Coluna Cinemascope. Correio da Paraíba, 18/1/2017

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“La La Land – Cantando Estações” (2016)

Gostar ou não de musicais

por Renato Félix

Enquanto escrevo, ainda não assisti a La La Land – Cantando Estações, filme mais comentado deste começo de ano e que, como tal, vai gerando tanto comentários elogiosos como outros nem tanto. E, sendo um musical, inevitavelmente surgem os “eu não gosto de musicais” e suas variações.

Eu, que adoro musicais, não vejo problema nisso, a não ser em algumas justificativas. “Ninguém sai cantando assim na vida real”, por exemplo. Não ouço reclamações assim em, digamos, filmes de super-heróis (“Ninguém sai voando na vida real”) ou com certos aspectos da linguagem do cinema em quase todos os filmes (“Não toca música de fundo em cenas românticas na vida real”).

Realidade, verossimilhança, não é a questão. Acho que uma das questões é o esquema narrativo particular de um musical, onde canções vão costurando a narrativa, integradas a ela ou as comentando. O que, na percepção de alguns, é uma “interrupção da história”.

A questão é o espectador se adaptar a uma forma diferente de contar a história. É mais fácil para uns que para outros. De  certa forma, um filme como Os Miseráveis (2012), que é praticamente todo cantado, como uma ópera, pode ser até mais fácil – desde que a cobaia o assista em condições de temperatura e pressão ideais: do começo ao fim, sem interrupções ou distrações, passando pela estranheza inicial para seu cérebro se ajustar que a realidade ali “é assim mesmo” e aceitá-la.

Importante também é gostar da música. Quem não gosta da grande música americana dos anos 1940 e 1950 pode achar difícil encarar um filme com Sinatra. Por outro lado, deve ser esse um dos fatores que leva tanta gente a gostar de um filme medíocre como Moulin Rouge (2001): com a trilha compilando o greatest hits de uma geração fica fácil.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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Coluna Cinemascope. Correio da Paraíba, 11/1/2017

Hollywood Foreign Press Association

Meryl Streep no Globo de Ouro, em 2017

Discursando por uma causa

por Renato Félix

Meryl Streep sabia que teria aquele tempo para falar o que quisesse no Globo de Ouro, e não desperdiçou. Fez um grande, memorável discurso, defendendo imigrantes, condenando os poderosos que pensam que podem tudo, clamando pela liberdade de imprensa. Vai ser lembrado por muito tempo, ao lado de outros memoráveis discursos políticos em premiações assim.

Já que se trata de um presidente eleito com menos votos que a concorrente, é difícil não voltar a Michael Moore, em 2003, quando Tiros em Columbine levou o Oscar de melhor documentário. “Gostamos de não ficção e vivemos em tempos fictícios. Um tempo com resultados eleitorais fictícios, que elegem um presidente fictício. Um tempo em que um homem nos manda para a guerra por motivos fictícios”. Ele falava de George W. Bush.

Ano passado, Leonardo DiCaprio, aproveitou os holofotes ao ganhar o Oscar de melhor ator por O Regresso, para alertar sobre as mudanças climáticas. “É a mais urgente ameaça contra nossa espécie inteira e nós temos que trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos que os líderes ao redor do mundo não falem pelos grandes poluidores, mas por toda a humanidade”.

E, claro, a mais clássica de todas aconteceu quando Marlon Brando ganhou o Oscar de melhor ator por O Poderoso Chefão, em 1973, e mandou em seu lugar Sacheen Littlefeather, atriz e ativista pelos direitos dos nativos americanos, para recusar a estatueta: “A razão para isso é o tratamento que os índios americanos recebem hoje da indústria do cinema e da televisão e os recentes acontecimentos em Wounded Knee”.

A cidade (de 382 habitantes em 2010) estava então ocupada por índios em protesto e cercada pela polícia. Ali ocorreu um massacre de índios pela cavalaria em 1890.

FOTO: Meryl Streep no Globo de Ouro, em 2017

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Coluna Cinemascope. Correio da Paraíba, 4/1/2017

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A importância (ou não) dos prêmios

por Renato Félix

O Globo de Ouro já é domingo, o primeiro grande momento da temporada de prêmios do cinema em 2017 – que naturalmente vai culminar no Oscar, no fim de fevereiro. Com ela, começa também a temporada de reclamações sobre o Oscar – tanto do que a Academia vai ou não indicar, quanto as de que se dá importância demais a ele.

Bem, há duas maneiras de se observar a questão. Em termos de mérito artístico, o Oscar realmente não é garantia de nada, não deveria “ter importância”, digamos assim. Assim como, aliás, qualquer prêmio, incluindo os de festivais como Cannes, Berlim, Veneza, Gramado, etc. Festivais (que geralmente gozam de “status artístico” maior) e seus júris também se equivocam e muito.

Uma diferença do Oscar para os festivais é que estes são lançadores de filmes: neles começa a jornada do filme que ainda chegará aos cinemas, e que pode chegar laureado com a Palma de Ouro, por exemplo. O Oscar é um prêmio de fim de temporada: e, assim, provoca uma “torcida” porque o público certamente já viu alguns dos filmes – e, se estiver nos  EUA, pode até já ter visto todos os principais concorrentes.

