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Rei Leao - 2019

O REI LEÃO
⭐⭐⭐

Animais viraram bando de ‘ciganos Igor’

por Renato Félix

A Disney achou uma mina de ouro nessa franquia em que cata em seus clássicos da animação material para adaptações com atores em carne-e-osso. O Rei Leão não é um live action, mas a ideia é parecer o máximo com um: todos os animais são animações por computador extremamente realistas. Mas, em geral, é como as experiências anteriores: em que pese o grande sucesso de bilheteria e alguma atualização das personagens femininas, artisticamente tudo parece desnecessário e sem chegar aos pés do original.

A trama do novo filme segue muito de perto o original. Na verdade, a cena de abertura — com o número “Circle of life” e os animais se encaminhando  para a apresentação do herdeiro do trono — é um decalque plano a plano da original. Em termos de narrativa, a maior parte do filme é por aí, como uma cópia xerox ou aproximada da animação feita majoritariamente à mão em 1994.

Isso, claro, garante que o filme seja um bom entretenimento e mantenha as mensagens sobre responsabilidade e contra a tirania. O problema é que a vontade de parecer “de verdade” (mesmo que seja com animais que falam e cantam) distancia este filme daquilo que o original tinha de melhor.

Para começar, o carisma dos personagens. A animação à mão de 1994 tinha a liberdade de recorrer ao cartunesco quando quisesse. Esta se limita a abrir e fechar a boca dos personagens para os diálogos e canções. Emoções dependem exclusivamente da dublagem e de alguma expressão corporal. Fora isso, qualquer sentimento é expresso pela mesma cara: os ricos personagens de O Rei Leão parecem todos interpretados pelo cigano Igor.

Isso também se reflete nos números musicais. “Circle of life” impressiona visualmente pela transposição fiel e aspecto realista. Mas esse impacto não demora a se tornar mera curiosidade. E nos momentos em que a animação de 1994 passava a uma esfera mais expressionista, o novo filme não tem coragem de dar esse passo. Não demora a acontecer: em “I just can’t wait to be king”, a própria animação de 1994 sai de um registro mais realista para se tornar ainda mais colorido e movimentado. Isso não ocorre na versão de 2019, aprisionada em sua vontade de aparentar realidade.

Outro número que sofre especificamente com isso é “Be prepared”, em que o vilão Scar canta seus planos de traição para um séquito de hienas que, na versão de 1994, não demoram a desfilar como numa parada nazista. Essa referência totalitária é limada da adaptação e o número perde bastante de sua força dramática.

As maiores mudanças na trama dizem respeito ao maior espaço dado a Nala, que ganha uma cena em que escapa do reinado de terror de Scar, e a uma conversão de Simba ao vegetarianismo. Nesse caso, na animação de 1994, ele passa a comer insetos porque “aqui não tem zebra nem antílopes”, como informava Timão, depois de encontrá-lo do outro lado do deserto. Agora há: a região é povoada com todo tipo de animais, mas o pequeno Simba é que escolhe não comê-los.

Nesse ponto, ele não seguiu o papo do pai sobre o ciclo da vida lá no começo: “A gente come os antílopes, quando morremos viramos grama e o antílope come ela”. Era uma compensação estranha mesmo (do ponto de vista do antílope).

O REI LEÃO. The Lion King. EUA, 2019. Direção: Jon Favreau. Vozes na dublagem original: Donald Glover, Chiwetel Ejiofor, Billy Eichner, Seth Rogen, Beyoncé, James Earl Jones, Alfre Woodard, JD McCrary. Vozes na dublagem brasileira: Ícaro Silva, Rodrigo Miallaret, Ivan Parente, Glauco Marques, Iza, Saulo Javan.

Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria. Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

OS 20 MELHORES DE 1999

Tudo sobre Minha Mae - 01

1 — TUDO SOBRE MINHA MÃE

(Todo Sobre Mi Madre, Espanha/ França). Direção: Pedro Almodóvar. Elenco: Cecília Roth, Marisa Paredes, Candela Peña, Antonia San Juan, Penélope Cruz.
Almodóvar voltava a investir no melodrama, temperado por seu amor pelas atrizes. Um jovem que quer ser escritor tenta pegar um autógrafo de uma famosa atriz, mas é atropelado e morre.  Sua mãe convive com esse luto enquanto busca pelo pai do rapaz, para dar a notícia. Na jornada, conhece um travesti, uma freira e a própria atriz. O título mostrava sua devoção à Hollywood clássica, citando diretamente o clássico All about Eve (A Malvada no Brasil, filme de 1950), com Bette Davis e Anne Baxter. O filme é dedicado a Bette, a Romy Schneider e Gena Rowlands, três grandes atrizes do cinema. Ganhou o Oscar de filme de língua não inglesa.

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Toy Story 2 - 01

2 — TOY STORY 2

(Toy Story 2, Estados Unidos). Direção: John Lasseter. Elenco (vozes originais): Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Kelsey Grammer, Don Rickles, Wallace Shawn, Annie Potts, Wayne Knight, Lurie Metcalf, Estelle Harris. R. Lee Ermey, Jodi Benson.
Quatro anos após o primeiro filme, Toy Story coloca o devotado boneco Woody frente a possibilidade de um dia ser descartado (tema que seria retomado no terceiro e quarto filmes). O drama da rejeição aparece mais forte na figura de Jessie e a canção que conta sua história com a antiga dona, com um final de cortar o coração. Há muitas, muitas ideias maravilhosas: o segundo Buzz Lightyear, que — como o primeiro, no primeiro filme — pensa que é mesmo um herói espacial, mas é ainda mais caricato e engraçadíssimo; o prólogo; a sequência nas esteiras do aeroporto; o clímax que remete aos faroestes.

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Buena Vista Social Club

3 — BUENA VISTA SOCIAL CLUB

(Buena Vista Social Club, Alemanha/ Estados Unidos/ Reino Unido/ França/ Cuba). Direção: Wim Wenders. 
Wim Wenders e Ry Cooder foram pra Cuba. E lá eles trouxeram à luz uma série de músicos extraordinários que estavam meio esquecidos: Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Rubén González, Omara Portuondo e muitos outros. O filme e o disco resgataram essa parte da música cubana para o mundo.

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Eleicao

4 — ELEIÇÃO

(Election, Estados Unidos). Direção: Alexander Payne. Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein, Jessica Campbell, Colleen Camp. 
Em uma aparentemente inocente eleição do corpo estudantil de uma escola, um professor detecta o perigo futuro em uma das concorrentes, especialmente ambiciosa. Ele resolve interferir no pleito, enquanto sua vida pessoal vai se tornando mais e mais confusa. Uma comédia que parece um John Hughes dark.

