20 – O PROCESSO (Le Procès)
Mídia física: DVD (só e na coleção O Cinema de Orson Welles). Streaming: Globoplay/ Telecine, Looke, NetMovies, Oi Play.

Orson Welles perambulava pela Europa atrás de quem financiasse seus filmes e, aqui, ele dá sua versão para o clássico literário de Kafka. Mergulhou a trama do burocrata que acorda acusado de um crime que não sabe qual é em uma ambientação expressionista, evocando um pesadelo. Filmado em vários países, o filme resultou visualmente fascinante.
França/ Itália/ Alemanha Ocidental. Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, com adaptação e diálogos por Pierre Cholot, baseado em romance de Franz Kafka. Elenco: Anthony Perkins, Arnoldo Foà, Orson Welles, Jeanne Moreau, Romy Schneider, Elsa Martinelli, Akim Tamiroff.

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19 – O ASSALTO AO TREM PAGADOR
Mídia física: DVD. Streaming: Não disponível no Brasil. YouTube: som original.

A partir de impressionante um assalto real (os “entendidos” diziam que só poderia ter sido coisa de bandido estrangeiro), o filme conta o depois: a investigação da polícia, mas principalmente como aquele dinheiro mexeu com a vida dos ladrões, considerando que o combinado era não dar na vista gastando a bolada. Usando várias locações onde as coisas de fato aconteceram, é narrado com a perícia costumeira de Roberto Farias.
Brasil. Direção: Roberto Farias. Roteiro: Roberto Farias, a partir de argumento de Alinor Azevedo e Luiz Carlos Barreto. Elenco: Eliezer Gomes, Reginaldo Faria, Jorge Dória, Átila Iório, Ruth de Souza, Helena Ignez, Luiza Maranhão, Grande Otelo, Dirce Migliaccio.

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18 – LOLITA (Lolita)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max, Oldflix. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Kubrick mexeu num vespeiro ao filmar a história de um professor de meia idade que se apaixona por uma menina de 14 anos. Mesmo com Kubrick produzindo de maneira independente na Inglaterra, o tema explosivo foi amenizando até onde deu. A relação entre Humbert Humbert (vivido por um bravo James Mason) e Lolita nunca é gráfica e basicamente quase sempre insinuada. A história desconcertante é narrada num belo preto-e-branco e ancorada nos seguros James Mason e Shelley Winters, na beleza de Sue Lyon e em Peter Sellers roubando a cena.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Vladimir Nabokov e, não creditados, Stanley Kubrick e James B. Harris, baseado em romance de Nabokov. Elenco: James Mason, Sue Lyon, Shelley Winters, Peter Sellers, Gary Cockrell.

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17 – 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (Dr. No)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Amazon Prime Video. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

O primeiro James Bond, aquele que inaugurou a franquia que já passa dos 25 filmes. Já há aqui a abertura com o tiro na tela, a música-tema, o “Bond. James Bond”, as locações exóticas e Connery personificando o agente secreto à perfeição. Mas Ursula Andress saindo do mar de biquini e faca na cintura é a principal imagem.
Reino Unido. Direção: Terence Young. Roteiro: Richard Maibaum, Johanna Harwood, Berkely Mather e Terence Young (não creditado), com tratamento não creditado de Wolf Mankowitz, baseado em romance de Ian Fleming. Elenco: Sean Connery, Ursula Andress, Joseph Weiseman, Jack Lord, Bernard Lee, Eunice Gayson, Lois Maxwell.

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16 – A INFÂNCIA DE IVAN (Ivanovo Detstvo)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Belas Artes a la Carte. YouTube: legendado em inglês.

Considerando a carreira de Tarkovsky, este seu primeiro filme é bem menos “difícil”. Ainda não há tanto da contemplação quase espiritual, mas já há planos muito inspirados nesta aventura de guerra, como o do beijo sobre uma vala. Mas a história é a do sofrido menino Ivan, que trabalha como batedor para o exército soviético contra os nazistas e não aceita deixar o perigoso serviço, e os três soldados que se afeiçoam a ele.
União Soviética, 1962. Direção: Andrei Tarkovsky e, não creditado, Eduard Abalov. Roteiro: Vladimir Bogomolov, Mikhail Papava e, não creditados, Andrei Tarkovsky e Andrei Konchalovskiy, baseado em conto de Bogomolov. Elenco:  Nikolay Burlyaev, Valentin Zubkov, Evgeniy Zharikov, Stepan Krylov, Valentina Malyavina, Irina Tarkovskaya.

