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Estrelas Alem do Tempo - 06

Um ambiente veladamente (mas não muito) hostil: Taraji P. Henson em “Estrelas Além do Tempo”

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO
Sem borda - 04 estrelas

A inteligência não tem cor 

É de se pensar que a Nasa, a agência espacial americana, é e sempre foi um lugar à frente de seu tempo. Onde o futuro chega primeiro. Mas Estrelas Além do Tempo (2016), indicado ao Oscar de melhor filme, mostra que, nos anos 1950 e 1960, em certos aspectos, a agência espacial americana era um ambiente tão retrógrado quanto os piores locais dos Estados Unidos na época. O filme é centrado em matemáticas negras que trabalham na agência: em um prédio separado, usando banheiros e bebedores separados dos brancos.

Taraji P. Henson, Janelle Monäe e Octavia Spencer interpretam as três personagens reais em que o filme se concentra: respectivamente Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, que são algumas histórias contadas no livro-reportagem homônimo de Margot Lee Shetterly.

São as “hidden figures” do título original, bem melhor que o brasileiro. Johnson é requisitada para ajudar nos cálculos para levar um americano ao espaço pela primeira vez (e trazê-lo de lá em segurança). De repente, é a única pessoa negra em um ambiente veladamente (mas nem tanto) hostil. Vaughan luta para ter a chance de estudar para se tornar engenheira, embora as leis do estado não permitam que ela almeje ir tão longe. E Jackson, chefe da sessão, lida com a ameaça de demissão de todas as matemáticas pela informática, que já está batendo na porta.

Há filmes que se destacam por seus voos narrativos. Não é caso aqui. O diretor Theodore Melfi prefere não ousar, e dar todo o destaque à história que conta, importante e interessante. O filme segue de maneira bastante tradicional, deixando para o elenco e as personagens que interpretam a responsabilidade de elevar o filme. Também seus coadjuvantes dão conta (entre eles, Maheshala Ali. Que ano desse ator! Fez também Moonlight, pelo qual ganhou o Oscar, e ainda foi o vilão da série Luke Cage).

Mas o destaque mesmo é o trio central, que leva a trama com brilho. Se ainda é necessário mostrar, está aí mais uma prova de que a inteligência e o talento não têm cor ou sexo.

Estrelas Além do Tempo. Hidden Figures. EUA, 2016. Direção: Theodore Melfi. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali.

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Castelo Vogelod - 01

Um crime volta à baila: Arnold Kroff e Olga Tschechowa em ‘O Castelo Vogelöd’

O CASTELO VOGELÖD
Estrelas-03 e meia juntas-site

O alemão F.W. Murnau enfileirou filmes maravilhosos (Nosferatu, 1922; A Última Gargalhada, 1925; Fausto, 1926; Aurora, 1927). O Castelo Vogelöd é de um pouco antes dessa fase. É um filme que parece se interessar menos pela criatividade visual, que veríamos nos filmes seguintes, e mais por sua trama rocambolesca.

É uma história de mistério que se passa numa mansão no campo, onde ricaços reúnem-se para uma caçada. Mas aparece uma visita inconveniente: um conde que é suspeito de matar o irmão. É ainda mais inconveniente porque os anfitriões aguardam a chegada da viúva, que, claro, não gosta nada de estar no mesmo lugar que o conde.

Mas ela é convencida a ficar porque também está para chegar um parente que é padre e com quem ela precisa desabafar. A partir da chegada do religioso, o clima de mistério se estabelece: sobre o passado, com relação ao que realmente aconteceu, e sobre o presente, porque um desaparecimento movimenta a trama. Um pesadelo responde pelo elemento fantástico que surge no filme.

Aos olhos de hoje, milhares e milhares de filmes depois, o mistério é facilmente desvendável e certas motivações parecem inocentes. É difícil imaginar o quanto uma ou outra reviravolta impactou a plateia da época. A restauração da coleção Expressionismo Alemão, que a Obras-Primas do Cinema lançou em DVD, impressiona, mas é verdade também que os filmes que Murnau dirigiu depois se mantiveram bem mais impactantes (um deles, Fausto, também está nesta coleção).

O Castelo Vogelöd. Schloss Vogelöd. Alemanha, 1921. Direção: F.W. Murnau. Roteiro: Carl Mayer, baseado em romance de Rudolf Stratz. Elenco: Lothar Mehrnet, Olga Tschechowa, Paul Bildt, Arnold Korff. 

Rocco e Seus Irmaos - 03

ROCCO E SEUS IRMÃOS
Sem borda - 05 estrelas

Não sou o maior dos admiradores do cinema de Visconti. Não gosto de Sedução da Carne (1954), nem de Morte em Veneza (1971). Mas gosto demais de O Leopardo (1963) e, principalmente, de Rocco e Seus Irmãos. Há muitos anos, eu não o revia, no entanto. Ele não deixa o melhor dos sentimentos ao sair dele.

Visconti não alivia ao contar a história da família Parondi. A chegada com esperanças na mudança do sul pobre da Itália para Milão, metrópole do norte do país, está sempre à sombra dos problemas e com cheiro de tragédia. A intranquilidade é evidenciada no contraste entre os dois irmãos que protagonizam o filme: Rocco (Alain Delon) e Simone (Renato Salvatore).

O filme é dividido em capítulos mais ou menos centrados em cada um dos cinco irmãos, mas o bondoso e correto Rocco e o egoísta e malandro Simone dominam a cena. O conflito explode quando eles se envolvem com a mesma mulher, a prostituta Nadia (Annie Girardot).

Visconti quebra as expectativas quando coloca Rocco, que seria o pilar moral do filme, em situações onde precisa escolher entre a família e “o que é certo”. Ele é empurrado pela trama a fazer escolhas que vão engasgando o espectador que se envolve com a história.

É uma espiral descendente, com Nadia no centro dela. Um dos irmãos mais jovens, Ciro (Max Cartier) acaba ganhando corpo do meio pro fim do filme (que não me lembrava como é longo: 2h57 de duração) ao se tornar um contraponto para Rocco, até o momento mais decisivo para a unidade da família Parondi.

Com bela fotografia em preto-e-branco de Giuseppe Rotunno (principalmente na muito impressionante cena entre Rocco e Nadia na catedral de Milão) e música de Nino Rota, Rocco e Seus Irmãos ainda traz um pouco o gosto do neo-realismo, que Visconti frequentou nos anos 1940, mesmo o diretor já tendo abraçado produções com mais dinheiro e de época nos anos 1950. Mas o que se sobressai é a questão central: até onde ser bom é bom?

Rocco e Seus Irmãos. Rocco i Suoi Fratelli/ Rocco et Ses Frères. Itália/ França, 1960.  Direção: Luchino Visconti. Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Roger Hanin, Suzy Delair, Claudia Cardinale.

Mulher-Maravilha - 07

Choque de realidade: Gal Gadot em “Mulher-Maravilha”

‘MULHER-MARAVILHA’
Estrelas-03 e meia juntas-site

O universo da DC Comics é muito caro pra mim. São os super-heróis da minha infância, são os cânones dos quais todos os outros são derivados (por aproximação ou oposição). São os modelos primordiais. Por isso tem doído bastante vê-los tão maltratados nos quadrinhos e no cinema. Desisti dos quadrinhos quando a editora tentou enfiar goela abaixo aquela coisa triste chamada “Novos 52”. E no cinema, um festival de tranqueiras tentando montar aos trancos e barrancos um universo compartilhado, como o que a Marvel construiu (com bem mais paciência e inteligência).

