Eu Daniel Blake

DIÁRIO DE FILMES 2018: 11 – EU, DANIEL BLAKE
Estrelas-04 e meia juntas-site

Em uma poderosa denúncia sobre um sistema que esmaga pessoas, Ken Loach mostra a crueldade da lógica da desumanização dos serviços em uma sociedade tida por muitos como um paraíso desejado. Daniel Blake é jogado em um labirinto burocrático kafkiano, onde sua médica o proíbe de voltar ao trabalho após um ataque cardíaco, mas a empresa que avalia o seguro-saúde para o governo britânico nega a ele o benefício. Ainda assim, ele encontra tempo e disposição para ajudar uma mãe e os filhos dela que parecem em situação ainda pior. Sóbrio, mas muito contudente.

Eu, Daniel Blake. I, Daniel Blake. Reino Unido/ França/ Bélgica, 2016. Direção: Ken Loach. Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Brianma Shann, Sharon Percy. Na Netflix.

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The Post

DIÁRIO DE FILMES 2018: 10 – THE POST – A GUERRA SECRETA
Sem borda - 04 estrelas

Spielberg já declarou que este é “um filme de urgência” para ele. Aproveitou a história sobre liberdade de imprensa e mentiras governamentais sobre a Guerra do Vietnã para falar de hoje. Para tanto, aproveitou também a relação direta com Todos os Homens do Presidente (1976) para se inspirar no filme de Pakula, funcionando como um prelúdio, a ponto do final emendar com o começo do outro, que era sobre o Watergate. Resulta num clássico “drama de redação”,  com algumas observações das relações pouco institucionais da imprensa com o poder e da afirmação da mulher no mercado de trabalho. O começo é meio embaralhado para quem não conhece todos aqueles nomes e Tom Hanks está mais careteiro que o normal, mas o filme cresce bem na metade final.

The Post – A Guerra Secreta. The Post. Reino Unido/ EUA, 2017. Direção: Steven Spielberg. Elenco: Maryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk. No cinema.

A seguir, os meus melhores filmes que passaram comercialmente nos cinemas pessoenses em 2017. O Cine Banguê ajudou mais uma vez a melhorar nosso ano cinematográfico, em termos de qualidade e também de número.

Tivemos 241 estreias. O número caiu em relação a 2016 (258), é verdade. Mas ainda é muito superior aos anos anteriores, sem o Banguê: 163, em 2015; 164, em 2014.

A participação de filmes nacionais entre as estreias por aqui chegou a 27,8%. É um índice muito acima dos números nacionais, nos quais o índice não chegou aos dois dígitos.

Confira agora a minha lista (e fique à vontade para dividir a sua):

La La Land - Cantando Estações - 09

1 – LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle

Fred Astaire dizia que um número musical devia ser filmado com um mínimo de cortes possível – para valorizar o trabalho da dança. Desde a aurora do videoclipe, poucos musicais arriscaram seguir esse mandamento: a maioria edita seus números com dezenas de planos. La La Land é o que corajosamente mais se aproxima do estilo e espírito dos musicais clássicos, deixando de lado essa facilidade que é construir a dança na edição. Considerando inclusive que seus atores (Emma Stone e Ryan Gosling, com muito carisma) não são gênios do canto e dança como eram Astaire (ou Gene Kelly, ou Judy Garland) e nem tiveram uma vida dedicada a se apromimorar nessas capacidades, como eles tiveram. O cinema de hoje é outro, pouco disposto a sustentar uma companhia criativa daquele naipe dentro de um estúdio. Ainda assim, Emma e Gosling dançam longas sequências sem cortes e sem fazer feio. La La Land é corajoso também ao arriscar em músicas originais (não sucessos já consagrados na Broadway ou na música popular, que já entram com a identificação e simpatia do público). Com isso, imprime uma sucessão de momentos notáveis (como a primeira parte de “Someone in the crowd”, em um plano-sequência coreografado com precisão por diversos cômodos da casa, cada qual em uma cor diferente, assim como o vestidos das atrizes). Essa atmosfera de sonho emoldura uma trama que é sobre perseguir sonhos da Cidade dos Sonhos, mas faltando combinar com a realidade. O número final é simplesmente brilhante em como é executado e como funciona como narrativa (e narrativa subjetiva em particular).

Paterson - 13

2 – PATERSON, de Jim Jarmusch

Um motorista de ônibus que escreve poesia é o personagem-título de Paterson. Seus dias são uma gigante rotina: de casa para o trabalho, o trajeto do ônibus, lidar com as constantes invenções para a casa de sua mulher com alma de artista plástica, sair com o cachorro à noite, dar uma paradinha no bar. O olhar diferente para o cotidiano, para as pessoas que conhece, para o que observa dentro e fora de seu ônibus é que fazem a poesia no seu dia e no filme. O papo sobre poesia com uma garotinha é um desses momentos de encanto perdidos no dia. E ainda há a piscadela para quem adora Moonrise Kingdom.

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3 – MANCHESTER À BEIRA-MAR, de Kenneth Lonergan

O personagem de Casey Affleck vive aprisionado por uma dor do passado que o fez se afastar de tudo. Mas ele terá que encarar esse passado ao voltar para sua cidade para cuidar do sobrinho após a morte do irmão. Sentimentos sufocados e um belo jogo de dar e reter informações, o que ajuda o filme a nunca se deixar levar pelo melodrama. Um delicado equilíbrio de emoções.

Cidadao Ilustre - 04

4 – O CIDADÃO ILUSTRE, de Kenneth Lonergan

Escritor vencedor do Nobel há muitos anos vive fora da Argentina, sem nunca ter colocado os pés de volta à sua pequena cidade (apesar de ser ela a fonte de inspiração e cenário de todos os seus livros). Mas resolve aceitar o convite para receber uma homenagem. Esse reencontro irá bem além da nostalgia de rever amigos e da vaidade em ser celebrado pelos seus. Passa por celebrações vazias da fama e de como elas são frágeis.

