Coração Selvagem

Diário de Filmes 2020: 18

David Lynch põe pouco o amor no centro dos seus filmes. Mas é a relação efervescente entre Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern) que conduz Coração Selvagem. Temperado por evocações anos 1950 (Elvis e James Dean, entre outras coisas) e referências a O Mágico de Oz, tudo embalado na narrativa tão estranha quanto fascinante que é a marca de Lynch.

CORAÇÃO SELVAGEM (David Lynch, 1990)

Ferias do Sr Hulot

Diário de Filmes 2020: 17

As Férias do Sr. Hulot é o segundo longa de Jacques Tati e o primeiro com o personagem que ele interpretaria aí e em mais três filmes posteriores. Como ele também voltaria a fazer, não há bem uma história, mas uma situação estabelecida na qual ele desfila uma série de esquetes e personagens, observando com humor a relação entre as pessoas, convenções sociais e modismos.

Ancorado pelo gentil e desengonçado Hulot vai, como tanta gente, a um balneário. Não é um filme mudo, mas os diálogos são muito poucos e quase nenhum com alguma importância.

Mesmo a trilha é franciscana: consiste basicamente de um mesmo tema musical que se repete ocasionalmente. O humor é basicamente visual e, nisso, muito preciso.

Como a cena em que Hulot tenta pintar um bote à beira-mar e nunca acha a lata de tinta porque o mar a leva para o outro lado do barquinho. Ou sua luta para segurar as rédeas de um cavalo, que o faz aparecer e desaparecer de cena por trás de um casebre — uma aula de pantomima.

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (Jacques Tati, 1953)

Green Book

Diário de Filmes 2020: 16

Este Conduzindo Miss Daisy ao contrário espelha o filme de 1989 até no fato de ter vencido o Oscar de melhor filme e ser quase unanimemente considerado uma escolha bem infeliz. Não que seja um mau filme. Se propõe a falar de racismo expondo algumas complexidades. Um branco pobre, um negro rico. Um branco racista, mas que gosta mais de dinheiro do que não gosta de negros. Um negro que não se identifica com a cultura que se esperaria de um negro. Mas que resolve, a seu modo e com seu talento, enfrentar o racismo de parte da nação. E por aí vai. Só que o desenrolar da trama é mostrada de maneira totalmente esquemática. É uma trama interessante, mas contada de maneira banal.

GREEN BOOK – O GUIA (Peter Farrelly, 2019)

 

O songbook da sanfona

A Funarte lança um livro virtual reunindo 83 partituras de grandes compositores brasileiros da sanfona

.. por Renato Félix

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Leo Rugero, com Luizinho Calixto (foto: Rafael Passos)

O sanfoneiro e pesquisador Leo Rugero ligou para Glorinha Gadelha. Ele queria partituras de Sivuca para publicar no oitavo volume de Partituras Brasileiras Online, dedicado ao instrumento. “Claro, mas escreve as partituras aí. O Sivuca não escrevia música pra acordeon. Ele escrevia para os outros tocarem”, ela respondeu. E assim foi com Renato Borghetti, Hermeto Pascoal, Gennaro e diversos compositores que estão no livro virtual, disponível de graça no site da Funarte.

Com o nome Sanfonas do Brasil, o projeto foi encomendado pela fundação a Rugero. No projeto de partituras virtuais, há volumes reunindo grupos de compositores (como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Milton Nascimento) e três dedicados às “violas do Brasil”. Agora, é a vez das sanfonas.

“Escrevi um texto bem longo sobre o percurso histórico da sanfona no Brasil, que foi publicado na íntegra”, conta Rugero. Na sequência vem as partituras de 28 compositores. “Tentando contemplar o máximo as nossas regiões. Claro, sabendo que logicamente um volume é só uma amostra de um universo tão vasto como o do acordeon no Brasil”.

Muito identificada com uma música de origem popular, já seria esperado que vários autores nunca tivessem passado suas composições para partituras. Mas Rugero foi surpreendido quando mesmo pesos pesados da sanfona não tinham esse registro em papel.

01.26 - C1 - Partituras da sanfonaO resultado é que Rugero tomou para si o trabalho extra não só de reunir esse material, mas de transcrever as músicas desses monstros sagrados para as partituras a serem publicadas. O livro ficou com cerca de 60% de material transcrito por ele, contra cerca de 40% de material cedido pelos autores.

Além de Sivuca, Glorinha Gadelha, Renato Borghetti, Hermeto Pascoal e Gennaro, o livro conta com obras de Oswaldinho do Acordeon, Zé Calixto, Luizinho Calixto, Severo, Chico Chagas, entre outros. Duas grandes ausências, no entanto, se fazem notar: Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

“Isso foi bem chato. São dois nomes obrigatórios”, explica. “Mas a Funarte não dispunha de um valor para as edições. Então esse livro dependia realmente da generosidade dos autores de ceder a edição dos livros para a Funarte”.

Os inventariantes dos dois demoraram muito a dar uma resposta sobre a cessão dos direitos. O prazo apertou e, mesmo com as partituras prontas, Rugero foi obrigado a fechar o livro sem músicas de Gonzagão e Dominguinhos.

Mesmo assim, o registro é um bem-vindo apoio para a pesquisa da música para o instrumento no Brasil, cuijo conhecimento na área há muito tempo costumava ser passado de músico para músico quase informalmente. “Na tradição acordeonista brasileira temos pouquíssimas fontes de pesquisa. Praticamente não existem” diz o pesquisador. “Há um recorte da música produzida para o acordeon que é um registro fonográfico. Aí, a música não é mais ensinada como de pai para filho. É aprendida por um processo de escuta. E, nisso, a música começa a passar por muitas mutações”.

* Matéria publicada no Correio da Paraíba em 26 de janeiro de 2020.

Ford vs Ferrari

Diário de Filmes 2020: 15

O título deste filme, Ford vs. Ferrari, é meio enganoso. Embora a missão do projetista e do piloto temperamental, vividos por Matt Damon e Christian Bale, seja derrotar a escuderia italiana na mítica prova 24 Horas de Le Mans, a principal adversária da dupla é a própria Ford. Está mais, portanto, para ‘Ford vs. Ford’. A tensão entre os interesses esportivos e os corporativos dão o tom do filme, que coloca os executivos da empresa — e não os italianos — como os vilões da trama. É uma história interessante por si só, mas o filme cresce mesmo e dá show, enquanto espetáculo, é quando chega o momento da corrida decisiva. Não chega a ser um Rush, tem momentos esquemáticos demais, mas Mangold é um diretor consistente que combina bem as cenas de velocidade com seus dois ótimos atores.

FORD VS. FERRARI (James Mangold, 2019)
½

Mogli

Diário de Filmes 2020: 14

O sucesso desta versão de Mogli animou a Disney a produzir em série versões live action de seus clássicos animados. No caso, aqui, é um mezzo live action (porque só o menino é real; tudo em volta é CGI). É bem decente e a presença humana talvez amenize um pouco, por contraste, a falta de expressividade dos animais digitais falantes. É um problema que ficou maior em O Rei Leão, do mesmo Favreau (e que é zero live action). Curiosamente, o final deste Mogli século XXI é mais conto-de-fadas que a animação dos anos 1960: lá, o menino-lobo segue seu curso rumo à aldeia dos homens; aqui, a fantasia forçada de continuar seguir na floresta com o urso Balu e a pantera Baguera.

MOGLI, O MENINO-LOBO (Jon Favreau, 2016)
½

Jojo Rabbit

Diário de Filmes 2020: 13

Fazer comédia com o nazismo não é nenhuma novidade, mas ainda surpreende (e estranha) muita gente. A galhofa foi a saída encontrada por Taike Waititi, diretor e roteirista, para contar a história de um garoto que se integra serelepe à Juventude Hitlerista e até tem o próprio führer como amigo imaginário. O retrato dos nazistas parece ter saído de Top Secret – Superconfidencial (1984), enquanto a intimidade familiar de Jojo é terna na figura da mãe vivida por Scarlett Johansson. O menino vai descobrir que ela esconde uma garota judia em casa, o que o fará repensar tudo.

