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Coluna Cinemascope (#26). Correio da Paraíba, 15/3/2017

Filmando e fazendo história

por Renato Félix

Mark Harris é um jornalista a mericano que foi editor executivo da Entertainment Weekly e escreveu em 2008 o livro Cenas de uma Revolução – O Nascimento da Nova Hollywood (L&PM), sobre esse período brilhante do cinema americano a partir dos cinco indicados a melhor filme no Oscar de 1967.

Em 2014, veio Cinco Voltaram (Objetiva), com foco em cinco super diretores de Hollywood e seu trabalho com documentários no front da II Guerra Mundial. São eles Frank Capra, John Ford, John Huston, George Stevens e William Wyler.

É uma história conhecida, mas pouco vista. Quem assistiu a esses documentários nas últimas décadas? Mas o livro gerou uma série documental que o Netflix estreia no final deste mês, no dia 31: Five Came Back  vai contar em três partes essa história e ressucitar essas imagens.

Escrita por Harris, a série terá também o olhar de cinco diretores modernos – Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Guillermo del Toro, Lawrence Kasdan e Paul Greengrass – e narração de Meryl Streep. Além das imagens da guerra, a série promete se debruçar sobre como a experiência mexeu com os próprios diretores.

Todos os cinco partiram para grandes fases em suas carreiras quando voltaram da Europa. Capra entregou logo A Felicidade Não Se Compra (1946) e Wyler, Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946). Huston fez pouco depois O Tesouro de Sierra Madre (1948). Stevens dirigiu sua trilogia da formação da América (Um Lugar ao Sol, 1951; Os Brutos Também Amam, 1953; Assim Caminha a Humanidade, 1956). E Ford logo faria nada menos que Rastros de Ódio (1956).

Viram, filmaram e fizeram história.

FOTO: O coronel Frank Capra, em 1944

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Moonlight - 02

Coluna Cinemascope (#25). Correio da Paraíba, 8/3/2017

Por que Moonlight venceu

por Renato Félix

Encerrando o Oscar por este ano, acho que vale refletir sobre tendências claras que o prêmio vem mostrando. Por que, quando todos esperavam a vitória de La La Land e o filme tendo ganhado tudo antes e faturando o maior número de prêmios da noite, justo o Oscar de melhor filme foi para Moonlight?

Não tenho os dados da votação, mas é possível traçar algumas hipóteses que vão além da preferência simples por este ou aquele filme (o prêmio estaria bem com qualquer um dos dois). Nos últimos cinco anos, em quatro aconteceu um fenômeno até então meio raro: os prêmios de melhor filme e melhor diretor indo para filmes diferentes.

Não apenas isso, mas o melhor filme sempre terminando com poucos prêmios no total (2 ou 3) e o filme que ficou com melhor diretor levando mais (de 4 a 7). E visivelmente o principal vencedor da noite com um tema socialmente importante (Argo em 2013, 12 Anos de Escravidão em 2014, Spotlight em 2016 e Moonlight) e o melhor diretor foi para um espetáculo visual mais elaborado (As Aventuras de Pi em 2013, Gravidade em 2014, O Regresso em 2016 e La La Land).

Um adicional é a fórmula como é calculado o vencedor. Desde 2009, o eleito para melhor filme não é escolhido da mesma forma das outras categorias (em que se vota em um indicado e quem tem mais votos ganha). Para melhor filme, os acadêmicos elaboram uma lista de preferência, do primeiro a último dos (este ano) nove indicados. Um filme tem que chegar a mais de 50% de primeiros lugares.

Se nenhum consegue, retira-se o filme com menos primeiros lugares e, nessas listas, o segundo vira primeiro. Assim, um filme pode ter mais primeiros lugares no começo e perder, se muitos o colocarem em, digamos, quinto ou sexto lugar. O filme de consenso é privilegiado. E pode ter sido este o cenário em que Moonlight saiu vencedor.

FOTO: Barry Jenkins, diretor de Moonlight – Sob a Luz do Luar, recebe o Oscar de melhor filme

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Moonlight

Jordan Horowitz, produtor de “La La Land”, mostra o cartão que anuncia a vitória de “Moonlight” no Oscar 2017

Coluna Cinemascope (#24). Correio da Paraíba, 1/3/2017

Gafes e suas culpas 

por Renato Félix

Em 1952, Shelley Winters estava tão certa que iria vencer o Oscar de melhor atriz por Um Lugar ao Sol que, quando a vencedora foi anunciada, levantou-se naturalmente e encaminhou-se para o palco. Só quando caiu no corredor depois de agarrada pelo marido Vittoria Gassman é que ouviu dele: “Shelley, é Vivien Leigh”. E, assim, enquanto a atriz britânica recebia seu Oscar por Uma Rua Chamada Pecado, Shelley e Gassman voltavam engatinhando para seus lugares. Culpa de Shelley.

Em 1934, o apresentador Will Rogers abriu o envelope para anunciar o prêmio de melhor direção. “Ora, ora, ora. O que vocês acham? Eu acompanho este rapaz há muito tempo. Eu o vi vir lá de baixo, e quero dizer de baixo. Isso não poderia acontecer a um cara melhor. Suba aqui e pegue-o, Frank!”.

Frank Capra, indicado por Dama por um Dia, levantou-se e começou a andar para o palco. E viu que os holofotes foram para… Frank Lloyd, o outro Frank indicado na categoria, por Cavalgada. “Foi a mais longa, mais triste, mais arrasadora caminhada da minha vida. Todos os meus amigos na mesa estavam chorando”, disse Capra. Culpa de quem? Não de Capra, claro. Culpa de Will Rogers.

No domingo passado, certamente a culpa não foi de Warren Beatty e Faye Dunaway, que apenas leram o que lhes foi dado para ser lido. Ainda assim, Warren sentiu que havia algo errado, mas não conseguiu evitar o constrangimento antes que a colega lesse a informação errada. Eu gostaria de saber quem colocou aquele envelope nas mãos dele. E onde estava o envelope correto naquele momento?

Está aí uma história do Oscar que espero ver contada nos próximos dias.

FOTO: Jordan Horowitz, produtor de La La Land, mostra o cartão que anuncia a vitória de Moonlight no Oscar 2017

ADENDO: Da publicação original desse texto para cá, sabemos bem o que aconteceu, claro.