LOGAN

5 – LOGAN, de James Mangold

Um futuro desesperançado é o cenário para esse conto de Wolverine que sobe o tom em comparação às demais aparições do personagem no cinema. Em queda e afastado, que precisa voltar à violência para defender inocentes. Um herói a contragosto. O paralelo com Os Brutos Também Amam é explícito e belo.

Eu Nao Sou Seu Negro - 01

6 – EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck

As ideias de James Baldwin, preparadas para um livro que ele nunca conseguiu terminar, ganham vida em forma de filme neste documentário. Ele mostra sua visão e conceitos do racismo nos EUA e do movimentos dos direitos civis, com os assassinatos dos líderes Medgar Evers, Luther King e Malcolm X, combinando a leitura dos manuscritos por Samuel L. Jackson e as cenas de arquivo.

Blade Runner 2049 - 12

7 – BLADE RUNNER 2049, de Denis Villeneuve

Um filme influenciado não só pelo original (o visual – mais uma fotografia extraordinária de Roger Deakins –, a música evocando a trilha de Vangelis, o esforço em imaginar aquele universo 30 anos depois, mas sem perder a personalidade), mas também pela aura que o cerca. E uma vontade imensa de ser “grande”, de estar à altura desse mito, quando o filme de 1982 tinha temas estimulantes sobre o que é ser humano, mas estes estavam sob uma trama policial até simples. 

Dunkirk - 01

8 – DUNKIRK, de Christopher Nolan

Três histórias, cada uma com uma duração diferente, entrelaçadas como se durassem o mesmo tempo. Tecendo um painel sobre uma batalha perdida, sobre jovens assustados que não podem ser heróis num conflito no qual são atirados, sobre pessoas comuns que se tornam heróis e sobre profissionais da aventura da guerra. Assim, cada parte evocando um segmento marcante dos filmes sobre a II Guerra através das décadas.

BR 716 - 01

9 – BR 716, de Domingos Oliveira

Talvez Domingos Oliveira tenha feito seu melhor filme desde Separações (2002). Num apartamento da icônica avenida Barata Ribeiro, nos anos 1960, um jovem vai se despedindo do lugar em meio a farras, uma bela mulher e a ameaça lá fora de algo terrível que se avizinha – a ditadura. Diálogos espirituosos em meio a uma triste nostalgia da boemia e Caio Blat interpretando Domingos.

Eu Daniel Blake

10 – EU, DANIEL BLAKE, de Ken Loach

Daniel Blake vive um pesadelo kafkiano, perdido na burocracia desumana do seguro social britânico: após um ataque cardíaco, sua médica o proíbe de trabalhar, mas o governo (ou, melhor, a empresa que o governo está pagando) nega o seguro. Mesmo com seus próprios problemas, ele se dedica a ajudar uma mãe e seus dois filhos, que parecem estar em situação ainda pior. Uma denúncia-porrada contra um sistema desumano, em um país que tanta gente considera um paraíso, com a sobriedade narrativa costumeira de Ken Loach.

+ 10 filmes: Roda Gigante, de Woody Allen; Corra!, de Jordan Peele; Star Wars – Os Últimos Jedi, de Rian Johnson; O Apartamento, de Asghar Farhadi; Moonlight – Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins; Atômica, de David Leitch; Bingo, o Rei das Manhãs, de Daniel Rezende; Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi; Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins; Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky.

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Viva - 02

Miguel e a bisavó Lupita: indo além do esperado

VIVA – A VIDA É UMA FESTA
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Saudade é vida

. por Renato Félix

Se existe vida além da morte, o que seria “a morte da morte”? Viva – A Vida É uma Festa (2017) dá sua visão: é o esquecimento. Nossos mortos continuam vivos em nossas memórias. Se nos esquecemos deles, eles deixam de existir. Com essa base, o estúdio de animação – que tem alternado seus melhores momentos com continuações meio no piloto automático – volta à sua melhor forma.

E essa melhor forma vem principalmente da combinação de roteiro e animação para esculpir personagens que conseguem transmitir grandes e complexas emoções, por mais que o filme não perca de vista o público infantil e o alto astral. Então, mais uma vez, humor, música e cores (mesmo no mundo dos mortos) são colocados como a base em que, quando menos se percebe, é construído algo que vai além.

O tema –  a morte –  é delicado e complexo, tanto que o marketing tentou desviar do assunto o melhor que pôde. O título brasileiro, então, exagera desnecessariamente na alegria. A vida não é uma festa para Miguel, o protagonista. O garoto quer ser músico, mas a família é contra: quer que ele siga a tradição sem graça dos parentes e seja um sapateiro.

O que ajuda o filme é que evidentemente a trama se passa no México, onde o Dia de Finados é encarado de uma maneira muito particular. Segundo a tradição, é o dia em que os mortos têm a permissão de visitar os parentes e amigos vivos. Enquanto a família tem um altar com fotos dos parentes que já se foram, Miguel tem o seu particular para Ernesto de la Cruz, um antigo ídolo da música.

Uma situação limite o leva, vivo, ao mundo dos mortos. E para voltar antes do fim do dia, o garoto vai ter que repensar valores familiares, sua vocação e descobrir segredos do passado. Conhece os antepassados, mas sua volta está ligada ao seu futuro e o levará ao encontro do ídolo em quem se espelha. Na jornada, terá a ajuda de Hector, uma caveira que parece ser apenas um alivio cômico, mas é o personagem em que Viva vai se apoiar para chegar mais longe.

O visual do mundo dos mortos é impressionante, começando pela ponte de pétalas que o liga ao mundo dos vivos e as plataformas inspiradas nas pirâmides astecas. Ter que conseguir o “visto de imigração” para passar “para o nosso lado” é uma situação que não pode estar ali por acaso.