Isto posto, a alegria de constatar que conseguiram fazer de Mulher-Maravilha um filme. E não um amontoado de ideias ruins ou mal executadas, como os três exemplares anteriores desse universo compartilhado.

A ambientação na I Guerra Mundial provou-se um grande acerto. Nascida e criada na idílica Themiscyra (antes conhecida como Ilha Paraíso), povoada só por amazonas e isolada do mundo, Diana (Gal Gadot) socorre o aviador Steve Trevor (Chris Pine) que cai ali. E toma conhecimento da guerra que está consumindo o mundo. E decide deixar a ilha para ajudar acabar com a guerra no “mundo dos homens”.

A partir daí, o filme combina um humor leve ancorado na estranheza com que a princesa amazona vê os costumes do mundo de 1918 – especificamente em Londres. As roupas, o papel da mulher na sociedade, ver um bebê (o último em sua ilha havia sido ela mesma).

Ao entrarmos na guerra, Diana vai tomando contato com as complexidades da humanidade. Mesmo que o filme trate várias delas de leve, é quando ele cresce: o sofrimento de pessoas humildes, o racismo, não poder salvar a todos, as mortes gratuitas. Em certa medida, um índio diz que seu povo “foi morto pelo povo dele”, referindo-se ao branco Trevor, aliado de ambos. Como compreender coisas assim? O filme lida muito bem com o impacto disso na personagem.

O mundo é meio o inimigo, e isso compensa um pouco as fragilidades dos vilões do filme. Danny Huston faz o que pode, mas seu personagem é pobre e não ajuda. E, quando o deus Ares se revela, nunca convence, nem seu estratagema. Pior, a sequência final direciona desnecessariamente o filme para o simplismo quando ele navegava bem em mares mais complexos. Também parece um clímax de combate grandioso posto ali meio que por obrigação.

A espanhola Elena Anaya, como a Doutora Veneno, se sai melhor fazendo um tipo propositalmente caricato, mas o filme não a aproveita bem. Sua participação é bem menor do que poderia.

Mas, enfim, o filme também se vale bem do carisma de Gal Gadot e Chris Pine e da boa química entre eles. Há um clima de romance bem conduzido, equilibrando bem com o humor e as cenas de ação.

Cenas de ação, aliás, que exageram nas câmeras lentas: nenhuma amazona pode dar um pulo sequer que para no ar. Esses momentos são incontáveis, de bonitos tornam-se logo banais e repetitivos e, curiosamente, só dão um descanso justamente no combate final.

Felizmente, a construção da personagem é que é o motor do filme: quando ela destrói uma torre para parar um atirador alemão que ataca seu grupo e surge depois lá em cima, é difícil não ver que ali está a Mulher-Maravilha. Em termos de DC no cinema, ultimamente, isso já é muita coisa.

Mulher-Maravilha. Wonder Woman. Estados Unidos, 2017. Direção: Patty Jenkins. Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história de Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs. Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Lilly Aspell.

HER

Namoro virtual: Joaquin Phoenix em “Ela”

ELA
Estrelas-04 juntas-site

A relação das pessoas com inteligências artificiais são um tema caro ao cinema, desde Metrópolis (1926), passando por filmes como Blade Runner (1982), D.A.R.Y.L. (1985), O Exterminador do Futuro (1984), Inteligência Artificial (2001), Simone (2002), Eu, Robô (2004). Com diferenças de temas e gêneros. Ela (2013) aborda um viés pouco comum: o romance.

Na história, Theodore (Joaquin Phoenix) é o redator de uma empresa especializada em criar cartas falsamente manuscritas e pessoais para seus clientes. Solitário desde que a esposa (Rooney Mara) decidiu se divorciar, ele compra um novo sistema operacional que interage com o dono em um nível pessoal inédito, adaptado ao cliente e evoluindo a partir do diálogo entre eles.

“Samantha” (voz de Scarlett Johansson) se mostra atenciosa, bem humorada, super competente e curiosa. Pode, nesse futuro em que já é banal falar com máquinas, acontecer o amor entre uma pessoa e um sistema operacional? Há diferença nisso para um namoro com uma pessoa distante via internet? Essa inteligência artificial, na medida em que aprende e demonstra sentimentos e prazer, é uma “pessoa sem corpo”? Essa relação é o reflexo de uma humanidade cada vez mais atenta a seus equipamentos eletrônicos que às pessoas à sua volta?

E se essas inteligências artificiais passarem a tomar suas próprias decisões? Qual o passo seguinte? Se elas se comunicarem entre si?

Todas essas questões são tratadas pelo filme de maneira delicada, envolvendo a relação entre Theodore e Samantha, com as idas e vindas que muitos casais conhecem bem. O filme de Spike Jonze tem a sacada de escolher a atriz ideal para a “mocinha”: Scarlett Johansson tem uma voz marcante e sedutora. Aliás, em termos de voz, destaque também para a engraçada participação de Kristen Wiig, a “Gatinha Sexy” que Theodore encontra em uma sala de bate-papo.

Ela. Her. Estados Unidos, 2013. Direção e roteiro: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Chris Pratt, Rooney Mara, Olivia Wilde. Vozes: Scarlett Johansson, Kristen Wiig.

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“Moana – Um Mar de Aventuras” (2016)

4 – MOANA – UM MAR DE AVENTURAS

por Renato Félix

Em determinado momento de Moana – Um Mar de Aventuras, o semideus polinésio Maui a chama – com desdém – de princesa. “Não sou uma princesa”, ela retruca. “É a filha do chefe, é a mesma coisa”, rebate ele, e emenda: “Se usa um vestido e tem um bichinho de parceiro, é uma princesa”. A personagem-título de sua nova animação é mais uma tentativa da Disney de dar um passo à frente na modernização do conceito de “princesa”, um patrimônio cultural e de marketing do estúdio desde Branca de Neve, em 1937.

Moana não é uma princesa decorativa: é treinada para um dia governar. Desafia o pai o tempo todo no seu contrasenso de comandar um povo da Polinésia e ter medo do mar. Um dia, o destino faz a menina navegar como seus antepassados para encontrar Maui e reverter uma maldição que chega à sua ilha.

Se em A Princesa e o Sapo (2009), a princesa resiste ao romance por aspirações profissionais (mas se rende no decorrer do filme), se em Valente (2012) a princesa rejeitava seus pretendentes, e se em Frozen (2013) o príncipe se revelava o vilão (e o verdadeiro interesse amoroso estava em segundo plano), nesta progressão agora não há qualquer sinal de príncipe encantado à vista. A relação entre Moana e Maui está mais para irmão mais velho/ irmã caçula.

Mas mesmo com esse esforço de modernização, em termos de narrativa ainda é difícil não relacionar motivações e parte da jornada de Moana às de outras princesas Disney, como Ariel, de A Pequena Sereia (1989, dos mesmos diretores John Musker e Ron Clements) ou Belle, de A Bela e a Fera (1991).

