

A tática é bem empregada aqui, e uma chave importante para isso é Hopkins nos entregar um performance que consegue fácil a nossa empatia. Isso ajuda o espectador a passar por um trajeto que não é fácil: a deterioração da mente de um homem.

O filme poderia estabelecer um suspense, mas o objetivo não é estabelecer um jogo em que o espectador deve desvendar o que verdade ou mentira, se o protagonista está doente ou o estão enganando. Meu Pai deixa claro a confusão mental de Anthony quando, em sua primeira cena, mostra a chegada da filha Anne sem ser pela visão dele. É, aí, uma narrativa em terceira pessoa, a nossa visão objetiva do fato.

Por isso, quando Anne reaparece vivida por outra atriz, sabemos que é coisa da cabeça de Anthony, que estamos vendo isso pelos olhos dele. E que não deve ser essa a realidade.

Então, o que resta ao espectador é testemunhar, de dentro, a mente de um octogenário definhando. Como vemos a maior parte do filme por sua visão, sabemos pouco se o que estamos vendo é real (o relógio sempre perdido, o quadro na parede que some, o frango no jantar que se repete, uma sacola que muda de cor), a não ser pela âncora que são as cenas com a filha em que ele não está presente. Na maior parte do tempo, Meu Pai é um labirinto bem arquitetado, mas, talvez, sem final.

Onde ver: cinemas, Belas Artes a la Carte, Now, iTunes, Google Play, Sky Play (a partir de 28/4), Vivo Play (a partir de 28/4)

The Father, 2020.
Direção: Florian Zeller. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell.

NOMADLAND
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 18

Ventos neo-realistas

O filme que ganhou o Globo de Ouro, o Bafta e é aposta forte para o Oscar é uma visão atenta e generosa sobre pessoas que são obrigadas ou que de alguma maneira optam viver em trailers nas estradas e de subempregos. Frances McDormand, excelente como sempre, é a protagonista, que contracena com diversos coadjuvantes que interpretam a si mesmos.

Com isso, a diretora Chloé Zhao reforça a pegada de realismo social e de observação sobre uma realidade econômica que muita gente prefere colocar pra baixo do tapete. No caso de Fern, a personagem de Frances McDormand, ela não foi levada a essa situação só por ter perdido o emprego: ela perdeu uma cidade inteira.

O local onde morava virou uma cidade-fantasma depois que a fábrica onde todos trabalhavam foi fechada. Se tornou uma nômade e descobriu que existe uma comunidade de nômades que se apoiam durante a jornada errante. Frances mergulhou na personagem, dormindo na van e trabalhando nas funções em que a personagem trabalha.

Então, muito do filme tem esse caráter de documentário, dedicado a mostrar a rotina desse modo de vida, as relações que se criam, os encontros e desencontros. Essa urgência em retratar uma questão atual, com uma atriz profissional de grande gabarito contracenando com não-atores que fazem parte do meio retratado, aproxima o filme de movimentos neo-realistas, como o iraniano dos anos 1990 ou, indo mais longe no tempo, o italiano dos anos 1940 e 1950.

A trama, por sua vez, não apresenta uma história com começo, meio e fim. Nomadland é um filme que apresenta uma situação e suas particularidades. Como seus personagens, vai um pouco com o vento. E, com isso, sem apelar para o melodrama, consegue momentos muito humanos e tocantes.

Onde ver: cinemas

Nomadland, 2020.
Direção: Chloé Zhao. Elenco: Frances McDormand, David Strathairn, Swankie.

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 3

O encanto irresistível de Forrest Gump permanece. A história de Forrest, o sujeito de inteligência limitada que por acaso vai tomando parte de momentos capitais da história dos EUA entre os anos 1950 e 1980, contrasta com a de Jenny, a garota que ele sempre amou. Forrest conhece presidentes, sobrevive à guerra, enriquece, mas só pensa nela e nos amigos, Ela corre atrás de todos os modismos tentando ficar famosa e nunca consegue.