E a animação aproveita para muitas brincadeiras visuais, lembrando tanto clássicos da Warner Bros. quanto o curta A Dança dos Esqueletos (1929), uma das primeiras Silly Symphonies da Disney.

A aventura misturada com comédia familiar começa a abraçar outras emoções quando entra em cena a possibilidade do esquecimento desses personagens mortos, mas com tanta vida, por parte de quem ficou por aqui (através da saudade). Coco, o título original (de que a Disney Brasil teve tanto medo de um trocadilho infame), se refere a personagem da bisavó, já sofrendo do mal de Alzheimer. É uma pena que o título brasileiro tenha desperdiçado essa relação com a personagem.

Linhas se cruzam e surgem algumas soluções que são mais fáceis e certos segredos que podem ser previstos a uma boa distância pelo espectador. Mas nada disso chega a ser um problema. As qualidades do filme de Lee Unkrich (é se segundo longa como diretor; o primeiro foi Toy Story 3) compensam, como centrar em dois personagens até então coadjuvantes (Hector e Coco, que aqui no Brasl foi rebatizada como Lupita) para construir uma cena de dimensão tão grande, que já está no rol daquelas da Pixar que arrancam lágrimas do espectador.

Viva! – A Vida É uma Festa. Coco. EUA, 2017. Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina. Vozes na dublagem original: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Alfonso Arau. Vozes na dublagem brasileira: Arthur Salerno, Leandro Luna, Nando Prado, Adriana Quadros.

* Crítica estendida da original publicada no Correio da Paraíba, em 13 de janeiro de 2018.

Touro Ferdinando

DIÁRIO DE FILMES 2018: 9 – O TOURO FERDINANDO
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A história é bem conhecida, seja pelo livro de Munro Leaf (ilustrado por Robert Lawson), de 1936, ou pelo curta animado da Disney, vencedor do Oscar, de 1938. O desafio da Blue Sky e do diretor Carlos Saldanha foi ampliar a trama. Esse trabalho é bem feito, adicionando uma fuga, uma vida paralela, mas o retorno ao andamento básico da trama: picado por uma abelha, o gentil Ferdinando sai doido e é confundido com um touro bravo, indo parar numa arena. O clímax contra o toureiro é muito bom. Uma coisa que atrapalha é o excesso de personagens: não basta ter um ouriço malandro, são três; não basta ter um cavalo arrogante, são três!

O Touro Ferdinando. Ferdinand. EUA, 2017. Direção: Carlos Saldanha. Vozes na dublagem original: John Cena, Kate McKinnon, Lily Day, David Tennant, Gina Rodriguez, Jeremy Sisto. Vozes na dublagem brasileira: Thalita Carauta, Maísa Silva, Otaviano Costa. No cinema.

Bee Movie

DIÁRIO DE FILMES 2018: 8 – BEE MOVIE – A HISTÓRIA DE UMA ABELHA
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Arthur voltou a assistir Bee Movie e eu com ele. É meio consenso que essa animação podia ter rendido mais, mas acho, no geral, bastante boa, com boas ideias e alguns momentos acima da média. Como virar um filme de tribunal em certo momento, com destaque para o depoimento de Sting. Ou o mosquito advogado: “Eu já era um grande sanguessuga, mesmo”. Uma coisa interessante é que, sendo um projeto concebido e estrelado por Jerry Seinfeld, a persona do comediante é figura forte para quem vai assistir ao filme e gosta da série: a dublagem em português não consegue corresponder a isso. Não por deficiência no trabalho do grande Guilherme Briggs, claro, mas porque são vozes bem diferentes e o efeito se perde. Provavelmente, uma perda inevitável, assim como muitos trocadilhos intraduzíveis do original (já começa no título: Bee Movie lembra “B movie” ou “filme B”).

Bee Movie – A História de uma Abelha. Bee Movie. Estados Unidos, 2007. Direção: Simon J. Smith, Steve Hickner. Vozes da dublagem original: Jerry Seinfeld, Renée Zellweger, Matthew Broderick, Patrick Warburton, John Goodman, Chris Rock, Kathy Bates, Barry Levinson, Larry King, Ray Liotta, Sting, Oprah Winfrey, Megan Mullaly, Rip Torn, Michael Richards. Vozes na dublagem brasileira: Guilherme Briggs, Fernanda Baronne, Alexandre Moreno. Em DVD.

Capitalismo - Uma Historia de Amor - 02

DIÁRIO DE FILMES 2018: 7 – CAPITALISMO – UMA HISTÓRIA DE AMOR
Estrelas-03 e meia juntas-site

Michael Moore investiga o que esteve por trás da crise americana provocada pela bolha habitacional e as tramoias dos bancos atrás de cada vez mais lucros – uma história de terror que depois gerou o filme A Grande Aposta (2015). Sempre combinando opiniões fortes e provocações com doses de bom humor, Moore escancara as engrenagens de um sistema que privilegiou as corporações em um momento crítico do país a um alto custo social. Para mostrar que o problema não é de hoje, o cineasta volta, em alguns momentos, a seu primeiro filme, Roger & Eu (1989).

Capitalismo – Uma História de Amor. Capitalism – A Love Story. Estados Unidos, 2009. Direção: Michael Moore. No Netflix.

Com Amor Van Gogh 2

DIÁRIO DE FILMES 2018: 6 – COM AMOR, VAN GOGH
Sem borda - 04 estrelas

Todo animado a partir de pinturas a óleo, o filme da polonesa Dorota Kobiela e do britânico Hugh Welchman é um evento visual. A narrativa bebe na fonte de Cidadão Kane para recontar os últimos dias do pintor holandês. Mais detalhes na minha crítica.

Com Amor, Van Gogh. Loving Vincent. Reino Unido/ Polônia, 2017. Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman. Vozes na dublagem original: Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan. No cinema.