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Coluna Cinemascope (#23). Correio da Paraíba, 22/2/2017

Brutos Tambem Amam - 09

“Os Brutos Também Amam” (1953)

Os defeitos dos perfeitos

por Renato Félix

O fotógrafo de cinema João Carlos Beltrão me contou certa vez que o montador João Ramiro Mello dava aulas na UFPB e, mostrando à classe o faroeste clássico Os Brutos Também Amam (1953), desafiou os alunos: “Ache um defeito nesse filme!”.

Haverá um filme sem defeitos? Creio que a apreciação de um filme parte de qualidades que compensem problemas, sendo que o grande filme não é necessariamente aquele sem defeitos, mas, mais importante, é aquele cujas qualidades são tão grandes que eclipsam os eventuais defeitos.

Por exemplo, quem liga para o evidente erro de montagem em O Encouraçado Potemkin (1925)? Mas logo de montagem, sendo o cinema soviético referência nesse quesito? Pois é. O fato é que, na sequência da escadaria de Odessa (mas logo nessa, uma das fundamentais da história? Sim, logo nessa), a mãe cujo filhinho escapa de suas mãos enquanto descem os degraus, fugindo dos atiradores, assiste horrorizada o filho ser pisoteado mais acima. Porém, quando se aproxima dele, é de cima para baixo.

Pior acontece em Cantando na Chuva (1952), o maravilhoso musical da Metro, outra figurinha fácil no álbum dos melhores filmes do mundo. Em duas cenas o montador só podia estar cochilando. Na primeira, quando o professor de dicção está dizendo trava-línguas para Don (Gene Kelly) e Cosmo (Donald O’Connor) está ao seu lado fazendo caretas, o momento em que o professor o flagra e se assusta repete-se.

Na segunda, um corte brusco no movimento quando Gene Kelly e Cyd Charisse estão na dança sensual do “Broadway Melody Ballet”, como se uma parte dos fotogramas tivessem sido cortados.

Mas quem liga? Isso é o que faz um grande filme.

FOTO: Os Brutos Também Amam (1953)

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A situação melhorou muito no circuito pessoense, com a volta do Cine Banguê, a sessão de cinema de arte do Cinépolis e com o Cinespaço botando em cartaz vários dos filmes do Festival Varilux. Ainda assim, aqui vai nossa lista de 50 filmes que entraram em cartaz no Brasil, mas não entraram em cartaz comercialmente nos cinemas pessoenses.

Ah, eu sei que alguns deles entraram em cartaz nestes meses de janeiro e fevereiro. Mas a lista é referente ao que entrou em cartaz no Brasil em 2016 e não passou no mesmo ano.

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1 – O QUARTO DE JACK

Brie Larson ganhou o Oscar, o Globo de Ouro, o Bafta, o SAG e o Independent Spirit de melhor atriz. O garotinho Jacob Tremblay cativou meio mundo. E não foi o suficiente para O Quarto de Jack entrar em cartaz nos cinemas paraibanos. Restou o DVD, a TV paga, o streaming, o download. Estreou no Brasil em 18/2/2016.

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2 – AVE, CÉSAR!

O filme dos irmãos Coen, com George Clooney e Scarlett Johnasson, é um retorno dos diretores à comédia, com uma história que se passa na Hollywood dos anos 1950. Estreou no Brasil em 14/2/2016.

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3 – ANOMALISA

Animação em stop motion dirigida por Charlie Kaufman, elogiadíssimo, chamado de obra-prima e o escambau. Estreou no Brasil em 28/1/2016.

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4 – A ASSASSINA

Filme chinês de Hou Hsiao-Hsien, indicado ao Bafta, se passa na China do século XVIII: Shu Qi é a assassina que deve matar um político. Estreou no Brasil em 5/5/2016.

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5 – BLOW-UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO

O clássico de Michelangelo Antonioni, com David Hemmings e Vanessa Redgrave,  ícone da swinging London, completou 50 anos em 2016 e voltou aos cinemas. Mas não na Paraíba. Reestreou no Brasil em 8/12/2016.

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6 – MUCH LOVED

Muito comentado filme marroquino de Nabil Ayouch que mostra a vida de prostitutas no país e arrumou problemas com a censura de lá e alguns imbecis. Concorreu à Palma de Ouro em Cannes. Estreou no Brasil em 10/11/2016.

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7 – BR 716

O filme de Domingos de Oliveira versa sobre a boemia em uma Copacabana às vésperas do golpe (o de 1964, não o do ano passado). Ganhou o Festival de Gramado e acabou entrando aqui este ano, no Banguê. Estreou no Brasil em 17/11/2016.

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8 – SR. SHERLOCK HOLMES

Ian McKellen interpretando o detetive na velhice. Só isso já deveria ser o suficiente para colocarem esse filme em cartaz. Estreou no Brasil em 13/1/2016.

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9 – QUE VIVA EISENSTEIN! – 10 DIAS QUE ABALARAM O MÉXICO

O delirante Peter Greenaway mergulha no período em que o cineasta russo Sergei Eisenstein passou no México. Estreou no Brasil em 1/1/2016.

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10 – ESTRANHOS NO PARAÍSO

Outro clássico relançado, desta vez do muito pessoal cineasta Jim Jarmusch. Reestreou no Brasil em 3/11/2016.

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11 – EU SOU CARLOS IMPERIAL

Documentário sobre esta folclórica e polêmica figuraça da nossa música, cinema e TV, dos mesmos diretores de Uma Noite em 67. Estreou no Brasil em 17/3/2016.

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12 – O LOBO DO DESERTO

Este filme da Jordânia foi indicado ao Oscar de filme de língua não inglesa, sobre um garoto que guia um oficial britânico pelo deserto, na I Guerra. Estreou no Brasil em 18/2/2016.

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13 – BROOKLIN

Indicado ao Oscar de melhor filme, também teve Saorise Ronan indicada a melhor atriz. Estreou no Brasil em 11/2/2016.

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14 – O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

Provocativo filme anti-racista de Nate Parker, que se propõe um contraponto ao fundamental (mas racista) clássico de D.W. Griffith, de 1915. Foi um sucesso em Sundance, mas o retorno à baila de um julgamento por estupro (no qual o diretor foi absolvido) em 2001 minaram o filme. Estreou no Brasil em 10/11/2016.

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15 – SIERANEVADA

Co-produção do Leste Europeu sobre acerto de contas familiar foi selecionado para Cannes. Acabou entrando no Banguê este ano. Estreou no Brasil em 15/12/2016.

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16 – CAPITÃO FANTÁSTICO

O filme teve a interpretação de Viggo Mortensen indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar. Estreou no Brasil em 22/12/2016.