Narrada em tom de fábula, dosando a maior parte do tempo o melodrama com a comédia, e de uma época em que o diretor Zemeckis usava efeitos especiais, mas era mais interessado em gente do que na técnica. Era um equilíbrio maravilhoso, que deu certo tantas vezes. Foi muito bom rever, mesmo que Sessão de Sábado da Globo, que criminosamente espremeu as 2h22 de filme em inacreditáveis 1h50.

Onde ver: DVD, blu-ray, Netflix, Telecine Play, Globoplay, Vivo Play, UOL Play, Apple TV

Forrest Gump, 1994
Direção: Robert Zemeckis. Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Sally Field, Gary Sinise.

Green Book

Diário de Filmes 2020: 16

Este Conduzindo Miss Daisy ao contrário espelha o filme de 1989 até no fato de ter vencido o Oscar de melhor filme e ser quase unanimemente considerado uma escolha bem infeliz. Não que seja um mau filme. Se propõe a falar de racismo expondo algumas complexidades. Um branco pobre, um negro rico. Um branco racista, mas que gosta mais de dinheiro do que não gosta de negros. Um negro que não se identifica com a cultura que se esperaria de um negro. Mas que resolve, a seu modo e com seu talento, enfrentar o racismo de parte da nação. E por aí vai. Só que o desenrolar da trama é mostrada de maneira totalmente esquemática. É uma trama interessante, mas contada de maneira banal.

GREEN BOOK – O GUIA (Peter Farrelly, 2019)

1917-2

1917
O cinema em movimento

Diário de Filmes 2020: 12

Espectadores têm interesses diferentes quando vão assistir a um filme. Alguns esperam que uma produção apontada como um grande filme seja algo que os arrebate, uma catarse emocional. Outros se interessam mais pela história em si ou por um conteúdo “importante”.

Este crítico até escreveu brevemente sobre isso uma vez.

Nesta visão pessoal, o cinema é como aquela história: mais importante que a piada, é o jeito como ela é contada. A história de um filme é importante, mas, mais importante ainda é como ela é narrada. A narrativa é tudo.

1917 se encaixa aí. Lembra um filme de Howard Hawks: homens com um trabalho a cumprir, custe o que custar. Em volta disso, há os dramas pessoais e o comentário sobre o cenário geral. Que, no caso, é a I Guerra Mundial.

A partir de um momento idílico, do descanso sob uma árvore em campo aberto, a câmera acompanha dois soldados convocados enquanto entram nas trincheiras e tudo vai ficando gradativamente mais apertado e claustrofóbico. Eles guiam o espectador para dentro da guerra.

É o começo do brilhante trabalho de Sam Mendes, o diretor, e Roger Deakins, o diretor de fotografia, na condução da série de planos-sequências — editados como se fossem dois, longuíssimos. Dois segmentos de narração como se fossem filmados em tempo real na jornada dos soldados que devem chegar a tempo para avisar uma tropa a não realizar um ataque que, na verdade, é uma armadilha. Se conseguirem, evitarão mais de mil mortes do lado britânico.

Nessa corrida, eles vão tendo que lidar com diversas situações que servem como um panorama da I Guerra Mundial, mesmo que alguns detalhes possam soar, ao pé da letra, como incorreção histórica. Algumas acontecem para propósitos dramáticos, outras provavelmente para de alguma maneira ampliar o confinamento narrativo do filme e trazer certas informações (como, por exemplo, o indiano que aparece servindo junto a um regimento de soldados brancos — indianos eram colocados em seu próprio regimento).

Como escreveu o Verissimo, a decisão dos planos-sequência encadeados e disfarçados como se fossem um só passa longe de um maneirismo vazio e exibicionista. É uma estética que serve ao movimento constante dos personagens e da ação. O movimento é a alma do filme, os planos-sequência também.

Seria um filme muito diferente e bem menos interessantes, caso não tivesse optado por essa maneira de contar a história? Certamente. Mas é por isso que é cinema: porque a maneira de contar a história é crucial. 1917 é um “filme-filme”, como escreveu a Ana Maria Bahiana. Ser cinema é a própria razão de ser do filme.

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Todo ano, dias antes do Oscar, é a mesma coisa: o Oscar erra, o Oscar é injusto. É evidente que sim.