Viva

DIÁRIO DE FILMES 2018: 5 – VIVA – A VIDA É UMA FESTA
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A Pixar hoje parece dividida em dois modelos de produção: as continuações feitas meio no piloto automático para lucrar com os personagens já conhecidos; e a pérolas genuínas do estúdio, feitas com risco e aprofundamento. Viva está no segundo tipo, que já nos deu obras-primas como Procurando Nemo (2003), Ratatouille (2007), Wall-E (2008) e Divertida Mente (2015). A trama sobre um garoto mexicano que quer ser músico contra a posição da família e vai parar no mundo dos mortos, com muita cor e humor, vai se desenrolando sobre temas mais complexos, como saudade e o que seria “a morte dos mortos”: o esquecimento. Visualmente, é bem elaborado, e há momentos especialmente tocantes.

Viva! – A Vida É uma Festa – Coco. EUA, 2017. Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina. Vozes na dublagem original: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Alfonso Arau. Vozes na dublagem brasileira: Arthur Salerno, Leandro Luna, Nando Prado, Adriana Quadros. No cinema.

Com Amor Van Gogh

Metalinguagem do filme evoca estilo de Van Gogh

COM AMOR, VAN GOGH
Sem borda - 04 estrelas

Um mundo pintado a óleo

por Renato Félix

É difícil não se impressionar. Uma equipe de 100 artistas, comandados pelos diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, pintou centenas e centenas de quadros a óleo que foram animados para gerar Com Amor, Van Gogh (2017), filme em que o jovem filho de um carteiro é encarregado de entregar uma carta do pintor holandês, um ano após a morte dele. Viajando à procura da família de Van Gogh, vai conhecendo pessoas que o conheceram e foram retratadas por ele.

Começa aí um processo narrativo semelhante ao de Cidadão Kane (1941). O jovem Armand ouve de cada um versões sobre a vida de Van Gogh, passando pela infância e pelo episódio dramático do corte da própria orelha. Mas os relatos são especialmente sobre seus últimos dias, que desembocaram no tiro que deu contra si mesmo, resultando na morte do pintor dois dias depois.

Armand questiona a versão do suicídio – ele terá mesmo se matado ou terá sido assassinado? – e procura entender o intenso artista e seus tormentos. A narrativa segue o modelo de Cidadão Kane de perto, com cada depoimento puxando uma cena do passado (mostradas em preto-e-branco). Através delas, quadros de Van Gogh são recriados quando surgem os personagens com quem ele conviveu e pintou.

Não é uma narrativa que busca inovação e talvez até seja didática demais. Mas o projeto todo é comovente pelo carinho pelo seu personagem, que transborda de cada cena. Muito, claro, pelo esforço em narrar tudo seguindo o estilo visual de Van Gogh. Uma metalinguagem e tanto.

A técnica fica mais evidente nos momentos coloridos e, curiosamente, as cenas  com “movimento de câmera” dão uma curiosa sensação de que é o cenário que está se movimentando, não os personagens. As cenas em preto-e-branco “escondem” mais as pinceladas. Mas a graça, claro, não é escondê-las, mas que a técnica esteja bem evidente. Um retrato visual fiel da realidade, afinal, não era pretendido por Van Gogh e, também não o é pelo filme.

Com Amor, Van Gogh. Loving Vincent. Reino Unido/ Polônia, 2017. Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman. Vozes na dublagem original: Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Saoirse Ronan. No cinema.

Star Wars - Os Ultimos Jedi - 32

Daisy Ridley e Mark Hamill: ela é a protagonista

STAR WARS – OS ÚLTIMOS JEDI
Sem borda - 04 estrelas

Passagem de bastão

por Renato Félix

Na sua origem, a saga Star Wars é uma colcha de retalhos de referências. Aos antigos seriados de cinema de Flash Gordon dos anos 1930,  a filmes japoneses de samurai, a faroestes e filmes de capa-e-espada da Hollywood clássica. A trilogia original é bem isso e, agora, ela própria é uma fonte de referências. E, assim, na nova trilogia, do qual Star Wars – Os Últimos Jedi (2017) é o novo capítulo,  a série faz referência principalmente a si mesma.

Assim, qualquer razoável iniciado em Star Wars vai encontrar ecos de episódios passados por todo o novo filme (como já acontecia em O Despertar da Força, 2015, o filme anterior). Desde o começo em alta voltagem com uma batalha espacial, visto antes em Ataque dos Clones (2002), ao muitos elementos e situações que citam diretamente O Retorno de Jedi (1983). Ou na busca por um mestre distante e há muito isolado, vista em O Império Contra-Ataca (1980).

O segundo filme desta nova trilogia também reafirma que os grandes personagens clássicos não são os protagonistas: são, na verdade, um forte apoio para os novos rostos. Sim, Luke Skywalker (Mark Hamill) está de volta e tem alguns grandes momentos reservados a ele, mas seu principal papel é encaminhar Rey (Daisy Ridley) nas artes jedi. O filme, e isso é ainda mais claro que em O Despertar da Força, é uma passagem de bastão.

Uma parte considerável do filme se detém nos esforços de Rey para convencer Luke a sair da toca e ajudar a Resistência, em vias de ser erradicada. Enquanto Luke tem sua crise com o passado e suas crenças, ela tem diálogos à distância com seu grande inimigo, Kylo Ren (Adam Driver), um recurso dramático muito bem conduzido.

A trama se separa em dois outros núcleos dramáticos: em um, a General Leia (Carrie Fisher) precisa conduzir a fuga da Resistência, acossada pelas forças da Primeira Ordem, e domar a impetuosidade de seu melhor piloto, Poe (Oscar Isaac, que ganha mais espaço); no outro, Finn (John Boyega) e uma nova personagem, Rose (Kelly Marie Tran), vão a um planeta-cassino à procura de um decodificador para ajudar a despistar a Primeira Ordem.

