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Coração Selvagem

Diário de Filmes 2020: 18

David Lynch põe pouco o amor no centro dos seus filmes. Mas é a relação efervescente entre Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern) que conduz Coração Selvagem. Temperado por evocações anos 1950 (Elvis e James Dean, entre outras coisas) e referências a O Mágico de Oz, tudo embalado na narrativa tão estranha quanto fascinante que é a marca de Lynch.

CORAÇÃO SELVAGEM (David Lynch, 1990)

Ferias do Sr Hulot

Diário de Filmes 2020: 17

As Férias do Sr. Hulot é o segundo longa de Jacques Tati e o primeiro com o personagem que ele interpretaria aí e em mais três filmes posteriores. Como ele também voltaria a fazer, não há bem uma história, mas uma situação estabelecida na qual ele desfila uma série de esquetes e personagens, observando com humor a relação entre as pessoas, convenções sociais e modismos.

Ancorado pelo gentil e desengonçado Hulot vai, como tanta gente, a um balneário. Não é um filme mudo, mas os diálogos são muito poucos e quase nenhum com alguma importância.

Mesmo a trilha é franciscana: consiste basicamente de um mesmo tema musical que se repete ocasionalmente. O humor é basicamente visual e, nisso, muito preciso.

Como a cena em que Hulot tenta pintar um bote à beira-mar e nunca acha a lata de tinta porque o mar a leva para o outro lado do barquinho. Ou sua luta para segurar as rédeas de um cavalo, que o faz aparecer e desaparecer de cena por trás de um casebre — uma aula de pantomima.

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (Jacques Tati, 1953)

Green Book

Diário de Filmes 2020: 16

Este Conduzindo Miss Daisy ao contrário espelha o filme de 1989 até no fato de ter vencido o Oscar de melhor filme e ser quase unanimemente considerado uma escolha bem infeliz. Não que seja um mau filme. Se propõe a falar de racismo expondo algumas complexidades. Um branco pobre, um negro rico. Um branco racista, mas que gosta mais de dinheiro do que não gosta de negros. Um negro que não se identifica com a cultura que se esperaria de um negro. Mas que resolve, a seu modo e com seu talento, enfrentar o racismo de parte da nação. E por aí vai. Só que o desenrolar da trama é mostrada de maneira totalmente esquemática. É uma trama interessante, mas contada de maneira banal.

GREEN BOOK – O GUIA (Peter Farrelly, 2019)

Mogli

Diário de Filmes 2020: 14

O sucesso desta versão de Mogli animou a Disney a produzir em série versões live action de seus clássicos animados. No caso, aqui, é um mezzo live action (porque só o menino é real; tudo em volta é CGI). É bem decente e a presença humana talvez amenize um pouco, por contraste, a falta de expressividade dos animais digitais falantes. É um problema que ficou maior em O Rei Leão, do mesmo Favreau (e que é zero live action). Curiosamente, o final deste Mogli século XXI é mais conto-de-fadas que a animação dos anos 1960: lá, o menino-lobo segue seu curso rumo à aldeia dos homens; aqui, a fantasia forçada de continuar seguir na floresta com o urso Balu e a pantera Baguera.

MOGLI, O MENINO-LOBO (Jon Favreau, 2016)
½

Jojo Rabbit

Diário de Filmes 2020: 13

Fazer comédia com o nazismo não é nenhuma novidade, mas ainda surpreende (e estranha) muita gente. A galhofa foi a saída encontrada por Taike Waititi, diretor e roteirista, para contar a história de um garoto que se integra serelepe à Juventude Hitlerista e até tem o próprio führer como amigo imaginário. O retrato dos nazistas parece ter saído de Top Secret – Superconfidencial (1984), enquanto a intimidade familiar de Jojo é terna na figura da mãe vivida por Scarlett Johansson. O menino vai descobrir que ela esconde uma garota judia em casa, o que o fará repensar tudo.

Mais difícil que começar um filme com nazistas pela chave da comédia é sustentá-la até o final. Waititi prefere, então, mudar a sintonia gradualmente para o drama até que ele domine quase totalmente a cena.

Mas, assim como o Hitler de mentirinha que ele mesmo interpreta, ecos da comédia permanecem até perto do fim. Ainda bem: ajuda em fazer a mudança de tom parecer natural.