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Sexto Sentido - 04

5 — O SEXTO SENTIDO

(The Sixth Sense, Estados Unidos). Direção: M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams. 
Um dos finais-surpresa mais famosos da História, o filme é uma extremamente bem armada pegadinha narrativa, além de criar um clima de terror dramático mais importante que eventuais sustos.

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Informante - 1999 - 02

6 — O INFORMANTE

(The Insider, Estados Unidos). Direção: Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Gina Gershon. 
Às vezes Michael Mann se deixa levar pelo apuro estético e esquece um pouco de contar a história. Não é o que acontece aqui, na forte trama de um denunciante da indústria do tabaco (Crowe que,  ganhou o Oscar do ano seguinte por Gladiador, quando merecia muito mais por este aqui) que é atacado depois que resolve abrir a boca em um programa jornalístico da TV após a insistência de um produtor (Pacino).

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Quero Ser John Malkovich - 04

7 — QUERO SER JOHN MALKOVICH

(Being John Malkovich, Estados Unidos). Direção: Spike Jonze. Elenco: John Cusack, Cameron Diaz, Catherne Keener, Octavia Spencer, John Malkovich. 
Filmes esquisitos hoje não são mais tão incomuns, mas a trama de um meio-andar em um prédio onde as pessoas têm que andar curvadas e onde há uma passagem para dentro da mente do ator John Malkovich foi uma imensa surpresa em sua época. O roteiro é de Charlie Kaufman, que a partir daqui virou grife.

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DH Wallpapers

8 — MAGNÓLIA

(Magnolia, Estados Unidos). Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Julianne Moore, Tom Cruise, William H. Macy, Phillip Seymour Hoffman, Jason Robards, John C. Reilly, Philip Baker Hall, Alfred Molina, Melinda Dillon.
Uma intrincada teia de dramas, ressentimentos, dores, frustrações e desesperos interligando diversos personagens, pela batuta firme e elegante de P.T. Anderson.

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A Espera de um Milagre - 04

9 — À ESPERA DE UM MILAGRE

(The Green Mile, Estados Unidos). Direção: Frank Darabont. Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse, James Cromwell, Bonnie Hunt, Sam Rockwell, Michael Jeter, Doug Hutchison, Patricia Clarkson, Harry Dean Stanton. 
Darabont dirige outra trama de Stephen King (depois de Um Sonho de Liberdade, 1995) e de novo entregou um grande trabalho. Há o elemento sobrenatural, na figura do preso gigante que é acusado de matar uma menina e que tem um dom misterioso, e há a rotina do corredor da morte, de seus hóspedes e dos policiais que os guardam. O filme tem vários bons personagens, defendidos por um elenco ótimo.

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Picaretas - 01

10 — OS PICARETAS

(Bowfinger, Estados Unidos). Direção: Frank Oz. Roteiro: Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Eddie Murphy, Heather Graham, Christine Baranski, Terence Stamp, Robert Downey Jr. 
Uma comédia amorosa sobre o mundo do cinema em que Steve Martin é um produtor/diretor meia-boca que resolve dirigir um filme com um grande astro — sem que ele saiba. Para isso, vale usar de todos os recursos para a interação com o ator, que ainda é um paranoico membro de uma religião dessas tipo cientologia.

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Lugar Chamado Notting Hill - 03

11 — UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL

(Notting Hill, Estados Unidos). Direção: Roger Michell. Roteiro: Richard Curtis. Elenco: Hugh Grant, Julia Roberts, Rhys Ifans, Tim McInnerny, Gina McKee, Emma Chambers, Hugh Bonneville. 
Especialista em comédias românticas, Richard Curtis teve um ponto alto aqui, fantasiando essa relação entre um britânico suburbano sem graça e uma estrela de Hollywood. Michell tem uma direção inspirada e há diversos bons coadjuvantes.

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Virgens Suicidas - 01

12 — AS VIRGENS SUICIDAS

(The Virgin Suicides, Estados Unidos). Direção e roteiro: Sofia Coppola. Elenco: Kirsten Dunst, James Woods, Kathleen Turner, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, Hayden Christensen.
A redenção de uma artista, nove anos antes massacrada por uma escalação infeliz do pai e uma consequente má atuação em O Poderoso Chefão — Parte III, Com As Virgens Suicidas, Sofia Coppola se revelou uma cineasta sensível e talentosa nessa história dos rapazes obcecados com as cinco misteriosas irmãs novas na vizinhança.

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Clube da Luta - 01

13 — CLUBE DA LUTA

(Fight Club, Estados Unidos/ Alemanha). Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf.
Vidas em Jogo
(1997) não havia tido a mesma recepção impressionante de Seven (1995), mas David Fincher recuperou seu prestígio narrativo com essa adaptação vistosa e que se tornou cult do livro de Chuck Palahniuk. É incrivelmente o primeiro roteiro de Uhls.

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Tarzan - 13

14 — TARZAN

(Tarzan, Estados Unidos). Direção: Chris Buck, Kevin Lima. Roteiro: Tab Murphy, Bob Tzudiker, Noni White. Elenco (vozes na dublagem original): Tony Goldwin, Minnie Driver, Glenn Close, Brian Blessed, Lance Henriksen, Rosie O’Donnel, Nigel Hawthorne, Wayne Knight.
Foi meio surpreendente que a Disney tivesse recorrido a um personagem já usado tantas vezes no cinema para seu longa de animação da vez. No fim, foi um ponto alto do estúdio nos anos 1990, um dos últimos grandes trabalhos da animação tradicional na Disney para o cinema antes do computador tomar conta de vez.

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Matrix - 01

15 — MATRIX

(The Matrix, Estados Unidos). Direção e roteiro: Lana Wachowski e Lilly Wachowski. Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving.
O universo hacker, efeitos de última geração, a pílula azul ou a pílula vermelha, filosofia pop, estilo visual cyberpunk. Matrix fez a cabeça de um mundo de gente e nem as desastrosas continuações diminuíram sua força.

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Mundo de Andy

16 — O MUNDO DE ANDY

(Man on the Moon, Estados Unidos). Direção: Milos Forman. Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti.
Jim Carrey entrega uma daquelas performances que costumam chamar de mediúnicas na cinebiografia de um lendário comediante americano, pouco conhecido por aqui: Andy Kaufman.

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Meninos Nao Choram - 01

17 — MENINOS NÃO CHORAM

(Boys Don’t Cry, Estados Unidos). Direção: Kimberly Pearce. Roteiro: Kimberly Peirce e Andy Bienen. Elenco: Hilary Swank, Chloë Sevigny, Peter Sarsgaard.
A crua cinebiografia de Brandon Teena, e sua vida de homem transgênero no interior dos EUA, revelou a grande atriz Hilary Swank, que ganhou o Oscar, mas teve poucas oportunidades realmente boas depois.