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17 – O QUE ESTÁ POR VIR

Isabelle Huppert nunca é demais e sempre queremos mais (1). Este acabou entrando no Banguê este ano. Estreou no Brasil em 22/12/2016.

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18 – ANIMAIS NOTURNOS

O filme de Tom Ford fez barulho, embora tenha chegado fraco à temporada de prêmios. E tem uma elogiada interpretação de Amy Adams. Acabou entrando em cartaz este ano, no Cinépolis. Estreou no Brasil em 29/12/2016.

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19 – CONSPIRAÇÃO E PODER

Com Cate Blanchett e Robert Redford, uma história real de jornalismo e poder: uma produtora do 60 Minutes desencava uma história polêmica do serviço militar de George W. Bush em campanha pela reeleição e sofrem uma campanha de descrédito. Estreou no Brasil em 24/3/2016.

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20 – WHITE GOD

Filme húngaro vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes: garota tem que se desfazer de seu cachorro por ele ser mestiço. Enquanto o bicho tenta sobreviver pelas ruas, ela tenta resgatá-lo. Estreou no Brasil em 25/2/2016.

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21 – ROCK EM CABUL

Com Bill Murray e Zooey Deschanel e de Barry Levinson, diretor de Rain Man Bom Dia Vietnã, entre outros. Estreou no Brasil em 2/6/2016.

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22 – ASTERIX E O DOMÍNIO DOS DEUSES

É a primeira animação digital com o personagem, que é sucesso editorial em vários países e já foi adaptado para o cinema em animação tradicional e com atores. Estreou no Brasil em 7/4/2016.

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23 – A SENHORA DA VAN

Maggie Smith foi indicada ao Globo de Ouro por essa comédia, uma idosa que mora em uma van e faz amizade com um escritor em 1970. Estreou no Brasil em 7/4/2016.

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24 – UM BELO VERÃO

Cécile de France (de O Garoto de Bicicleta) e Izïa Higelin (de Samba) são duas mulheres que vivem uma história de amor em 1971, contexto da liberação sexual e de mais liberdades para as mulheres. Estreou no Brasil em 7/7/2016.

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25 – HAVANA MOON – THE ROLLING STONES IN CUBA

O registro do histórico show dos Stones na capital cubana. Estreou no Brasil em 6/10/2016.

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26 – JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES!!

Richard Linklater, de Boyhood, fez uma continuação de seu Jovens, Loucos e Rebeldes (1993), um de seus primeiros filmes. Estreou no Brasil em 20/10/2016.

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27 – NERUDA

O diretor de No aqui conta a vida de Neruda como perseguido político. Acabou entrando em cartaz no Banguê. Estreou no Brasil em 15/12/2016.

File picture shows Brazilian citizen Marco Archer Cardoso Moreira sitting in front of his lawyer at Tangerang court, near Jakarta

28 – CURUMIM

Documentário sobre o brasileiro no corredor da morte das Filipinas, condenado por tráfico de drogas. Estreou no Brasil em 3/11/2016.

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29 – O PRESIDENTE

Na co-produção entre Alemanha, França, Reino Unido e Geórgia, um presidente deposto por um golpe foge acompanhado do neto de cinco anos. E entra pela primeira vez em contato com seu povo. Estreou no Brasil em 10/3/2016.

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30 – ELVIS E NIXON

O inusitado encontro entre o Rei do Rock e o presidente que renunciaria. Michael Shannon é Elvis e Kevin Spacey entra para a galeria de intérpretes de Nixon (que já tinha Anthony Hopkins e Frank Langella). Estreou no Brasil em 16/6/2016.

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31 – AS MONTANHAS SE SEPARAM

Uma chinesa entre dois possíveis romances neste filmes do diretor Jia Zhangke, alvo de documentário de Walter Salles. Estreou no Brasil em 23/6/2016.

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32 – DE PALMA

Documentário sobre o grande diretor de Os IntocáveisVestida para Matar O Pagamento Final. Estreou no Brasil em 24/11/2016.

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33 – TUDO VAI FICAR BEM

Filme de Wim Wenders, com Rachel McAdams, James Franco e Charlotte Gainsbourg, sobre o trauma de um escritor para superar uma tragédia. Estreou no Brasil em 10/3/2016.

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34 – MARAVILHOSO BOCCACCIO

Os irmãos Taviani levam á tela cinco histórias do Decamerão, de Boccaccio. Estreou no Brasil em 5/5/2016.

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35 – DEMÔNIO DE NEON

Elle Fanning é uma modelo ingênua no mundo da moda. Estreou no Brasil em 29/9/2016.

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36 – FOGO NO MAR

Documentário sobre o drama dos refugiados na Europa, a partir de uma ilha na Itália. Levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e foi indicado ao Oscar de documentário. Estreou no Brasil em 28/4/2016.

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37 – NOSSO FIEL TRAIDOR

Thriller de espionagem, baseado em John LeCarré, com um elencão: Ewan McGregor, Damian Lewis, Naomie Harris, Stellan Skasgard. Estreou no Brasil em 6/10/2016.

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38 – UM HOMEM SÓ

Uma raríssima ficção científica brasileira, em que Vladimir Brichta contrata uma empres apara produzir um clone para levar sua vida medíocre por ele. Com Mariana Ximenes. Estreou no Brasil em 29/9/2016.

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39 – AMOR POR DIREITO

Julianne Moore é uma policial que descobre que está muito doente. Ela quer que a companheira (Ellen Page) receba a pensão da polícia após sua morte. E aí começa a batalha legal contra a discriminação. Steve Carrell também está no elenco dessa adaptação de uma história real acontecida não faz tanto tempo: em 2002. Estreou no Brasil em 21/4/2016.

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40 – MUNDO CÃO

De Marcos Jorge, diretor de Estômago, uma trama de vingança que o personagem de Lázaro Ramos trama contra Babu Santana, o funcionário de um centro de zoonoses que pegou o cachorro dele, depois sacrificado. Estreou no Brasil em 17/3/2016.

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41 – A DESPEDIDA

Nélson Xavier é o velho doente que se despede dos amigos, incluindo a amante bem mais nova vivida por Juliana Paes, com quem ele vive ainda momentos de amor. Estreou no Brasil em 9/6/2016.

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42 – MILLER & FRIED – AS ORIGENS DO PAÍS DO FUTEBOL

Um documentário que volta ao berço do nosso futebol: Charles Miller, que trouxe a primeira bola ao Brasil, e Arthur Friedenreich, nosso primeiro grande craque. Estreou no Brasil em 28/7/2016.