Às vezes o lobby fala mais alto, às vezes existe um ranço contra alguém, às vezes a consciência geral sobre a grandeza de um filme acaba vindo muito depois de ele ser lançado e não no momento.

Há casos de escolhas inacreditáveis em todas as categorias. Aqui embaixo vem um top 10 de grandes injustiças só na categoria melhor filme.

Mas o Oscar acerta também. Muitas vezes, e acho que há mais acertos do que erros clamorosos. E aí é preciso entender o seguinte: algumas vezes eu posso achar que o filme eleito não é o melhor, mas também não achar a escolha absurda. Em tempos de polarização radical, essa perspectiva pode parecer incompreensível, mas eu a tenho.

Por exemplo, Moonlight ganhou em 2017, mas não era meu preferido para vencer, que seria La La Land ou Manchester à Beira-Mar. Mas tudo bem, não considero “um erro”. Há um espectro de possibilidades que considero aceitável.

Mas, como eu dizia, o Oscar acertou muitas vezes. Acertos cravando filmes que se tornaram clássicos incontestáveis ou opções certeiras em anos mais divididos.

Vamos às duas listas, então. Elas se referem unicamente à categoria de melhor filme e, para efeito de referência, levando em conta apenas os filmes indicados. Os anos são da cerimônia em que os filmes concorreram:

TOP 10 JUSTIÇAS DO OSCAR:

humphrey bogart & ingrid bergman - casablanca 1943

1 — 1944: CASABLANCA

Poderoso Chefao - 27

2 — 1973: O PODEROSO CHEFÃO

Lawrence da Arabia

3 — 1963: LAWRENCE DA ARÁBIA

 

Se Meu Apartamento Falasse-02

4 — 1961: SE MEU APARTAMENTO FALASSE

Imperdoaveis - 01

5 — 1993: OS IMPERDOÁVEIS

lista-de-schindler-043

6 — 1994: A LISTA DE SCHINDLER

Poderoso Chefao2-04

7 — 1975: O PODEROSO CHEFÃO — PARTE II

Novica Rebelde-02

8 — 1966: A NOVIÇA REBELDE

Aconteceu Naquela Noite-05

9 — 1935: ACONTECEU NAQUELA NOITE

Golpe de Mestre - 11

10 — 1974: GOLPE DE MESTRE

***

TOP 10 INJUSTIÇAS DO OSCAR:

Todos os Homens do Presidente-07

“Todos os Homens do Presidente”

1 — 1977: Quem concorria: TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE; TAXI DRIVER; REDE DE INTRIGAS
Quem venceu: ROCKY, UM LUTADOR

Boa Noite e Boa Sorte-08

“Boa Noite e Boa Sorte”

2 — 2006: Quem concorria: BOA NOITE E BOA SORTE; O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
Quem venceu: CRASH — NO LIMITE

cidadao-kane-19

“Cidadão Kane”

3 — 1942: Quem concorria: CIDADÃO KANE
Quem venceu: COMO ERA VERDE O MEU VALE

Touro Indomavel - 03

“Touro Indomável”

4 — 1981: Quem concorria: TOURO INDOMÁVEL
Quem venceu: GENTE COMO A GENTE

Roma - 01

“Roma”

5 —  2019: Quem concorria: ROMA; INFILTRADO NA KLAN
Quem venceu:-GREEN BOOK —  O GUIA

Tigre e o Dragao-2

“O Tigre e o Dragão”

6 — 2001: Quem concorria: O TIGRE E O DRAGÃO; TRAFFIC
Quem venceu: GLADIADOR

Resgate do Soldado Ryan - 01

“O Resgate do Soldado Ryan”

7 — 1999: Quem concorria: ELIZABETH; A VIDA É BELA; O RESGATE DO SOLDADO RYAN
Quem venceu: SHAKESPEARE APAIXONADO

Bons Companheiros - 01

“Os Bons Companheiros”

8 — 1991: Quem concorria: OS BONS COMPANHEIROS
Quem venceu: DANÇA COM LOBOS

Cacadores da Arca Perdida - 01

“Os Caçadores da Arca Perdida”