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Gigante de Ferro - 01

18 — O GIGANTE DE FERRO

(The Iron Giant, Estados Unidos). Direção: Brad Bird. Roteiro: Tim McCanlies. Elenco (vozes na dublagem original): Eli Marienthal, Jennifer Aniston, Harry Connick Jr., Vin Diesel. 
Animação que bebe na ficção científica dos anos 1950, com a história de um robô gigante que veio do espaço, cai próximo a uma cidadezinha do interior e faz amizade com um garoto local. Não por acaso, o filme se passa exatamente nos anos 1950. Lembra também Frankenstein Jr., da Hanna-Barbera. Bird depois dirigiu Ratatouille e Os Incríveis, na Pixar, e o melhor filme disparado de Missão: Impossível.

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Beleza Americana-04

19 — BELEZA AMERICANA

(American Beauty, Estados Unidos). Direção: Sam Mendes. Roteiro: Alan Ball. Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Jenney, Chris Cooper. 
A partir da crise de meia idade de um sujeito assolado pelo desejo pela amiga da filha vão se revelando os desejos ocultos na comunidade americana suburbana perfeitinha na superfície.

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Fim de Caso - 16

20 — FIM DE CASO

(The End of the Affair, Reino Unido/ Estados Unidos). Direção e roteiro: Neil Jordan. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Jason Isaacs. 
Jordan adaptou o romance de Graham Greene, no qual um escritor tem notícia de uma ex-amante, que o abandonou sem explicação, e tenta obsessivamente descobrir o motivos do final abrupto. Um grande elenco, com uma Julianne Morre especialmente deslumbrante.

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OS 10 PIORES

Zoando na TV - 01

1 — ZOANDO NA TV

(Brasil). Direção: José Alvarenga Jr. Roteiro: Carlos Lombardi, Mauro Wilson, José Alvarenga Júnior, Maria Carmem Barbosa. Elenco: Angélica, Márcio Garcia, Danielle Winits, Paloma Duarte, Miguel Falabella, Bussunda, Oscar Magrini, Nicete Bruno, Maria Padilha, Odilon Wagner.
A primeira produção da Globo Filmes é essa comédia infantojuvenil que usa o elenco da emissora (a na época apresentadora infantil à frente) girando em torno da própria TV. Mau começo, parece forçado o tempo todo.

2 — UM COPO DE CÓLERA (Brasil). Direção: Aluízio Abranches. Elenco: Júlia Lemmertz, Alexandre Borges. Um livro lido em cena (e sexo).

3 — UMA AVENTURA DO ZICO (Brasil). Direção: Antônio Carlos da Fontoura. Elenco: Zico, Laura Cardoso. Fazem um clone do Zico e a personalidade dele é dividida em duas: um fica sério demais e o outro, zoeiro. Não podia dar certo.

4 — ARMADILHA (Entrapment, EUA/ Reino Unido/ Alemanha). Direção: Jon Amiel. Elenco: Sean Connery, Catherine Zeta-Jones. Um dos piores filmes de roubo já feitos, só vale pela Catherine, lindíssima.

5 — ROMANCE (Romance, França). Direção: Catherine Breillat. Elenco: Caroline Ducey, Rocco Sifredi. Fez o maior bafafá na época porque era um filme “sério” que tinha sexo explícito. Mas, como filme, é bem fraco.

6 — DO FUNDO DO MAR (Deep Blue Sea, EUA/ México). Direção: Renny Harlin. Elenco: Saffron Burrows, Thomas Jane, Samuel L. Jackson. Tubarões inteligentes digitais.

7 — ORFEU (Brasil). Direção: Carlos Diegues. Elenco: Toni Garrido, Patrícia França, Murilo Benício. Tentativa de atualizar a peça de Vinicius e Tom Jobim, que não funcionou. E ainda teve aquela ponta nonsense do Caetano tocando violão numa laje.

8 — A CASA AMALDIÇOADA (The Hauting, EUA). Direção: Jan de Bont. Elenco: Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones, Lily Taylor, Owen Wilson, Virginia Madsen. Fazia parte de um projeto de refilmar clássicos do horror dos anos 1950. Tinha um bom elenco e bons nomes por trás das câmeras, mas não foi longe.

9 — O TRAPALHÃO E A LUZ AZUL (Brasil). Direção: Paulo Aragão e Alexandre Boury. Elenco: Renato Aragão, Adriana Esteves, Rodrigo Santoro, Christine Fernandes, Danielle Winits, Dedé Snatana, Roberto Guilherme. Dois filmes e oito anos depois, este filme trouxe Dedé de volta, mas como vilão. Já começou errado.

10 — STAR WARS — A AMEAÇA FANTASMA (Star Wars — The Phantom Menace, EUA). Direção: George Lucas. Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, Ian McDiarmid, Terence Stamp. Lucas recomeçou a saga Star Wars no cinema assumindo sozinho a direção e o roteiro. Estava fora de forma. Apesar da pompa e de causar muita expectativa no lançamento, o “episódio 1” pode ser descartado tranquilamente.

  • Não estão na lista porque não vi (mas aposto que entrariam: Xuxa Requebra e Gigolô por Acidente)

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Bacurau - 06

BACURAU
⭐⭐⭐⭐⭐

O Nordeste contra-ataca ou ‘O senhor já combinou com os russos?’ 

por Renato Félix  

Bacurau é um filme bastante estudado, no que diz respeito à narrativa. Há um jogo muito grande de entregar e sonegar informações do espectador. Quem assiste pode ir deduzindo elementos, mas também ser ocasionalmente enganado por pistas falsas, enquanto outras reais vão passando despercebidas. Por essa razão, é muito difícil conversar sobre o filme sem abordar algumas de suas surpresas e seus efeitos. Portanto, revelações sobre o enredo (os não tão populares spoilers) vêm a seguir. Vá em frente por conta e risco. E, se for, vá na paz.

O filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se passa em um povoado do fim do mundo do sertão nordestino: Bacurau. O tempo é o futuro próximo. Trata-se, então, de uma ficção científica? Empurrando o espectador para este lado, o filme chega a plantar um disco voador em determinado momento do filme. Não um qualquer, mas um com toda a cara de filme americano dos anos 1950, tipo O Dia em que a Terra Parou (1951).

No clássico de Robert Wise, um alienígena chega à Terra para alertar sobre a crescente violência em nosso planeta. Não deu certo: os habitantes de Bacurau, que começam o filme lidando com seus próprios problemas, logo se dão conta que estão sendo vítimas de um ataque misterioso.

Quem seriam os agressores, a ameaça? O filme vai nos contando aos poucos, e o disquinho voador, que segue uma primeira imagem que vê a Terra do ponto de vista do espaço, dá toda a pinta de algo como um ataque alienígena. Uma invasão como em Vampiros de Almas (1956), em que os aliens se disfarçam de humanos para conquistar a Terra a partir de uma cidadezinha do interior dos EUA (a trama era parábola da paranoia anticomunista).