É esse aspecto que cria um frisson. Cannes ou Berlim só provocam torcida para quem está lá, em um microcosmo, acompanhando tudo in loco. Para quem está aqui, resta acompanhar as notícias e se informar sobre os vencedores depois de escolhidos.

Como um Festival de Cannes pode dar um apoio na largada da carreira de um filme (que já chega nos cinemas com, digamos, a Palma de Ouro no cartaz), o Oscar pode mudar carreiras de artistas – essa importância esses eventos têm. É claro que ambos podem não dar em nada e até atrapalhar. Aí também não são exatamente uma garantia.

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Coluna Cinemascope. Correio da Pataíba, 28/12/2016.

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“Guerra nas Estrelas” (1977)

A Força da princesa

por Renato Félix

Eram os meados dos anos 1970 e a ideia de princesa ainda era a da mocinha de vestido longo presa em uma torre à espera do cavaleiro que iria salvá-la e com quem ela invariavelmente casaria. Ou da mocinha pobre encontrada (e salva) por um príncipe que se casaria com ela. E aí apareceu Carrie Fisher.

Ela própria uma princesa na corte de Hollywood (filha da atriz Debbie Reynolds e do cantor Eddie Fisher), também aparece como princesa, a Leia Organa de Guerra nas Estrelas (1977) e suas continuações. Naquele primeiro filme da série, ela foi demolindo o estereótipo: peitava Darth Vader logo no começo, e, presa, assistia seu planeta ser explodido e era torturada (mas não revelava a informação que os vilões queriam).

E quando o cavaleiro aparecia em sua cela para salvá-la, ela é quem tomou as rédeas da situação: tomou a arma e explodiu uma parede, dizendo “Alguém tem que salvar nossas peles”. Em O Retorno de Jedi (1983), escravizada e humilhada por Jabba naquele biquíni de metal, matou ela mesma o gangster na operação de fuga dos rebeldes.

Leia, naqueles anos 1970 e 1980, era o contrário do que uma princesa parecia dever ser. Comandava operações militares, tinha espírito de liderança, não levava desaforo para casa. Uma grande personagem, personificada de maneira eterna em Carrie Fisher, que nos deixou ontem.

Hoje até o Disney Channel tenta desfazer a imagem de princesa que a própria Disney consolidou dos anos 1930 aos 1950. Com o slogan “Sou princesa, sou real”, tenta vender a ideia de que ser princesa é lutar por seus ideais e para realizar seus sonhos e tal. Bonitinho, mas quarenta anos antes, Carrie Fisher já era a princesa que representava isso.

FOTO: Guerra nas Estrelas (1977)

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“Moana – Um Mar de Aventuras” (2016)

4 – MOANA – UM MAR DE AVENTURAS

por Renato Félix

Em determinado momento de Moana – Um Mar de Aventuras, o semideus polinésio Maui a chama – com desdém – de princesa. “Não sou uma princesa”, ela retruca. “É a filha do chefe, é a mesma coisa”, rebate ele, e emenda: “Se usa um vestido e tem um bichinho de parceiro, é uma princesa”. A personagem-título de sua nova animação é mais uma tentativa da Disney de dar um passo à frente na modernização do conceito de “princesa”, um patrimônio cultural e de marketing do estúdio desde Branca de Neve, em 1937.

Moana não é uma princesa decorativa: é treinada para um dia governar. Desafia o pai o tempo todo no seu contrasenso de comandar um povo da Polinésia e ter medo do mar. Um dia, o destino faz a menina navegar como seus antepassados para encontrar Maui e reverter uma maldição que chega à sua ilha.

Se em A Princesa e o Sapo (2009), a princesa resiste ao romance por aspirações profissionais (mas se rende no decorrer do filme), se em Valente (2012) a princesa rejeitava seus pretendentes, e se em Frozen (2013) o príncipe se revelava o vilão (e o verdadeiro interesse amoroso estava em segundo plano), nesta progressão agora não há qualquer sinal de príncipe encantado à vista. A relação entre Moana e Maui está mais para irmão mais velho/ irmã caçula.

Mas mesmo com esse esforço de modernização, em termos de narrativa ainda é difícil não relacionar motivações e parte da jornada de Moana às de outras princesas Disney, como Ariel, de A Pequena Sereia (1989, dos mesmos diretores John Musker e Ron Clements) ou Belle, de A Bela e a Fera (1991).

Como Ariel, Moana tem curiosidade pelo mundo além das fronteiras do seu, mas é tolhida pelo pai. As duas possuem, ainda no primeiro terço de seus filmes, uma canção de “eu anseio por mais”, assim como outras princesas Disney. Foi “Part of your world” para Ariel em A Pequena Sereia, “Almost there” para Tiana em A Princesa e o Sapo (outro Musker-Clements), “When will my life begin?” para Rapunzel em Enrolados (2010), e é “How far I’ll go” em Moana.

É uma bela canção (que está indicada ao Oscar) de uma bela trilha, que reflete um cuidado da produção ao trabalhar com a cultura local. As canções ficaram a cargo de uma parceria entre o letrista novaiorquino Lin-Manuel Miranda e o músico Opetaia Foa’i. Dos números musicais, o melhor é “You’re welcome”, em que Maui (Dwayne Johnson no original; o cantor de musical Saulo Vasconcellos, na versão brasileira) bravateia seu heroísmo, com ótimos recursos visuais.