9 — 1982: Quem concorria: OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA; REDS
Quem venceu: CARRUAGENS DE FOGO

Fargo - 01

“Fargo”

10 — 1997: Quem concorria: FARGO
Quem venceu: O PACIENTE INGLÊS

Roma - 01

ROMA (Alfonso Cuarón, 2018)
⭐⭐½
Diario de Filmes2019: 3

Nostalgia embalada em estética poderosa, Roma é um canto a um lugar e época bem específicos: um bairro da capital mexicana nos anos 1970. E se apoia num microcosmo que engloba questões de classe, étnicas, turbulência política, dramas pessoais. É uma narrativa que, mais que contar uma história que vai de um ponto inicial a uma conclusão, é uma observação emotiva sobre eventos episódicos, que mudam tudo e não mudam nada. E elevou a produção de longas para streaming a outro patamar.

Na Netflix.

O novo filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski, de Ida, é um romance que se passa no contexto da guerra fria, nos anos 1950, na Polônia, mas passando por outras cidades da Europa. Ganhou o prêmio de direção em Cannes e concorre pela Polônia a uma vaga no Oscar de filme de língua não inglesa. Como Ida, que ganhou o Oscar, este também é em preto-e-branco e formato de tela 4×3. Estreia no Brasil: 7 de fevereiro.

A animação brasileira Tito e os Pássaros ganhou o Anima Mundi, foi selecionado para o Fesyival de Annecy e está pré-indicado ao Oscar de longa de animação. Na história, um garoto e seus amigos enfrentam uma epidemia de medo que assola o mundo. Olha só o visual do filme de Gustavo Steinberg. Ainda não há data para o lançamento no Brasil, que eu saiba.

Forma da Agua - 02

Sally Hawkins e Doug Jones: com tudo o que têm direito

A FORMA DA ÁGUA
Sem borda - 04 estrelas

Testando as intolerâncias

. por Renato Félix

Guillermo del Toro é conhecido por amar monstros, mas ele ama, sobretudo, algumas facetas do cinema do passado, que ele vai revisitando em seus filmes. Ele salpica de referências seu A Forma da Água, que ganhou o Festival de Veneza e o Oscar de melhor filme (quatro, no total). A mais óbvia, claro, é que seu homem-anfíbio remete  diretamente a O Monstro da Lagoa Negra (1954), filme B que ganhou status de cult com o tempo.

A criatura desperta a empatia da faxineira muda vivida pela excelente Sally Hawkins, funcionária do laboratório secreto que o aprisiona. Ela é um tipo entre Chaplin e Amélie Poulain. O envolvimento cresce até que ela decide salvá-lo.

O coquetel de referências e citações mais e menos diretas gerou um certo debate sobre se isso diminui ou não o filme. Mesmo que isso não seja nenhuma novidade no cinema, de algumas décadas para cá. As referências a um cinema do passado são a base do cinema de Quentin Tarantino, por exemplo.

Falou-se em cópia e até em plágio. A relação entre Elisa, a personagem de Hawkins, e o homem-anfíbio vivido por Doug Jones, remete facilmente às versões de King Kong (1933/ 1976/ 2005) ou a ET (1982). E já anda na internet um meme que mostra que há muitos pontos em comum com a trama de Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984).

Mas há uma diferença fundamental. Em Splash, o “peixe” é metade Daryl Hannah, que ainda deixa de lado a cauda para se tornar totalmente Daryl Hannah nos momentos convenientes. È bem mais fácil para o público aceitar o amor entre diferentes quando eles não são assim tão diferentes: romances entre seres humanos e seres não humanos não são novidade no cinema – desde que o não humano seja, basicamente, uma figura humana.

Em A Forma da Água, Del Toro busca um equilíbrio difícil nesse sentido. Procura não facilitar tanto para a plateia, mas também não pode perdê-la. Aqui, o anfíbio ainda é uma forma humanoide, anda em duas pernas, tem dois olhos e uma boca (um  rosto reconhecível), mas as semelhanças parecem parar por aí. A pele é escamosa, os olhos são diferentes, ele não “fala”.