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43 – A LUZ ENTRE OCEANOS

O título refere-se ao trabalho do personagem de Michael Fassbender, em um farol na Austrália, justo na divisão dos oceanos Pacífico e Atlântico. Alicia Vikander é sua esposa, que o convence a criarem com deles o bebê que surge em um barco, ao lado de um homem morto. Estreou no Brasil em 3/11/2016.

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44 – É APENAS O FIM DO MUNDO

O drama francês mostra uma reunião de família que sai do controle por causa das muitas mágoas. O elenco tem Nathalie Baye, Léa Seydoux e Vincent Cassel. Estreou no Brasil em 24/11/2016.

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45 – RAINHA DE KATWE

Produção da Disney dirigida pela indiana Mira Nair sobre uma jovem de Uganda que deseja se tornar uma grande jogadora de xadrez. Estreou no Brasil em 24/11/2016.

46 – A CORTE

Fabrice Luchini é o juiz rígido que fica abalado ao reencontrar um antigo amor no tribunal. Chegou a passar no Festival Varilux, mas não entrou em cartaz. Estreou no Brasil em 11/8/2016.

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47 – FIQUE COMIGO

Isabelle Huppert nunca é demais e sempre queremos mais (2). É uma comédia dramática com seis personagens que se cruzam em um edifício. Estreou no Brasil em 3/3/2016.

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48 – ORGULHO E PRECONCEITO E ZUMBIS

Essa curiosidade une o universo de Jane Austen a um elemento icônico da cultura de terror pop. Estreou no Brasil em 25/2/2016.

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49 – MULHERES NO PODER

Dira Paes é uma senadora tentando se dar bem em uma mamata, mas há outras mulheres também querendo levar vantagem. Estreou no Brasil em 12/5/2016.

Life - Um Retrato de James Dean

 

50 – LIFE – UM RETRATO DE JAMES DEAN

 

A amizade entre James Dean e o fotógrafo Dennis Stock, às vésperas de Dean se tornar um grande sucesso. Estreou no Brasil em 21/7/2016.

***

LEIA MAIS:

Coluna Cinemascope (#22). Correio da Paraíba, 15/2/2017

SEVEN BRIDES FOR SEVEN BROTHERS

O discurso do personagem, o discurso do filme

por Renato Félix

A jornalista Tatiana Learth, uma amiga querida, confessou dia desses que assiste a um filme mais pela mensagem que “de um modo cinéfilo”. Então, os temas e como ele são tratados pelo filme são os pontos de interesse dela. Por outro lado, já ouvi pessoas reclamando da ética de alguns filmes por causa do discurso de um personagem (de machismo, racismo ou o que for).

Aí, é preciso refletir e um pouco “de maneira cinéfila”: o discurso do personagem é o discurso do filme? Porque não necessariamente se trata da mesma coisa.

Por exemplo, meu colega Clóvis Roberto e eu há pouco conversávamos sobre Sete Noivas para Sete Irmãos (1954). Ora, os sete irmãos do filme são nitidamente machistas: são homens selvagens, criados sozinhos quase isolados da civilização. Esta civilização está representada na mulher, na primeira das sete noivas, Millie (Jane Powell). É ela que dá a eles um banho literal e outro de educação.

Mesmo assim, instigados pelo mais velho dos irmãos, que ouviu de Millie e reconta a seu modo a história do rapto das sabinas na Roma Antiga, eles sequestram as seis outras moças confiantes de que, com o tempo, como estão apaixonadas, acabarão aceitando e sendo felizes.

Quando chegam de volta, é Millie que os faz ver o quão errados estavam, expulsando-os de casa e refugiando-se lá dentro com as moças. Então, embora o discurso do protagonista Adam (Howard Keel) dizia que o sequestro e a conquista à força era a solução, ele não é endossado pelo filme.

Acontece o mesmo em diversos outros filmes. Por mais incômodo que uma fala assim seja, é preciso refletir se o filme está expondo para criticar esse discurso ou se está a favor.

FOTO: Sete Noivas para Sete Irmãos (1954)

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Coluna Cinemascope (#21). Correio da Paraíba, 8/2/2017.

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Técnico e comunicador

por Renato Félix

O crítico João Batista de Brito publicou ontem em seu blog um texto intitulado “Como escrever sobre cinema”. É menos uma receita de como fazer do que a exposição da sinuca com a qual qualquer crítico, em algum momento (ou o tempo), se depara no relacionamento com o leitor: o quão profundo e técnico ser em seu texto, correndo o risco de ir perdendo poder de comunicação a cada degrau de profundidade; o quão legível ser, correndo o risco de, para atingir a todos, terminar sendo superficial.

O desafio (e exercício) diário é encontrar esse meio termo não muito claro. João conta como, na mesma época, pessoas diferentes o apontaram como tendo um texto “difícil” ou “fácil demais”. De minha parte, fazendo uma autorreflexão, tento evitar um teor difícil ou técnico demais, até porque o espaço não é tanto e é preciso ser sintético. Escrever “difícil” me obriga a explicar os termos para os leitores não iniciados.

Às vezes é difícil, claro. Como traduzir Persona (1966), de Bergman, em palavras 100% simples, por exemplo? Entender bem de psicologia ou não modifica nossa capacidade de absorver e compreender tudo o que está ali, criando múltiplos pontos de vista. Mas ninguém sabe tudo e, de certa forma, talvez este dilema do crítico seja exatamente amalgamar estas suas duas personalidades: o técnico especializado e o comunicador.

Mesmo com pesquisas de mercado, etc, nunca se sabe exatamente quem está lendo o jornal. Ou: o grupo de leitores é variado, nunca totalmente com o mesmo perfil. E o nosso objetivo é estabeler um diálogo com o leitor, que vai refletir ele mesmo sobre o filme e, no fim, concordar ou não com o crítico.

FOTO: Persona (1966)

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Coluna Cinemascope (#20). Correio da Paraíba, 1/2/2017

Saltimbancos Trapalhoes - Rumo a Hollywood - 01

Sumiram com os Saltimbancos

por Renato Félix

Faz alguns anos que Renato Aragão não aparece semanalmente em um programa na TV aberta. E só pode ser essa a razão (imediatista e rasa) para que as companhias exibidoras tenham simplesmente desprezado a volta do trapalhão aos cinemas, com Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood.