JOJO RABBIT (Taika Waititi, 2019)

1917-2

1917
O cinema em movimento

Diário de Filmes 2020: 12

Espectadores têm interesses diferentes quando vão assistir a um filme. Alguns esperam que uma produção apontada como um grande filme seja algo que os arrebate, uma catarse emocional. Outros se interessam mais pela história em si ou por um conteúdo “importante”.

Este crítico até escreveu brevemente sobre isso uma vez.

Nesta visão pessoal, o cinema é como aquela história: mais importante que a piada, é o jeito como ela é contada. A história de um filme é importante, mas, mais importante ainda é como ela é narrada. A narrativa é tudo.

1917 se encaixa aí. Lembra um filme de Howard Hawks: homens com um trabalho a cumprir, custe o que custar. Em volta disso, há os dramas pessoais e o comentário sobre o cenário geral. Que, no caso, é a I Guerra Mundial.

A partir de um momento idílico, do descanso sob uma árvore em campo aberto, a câmera acompanha dois soldados convocados enquanto entram nas trincheiras e tudo vai ficando gradativamente mais apertado e claustrofóbico. Eles guiam o espectador para dentro da guerra.

É o começo do brilhante trabalho de Sam Mendes, o diretor, e Roger Deakins, o diretor de fotografia, na condução da série de planos-sequências — editados como se fossem dois, longuíssimos. Dois segmentos de narração como se fossem filmados em tempo real na jornada dos soldados que devem chegar a tempo para avisar uma tropa a não realizar um ataque que, na verdade, é uma armadilha. Se conseguirem, evitarão mais de mil mortes do lado britânico.

Nessa corrida, eles vão tendo que lidar com diversas situações que servem como um panorama da I Guerra Mundial, mesmo que alguns detalhes possam soar, ao pé da letra, como incorreção histórica. Algumas acontecem para propósitos dramáticos, outras provavelmente para de alguma maneira ampliar o confinamento narrativo do filme e trazer certas informações (como, por exemplo, o indiano que aparece servindo junto a um regimento de soldados brancos — indianos eram colocados em seu próprio regimento).

Como escreveu o Verissimo, a decisão dos planos-sequência encadeados e disfarçados como se fossem um só passa longe de um maneirismo vazio e exibicionista. É uma estética que serve ao movimento constante dos personagens e da ação. O movimento é a alma do filme, os planos-sequência também.

Seria um filme muito diferente e bem menos interessantes, caso não tivesse optado por essa maneira de contar a história? Certamente. Mas é por isso que é cinema: porque a maneira de contar a história é crucial. 1917 é um “filme-filme”, como escreveu a Ana Maria Bahiana. Ser cinema é a própria razão de ser do filme.

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Lawrence da Arabia - 07

Um monumento do cinema. Para contar a história do inglês que trabalhou para unir tribos árabes para enfrentarem juntas os turcos no front do Oriente Médio da I Guerra Mundial, David Lean levou sua equipe inteira ao deserto.

Filmou em regiões que ficavam a dias da civilização, colocando na terra uma vastidão de deserto intocado. “Eu ficava pensando: ‘como eles fizeram o take 2?’, pergunta Steven Spielberg, num dos extras da edição dupla em DVD (a produção baniu copinhos plásticos porque eles voavam para dentro das cenas e arruinavam a filmagem: para tirá-los de lá, a marca do copo e as pegadas da areia?). A visão aérea em plano-sequência do ataque à cidade de Aqaba exigiu que se erguesse 300 construções cenográficas.

E há o que o filme contém: um protagonista complexo, tortuoso, grandes diálogos (roteiro de Robert Bolt e Michael Wilson), atores incríveis (o filme revelou Peter O’Toole e Omar Sharif, e ainda tinha Anthony Quinn e Alec Guinness, entre outros) e soberbas fotografia (de Freddie Young) e música (de Maurice Jarre). Uma das cenas antológicas é a entrada de Omar Shaif em cena, vindo em seu camelo lá do horizonte: o filme simplesmente fotografa a miragem!

LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean, 1962)

Meu Amigo o Dragao - 2016 - 07

Refilmagem de um filme de 1977 que colocava atores contracenando com um dragão de desenho animado, este se propõe a uma pegada mais “realista”. Se no de 1977, o dragão parecia saído de um desenho do Mickey, com pretensão zero em ser real, aqui o CGI tenta inseri-lo na realidade ao redor. Também não é um musical, como o anterior. Poderia dar muito errado, mas funciona, com Robert Redford emprestando sua dignidade.