Nesse segmento, aparecem umas pequenas tintas políticas. Rose aponta o dedo para aquela elite, afirmando que “ninguém ganha tanto dinheiro assim se não for com a guerra”.  Comentários sociais que vão reverberar nos belos momentos finais do filme.

A sequência também serve ao (lento) desenvolvimento do personagem de Boyega e introduz o de Benicio del Toro, um malandro pouco confiável, mas com uma visão de mundo bem-vinda a Star Wars.

A saga sempre se banhou na maniqueísmo, contrapondo um lado claramente bom e outro claramente mau. Ao conduzir a história, George Lucas procurou borrar essas fronteiras em O Retorno de Jedi (1983) ao tratar da redenção de Darth Vader e, desajeitadamente, na trilogia-prelúdio, ao narrar a queda de Anakin Skywalker.

Mas derrapou feio quando sua sanha revisionista mudou, em 1997, a cena em que Han Solo atira a sangue-frio e à traição no caçador de recompensas Greedo, em Guerra nas Estrelas (1977). Lucas não resistiu à tentação de “desborrar” a fronteira, primeiro fazendo Solo “atirar depois” e, depois, “atirar ao mesmo tempo”.

DJ, o personagem de Del Toro, em certo momento rouba a nave de um comerciante de armas, de quem tanto os vilões da Primeira Ordem quanto os mocinhos da Resistência usaram os serviços. Um tímido, mas eloquente, tom de cinza em uma saga que prima pelo preto no branco.

O filme tem momentos de visual arrebatador (principalmente a luta na sala vermelha e o combate no planeta coberto de sal) e humor (em situações inesperadas, inclusive). Também contraria um artifício narrativo tradicional na série, que é ignorar o fato de que o som não se propaga no espaço para gerar mais emoção nos combates espaciais. Desta vez, em uma cena chave (envolvendo a sempre ótima Laura Dern), o diretor Rian Johnson optou por retirar o som e gerar a emoção pela ausência dele.

Parênteses: O fato de que cinemas tiveram que colocar avisos para que a plateia soubesse que isso é de propósito faz pensar a que ponto de emburrecimento chegou uma parcela do público dos cinemas. Fecha parênteses.

E, algo que faz diferença tanto em como o filme foi feito quanto como ele é assistido, Os Últimos Jedi marca a despedida de Carrie Fisher.

A atriz morreu em dezembro de 2016, cerca de um ano antes da estreia do filme. Mas já tinha filmado todas as suas cenas para Os Últimos Jedi. O filme, então, e a plateia minimamente informada são conscientes o tempo todo dessa despedida. Não dá para não ter atenção sobre como Leia é tratada e como o filme resolveu ou não seu desfecho na trama.

Há outras coisas, mas isso, sem dúvida, tornou a experiência de Os Últimos Jedi diferente.

Star Wars – Os Últimos Jedi. Star Wars – The Last Jedi. EUA, 2017. Direção: Rian Johnson. Elenco: Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Carrie Fisher, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Benicio del Toro, Laura Dern. Voz: Frank Oz. Em captura de movimento: Lupita Nyong’o, Andy Serkis.

* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba, em 20/12/2017

Roda Gigante 2

Justin Timberlake, Kate Winslet e Juno Temple: tragédia pairando no ar

ROGA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

A roda viva traçada por Woody Allen

por Renato Félix

Em determinado momento de Roda Gigante, o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que quer ser escritor, dá a Carolina (Juno Temple), a jovem que está se escondendo do marido gangster, um livro que analisa o teatro de Eugene O’Neill. É a senha da inspiração de Woody Allen para sua nova crônica das tragédias humanas: o ótimo Roda Gigante (2017).

O’Neill faz parte de um time de dramaturgos americanos que exploraram as entranhas das famílias americanas e suas relações. Sua peça mais conhecida é Longa Jornada Noite Adentro, um texto de 1941, que o dramaturgo manteve lacrada em um cofre com instruções para ser montada apenas após sua morte (provavelmente por retratar as disfunções de sua própria família em 1912). Ele morreu em 1953 , a primeira montagem é de 1956 e rendeu um Pulitzer póstumo a O’Neill.

O filme de Woody Allen se passa nos anos 1950, década da morte de O’Neill e da montagem póstuma. As tragédias criadas por nós mesmos, que se tornam prisões das quais alguns não conseguimos escapar, são os temas deste novo filme. Mas nem Mickey e nem Carolina são os grandes protagonistas de Roda Gigante. Este papel cabe a Ginny, mais um grande personagem feminino de Woody Allen e mais uma grande interpretação feminina em um de seus filmes: Kate Winslet.

Ginny é uma garçonete que vive em Coney Island e cujo marido que ela não ama, Humpty (Jim Belushi), trabalha no carrossel do histórico parque de diversões do lugar – ambiente que ela odeia e que a deixa com constantes dores de cabeça. O casal vive ainda com Richie (Jack Gore), filho do primeiro casamento de Ginny, e que tem um estranho impulso incendiário.

É uma vida quase miserável para Ginny, mas duas coisas acontecem: ela começa um caso com Mickey que devolve a ela o prazer de viver; e Carolina, filha de Humpty, reaparece, pedindo abrigo para se esconder, depois de ter delatado o marido. Quando Carolina também se interessa por Mickey e ele por ela, Ginny vê sua tábua de salvação para fora daquela vida afundar passo a passo.

A tragédia está pairando no ar. E a irresistível vontade de Richie de colocar fogo nas coisas pode ser uma metáfora de que uma hora essas pequenas fogueiras podem sair do controle.

É visualmente um dos filmes mais bonitos de Woody Allen – fotografia formidável de Vittorio Storaro, que usa de maneira impressionante o visual de parque de diversões como fundo melancólico para dramas humanos, assim como a luz dos neons, da noite, do entardecer.