O filme não chegou a entrar em cartaz nas quatro sessões em nenhuma sala paraibana: teve duas numa sala do Cinespaço MAG, outras duas em uma sala do Cinépolis Manaíra e só duas também nos Cinesercla do Tambiá Shopping e do Partage Shopping, este em Campina. No Cinépolis Mangabeira, nem passou.

E olhe que, além de ser estrelado por Renato Aragão e Dedé Santana, trata-se de uma nova versão de um de seus maiores sucessos, que levou 5 milhões de pessoas aos cinemas em 1981/ 1982. E fez grande sucesso recente como musical de teatro, de onde esta nova versão foi adaptada. Na trilha, as mesmas canções de Chico Buarque que são cantadas até hoje por adultos e crianças.

Hoje, o filme não pode ser visto em João Pessoa: esta semana, passou apenas sábado e domingo. Na Paraíba, está sendo exibido apenas em Remígio. Provavelmente estará fora da programação já amanhã. E podia ser pior: soube que em Porto Alegre nem chegou a passar.

Minha infância foi pegando longas filas, dobrando o quarteirão, para ver o novo filme dos Trapalhões no cinema. Ok, os tempos são outros, mas a verdade é que o filme nem foi testado: os cinemas trataram de matar sua carreira no nascedouro.

Enquanto isso, filmes com youtubers estreiam com pompa e circunstância, ocupando várias salas. Não dá para não ter uma ponta de tristeza com as opções que nossos exibidores tomam.

FOTO: Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood (2016)

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Coluna História. Correio da Paraíba, 12/3/2017.

Coluna Cinemascope (#19). Correio da Paraíba, 25/1/2017

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O contexto ‘La La Land’

por Renato Félix

Na última vez que olhei, La La Land – Cantando Estações era o 27º filme de melhor média entre os usuários do IMDb. O 27º entre todos os filmes de todos os tempos.  Mesma média de O Silêncio dos Inocentes (1991), A Felicidade Não Se Compra (1946), Cidade de Deus (2002), Guerra nas Estrelas (1977) e Os Sete Samurais (1954).

No começo do mês, se tornou recordista isolado do Globo de Ouro, com sete prêmios. Ontem, se tornou recordista de indicações ao Oscar: 14 (empatado com A Malvada, 1950, e Titanic, 1997). No Rotten Tomatoes, que faz um levantamento das críticas nos EUA, são 93% de críticas positivas (283 favoráveis, 22 desfavoráveis).

É para tanto? É uma delícia de filme, sim, talvez até um cinco estrelas, mas essa aceitação já é algo para ser analisado além da qualidade do filme em si.

É esse mundo conservador-baixo astral, com reacionários dando cria como gremlins de banho tomado, que está nos fazendo necessitar que o cinema nos eleve – e La La Land é o filme certo na hora certa? É uma boa aposta. O escapismo (e o musical, em particular) foi ao auge na Grande Depressão americana. E a vitória de i no Oscar não tinha tudo a ver com o baixo-astral pós-Nixon, Watergate e Vietnã?

A isso pode contribuir o deserto de musicais no cinema. Certo, um ou outro aparecem, mas não no estilo da Hollywood clássica, tipo anos 1940/ 1950, aqueles com Fred Astaire, Gene Kelly, Judy Garland. Quando um filme abraçou o estilo com tanta disposição, sinceridade e sem cinismo, ele se tornou um representante daquele cinema maravilhoso, todo concentrado em um filme só. E parte do público reencontrou e outra simplesmente descobriu esse prazer.

É o contexto possível para o fenômeno La La Land.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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Coluna Cinemascope (#18). Correio da Paraíba, 18/1/2017

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“La La Land – Cantando Estações” (2016)

Gostar ou não de musicais

por Renato Félix

Enquanto escrevo, ainda não assisti a La La Land – Cantando Estações, filme mais comentado deste começo de ano e que, como tal, vai gerando tanto comentários elogiosos como outros nem tanto. E, sendo um musical, inevitavelmente surgem os “eu não gosto de musicais” e suas variações.

Eu, que adoro musicais, não vejo problema nisso, a não ser em algumas justificativas. “Ninguém sai cantando assim na vida real”, por exemplo. Não ouço reclamações assim em, digamos, filmes de super-heróis (“Ninguém sai voando na vida real”) ou com certos aspectos da linguagem do cinema em quase todos os filmes (“Não toca música de fundo em cenas românticas na vida real”).

Realidade, verossimilhança, não é a questão. Acho que uma das questões é o esquema narrativo particular de um musical, onde canções vão costurando a narrativa, integradas a ela ou as comentando. O que, na percepção de alguns, é uma “interrupção da história”.

A questão é o espectador se adaptar a uma forma diferente de contar a história. É mais fácil para uns que para outros. De  certa forma, um filme como Os Miseráveis (2012), que é praticamente todo cantado, como uma ópera, pode ser até mais fácil – desde que a cobaia o assista em condições de temperatura e pressão ideais: do começo ao fim, sem interrupções ou distrações, passando pela estranheza inicial para seu cérebro se ajustar que a realidade ali “é assim mesmo” e aceitá-la.

Importante também é gostar da música. Quem não gosta da grande música americana dos anos 1940 e 1950 pode achar difícil encarar um filme com Sinatra. Por outro lado, deve ser esse um dos fatores que leva tanta gente a gostar de um filme medíocre como Moulin Rouge (2001): com a trilha compilando o greatest hits de uma geração fica fácil.

FOTO: La La Land – Cantando Estações (2016)

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Coluna Cinemascope (#17). Correio da Paraíba, 11/1/2017

Hollywood Foreign Press Association

Meryl Streep no Globo de Ouro, em 2017

Discursando por uma causa

por Renato Félix

Meryl Streep sabia que teria aquele tempo para falar o que quisesse no Globo de Ouro, e não desperdiçou. Fez um grande, memorável discurso, defendendo imigrantes, condenando os poderosos que pensam que podem tudo, clamando pela liberdade de imprensa. Vai ser lembrado por muito tempo, ao lado de outros memoráveis discursos políticos em premiações assim.

Já que se trata de um presidente eleito com menos votos que a concorrente, é difícil não voltar a Michael Moore, em 2003, quando Tiros em Columbine levou o Oscar de melhor documentário. “Gostamos de não ficção e vivemos em tempos fictícios. Um tempo com resultados eleitorais fictícios, que elegem um presidente fictício. Um tempo em que um homem nos manda para a guerra por motivos fictícios”. Ele falava de George W. Bush.