Como Ariel, Moana tem curiosidade pelo mundo além das fronteiras do seu, mas é tolhida pelo pai. As duas possuem, ainda no primeiro terço de seus filmes, uma canção de “eu anseio por mais”, assim como outras princesas Disney. Foi “Part of your world” para Ariel em A Pequena Sereia, “Almost there” para Tiana em A Princesa e o Sapo (outro Musker-Clements), “When will my life begin?” para Rapunzel em Enrolados (2010), e é “How far I’ll go” em Moana.

É uma bela canção (que está indicada ao Oscar) de uma bela trilha, que reflete um cuidado da produção ao trabalhar com a cultura local. As canções ficaram a cargo de uma parceria entre o letrista novaiorquino Lin-Manuel Miranda e o músico Opetaia Foa’i. Dos números musicais, o melhor é “You’re welcome”, em que Maui (Dwayne Johnson no original; o cantor de musical Saulo Vasconcellos, na versão brasileira) bravateia seu heroísmo, com ótimos recursos visuais.

O visual arrebatador é um dos pontos em que Musker e Clements mostram a competência de sempre. Assim como no carisma dos personagens e um humor que sobrevive a certos atalhos fáceis e desnecessários do roteiro, como os bichinhos que não contribuem em nada para a trama (apesar de o galo burro ser ocasionalmente engraçado). Ou como o mar “vivo” que ajuda a heroína, que sempre parece um recurso forçado (embora também tenha ocasionalmente sua graça).

Aliás, a relação de Moana com o mar podia ser mais próxima na introdução da história. Embora ela seja naturalmente atraída por ele e, além disso, seja “a escolhida” desde bebê para reverter a maldição, não há nenhuma cena da garota em intimidade com o mar, mesmo morando em uma aldeia à beira-mar. Nem um simples mergulho.

No fim, Musker e Clements, oriundos das animações feitas à mão, fazem uma estreia muito boa na animação digital. É uma pena, somente, que isso signifique mais uma pá de cal nos longas feitos à mão, que renderam vários dos melhores exemplares do gênero. O último longa para o cinema a sair da própria Disney foi justamente A Princesa e o Sapo, já há seis anos.

Moana – Um Mar de Aventuras. Moana. Estados Unidos, 2016. Direção: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House. Vozes na dublagem brasileira: Any Gabrielly, Saulo Vasconcelos, Saulo Javan, Mariana Elisabetsky. No cinema (Cinespaço MAG). Revisão.

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Margherita Buy e John Turturro em “Mia Madre”

2 – MIA MADRE

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Logo no começo de Mia Madre, uma cineasta que dirige um filme sobre questões sociais (uma fábrica italiana comprada por um americano e que pode fechar colocando todos os trabalhadores na rua) se questiona a cerca do ângulo de câmera que está sendo usado, que mensagem ele vai passar. É uma personagem muito comprometida com seu trabalho. Mas há uma tormenta chegando para complicar sua vida: a doença da sua mãe e o astro de Hollywood que vai atuar em seu filme.

Nanni Moretti já possui uma bela carreira construída principalmente sobre o trânsito entre comédia e drama. Aqui, ele pende mais para o drama, quando trata dos conflitos pessoais de Margherita (Margherita Buy): a mãe, a filha, um relacionamento recém-terminado.

Mas há momentos cômicos reservados a John Turturro, como o astro vaidoso a ponto de mentir descaradamente sobre sua carreira (se gaba de ter trabalhado com Kubrick) e que faz questão de atuar em italiano sem saber a língua. Mas, inseguro, tem dificuldades em decorar quase todas as suas cenas.

O filme é o retrato da vida confusa de Margherita, tendo que lidar com tudo isso ao mesmo tempo e dizendo clichês que nem sabe mais o que significam. Como a repetida instrução para que os atores não sejam só o personagem, mas sejam também eles mesmo, o que só deixa o elenco também confuso.

O fio condutor é a provável morte da mãe. O filme todo é uma espécie de despedida, em que os valores dela – uma professora de latim aposentada, que dá suas últimas aulas, já de cama, à neta – vão ficando como legado. Nesse sentido, é bonita  e simbólica a visita de um ex-aluno e o momento em que ela acontece, para mostrar que muito dessa mulher seguirá vivendo.

Mia Madre. Mia Madre. Itália/ Framça/ Alemanha, 2015. Direção: Nanni Moretti. Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti. 2º filme. Em DVD.

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1 – A BRUXA

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas

Desenhista de produção e figurinista, Robert Eggers estreou na direção de longas com um belo trabalho em A Bruxa (2015). Aproveitou bem o clima opressivo-religioso da região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos do século XVII, onde aconteceu a paranoia da caça ás bruxas e, desde então, um terreno fértil para inspirar situações de terror. Para isso, seu foco é uma família cujas crenças não são aceitas pela vila em que vivem e que acabam se isolando em uma casa no meio de uma floresta.

A situação da família isolada, em um filme de suspense e/ou terror, não é nenhuma novidade – antes pelo contrário, é um baita clichê. Portanto saber lidar tão bem com essa situação também é mérito de Eggers, autor também do roteiro. Ele evita os sustos fáceis e explora o desconforto, a solidão, o desamparo e os conflitos entre os membros da família.

E aquele entre a jovem Thomasin (Anna Taylor-Joy, praticamente uma estreante) e seus irmãos mais novos é o detonador da trama. Aos seus cuidados, o bebê da família inexplicavelmente some na floresta e circunda a casa. É mais um passo de uma série de fatos que vão assombrando a família e aumentando a tensão entre eles.

Uma hora, os gêmeos menores uma hora dizem que falam com o bode, Black Phillip. Em outro momento, Thomasin, para assustá-los, finge que é uma bruxa – algo que vai se voltar contra ela mais tarde. Se há ou não algo sobrenatural acontecendo, é um mistério que o filme, que afirma usar diálogos e situações ocorridas realmente na época, vai aumentando até perto do final, enquanto a família vai se desintegrando.

A Bruxa aproveita os espaços e a luz natural: é imersivo e claustrofóbico, mesmo nos espaços abertos. Nesse aspecto, como em outros – o perigo à espreita em algum lugar, a paranoia, crianças com elementos sombrios – acaba se assemelhando até a A Fita Branca (2009).

A Bruxa. The Witch. Estados Unidos/ Reino Unido/ Canadá/ Brasil, 2015. Direção: Robert Eggers. Elenco: Anna Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw. 1º filme. Em DVD.

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CREED, NASCIDO PARA LUTAR

Estrelas-03 e meia juntas-site

Creed é, antes de tudo, uma simpática e bonita declaração de amor à série Rocky (que completou 40 anos ontem). Isso, partindo de um ponto de vista inteligente: não o próprio Rocky, mas o filho de um antigo rival e depois amigo. Adonis é filho de Apollo Creed (chamado na dublagem brasileira com o engraçado título de Apollo Doutrinador), gosta e leva jeito par ao boxe e abandona um emprego para seguir no esporte.