A fotografia é beneficiada pela opção de Allen de usar menos os planos sequência de que tanto gosta: os longos diálogos sem cortes, muitas vezes com um dos personagens falando fora do enquadramento. Os diálogos aparecem em plano e contraplano mais que o usual para um filme de Allen dos anos 1980 para cá. Isso deixa Storaro livre para compor a luz das imagens de maneira a irem mudando durante o plano. O rosto de Winslet às vezes está sob a luz amarela de um farol, para depois ser banhada pelo azul da noite.

Mas os planos-sequência estão lá, surgindo em momentos-chave. Em um monólogo de Winslet confrontando acusações de seu amante. Num emocionalmente caótico, mas visualmente bem coreografado ajuste de contas da família. Na tocante imagem final, em que velhos diálogos são repetidos como se fossem o cotidiano, mas o desespero é transmitido pelo olhar.

O sabor do teatro é constante no filme. É fácil imaginar tudo aquilo acontecendo em um palco. Mickey, que narra o filme, até começa a contar a história por uma rubrica de texto tetral: “Entra Carolina”. Allen sai poucas vezes do registro mais direto para um mais figurativo (quando os efeitos dos analgésicos em Ginny são mostrados pela ausência do som dos brinquedos do parque de diversões, que a atormentam).

O aspecto teatral certamente beneficia Kate Winslet e sua grande composição de uma mulher rumo ao desequilíbrio – há um pouco de Blue Jasmine (e, portanto, da Blanche DuBois de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams) em Ginny. Não só ela, mas também Caroline, passam o filme tentando lidar com o resultado de suas escolhas e de como elas as encarceraram numa vida da qual as duas mulheres tentam escapar por alguma brecha.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple.

Ultimo Desafio - 01

DIÁRIO DE FILMES 2018: 4 – O ÚLTIMO DESAFIO
Sem borda - 2,5 estrelas

Me lembro quando Rodrigo Santoro falou sobre este filme, que quis fazer porque era um sonho de fã fazer um filme com Schwarzenegger. Todo o filme, na verdade, emite essa aura de fã pelo velho Schwarza, dando a ele algumas frases legais (“Você ferrou o meu carro!”, diz o bandido; “Você ferrou o meu dia de folga”, ele responde) e o situando numa atmosfera de faroeste: um xerife que, com seus poucos ajudantes, tenta impedir a fuga de um bandido. Não dá pra não pensar em John Wayne em Onde Começa o Inferno (1959).

O Último Desafio. The Last Stand. EUA, 2013. Direção: Jae-woo Kim. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Forest Whitaker, Jaimie Alexander, Rodrigo Santoro, Peter Stormare, Johnny Knoxville, Luis Guzman, Eduardo Noriega, Harry Dean Stanton. Na TV, 7/1

Missao Madrinha de Casamento - 03

DIÁRIO DE FILMES 2018: 3 – MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO
Sem borda - 2,5 estrelas

Foi boa a revisão de Missão Madrinha de Casamento, o filme subiu um pouco no meu conceito. A parte referente à trama do casamento, mesmo, aquela rivalidade entre Kristen Wiig (a velha melhor amiga de vida bagunçada) com Rose Byrne (a nova melhor amiga perfeitinha) continua me parecendo bem bobo, rotineiro e sem graça. Mas quando o filme foca só em Kristen melhora muito. Um destaque é a cena em que a personagem, confeiteira que desistiu da profissão e está bem pra baixo em casa, é mostrada preparando a massa, colocando pra cozinhar e decorando um único cupcake pra ela mesma.

Missão Madrinha de Casamento. Bridesmaids. EUA, 2011. Direção: Paul Feig. Elenco: Kristen Wiig, Rose Byrne, Maya Rudolph, Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Ellie Kemper, Wendi McLendon Covey, Jill Clayburgh. Na TV, 6/1

Hollywood Foreign Press Association
 

O DISCURSO DE OPRAH WINFREY NO GLOBO DE OURO 

“Em 1964, eu era uma menininha sentada no chão da casa da minha mãe, em Milwaukee, assistindo a Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram História: ‘O vencedor é Sidney Poitier’.

Subindo ao palco, surgiu o homem mais elegante que eu já tinha visto. Eu me lembro que sua gravata era branca e, claro, sua pele era negra. E eu nunca tinha visto um negro sendo celebrado daquele jeito.

Eu tentei muitas, muitas, muitas vezes explicar o que um momento daquele significa para uma garotinha, uma criança assistindo de um sofá barato, enquanto minha mãe atravessava a porta, os ossos cansados de limpar a casa de outras pessoas. Mas tudo o que posso fazer é citar a performance de Sidney em Uma Voz nas Sombras:

‘Amém, amém, amém, amém’.

Em 1982, Sidney recebeu o Prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro e não me escapa que, neste momento, há algumas garotinhas assistindo enquanto me torno a primeira mulher negra a receber o mesmo prêmio. É uma honra – é uma honra e um privilégio dividir a noite com todas elas e também com os homens e mulheres incríveis que me inspiraram, que me desafiaram, que me deram apoio e fizeram minha jornada a este palco possível.

Dennis Swanson, que me deu uma oportunidade em A.M. Chicago. Quincy Jones, que me viu naquele programa e disse a Steven Spielberg: “Sim, ela é a Sophia de A Cor Púrpura“. Gayle, que tem sido a definição de o que um amigo é, e Stedman, que tem sido minha rocha – só para dizer os nomes de alguns.

Eu quero agradecer à Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood porque todos sabemos que a imprensa está sitiada estes dias. Também sabemos da insaciável dedicação para revelar a verdade absoluta que nos impede de fechar os olhos à corrupção e à injustiça. Para – para tiranos e vítimas, e segredos e mentiras.