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15 – A FACA NA ÁGUA (Nóz w Wodzie)
Mídia física: DVD. Streaming: Belas Artes a la Carte. YouTube: legendado.

Primeiro filme de Polanski, que joga três personagens num embate psicológico dentro de um barco, quando um casal dá carona a um rapaz no caminho da marina. Feito ainda na Polônia, constrói um clima claustrofóbico mesmo em mar aberto e o elenco responde bem. E que atriz bonita é Jolanta Umecka, que entra em cena numa imagem clichê meio intelectual e se revela a bordo.
Polônia. Direção: Roman Polanski. Roteiro: Jakub Goldberg, Roman Polanski e Jerzy Skolimowski. Elenco: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka, Zygmunt Malanowicz.

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14 – HATARI! (Hatari!)
Mídia física: DVD. Streaming: Não disponível no Brasil.

Howard Hawks levou seu time para a Tanzânia a fim de contar as aventuras e comédias de um grupo de profissionais que captura animais para zoológicos do mundo. É, claro, datado em termos de ecologia e representatividade racial, mas é cinema como uma aventura em si mesmo, com os atores participando da ação em meio a girafas e rinocerontes, liderados por John Wayne. Tem Elsa Martinelli adotando três bebês elefantes ao som de Henry Mancini (“Baby elephant walk”, ou “O passo do elefantinho”, virou um grande sucesso). Com roteiro meio improvisado (“Não dá para escrever antes o que um rinoceronte vai fazer”, diria depois o diretor), é quintessencial da obra de Hawks: profissionais que correm perigo para fazer o que têm que fazer e a mulher bonita de fora que aparece para bagunçar o coreto.
Estados Unidos. Direção: Howard Hawks. Roteiro: Leigh Brackett, a partir de argumento de Harry Kurnitz. Elenco: John Wayne, Elsa Martinelli, Hardy Kruger, Red Buttons, Gérard Blain, Michèle Girardon.

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13 – SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian Candidate)
Mídia física: DVD. Streaming: Não disponível no Brasil.

No auge da guerra fria, este thriller parte da paranoia anticomunista para alertar sobre o fascismo dentro do próprio país. Começa com um soldado atormentado por pesadelos que vai se lembrando de uma lavagem cerebral sofrida nas mãos dos comunistas na Guerra da Coreia. Eles talvez estejam controlando um ex-colega que pode influir nos rumos do país.
Estados Unidos. Direção: John Frankenheimer. Roteiro: George Axelrod, com John Frankenheimer (não creditado), baseado em romance de Richard Condon. Elenco: Frank Sinatra, Laurence Harvey, Janet Leigh, Angela Lansbury, Henry Silva, Leslie Parrish.

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12 – SANJURO (Sanjuro)
Mídia física: DVD (na edição Yojimbo/ Sanjuro). Streaming: Não disponível no Brasil.

A continuação de Yojimbo surgiu com a adaptação de um roteiro que não era originalmente com o samurai errante do primeiro filme. O sucesso do original fez o estúdio pedir uma sequência, então Kurosawa fez esse rearranjo: agora ele aparece do nada oara ajuda um grupo de samurais a desbaratar uma rede de corrupção dentro do clã deles.
Japão. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Ryuzo Kikoshima, Hideo Oguni e Akira Kurosawa, baseado em romance de Shugoro Yamamoto. Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Keiju Kobayashi.

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11 – O ECLIPSE (L’ Eclisse)
Mídia física: DVD. Streaming: Oldflix.