O disquinho, de aparência tão falsa que incomoda, é uma das pistas falas: é um drone, na verdade. Mas as pessoas quem estão por trás são, sem dúvida, alienígenas àquela terra, embora deste mesmo planeta.

Embora o filme não se preocupe em esmiuçar detalhes — o que nos coloca apenas um pouco menos no mesmo isolamento que os habitantes de Bacurau —, o grupo de estrangeiros está ali para caçar os habitantes do povoado. É uma espécie de safari.

O filme, nesse ponto, reflete uma das faces mais aterradoras da sociedade estadunidense: as armas no cotidiano e os seguidos massacres a cidadãos comuns indefesos. Um dia, alguém pega uma arma, se dirige a uma escola ou restaurante e abre fogo. Caça outras pessoas.

Aparentemente, nesse futuro próximo, grupos de predadores supremacistas chegaram à conclusão que a ânsia de matar não precisa ser contra os de seu próprio país. Se organizaram para caçadas “seguras” a pessoas em terras para quem eles não ligam — e tampouco o governo local. Na visão deles, pode até haver um viés ecológico nisso: eles não matam animais na África em perigo de extinção, mas seres humanos — o que, afinal,  o planeta tem sobrando.

O supremacismo branco é um dos poucos elementos que ficam muito claro em Bacurau: na cena em que os estrangeiros debocham dos brasileiros brancos, seus aliados, e que se acham iguais aos estrangeiros. Esses brasileiros são, também, alienígenas: surgem em suas motos e roupas coloridas, não tendo nada a ver com os habitantes dali. Seu comportamento também mostra isso, ao darem pouco caso ao convite para conhecer melhor a história do lugar, visitando o pequeno museu dali.

O fator de identificação com o povo de Bacurau — portanto, do sertão nordestino — ou com os alienígenas — os estrangeiros brancos — certamente provocou algumas das críticas perplexas e assustadas que Bacurau recebeu, principalmente em veículos da região Sudeste.

O que acontece em seguida foi avisado em pistas cifradas no decorrer do filme. A placa de boas-vindas — “Bacurau — Se for, vá na paz” — está mais para um aviso a quem passa por ela. A definição do que significa o nome da cidade — um pássaro que só sai à noite porque “é brabo” — também.

Mais do que a ficção científica, deixada mais de lado quando os mistérios vão ficando mais claros, é o faroeste a fonte de onde os diretores bebem. Não só no plano do prefeito no povoado, a câmera subindo para mostrá-lo só na rua (decalcado de Matar ou Morrer, 1952), mas sobretudo na reta final, uma espécie de versão de Sete Homens e um Destino (1960), sem os sete homens.

No faroeste de John Sturges (e no filme em que ele se baseia, Os Sete Samurais, de Kurosawa, de 1954), um povoado é periodicamente saqueado por bandidos que aparecem, roubam tudo e vão embora. Os habitantes procuram um grupo de caubóis (ou samurais, no original) para defendê-los. E os guerreiros acabam treinando o povo para enfrentar os opressores. No fim, não só os guerreiros, mas a comunidade dá cabo dos vilões.

Aqui, o povo não precisa desses professores: sua história de enfrentamento das opressões que vêm de fora já os treinou. A explosão de violência contra a violência de quem se considera superior a ponto de achar que a vida do outro não vale nada não deixa a plateia incólume: é espertamente embalada nesses códigos do faroeste, que mostram como são ainda efetivos.

O cinema de gênero é abraçado por Bacurau e é fator importante para a vibração das plateias. Além do faroeste, Rambo também está lá (a violência do filme ganha até uma autosátira: quando um personagem pergunta se outro não foi “longe demais”, é Bacurau dando uma piscadela sobre si mesmo). Não à toa seus personagens se tornaram familiares ao público, frases vão sendo repetidas, memes são feitos. Coisa que o cinema brasileiro recente alcançou poucas vezes — com Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), principalmente.

De certa forma, Kléber Mendonça Filho fez o seu próprio “filme de boneco”, termo que ele usa para se referir aos filmes de super-herói.

Houve quem reclamasse da falta de profundidade nos personagens de Bacurau. É verdade, mas não se trata muito de um filme “de personagem” (como foi Aquarius, o longa anterior de Mendonça, de 2016), mas “de grupos”, de comunidades. Há, claro, excelentes caracterizações básicas — como Disney ensinou lá atrás, em Branca de Neve e os Sete Anões (1937), ao definir que cada anão tinha que ter uma característica predominante, para que o público diferenciasse facilmente um do outro.

Muitos dos personagens de Bacurau poderiam até ganhar seus próprios filmes, prelúdios que contam sua história anterior.

Claro que, paralelo a essas questões narrativas, existe a alegoria política e social. Não dá para não relacionar o Nordeste atacado por supremacistas estrangeiros aliados ao poder, em Bacurau, com o Brasil atual, da extrema-direita no poder, revanchista contra a região que, no geral, votou contra sua ascensão. O contra-ataque de Bacurau é a metáfora da resistência do Nordeste.

A catarse da reta final do filme pega o espectador na veia porque não é só uma revanche contra o ataque físico. É contra a soberba e a arrogância de quem se acha melhor que os outros, a ponto de nem levar esse outros em consideração como oponentes. De desconsiderar suas vidas e história (uma visitinha ao museu não teria feito nada mal).

Diz que na Copa do Mundo de 1958, o técnico Vicente Feola fez uma preleção com os jogadores da Seleção Brasileira sobre o jogo a seguir com a União Soviética. Com seu quadro de “xizinhos” e “bolinhas” mostrou a estratégia em campo que, sem dúvida, traria a vitória ao Brasil. Até que Garrincha levantou a mão: “Está bem, professor. Mas o senhor já combinou com os russos?”.

Os alienígenas de Bacurau foram de férias para o safari perfeito. Só esqueceram de combinar com o povo de Bacurau.

BACURAU — Brasil/ França, 2019. Direção: Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Elenco: Barbara Colen, Sonia Braga, Udo Kier, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Ingrid Trigueiro, Thardelly Lima, Karine Teles, Buda Lira, Suzy Lopes, Danny Barbosa, Jamila Facury. Em cartaz.

50. ‘I WANNA BE LOVED BY YOU’, de Quanto Mais Quente Melhor (1959)
Com Marilyn Monroe. Direção: Billy Wilder. Coreografia: Jack Cole. Canção de Herbert Stothart, Harry Ruby e Bert Kalmar.