Quero dizer que valorizo a imprensa mais do que nunca enquanto estamos navegando nestes tempos complicados. O que me leva a isto: o que sei com certeza é que falar a sua verdade é o instrumento mais poderoso que nós todos temos. E sou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e dividir suas histórias pessoais.

Cada um de nós nesta sala está celebrando as histórias que contamos. E este ano nós somos a história. Mas não apenas uma história afetando a indústria do entretenimento. É uma que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.

Então eu quero, esta noite, expressar gratidão a todas as mulheres que sofreram anos de abuso e ataques porque elas, como minha mãe, tinham filhos para alimentar e contas a pagar e sonhos a perseguir. Elas são as mulheres cujos nomes nunca saberemos.

São empregadas domésticas e trabalhadoras em fazendas. São trabalhadoras em fábricas e trabalham em restaurantes e estão na Academia, engenharia, medicina e ciência. Elas são parte do mundo da tecnologia e política e negócios. Elas são nossas atletas nas Olimpíadas e são nossos soldados.

E há alguém, Recy Taylor, um nome que eu conheço e acho que vocês deviam conhecer também. Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe andando para casa depois da missa que ela frequentava em Abbeville, Alabama, quando foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada com os olhos vendados na beira da estrada. Vindo para casa, da igreja.

Eles ameaçaram matá-la se ela contasse a qualquer um, mas sua história chegou à Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor, onde uma jovem funcionária chamada Rosa Parks se tornou a investigadora principal do caso e juntas elas buscaram justiça.

Mas justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que tentaram destrui-la nunca foram processados. Recy Taylor morreu há dez dias, perto de completar 98 anos. Ela viveu, como todos nós vivemos, muitos anos em uma cultura danificada por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, mulheres não eram ouvidas ou levadas a sério se ousassem falar a verdade sobre o poder desses homens. Mas o tempo deles acabou.

O tempo deles acabou!

O tempo deles acabou. E eu só espero – só espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que a verdade dela, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos, e mesmo agora, está em marcha. Estava em algum lugar do coração de Rosa Parks quase 11 anos depois quando ela tomou a decisão de permanecer sentada naquele ônibus em Montgomery e está aqui em cada mulher que escolheu dizer “eu também”. E cada homem – cada homem que escolhe escutar.

Na minha carreira, o que eu sempre tentei fazer melhor, seja na televisão ou nos filmes, é dizer algo sobre como homens e mulheres realmente se comportam. Dizer como sentimos vergonha, como amamos e como temos raiva, como falhamos, como recuamos, perserveramos e como vencemos. Eu entrevistei e mostrei pessoas que têm resistido a algumas das coisas mais horríveis que a vida pode atirar em você, mas a única qualidade de que todas elas pareciam compartilhar é uma habilidade para manter a esperança por uma manhã mais brilhante, mesmo durante nossas noites mais escuras.

Então, eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte! E quando este novo dia finalmente amanhecer, será por causa de um monte de mulheres magníficas, muitas das quais estão bem aqui nesta sala esta noite, e alguns homens muito fenomenais, lutando duro para ter a certeza de que eles serão os líderes que nos levarão ao tempo em que ninguém mais terá que dizer ‘eu também’ de novo. Obrigada”.

Murder on the Orient Express (2017) Kenneth Branagh

DIÁRIO DE FILMES 2018: 2 – ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE
Estrelas-03 e meia juntas-site

Das dezenas de romances de mistério que Agatha Christie escreveu, Assassinato no Expresso do Oriente é um dos mais populares, e com seu personagem mais popular, Hercule Poirot, detetive que rivaliza com Sherlock Holmes, se não no tamanho da fama além da literatura, certamente em capacidade dedutiva e excentricidades. Mas Kenneth Branagh estava disposto a não retratar este apenas como apenas mais um caso para Poirot. Ao contrário da (ótima) versão de 1974 de Sidney Lumet, o detetive é abalado em suas certezas pela trama que vai descobrindo a partir do assassinato de um sujeito condenável a bordo do Expresso do Oriente, que acaba preso no meio de seu trajeto por uma avalanche. Não por acaso, começa como em um filme de James Bond, com Poirot desvendando um caso em jerusalém que não tem nada a ver com a história central, a não ser por mostrar a absoluta confiança que o detetive tem em si mesmo.

Assassinato no Expresso do Oriente. Murder on the Orient Express. EUA/ Malta, 2017. Direção: Kenneth Branagh. Elenco: Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Daisy Ridley, Penépole Cruz, Willem Dafoe, Johnny Depp, Derek Jacobi. No cinema, 3/1

Roda Gigante

DIÁRIO DE FILMES 2018: 1 – RODA GIGANTE
Sem borda - 04 estrelas

Woody Allen situa seu filme nos anos 1950, em uma decadente, mas ainda barulhenta Coney Island, com seus parques de diversões, neons e praias. Aí, trama um entrelaçado de tragédias humanas centrado principalmente na infeliz Ginny (Kate Winslet). Seu caso com o salva-vidas vivido por Justin Timberlake e a vaga esperança de escapar de sua vida miserável junto ao marido bruto que ela não ama e o parque de diversões que ela odeia passam a ser ameaçada pela aparição da filha do marido, fugindo do marido gangster e que também se interessa pelo salva-vidas. A luz incrível de Vittorio Storaro faz deste um dos filmes visualmente mais bonitos de Allen. O diretor reduz os planos-sequência, usando mais os planos e contraplanos, deixando os planos mais longos para monólogos de Winslet e uma grande de desestabilização da família. A inspiração teatral está sempre presente, assim como o ar de tragédia.