MEU AMIGO, O DRAGÃO (David Loewry, 2016)

Atlantis - 07

Como não foi um grande sucesso nas bilheterias, Atlantis — O Reino Perdido é meio escanteado na história da Disney. É injusto. Da mesma dupla de diretores de A Bela e a Fera (1991) e O Corcunda de Notre Dame (1996), foi uma das primeiras tentativas do estúdio de uma animação de aventura mais jovem, menos infantil, e sem ser um musical.

E, no caso, totalmente inspirado em Jules Verne, com visual desenvolvido por Mike Mignola (quadrinhista criador de Hellboy, creditado como desenhista de produção). Ambientado em 1914, é bonito, tem ritmo e ainda tem mensagens ecológicas e contra o militarismo e o imperialismo. Foi o último longa dos dois diretores, o que é uma pena.

ATLANTIS — O REINO PERDIDO (Gary Trousdale e Kirk Wise, 2001)

Serei Amado Quando Morrer - 01

De novo: alguns filmes têm uma história de bastidores tão fascinante que rendem um longa sobre eles próprios – seja como uma versão para ficção, seja como documentário. Também é o caso de O Outro Lado do Vento, último filme dirigido por Orson Welles, cuja filmagem se arrastou por seis anos (de 1970 a 1976) e só foi concluído e lançado pela Netlfix em 2018, 33 anos após a morte do diretor.

Dentro da tela, um filme experimental que é um falso documentário (contado através de imagens que emulam uma colagem de filmagens caseiras e caóticas) sobre o último dia de um diretor veterano que não consegue pôr um fim no filme experimental que está rodando. Fora da tela, um veterano expatriado que volta a Hollywood, faz um filme que nem a equipe entende, que estava na cara que era sobre ele (mas ele insistia que não), com troca de elenco no meio do caminho, traições entre amigos, financiamentos perigosos, apreensão jurídica do filme, o diabo.

Gostando ou não do que Welles pôs na tela, a história dessa produção é fascinante. E o documentário, que busca uma edição mais ousada e irônica, pode até melhorar o filme em si. Também está na Netflix.

SEREI AMADO QUANDO MORRER (Morgan Neville, 2019)

Tubarao - 09 - filmagem

Alguns filmes têm uma história de bastidores tão fascinantes que rendem um longa sobre eles próprios – seja como uma versão para ficção, seja como documentário. Tubarão é um deles. O francês Laurent Bouzereau é um especialista em making ofs de filmes clássicos e dirigiu este documentário de mais de 2 horas sobre o filme de Spielberg, que está na íntegra como extra no DVD duplo dos 30 anos do filme, de 2005. Não é inventivo na forma, mas é exemplar ao contar em detalhes a saga de Tubarão do livro ao sucesso nos cinemas.

THE MAKING OF ‘JAWS’ (Laurent Bouzereau, 1995)

Fun Home

(…)

Fun Home é um álbum de personalidade forte. É verborrágico, com pouquíssimos quadros sem recordatório. No começo, muitas vezes o desenho apenas ilustra o que os recordatórios narram. O texto poderia contar a história sozinho.

Mas, com o passar das páginas, ele vai se tornando uma interpretação psicológica da trama. A partir daí, desenhos e recordatórios narram coisas diferentes ou complementares”.

(…)

Leia a crítica minha completa no Universo HQ!

Fun Home - capa

FUN HOME – UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA. De Alison Bechdel (roteiro e desenhos). Editora: Todavia. Tradução: André Conti. 240 páginas. Publicação original: 2006. Edição brasileira: 2018.
⭐⭐⭐

Horizonte Sombrio - 08

Estamos entrando na era dos longa-metragens centenários. Há 100 anos, D.W. Griffith dirigiu Lillian Gish flutuando em um bloco de gelo, por um rio semicongelado e em direção a uma cachoeira, no antológico clímax de ‘Horizonte Sombrio’. Até chegar aí, o filme é um melodramão sobre a mocinha que é enganada por um ricaço conquistador que a engravida e a abandona. Após muitos infortúnios, ela conseguie emprego numa fazenda, mas o sujeito reaparece. Esta reta final sensacional vale o filme e deixou marcas: anos depois, Gish disse que sua mão doeu pelo resto da vida por causa da água geladíssima do rio.