“Boop-boop-a-doop”. A canção de 1928 é a cara da Betty Boop e não por acaso: a interpretação de Helen Kane, com sua voz meio infantil cantando esse “boop-boop-a-doop” inspirou a criação da personagem dos desenhos animados, em 1930. Como Quanto Mais Quente Melhor se passa em 1929, caiu como uma luva para Marilyn desfilar sua sensualidade brejeira na canção. Como Billy Wilder dizia, filmar com Marilyn podia ser um pesadelo, mas o resultado compensava de longe.

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49. ‘SO LONG, FAREWELL’, de A Noviça Rebelde (1965)
Com Charmian Carr, Nicholas Hammond, Heather Menzies-Urich, Duane Chase, Angela Cartwright, Debbie Turner e Kym Karath. Direção: Robert Wise. Coreografia: Marc Breaux e Dee Dee Wood. Canção de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.

O capitão Von Trapp não que transformar sua família num grupo musical, mas está difícil. No final de uma festa em casa, seus sete filhos se despedem dos convidados com este encantador número musical. Uma das forças desse filme é o carisma das crianças. “So long, farewell, auf wiedersehen, adieu”, em um número reprisado mais tarde no filme (e rever sempre é muito bem-vindo).

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48. ‘CABARET’, de Cabaret (1972)
Com Liza Minnelli. Direção e coreografia: Bob Fosse. Canção de John Kander e Fred Ebb.

Liza, sozinha em cena: e precisa mais? A canção-título do filme estabelece que esse não é um musical inocente como a maioria do que vieram antes dele. E, três anos após a morte da mãe Judy Garland, Liza chama o trono para si com toda a justiça, ao menos nesse filme. A vida é um cabaré, old chum, apesar dos profetas do pessimismo.

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47. ‘A WHOLE NEW WORLD’, de Aladdin (1992)
Com Brad Kane e Lea Salonga (vozes). Direção: John Musker e Ron Clements. Canção de Alan Menken e Tim Rice.

Aladdin joga baixo para conquistar a princesa Jasmine: a leva em um passeio de tapete mágico pelo mundo. As maravilhas que vai encontrando são embaladas pela maravilha que é essa canção vencedora do Oscar. A animação é um deslumbre.

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46. ‘THE BALLET OF RED SHOES’, de Sapatinhos Vermelhos (1948)
Com Moira Shearer, Alan Carter, Joan Harris. Direção: Michael Powell e Emeric Pressburger. Coreografia: Robert Helpmann. Música de Brian Esdale.

Bailarina de carreira consolidada nos anos 1940, a escocesa Moira Shearer estreou no cinema no papel principal de Sapatinhos Vermelhos. E o ponto alto do filme é o balé que dá nome ao filme, um número espetacular de quase 15 minutos, que soma recursos cinematográficos à atmosfera da dança no palco para ir além da fábula dançada e representar o turbilhão emocional da protagonista: closes, planos de detalhe, câmera lenta, sobreposição de imagens. Este número impressionou tanto Gene Kelly que o inspirou para Sinfonia de Paris (1951).

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45. ‘ALWAYS LOOK ON THE BRIGHT SIDE OF LIFE’, de A Vida de Brian (1979)
Com Eric Idle. Direção: Terry Jones. Canção de Eric Idle.

Essa música adorável e incrivelmente otimista, com assobios e tudo, é um dos momentos mais clássicos do grupo Monty Python. Contribui para isso, é claro, o fato de ela ser cantada por um grupo que está sendo crucificado na Judeia dos tempos de Cristo. O tipo de nonsense que foi a genialidade do grupo inglês.

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44. ‘CAN’T BUY ME LOVE’, de A Hard Day’s Night (1964)
Com The Beatles. Direção: Richard Lester. Canção de Paul McCartney (creditada a John Lennon e Paul McCartney).

A Hard Day’s Night acompanha os Beatles no que seria seu cotidiano típico de correrias para fugir das fãs, compromissos comerciais e entrevistas chatas pra caramba. Em um momento de descuido dos outros, eles escapolem por uma porta, dão numa escada externa e se divertem a valer em campo aberto, filmados de helicóptero em patetices de cinema mudo. Sua descida pelas escadas é uma das mais célebres do grupo.

Para assistir, clique aqui.

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43. ‘PUT THE BLAME ON MAME’, de Gilda (1946)
Com Rita Hayworth (voz de Anita Ellis). Direção: Charles Vidor. Coreografia: Jack Cole. Canção de Allan Roberts e Doris Fischer.

Pê da vida com o marido, (“nunca houve uma mulher como”) Gilda irrompe no palco do nightclub que ele dirige e canta “Put the blame on Mame”. Não só isso, como tira uma das luvas — e é o bastante para que seja um dos mais sexy strip-teases da história. O vestido tomara-que-caia ajuda: nos closes é como se Gilda… bem… não estivesse usando nada.

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42. ‘BELLE’, de A Bela e a Fera (1991)
Com Paige O’Hara, Richard White, Alec Murphy, Mary Kay Bergman, Kath Soucie e coro (vozes). Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise. Canção de Alan Menken e Howard Ashman.

Após um breve prólogo, A Bela e a Fera já mostra a que veio: a cena de apresentação da protagonista e seu vilarejo acanhado e o vilão valentão que a deseja é um espetáculo, com todo o jeito de Broadway. Dá para imaginar os cantores e bailarinos pelo palco. Mas aqui é cinema, há planos clássicos e divinos: Bela deslizando pelas prateleiras de livros em direção à câmera, ou a câmera girando em torno dela quando ela diz que quer “mais que essa vida provinciana”.

***

41. ‘WOULDN’T BE LOVERLY?’, de My Fair Lady — Minha Bela Dama (1964)
Com Audrey Hepburn (voz de Marni Nixon). Direção: George Cukor. Coreografia: Hermes Pan. Canção de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe.

A florista pobre Eliza Doolittle tem sua canção de “eu quero” após ser desmerecida pelo irritante professor de dicção. Ela canta nesse momento adorável, errando todas as palavras que pode (canta “ands” em vez de “hands”, por exemplo). Sonha com um mundo de elegância e amor em meio aos restos e aos desvalidos. Audrey, que sempre apareceu como dama nos filmes, brilha como a pobretona inculta que, no fim, vai embora em sua carruagem: uma carroça de lixo.

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Irene a Teimosa - 04

IRENE, A TEIMOSA (Gregory La Cava, 1936)

Diario de Filmes 2019: 44

Maravilhosa atriz de comédia dos anos 1930 e começo dos 1940, Carole Lombard é, aqui, uma das filhas em uma família ricaça que, desconectada da realidade dura da grande depressão, pega num lixão um mendigo para ganhar uma gincana. Mas, se sentindo culpada, arranja para ele um emprego de mordomo na casa de sua família. Ela se apaixona por ele, mas ele, cioso de sua nova função e com alguns segredos a manter, tenta evitar esse relacionamento.