O filme tenta sustentar a estranheza da plateia, enquanto vai tentando vencê-la mesmo assim, através do lirismo. Elisa vai descobrindo e mostrando ao espectador que há sentimentos e inteligência ali. A Forma da Água testa o espectador, convidando a vencer a resistência a esse “amor diferente”. E nesse ponto é um amor romântico correspondido e nada de platônico, com tudo o que tem direito, inclusive sexo.

Assim, A Forma da Água não é tanto uma ficção científica ou um filme de monstro tradicionais. Testado em suas intolerâncias, cabe ao espectador embarcar ou não nessa fantasia romântica, com uma dose forte de nostalgia. Del Toro chega a incluir um número musical aos moldes dos anos 1930, outra referência cinéfila usada pelo diretor – mas, mais uma vez provocando o espectador, colocando seu monstro como um Fred Astaire.

A cena é outra referência direta, no caso ao número “Let’s face the music and dance”, com Fred e Ginger Rogers, de Nas Águas da Esquadra (1936). Vencer a estranheza é ser brindado pelo belo momento em que Elisa ganha uma voz além dela, como o musical clássico hollywoodiano costumava ser o sentimento além do sentimento.

Testado em suas intolerâncias (há paralelos com racismo e homofobia ao longo do filme, com nos personagens de Octavia Spencer e Richard Jenkins), cabe ao espectador embarcar ou não nessa fantasia romântica, com uma dose forte de nostalgia. Boa parte da trama se passa em apartamentos sobre um cinema exibindo A História de Ruth (1960) e As Noites de Mardi Gras (1958). Efetivamente, o cinema em si é o alicerce de A Forma da Água.

A Forma da Água. The Shape of Water. EUA, 2017. Direção: Guillermo del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Doug Jones.

The Post

Meryl Streep e Tom Hanks: entre o furo e a prisão

THE POST – A GUERRA SECRETA
Estrelas-03 e meia juntas-site

A urgência do deadline

Para usar um termo da moda, The Post – A Guerra Secreta (2017) é uma espécie de prequel de Todos os Homens do Presidente (1976): uma continuação cuja história se passa antes do original. Enquanto o filme de Alan J. Pakula tratava da investigação do Washington Post que resultou no escândalo Watergate e na renúncia de Nixon, o filme de Spielberg em cartaz mostra o mesmo jornal às voltas com o mesmo presidente e o vazamento de documentos que mostravam que o governo americano vinha mentindo sobre o Vietnã, mesmo muitos anos antes da guerra.

Claro que Todos os Homens do Presidente já possui uma aura com a qual é muito difícil concorrer, mas The Post tomou a opção de assumir explicitamente a influência e buscar um espelho narrativo e visual – a ponto de seu último plano ser igual ao primeiro do filme de Pakula. Uma “emenda retroativa” maior até que a de Rogue One (2016)/ Guerra nas Estrelas (1977).

O filme é centrado principalmente em seus dois personagens centrais: Katharine Graham, dona do Washington Post, e Ben Bradlee, editor. Ele é vivido em Todos os Homens do Presidente por Jason Robards, mas ela não aparece no filme de Pakula. The Post busca, de certa forma, fazer justiça a Graham. Até por isso, no filme de Spielberg, Bradlee é movido pela competição e pela adrenalina da notícia – um retrato tradicional do jornalista de redações de filmes – enquanto a jornada dela é mais complexa.

Katharine é retratada como uma dondoca que herdou do pai e do marido um jornal com o qual não tem muita familiaridade e que se sente mais à vontade circulando na alta roda entre ricaços e políticos. Nos negócios, não é levada muito a sério por seus pares. Sucedendo o pai e o marido, sua presença nas mesas de reuniões parece uma anomalia. Seu personagem cresce à medida que precisa lidar com a bomba que o jornal pode detonar e precisa tomar decisões a respeito, com potencial claro de atingir, inclusive, alguns de seus amigos poderosos.