Mais difícil que começar um filme com nazistas pela chave da comédia é sustentá-la até o final. Waititi prefere, então, mudar a sintonia gradualmente para o drama até que ele domine quase totalmente a cena.

Mas, assim como o Hitler de mentirinha que ele mesmo interpreta, ecos da comédia permanecem até perto do fim. Ainda bem: ajuda em fazer a mudança de tom parecer natural.

JOJO RABBIT (Taika Waititi, 2019)

Melodia da Broadway de 1940 - 03

15 — MELODIA DA BROADWAY DE 1940

Não é um dos mais inspirados musicais da Metro, mas aconteceu de unir os dois melhores em seu ofício. Fred Astaire e Eleanor Powell, dois gênios absolutos, o melhor dançarino e a melhor dançarina do cinema, se encontraram na tela e entregaram juntos pelo menos dois momentos antológicos. “Jukebox’s dance” e “Begin the beguine” entram em qualquer antologia séria da dança no cinema.
(Broadway Melody of the 1940, Estados Unidos). Direção: Norman Taurog. Roteiro: Leon Gordon e George Oppenheimer, história original de Jack McGowan e Dore Schary, contribuições não creditadas de Preston Sturges, Walter DeLeon, Vincent Lawrence, Albert Mannheimer, Eddie Moran, Thomas Phipps e Sid Silvers. Elenco: Fred Astaire, Eleanor Powell, George Murphy, Frank Morgan.

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Wild Hare

14 — COELHO SELVAGEM

Outro curta com uma estreia muito importante: aqui, o Pernalonga surge definido, após alguns protótipos terem aparecido em desenhos anteriores. O coelho subverte a caçada de Hortelino com todos os truques que aprimoraria nos anos seguintes. Pela primeira vez, ele diz o célebre “O que é que há, velhinho?”.
(A Wild Hare, Estados Unidos). Direção: Tex Avery. Roteiro: Rich Hogan. Vozes na dublagem original: Mel Blanc, Arthur Q. Bryan.

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Ponte de Waterloo

13 — A PONTE DE WATERLOO

Depois de …E o Vento Levou, Vivien Leigh estrelou esse melodrama que volta aos dias da I Guerra: ela é uma bailarina que se apaixona por um oficial. Tudo vai bem, mas ela perde o emprego e acha que ele morreu em combate. Sem dinheiro e esperança, acaba se tornando prostituta. Refilmagem de um filme de 1931, parece datado na maneira como trata a prostituição (ninguém ousa dizer o nome). Mas, bem, o filme se passa nos anos 1910. Vivien é absolutamente hipnotizante e Robert Taylor é um dos atores mais bonitos que o cinema já viu.
(Waterloo Bridge, Estados Unidos). Direção: Mervyn LeRoy. Roteiro: S.N. Behrman, Hans Rameau e George Foerschel, baseado em peça de Robert E. Sherwood. Elenco: Vivien Leigh, Robert Taylor, Virginia Field, Lucile Watson, Maria Ouspenskaya.

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Bichano em Maus Lençóis

12 — UM BICHANO EM MAUS LENÇÓIS/ UM GATO TRAVESSO

Esse curta é a estreia de dois dos personagens mais amados e de maior sucesso dos desenhos animados: Tom & Jerry. Aqui, ainda sem seus nomes definitivos: Tom é chamado de Jasper, e Jerry nem tem seu nome mencionado. Mas a dinâmica já está toda aí: com o camundongo aproveitando que a dona mandou o gato não fazer bagunça para fazer da vida do bichano um inferno.
(Puss Get the Boot, Estados Unidos). Direção e roteiro: William Hanna e Joseph Barbera. Voz na dublagem original: Lillian Randolph.

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Sr Pato Sai de Casa

11 — O SR. PATO SAI DE CASA/ DONALD ADORA DANÇAR

O curta da Disney mostra Donald e seus três sobrinhos em um inusitado duelo quando o pato visita a namorada. O desenho estabelece de vez a personagem da Margarida, que aqui ganha seu nome. Tem aquele momento safadinho em que, no sofá, ela dá aquela afastada no pato saidinho, mas o chama com o rabinho. Clarence Nash faz todas as vozes (inclusive a da Margarida).
(Mr. Duck Steps Out, Estados Unidos). Direção: Jack King. Roteiro (não creditados): Carl Barks, Chuck Couch, Jack Hannah, Harry Reeves, Milt Schaffer e Frank Tashlin. Voz na dublagem original: Clarence Nash.

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Correpondente Estrangeiro10 — CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO

O segundo filme de Alfred Hitchcock em Hollywood é um suspense de espionagem já sobre a II Guerra (os EUA estavam ainda fora do conflito, mas a Inglaterra natal do diretor estava dentro). É daqui a grande cena do avião que cai no mar e acompanhamos a queda de dentro da cabine até a água entrar.
(Foreign Correspondent, Estados Unidos). Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Charles Bennett e Joan Harrison, com diálogos de James Hilton e Robert Benchley, e contribuições de Ben Hecht (não creditado) e Richard Maibaum (não creditado). Elenco: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Robert Benchley, Edmund Gwenn.

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Marca do Zorro9 — A MARCA DO ZORRO

Tyrone Power estrela a versão 1940 do herói da literatura que já havia tido uma adaptação antológica no cinema mudo (em 1920, com Douglas Fairbanks). Bem produzida, ágil, é um grande representante do gênero capa-e-espada. Tem um grande herói, um baita vilão (Basil Rathbone) e uma mocinha das mais deslumbrantes (Linda Darnell, aos 16 anos nas filmagens). O duelo final é antológico.
(The Mark of Zorro, Estados Unidos). Direção: Rouben Mamoulian. Roteiro: John Taintor Foote, com adaptação de Garret Fort e Besse Meredyth para o romance seriado de Johnston McCulley. Elenco: Tyrone Power, Linda Darnell, Basil Rathbone, Gale Sondergaard.

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Loja da Esquina8 — A LOJA DA ESQUINA

A comédia romântica de Lubitsch se passa em uma loja de presentes em Budapeste, com algumas tramas, sendo a principal a do casal de vendedores que vive às turras, mas que, sem saber, são apaixonados um pelo outro. É que eles trocam cartas de maneira anônima. A combinação da direção com os ótimos James Stewart e Margaret Sullavan é perfeita. O filme originou o também bem bom Mensagem para Você, em 1998, já no mundo dos e-mails.
(The Shop Around the Corner, Estados Unidos). Direção: Ernst Lubitsch. Roteiro: Samson Raphaelson, com colaboração de Ben Hetch (não creditado), baseado em peça de Miklós László. Elenco: Margaret Sullavan, James Stewart, Frank Morgan, Joseph Schildkraut.

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Grande Ditador

7 — O GRANDE DITADOR

Chaplin usou música e algumas falas pontuais em seus dois filmes anteriores, mas este é o seu primeiro falado para valer. E ele não desperdiçou sua voz. De um lado há um barbeiro judeu (o último filme de Carlitos?) em um gueto. Do outro, o ditador que parodia Hitler. Na primeira cena, o ditador ridículo discursa histrionicamente num alemão inventado. Na última, o barbeiro que foi parar no lugar do ditador faz o maior discurso pela paz e humanismo no cinema. É bom lembrar que a guerra já estava comendo no centro na Europa e os EUA ainda nem aí.
(The Great Dictator, Estados Unidos). Direção e roteiro: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie.