Roda Gigante. Wonder Wheel. EUA, 2017. Direção: Woody Allen. Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple. No cinema, 3/1

Film Box Office

Flash (Ezra Miller), Batman (Ben Affleck) e Mulher-Matavilha (Gal Gadot): mudança de rota

LIGA DA JUSTIÇA
Sem borda - 2,5 estrelas

Sofrendo com o ‘Efeito Martha’

por Renato Félix

A primeiríssima cena de Liga da Justiça (2017) é muito importante para entender os rumos que o filme toma, em relação ao que vinha sendo feito com esse universo DC compartilhado no cinema. Ela mostra o Super-Homem (Henry Cavill) respondendo, após um salvamento, perguntas de algumas crianças para uma filmagem em celular. Embora meio constrangido, ele atende às crianças com atenção e paciência antes de sair voando.

Trata-se de um novo personagem na franquia, alguém que não foi apareceu em O Homem de Aço (2013) e nem em Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (2016) – mesmo que nesses filmes houvesse um que tenha tido o mesmo nome e tenha sido interpretado pelo mesmo ator deste. É uma caracterização completamente diferente.

Para quem defendia a versão dos primeiros filmes dizendo que era uma “atualização” do personagem, que era um “Super-Homem para os novos tempos”, que aquele Super-Homem “não tinha mais lugar nos tempos de hoje”, talvez tenha sido uma grande surpresa essa virada.

Terá sido a influência de Joss Whedon, que assumiu o filme na reta final? Ou Zack Snyder aprendeu com as críticas e abandonou o argumento do “Super-Homem nunca visto antes” que usava em O Homem de Aço, voltando finalmente ao personagem nos velhos moldes?

O fato é que Liga da Justiça parece uma continuação que não assistiu aos filmes anteriores da franquia. E isso, que normalmente seria um ponto negativo, não é: é positivo. A única saída para se safar do que foi plantado em O Homem de Aço só poderia ser essa: esquecer o tanto quanto possível os filmes anteriores assinados pelo próprio Snyder (Whedon, que escreveu e dirigiu os dois Vingadores, não assina aqui como diretor, apenas como co-roteirista).

Já era conhecida a orientação de se levar aos cinemas um filme mais relaxado e divertido, e isso fica evidente desde a primeira cena. Mas não são raras as vezes em que fica evidente demais, como no fato de qualquer diálogo do Flash (Ezra Miller) ter a obrigação de tentar fazer graça. Muitas piadas simplesmente não dão certo, mas algumas, vale ressaltar, até que funcionam bem – como a que envolve o Aquaman (Jason Momoa) e o laço mágico da Mulher-Maravilha e o Flash partindo para cima do Super-Homem.

Já é um avanço. Mas, no geral, o filme simplesmente carece de brilho. Quando é observado à luz do universo compartilhado da DC no cinema, ele reflete a arquitetura apressada e desajeitada dessa construção. Mulher-Maravilha (2017), por exemplo, é o filme imediatamente anterior, lançado também este ano, mas se passa 100 anos antes deste – e, ainda assim, Diana (Gal Gadot) fala sem parar no amor perdido na I Guerra. Mesmo que uma amazona imortal tenha uma percepção de tempo diferente da nossa, não convence.

E por que o Batman (Ben Affleck) iria convocar alguém vestido não como o Homem-Morcego, mas como Bruce Wayne, sem qualquer zelo por sua identidade secreta? A explicação só pode ser essa: acharam ótima a ideia de Affleck jogar um batarangue e Barry Allen, o Flash em sua identidade secreta, pegá-lo no ar com sua supervelocidade e deduzir: “Você é o Batman!”. Mas, para chegar a esse momento, a construção de cenas e diálogos é péssima.

Infelizmente, Liga da Justiça é cheia de momentos assim. Momentos que podemos chamar de Efeito Martha (quem assistiu Batman vs. Superman vai entender): pensar em uma cena de efeito e simplesmente não construir minimamente bem o alicerce dramático para chegar lá.

O vilão é outro ponto fragilíssimo do filme. A reunião dos principais super-heróis do mundo merecia alguém com mais peso e carisma que um inimigo da terceira divisão da DC Comics, sem qualquer carisma e cujas motivações são tão rasas. Se tivesse pelo menos dois elementos do tripe importância-carisma-motivação, escaparia. Mas o Lobo da Estepe passou longe de qualquer um deles.

O CGI também não ajuda nada, competindo com o não bigode de Henry Cavill (a ausência mais presente do filme) pelo título de visual incômodo do filme.

Os heróis chegam a funcionar a contento juntos e – quem diria? –  o filme melhora quando o Super-Homem entra em cena (mesmo que a justificativa para sua volta seja mais um dos elementos forçados do roteiro). Como se simbolicamente renegasse o estabelecido nos filmes anteriores de Snyder, Danny Elfman (autor das trilhas dos Batman de Tim Burton e dos Homem-Aranha de Sam Raimi) entra no lugar de Hans Zimmer e traz momentos… da trilha clássica de John Williams para Superman – O Filme (1978)!

Liga da Justiça. Justice League. EUA, 2017. Direção: Zack Snyder. Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, J.K. Simmons, Jeremy Irons, Jesse Eisenberg, Robin Wright, Connie Nielsen, Amber Heard, Diane Lane, Billy Crudup. Em cartaz.

Uma garota tímida de Ohio descobre o cinema de Fellini e vai á Itália para tentar conhecê-lo. É o tema de Em Busca de Fellini, filme que estreia dia 7 no Brasil. Esta cena mostra esse momento de descoberta, em que Lucy assiste a A Estrada da Vida, do mais sonhador dos cineastas:

A Melhor Escolha é o novo filme de Richard Linklater, diretor-roteirista da trilogia Antes do Amanhecer, de Escola de Rock e de Boyhood. O elenco é muito interessante: Steve Carrell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne, três homens que serviram juntos no Vietnã e se encontram para enterrar o filho de um deles, soldado morto no Oriente Médio. Estreia no Brasil: 25 de janeiro.

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