Ano passado, Leonardo DiCaprio, aproveitou os holofotes ao ganhar o Oscar de melhor ator por O Regresso, para alertar sobre as mudanças climáticas. “É a mais urgente ameaça contra nossa espécie inteira e nós temos que trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos que os líderes ao redor do mundo não falem pelos grandes poluidores, mas por toda a humanidade”.

E, claro, a mais clássica de todas aconteceu quando Marlon Brando ganhou o Oscar de melhor ator por O Poderoso Chefão, em 1973, e mandou em seu lugar Sacheen Littlefeather, atriz e ativista pelos direitos dos nativos americanos, para recusar a estatueta: “A razão para isso é o tratamento que os índios americanos recebem hoje da indústria do cinema e da televisão e os recentes acontecimentos em Wounded Knee”.

A cidade (de 382 habitantes em 2010) estava então ocupada por índios em protesto e cercada pela polícia. Ali ocorreu um massacre de índios pela cavalaria em 1890.

FOTO: Meryl Streep no Globo de Ouro, em 2017

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Coluna Cinemascope (#16). Correio da Paraíba, 4/1/2017

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A importância (ou não) dos prêmios

por Renato Félix

O Globo de Ouro já é domingo, o primeiro grande momento da temporada de prêmios do cinema em 2017 – que naturalmente vai culminar no Oscar, no fim de fevereiro. Com ela, começa também a temporada de reclamações sobre o Oscar – tanto do que a Academia vai ou não indicar, quanto as de que se dá importância demais a ele.

Bem, há duas maneiras de se observar a questão. Em termos de mérito artístico, o Oscar realmente não é garantia de nada, não deveria “ter importância”, digamos assim. Assim como, aliás, qualquer prêmio, incluindo os de festivais como Cannes, Berlim, Veneza, Gramado, etc. Festivais (que geralmente gozam de “status artístico” maior) e seus júris também se equivocam e muito.

Uma diferença do Oscar para os festivais é que estes são lançadores de filmes: neles começa a jornada do filme que ainda chegará aos cinemas, e que pode chegar laureado com a Palma de Ouro, por exemplo. O Oscar é um prêmio de fim de temporada: e, assim, provoca uma “torcida” porque o público certamente já viu alguns dos filmes – e, se estiver nos  EUA, pode até já ter visto todos os principais concorrentes.

É esse aspecto que cria um frisson. Cannes ou Berlim só provocam torcida para quem está lá, em um microcosmo, acompanhando tudo in loco. Para quem está aqui, resta acompanhar as notícias e se informar sobre os vencedores depois de escolhidos.

Como um Festival de Cannes pode dar um apoio na largada da carreira de um filme (que já chega nos cinemas com, digamos, a Palma de Ouro no cartaz), o Oscar pode mudar carreiras de artistas – essa importância esses eventos têm. É claro que ambos podem não dar em nada e até atrapalhar. Aí também não são exatamente uma garantia.

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Coluna Cinemascope (#15). Correio da Paraíba, 28/12/2016.

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“Guerra nas Estrelas” (1977)

A Força da princesa

por Renato Félix

Eram os meados dos anos 1970 e a ideia de princesa ainda era a da mocinha de vestido longo presa em uma torre à espera do cavaleiro que iria salvá-la e com quem ela invariavelmente casaria. Ou da mocinha pobre encontrada (e salva) por um príncipe que se casaria com ela. E aí apareceu Carrie Fisher.

Ela própria uma princesa na corte de Hollywood (filha da atriz Debbie Reynolds e do cantor Eddie Fisher), também aparece como princesa, a Leia Organa de Guerra nas Estrelas (1977) e suas continuações. Naquele primeiro filme da série, ela foi demolindo o estereótipo: peitava Darth Vader logo no começo, e, presa, assistia seu planeta ser explodido e era torturada (mas não revelava a informação que os vilões queriam).

E quando o cavaleiro aparecia em sua cela para salvá-la, ela é quem tomou as rédeas da situação: tomou a arma e explodiu uma parede, dizendo “Alguém tem que salvar nossas peles”. Em O Retorno de Jedi (1983), escravizada e humilhada por Jabba naquele biquíni de metal, matou ela mesma o gangster na operação de fuga dos rebeldes.

Leia, naqueles anos 1970 e 1980, era o contrário do que uma princesa parecia dever ser. Comandava operações militares, tinha espírito de liderança, não levava desaforo para casa. Uma grande personagem, personificada de maneira eterna em Carrie Fisher, que nos deixou ontem.

Hoje até o Disney Channel tenta desfazer a imagem de princesa que a própria Disney consolidou dos anos 1930 aos 1950. Com o slogan “Sou princesa, sou real”, tenta vender a ideia de que ser princesa é lutar por seus ideais e para realizar seus sonhos e tal. Bonitinho, mas quarenta anos antes, Carrie Fisher já era a princesa que representava isso.

FOTO: Guerra nas Estrelas (1977)

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“Moana – Um Mar de Aventuras” (2016)

4 – MOANA – UM MAR DE AVENTURAS

por Renato Félix

Em determinado momento de Moana – Um Mar de Aventuras, o semideus polinésio Maui a chama – com desdém – de princesa. “Não sou uma princesa”, ela retruca. “É a filha do chefe, é a mesma coisa”, rebate ele, e emenda: “Se usa um vestido e tem um bichinho de parceiro, é uma princesa”. A personagem-título de sua nova animação é mais uma tentativa da Disney de dar um passo à frente na modernização do conceito de “princesa”, um patrimônio cultural e de marketing do estúdio desde Branca de Neve, em 1937.

Moana não é uma princesa decorativa: é treinada para um dia governar. Desafia o pai o tempo todo no seu contrasenso de comandar um povo da Polinésia e ter medo do mar. Um dia, o destino faz a menina navegar como seus antepassados para encontrar Maui e reverter uma maldição que chega à sua ilha.

Se em A Princesa e o Sapo (2009), a princesa resiste ao romance por aspirações profissionais (mas se rende no decorrer do filme), se em Valente (2012) a princesa rejeitava seus pretendentes, e se em Frozen (2013) o príncipe se revelava o vilão (e o verdadeiro interesse amoroso estava em segundo plano), nesta progressão agora não há qualquer sinal de príncipe encantado à vista. A relação entre Moana e Maui está mais para irmão mais velho/ irmã caçula.

Mas mesmo com esse esforço de modernização, em termos de narrativa ainda é difícil não relacionar motivações e parte da jornada de Moana às de outras princesas Disney, como Ariel, de A Pequena Sereia (1989, dos mesmos diretores John Musker e Ron Clements) ou Belle, de A Bela e a Fera (1991).