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Núpcias de Escândalo6 — NÚPCIAS DE ESCÂNDALO

A primeira cena é de antologia. Cary Grant sai pela porta em direção ao carro. Atrás dele, vem Katharine Hepburn, flutuando, com seus tacos de golfe. Ao chegar perto, os solta no chão. E, com aquela cara de satisfação, parte um dos tacos ao meio. É quando sabemos que estamos assistindo a uma separação. A história começa mesmo quando ela vai casar de novo, o ex reaparece com um repórter e uma fotógrafa de uma revista de fofocas para embaralhar o negócio. Uma comédia de erros de Cukor é cheia de maus entendidos, paixões que vêm e vão, falsas premissas. O elenco é incrível, mas o show é de Kate Hepburn: a peça na Broadway foi escrita para ela; ela comprou os direitos para o cinema; ela apostou no material para reerguer sua carreira em Hollywood, que andava em baixa. Deu certíssimo.
(The Philadelphia Story, Estados Unidos). Direção: George Cukor. Roteiro: Donald Ogden Stewart, com colaboração de Waldo Salt (não creditado), baseado em peça de Philip Barry. Elenco: Katharine Hepburn, Cary Grant, James Stewart, Ruth Hussey, John Howard.

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Rebecca5 — REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL

A estreia de Hitchcock em Hollywood foi um duelo entre ele e o produtor David O. Selnick pelo controle criativo do filme. A história é a da jovem que se casa com um aristocrata, mas a presença da primeira mulher morta na propriedade é sufocante além da conta. Rebecca é o nome até do próprio filme, a pobre nova Senhora De Winter nem nome tem na história.
(Rebecca, Estados Unidos). Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, com adaptação de Philip MacDonald e Michael Hogan para o romance de Daphne Du Maurier. Elenco: Joan Fontaine, Laurence Olivier, Judith Anderson, George Sanders.

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Fantasia

4 — FANTASIA

Walt Disney pensou bem grande ao conceber Fantasia: um filme-concerto, com curtas animados inspirados em peças da música clássica. E a ideia ainda era ir relançando o filme anualmente, trocando alguns segmentos a cada vez. Não deu porque o filme não foi bem de bilheteria, mas ele acabou encontrado seu público e status de obra de arte ao ser relançado. É a silly symphony definitiva, que vai do Mickey aprendiz de feiticeiro à uma representação ambiciosa do começo da vida na Terra.
(Fantasia, Estados Unidos). Direção: James Algar, Samuel Armstrong, Ford Beebe Jr., Norman Ferguson, David Hand, Jim Handley, T. Hee, Wilfred Jackson, Hamilton Luske, Bill Roberts, Paul Satterfield e Ben Sharpsteen. Roteiro: Joe Grant e Dick Huemer (diretores de história), Lee Blair, Elmer Plummer, Phil Dike, Sylvia Moberly-Holland, Norman Wright, Albert Heath, Bianca Majolie, Graham Heid, Perce Pearce, Carl Fallberg, William Martin, Leo Thiele, Robert Sterner, John McLeish, Otto Englander, Webb Smith, Erdman Penner, Joseph Sabo, Bill Peet, Vernon Stallings, Campbell Grant, Arthur Heinemann e Phil Dike. Elenco: Deems Taylor, Leopold Stokowski.

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Pinóquio - 023 — PINÓQUIO

A animação em Pinóquio é, 80 anos após seu lançamento, de cair o queixo. O conto moral infantil que ainda cala fundo no imaginário coletivo, sobre amor paterno, fadas e os perigos das mentiras e do mundo, é embalado por imagens lindamente confeccionadas, movimentos de câmera elaborados e momentos impactantes (a impressionante aparição da baleia Monstro, a assustadora sequência dos meninos se transformando literalmente em burros).
(Pinocchio, Estados Unidos). Direção: Hamilton Luske e Ben Sharpsteen (supervisores), Norman Ferguson, T. Hee, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts. Roteiro: Ted Sears, Otto Englander, Webb Smith, William Cottrell, Joseph Sabo, Erdman Penner, Aurelius Battaglia, com colaboração não creditada de Bill Peet e Frank Tashlin, baseado em livro de Carlo Collodi. Vozes na dublagem original: Dickie Jones, Cliff Edwards, Christian Rub, Evelyn Venable, Charles Judels. Vozes na dublagem brasileira de 1940: Doraldo Thompson, Mesquitinha, Baptista Junior, Zezé Fonseca. Vozes na dublagem brasileira de 1965: Carlos Alberto Mello, Ênio Santos, Luis Motta, Selma Lopes.

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Jejum de Amor2 — JEJUM DE AMOR

A Primeira Página é uma peça onde os dois personagens principais são um editor de jornal e seu repórter que quer largar o emprego para se casar, mas é empurrado para a cobertura de um preso à beira da execução. Howard Hawks contava que, lendo diálogos numa festa com uma amiga, sacou que ficava muito melhor se um dos personagens fosse uma mulher. E, assim, a peça ganhou sua segunda adaptação para o cinema, na qual “o” repórter passava a ser “a” repórter. Cary Grant e Rosalind Russell, além de parceiros profissionais, agora também seriam ex-casados. À tensão romântica, Hawks ainda acrescentaria o modo de metralhar os diálogos. Rapidíssimos e sobrepostos, com uma técnica ensaiada onde o espectador não ficaria sem entender nada importante, e ainda abertos aos improvisos dos atores, são um marco na maneira de atuar no cinema. E, claro, é muito engraçado.
(His Girl Friday, Estados Unidos). Direção: Howard Hawks. Roteiro: Charles Lederer, com colaboração de Ben Hecht (não creditado) e diálogos adicionais de Morrie Ryskind (não creditado), baseado na peça de Hecht e Charles MacArthur. Elenco: Cary Grant, Rosalind Russell, Ralph Bellamy, Gene Lockhart, Cliff Edwards.

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The Grapes Of Wrath - 1940

1 — VINHAS DA IRA

A saga de uma família americana que é expulsa de sua terra por ricos proprietários e atravessa o país até a Califórnia em busca de trabalho digno em plantações. A miséria nos Estados Unidos durante a Grande Depressão viajou da prosa premiada de John Steinbeck para a narrativa de um cineasta maravilhoso, John Ford. Ele conta esse épico da pobreza, que avança com a formação da consciência social do filho mais velho da família, vivido por Henry Fonda, a respeito de uma sociedade que se vende como justa, mas massacra os pobres com violência, discriminação e mesquinharia. Ganhou os Oscars de direção e atriz coadjuvante (para Jane Darwell, a comovente mãe do clã).
(The Grapes of Wrath, Estados Unidos). Direção: John Ford. Roteiro: Nunnally Johnson, baseado em romance de John Steinbeck. Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Ward Bond.

* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

OUTRAS LISTAS:

Bons Companheiros - 04

1 — OS BONS COMPANHEIROS

Uma vez Scorsese disse que em seus filmes de máfia, Coppola abordava a elite, enquanto ele, Scorsese, focava na “classe baixa”. Em Os Bons Companheiros, ele conta a ascensão de um sujeito que vê a máfia como meio de ascensão social. “Desde que me entendo por gente, sempre quis ser um gangsters”, é a frase que abre o filme. O desfecho é com Joe Pesci e uma citação visual de O Grande Roubo do Trem, curta mudo, pioneiro do faroeste, de 1903. Pesci ganhou o Oscar de coadjuvante como sua interpretação antológica (“Você acha que eu sou engraçado?”). E tem aquele plano sequência clássico nos bastidores do nightclub.
(Goodfellas, Estados Unidos).  Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi. Elenco: Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero.

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Viagem do Capitao Tornado - 07

2 — A VIAGEM DO CAPITÃO TORNADO

A obra de Ettore Scola é uma saborosa viagem pelo mundo do espetáculo mambembe no século XVIII. Visualmente é belíssimo, é divertido e ainda tem duas das mulheres mais lindas daquele período no cinema: Emmanuelle Béart e Ornella Muti.
(Il Viaggio di Capitan Fracassa/ Le Voyage de Capitaine Fracasse. Itália/ França). Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola e Furio Scarpelli, baseado em argumento de Vincenzo Cerami, Fulvio Ottaviano e Silvia Scola, do livro de Théophile Gautier. Elenco: Vincent Pérez, Massimo Troisi, Ornella Muti, Emmanuelle Béart, Lauretta Masiero.