A trilogia (informal) da incomunicabilidade parece ter caminhado para uma narrativa menos hermética. Bem, ao menos na maior parte deste terceiro filme. Antonioni se concentra na mulher recém-separada que tem dificuldade em se relacionar de novo, sem conseguir explicar o porquê, e o homem materialista, operador da bolsa de valores de Roma. Em volta deles, o espaço tão bem filmado por Antonioni, seja das ruas ou dentro do pregão ou dos apartamentos. O espaço é tão importante que é ele o protagonista nos desconcertantes minutos finais do filme.
Itália/ França. Direção: Michelangelo Antonioni. Roteiro: Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra, com colaboração de Ellio Bartolini e Ottiero Ottieri. Elenco: Monica Vitti, Alain Delon, Francisco Rabal, Lilla Brignone.

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10 – O PAGADOR DE PROMESSAS
Mídia física: DVD. Streaming: Globoplay. YouTube: som original.

O impasse ideológico-religioso quando um lavrador insiste em depositar uma enorme cruz no altar da Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, e o padre o impede quando sabe que a promessa foi feita num terreiro de candomblé e para salvar a vida de um burro. É uma narrativa precisa da peça de Dias Gomes, aproveitando o que pode, como cenário, das ruas de Salvador e das poderosas escadaria e fachada da igreja. Há todo um caldeirão social soteropolitano representado, emoldurando os dramas pessoais dos personagens, num filme que levou a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado ao Oscar de filme de língua não inglesa.
Brasil. Direção: Anselmo Duarte. Roteiro: Anselmo Duarte, com adaptação e diálogos de Dias Gomes, baseado em peça de Gomes. Elenco: Leonardo Vilar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Geraldo del Rey, Roberto Ferreira, Norma Bengell, Othon Bastos, Antonio Pitanga.

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9 – UMA MULHER PARA DOIS ou JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (Jules et Jim)
Mídia física: DVD. Streaming: Globoplay/ Telecine. YouTube: legendado.

Inquieto como a juventude, Jules e Jim é um dos filmes que se mostra mais apaixonado por sua atriz. Jeanne Moreau desperta a paixão de dois amigos que logo estarão em lados opostos na guerra. O filme congela sua imagem no tempo e no espaço, a põe para apostar corrida em uma ponte vestida de homem. O filme se tornou uma das principais obras da nouvelle vague.
França. Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em Henri-Pierre Roché. Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino.

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8 – O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? ou O QUE ACONTECEU COM BABY JANE? (What Ever Happened to Baby Jane?)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Amazon.

Colocar duas veteranas e grandes atrizes para duelar neste conto macabro acabou gerando todo um subgênero nos anos 1960. Bette Davis e Joan Crawford eram rivais e se detestavam, o que deixou ainda mais forte a trama da irmã que mergulha na loucura por nunca ter se libertado de seu passado de sucesso como atriz infantil e tortura a irmã que foi uma atriz adulta de sucesso, mas agora está numa cadeira de rodas. Mas há algo por trás dessa história.
Estados Unidos. Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Lukas Heller, baseado no romance de Henry Farrell. Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono, Maidie Norman, Wesley Addy.

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7 – O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN (The Miracle Worker)
Mídia física: DVD. Streaming: Não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Apple TV/ iTunes, Amazon. YouTube: legendado, dublado.

A impressionante história real de Helen Keller, menina cega e surda, e da professora Anne Sullivan, mais que determinada a ensiná-la a se comunicar. Fazê-la entender que as coisas têm nome é um grande desafio, que vai acompanhar toda a saga do relacionamento entre elas. Anne Bancroft ganhou o Oscar de melhor atriz e Patty Duke, o de atriz coadjuvante as duas reviveram os papéis que haviam interpretado nos palcos. O filme é mesmo das duas atrizes, embora muito bem dirigido por Penn (que dedicou, por exemplo, vários minutos a uma luta corporal em torno de boas maneiras à mesa).
Estados Unidos. Direção: Arthur Penn. Roteiro: William Gibson, baseado em sua própria peça e na autobiografia de Helen Keller. Elenco: Anne Bancroft, Patty Duke, Inga Swenson, Andrew Pine.

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6 – O SOL É PARA TODOS (To Kill a Mockingbird)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Apple TV/ iTunes, Amazon.