Não quer expor a relação com o pai campeão, mas vai pedir ajuda a Rocky para treiná-lo. Não há muita novidade na trama (Rocky é reticente, mas acaba convencido e se afeiçoa pelo rapaz quase como um pai – como acontece, por exemplo, em Menina de Ouro, de Eastwood). Mas Ryan Coogler consegue demonstrar seu carinho pelos personagens.

A trilha “namora” a música emblemática de Bill Conti para a série original o tempo todo, até render-se no inevitável final, que cita Rocky de forma muito mais direta e até desnecessária. Mas é um beco sem saída: em sua grande luta, se Adonis vence, é um grande clichê do cinema; se perde, mas se torna um vencedor moral, é uma situação que a própria série Rocky tornou um clichê próprio.

Creed. Estados Unidos, 2015. Direção: Ryan Coogler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson.

Batman V. Superman: Dawn Of Justice

Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, o primeiro encontro no cinema dos  dois principais super-heróis dos quadrinhos, é um filme cheio e vazio ao mesmo tempo.  É soterrado por referências a histórias clássicas dos personagens, mas faltou uma história que as ligasse bem. É repleto de ideias de tramas, mas não consegue desenvolver razoavelmente bem uma sequer.

Com Zack Snyder novamente na direção, os personagens da DC Comics voltam a sofrer com a mão pesada do diretor (como O Homem de Aço já havia sofrido em 2013). Dedicado a imprimir um visual de impacto, Snyder é muito pobre de narrativa – suas câmeras lentas em excesso e gratuitas já viraram uma marca do diretor, mas uma marca negativa.

Criatividade também não é o seu forte: ele tem fervor em copiar grandes momentos dos gibis, mas não em transformá-los em grandes momentos cinematográficos. Basicamente, fica na xerox. Aqui, há citações de Batman, o Cavaleiro das TrevasCrise nas Infinitas TerrasA Morte do Super-Homem e outras, mas parecem espalhadas a esmo.

Várias só farão sentido lá na frente, nos próximos filmes e se revelam incompreensíveis para quem não é íntimo do material original nos quadrinhos. E um pouco disso também vale para as cenas brevíssimas em que aparecem outros heróis (Flash, Ciborgue e Aquaman), algo tão gratuito que, se retirado do filme, não faria a menor falta.

E quando Snyder inventa, se sai ainda pior. O exemplo mais claro aqui é o Lex Luthor vivido por Jesse Eisenberg, uma “atualização” que o transformou em um sub-Mark Zuckerberg (que Eisenberg interpretou em A Rede Social, vocês sabem).

Atualização, aliás, em termos. Depois de leitores de HQ chatos reclamarem por anos a fio do Luthor cômico de Gene Hackman nos filmes do Super-Homem dos anos 1970/ 1980, e de sua releitura por Kevin Spacey em Superman – O Retorno, este filme traz um… Luthor engraçado? Ainda não deu para entender qual a intenção do filme com isso.

O filme não é uma perda total. Há um ou outro momento interessante, ou, como está no começo do texto, premissas boas mal desenvolvidas. O conflito central entre Batman e Superman é pífio. A explicação não convence e a luta em si menos ainda, acontecendo por um motivo tolo e podendo ser evitada por uma frase banal.

Sem falar na já famosa resolução do conflito, uma originalmente boa sacada totalmente desperdiçada por falta de um roteiro minimamente inteligente: uma palavra dita de maneira incrivelmente forçada resolve o assunto e muda o status de “ameaça à humanidade” para “amigo”. Acabou virando piada (e com justiça, é uma cena péssima). Essa pressa está presente em muitos momentos, e pode refletir o excesso de ideias (e seu mal aproveitamento). O desfecho do filme, por exemplo, usa uma carta grande como uma ejaculação precoce.

Curiosamente, a vontade de ser épico o leva a uma contradição: mesmo com a pressa, a edição não sabe como terminar o filme, com alguns incômodos “falsos finais” até a verdadeira cena final.

Em termos de representação dos personagens, o Super-Homem é um caso perdido. O que foi feito em O Homem de Aço se reflete da pior maneira aqui: um personagem apático o tempo inteiro. O Batman de Ben Affleck é decente, e chega a ter alguns momentos muito bons, mas equilibrado com outros totalmente sem brilho (sem falar que é enrolado com muita facilidade e seus motivos para rivalizar com o Super-Homem são muito frágeis). A Mulher-Maravilha é um dos bons momentos do filme – Gal Gadot convence, talvez porque apareça pouco, e dá esperanças para seu filme solo.

Batman vs. Superman insiste em querer ser “sério”, mas só consegue ser sisudo e baixo astral. É preciso lembrar que não há de errado em um filme de super-heróis querer ser sério. Nem leve. Há excelentes exemplares de um lado (Batman, o Cavaleiro das TrevasCapitão América – O Soldado Invernal) e de outro (Homem de FerroOs Vingadores – The Avengers). Mas de um lado ou de outro há que se contar uma boa história. E isso Batman vs. Superman – A Origem da Justiça não faz.

Batman vs. Superman – A Origem da Justiça. Batman v. Superman – Dawn of Justice. Estados Unidos, 2016. Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly HUnter, Gal Gadot, Michael Shannon, Ezra Miller, Jason Momoa.

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Spotlight

Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Brian d’Arcy James, Michael Keaton e John Slattery

por Renato Félix

Muitas vezes as pessoas parecem esperar que um grande filme seja sempre inventivo na sua forma ou grandioso na sua emoção. Mas, na verdade, a grandeza pode estar na sabedoria de adequar sua narrativa ao que o seu conteúdo precisa. É por aí que vai Spotlight – Segredos Revelados, filme que concorre a seis Oscars, incluindo melhor filme.

O diretor Tom McCarthy prefere não inventar muito e dedicar toda a atenção à colocar sua trama no foco principal: o grupo de repórteres do Boston Globe que, no começo dos anos 2000, investiga os recorrentes casos de abusos de crianças por parte de padres, mas principalmente as ações que a Igreja Católica tomou para abafar os escândalos.

O “Spotlight” do título é o nome desse grupo, uma unidade praticamente independente dentro da redação do Globe. Com liberdade e sobretudo tempo para escarafunchar documentos, arquivos e interrogar todas as fontes de que precisam, os personagens de Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian d’Arcy James vão se surpreendendo com algo que achavam ser alguns episódios isolados.

Um elenco muito bem ajustado, com Mark Ruffalo construindo cuidadosamente um tipo e destaques também para Liev Schreiber e Michael Keaton. Rachel McAdams não está mal, mas sua indicação para o Oscar demonstra, na verdade mais a força do próprio filme com a Academia do que a da sua interpretação isoladamente.

Sóbrio, Spotlight vai driblando a tentação do dramalhão, que surge a cada bater de porta no filme. Embora a natural comparação seja com Todos os Homens do Presidente (1976), o filme (os dois filmes, na verdade) lembra um pouco os trabalhos de Howard Hawks, nos quais o principal motor é que os profissionais devem fazer aquilo que devem fazer.

Há uma diferença importante também: Todos os Homens do Presidente lidava com a corrupção política, algo que não passa nem perto do melodrama; Spotlight lida com um assunto muito mais propenso às lágrimas e personagens perdendo o controle.