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Filhos da Guerra - 04

3 — FILHOS DA GUERRA

A cineasta polonesa conta a história de um jovem judeu que precisa fingir que é nazista. Um sensível retrato sobre a II Guerra e ainda tinha Julie Delpy nos primeiros anos da carreira.
(Europa, Europa, Alemanha/ França/ Polônia). Direção e roteiro: Agnieszka Holland, baseado em livro de Solomon Perel. Elenco: Marco Hofschneider, Julie Delpy, Andre Wilms, Aschley Wanninger

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Louca Obsessao

4 — LOUCA OBSESSÃO

Talvez o melhor filme adaptado de uma obra de Stephen King, não tem nada de sobrenatural. É um baita suspense em que um escritor de uma série best seller se acidenta e é cuidado por uma fã que o encontra. Mas ela o manuscrito do novo livro, em que ele mata a protagonista, e o salvamento se transforma em cárcere e tortura. Kathy Bates, sensacional, ganhou o Oscar de melhor atriz.
(Misery. Estados Unidos). Direção: Rob Reiner. Roteiro: William Goldman, baseado em romance de Stephen King. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Richard Farnsworth, Frances Sternhagen, Lauren Bacall

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Edward Maos de Tesoura - 06

5 — EDWARD, MÃOS DE TESOURA

Vindo da anarquia de Os Fantasmas Se Divertem e da aventura gótica de Batman, Tim Burton fez aqui um de seus filmes mais queridos, quase um conto-de-fadas dark e seu filme mais romântico. Johnny Depp é uma espécie de criatura de Frankenstein que fica sem rumo quando o cientista que o trouxe à vida morre. Vai parar num subúrbio, onde lida com o american-wat-of-life classe média.
(Edward Scissorhands, Estados Unidos). Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, do argumento de Tim Burton e Caroline Thompson. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price

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Coracao Selvagem - 13

6 — CORAÇÃO SELVAGEM

David Lynch põe pouco o amor no centro dos seus filmes. Mas é a relação efervescente entre Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern) que conduz Coração Selvagem. Temperado por evocações anos 1950 (Elvis e James Dean, emtre outras coisas) e referências a O Mágico de Oz, tudo embalado na narrativa tão estrabnha quanto fascinante que é a marca de Lynch.
(Wild at Heart, Estados Unidos). Direção e roteiro: David Lynch, baseado no romance de Barry Gifford. Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Willem Dafoe, Harry Dean Stanton, Isabella Rossellini, Crispin Glover, J.E. Freeman.

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Cyrano - 1990 - 01

7 — CYRANO

Versão elegante (e em versos!) da peça de Edmond Rostand, com uma produção suntuosa (mais de 2 mil atores e extras) e uma atuação gigante de Gérard Depardieu.
(Cyrano de Bergerac, França). Direção: Jean-Paul Rappeneau. Roteiro: Jean-Paul Rappeneau e Jean-Claude Carière, baseado na peça de Edmond Rostand. Elenco: Gérard Depardieu, Anne Brochet, Vincent Perez, Jacques Weber, Roland Bertin

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Vingador do Futuro - 1990 - 01

8 — O VINGADOR DO FUTURO

Com um título brasileiro chupado na cara dura de O Exterminador do Futuro, o filme de Paul Verhoeven é uma ótima ficção científica de ação, que joga com a ideia de realidade virtual e a perda de referência sobre o que é ou não a realidade para valer. O filme elevou Sharon Stone, muito sexy, a outro patamar.
(Total Recall, Estados Unidos). Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O’Bannon e Gary Goldman, do argumento de Shusett, O’Bannon e Jon Povill, baseado no conto de Phillip K. Dick. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Michael Ironside, Ronny Cox, Michael Champion, Mel Johnson Jr

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Cidade sem Passado - 02

9 — UMA CIDADE SEM PASSADO

O filme alemão mostra o fantasma do nazismo em uma cidade sendo desenterrado por uma jovem que investiga o passado do lugar e vê os cidadãos se voltarem contra ela. O filme alivia o tom através de sua personagem principal e do uso de projeção de fundo para alguns cenários.
(Das Schreckliche Maeddchen, Alemanha). Direção e roteiro: Michael Verhoeven. Elenco: Lena Stolze, Monika Baumgartner, Michael Gahr, Fred Stillkrauth

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Poderoso Chefao - Parte 3 - 12

10 — O PODEROSO CHEFÃO — 3ª PARTE

Muitas vezes esculachado por não repetir a excelência dos dois anteriores, o terceiro Chefão também está muito longe de ser um mau filme. Coppola segue como o mestre narrativo da máfia operística, Pacino e Diane Keaton continuam perfeitos, e há cenas memoráveis (“Bem quando pensei que estava fora, eles me puxam de volta pra dentro”; o atentado nas escadas da ópera). Ok, também há a escolha infeliz e nepotista de Sofia Coppola para o elenco, mas o filme sobrevive bem a isso.
(Mario Puzo’s the Godfather – Part III, Estados Unidos). Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, Raf Vallone, Franc D’Ambrosio, Helmut Berger, John Savage

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Esqueceram de Mim - 09

11 — ESQUECERAM DE MIM

Uma mistura de Tom & Jerry com Duro de Matar, o filme é uma absurda, mas divertida aventura natalina, capitaneada por um carismático Macaulay Culkin, e um ótimo elenco de apoio.
(Home Alone, Estados Unidos). Direção: Chris Columbus. Roteiro: John Hughes. Elenco: Macaulay Culkin, Catherine O’Hara, Joe Pesci, Daniel Stern, John Heard, John Candy

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Tempo de Despertar - 01

12 — TEMPO DE DESPERTAR

Robin Williams em grande fase é o médico que usa uma nova droga para trazer de volta um paciente que há tempos está catatônico (Robert De Niro). Também foi uma grande fase para a diretora Penny Marshall, que vinha de Quero Ser Grande (1988) e iria para Uma Equipe Muito Especial (1992).
(Awakenings, Estados Unidos). Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steve Zaillian, baseado em livro de Oliver Sacks. Elenco: Robert De Niro, Robin Williams, Julie Kavner, Ruth Nelson, John Heard, Penelope Ann Miller, Max Von Sydow, Judith Malina, Peter Stormare, Vin Diesel

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De Volta para o Futuro - Parte 3 - 06

13 — DE VOLTA PARA O FUTURO – PARTE III

O fechamento da trilogia (filmado junto com a parte II) levou seus personagens para o velho oeste. O que acontece aí é uma gostosa brincadeira com o gênero, suas referências e clichês.
(Back to the Future – Part III, Estados Unidos). Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, do argumento de Gale e Zemeckis. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, James Tolkan, Matt Clark, Harry Carey Jr., Marc McClure, Wendie Jo Sperber, Flea.

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Danca com Lobos - 02

 

14 — DANÇA COM LOBOS

Um amigo uma vez disse que Kevin Costner devia fazer só faroestes. E certamente ele é muito bom nisso. Não era para sair do Oscar como grande vencedor, mas é um belo filme.
(Dances with Wolves, Estados Unidos, 1990). Direção: Kevin Costner. Roteiro: Michael Blake, baseado em seu romance. Elenco: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Grenne, Rodney Grant, Floyd ‘Red Crow’ Westerman, Tom Everett, Wes Studi

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22395 H

15 — HENRY & JUNE

Philip Kaufman adaptou a obra erótica autobiográfica de Anais Nin, que conta seu envolvimento com o escritor Henry Miller e a esposa dele, June, na Paris de 1931. Os debates em torno da classificação etária do filme nos EUA geraram uma nova faixa, o NC-17. Maria de Medeiros e Uma Thurman soltam faíscas.
(Henry and June, Estados Unidos). Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman e Rose Kaufman, baseado no romance de Anais Nin. Elenco: Maria de Medeiros, Fred Ward, Uma Thurman, Richard E. Grant, Kevin Spacey.