O visual arrebatador é um dos pontos em que Musker e Clements mostram a competência de sempre. Assim como no carisma dos personagens e um humor que sobrevive a certos atalhos fáceis e desnecessários do roteiro, como os bichinhos que não contribuem em nada para a trama (apesar de o galo burro ser ocasionalmente engraçado). Ou como o mar “vivo” que ajuda a heroína, que sempre parece um recurso forçado (embora também tenha ocasionalmente sua graça).

Aliás, a relação de Moana com o mar podia ser mais próxima na introdução da história. Embora ela seja naturalmente atraída por ele e, além disso, seja “a escolhida” desde bebê para reverter a maldição, não há nenhuma cena da garota em intimidade com o mar, mesmo morando em uma aldeia à beira-mar. Nem um simples mergulho.

No fim, Musker e Clements, oriundos das animações feitas à mão, fazem uma estreia muito boa na animação digital. É uma pena, somente, que isso signifique mais uma pá de cal nos longas feitos à mão, que renderam vários dos melhores exemplares do gênero. O último longa para o cinema a sair da própria Disney foi justamente A Princesa e o Sapo, já há seis anos.

Moana – Um Mar de Aventuras. Moana. Estados Unidos, 2016. Direção: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House. Vozes na dublagem brasileira: Any Gabrielly, Saulo Vasconcelos, Saulo Javan, Mariana Elisabetsky. No cinema (Cinespaço MAG). Revisão.

Coluna Cinemascope. Correio da Paraíba, 21/12/2016

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“A Invenção de Hugo Cabret” (2011)

 

Ficou fácil

por Renato Félix

Hoje quem quiser assistir a um determinado filme tem muitas opções para encontrá-lo. Quase não existem mais locadoras físicas (em João Pessoa, a de seu Vianey, em Tambaú, deve ser a última), mas há os serviços on line como o Netflix, o Looke, os particulares dos canais de TV (como HBO e Telecine), etc. Garimpando, provavelmente encontra-se o que se quer.

É claro que ninguém abre mão dessa comodidade. Mas há uma certa melancolia em perceber como assistir a um filme deixou de ser um “evento”. Deixou de ter aquele frisson, a sensação de que era necessário assistir naquela hora para não perdê-lo.

Pensar nisso retroativamente mostra como assistir a um filme específico era difícil. Antes do DVD e o hábito de comprar os filmes (nas lojas ou pela internet) para ter em casa, havia o VHS e as locadoras. Era preciso, claro, que elas tivessem o filme e que ele não estivesse locado quando você quisesse vê-lo.

Um  problema menor quando se pensa em como era a coisa antes do VHS, quando se dependia da TV. Naquela época, pelo menos, as TVs abertas tinham horários reservados para filmes clássicos (mesmo que fosse tarde da noite e às vezes nem era). Eram os anos em que aguardávamos com ansiedade a programação de filmes de fim de ano e cravar no calendários as noites em que não poderíamos sair para não perder um filme especial.

E antes da proliferação dos filmes na TV, então? Só era possível conferir um clássico comentado se o cinema o reprisasse ou se algum cineclube conseguisse uma cópia para passar. As pessoas ouviam falar de um filme, liam sobre ele, e simplesmente podiam passar anos sem conseguir assisti-lo.

Não era fácil a vida de cinéfilo, comparada com a de hoje.

FOTO: A Invenção de Hugo Cabret (2011)

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Amanda Abbington, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, em “Sherlock – The Six Thatchers” (2017)

 03 – SHERLOCK – THE SIX THATCHERS

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Antes da estreia da quarta temporada de Sherlock (você sabe, cada episódio da série é um longa-metragem, por isso ele está aqui), os produtores fizeram questão de avisar que seria a mais sombria delas. E eles falavam sério. Mas a grande capacidade narrativa da série garante que, mesmo assim, ela não chega a destoar do tom geral. É o que acontece no episódio de abertura, The Six Thatchers.

O “Thatchers” do título é referente mesmo a Margaret Thatcher, ex-primeira ministra britânica. Como sempre, trata-se de uma referência indireta a uma história original de Arthur Conan Doyle (neste caso, o conto “The Adventure of the Six Napoleons”). Aqui, trata-se de seis estátuas únicas e raras da Dama de Ferro, que alguém está destruindo uma a uma.

Mas esse mistério só entra em cena com o episódio já avançado. A estreia de Rachel Talalay na direção de um episódio da série (ela dirigiu filmes como Tank Girl, 1995, e, recentemente, alguns episódios de séries da DC, como Supergirl e Flash) estabelece um clima antes de mudar de direção.

Começa lidando com a herança do final da terceira temporada: Sherlock (Benedict Cumberbatch) acusado de assassinato e encaminhado para o exílio. Após o interlúdio do episódio especial The Abominable Bride, a série lida com aquele desfecho chocante “elucidando” a situação através das manobras do irmão Mycroft (Mark Gatiss) já no começo deste episódio.

Seguimos com Sherlock resolvendo freneticamente casos menores enquanto aguarda os desdobramentos do que parece ser uma anunciada vingança póstuma de Moriarty. Quando as seis estátuas entram em cena, as complicações da trama vão enredar o passado de Mary Watson (Amanda Abbington), mais uma vez revelando-se uma grande personagem na série. Ela chega a protagonizar um duelo de sagacidade com Sherlock.