A questão central é que o New York Times teve acesso aos tais documentos comprometedores, mostrando que sucessivos governos americanos vinham mentindo sobre o Vietnã. Mas o governo entrou na Justiça e o Times teve que parar de publicar o material. O Post, que tomou o furo, correu atrás e conseguiu acesso aos mesmos documentos. Então uma decisão foi posta sobre a mesa: publicar, mesmo sabendo que isso poderia resultar na mesma censura e, talvez, em prisão?

Na primeira metade do filme, o emaranhado de nomes pode ser um pouco confuso para quem não está familiarizado com a história da politica e imprensa americanas. Spielberg também opta muitas vezes por distribuir a informação aos poucos.

Por exemplo, Katharine tem um encontro para o almoço. A conversa se desenrola e boa parte do público (possivelmente a maior parte) provavelmente não saberá de cara com quem ela afinal está almoçando. Mas, no meio da cena, a plateia descobre que trata-se do editor do concorrente, o New York Times. É de se esperar que o diretor esteja contando com certa desorientação da plateia, antes de dar os dados para que ela volte ao prumo.

Spielberg, porém, não deixa de derrapar na falta de sutileza. Katharine precisa verbalizar com todas as letras as condições de uma mulher no mercado de trabalho nos anos 1960. Mais à frente, ela é ignorada pela imprensa após uma batalha nos tribunais, os repórteres preferem as declarações dos homens. Mas ela desce as escadas lá fora sob o olhar de admiração e reverência de outras mulheres enfileiradas.

Mas o diretor também exibe sua habitual destreza com a câmera, mesmo buscando se manter preso à estética sóbria herdada de Todos os Homens do Presidente. Spielberg toma bom partido do cenário da redação e flui a câmera em planos-sequência de maneira tão natural que o público pode não perceber, uma marca sua. E cria um ritmo empolgante à medida em que o deadline se aproxima.

Ele já declarou que se trata de um filme de urgência: ele se apropria dessa história dos anos 1960 para fazer comentários sobre hoje, com respeito à liberdade de imprensa, mentiras governamentais e afirmação do lugar da mulher na sociedade. Curioso como, nesse sentido, Todos os Homens do Presidente era um filme que falava, também com urgência, sobre a própria época em que foi feito: Nixon havia renunciado apenas dois anos antes do lançamento da produção, como resultado da investigação que a história contava. Em comum, ambos os filmes precisaram ser feitos logo, como se tivessem que cumprir, cada um, o seu deadline.

The Post – A Guerra Secreta. The Post. Reino Unido/ EUA, 2017. Direção: Steven Spielberg. Elenco: Maryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk. No cinema.

* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba de 31/03/2018

The Post

DIÁRIO DE FILMES 2018: 10 – THE POST – A GUERRA SECRETA
Sem borda - 04 estrelas

Spielberg já declarou que este é “um filme de urgência” para ele. Aproveitou a história sobre liberdade de imprensa e mentiras governamentais sobre a Guerra do Vietnã para falar de hoje. Para tanto, aproveitou também a relação direta com Todos os Homens do Presidente (1976) para se inspirar no filme de Pakula, funcionando como um prelúdio, a ponto do final emendar com o começo do outro, que era sobre o Watergate. Resulta num clássico “drama de redação”,  com algumas observações das relações pouco institucionais da imprensa com o poder e da afirmação da mulher no mercado de trabalho. O começo é meio embaralhado para quem não conhece todos aqueles nomes e Tom Hanks está mais careteiro que o normal, mas o filme cresce bem na metade final.

The Post – A Guerra Secreta. The Post. Reino Unido/ EUA, 2017. Direção: Steven Spielberg. Elenco: Maryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk. No cinema.

A seguir, os meus melhores filmes de 2016, apenas entre os que estiveram em cartaz nos cinemas de João Pessoa. Antes, como em todo ano, a numeralha em torno do circuitão pessoense.

O número de filmes em cartaz em João Pessoa explodiu em 2016: foram 258 estreias contra as 163 de 2015 e 164 de 2014. O recorde anterior, desde 2006, ano em que o Boulevard começou a fazer esse acompanhamento, havia sido 165 em 2007. Os motivos determinantes para esse aumento são a inauguração do novo Cine Banguê, que vem servindo filmes que não passam nos demais cinemas, e alguma diversidade no Cinépolis e no Cinespaço.