Jean Dixon é ótima como a empregada com todo o jeitão atrevido que Thelma Ritter consagraria anos depois. O filme é uma comédia, mas certeiro no comentário social, e desde o começo: os criativos créditos começam com elenco e equipe em elegantes luminosos nos topos de prédios chiques e uma panorâmica não demora a mostrar ali do lado uma favela. O filme foi relançado há pouco na coleção Comédias Clássicas, da distribuidora Obras-Primas do Cinema.

Simplesmente Feliz - 09

SIMPLESMENTE FELIZ (Mike Leigh, 2008)

Diário de Filmes 2019: 43

Às vezes, um filme é sua atriz principal (ou ator). Depende fundamentalmente de achar a pessoa certa para encarnar a protagonista. É uma simbiose, Se dá certo, a mágica acontece. E aconteceu isso em Simplesmente Feliz, com Sally Hawkins como a professora londrina que é alegre à toda prova, de um jeito que influi diretamente em – ou até incomoda – quem está próximo. Seu cotidiano inclui um verdadeiro duelo de humores com seu neurastênico professor de direção. Hawkins é luminosa e sua interpretação foi premiada pelo Gllobo de Ouro, o Festival de Berlim e o Círculo de Críticos de Nova York.

Monstros SA - 01

MONSTROS S.A. (Pete Docter, 2001)

Diário de Filmes 2019: 42

Monstros S.A. parece que acabou, com o tempo, meio eclipsado pelas obras-primas da Pixar que vieram logo depois (Procurando Nemo, Ratatouille, Wall-E). Mas que filme ótimo! Ele se apoia na ideia recorrente de uma realidade alternativa fantástica que adapta a nossa própria, mas é um dos melhores filmes a fazer isso. Desde a ideia já engraçada de monstros com nomes absolutamente humanos e banais até a crise de energia.

A partir da premissa de que a energia do mundo dos monstros vem dos gritos de medo das crianças e que as portas dos armários são portais por onde assustadores profissionais fazem o trabalho, inverte-se o drama: o trabalho precisa ser feito, mas os monstros, na verdade, morrem de medo das crianças, que seriam tóxicas.

A confusão começa mesmo quando uma menininha passa para o outro lado. Personagens ótimos, narração ótima (a sequência no depósito das portas é um primor), piadas ótimas (“Temos um 2319! Temos um 2319!”).

Infamia - 1961 - 03

INFÂMIA (William Wyler, 1961)
⭐½
Diário de Filmes 2019: 41

O lesbianismo não era, claro, um tema comum na Hollywood do começo dos anos 1960, em tempos ainda sob a censura do Código Hays — longe disso. Em parte, isso se reflete na maneira como o tema é tratado nesta adaptação da peça de Lillian Hellman, na qual uma menina maldosa inventa uma mentira sobre as duas donas de sua escola: elas seriam amantes.

Isso torna a vida das duas um inferno. A menina conta a sua avó sussurrando — mesmo com as duas estando em um ambiente onde ninguém as ouve. As professoras, sem saber porque os pais estão levando as crianças embora, forçam um pai a revelar o motivo: a cena é mostrada de longe. Nas duas cenas, não ouvimos as palavras — apenas vemos a reação de quem escuta. Outra razão para isso é que o filme assume o ponto de vista das pessoas conservadoras daquela comunidade — as duas professoras incluídas. É, mais uma vez, “o amor que não ousa dizer seu nome”. Na segunda metade, o filme deixa de lado as meias palavras.

É datado, claro, mas não tanto quanto a versão dos anos 1930 (dirigida pelo mesmo William Wyler), que limou a homossexualidade da trama. O fato desta versão de 1961 ser dirigida por um cineasta classe A como Wyler (recém-saído do multioscarizado Ben-Hur), e com duas estrelas de primeira grandeza como Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, não deixa de ser marcante.

Joy o Nome do Sucesso-06

JOY, O NOME DO SUCESSO (David O. Russell, 2016)
⭐½
Diário de Filmes 2019: 40

Este filme parece o estouro da bolha David O.Russell. Ele costuma ser um ótimo diretor de elenco, mas narrador que não consegue empurrar suas tramas ao máximo. O Lado Bom da Vida e Trapaça são assim. Este Joy é de novo com Jennifer Lawrence, Bradley Cooper e Robert De Niro, mas desta vez as atuações não vão acima da média nem a narrativa sai muito do trivial. Ele se apoia na história de uma vencedora enfrentando o mundo e em sua familia esquisita. Não é o suficiente. Russell é artificial e sua chapa-branquice com a personagem principal é irritante, parece coisa de telefilme “baseado em uma história real”.

Doutor Estranho - 20

DOUTOR ESTRANHO (Scott Derrickson, 2016)
⭐½
Diário de Filmes 2019: 39

Com um herói então pouco conhecido fora do círculo de leitores de quadrinhos, Doutor Estranho introduziu elementos místicos no universo cinematográfico da Marvel. Visualmente, o filme é bem interessante, mesmo que o andamento da trama não fuja muito do padrão. Mas a solução final é engenhosa. Depois de conferir Vingadores — Guerra Infinita e Vingadores — Ultimato, é interessante revisitar este filme e ver sementes plantadas: a joia do tempo e o conceito de multiverso.

Projeto Florida - 01

PROJETO FLÓRIDA (Sean Baker, 2018)

Diário de Filmes 2019: 38

Consciente disso ou não, Projeto Flórida é herdeiro de Os Incompreendidos, de Truffaut. Ele acompanha a vidinha de uma menina que faz suas travessuras com os amigos na vizinhança do hotel fuleira nos arredores dos parques Disney, em Orlando, onde vive com a mãe cronicamente desempregada. Como no filme de Truffaut, não há propriamente uma história com começo, meio e fim, mas há perigos, falta de perspectiva e um final aberto. Brooklynn Prince, como a protagonista de 6 anos Moonee, é uma pequena joia, tão boa de assistir quanto o veterano e ótimo Willem Dafoe, que interpreta o gerente do hotel, se equilibrando entre rigor e compaixão. Sean Baker, se quisesse, poderia fazer igual a Truffaut e revisitar a vida de Moonee várias vezes, sempre com Brooklynn Prince no papel, como o francês fez com Antoine Doinel/ Jean-Pierre Léaud nos anos 1960 e 1970.

A QUIET PLACE

UM LUGAR SILENCIOSO (John Krasinski, 2018)

Diário de Filmes 2019: 37

Filmes que se propõem uma limitação narrativa podem resultar bem interessantes. Aqui, começamos a acompanhar os personagens já num mundo devastado por monstros cegos que atacam guiados pelo som. Então esta família precisa viver em absoluto silêncio: falar, nem pensar. Os diálogos, então, são quase todos em língua de sinais. É um desafio que ajudou o roteiro e direção a criar cenas de suspense bem eficientes, com um molho diferente.