Não só ao passado de Mary, mas também às fraquezas de John (Martin Freeman) agora que o casal tem um bebê e o mergulho de Sherlock na própria obsessão são os lembretes sombrios quem vão entremeando o humor e a ação, uma prévia de momentos difíceis que não tardarão a chegar.

Sherlock – The Six Thatchers. Sherlock – The Six Thatchers. Reino Unido, 2017. Direção: Rachel Talalay. Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Amanda Abbington, Mark Gatiss. Download.

Coluna Cinemascope. Correio da Pataíba, 14/12/2016

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“Perdido em Marte” (2015)

O gueto do ‘musical ou comédia’

por Renato Félix

É curioso: os atores vivem falando que fazer comédia é muito mais difícil que fazer drama. Mas aparentemente poucos além deles acham isso. É só tomar como termômetro os prêmios de cinema, onde a comédia raras vezes encontra uma vaguinha. Sabe qual foi o último ator a ganhar o Oscar por uma comédia? Ele mesmo: Roberto Benigni, se considerarmos como tal A Vida É Bela (1997), que, como sabemos, é mais um drama com muitos elementos de comédia que uma comédia mesmo.

Por isso eu até entendo os motivos pelos quais surgiu a separação entre drama e comédia em algumas premiações. Isso faz com que, em tese, atores nesse registro sejam igualmente reconhecidos.

Na prática, há problemas. O Globo de Ouro faz essa distinção, mas parece claro que os vencedores de “drama” têm um status maior do que os vencedores em “comédia”. Não deveria, mas soa como uma espécie de segunda divisão.

Há também o problema de se definir o que é drama e o que é comédia e o que acontece quando o filme tem os dois elementos. Causou muita discussão a inclusão, na premiação deste ano, de Perdido em Marte como comédia. Tudo por causa do registro levemente engraçado de Matt Damon, que aliás, ganhou o prêmio de melhor ator na categoria. E, entre os cinco indicados a melhor ator e as cinco indicadas a melhor atriz no Oscar, foi o único a aproximou desse registro mais engraçado.

E ainda tem, para piorar, esse “musical ou comédia”. Ou seja: o musical não é “sério” o bastante para concorrer com os dramas. E, se um musical dramático é premiado, acabam vencendo dramas nas duas categorias – e a comédia fica de novo a ver navios. E não é raro acontecer. Essa separação acaba se tornando um gueto para determinado tipo de filmes de “importância menor”.

FOTO: Perdido em Marte (2015)

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Coluna Cinemascope (#12). Correio da Paraíba, 7/12/2016

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“Último Tango em Paris” (1971)

O vale tudo nas filmagens

por Renato Félix

Maria Schneider falou sobre como tinha sofrido no set de Último Tango em Paris (1973) e de como isso havia deixado sequelas psicológicas em sua vida. Só agora, três anos depois de o próprio diretor Bernardo Bertolucci ter admitido que Marlon Brando e ele tramaram surpreender a jovem atriz na “cena da manteiga” para obter, nas palavras dele, “a reação da menina e não a da atriz”, é que a questão causou repercussão.

Nem vou entrar nos aspectos potencialmente criminosos do fato, já amplamente discutidos na imprensa e nas redes sociais, mas entrar em um aspecto que foi levantado por minha amiga Alana Agra no Facebook: vale tudo para conseguir a melhor atuação, a melhor cena para um filme?

Não são poucos os casos em que os diretores apostam no sofrimento não consentido de seus atores (e equipe) para conseguir o que querem para seus filmes. As histórias são muitas, em diferentes níveis, sem precisar chegar a uma questão tão sórdida como a de um estupro, mas que podem ser igualmente condenáveis se a gente pensar no que alguém precisa passar pela visão de outro.

Entre as que me lembro, está William Friedkin mandando puxar Ellen Burstyn, com toda a força e sem que ela soubesse, para que sua reação (e grito) de dor ao cair fosse real em uma cena de O Exorcista (1973). Ou dando tiros para o ar no set para manter a tensão no elenco e equipe.

Também, entre todas as agruras que Tippi Hedren passou nas mãos de Hitchcock, está a história de ela ter sido avisada só momentos antes da cena que teria amarrados a seus braços e pernas pássaros reais que iriam atacar sua personagem em Os Pássaros (1963).

Caso mais grave: a terrível morte de Vic Morrow e dois atores mirins, atingidos por um helicóptero em uma cena de No Limite da Realidade (1983), de John Landis, filmada fora dos padrões de segurança. Morrow foi decapitado.

FOTO: Último Tango em Paris (1971)

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Margherita Buy e John Turturro em “Mia Madre”

2 – MIA MADRE

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Logo no começo de Mia Madre, uma cineasta que dirige um filme sobre questões sociais (uma fábrica italiana comprada por um americano e que pode fechar colocando todos os trabalhadores na rua) se questiona a cerca do ângulo de câmera que está sendo usado, que mensagem ele vai passar. É uma personagem muito comprometida com seu trabalho. Mas há uma tormenta chegando para complicar sua vida: a doença da sua mãe e o astro de Hollywood que vai atuar em seu filme.

Nanni Moretti já possui uma bela carreira construída principalmente sobre o trânsito entre comédia e drama. Aqui, ele pende mais para o drama, quando trata dos conflitos pessoais de Margherita (Margherita Buy): a mãe, a filha, um relacionamento recém-terminado.