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PRETTY WOMAN (1990) RICHARD GERE, JULIA ROBERTS PRW 081

16 —  UMA LINDA MULHER

O romance mais lembrado daquele ano, é basicamente uma história de Cinderela: uma prostituta que é contratada para acompanhar um milionário que acaba se apaixonando por ela. O carisma de Julia Roberts fez o filme ser o que é e ela virou uma estrela de primeira grandeza em Hollywood depois dele.
(Pretty Woman, Estados Unidos). Direção: Garry Marshall. Roteiro: J.F. Lawton. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Ralph Bellamy, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Alex Hyde-White, Amy Yasbeck

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Ata-me - 01

17 — ATA-ME!

Um sujeito com problemas mentais sequestra uma atriz de filmes pornô para tentar convencê-la a se casar com ele. A trama e a relação dos dois acaba se tornando mais complexa. Um Almodóvar atrevido de primeira linha.
(Atame!, Espanha) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Victoria Abril, António Banderas, María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano.

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Darkman - 01

18 — DARKMAN — VINGANÇA SEM ROSTO

O mundo era muito diferente em 1990. Filmes com super-heróis eram uma raridade. Sam Raimi e equipe não adaptaram nenhuma HQ para este filme, mas se inspiraram de corpo em alma no clima dos quadrinhos (especialmente em O Sombra, egresso da literatura e do rádio). Pintou aqui o diretor de Homem-Aranha (2002).
(Darkman, Estados Unidos). Direção: Sam Raimi. Roteiro: Chuck Pfarrer, Sam Raimi, Ivan Raimi, Daniel Goldin e Joshua Goldin, do argumento de Sam Raimi. Elenco: Liam Nesson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake

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Nikita - 01

19 — NIKITA — CRIADA PARA MATAR

O mundo era muito diferente em 1990, parte 2. Filmes de ação com mulheres no papel principal também não eram comuns. O francês Luc Besson sacudiu esse gênero com sua criminosa recrutada e treinada para ser uma agente implacável.
(La Femme Nikita, França/ Itália). Direção e roteiro: Luc Besson. Elenco: Anne Parillaud, Jean-Hugues Anglade, Tcheky Karyo, Jeanne Moreau, Jean Reno, Jean Bouise

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Ghost - 01

20 — GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA

Jerry Zucker saiu das comédias amalucadas que fez com o irmão David e com Jim Abrahams (como Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu…, 1980) e mergulhou no romanção de Ghost. Para equilibrar o melodrama entre Patrick Swayze e Demi Moore, colocou Whoopi Goldberg como coadjuvante cômica. E ainda tem uma trama de crime. No fim, deu certo.
(Ghost, Estados Unidos). Direção: Jerry Zucker. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Elenco: Patrick Swayze, Demi Moore, Whoopi Goldberg, Tony Goldwyn.

* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

OUTRAS LISTAS:

Em novembro de 2013, eu tive a alegria de entrevistar o Daniel Azulay para o Correio da Paraíba. Ele estava lançando um curso de desenho on line e se preparava para comemorar os 40 anos da sua Turma do Lambe-Lambe. Ele morreu na sexta passada, após uma luta contra a leucemia de ter contraído o coronavírus.

Segue aqui o resultado daquele nosso papo, onde ele fala de sua trajetória e de como desenhar pode ajudar na formação das crianças. “A coisa mais fascinante da vida é a imaginação. A criança não pode ficar presa a uma coisa só, como um animal amestrado“.

Daniel Azulay

Desenhando uma vida

Daniel Azulay há décadas se dedica a incentivar crianças a desenhar; agora, lança um curso virtual e se prepara para comemorar os 40 anos da Turma do Lambe-Lambe

Ele está há muito tempo afastado da televisão, mas sua figura ainda é sinônimo de desenhar para muita gente que assistia ao programa A Turma do Lambe-Lambe nos anos 1970 e 1980, na TVE e na Bandeirantes. Ao telefone, conversando com o CORREIO, Daniel Azulay logo lembra que esteve em Campina Grande nos anos 1980 com o show de seus personagens.

Ele nunca esteve parado, na verdade: manteve oficinas de desenho, um projeto social e, agora, lança um curso de desenhos com vídeos pela internet justamente o que era uma das grandes atrações de seu programa. “A televisão foi uma semente que germinou e deu frutos”, conta.

O Diboo (www.diboo.com.br) está sendo anunciado como o primeiro curso online de desenho voltado para o público infantil lançado no Brasil, aproveitando a metodologia que Azulay aperfeiçoou em mais de 30 anos de trabalho, nos quais ele sempre tentou desmistificar a ideia de que, para desenhar, é preciso essa coisa indefinível chamada talento.

“É como dizer que, para ler e escrever, a criança precisa ser intelectual”, diz. “Desde que o mundo é mundo, o homem se comunica pela imagem”.

Além disso, ele tenta promover o desenho e, por tabela, o estímulo da imaginação – como forma de sociabilizar a criança.

“Hoje, se os pais não cuidarem, a criança vai ficar sem relacionamento social, rapaz!”, afirma. “Num aeroporto, vi uma mãe e três filhos e ninguém conversava com ninguém. O desenho aproxima e liberta a pessoa, rapaz”.

E fala dos games eletrônicos: “Não pode ficar escravo de coisa nenhuma, muito menos de um equipamento. É preciso estimular a imaginação, fazer esportes e desfrutar de tudo – inclusive da tecnologia. É só os pais terem vontade e dedicação. Não pode abandonar ou terceirizar o garoto. O tempo dele é precioso”.

TEMPLATE_IMPAR.inddA turma do Lambe-Lambe – com personagens como a galinha Xicória, a vaca Gilda, a coruja Professor Pirajá, o elefante Bufunfa, os garotos Piparote, Ritinha, Damiana e Pita, nomes familiares para muita gente – vai completar 40 anos em 2014 e Daniel Azulay prepara a comemoração. Os personagens surgiram em tiras de jornal, o que os levou à TV. Chegou a ter mais de 100 produtos licenciados, lembra o desenhista. No programa, Azulay contracenava com suas criações e ensinava a desenhar e a montar brinquedos com objetos de casa, a sucata doméstica. O sucesso na TV rendeu uma revista em quadrinhos pela Editora Abril.

“Vai sair um almanaque de 100 páginas pela Ediouro”, adianta. “E estamos com o projeto de um livro, um musical e um filme”. Com a TV a cabo em busca de programação nacional e canais inteiros dedicados à criança, poderia pintar o regresso da Turma do Lambe-Lambe à TV, mas Azulay garante que não planeja isso. “A produção de TV é muito trabalhosa. Eu tenho mil atividades”, conta. “E as emissoras hoje buscam uma audiência fácil e rápida. A TV aberta, então, tem uma programação muito pouco criativa. Falta aparecer a cara da criança na TV”.

Turma do Lambe-LambeEle esteve de volta à TV em 1996, com a Oficina de Desenho Daniel Azulay, que fez sucesso por quatro anos na Band-Rio e depois passou a ser transmitido em cadeia nacional. Na TV paga, ele ainda desenvolveu um programa para o canal pago Futura em 2004 e 2005, Azuela do Azulay, que foi premiado no Japão. E a Turma do Lambe-Lambe ainda voltou na TV Rá-Tim-Bum em 2006 e 2007.

Daniel Azulay também desenvolveu nestes anos um trabalho com arte contemporânea premiado: chegou a receber uma carta do presidente do MoMA, de Nova York. “Tem muito elemento da infância, do inconsciente. ‘Funny faces'”, diz. Esse trabalho também pode ser visto no site oficial do desenhista.