McCarthy (que é co-autor da história de Up – Altas Aventuras), pelo jeito, sabe que a história que conta já tem impacto suficiente – horror mesmo – para chocar qualquer um e abdicou de dourar a pílula. É também um elogio ao trabalho duro e de formiguinha do bom jornalismo impresso.

Sem borda - 04 estrelas

Spotlight – Segredos Revelados. Spotlight. EUA, 2015. Direção: Tom McCarthy. Elenco: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci, John Slattery, Billy Crudup.

Regresso-14

por Renato Félix

Pode-se dizer qualquer coisa do mexicano Alejandro González Iñarritu, menos que ele é um diretor acomodado.Desde Amores Brutos (2000), ele sempre foi pautado pela busca em realizar filmes únicos, singulares. Às vezes fica só na pretensão, como em Babel (2006). Mas parece ter achado o ponto, com grandes acertos em seus dois últimos filmes. Ano passado, Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância (2014) ganhou o Oscar de melhor filme. Agora é O Regresso (2015) que vai tentar repetir o prêmio – e é um filme ainda melhor que Birdman.

Iñarritu parte da história real do caçador e explorador Hugh Glass que, em 1823, é brutalmente atacado por um urso, deixado para trás à beira da morte pelos companheiros (principalmente Fitzgerald,  o personagem de Tom Hardy, ótimo), sem suprimentos ou armas, mas sobrevive e atravessa o rigoroso inverno em um longa jornada busca de vingança. Uma história sobre obstinação que já parece inacreditável por si só. Até já havia rendido um filme: Fúria Selvagem (1971), com Richard Harris.

Aqui, o papel é de Leonardo DiCaprio, que dá tudo de si no personagem e mais uma vez entrega um admirável trabalho. Sua atuação foi acrescida de uma série de desafios na composição de Glass – de comer o fígado cru de um bisão sendo vegetariano a aprender a falar duas línguas indígenas, a fazer uma fogueira e técnicas de cura ancestrais. O resultado de seu trabalho está à altura da grandeza do filme, compondo perfeitamente com o que está ao seu redor, sem precisar brigar para não ser sufocado pela produção.

Já são famosas as opções de Iñarritu e do diretor de fotografia (também mexicano) Emmanuel Lubezki de filmar em temperaturas abaixo de zero e de usar só luz natural, o que limitou o tempo de filmagem a algumas horas por dia. A questão é: valeu a pena?

A primeira imagem na floresta já responde. A fotografia é um espanto, meio difusa, mas de longo alcance, valorizada pelos movimentos de câmera intricados e planos-sequência vertiginosos, que certamente não facilitaram nada o trabalho geral. Lubezki deve ganhar seu terceiro Oscar seguido (já levou por Gravidade e Birdman; se vencer de novo, ele será o único diretor de fotografia a conseguir esse tricampeonato na história do prêmio).

Essa combinação evoca Terence Malick e Andrei Tarkovsky, certamente com menos profundidade existencial, mas com uma narrativa mais precisa, firme e contundente. Vale destacar a trilha de Ryuichi Sakamoto, que contribui para a construção de um trabalho em diversos momentos hipnótico. Com ela, esta jornada violenta do homem contra a natureza se torna algo que namora o sublime.

Sem borda - 05 estrelas

O Regresso. The Revenant. Estados Unidos, 2015. Direção: Alejandro González Iñarritu. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson. 

Daisy Riodley, John Boyega (e BB8): filme confia (e faz bem em confiar) nos novos personagens

Daisy Ridley, John Boyega (e BB8): filme confia (e faz bem em confiar) nos novos personagens

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Nostalgia com um pé no futuro

Renato Félix

Os fãs puderam, enfim, relaxar (ou ficar ainda mais animados): Star Wars – O Despertar da Força é um legítimo seguidor da trilogia original da série Guerra nas Estrelas e não guarda qualquer maior relação estética com a trilogia-prelúdio. É uma realização impressionante nesse ponto: 32 anos após O Retorno de Jedi (1983), chega a ser estranho assistir algo inédito e que soa ao mesmo tempo tão familiar.

Aos não-fãs (e até aos desconfiados e maltratados por terem se iniciado na série pela trilogia-prelúdio), vale a aposta de ir ao cinema: Star Wars – O Despertar da Força é pautado em novos personagens que encaram a história original como uma lenda, algo de que apenas ouviram falar. É com isso que o filme dialoga muito bem com quem só conhece a série de ouvir o papo dos amigos que a curtem ou das zilhões de referências que aparecem por aí o tempo todo, de comerciais de TV a pegadinhas do Programa Silvio Santos.

O Despertar da Força é um grande acerto também em diversos outros aspectos. J.J. Abrams parece ter nascido para comandar esse projeto. Ele próprio já tinha feito os dois Star Trek que dirigiu soarem mais como Guerra nas Estrelas do que como a série original Jornada nas Estrelas. Se George Lucas achava que tinha limitações tecnológicas quando produziu a trilogia original (1977-83) e que não as tinha mais quando produziu, escreveu e dirigiu a trilogia-prelúdio (1999-2005), se refestelando mais do que devia nos efeitos digitais, Abrams compreende que as “limitações” dos anos 1970 e 1980 sempre foram, de fato, uma vantagem.

Assim, o novo filme minimiza os efeitos digitais em prol do uso de maquetes e efeitos realizados no set sempre que possível.  Foi uma opção que fez diferença e valeu a pena. Com isso, o novo Star Wars retorna a um futuro “velho”, meio sucateado, nos confins da galáxia e que parece mais real.

Outro acerto é o investimento na construção de novos personagens muito bons. Tanto a catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) quanto o stormtrooper desertor Finn (John Boyega) e o novo vilão, Kylo Ren (Adam Driver), são complexos e funcionam muito bem. São mais complexos, na verdade, que os protagonistas da trilogia original, que sempre foram bastante arquetípicos. Mesmo Leia (Carrie Fisher), que renegava o estereótipo da princesa a ser salva, mas acabava sendo arquetípica para o outro lado.

O filme confia nesses personagens, nessa nova geração. Quando Han Solo entra em cena, O Despertar da Força já começou há algum tempo e, sem perceber, o espectador está acompanhando apenas personagens novos, com grandes possibilidades de estar totalmente envolvido pela trama e sem dar pela falta dos medalhões até então. Mas os astros vêm e o filme dá a cada um uma entrada solene em cena.

Abrams teve a nobreza e esperteza de convocar Lawrence Kasdan para acompanhá-lo no roteiro. Roteirista do melhor filme da série, O Império Contra-Ataca (1980), ele certamente também fez diferença. O filme entrega e sonega informação ao espectador com muita destreza. Constrói uma bela aventura sem se preocupar em ser explicadinho, leva a atenção do espectador para onde quer e, no fim, boa parte dos personagens continua com histórias não reveladas, guardadas para os próximos episódios.

Como não se trata de Lost, Abrams não terá infindáveis episódios para criar mistérios e, depois, não saber como resolvê-los. O que ele fez é colocar as pulgas nas orelhas dos espectadores, que passaram a especular o que este ou aquele personagem representa. E manter um pouco da aura de mistério que foi parte importante da divulgação de O Despertar da Força.