THE REVENANT

1 – O REGRESSO, de Alejandro González Iñarritu

Iñarritu é um diretor que arrisca muito em suas narrativas, nem sempre com sucesso. Mas quando acerta, entrega coisas belas como este O Regresso, a jornada selvagem e espiritual de um homem em busca de outro que o deixou para morrer, aós ter sido atacado por um urso. A interpretação visceral de Leonardo DiCaprio foi, com toda a justiça, premiada com o Oscar, o Globo de Ouro, o SAG e o Bafta. Crítica no Boulevard

Elle - 03

2 – ELLE, de Paul Verhoeven

Isabelle Huppert matadora, para variar, em um filme desconcertante e doentio – Paul Verhoeven sendo Paul Verhoeven. Isabelle é uma mulher fria e cerebral que é estuprada dentro de casa por um mascarado e lida ao seu modo com a possibilidade de um novo ataque.

Aquarius - 06

3 – AQUARIUS, de Kléber Mendonça Filho

Sônia Braga é a única moradora que restou em um antigo prédio que uma construtora quer demolir. Mas ela luta pelo direito de preservar suas memórias afetivas. Uma bela defesa de que coisas – como discos ou um apartamento – podem não ser apenas “coisas”.

Zootopia - 06

4 – ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO, de Byron Howard e Rich Moore

No que parecia apenas mais uma sátira de bichinhos se comportando como seres humanos, desenrola-se uma imaginação bem cuidada de como seria essa cidade levando-se em consideração as características dos animais antropomorfizados, uma história policial instigante e uma crítica surpreendente e dura aos preconceitos de quem se acha o mocinho.

Spotlight - 01

5 – SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy

Com uma história que tinha tudo para mergulhar no melodrama, essa trama que conta a investigação jornalística que expôs o escândalo de pedofilia da Igreja de Boston é contida e precisa em sua narrativa. Crítica no Boulevard

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6 – CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL, de Anthony Russo e Joe Russo

Um filme de super-heróis que reflete sobre si mesmo, sobre o gênero e seus personagens. E coloca os dois personagens principais do universo cinematográfico da Marvel com o peso dramático acumulado em todos estes anos e filmes.

Bruxa - 03

7 – A BRUXA, de Robert Eggers

Famílias isoladas à mercê do sobrenatural não são exatamente uma novidade, mas este filme consegue imprimir um clima opressor e tanto. Crítica no Boulevard

Cinco Gracas - 03

8 – CINCO GRAÇAS, de Deniz Gamze Ergüven

Cinco irmãs jovens e cheias de vida vítimas de um tio que as prende em casa e as obriga a casamentos arranjados. O filme nos leva a procurar tanto quanto elas uma saída.

Filho de Saul - 03

 

9 – FILHO DE SAUL, de Lázló Nemes

Filmado quase todo em close, é uma experiência que nos faz acompanhar de perto o drama pesado e doloroso de um homem que tenta impedir que o filho morto seja incinerado pelo nazistas. Ao menos isso.

ARRIVAL

 

10 – A CHEGADA, de Denis Villeneuve

Uma ficção científica que recusa a pirotecnia e celebra o poder da comunicação. Denis Villeneuve evoca o Spielberg de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

+ 10: A Grande Aposta, de Adam McKay; Deadpool, de Tim Miller; Mia Madre, de Nanni Moretti; Café Society, de Woody Allen; Sully, o Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood; Rogue One – Uma História Star Wars, de Gareth Edwards; Star Trek – Sem Fronteiras, de Justin Lin; Carol, de Todd Haynes; Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster; Animais Fantásticos e Onde Habitam, de David Yates.

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MAIS RETROSPECTIVA 2016:

 

Moonlight - 02

Coluna Cinemascope (#25). Correio da Paraíba, 8/3/2017

Por que Moonlight venceu

por Renato Félix

Encerrando o Oscar por este ano, acho que vale refletir sobre tendências claras que o prêmio vem mostrando. Por que, quando todos esperavam a vitória de La La Land e o filme tendo ganhado tudo antes e faturando o maior número de prêmios da noite, justo o Oscar de melhor filme foi para Moonlight?