HORIZONTE SOMBRIO (D.W. Griffith, 1920)

Tubarao

Anos depois, Spielberg definiu ter aceitado esse projeto como um misto de coragem e estupidez. Muito antes da possibilidade da animação por computador, o cineasta tinha que se virar com um tubarão mecânico que vivia dando mau funcionamento. A solução foi melhor que a encomenda: reduzir as aparições do bicho.

Isso, junto com a trilha incrível de John Williams, o fez ainda mais assustador e rendeu uma das melhores cenas aberturas do cinema. Hoje, o CGI colocaria uns 20 tubarões na tela aparecendo o tempo todo. Aqui, as limitações estimularam a perícia narrativa de Spielberg, um grande contador de histórias, que cria maravilhosos momentos visuais tanto das ocasiões mais impactantes quanto de situações mais triviais (como Roy Scheider na praia, com a câmera se aproximando dele a cada vez que uma pessoa passa em frente).

O filme também tira força da química entre seus três protagonistas: o policial vivido por Scheider, o acadêmico vivido por Richard Dreyfuss e o lobo do mar durão de Robert Shaw. Spielberg isola o trio em alto-mar em boa parte do filme, para um duelo contra uma máquina de matar. Uma aventura que está ao lado das maiores do cinema.

TUBARÃO (Steven Spielberg, 1975)

FROZEN 2

Existe essa regra na “cartilha” de Hollywood segundo a qual toda continuação deve ser maior que o filme anterior. Frozen II tem mais ação, mas personagens, mais plots, mais música, mais melodrama. Tudo resultando num baita exagero geral, com algumas resoluções de roteiro muito ruins. O visual continua um deslumbre, mas é pouco.

FROZEN II (Chris Buck, Jennifer Lee, 2019)
½

Muito Barulho por Nada - 2012 - 01

Joss Whedon filmou em sua própria casa em 12 dias, enquanto estava envolvido em outro projeto muito contrastante em tamanho: Os Vingadores – The Avengers. É em preto-e-branco, as atuações são contidas (principalmente em comparação com a versão de Kenneth Branagh). O resultado é que é interessante, mas bem menos engraçado. Às vezes, menos é menos.

MUITO BARULHO POR NADA (Joss Whedon, 2012)
½

Operação Big Hero-02

A primeira animação do Walt Disney Animation Studios a usar como material personagens da Marvel se debruçou sobre ilustres desconhecidos do grande público. Mas entregou um elenco animado bem carismático, que sustenta uma animação de aventura muito bem contada.

OPERAÇÃO BIG HERO (Don Hall e Chris Williams, 2014)
⭐⭐⭐⭐

MUCH ADO ABOUT NOTHING, from left: Emma Thompson, Kenneth Branagh, 1993. ©Samuel Goldwyn Films/court

Para primeiro filme do ano, eu queria ver algo que eu amasse muito. Saquei da prateleira de DVDs essa beleza de adaptação de Shakespeare, filme que me fez sorrir desde os primeiros segundos, quando o assisti no saudoso Cine Art Manaíra, há 26 anos: a voz de Emma Thompson na tela preta só com as letras do poema, seguida por aquela abertura maravilhosa embalada pela música de Patrick Doyle.

Kenneth Branagh dirigiu até agora seis adaptações de peças de Shakespeare. Esta faz, com Henrique V (1989) e Hamlet (1996), o trio mais impressionante. A comédia ganha com um elenco excelente, que inclui Denzel Washington e Michael Keaton. Emma e Branagh é que comandam tudo, com as farpas trocadas entre seus personagens, destinados a se amar, claro. Casados na época, eles casaram também seus talentos.

Como diretor, Branagh dialoga com o teatro o tempo todo, com muitos planos-sequência, que privilegiam os atores. E há as mudanças que ele impôs à peça, levando quase toda a ação para o ensolarado exterior da Toscana.

MUITO BARULHO POR NADA (Kenneth Branagh, 1993)
⭐⭐⭐⭐⭐

MUCH ADO ABOUT NOTHING, from left: Emma Thompson, Kenneth Branagh, 1993. ©Samuel Goldwyn Films/court

Para primeiro filme do ano, eu queria ver algo que eu amasse muito. Saquei da prateleira de DVDs essa beleza de adaptação de Shakespeare, filme que me fez sorrir desde os primeiros segundos, quando o assisti no saudoso Cine Art Manaíra, há 26 anos: a voz de Emma Thompson na tela preta só com as letras do poema, seguida por aquela abertura maravilhosa embalada pela música de Patrick Doyle. Kenneth Branagh dirigiu até agora seis adaptações de peças de Shakespeare. Esta faz, com Henrique V (1989) e Hamlet (1996), o trio mais impressionante. A comédia ganha com um elenco excelente, que inclui Denzel Washington e Michael Keaton. Emma e Branagh é que comandam tudo, com as farpas trocadas entre seus personagens, destinados a se amar, claro. Casados na época, eles casaram também seus talentos. Como diretor, Branagh dialoga com o teatro o tempo todo, com muitos planos-sequência, que privilegiam os atores. E há as mudanças que ele impôs à peça, levando quase toda a ação para o ensolarado exterior da Toscana.