Jogador Numero 1 - 05

JOGADOR N°1 (Steven Spielberg, 2018)
½
Diário de Filmes 2019: 36

Com mais referências pop do que o espectador é capaz de contar, o filme é mais uma distopia em que a revolução é levada à frente pelos jovens. Mas aqui grande parte da trama se passa dentro de um videogame de realidade virtual. Curioso que o filme, que se passa em 2045, faz parecer que não há nem haverá nada marcante na cultura pop depois dos anos 1980 e 1990, mas, enfim, a sequência dentro de O Iluminado é uma das sacadas muito boas. É divertido, mas está longe de ser um dos melhores Spielbergs. Ou está longe de ser um dos melhores Spielbergs, mas é divertido.

Matador -1950 - 03

O MATADOR (Henry King, 1950)

Diário de Filmes 2019: 35

No começo de O Matador, o pistoleiro Johnny Ringo (Gregory Peck) para numa birosca para tomar um trago. É reconhecido e provocado por um valentão local, que quer saber se Ringo é tão bom quanto a fama. Ringo não quer confusão, mas é pressionado até ter que matar o sujeito em defesa própria. Quantas vezes isso não terá acontecido com o pistoleiro, depois que ficou famoso? Quantas vezes ainda não acontecerá?

Agora, ele só quer chegar à sua cidade e rever um amor do passado e seu filho. Lá, passa o filme quase todo no saloon, à espera da resposta da amada. Do lado de fora, a cidade em polvorosa, com curiosos, gente querendo vingança, inconsequentes querendo se provar.

Faroestão psicológico sobre um homem que é rápido, mas não tanto quanto a própria reputação. Um filme que não fez grande sucesso de público na época (Zanuck, chefão da Fox, culpou o bigodão de Gregory Peck), mas está entre os clássicos do gênero, influenciando muitos filmes que vieram depois.

Bob Esponja - Um Heroi Fora d'Agua - 01

BOB ESPONJA — UM HERÓI FORA D’ÁGUA (Paul Tibbitt e Mike Mitchell, 2018)
1/2
Diário de Filmes 2019: 34

O trailer e o subtítulo brasileiro me enganaram: fizeram parecer que essa coisa de super-herói iria ocupar o filme todo ou quase todo. Felizmente, não. A trama combina o fundo do mar no estilo tradicional da série, com a aventura fora do mar com os personagens em animação digital contracenando com Antonio Banderas sem medo da canastrice. Muita maluquice e a melhor delas é a engraçadíssima Fenda do Biquíni pós-apocalíptica.

Lino - 02

LINO — UMA AVENTURA DE SETE VIDAS (Rafael Ribas, 2017)

Diário de Filmes 2019: 33

Lino é  uma animação brasileira que se esforça bastante para parecer uma produção padrão de Hollywood. O animador de festas magicamente transformado em gato gigante precisa resolver sua situação enquanto é perseguido pela polícia por um crime que não cometeu. E com uma garotinha a tira-colo, que ele inicialmente não quer por perto, mas que o adora (a dinâmica de Sulley e Bu em Monstros S.A.). É agitado, mas aos personagens falta carisma. Um ponto bom é Selton Mello na dublagem do personagem principal: sua voz é bastante familiar em outras animações, o que não deixa de ser, por tabela, mais um ponto para soar como uma animação americana. Rafael Ribas é filho de Walbercy Ribas, de O Grilo Feliz

Mamma Mia, Here We Go Again!

MAMMA MIA! — LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Ol Parker, 2018)
1/2
Diário de Filmes 2019: 32

As canções do Abba continuam uma delícia, mas isso está longe de ser o suficiente nessa continuação muito forçada do original, que era baseado em um musical do teatro. A estrutura, por incrível que pareça, é a mesma de O Poderoso Chefão  Parte II: a trama da filha e a trama da juventude da mãe são contadas intercaladas, sem ser uma um flashback da outra. Mas ambas são fracas. A juventude de Donna, embora Lily James seja adorável, nem tem coragem de assumir tudo o que era contado do passado da personagem e seus namorados. O sumiço de Meryl Streep é totalmente desnecessário e sua breve aparição torna isso ainda mais evidente. Cher, então, é um desperdício total.

Vinganca de Milady - 01

A VINGANÇA DE MILADY/
OS QUATRO MOSQUETEIROS — A VINGANÇA DE MILADY
(Richard Lester, 1974)

Diário de Filmes 2019: 31

A segunda parte da adaptação de Os Três Mosqueteiros mantém a qualidade do primeiro. Natural: o filme foi rodado como um só e depois dividido em dois (mas os atores só tinham recebido por um, então processaram os produtores). Equilibra ação e humor, entre ironias e patetices, e a vontade de desglamourizar a história. Mas há mais elementos dramáticos e sombrios, com a vingança propriamente dita da Milady de Faye Dunaway e seus desdobramentos. É uma grande conclusão para a melhor adaptação de Os Três Mosqueteiros para o cinema.

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CAPITÃO AMÉRICA — GUERRA CIVIL (Anthony Russo e Joe Russo, 2015)
1/2
Diário de Filmes 2019: 30

Guerra Civil é um dos pontos altos do universo cinematografico da Marvel. Estabelece um conflito entre os super-heróis partindo de uma diferença ideológica: se os heróis devem ou não ser controlados pelos governos. As questões pessoais agravam as tensões, envolvendo, pelo lado do Capitão, a fidelidade ao velho amigo Bucky, acusado de matar um estadista, e, pelo lado do Homem de Ferro, as dores do assassinato do pai no passado. Aqui, antes do conflito há muita discussão e impasse, e peso dramático no conflito. Ninguém quer brigar, mas ninguém vai parar de brigar porque a mãe tem o mesmo nome da mãe do outro.

My Fair Lady - 12

Audrey Hepburn em “I could have dance all night”, de “My Fair Lady” (1964)

60. ‘FLESH FAILURES/ LET THE SUNSHINE IN’, de Hair (1979)
Com John DeRobertas, Grand L. Bush, Beverly D’Angelo, John Savage, Treat Williams, Don Dacus, Annie Golden, Cheryl Barnes e coro. Direção: Milos Forman. Coreografia: Twyla Tharp. Canção de Galt MacDermot, Gerome Ragni e James Rado.

A apoteose do filme – em uma canção forte, que bate direto – mostra os soldados americanos indo para o Vietnã, jovens que marcham até serem engolidos pela completa escuridão representada pela entrada do avião militar. Quem canta, aparece primeiro como um anônimo que nem se identifica na multidão de soldados, até se aproximar da câmera. O drama adicional é do hippie que está lá por engano, tendo tomado o lugar do amigo para que este curtisse um último bom momento com a namorada antes de partir – mas não houve tempo para a troca ser desfeita. Essa troca é uma mudança do filme em relação à peça.