O principal deles era a respeito da maneira como seria a participação de Mark Hamill como Luke Skywalker. Não por acaso, a primeira frase do letreiro incial é “Luke Skywalker está desaparecido”. Boa parte da trama deste sétimo episódio gira em torno da busca por ele, o último jedi. A Primeira Ordem (o que restou do Império) e a Resistência (liderada pela ex-princesa e agora general Leia, vivida de novo por Carrie Fisher) querem encontrá-lo.

É a essa trama que os novos personagens são jogados depois de se conhecerem. Ao lado disso, muito da trama repete passos de Guerra nas Estrelas (1977; rebatizado desnecessariamente a partir de 1999 como Star Wars – Uma Nova Esperança) e O Retorno de Jedi (1983). Nisso, o filme aposta em um caminho mais fácil, de identificação imediata com os velhos fãs maltratados com a trilogia-prelúdio.

Mas há que considerar que o espírito original da série era esse mesmo: Guerra nas Estrelas revisitava os seriados de Flash Gordon dos anos 1930 (que passavam em episódios no cinema sempre com o “continua na próxima semana” no final), os filmes japoneses de samurais, os capa-e-espada e os faroestes clássicos. Nada mais natural, portanto, que o novo Star Wars remeter à sua própria versão de quase 40 anos antes.

O que importa é que a combinação disso com os novos personagens e as ligações entre eles funcionou bem demais. É um grande retorno, mas dando um significativo passo à frente.

Star Wars – O Despertar da Força. Star Wars – The Force Awakens. Estados Unidos, 2015. Direção: J.J. Abrams. Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Anthony Daniels, Kenny Baker, Max von Sydow, Simon Pegg, Warwick Davis.

(ampliado do texto publicado no Correio da Paraíba, em 19/12/2015)

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Gemma Arterton e Fabrice Luchini

Gemma Arterton e Fabrice Luchini

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte. Gemma Bovery. França/ Reino Unido, 2014. Direção: Anne Fontaine. Elenco: Fabrice Luchini, Gemma Arterton, Jason Flemyng, Isabelle Candelier. Quando descobre que uma jovem e casada inglesa que se mudou para a região chama-se Gemma Bovery, padeiro francês passa a observá-la e a encontrar outros elementos em comum entre a vida da moça e a história de Madame Bovary. Adaptação da história em quadrinhos de Posy Simmonds, que já teve outra obra levada ao cinema e protagonizada também pela linda Gemma Arterton: O Retorno de Tamara (2010). Funciona bastante bem, graças a uma narrativa fluida, que alterna algum humor e momentos sexy, e um elenco com as peças principais bem escolhidas: Gemma e o excelente Fabrice Luchini.

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A fronteira da cozinha

Camila Márdila e Regina Casé: premiadas em Sundance

Camila Márdila e Regina Casé: premiadas em Sundance

A emoção e a razão muitas vezes são tratadas como excludentes no cinema. Existem os filmes que se esforçam para envolver o espectador e evitam pensar sobre qualquer coisa mais profunda e não faltam aqueles que abordam situações de maneira cerebral, mas evitam o drama como o diabo. Que Horas Ela Volta? (Brasil, 2015) não sofre com isso: é ao mesmo tempo um drama humano de largo alcance e um filme que pensa muito o Brasil a partir de sua metáfora.

Para começar, é uma história de mães. De início, a de Val (Regina Casé, em excelente atuação),  uma babá e empregada nordestina que vive há anos na casa dos patrões ricos paulistanos. O suficiente para ter visto o garoto da casa crescer e ter com ele uma relação mãe-e-filho mais do que o rapaz tem com a própria mãe, Bárbara (Karine Teles).

Mas ela tem sua própria filha, Jessica (Camila Márdila, que dividiu com Regina o prêmio de melhor atriz em Sundance), que deixou em Pernambuco para ser criada por parentes enquanto ganha a vida em São Paulo. Elas não se veem há anos e a garota, que a chama de Val (não de mãe), vai a São Paulo para prestar um concorrido vestibular para Arquitetura. Ela tem a primeira decepção rápido, ao descobrir que a mãe não mora em sua própria casa, mas num quartinho na casa dos patrões.

Sem os anos de subserviência e renúncia pessoal que a mãe teve e influenciada por professores que a fizeram enxergar possibilidades em seu futuro, a garota não desperdiça as chances que são dadas a ela de ter acessos pela casa que a mãe não esperava. Val, “quase da família”, sempre “conheceu o seu lugar”. A visão que Val tem desse mundo é aquela que o filme mostra quando Carlos (Lourenço Mutarelli) requisita a Val “um guaraná, por favor” lá da mesa na sala de jantar e é visto do ponto de vista da cozinha, através da porta, de onde se pode ver só um pedaço do outro cômodo.

Jessica está no limite entre a independência e, talvez, um certo oportunismo. Embaralha essa realidade que até então funcionava bem. Os homens da casa não parecem perceber a tempestade se formando e as relações de poder dentro da casa, mesmo fazendo parte ativa delas (o personagem de Lourenço Mutarelli rapidinho se mostra interessado na bela filha da empregada, por exemplo). Bárbara e Val, as duas mães, é que sentem mais a situação. E Val parece sentir mais a invasão do que Bárbara. A empregada deixa claro mais diretamente seu desconforto, enquanto a patroa tenta disfarçar, usar subterfúgios, empurrar o conflito para baixo do tapete.

Aos poucos, Que Horas Ela Volta? vai evidenciando também o drama da personagem de Karine Teles que vê o filho se conectar mais com Val do que com ela e expõe a cultura das mulheres que, por diferentes razões, são levadas a entregar seus filhos para serem criados por outras mulheres. A cena do resultado do vestibular, no quarto, em que Val de certa forma faz uma opção natural pela própria filha mostra as complexidades dessas relações dentro da casa.

A diretora Anna Muyalert faz declaradamente um paralelo com o que ela chama de “herança escravocrata” brasileira: a “Casa Grande & Senzala” que acontece naturalmente dentro de tantas casas onde pessoas vivem “da porta da cozinha para cá” e “da porta da cozinha para lá” e empregados são “quase da família”, enquanto convém aos patrões. Metaforizando uma situação muito brasileira, que chega a surpreender os espectadores no exterior, Que Horas Ela Volta? têm tido fôlego para convencer também essas plateias e críticos de outros países pela força de seu drama de personagens. As referências sociais diferentes, nesse caso, são amenizadas em prol de sentimentos universais.

Que Horas Ela Volta? Brasil, 2015. Direção: Anna Muylaert. Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas.

A vilã é um achado visual, mas os excessos atrapalham

Sem borda - 2,5 estrelas

Preguiça amarela

Tendo roubado a cena nos dois Meu Malvado Favorito (2010 e 2013), os ajudantes amarelos do vilão Gru ganharam alguns curtas só para eles e, agora (como Os Pinguins de Madagascar), um longa: Minions (Minions, Estados Unidos, 2015). Eles continuam uma graça, é verdade, e por isso é uma pena que o filme de Kyle Balda e Pierre Coffin, ache na maior parte do tempo que só isso basta.

Há boas ideias no filme, mas quase sempre exploradas com preguiça ou sufocadas por piadas irregulares. É um bom começo, por exemplo, os minions através do tempo, com vários vilões. É algo que poderia tomar mais tempo, mas fica só na introdução.