Pela visão dos dois filhos pequenos, acompanhamos a história do advogado que defende no tribunal um homem negro da acusação de estupro de uma mulher branca. É a visão das crianças da turbulência racista na pequena cidade onde vivem e, em margem mais ampla, da noção de injustiça e justiça (e justiça de modo torto) do mundo. Quando o American Film Institute fez uma eleição para definir o maior herói do cinema americano, Atticus Finch venceu, deixando Indiana Jones em segundo lugar. As duas tramas paralelas o julgamento e as aventuras das crianças, principalmente envolvendo um vizinho misterioso se entrelaçam. Oscar de melhor ator para Peck, que interpreta um discurso de seis minutos num único take.
Estados Unidos. Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Horton Foote, baseado no romance de Harper Lee. Elenco: Gregory Peck, Mary Badham, Phillip Alford, Estelle Evans, Robert Duvall, Brock Peters.

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5 – O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador)
Mídia física: DVD. Streaming: Belas Artes a la Carte, Filmbox Plus.

Gente muito fina estica uma noitada na casa de um dos casais. Mas os empregados, com exceção do mordomo, foram embora apressados pouco antes, como se estivessem num navio prestes a afundar. Com o avançar das horas, percebe-se que ninguém consegue sair do salão onde estão. Os dias se passam e essa gente elegante vai gradualmente perdendo a civilidade no confinamento, nesta obra-prima de Buñuel, o grande nome do surrealismo no cinema. Em sua fase mexicana, o diretor espanhol entregou esse clássico que não entrega explicações, mas oferece um espetáculo da decadência.
México. Direção: Luis Buñuel. Roteiro: Luís Buñuel, baseado em roteiro anterior de Buñuel e Luis Alcoriza. Elenco: Silvia Pinal, Augusto Benedico, Enrique Ramball, Patricia de Morelos, Ofelia Montesco, Xavier Massé.

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4 – A ROTINA TEM SEU ENCANTO (Sanma No Aji)
Mídia física: DVD. Streaming: Não disponível no Brasil. YouTube: legendado.

O último filme de Yasujiro Ozu é um apurado de seu cinema: o dia a dia das relações familiares, a câmera baixa, nenhum movimento de câmera, uma certo fascínio pela vida comum. Isso emoldura o dilema de um pai que começa a perceber que talvez sua filha esteja deixando de lado planos de uma vida independente para cuidar dele na velhice.
Japão. Direção: Yasujiro Ozu. Roteiro: Kogo Noda e Yasujiro Ozu. Elenco: Chishu Ryu, Shima Iwashita, Keiji Sada, Mariko Okada.

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3 – CLÉO DAS 5 ÀS 7 (Cléo de 5 à 7)
Mídia física: DVD (só e no digipack Agnès Varda). Streaming: Globoplay/ Telecine.

Duas horas cruciais na vida de uma mulher, em que ela espera o resultado de um exame. Em tempo real, Agnès Varda mostra as andanças dessa cantora que revê sua vida e suas relações. Paris é muito presente no cenário e também o próprio cinema, até com participações de Godard e sua musa Anna Karina, em uma narrativa episódica e intimista.
França/ Itália. Direção e roteiro: Agnès Varda. Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Michel Legrand, José Luis de Villalonga, Jean-Luc Godard, Anna Karina.

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2 – O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (The Man Who Shot Liberty Valance)
Mídia física: DVD, blu-ray (só e na coleção Ford Essencial). Streaming: Globoplay/ Telecine.

John Ford joga com os mitos do velho oeste ao colocar um advogado pacifista na mira de um bandido cruel. A chegada da civilização à cidade, representada pela imprensa, a escola e eleições, tem resistência da brutalidade e dos fora-da-lei. James Stewart e John Wayne duelam não abertamente pela mocinha Vera Miles, Lee Marvin é um vilão que adora o que faz e o filme contrapõe jornalistas que dizem “aqui é o oeste: quando a lenda se torna verdade, publicamos a lenda” com outro que se põe em risco para publicar um fato porque “isso é notícia e eu sou um jornalista”. Um dos maiores mitificadores do western, Ford é revisionista acerca da própria obra e realizou um dos seus maiores clássicos. Seu clímax foi até copiado pela novela Roque Santeiro!
Estados Unidos. Direção: John Ford. Roteiro: James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado no conto de Dorothy M. Johnson. Elenco: James Stewart, John Wayne, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O’Brien, Andy Devine, John Carradine, Woody Strode, Lee Van Cleef.