Mas há momentos cômicos reservados a John Turturro, como o astro vaidoso a ponto de mentir descaradamente sobre sua carreira (se gaba de ter trabalhado com Kubrick) e que faz questão de atuar em italiano sem saber a língua. Mas, inseguro, tem dificuldades em decorar quase todas as suas cenas.

O filme é o retrato da vida confusa de Margherita, tendo que lidar com tudo isso ao mesmo tempo e dizendo clichês que nem sabe mais o que significam. Como a repetida instrução para que os atores não sejam só o personagem, mas sejam também eles mesmo, o que só deixa o elenco também confuso.

O fio condutor é a provável morte da mãe. O filme todo é uma espécie de despedida, em que os valores dela – uma professora de latim aposentada, que dá suas últimas aulas, já de cama, à neta – vão ficando como legado. Nesse sentido, é bonita  e simbólica a visita de um ex-aluno e o momento em que ela acontece, para mostrar que muito dessa mulher seguirá vivendo.

Mia Madre. Mia Madre. Itália/ Framça/ Alemanha, 2015. Direção: Nanni Moretti. Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti. 2º filme. Em DVD.

Coluna Cinemascope (#11). Correio da Paraíba, 30/11/2016.

HUGO

“A Invenção de Hugo Cabret” (2011)

Mergulho na cinefilia

por Renato Félix

É muito difícil encontrar alguém que não goste de cinema. Mas gostar de cinema e ser um cinéfilo são a mesma coisa? A cinefilia pode, ao pé da letra, significar tão somente “amor ao cinema”. Mas, na prática, não seria um mergulho um tanto mais profundo?

João Batista de Brito faz uma bela retrospectiva de como surgiu a palavra, na Paris dos anos 1940 e 1950, e como ela já era usada para designar um tipo de espectador que era interessado nos filmes como arte e expressão pessoal, para além da diversão. Está no blog dele, Imagens Amadas.

Nada contra o uso do cinema como “diversão e ponto”, porém. Cada espectador espera determinadas coisas de um filme e,  se recebe o que espera, sai satisfeito. É o interesse legítimo desse espectador, mas não do cinéfilo.

O cinéfilo precisa, no mínimo, estar antenado com os lançamentos e os nomes de diretores e atores que os acompanham – de maneira geral, de preferência, e não só do seu gênero de interesse. Não adianta muito conhecer Drew Barrymore porque somos fãs de comédias românticas ou Vin Diesel porque nosso negócio é cinema de ação.

O cinéfilo “hard” gosta de refletir sobre como cada filme é pensado e realizado. Como se portou diante das opções que tinha. Se interessa não só pela mensagem, mas pelos mecanismos que o filme usa para passar essa mensagem. Ele sabe que os diretores é que contam as histórias e procura conhecer uma boa parte deles.

Evidentemente, ninguém é obrigado. Nem é uma questão de status. Mas está mais fácil que nunca ser cinéfilo: os filmes têm comentários em áudio, há livros em abundância de diversos níveis de profundidade, revistas e sites. É só mergulhar.

FOTO: A Invenção de Hugo Cabret (2011)

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Coluna Cinemascope (#10). Correio da Paraíba, 23/11/2016.

Jaws

“Tubarão” (1975)

Antes e depois deles

por Renato Félix

Um dia desses debati com um amigo sobre o fato de Pulp Fiction (1994) ter ou não mudado a história do cinema. Ele achando que sim, eu que não. O filme de Tarantino sem dúvida tem grandes qualidades como cinema, foi a afirmação de um esteta, reprocessou muita coisa, mas isso não é mudar a história. Isso é para pouquíssimos filmes.

É uma afirmação para ser usada, por exemplo, para Viagem à Lua (1902), de George Méliès. O curta que usou os parcos recursos técnicos da época para fazer o espectador viajar ao espaço. Não só afirmou que o caminho maior do cinema seria ali pela fantasia como inaugurou a ficção científica no cinema.

É também para ser atribuído a O Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, que praticamente instituiu uma gramática da linguagem cinematográfica. Ou O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein, o pilar da edição soviética, que mostrou que a montagem podia ser usada para mais do que emendar uma cena na outra: mas para criar ideias a partir da união das imagens.

Também entra aí Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, que inaugurou o neo-realismo italiano e levou o cinema pra rua, para fora dos estúdios, e levou atores não profissionais para dentro do cinema. Em 1960, Acossado, de Jean-Luc Godard, abriu o leque do conceito de montagem, apostando no salto das imagens.

Branca de Neve e os Sete Anões (1937) criou um novo mercado: os longas de animação. E Toy Story (1995), a animação por computador, que dominaria o gênero. Sem esquecer de Tubarão (1975), que instituiu o conceito de blockbuster. Esses, sim, mudaram o cinema.

FOTO: Tubarão (1975)

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Coluna Cinemascope (#9). Correio da Paraíba, 16/11/2016.

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“Mestres do Universo” (1987)

Há (quase) 30 anos

por Renato Félix

Todo mundo tem duas primeiras vezes no cinema: a primeira vez em que foi levado pelos pais (ou um tio, ou algum outro adulto) e a primeira vez em que foi por si mesmo (sozinho ou com amigos) e com seu próprio dinheiro (da mesada, economizado do lanche da escola, ou mesmo dado pelos pais). Esta minha “segunda primeira vez” no cinema vai completar 30 anos em 2017.