Ok, situar a trama em 1968 é um grande achado visual. O filme capricha no cenário e lota a tela de referências culturais (a maioria óbvias e citadas sem muita inspiração). O design da vilã Scarlett Overkill, em particular, é ótimo. Mas a personagem – dublada por Sandra Bullock no original e por Adriana Esteves na versão nacional – é cheia de excessos na tentativa de, na marra, ser mais engraçada. O nome dela contém “over”, mas não é necessário ir longe demais nisso. A dupla de cineastas e seus roteiristas ganhariam muito descobrindo que muitas vezes menos é mais.

Há, por exemplo, aquela família que dá carona aos minions para a convenção de vilões em Orlando. Uma subtrama péssima, histérica, sem qualquer graça (e com seus personagens irritantes ainda voltando depois de sua pouca utilidade na trama ter encerrado). É só um dos aspectos de um filme preguiçoso, que vai sempre pelo caminho que parece mais fácil.

Brigando com tudo isso estão os próprios minions: o trio Stuart, Kevin e Bob, designado para deixar o refúgio da raça e procurar seu próximo vilão a servir. E eles fazem o que podem: desfilam charme por entre algumas piadas boas e outras francamente óbvias demais e evitam, pelo menos, que o filme seja uma completa perda de tempo.

Minions. Minions. Estados Unidos, 2015. Direção: Pierre Coffin, Kyle Balda. Vozes na dublagem original: Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allson Janney, Steve Coogan, Jennifer Saunders, Steve Carell. Narração: Geoffrey Rush. Vozes na dublagem brasileira: Adriana Esteves, Vladimir Brichta.

Divertida Mente

Raiva (Léo Jaime), Nojinho (Dani Calabresa), Alegria (MIá Mello), Medo (Otaviano Costa) e Tristeza (Katiuscia Canoro): a sala de controle da mente está prestes a sair do controle

Sem borda - 05 estrelas

Roda viva de emoções

Na sala de controle da mente de uma menina de 11 anos, as emoções trabalham juntas para manter tudo sobre controle. Riley é uma criança feliz, então a Alegria domina a cena, secundada pela Raiva, o Nojinho e o Medo, enquanto a Tristeza é sempre deixada meio de escanteio, sem muito o que fazer. Mas a menina precisa enfrentar uma nova realidade, o que balança o coreto de suas emoções, que viram uma bagunça. É o tema de Divertida Mente (Inside Out, Estados Unidos, 2015), animação da Disney/ Pixar atualmente em cartaz.

Depois de alguns filmes meio no piloto automático, a Pixar entrega um filme no nível de excelência de Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Wall-E (2008) e Toy Story 3 (2010). Na direção, o mesmo Pete Docter que supera seus já ótimos Monstros S.A. (2001) e Up – Altas Aventuras (2009).

A imaginação do que acontece por dentro de Riley quando ela muda de Minnesota, onde viveu a infância, para uma desconhecida e a princípio problemática San Francisco, é nada menos que brilhante. É uma mudança difícil, para não dizer traumática.

Agora pense nos seus filhos: se tudo correr bem, as crianças são mesmo dominadas pela alegria em seus primeiros anos. Mas chega inevitavelmente o momento em que as coisas ficam confusas e é preciso encarar a tristeza por alguma coisa. Nós, claro, evitamos como podemos que a tristeza domine nossos pequenos. É dessa forma que a Alegria age no filme: ela nem mesmo entende por que a Tristeza está ali e, para evitar que Riley fique para baixo, a todo custo impede a Tristeza de fazer alguma coisa.

O filme, no fundo, é sobre isso: descobrir a importância (e até a beleza) da tristeza em nossas vidas. Entender que – apesar de querermos – ninguém é feliz sempre e ficar triste faz parte da vida, e uma parte importante. Como cenário está o momento de mudança dessa garota, em que sua personalidade (visível através das “ilhas” de honestidade, família, hóquei e bobeira) está mudando e as memórias de infância vão ficando para trás.

Crescer não é fácil pra ninguém, mas aqui isso é mostrado de maneira até épica (já que as escalas são maiores no mundo “dentro da mente”). Acidentalmente expulsas da sala de controle, Alegria e Tristeza precisam voltar com memórias fundamentais de Riley. Enquanto isso, as emoções da garota ficam confusas e a levam a atitudes extremas que ela não tinha antes. O que é mostrado em cenas grandiosas, como uma ilha de personalidade ruindo ou em detalhes como a cor do “céu” em sua mente.

A dupla passa pelo arquivo de memórias, a terra da imaginação, o trem do pensamento, a escuridão do subconsciente, os sonhos e pelas memórias que vão sendo apagadas para sempre. Tudo é orquestrado por um roteiro firme e ostentando um design elaborado.

Sem dúvida, é um filme que tem o mérito de não tentar agradar as crianças pelo caminho mais fácil. Embora não deixe de ter personagens fofinhos e cores vivas, ele não se acomoda no encantamento infantil e busca um “algo a mais” muito bem-vindo. Mesmo que o filme vá em direção àquele clímax grandiloquente já esperado da aventura, a resolução é inteligente e o conjunto é um primor.

E vale lembrar que a dublagem brasileira também faz um ótimo trabalho, com Miá Mello (Alegria), Katiuscia Canoro (Tristeza), Dani Calabresa (Nojinho), Léo Jaime (Raiva) e Otaviano Costa (Medo) sempre soando como personagens e nunca como celebridades contratadas.

Divertida Mente é uma animação que torna visíveis conceitos complexos e abstratos. Não possui romance ou vilões propriamente ditos. E mostra a incrível roda viva interna que todos nós acabamos sendo uma vez ou outra.

Divertida Mente. Inside Out. Estados Unidos, 2015. Direção: Pete Docter. Vozes na dublagem brasileira: Miá Mello, Katiuscia Canoro, Dani Calabresa, Otaviano Costa, Léo Jaime.

Apu com sua mãe e irmã: filmado com comovente verdade

Apu com sua mãe e irmã: filmado com comovente verdade

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Clássico anti-Bollywood

Quando se fala em cinema indiano, muita gente evoca logo Bollywood. Mas também tem gente que pensa primeiro no total oposto deste mundo de fantasia, cores e música: pensa no cinema de Satyajit Ray. Por exemplo, em A Canção da Estrada (Pather Panchali, Índia, 1955), primeiro filme da chamada Trilogia de Apu, que abriu toda uma possibilidade de um novo cinema indiano. Apu, no caso, é o garotinho cuja família é central na trama que mostrava ao Ocidente, pela primeira vez, uma Índia mais realista.

O pai é um religioso que tenta ganhar a vida pregando pelas cidades e deixa a mulher muitos dias sozinha em uma aldeia, chefiando sua casa com o casal de filhos e a velha tia, com quem não se dá muito bem (interpretada por Chunibala Devi, já com 80 anos, antiga atriz que Ray foi reencontrar vivendo em um bordel, segundo contou Roger Ebert). O interesse de Ray, estreando na direção, é com a intimidade da família e os relacionamentos entre eles. É um cotidiano difícil, muito pobre, alternando esperanças, delicadezas e pequenas alegrias com tristezas.