Crítica de O Homem que Matou o Facínora:
A verdade e a lenda

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1 – LAWRENCE DA ARÁBIA (Lawrence of Arabia)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Um monumento do cinema. Para contar a história do militar inglês que trabalhou para unir tribos árabes para enfrentarem juntas os turcos no front do Oriente Médio da I Guerra Mundial, David Lean levou sua equipe inteira ao deserto, filmou em regiões que ficavam a dias da civilização, colocando na terra uma vastidão de deserto intocado. No centro de tudo, um personagem carismático, controverso e megalomaníaco em uma atuação antológica de Peter O’Toole. O resultado é um dos mais impressionantes épicos já lançados nas telas. A direção de fotografia de Freddie Young ressalta passagens incríveis como o apagar de um fósforo sucedido pelo sol nascendo no horizonte do deserto. Ou a aparição de Omar Sharif como uma miragem. A trilha inesquecível de Maurice Jarre emoldura os atores montados em camelos saindo de trás das dunas. Um espetáculo, no sentido mais preciso do termo.
Reino Unido. Direção: David Lean. Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson. Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy.

Crítica de Lawrence da Arábia:
épico digno do nome

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

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NOTA: A percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

OS FABELMANS
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2023: 5
Onde ver: cinemas

Memórias cinematográficas de Spielberg

Na primeira cena de Os Fabelmans, um menino está com medo de entrar no cinema. Seus pais tentam acalmar a criança ansiosa. O pai explica o funcionamento técnico da coisa: é só um projetor emitindo uma luz, com uma série de fotos em sequência, de modo que parecem se movimentar, etc. A mãe vai por outro caminho: “É como um sonho. Um sonho do qual você nunca se esquece”. Sammy, o garotinho que é a versão no filme do próprio diretor e co-roteirista Steven Spielberg, vai viver entre essas duas visões de mundo: o pai cientista, a mãe artista. O que, de certa forma, acabou moldando a carreira do cineasta, que uniu os prodígios técnicos dos efeitos especiais a uma visão sempre dedicada a contar cada cena de modo interessante, ir além do banal.

Em Os Fabelmans, Spielberg volta à sua infância e adolescência para fazer uma declaração de amor para sua família e para o cinema. São dois elementos indissociáveis na vida do cineasta. É a mãe que dá a ele uma câmera super-8. O menino ficou impressionado demais com a cena do choque de um trem e um carro no filme que viu, O Maior Espetáculo da Terra (1952). O presente era terapêutico: Sammy/ Steven poderia recriar com seus brinquedos a cena do filme, filmá-la e rever quantas vezes quisesse até aquilo não o assustar mais (e, assim, não quebrar seu trenzinho elétrico).

O Maior Espetáculo da Terra foi realmente o primeiro filme que Spielberg viu no cinema. Aliás, embora o cineasta tenha dito que o filme é “semiautobiográfico”, são tantos os fatos reais na tela que é curiosa a opção de mudar os nomes dos personagens. Enfim, é simbólico que a primeira vez de Spielberg no cinema tenha sido com um filme de Cecil B. DeMille – o próprio Spielberg foi uma espécie de DeMille moderno, sendo o maior nome do superespetáculo cinematográfico de seu tempo.

A câmera terapêutica logo ganha asas. O menino (Mateo Zoryan quando criança, Gabriel LaBelle na adolescência) passa a fazer pequenos filmes amadores usando as irmãs e amigos como atores em faroestes, histórias de múmia e dramas de guerra. E aí o Spielberg de 75 anos (fez 76 em dezembro) aproveitou para refilmar alguns de seus primeiros filmes, com a ajuda da fotografia de Janusz Kaminski. Através desses pequenos curtas de brinquedo, a arte vai ganhando espaço. O filme mostra todo o carinho pelas câmeras e pelo processo de montagem. É o A Noite Americana (1973) de Spielberg, misturado com seu Amarcord (1973).