Não tenho os dados da votação, mas é possível traçar algumas hipóteses que vão além da preferência simples por este ou aquele filme (o prêmio estaria bem com qualquer um dos dois). Nos últimos cinco anos, em quatro aconteceu um fenômeno até então meio raro: os prêmios de melhor filme e melhor diretor indo para filmes diferentes.

Não apenas isso, mas o melhor filme sempre terminando com poucos prêmios no total (2 ou 3) e o filme que ficou com melhor diretor levando mais (de 4 a 7). E visivelmente o principal vencedor da noite com um tema socialmente importante (Argo em 2013, 12 Anos de Escravidão em 2014, Spotlight em 2016 e Moonlight) e o melhor diretor foi para um espetáculo visual mais elaborado (As Aventuras de Pi em 2013, Gravidade em 2014, O Regresso em 2016 e La La Land).

Um adicional é a fórmula como é calculado o vencedor. Desde 2009, o eleito para melhor filme não é escolhido da mesma forma das outras categorias (em que se vota em um indicado e quem tem mais votos ganha). Para melhor filme, os acadêmicos elaboram uma lista de preferência, do primeiro a último dos (este ano) nove indicados. Um filme tem que chegar a mais de 50% de primeiros lugares.

Se nenhum consegue, retira-se o filme com menos primeiros lugares e, nessas listas, o segundo vira primeiro. Assim, um filme pode ter mais primeiros lugares no começo e perder, se muitos o colocarem em, digamos, quinto ou sexto lugar. O filme de consenso é privilegiado. E pode ter sido este o cenário em que Moonlight saiu vencedor.

FOTO: Barry Jenkins, diretor de Moonlight – Sob a Luz do Luar, recebe o Oscar de melhor filme

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Moonlight

Jordan Horowitz, produtor de “La La Land”, mostra o cartão que anuncia a vitória de “Moonlight” no Oscar 2017

Coluna Cinemascope (#24). Correio da Paraíba, 1/3/2017

Gafes e suas culpas 

por Renato Félix

Em 1952, Shelley Winters estava tão certa que iria vencer o Oscar de melhor atriz por Um Lugar ao Sol que, quando a vencedora foi anunciada, levantou-se naturalmente e encaminhou-se para o palco. Só quando caiu no corredor depois de agarrada pelo marido Vittoria Gassman é que ouviu dele: “Shelley, é Vivien Leigh”. E, assim, enquanto a atriz britânica recebia seu Oscar por Uma Rua Chamada Pecado, Shelley e Gassman voltavam engatinhando para seus lugares. Culpa de Shelley.

Em 1934, o apresentador Will Rogers abriu o envelope para anunciar o prêmio de melhor direção. “Ora, ora, ora. O que vocês acham? Eu acompanho este rapaz há muito tempo. Eu o vi vir lá de baixo, e quero dizer de baixo. Isso não poderia acontecer a um cara melhor. Suba aqui e pegue-o, Frank!”.

Frank Capra, indicado por Dama por um Dia, levantou-se e começou a andar para o palco. E viu que os holofotes foram para… Frank Lloyd, o outro Frank indicado na categoria, por Cavalgada. “Foi a mais longa, mais triste, mais arrasadora caminhada da minha vida. Todos os meus amigos na mesa estavam chorando”, disse Capra. Culpa de quem? Não de Capra, claro. Culpa de Will Rogers.

No domingo passado, certamente a culpa não foi de Warren Beatty e Faye Dunaway, que apenas leram o que lhes foi dado para ser lido. Ainda assim, Warren sentiu que havia algo errado, mas não conseguiu evitar o constrangimento antes que a colega lesse a informação errada. Eu gostaria de saber quem colocou aquele envelope nas mãos dele. E onde estava o envelope correto naquele momento?

Está aí uma história do Oscar que espero ver contada nos próximos dias.

FOTO: Jordan Horowitz, produtor de La La Land, mostra o cartão que anuncia a vitória de Moonlight no Oscar 2017

ADENDO: Da publicação original desse texto para cá, sabemos bem o que aconteceu, claro.

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