MUITO BARULHO POR NADA (Kenneth Branagh, 1993)

Diário de filmes 2020: 1

Bacurau - 06

BACURAU
⭐⭐⭐⭐⭐

O Nordeste contra-ataca ou ‘O senhor já combinou com os russos?’ 

por Renato Félix  

Bacurau é um filme bastante estudado, no que diz respeito à narrativa. Há um jogo muito grande de entregar e sonegar informações do espectador. Quem assiste pode ir deduzindo elementos, mas também ser ocasionalmente enganado por pistas falsas, enquanto outras reais vão passando despercebidas. Por essa razão, é muito difícil conversar sobre o filme sem abordar algumas de suas surpresas e seus efeitos. Portanto, revelações sobre o enredo (os não tão populares spoilers) vêm a seguir. Vá em frente por conta e risco. E, se for, vá na paz.

O filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se passa em um povoado do fim do mundo do sertão nordestino: Bacurau. O tempo é o futuro próximo. Trata-se, então, de uma ficção científica? Empurrando o espectador para este lado, o filme chega a plantar um disco voador em determinado momento do filme. Não um qualquer, mas um com toda a cara de filme americano dos anos 1950, tipo O Dia em que a Terra Parou (1951).

No clássico de Robert Wise, um alienígena chega à Terra para alertar sobre a crescente violência em nosso planeta. Não deu certo: os habitantes de Bacurau, que começam o filme lidando com seus próprios problemas, logo se dão conta que estão sendo vítimas de um ataque misterioso.

Quem seriam os agressores, a ameaça? O filme vai nos contando aos poucos, e o disquinho voador, que segue uma primeira imagem que vê a Terra do ponto de vista do espaço, dá toda a pinta de algo como um ataque alienígena. Uma invasão como em Vampiros de Almas (1956), em que os aliens se disfarçam de humanos para conquistar a Terra a partir de uma cidadezinha do interior dos EUA (a trama era parábola da paranoia anticomunista).

O disquinho, de aparência tão falsa que incomoda, é uma das pistas falas: é um drone, na verdade. Mas as pessoas quem estão por trás são, sem dúvida, alienígenas àquela terra, embora deste mesmo planeta.

Embora o filme não se preocupe em esmiuçar detalhes — o que nos coloca apenas um pouco menos no mesmo isolamento que os habitantes de Bacurau —, o grupo de estrangeiros está ali para caçar os habitantes do povoado. É uma espécie de safari.

O filme, nesse ponto, reflete uma das faces mais aterradoras da sociedade estadunidense: as armas no cotidiano e os seguidos massacres a cidadãos comuns indefesos. Um dia, alguém pega uma arma, se dirige a uma escola ou restaurante e abre fogo. Caça outras pessoas.

Aparentemente, nesse futuro próximo, grupos de predadores supremacistas chegaram à conclusão que a ânsia de matar não precisa ser contra os de seu próprio país. Se organizaram para caçadas “seguras” a pessoas em terras para quem eles não ligam — e tampouco o governo local. Na visão deles, pode até haver um viés ecológico nisso: eles não matam animais na África em perigo de extinção, mas seres humanos — o que, afinal,  o planeta tem sobrando.

O supremacismo branco é um dos poucos elementos que ficam muito claro em Bacurau: na cena em que os estrangeiros debocham dos brasileiros brancos, seus aliados, e que se acham iguais aos estrangeiros. Esses brasileiros são, também, alienígenas: surgem em suas motos e roupas coloridas, não tendo nada a ver com os habitantes dali. Seu comportamento também mostra isso, ao darem pouco caso ao convite para conhecer melhor a história do lugar, visitando o pequeno museu dali.