Como Ariel, Moana tem curiosidade pelo mundo além das fronteiras do seu, mas é tolhida pelo pai. As duas possuem, ainda no primeiro terço de seus filmes, uma canção de “eu anseio por mais”, assim como outras princesas Disney. Foi “Part of your world” para Ariel em A Pequena Sereia, “Almost there” para Tiana em A Princesa e o Sapo (outro Musker-Clements), “When will my life begin?” para Rapunzel em Enrolados (2010), e é “How far I’ll go” em Moana.

É uma bela canção (que está indicada ao Oscar) de uma bela trilha, que reflete um cuidado da produção ao trabalhar com a cultura local. As canções ficaram a cargo de uma parceria entre o letrista novaiorquino Lin-Manuel Miranda e o músico Opetaia Foa’i. Dos números musicais, o melhor é “You’re welcome”, em que Maui (Dwayne Johnson no original; o cantor de musical Saulo Vasconcellos, na versão brasileira) bravateia seu heroísmo, com ótimos recursos visuais.

O visual arrebatador é um dos pontos em que Musker e Clements mostram a competência de sempre. Assim como no carisma dos personagens e um humor que sobrevive a certos atalhos fáceis e desnecessários do roteiro, como os bichinhos que não contribuem em nada para a trama (apesar de o galo burro ser ocasionalmente engraçado). Ou como o mar “vivo” que ajuda a heroína, que sempre parece um recurso forçado (embora também tenha ocasionalmente sua graça).

Aliás, a relação de Moana com o mar podia ser mais próxima na introdução da história. Embora ela seja naturalmente atraída por ele e, além disso, seja “a escolhida” desde bebê para reverter a maldição, não há nenhuma cena da garota em intimidade com o mar, mesmo morando em uma aldeia à beira-mar. Nem um simples mergulho.

No fim, Musker e Clements, oriundos das animações feitas à mão, fazem uma estreia muito boa na animação digital. É uma pena, somente, que isso signifique mais uma pá de cal nos longas feitos à mão, que renderam vários dos melhores exemplares do gênero. O último longa para o cinema a sair da própria Disney foi justamente A Princesa e o Sapo, já há seis anos.

Moana – Um Mar de Aventuras. Moana. Estados Unidos, 2016. Direção: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House. Vozes na dublagem brasileira: Any Gabrielly, Saulo Vasconcelos, Saulo Javan, Mariana Elisabetsky. No cinema (Cinespaço MAG). Revisão.

Coluna Cinemascope (#14). Correio da Paraíba, 21/12/2016

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“A Invenção de Hugo Cabret” (2011)

Ficou fácil

por Renato Félix

Hoje quem quiser assistir a um determinado filme tem muitas opções para encontrá-lo. Quase não existem mais locadoras físicas (em João Pessoa, a de seu Vianey, em Tambaú, deve ser a última), mas há os serviços on line como o Netflix, o Looke, os particulares dos canais de TV (como HBO e Telecine), etc. Garimpando, provavelmente encontra-se o que se quer.

É claro que ninguém abre mão dessa comodidade. Mas há uma certa melancolia em perceber como assistir a um filme deixou de ser um “evento”. Deixou de ter aquele frisson, a sensação de que era necessário assistir naquela hora para não perdê-lo.

Pensar nisso retroativamente mostra como assistir a um filme específico era difícil. Antes do DVD e o hábito de comprar os filmes (nas lojas ou pela internet) para ter em casa, havia o VHS e as locadoras. Era preciso, claro, que elas tivessem o filme e que ele não estivesse locado quando você quisesse vê-lo.

Um  problema menor quando se pensa em como era a coisa antes do VHS, quando se dependia da TV. Naquela época, pelo menos, as TVs abertas tinham horários reservados para filmes clássicos (mesmo que fosse tarde da noite e às vezes nem era). Eram os anos em que aguardávamos com ansiedade a programação de filmes de fim de ano e cravar no calendários as noites em que não poderíamos sair para não perder um filme especial.

E antes da proliferação dos filmes na TV, então? Só era possível conferir um clássico comentado se o cinema o reprisasse ou se algum cineclube conseguisse uma cópia para passar. As pessoas ouviam falar de um filme, liam sobre ele, e simplesmente podiam passar anos sem conseguir assisti-lo.

Não era fácil a vida de cinéfilo, comparada com a de hoje.

FOTO: A Invenção de Hugo Cabret (2011)

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Amanda Abbington, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, em “Sherlock – The Six Thatchers” (2017)

 03 – SHERLOCK – THE SIX THATCHERS

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Antes da estreia da quarta temporada de Sherlock (você sabe, cada episódio da série é um longa-metragem, por isso ele está aqui), os produtores fizeram questão de avisar que seria a mais sombria delas. E eles falavam sério. Mas a grande capacidade narrativa da série garante que, mesmo assim, ela não chega a destoar do tom geral. É o que acontece no episódio de abertura, The Six Thatchers.

O “Thatchers” do título é referente mesmo a Margaret Thatcher, ex-primeira ministra britânica. Como sempre, trata-se de uma referência indireta a uma história original de Arthur Conan Doyle (neste caso, o conto “The Adventure of the Six Napoleons”). Aqui, trata-se de seis estátuas únicas e raras da Dama de Ferro, que alguém está destruindo uma a uma.

Mas esse mistério só entra em cena com o episódio já avançado. A estreia de Rachel Talalay na direção de um episódio da série (ela dirigiu filmes como Tank Girl, 1995, e, recentemente, alguns episódios de séries da DC, como Supergirl e Flash) estabelece um clima antes de mudar de direção.

Começa lidando com a herança do final da terceira temporada: Sherlock (Benedict Cumberbatch) acusado de assassinato e encaminhado para o exílio. Após o interlúdio do episódio especial The Abominable Bride, a série lida com aquele desfecho chocante “elucidando” a situação através das manobras do irmão Mycroft (Mark Gatiss) já no começo deste episódio.

Seguimos com Sherlock resolvendo freneticamente casos menores enquanto aguarda os desdobramentos do que parece ser uma anunciada vingança póstuma de Moriarty. Quando as seis estátuas entram em cena, as complicações da trama vão enredar o passado de Mary Watson (Amanda Abbington), mais uma vez revelando-se uma grande personagem na série. Ela chega a protagonizar um duelo de sagacidade com Sherlock.