Foi no antigo Cine Municipal, na época o maior em atividade na cidade, com seus  mais de 900 lugares. O filme, no entanto, não é nada para se orgulhar muito: Mestres do Universo, aquela versão em carne-e-osso do He-Man, com Dolph Lundgren, produzida pela Cannon. Não exija muito, eu tinha 13 anos.

O IMDb me diz que o filme estreou no Brasil em 30 de junho, então é provável que julho tenha sido o mês em que peguei meu dinheirinho (economizado do lanche), fui de ônibus à tarde ao Municipal, no Centro de João Pessoa, assisti o filme e voltei pra casa. No ano seguinte, fui ver mais uns três ou quatro filmes e em 1989 a sala escura me pegou de vez.

Mas 1988 também foi um ano que definiu o cinema para mim. Foi o ano em que vi pela primeira vez um Indiana Jones (o primeiro), um Jornada nas Estrelas (o segundo), um James Bond (Os Diamantes São Eternos, com Sean Connery). Todos na TV, na Tela Quente, que foi lançada em março de 1988 (o filme de estreia foi O Retorno de Jedi, que também vi pela primeira vez aí).

Mas tem uma data que não consigo precisar: foi no reveillón de 1987 ou de 1988 que Cantando na Chuva foi exibido como primeiro filme do ano na Globo? Sozinho em casa, o filme transformou uma virada de ano super tranquila em um maravilhamento que me abriu as portas do cinema clássico. Até hoje meu filme preferido e um definidor de quem sou hoje.

FOTO: Mestres do Universo (1987)

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Coluna Cinemascope (#8). Correio da Paraíba, 9/11/2016.

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“Cidadão Kane” (1941)

Clássico é clássico (e vice versa)

por Renato Félix

Os dicionários me dão algumas definições de “clássico”: “que é de estilo impecável”; “próprio para servir nas aulas”, “que de há muito é habitual; inveterado no uso”; “relativo à literatura, às artes e à cultura da Antiguidade greco-latina”; “evento ou acontecimento famoso por se repetir com regularidade”.

Só aí já dá para ver que quando falamos em “filme clássico”, alguém pode se perguntar: “Mas ‘clássico’ como?”. Como tudo que estabelece um valor no cinema, essa ideia também é subjetiva e está meio ao gosto do freguês. Ou seja: não há como bater um martelo, o que é clássico para um pode não ser para outro.

É o senso comum (essa entidade também subjetiva) que consagra Cidadão Kane (1941) ou 2001 (1968) como clássicos e, digamos, O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (2001) não. Ou, pelo menos, não ainda.

Isto porque a ideia de filme clássico, em geral, parece combinar o “de estilo impecável” com o “relativo à literatura, às artes e à cultura da Antiguidade greco-latina” (adaptando-se aí para “antiguidade do próprio cinema”). Ou seja: o filme precisaria de um tempo para se confirmar como um “modelo impecável”.

Há variáveis aí, claro. Quanto é esse tempo? Uma vez li em um antigo guia de vídeo da Nova Cultural que eles consideravam 20 anos. É um período que peguei pra mim, a grosso modo. A sensibilidade é que faz a sintonia fina se um filme de mais ou menos 20 anos, como Pulp Fiction (1994) ou Titanic (1997), já é ou não um clássico.

E há ainda aquelas particularidades que ficam à margem. Os “clássicos instantâneos”, os “clássicos dos filmes ruins”, etc. O que não pode é “clássico” significar apenas “um grande filme”. Ou, com essa banalização, teremos que achar uma nova palavra para o que é um clássico.

FOTO: Cidadão Kane (1941)

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Coluna Cinemascope (#7). Correio da Paraíba, 2/11/2016.

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“Doutor Estranho” (2016)

 

Super-heróis, lado B

por Renato Félix

Quando eu era ainda um menino e via os filmes do Super-Homem com Christopher Reeve ainda na primeira dublagem brasileira na TV preto-e-branco dos meus pais, nunca imaginei que veria uma época como esta: vários filmes de super-heróis por ano, não raro muito bons e com chance até para personagens que não são aqueles mais populares entre não-leitores.

Naquela época, eu ainda estava começando a ler gibis do gênero (lia o Batman de Neal Adams e Denny O’Neill, basicamente, e logo viria O Cavaleiro das Trevas, Watchmen, que mudariam tudo nas HQs de heróis). De filmes, só havia mesmo os do Super-Homem. Fora isso, os heróis só apareciam de carne-e-osso em séries de TV em geral sofríveis. O Batman de Tim Burton em 1989 apareceu como honrosa exceção nos cinemas.

A coisa mudou mesmo quando X-Men – O Filme se tornou um grande sucesso em 2000 (eu sei, teve Blade pouco antes, mas que não-leitor já ouviu falar de Blade?). Homem-Aranha (2002) consolidou o gênero em ascensão. E Homem de Ferro (2008) deu o ponta-pé nos filmes interligados da Marvel.