O que continua impressionando em Daniel Azulay, mesmo por telefone, é que suas mil atividades parecem ser um reflexo de uma hiperatividade que sempre o deixou parecido com seus próprios desenhos. “Adoraria fazer um show aí. Você não me dá os contatos de alguns produtores para a gente conversar?”, emenda.

“A coisa mais fascinante da vida é a imaginação”, filosofa. “A criança não pode ficar presa a uma coisa só, como um animal amestrado”.

Através de seus personagens e seus cursos, Daniel Azulay fez parte da vida de inúmeras crianças, ajudando a ampliar sua sensibilidade e a fazer a imaginação de cada uma sair de suas mentes e ganharem traços no papel. E continua fazendo.

* Matéria publicada no Correio da Paraíba, em 22 de novembro de 2013.

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1917-2

1917
O cinema em movimento

Diário de Filmes 2020: 12

Espectadores têm interesses diferentes quando vão assistir a um filme. Alguns esperam que uma produção apontada como um grande filme seja algo que os arrebate, uma catarse emocional. Outros se interessam mais pela história em si ou por um conteúdo “importante”.

Este crítico até escreveu brevemente sobre isso uma vez.

Nesta visão pessoal, o cinema é como aquela história: mais importante que a piada, é o jeito como ela é contada. A história de um filme é importante, mas, mais importante ainda é como ela é narrada. A narrativa é tudo.

1917 se encaixa aí. Lembra um filme de Howard Hawks: homens com um trabalho a cumprir, custe o que custar. Em volta disso, há os dramas pessoais e o comentário sobre o cenário geral. Que, no caso, é a I Guerra Mundial.

A partir de um momento idílico, do descanso sob uma árvore em campo aberto, a câmera acompanha dois soldados convocados enquanto entram nas trincheiras e tudo vai ficando gradativamente mais apertado e claustrofóbico. Eles guiam o espectador para dentro da guerra.

É o começo do brilhante trabalho de Sam Mendes, o diretor, e Roger Deakins, o diretor de fotografia, na condução da série de planos-sequências — editados como se fossem dois, longuíssimos. Dois segmentos de narração como se fossem filmados em tempo real na jornada dos soldados que devem chegar a tempo para avisar uma tropa a não realizar um ataque que, na verdade, é uma armadilha. Se conseguirem, evitarão mais de mil mortes do lado britânico.

Nessa corrida, eles vão tendo que lidar com diversas situações que servem como um panorama da I Guerra Mundial, mesmo que alguns detalhes possam soar, ao pé da letra, como incorreção histórica. Algumas acontecem para propósitos dramáticos, outras provavelmente para de alguma maneira ampliar o confinamento narrativo do filme e trazer certas informações (como, por exemplo, o indiano que aparece servindo junto a um regimento de soldados brancos — indianos eram colocados em seu próprio regimento).

Como escreveu o Verissimo, a decisão dos planos-sequência encadeados e disfarçados como se fossem um só passa longe de um maneirismo vazio e exibicionista. É uma estética que serve ao movimento constante dos personagens e da ação. O movimento é a alma do filme, os planos-sequência também.

Seria um filme muito diferente e bem menos interessantes, caso não tivesse optado por essa maneira de contar a história? Certamente. Mas é por isso que é cinema: porque a maneira de contar a história é crucial. 1917 é um “filme-filme”, como escreveu a Ana Maria Bahiana. Ser cinema é a própria razão de ser do filme.

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Lawrence da Arabia - 07

Um monumento do cinema. Para contar a história do inglês que trabalhou para unir tribos árabes para enfrentarem juntas os turcos no front do Oriente Médio da I Guerra Mundial, David Lean levou sua equipe inteira ao deserto.

Filmou em regiões que ficavam a dias da civilização, colocando na terra uma vastidão de deserto intocado. “Eu ficava pensando: ‘como eles fizeram o take 2?’, pergunta Steven Spielberg, num dos extras da edição dupla em DVD (a produção baniu copinhos plásticos porque eles voavam para dentro das cenas e arruinavam a filmagem: para tirá-los de lá, a marca do copo e as pegadas da areia?). A visão aérea em plano-sequência do ataque à cidade de Aqaba exigiu que se erguesse 300 construções cenográficas.

E há o que o filme contém: um protagonista complexo, tortuoso, grandes diálogos (roteiro de Robert Bolt e Michael Wilson), atores incríveis (o filme revelou Peter O’Toole e Omar Sharif, e ainda tinha Anthony Quinn e Alec Guinness, entre outros) e soberbas fotografia (de Freddie Young) e música (de Maurice Jarre). Uma das cenas antológicas é a entrada de Omar Shaif em cena, vindo em seu camelo lá do horizonte: o filme simplesmente fotografa a miragem!

LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean, 1962)

Meu Amigo o Dragao - 2016 - 07

Refilmagem de um filme de 1977 que colocava atores contracenando com um dragão de desenho animado, este se propõe a uma pegada mais “realista”. Se no de 1977, o dragão parecia saído de um desenho do Mickey, com pretensão zero em ser real, aqui o CGI tenta inseri-lo na realidade ao redor. Também não é um musical, como o anterior. Poderia dar muito errado, mas funciona, com Robert Redford emprestando sua dignidade.

MEU AMIGO, O DRAGÃO (David Loewry, 2016)

Atlantis - 07

Como não foi um grande sucesso nas bilheterias, Atlantis — O Reino Perdido é meio escanteado na história da Disney. É injusto. Da mesma dupla de diretores de A Bela e a Fera (1991) e O Corcunda de Notre Dame (1996), foi uma das primeiras tentativas do estúdio de uma animação de aventura mais jovem, menos infantil, e sem ser um musical.

E, no caso, totalmente inspirado em Jules Verne, com visual desenvolvido por Mike Mignola (quadrinhista criador de Hellboy, creditado como desenhista de produção). Ambientado em 1914, é bonito, tem ritmo e ainda tem mensagens ecológicas e contra o militarismo e o imperialismo. Foi o último longa dos dois diretores, o que é uma pena.

ATLANTIS — O REINO PERDIDO (Gary Trousdale e Kirk Wise, 2001)

Serei Amado Quando Morrer - 01

De novo: alguns filmes têm uma história de bastidores tão fascinante que rendem um longa sobre eles próprios – seja como uma versão para ficção, seja como documentário. Também é o caso de O Outro Lado do Vento, último filme dirigido por Orson Welles, cuja filmagem se arrastou por seis anos (de 1970 a 1976) e só foi concluído e lançado pela Netlfix em 2018, 33 anos após a morte do diretor.

Dentro da tela, um filme experimental que é um falso documentário (contado através de imagens que emulam uma colagem de filmagens caseiras e caóticas) sobre o último dia de um diretor veterano que não consegue pôr um fim no filme experimental que está rodando. Fora da tela, um veterano expatriado que volta a Hollywood, faz um filme que nem a equipe entende, que estava na cara que era sobre ele (mas ele insistia que não), com troca de elenco no meio do caminho, traições entre amigos, financiamentos perigosos, apreensão jurídica do filme, o diabo.

Gostando ou não do que Welles pôs na tela, a história dessa produção é fascinante. E o documentário, que busca uma edição mais ousada e irônica, pode até melhorar o filme em si. Também está na Netflix.

SEREI AMADO QUANDO MORRER (Morgan Neville, 2019)
Cantando na Chuva - 33

Donald O’Connor, Debbie Reynolds e Gene Kelly, em “Cantando na Chuva”

30. ‘JE CHERCHE APRÈS TITINE’, de Tempos Modernos (1936)
Com Charles Chaplin. Direção: Charles Chaplin. Canção de Léo Daniderff, Marcel Bertal e Louis Maubon.