Não só ao passado de Mary, mas também às fraquezas de John (Martin Freeman) agora que o casal tem um bebê e o mergulho de Sherlock na própria obsessão são os lembretes sombrios quem vão entremeando o humor e a ação, uma prévia de momentos difíceis que não tardarão a chegar.

Sherlock – The Six Thatchers. Sherlock – The Six Thatchers. Reino Unido, 2017. Direção: Rachel Talalay. Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Amanda Abbington, Mark Gatiss. Download.

Coluna Cinemascope (#13). Correio da Pataíba, 14/12/2016

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“Perdido em Marte” (2015)

O gueto do ‘musical ou comédia’

por Renato Félix

É curioso: os atores vivem falando que fazer comédia é muito mais difícil que fazer drama. Mas aparentemente poucos além deles acham isso. É só tomar como termômetro os prêmios de cinema, onde a comédia raras vezes encontra uma vaguinha. Sabe qual foi o último ator a ganhar o Oscar por uma comédia? Ele mesmo: Roberto Benigni, se considerarmos como tal A Vida É Bela (1997), que, como sabemos, é mais um drama com muitos elementos de comédia que uma comédia mesmo.

Por isso eu até entendo os motivos pelos quais surgiu a separação entre drama e comédia em algumas premiações. Isso faz com que, em tese, atores nesse registro sejam igualmente reconhecidos.

Na prática, há problemas. O Globo de Ouro faz essa distinção, mas parece claro que os vencedores de “drama” têm um status maior do que os vencedores em “comédia”. Não deveria, mas soa como uma espécie de segunda divisão.

Há também o problema de se definir o que é drama e o que é comédia e o que acontece quando o filme tem os dois elementos. Causou muita discussão a inclusão, na premiação deste ano, de Perdido em Marte como comédia. Tudo por causa do registro levemente engraçado de Matt Damon, que aliás, ganhou o prêmio de melhor ator na categoria. E, entre os cinco indicados a melhor ator e as cinco indicadas a melhor atriz no Oscar, foi o único a aproximou desse registro mais engraçado.

E ainda tem, para piorar, esse “musical ou comédia”. Ou seja: o musical não é “sério” o bastante para concorrer com os dramas. E, se um musical dramático é premiado, acabam vencendo dramas nas duas categorias – e a comédia fica de novo a ver navios. E não é raro acontecer. Essa separação acaba se tornando um gueto para determinado tipo de filmes de “importância menor”.

FOTO: Perdido em Marte (2015)

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Coluna Cinemascope (#12). Correio da Paraíba, 7/12/2016

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“Último Tango em Paris” (1971)

O vale tudo nas filmagens

por Renato Félix

Maria Schneider falou sobre como tinha sofrido no set de Último Tango em Paris (1973) e de como isso havia deixado sequelas psicológicas em sua vida. Só agora, três anos depois de o próprio diretor Bernardo Bertolucci ter admitido que Marlon Brando e ele tramaram surpreender a jovem atriz na “cena da manteiga” para obter, nas palavras dele, “a reação da menina e não a da atriz”, é que a questão causou repercussão.

Nem vou entrar nos aspectos potencialmente criminosos do fato, já amplamente discutidos na imprensa e nas redes sociais, mas entrar em um aspecto que foi levantado por minha amiga Alana Agra no Facebook: vale tudo para conseguir a melhor atuação, a melhor cena para um filme?

Não são poucos os casos em que os diretores apostam no sofrimento não consentido de seus atores (e equipe) para conseguir o que querem para seus filmes. As histórias são muitas, em diferentes níveis, sem precisar chegar a uma questão tão sórdida como a de um estupro, mas que podem ser igualmente condenáveis se a gente pensar no que alguém precisa passar pela visão de outro.

Entre as que me lembro, está William Friedkin mandando puxar Ellen Burstyn, com toda a força e sem que ela soubesse, para que sua reação (e grito) de dor ao cair fosse real em uma cena de O Exorcista (1973). Ou dando tiros para o ar no set para manter a tensão no elenco e equipe.

Também, entre todas as agruras que Tippi Hedren passou nas mãos de Hitchcock, está a história de ela ter sido avisada só momentos antes da cena que teria amarrados a seus braços e pernas pássaros reais que iriam atacar sua personagem em Os Pássaros (1963).

Caso mais grave: a terrível morte de Vic Morrow e dois atores mirins, atingidos por um helicóptero em uma cena de No Limite da Realidade (1983), de John Landis, filmada fora dos padrões de segurança. Morrow foi decapitado.

FOTO: Último Tango em Paris (1971)

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Margherita Buy e John Turturro em “Mia Madre”

2 – MIA MADRE

por Renato Félix

Sem borda - 04 estrelas Logo no começo de Mia Madre, uma cineasta que dirige um filme sobre questões sociais (uma fábrica italiana comprada por um americano e que pode fechar colocando todos os trabalhadores na rua) se questiona a cerca do ângulo de câmera que está sendo usado, que mensagem ele vai passar. É uma personagem muito comprometida com seu trabalho. Mas há uma tormenta chegando para complicar sua vida: a doença da sua mãe e o astro de Hollywood que vai atuar em seu filme.

Nanni Moretti já possui uma bela carreira construída principalmente sobre o trânsito entre comédia e drama. Aqui, ele pende mais para o drama, quando trata dos conflitos pessoais de Margherita (Margherita Buy): a mãe, a filha, um relacionamento recém-terminado.

Mas há momentos cômicos reservados a John Turturro, como o astro vaidoso a ponto de mentir descaradamente sobre sua carreira (se gaba de ter trabalhado com Kubrick) e que faz questão de atuar em italiano sem saber a língua. Mas, inseguro, tem dificuldades em decorar quase todas as suas cenas.

O filme é o retrato da vida confusa de Margherita, tendo que lidar com tudo isso ao mesmo tempo e dizendo clichês que nem sabe mais o que significam. Como a repetida instrução para que os atores não sejam só o personagem, mas sejam também eles mesmo, o que só deixa o elenco também confuso.

O fio condutor é a provável morte da mãe. O filme todo é uma espécie de despedida, em que os valores dela – uma professora de latim aposentada, que dá suas últimas aulas, já de cama, à neta – vão ficando como legado. Nesse sentido, é bonita  e simbólica a visita de um ex-aluno e o momento em que ela acontece, para mostrar que muito dessa mulher seguirá vivendo.

Mia Madre. Mia Madre. Itália/ Framça/ Alemanha, 2015. Direção: Nanni Moretti. Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti. 2º filme. Em DVD.

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