***

59. ‘YOU’RE THE ONE THAT I WANT’, de Grease — Nos Tempos da Brilhantina (1978)
Com Olivia Newton-John e John Travolta. Direção: Randal Kleier. Coreografia: Patricia Birch. Canção de John Farrar.

A resolução final do romance entre os personagens de Olivia e Travolta, onde ele resolve ser mais certinho para ficar com ela, mas ela é que deixa de ser a boazinha absoluta para ficar com ele. Sobra carisma e química entre os dois.

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58. ‘AFTER YOU GET WHAT YOU WANT, YOU DON’T WANT IT’, de O Mundo da Fantasia (1954)
Com Marilyn Monroe. Direção: Walter Lang. Coreografia: Robert Alton. Canção de Irving Berlin.

Um dos grandes momentos de Marilyn nesse filme de grande elenco, que incluía Ethel Merman, Donald O’Connor e Mitzi Gaynor. O número é uma apresentação para uma plateia, mas Marilyn, em ascensão no estrelato, domina a cena completamente. Não dá para tirar os olhos dela. Ainda mais nesse vestido.

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57. ‘EASTER PARADE’, de Desfile de Páscoa (1948)
Com Judy Garland e Fred Astaire. Direção: Charles Walters. Coreografia: Fred Astaire e Charles Walters. Canção de Irving Berlin.

Uma inversão no clichê de gênero: em vez do homem cantar para a garota, ela é quem o corteja. Judy chega a fazer Fred sentar no colo dela! É uma reconciliação, mas a personagem de Judy mostra aos poucos, com muito charme, que está tudo bem. A canção de Irving Berlin é uma delícia e na voz de Judy, é difícil ficar melhor. E tem esses passinhos na escada, no final, uma graça. Era Fred voltando à Metro e para ficar (substituindo aqui Gene Kelly, escalado para o filme, mas que havia quebrado o tornozelo) e Judy em seus últimos anos no estúdio: foi, infelizmente, o único filme em que contracenaram (os dois estiveram no elenco de Ziegfeld Follies, de 1945, mas o filme era em esquetes e eles não apareceram juntos na mesma cena).

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56. ‘ON THE TOWN’, de Um Dia em Nova York (1949)
Com Gene Kelly, Frank Sinatra, Jules Munshin, Vera-Ellen, Ann Miller e Betty Garrett. Direção: Gene Kelly, Stanley Donen. Canção de Rioger Edens, Adolph Green e Betty Comden.

Pela primeira vez no filme, o sexteto protagonista (os marinheiros e as namoradas que paqueram em suas 24 horas de folga em Nova York) estão juntos na mesma cena. O cenário é o alto do Empire State (de mentirinha, claro, no estúdio da Metro). O encontro não deixa por menos, com uma grande apresentação de humor e dança, com carisma para dar e vender. É o começo de uma grande noite.

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55. ‘FUNNY FACE’, de Cinderela em Paris (1957)
Com Fred Astaire e Audrey Hepburn. Direção: Stanley Donen. Coreografia: Fred Astaire e Eugene Loring. Canção de George Gershwin e Ira Gershwin.

E se Audrey Hepburn fosse contratada da Metro? Pode-se ter boa ideia aqui, nesse musical da Paramount, mas que tem na equipe boa parte da turma da MGM (incluindo o diretor e o astro Astaire). O resultado, na prática, um musical da Metro feito na Paramount. E um momento especial é este, com o fotógrafo vivido por Fred revelando seu trabalho com a livreira vivida por Audrey. A cena de música e a dança no quarto escuro, com o processo de revelação incluído na cena, é para rever mil vezes. Audrey foi bailarina na juventude e mostra toda sua graça aqui.

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54. ‘SHADOW WALTZ’, de Cavadoras de Ouro (1933)
Com Dick Powell, Ruby Keeler e côro. Direção: Marvyn LeRoy. Direção de dança: Busby Berkeley. Canção de Harry Warren e Al Dubin.

Busby Berkeley parecia não ter limites. Em “Shadow waltz”, ele colocou dezenas de garotas com violinos em um cenário de plataformas curvas. Ao apagar as luzes, o contorno dos violinos se mostram iluminados e aí começam as evoluções, em círculo e até na forma de um violino gigante. Que criador de imagens marcantes ele foi!

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53. ‘THE SOUND OF MUSIC’, de A Noviça Rebelde (1965)
Com Julie Andrews. Direção: Robert Wise. Coreografia: Marc Breaux e Dee Dee Wood. Canção de Richard Rogers e Oscar Hammerstein II.

Após aquela “overture” pelas montanhas da Áustria e aquela tomada de tirar o fôlego de helicóptero se aproximando daquele pontinho que vira a Julie Andrews, segue-se uma declaração de intenções do filme: a fraulein Maria cantando seu amor pela música. Ainda não sabemos nada dela, mas já sabemos isso, o essencial que vai fazer diferença na vida de todos no filme. O filme também já mostra que não vai economizar nas paisagens embasbacantes.

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52. ‘YOU WERE MEANT FOR ME’, de Cantando na Chuva (1952)
Com Gene Kelly e Debbie Reynolds. Direção: Gene Kelly e Stanley Donen. Coreografia: Gene Kelly. Canção de Arthur Freed e Nacio Herb Brown.

Don Lockwood, o ator vivido por Gene Kelly, quer declarar seu amor para Kathy Selden, a jovem atriz vivida por Debbie Reynolds. Mas diz que não consegue se não tiver o cenário adequado. Num estúdio, uma aulinha de mágica de Hollywood: luz do luar de um refletor, brisa noturna de ventiladores… E um dos mais bonitos números românticos do cinema. Debbie Reynolds penou nas mãos de Gene Kelly, um obcecado pela perfeição. Um dia, Fred Astaire a pegou chorando num canto da MGM e ela contou suas dificuldades. Então, ele ensaiou e deu dicas a ela. Como se vê aqui, ela aprendeu mais do que bem.

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51. ‘I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT’, de My Fair Lady — Minha Bela Dama (1964)
Com Audrey Hepburn (voz de Marni Nixon). Direção: Geotge Cukor. Coreografia: Hermes Pan. Canção de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner.

Logo depois de ‘The rain in Spain’, a pobre e inculta florista Eliza Doolittle está nas nuvens: finalmente mostrou que pode falar direito e potencial para ser uma dama, aos olhos de seu irascível professor. É levada pela governanta para dormir, mas quem conseguiria assim tão rápido? Durante todo o processo (subir escadas, trocar de roupa, se lavar), ela só canta que “poderia dançar a noite inteira”). Audrey, em um de seus pontos  mais altos em ser adorável.

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