Como todo mundo sabe, Charles Chaplin resistiu o quanto pôde ao cinema falado. Quando Tempos Modernos estreou, já fazia nove anos da estreia de O Cantor de Jazz. E o filme, genial, continua praticamente sem diálogos. Há duas exceções. Uma são as ordens ásperas do chefe da fábrica. A outra é o único momento em que Carlitos fala. Contratado para cantar em um restaurante, ele esquece em cena a letra da canção. “Cante! Deixe as palavras pra lá!”, orienta, em socorro, a personagem de Paulette Goddard. O que vem a seguir só podia ser obra de um gênio como Chaplin: ouve-se a voz de Carlitos, mas as palavras são inventadas, não fazem sentido. O sentido da música, o que ela conta, está na coreografia que ele faz, na pantomima, como Carlitos se comunicava desde que surgiu no cinema, em 1914.

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29. ‘MEIN HERR’, de Cabaret (1972)
Com Liza Minnelli. Direção e coreografia: Bob Fosse. Coreografia: Twyla Tharp. Canção de John Kander e Fred Ebb.

“Mein herr” é a primeira aparição de Liza Minnelli em Cabaret, e que introdução! Sexy, ela mostra logo que esse não é um musical como os que sua mãe, Judy Garland, fazia. A canção foi feita para o filme – não estava na versão original para os palcos.

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28. ‘GET HAPPY’, de Casa, Comida e Carinho (1950)
Com Judy Garland. Direção e coreografia: Charles Walters. Canção de Harold Arlen e Ted Koehler.

O inferno de Judy Garland com o vício em remédios já afetavam seu trabalho na Metro, e o estúdio a demitiu após esse filme. Nas filmagens, Judy passou por alterações de peso, de humor, incapacidade de trabalhar. Este número foi rodado três meses depois do resto do trabalho do filme ter sido concluído. É um verdadeiro canto do cisne de sua obra na Metro. Judy perdeu peso e está absolutamente espetacular. Seu figurino virou uma assinatura (a ideia foi resgatada de um número de Desfile de Páscoa que acabou cortado). A canção (escolhida por Judy) parece dizer mais do que todo mundo ali sabia no momento (ela morreria muito jovem, apenas 19 anos depois). Judy passou dois dias aprendendo e ensaiando a coreografia, gravou a canção num take só e perfeito e a sequência levou outros dois dias para ser filmada. Foi seu último número na Metro. E foi uma obra-prima.

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27. ‘EVERY SPERM IS SACRED’, de O Sentido da Vida (1983)
Com Michael Palin, Terry Jones, Andrew MacLachlan, Jennifer Franks, Graham Chapman e Eric Idle. Direção: Terry Jones. Coreografia: Arlene Phillips. Canção de Michael Palin, Terry Jones, André Jacquemin e Dave Howman.

Uma família católica fervorosa tem uma multidão de filhos porque não pode usar métodos contraceptivos. Dessa proposta aloprada, surge um dos números musicais mais inacreditáveis do cinema: “Todo esperma é sagrado/ Se o esperma é desperdiçado/ Deus fica muito irado”. As crianças não tinham ideia sobre o que estavam cantando (algumas palavras sujas foram mudadas na filmagem e dubladas depois). Um número alto astral, embora as crianças estejam para ser vendidas para experimentos científicos! Terry Jones gastou a maior parte do orçamento do filme neste número implacável e demolidor, que diz animadamente sobre ser católico: “Você não precisa ter um grande cérebro/ você é católico desde que o papai gozou”.

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26. ‘SILK STOCKINGS’, de Meias de Seda (1957)
Com Cyd Charisse. Direção: Rouben Mamoulien. Coreografia: Eugene Loring. Música de Cole Porter.

Uma magnífica Cyd Charisse interpreta uma espiã russa durona que acaba seduzida pelo luxo de Paris (o musical é uma refilmagem de Ninotchka, com Greta Garbo). Seu momento de virada é aqui: um número solo antológico onde sua roupas sisudas de comunista dão lugar às meias de seda do título e ao vestido suntuoso. Cyd (com suas pernas lendárias) é tão sublime que a gente quase não percebe estar assistindo a um strip-tease de uma belíssima mulher (mentira).

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25. ‘SHAKIN’ THE BLUES AWAY’, de Ama-me ou Esquece-me (1955)
Com Doris Day. Direção: Charles Vidor. Coreografia: Alex Romero. Canção de Irving Berlin.

Doris Day fazia musicais na Warner, com resultados oscilantes. Dois anos antes, tinha conseguido um gol com Ardida como Pimenta (1953), no qual cantou a vencedora do Oscar “Secret love”. Ama-me ou Esquece-me, no entanto, foi na Metro — e aí era “ôto patamá”. Ela interpreta Ruth Etting, cantora dos anos 1920 que, para chegar ao sucesso, se envolve com um gangster (James Cagney). Marcada por papéis virtuosos que renderam a ela o apelido de “virgem profissional de Hollywood”, Doris nunca esteve tão sensual como neste filme. E neste número, a bordo de uma produção de primeira e uma canção otimista toda-vida de Irving Berlin, ela seduz cantando e dançando.

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24. ‘UNDER THE SEA’, de A Pequena Sereia (1989)
Com Samuel E. Wright. Direção: Jon Musker e Ron Clements. Canção de Alan Menken e Howard Ashman.

Ariel quer se meter com os humanos na superfície e o caranguejo Sebastião tenta convencê-la que é muito melhor no fundo do mar. É difícil não concordar com ele, nesta maravilhosa canção vencedora do Oscar que inspirou esse número colorido e movimentado que diz que, lá, peixe termina no aquário — e este tem até sorte, porque se o chefe fica com fome… “Lá eles tem um monte de areia, aqui temos uma banda de crustáceos da pesada”. Não adianta: a sereia já se mandou no meio da música. Mas o espectador fica.

***

23. ‘WELL DID YOU EVAH?’, de Alta Sociedade (1956)
Com Bing Crosby e Frank Sinatra. Direção: Charles Walters. Canção de Cole Porter.

Esses dois monstros sagrados da música popular americana nunca tinham aparecido juntos num longa-metragem. Nesta refilmagem de Núpcias de Escândalo (1940), eles dão uma escapada de uma festa chique para beber mais do que a elegância permite. Sinatra é o jornalista que está lá para cobrir o casório para sua revista de celebridades e ricaços. Crosby é o ex-marido da tempestuosa noiva, que ainda gosta dela. Juntos, os dois homens desfilam más notícias de brincadeira, ironias, bebem mais, falam besteira e resumem suas impressões sobre aquilo tudo: “Bem, quem diria? Que festa legal essa é!”. O número, originalmente do musical de palco Du Barry Was a Lady, foi acrescentado ao filme para dar a Crosby e Sinatra um momento em que pudessem cantar junto. Decisão mais que acertada: um número divertidíssimo com dois caras com grandes vozes e carismas ainda maiores.

***

22. ‘REMEMBER MY FORGOTTEN MAN’, de Cavadoras de Ouro (1933)
Com Joan Blondell, Etta Moten e côro. Direção: Mervyn LeRoy. Direção de dança: Busby Berkeley. Canção de Harry Warren e Al Dubin.

O musical geralmente é um gênero indentificado com o escapismo, o romance, o sonho, o humor. O que dizer de “Remember my forgotten man”, então? Em 1933, o número que encerra grandiosamente Cavadoras de Ouro dá um tapa na cara da sociedade americana, falando dos desvalidos que foram mandados à guerra como soldados e voltam esfolados e sem encontrar seu lugar. E que terminam marginalizados pelo mesmo país que foram defender. Busby Berkerley em estado de graça: um momento mostra uma fila de garbosos soldados parte para o conflito e outra ao lado, com os homens retornando feridos. Mas o final é que é brilhante: com o desfile militar de silhuetas ao fundo, Joan Blondell quase fazendo uma oração cercada pelos “forgotten men” e o incrível plano sequência final, que começa no rosto da atriz e termina com a cena inteira. Sensacional.