E, com eles, a Marvel se tornou uma marca tão conhecida dos não-leitores que passou a ser avalista até de filmes de heróis pouco conhecidos além das páginas dos gibis. O garoto daqueles tempos, os anos 1980, nunca imaginaria assistir a um filme do Homem-Formiga, do Deadpool, dos Guardiões da Galáxia…

Ou Doutor Estranho, que teve pré-estreia com toda a pompa nesta madrugada, e já entra em horários à tarde nesta quarta em JP, Campina e Patos, embora a estreia oficial seja só na quinta. Quem sabe no futuro o público não-leitor acabe íntimo de personagens como o Homem-Elástico (da DC) ou da Ms. Marvel (da Marvel)?

FOTO: Doutor Estranho (2016)

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Coluna Cinemascope (#6). Correio da Paraíba, 26/10/2016

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“O Quarto de Jack” (2015)

Passaram longe

por Renato Félix

Todo ano eu faço uma lista inglória: 50 filmes que estrearam no Brasil, mas que não passaram nos cinemas de João Pessoa. Sempre há um punhado de filmes que, por uma razão ou por outra, acabaram ficando de fora do nosso circuito. A gente sabe o funil da distribuição é algo sério e questões como o número de salas no Brasil, o marketing predatório das grandes empresas em torno dos blockbusters e até mesmo falta de visão e coragem para apostar em determinados títulos acabam influenciando nisso.

Uma parcial mostra que não falamos só de filmes europeus ou “difíceis”. O Quarto de Jack, Oscar de melhor atriz para Brie Larson e que entrou em cartaz no país em fevereiro, passou longe do nosso circuito. No “engarrafamento” do Oscar, naquele período, sobrou para ele, mesmo sendo um dos principais premiados da temporada.

Ser um diretor de prestígio também não garante exibição por aqui. Nem se forem dois. Ave, César!, mais recente filme dos Irmãos Coen, estreou no Brasil em abril, mas o paraibano não pôde ver no cinema essa comédia nos bastidores do cinema dos anos 1950. E olha que o ator principal é George Clooney!

Imagine, então, a dificuldade de um projeto como a trilogia As Mil e uma Noites, do português Miguel Gomes. As partes 2 e 3 foram lançadas no Brasil em maio, mas João Pessoa não viu nenhuma das três no cinema.

É verdade também que a situação melhorou muito de uns anos para cá. O Cinépolis Manaíra ganhou uma sessão de cinema de arte, o Cinespaço MAG colocou em cartaz quase todos os filmes do Festival Varilux e o Cine Banguê voltou este ano com uma programação de fôlego. Pode ser difícil fazer a lista no fim do ano.

FOTO: O Quarto de Jack (2015)

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1 – A BRUXA

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas

Desenhista de produção e figurinista, Robert Eggers estreou na direção de longas com um belo trabalho em A Bruxa (2015). Aproveitou bem o clima opressivo-religioso da região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos do século XVII, onde aconteceu a paranoia da caça ás bruxas e, desde então, um terreno fértil para inspirar situações de terror. Para isso, seu foco é uma família cujas crenças não são aceitas pela vila em que vivem e que acabam se isolando em uma casa no meio de uma floresta.

A situação da família isolada, em um filme de suspense e/ou terror, não é nenhuma novidade – antes pelo contrário, é um baita clichê. Portanto saber lidar tão bem com essa situação também é mérito de Eggers, autor também do roteiro. Ele evita os sustos fáceis e explora o desconforto, a solidão, o desamparo e os conflitos entre os membros da família.

E aquele entre a jovem Thomasin (Anna Taylor-Joy, praticamente uma estreante) e seus irmãos mais novos é o detonador da trama. Aos seus cuidados, o bebê da família inexplicavelmente some na floresta e circunda a casa. É mais um passo de uma série de fatos que vão assombrando a família e aumentando a tensão entre eles.

Uma hora, os gêmeos menores uma hora dizem que falam com o bode, Black Phillip. Em outro momento, Thomasin, para assustá-los, finge que é uma bruxa – algo que vai se voltar contra ela mais tarde. Se há ou não algo sobrenatural acontecendo, é um mistério que o filme, que afirma usar diálogos e situações ocorridas realmente na época, vai aumentando até perto do final, enquanto a família vai se desintegrando.

A Bruxa aproveita os espaços e a luz natural: é imersivo e claustrofóbico, mesmo nos espaços abertos. Nesse aspecto, como em outros – o perigo à espreita em algum lugar, a paranoia, crianças com elementos sombrios – acaba se assemelhando até a A Fita Branca (2009).

A Bruxa. The Witch. Estados Unidos/ Reino Unido/ Canadá/ Brasil, 2015. Direção: Robert Eggers. Elenco: Anna Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw. 1º filme. Em DVD.

Coluna Cinemascope (#5). Correio da Paraíba, 19/10/2016.

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“Arizona Nunca Mais” (1987)

Lista, pra que te quero?

por Renato Félix

O cinema completou 120 anos no fim do ano passado e, por isso, publiquei aqui no CORREIO uma lista que chamo pomposamente de “120 filmes para a humanidade”. É uma lista de longas que tentou resumir essa história. Com sua dose de subjetividade, é claro, mas ainda assim tentando dar espaço aos diretores importantes, movimentos, cinematografias de países-chave, gêneros, etc.

Mas aconteceu o seguinte: como havia um prazo, tive que finalizar a lista sem me dar totalmente por satisfeito com ela. Resolvi que faria em seguida uma revisão para publicar no meu blog. Fiz um listão de uns 300 e tantos filmes e fui cortando. O problema é que cheguei a 126, 127 e não consigo mais cortar para fechar nos 120.