O fator de identificação com o povo de Bacurau — portanto, do sertão nordestino — ou com os alienígenas — os estrangeiros brancos — certamente provocou algumas das críticas perplexas e assustadas que Bacurau recebeu, principalmente em veículos da região Sudeste.

O que acontece em seguida foi avisado em pistas cifradas no decorrer do filme. A placa de boas-vindas — “Bacurau — Se for, vá na paz” — está mais para um aviso a quem passa por ela. A definição do que significa o nome da cidade — um pássaro que só sai à noite porque “é brabo” — também.

Mais do que a ficção científica, deixada mais de lado quando os mistérios vão ficando mais claros, é o faroeste a fonte de onde os diretores bebem. Não só no plano do prefeito no povoado, a câmera subindo para mostrá-lo só na rua (decalcado de Matar ou Morrer, 1952), mas sobretudo na reta final, uma espécie de versão de Sete Homens e um Destino (1960), sem os sete homens.

No faroeste de John Sturges (e no filme em que ele se baseia, Os Sete Samurais, de Kurosawa, de 1954), um povoado é periodicamente saqueado por bandidos que aparecem, roubam tudo e vão embora. Os habitantes procuram um grupo de caubóis (ou samurais, no original) para defendê-los. E os guerreiros acabam treinando o povo para enfrentar os opressores. No fim, não só os guerreiros, mas a comunidade dá cabo dos vilões.

Aqui, o povo não precisa desses professores: sua história de enfrentamento das opressões que vêm de fora já os treinou. A explosão de violência contra a violência de quem se considera superior a ponto de achar que a vida do outro não vale nada não deixa a plateia incólume: é espertamente embalada nesses códigos do faroeste, que mostram como são ainda efetivos.

O cinema de gênero é abraçado por Bacurau e é fator importante para a vibração das plateias. Além do faroeste, Rambo também está lá (a violência do filme ganha até uma autosátira: quando um personagem pergunta se outro não foi “longe demais”, é Bacurau dando uma piscadela sobre si mesmo). Não à toa seus personagens se tornaram familiares ao público, frases vão sendo repetidas, memes são feitos. Coisa que o cinema brasileiro recente alcançou poucas vezes — com Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), principalmente.

De certa forma, Kléber Mendonça Filho fez o seu próprio “filme de boneco”, termo que ele usa para se referir aos filmes de super-herói.

Houve quem reclamasse da falta de profundidade nos personagens de Bacurau. É verdade, mas não se trata muito de um filme “de personagem” (como foi Aquarius, o longa anterior de Mendonça, de 2016), mas “de grupos”, de comunidades. Há, claro, excelentes caracterizações básicas — como Disney ensinou lá atrás, em Branca de Neve e os Sete Anões (1937), ao definir que cada anão tinha que ter uma característica predominante, para que o público diferenciasse facilmente um do outro.

Muitos dos personagens de Bacurau poderiam até ganhar seus próprios filmes, prelúdios que contam sua história anterior.

Claro que, paralelo a essas questões narrativas, existe a alegoria política e social. Não dá para não relacionar o Nordeste atacado por supremacistas estrangeiros aliados ao poder, em Bacurau, com o Brasil atual, da extrema-direita no poder, revanchista contra a região que, no geral, votou contra sua ascensão. O contra-ataque de Bacurau é a metáfora da resistência do Nordeste.

A catarse da reta final do filme pega o espectador na veia porque não é só uma revanche contra o ataque físico. É contra a soberba e a arrogância de quem se acha melhor que os outros, a ponto de nem levar esse outros em consideração como oponentes. De desconsiderar suas vidas e história (uma visitinha ao museu não teria feito nada mal).

Diz que na Copa do Mundo de 1958, o técnico Vicente Feola fez uma preleção com os jogadores da Seleção Brasileira sobre o jogo a seguir com a União Soviética. Com seu quadro de “xizinhos” e “bolinhas” mostrou a estratégia em campo que, sem dúvida, traria a vitória ao Brasil. Até que Garrincha levantou a mão: “Está bem, professor. Mas o senhor já combinou com os russos?”.

Os alienígenas de Bacurau foram de férias para o safari perfeito. Só esqueceram de combinar com o povo de Bacurau.

BACURAU — Brasil/ França, 2019. Direção: Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Elenco: Barbara Colen, Sonia Braga, Udo Kier, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Ingrid Trigueiro, Thardelly Lima, Karine Teles, Buda Lira, Suzy Lopes, Danny Barbosa, Jamila Facury. Em cartaz.

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