***

21. ‘GOOD MORNING’, de Cantando na Chuva (1952)
Com Gene Kelly, Debbie Reynolds e Donald O’Connor. Direção: Gene Kelly e Stanley Donen. Coreografia: Gene Kelly. Canção de Nacio Herb Brown e Arthur Freed.

Depois de muito baixo astral, um boa ideia reanima os ânimos do trio. E como! Don Lockwood, Kathy Selden e Cosmo Brown fazem da casa um palco: dançam na cozinha, pelas escadas, com capas de chuva, no bar, viram sofás, em uma das maiores exibições de sapateado do cinema. E, nisso, um grande destaque para Debbie Reynolds, que, aos 19 aninhos, não era dançarina, teve que dançar com dois monstros do ofício e deu conta do recado olimpicamente. “Cantando na Chuva e dar à luz foram as duas coisas mais difíceis que já fiz”, disse ela em suas memórias, em 2013. Este número levou 15 horas no dia para ser filmado. São três minutos e apenas nove cortes. No fim, Debbie estava com os pés sangrando. Mas ela conseguiu: entregou o momento mais formidável de sua carreira.

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Tubarao - 09 - filmagem

Alguns filmes têm uma história de bastidores tão fascinantes que rendem um longa sobre eles próprios – seja como uma versão para ficção, seja como documentário. Tubarão é um deles. O francês Laurent Bouzereau é um especialista em making ofs de filmes clássicos e dirigiu este documentário de mais de 2 horas sobre o filme de Spielberg, que está na íntegra como extra no DVD duplo dos 30 anos do filme, de 2005. Não é inventivo na forma, mas é exemplar ao contar em detalhes a saga de Tubarão do livro ao sucesso nos cinemas.

THE MAKING OF ‘JAWS’ (Laurent Bouzereau, 1995)

Todo ano, dias antes do Oscar, é a mesma coisa: o Oscar erra, o Oscar é injusto. É evidente que sim.

Às vezes o lobby fala mais alto, às vezes existe um ranço contra alguém, às vezes a consciência geral sobre a grandeza de um filme acaba vindo muito depois de ele ser lançado e não no momento.

Há casos de escolhas inacreditáveis em todas as categorias. Aqui embaixo vem um top 10 de grandes injustiças só na categoria melhor filme.

Mas o Oscar acerta também. Muitas vezes, e acho que há mais acertos do que erros clamorosos. E aí é preciso entender o seguinte: algumas vezes eu posso achar que o filme eleito não é o melhor, mas também não achar a escolha absurda. Em tempos de polarização radical, essa perspectiva pode parecer incompreensível, mas eu a tenho.

Por exemplo, Moonlight ganhou em 2017, mas não era meu preferido para vencer, que seria La La Land ou Manchester à Beira-Mar. Mas tudo bem, não considero “um erro”. Há um espectro de possibilidades que considero aceitável.

Mas, como eu dizia, o Oscar acertou muitas vezes. Acertos cravando filmes que se tornaram clássicos incontestáveis ou opções certeiras em anos mais divididos.

Vamos às duas listas, então. Elas se referem unicamente à categoria de melhor filme e, para efeito de referência, levando em conta apenas os filmes indicados. Os anos são da cerimônia em que os filmes concorreram:

TOP 10 JUSTIÇAS DO OSCAR:

humphrey bogart & ingrid bergman - casablanca 1943

1 — 1944: CASABLANCA

Poderoso Chefao - 27

2 — 1973: O PODEROSO CHEFÃO

Lawrence da Arabia

3 — 1963: LAWRENCE DA ARÁBIA

 

Se Meu Apartamento Falasse-02

4 — 1961: SE MEU APARTAMENTO FALASSE

Imperdoaveis - 01

5 — 1993: OS IMPERDOÁVEIS

lista-de-schindler-043

6 — 1994: A LISTA DE SCHINDLER

Poderoso Chefao2-04

7 — 1975: O PODEROSO CHEFÃO — PARTE II

Novica Rebelde-02

8 — 1966: A NOVIÇA REBELDE

Aconteceu Naquela Noite-05

9 — 1935: ACONTECEU NAQUELA NOITE

Golpe de Mestre - 11

10 — 1974: GOLPE DE MESTRE

***

TOP 10 INJUSTIÇAS DO OSCAR:

Todos os Homens do Presidente-07

“Todos os Homens do Presidente”

1 — 1977: Quem concorria: TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE; TAXI DRIVER; REDE DE INTRIGAS
Quem venceu: ROCKY, UM LUTADOR

Boa Noite e Boa Sorte-08

“Boa Noite e Boa Sorte”

2 — 2006: Quem concorria: BOA NOITE E BOA SORTE; O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
Quem venceu: CRASH — NO LIMITE

cidadao-kane-19

“Cidadão Kane”

3 — 1942: Quem concorria: CIDADÃO KANE
Quem venceu: COMO ERA VERDE O MEU VALE

Touro Indomavel - 03

“Touro Indomável”

4 — 1981: Quem concorria: TOURO INDOMÁVEL
Quem venceu: GENTE COMO A GENTE

Roma - 01

“Roma”

5 —  2019: Quem concorria: ROMA; INFILTRADO NA KLAN
Quem venceu:-GREEN BOOK —  O GUIA

Tigre e o Dragao-2

“O Tigre e o Dragão”

6 — 2001: Quem concorria: O TIGRE E O DRAGÃO; TRAFFIC
Quem venceu: GLADIADOR

Resgate do Soldado Ryan - 01

“O Resgate do Soldado Ryan”

7 — 1999: Quem concorria: ELIZABETH; A VIDA É BELA; O RESGATE DO SOLDADO RYAN
Quem venceu: SHAKESPEARE APAIXONADO

Bons Companheiros - 01

“Os Bons Companheiros”

8 — 1991: Quem concorria: OS BONS COMPANHEIROS
Quem venceu: DANÇA COM LOBOS

Cacadores da Arca Perdida - 01

“Os Caçadores da Arca Perdida”

9 — 1982: Quem concorria: OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA; REDS
Quem venceu: CARRUAGENS DE FOGO

Fargo - 01

“Fargo”

10 — 1997: Quem concorria: FARGO
Quem venceu: O PACIENTE INGLÊS

Fun Home

(…)

Fun Home é um álbum de personalidade forte. É verborrágico, com pouquíssimos quadros sem recordatório. No começo, muitas vezes o desenho apenas ilustra o que os recordatórios narram. O texto poderia contar a história sozinho.

Mas, com o passar das páginas, ele vai se tornando uma interpretação psicológica da trama. A partir daí, desenhos e recordatórios narram coisas diferentes ou complementares”.

(…)

Leia a crítica minha completa no Universo HQ!

Fun Home - capa

FUN HOME – UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA. De Alison Bechdel (roteiro e desenhos). Editora: Todavia. Tradução: André Conti. 240 páginas. Publicação original: 2006. Edição brasileira: 2018.
⭐⭐⭐

Horizonte Sombrio - 08

Estamos entrando na era dos longa-metragens centenários. Há 100 anos, D.W. Griffith dirigiu Lillian Gish flutuando em um bloco de gelo, por um rio semicongelado e em direção a uma cachoeira, no antológico clímax de ‘Horizonte Sombrio’. Até chegar aí, o filme é um melodramão sobre a mocinha que é enganada por um ricaço conquistador que a engravida e a abandona. Após muitos infortúnios, ela conseguie emprego numa fazenda, mas o sujeito reaparece. Esta reta final sensacional vale o filme e deixou marcas: anos depois, Gish disse que sua mão doeu pelo resto da vida por causa da água geladíssima do rio.

HORIZONTE SOMBRIO (D.W. Griffith, 1920)

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