Há muita coisa ótima nesse mundão do cinema. E tentar equilibrar tudo é uma tarefa impossível. Como ter menos que quatro Hitchcocks? Quero colocar um irmãos Coen, mas este seria Arizona Nunca Mais (1987), Fargo (1996) ou O Grande Lebowski (1997)? Vale trocar um Kiarostami por A Separação (2012)? É muito ter três George Stevens, mesmo que um deles, Ritmo Louco (1935), seja mais por causa de Fred Astaire e Ginger Rogers?

Curiosamente, em 2001 fiz uma lista de “100 filmes para a humanidade”, para A União. Não me lembro de, 15 anos mais novo, ter muita dificuldade de fechar aqueles 100. Também é verdade que voltei a essa lista recentemente e muitas vezes pensei: “No que diabos eu estava pensando? Como este filme entrou e aqueles não?”.

Listas nunca serão definitivas – nem mesmo as que a gente mesmo faz. A serventia delas é mesmo levantar as discussões e, através delas, das nossas concordâncias e discordâncias, refletirmos mais sobre o cinema (ou o que quer que seja o tema da lista em questão).

Se eu conseguir fechar os 120, aviso.

FOTO: Arizona Nunca Mais (1987)

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Coluna Cinemascope (#4). Correio da Paraíba, 12/10/ 2016

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“A Lenda de Tarzan” (2016)

Uma franquia para chamar de sua

por Renato Félix

Não é segredo para ninguém que Hollywood está combinando uma crise de imaginação com uma crise de coragem. Não fiz o levantamento, mas dá para arriscar que nunca foram feitas tantas continuações e refilmagens quanto este ano. É a aposta no que aparentemente) é seguro: a corrida para ter uma marca que “vende” e se torne uma franquia rentável e longa.

A marca é importante porque já reduz a necessidade de convencer o público a ir ao cinema pela história em si. O personagem principal já faz esse trabalho. É por isso que volta e meia aparece um filme com Sherlock Holmes, Drácula, Tarzan (teve um este ano) ou os grandes superheróis como Super-Homem, Batman e Homem-Aranha.

Não é por acaso que, tendo acertado o tom com os heróis dos quadrinhos no cinema, estes tenham se tornado uma mina de ouro. Ao ponto de suas criadoras terem virado, por si só, uma grife. O nome “Marvel” ficou tão conhecido que já garante um cartão de visitas para heróis menos conhecidos como os Guardiões da Galáxia ou Deadpool.

Mas a busca pela franquia ideal tem levado os estúdios a desenterrarem séries que há muito já não apareciam. Este ano tivemos um reboot de Caça-Fantasmas, 27 anos depois
do segundo e – até então – último filme. E também vimos a volta de Jason Bourne, 10 anos depois de Matt Damon ter estrelado o terceiro e – até então – último filme com o
personagem (O Legado Bourne, de 2012, já era uma tentativa de levar a série adiante sem o personagem, mas – atenção – com o nome/ marca).

E este ano ainda vem Animais Fantásticos e Onde Habitam, um derivado da franquia Harry Potter, que terminou no oitavo filme e deixou a Warner orfã. Já pensam em continuações claro. E a Disney não comprou uma das marcas mais famosas do mundo para deixar na estante levando poeira: tem um novo Star Wars no fim do ano, como todo mundo sabe. E no ano que vem também.

FOTO: A Lenda de Tarzan (2016)

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Coluna Cinemascope (#3). Correio da Paraíba, 5/10/2016.

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“O Homem que Matou o Facínora” (1962)

A crítica não é uma pessoa só

por Renato Félix

Sempre gosto de contar essa história. Peter Bogdanovich, diretor do clássico A Última Sessão de Cinema (1971) lançou um livro de críticas de filme e convidou outro crítico para escrever o prefácio. Aí o convidado (não lembro o nome) lascou lá: “Peter é um ótimo crítico, a não ser por achar que O Homem que Matou o Facínora é um dos melhores filmes de todos os tempos, quando todo mundo sabe que é um dos piores”.

É mais ou menos isso. O João Batista de Brito, que me contou o causo (se me lembro bem; ele deve até ter esse livro, que, aliás, também não lembro qual é), deve contar melhor essa história.

Enfim, o que interessa é isso: não é interessante que dois críticos que se admiram divirjam tanto a respeito de um filme a ponto de um deles considerar como “um dos melhores” e outro como “um dos piores”?

Bem, na verdade, não é nada incomum. Muitas vezes se fala “a crítica” como se esta fosse uma pessoa só, ou uma entidade misteriosa em que todos os integrantes pensam do mesmo jeito. Não deveria ser necessário dizer que não, não é assim.

A arte é subjetiva e o cinema não é diferente. Muitas vezes os motivos que alguém pode considerar qualidades em um filme são exatamente os motivos que outro considera uma fraqueza.

Mesmo seu crítico de cabeceira vai divergir de você várias vezes. Não há nada de mais nisso. O papel da crítica é estimular a reflexão do leitor, mesmo que os dois não estejam de acordo. Cabe ao leitor entender os motivos daquela opinião (e ao crítico cabe se fazer entender) e formar a sua com base maior do que um “gostei/ não gostei”.

Em tempo: estou com o Bogdanovich, claro.

FOTO: O Homem que Matou o Facínora (1962)

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