O pai Harihar (Kanu Bannerjee) é um sonhador, em oposição à mãe Sarbojaya (Karuna Bannerjee), que vive na tensão da falta de dinheiro. As crianças tentam incluir algo lúdico entre os afazeres. Durga (Uma Das Gupta) está crescendo, começa a enfrentar a mãe, passa a não ter tanta paciência com o irmão caçula e se vê em um problema quando a joia de uma amiga some e ela é acusada do roubo.

Apu (Samir Banerjee) é testemunha de tudo isso. Ele é a figura central dos três livros de Bibhutibhusan Bandyopadhyay, que tratam de sua infância e amadurecimento. A Canção da Estrada cobre dois terços do primeiro livro. O Invencível (1956) vai desta terça parte final até parte do segundo livro. E O Mundo de Apu (1959), com Apu adulto, já se desvencilha mais da trilogia literária.

Mas os filmes são tão ligados que muitas vezes são considerados juntos em compêndios e enciclopédias de cinema. Mas o primeiro é o primeiro: é aquele que marcou a estreia de Ray, que, contam, nunca tinha dirigido uma cena atpe a câmera rodar em A Canção da Estrada – assim como seu cinegrafista (Subatra Mitra) nunca havia filmado nada, seus atores mirins nunca tinham atuado e mesmo Ravi Shankar, autor da trilha, era verde.

E é A Canção da Estrada que foi feito ameaçado desde o início de parar por falta de dinheiro, rodando com uma câmera 16mm emprestada, mas que conseguiu um financiamento a duras penas para, dali, ser premiado em Cannes e ser indicado ao Bafta. Não é pra menos. O visual do filme impressiona, é lindo e cru ao mesmo tempo (tanto as cenas na floresta quanto dentro do casebre, principalmente a tempestade). Transpira uma comovente verdade. É incrível que seja um trabalho de iniciantes sem dinheiro nenhum.

E isso vale também para o roteiro. O uso do trem como símbolo épico da modernidade, que é tudo o que não existe no povoado de Apu, onde a passagem de um homem que vende doces é um grande evento. E a resolução do plot do roubo das joias é, em si mesmo, uma pequena joia dentro de um tesouro maior.

A Canção da Estrada. Pather Panchali. Índia, 1955. Direção: Satyajit Ray. Elenco: Subir Banerjee, Karuna Bannerjee, Uma Das Gupta, Chunibala Devi, Kanu Bannerjee.

“Primeiras Vezes” (Editora Nemo)

A pornografia remete, claro, ao sexo explícito. Mas se fizermos um exercício de imaginação definindo-a pelo aspecto narrativo, e descontando o sexo, podíamos defini-la como filmes (ou quadrinhos) marcados por um certo tipo de cenas que são a única coisa que importa ao consumidor do produto – e tudo mais entre elas é pura enrolação à qual o filme (ou a HQ) não dá maior atenção (crédito da ideia da definição, se me lembro bem, a João Batista de Brito). Afinal, quem quer saber da historinha do entregador que vai encontrar a mulher seminua e sozinha em casa, se o que interessa e vê-los transando?

'1+1', ilustrado por Virginie Augustin

‘1+1’, ilustrado por Virginie Augustin

Primeiras Vezes (Editora Nemo, 112 páginas, R$ 32,90) quebra esse paradigma. Há sexo explícito à vontade nessa coletânea de dez histórias escritas pela francesa Sibylline e desenhada cada uma por um ilustrador diferente. Mas há também um surpreendente (para o gênero) ótimo texto, com personagens interessantes e bem construídos, mesmo em histórias de tão poucas páginas. Não sou um leitor muito assíduo de quadrinhos eróticos, mas este é o melhor que li nos últimos anos.

'2+1', ilustração de Vince

‘2+1’, ilustração de Vince

As narrativas eróticas são temperadas por dilemas existenciais e confissões sensoriais que vão bem além do puro tesão. Cada um dos capítulos é dedicado a uma primeira vez diferente: começa pela evidente primeira transa e segue pela estreia com um brinquedo erótico, no sexo com outra mulher, em uma transa a três, no sadomasoquismo e por aí vai.

Sibylline, 37 anos, mostra-se extremamente versátil na maneira de contar cada história. Algumas são puxadas por um diálogo naturalista, uma dispensa completamente as falas, outras são basicamente narradas em primeira pessoa.

'X-Rated', ilustrado por Dave McKean

‘X-Rated’, ilustrado por Dave McKean

O que todas possuem em comum é o ponto de vista feminino. Isso até mesmo quando se trata de uma boneca em tamanho real, comprada por um rapaz para satisfazer seus prazeres, na história Inerte, desenhada por Rica. É uma das mais interessantes (e estranhas) histórias do conjunto. Primeiras Vezes foge, talvez naturalmente, das mulheres estereotipadas comuns no gênero da HQ erótica. Em vários momentos, a reflexão é tão importante quanto a entrega aos desejos neste álbum.

A variedade dos traços é um elemento importante. São muito diferentes uns dos outros, indo do anatomicamente mais atraente (Sex-Shop, de Capucine; 2+1, de Vince) ao traço mais rebuscado ou radical (Primeira Vez, de Alfred; X-Rated, de Dave McKean), passando pelo cartunesco delicado (Fantasia, de Jerome d’Aviau; 1+1, de Virginie Augustin; Submissão, de Cyril Pedrosa).

'Submissão', ilustrado por Cyril Pedrosa

‘Submissão’, ilustrado por Cyril Pedrosa

Poucos dos desenhistas da edição são conhecidos no Brasil. Notadamente, Pedrosa, por Três Sombras, e o britânico McKean, por Batman – Asilo Arkham e pelas capas de Sandman. Mas eles garantem uma bem-vinda diversidade no traço, o que também foge do comum nesse tipo de publicação, marcada por uma busca pela representação próxima do realismo.

Primeiras Vezes é, pelo conjunto, uma grande HQ. Consegue ir além do sexo pelo sexo sem deixar de ser ótima no erotismo.

Primeiras Vezes. Premières Fois. De Sibylline (roteiro), Alfred, Capucine, Jérôme d’Aviau, Virginie Augustin, Vince, Rica, Olivier Vatine, Cyril Pedrosa, Dominique Bertail e Dave McKean. Editora Nemo, 112 páginas. R$ 39,90.

Beijo em Pine Lake

Barry Watson e Mia Kirshner

Sem borda - 1,5 estrela Beijo em Pine Lake. Kiss at Pine Lake. Canadá, 2012 (TV). Direção: Michael Scott. Elenco: Barry Watson, Mia Kirshner, Matty Finochio, Victoria Bidewell. Namoradinhos adolescentes em um acampamento de verão se reencontram anos depois: ele é um ricaço que compra o lugar, ela representa uma firma que compra barato e revende caro propriedades e tem a missão de convencer o novo dono a vender o campo. O telefilme canadense do canal Hallmark é uma comédia romântica que não mata ninguém, mas também não traz absolutamente nada de novo. Até a canadense Mia Kirshner, que está acostumada a papéis ousados (Exotica, 1994; Dália Negra, 2006; a série The L Word, 2004-2009) aqui não escapa da linha mocinha romântica.

Trailer.

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