A presença rápida de um tio (Judd Hirsch) que se afastou da família para trabalhar em um circo e no cinema mudo deixa as coisas claras: família e arte entrarão em conflito dentro do jovem. E amor e obrigação talvez não sejam correlacionadas com aquilo que imaginamos a princípio.

Entra aí o circo de novo e, por extensão, DeMille de novo. Críticos mal-humorados tantas vezes torceram o nariz para Spielberg, acusando-o de não fazer mais do que espetáculos circenses na tela. Ao refilmar partes de seus próprios filmes de infância, Spielberg celebra o mais puro amor em narrar histórias através de um câmera. E mostra que já estavam ali, desde cedo, os “dois lados” de sua carreira: o puro escapismo e o cineasta “sério”.

Essa revisita de Spielberg à própria história é, ao mesmo tempo, uma narrativa de como compreendeu os fatos na época e a visão que tem deles hoje. É muito sobre a relação do pai, Burt, um homem das ciências exatas, pioneiro dos computadores, um sujeito metódico e introspectivo, e da mãe, Mitzi, uma pianista que trocou a arte pelo trabalho de dona de casa, é expansiva e até exagerada na personalidade, mas que, embora ame sua família, se sente presa. É um relacionamento visto de modo complexo: todos se amam, mas isso será o suficiente?

É naturalmente seu filme mais pessoal (ele assina como co-roteirista, função que exerce raramente, com Tony Kushner), mas permite observar uma camada extra desse aspecto em outros de seus filmes. A família, sobretudo a relação entre pais e filhos, sempre foi perceptível em sua obra, mas ganha um reforço importante a partir do que se vê em Os Fabelmans.

Há a questão do pai em ir ou não embora no fim de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). A família ainda sofrendo com um divórcio e um pai ausente em E.T., o Extraterrestre (1982). A complicada relação pai e filho de Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), onde os dois são arqueólogos, mas o pai é mais “cientista” e o filho mais “artista”, digamos assim. A questão da maternidade em Inteligência Artificial (2001). O jovem que sofre com o divórcio dos pais em Prenda-me Se For Capaz (2002). Pai e filhos forçados a se reconectar em meio ao caos de Guerra dos Mundos (2005). Nunca é o tema principal, mas esteve sempre presente e agora é possível ver com que força.

Um momento em especial do novo filme converge dramaticamente os dois temas – família e cinema – e mostra de maneira exemplar a visão do protagonista. Em uma ocasião traumática, que Sammy vive e testemunha, ele de repente vê um espelho e se vê filmando aquele momento, imaginando a melhor maneira de mostrar seus pais (vividos por Paul Dano e Michelle Williams, ambos ótimos) e irmãs (Keeley Karsten, Julia Butters e Sophia Kopera). Essa é uma representação sagaz de Spielberg como cineasta: alguém cuja visão sempre busca a maneira mais interessante de mostrar algo na tela.

Veja a maneira como o pequeno Sammy projeta a imagem nas mãos: o cineasta tem, em suas mãos, o controle do que conta. Ou como o jovem Sammy descobre ao montar um filme um segredo no fotograma (ecos de Blow-Up, de Antonioni) e de como revela o segredo não com palavras, mas com a projeção do filme. E como a alma artística da mãe é capturada numa bela sequência em que ela dança com uma camisola que fica translúcida iluminada pelos faróis de um carro. Ou a conexão entre ele e a primeira namorada quando ela olha pelo visor da câmera com que ele está filmando.

Essa busca se conecta diretamente à cena em que o jovem Sammy conhece o mitológico John Ford. É outra ocasião que Spielberg viveu mesmo e já havia contado muito bem no documentário de Peter Bogdanovich sobre o Homero do western, Directed by John Ford (2006). A lição que ele recebe do irascível Ford (“Quando o horizonte está no alto é interessante. Quando está embaixo é interessante. Quando está no meio é uma chatice de merda!”), ele sempre procurou seguir (atenção para o divertido último plano do filme).

Essa cena, aliás, merece menção também pela ótima escalação de David Lynch para o papel de Ford. Ele está ali como ator, mas dá para desassociar Lynch da sua figura de diretor? Spielberg o colocou no papel consciente disso? Nada mais diferente que o cinema de David Lynch do cinema de John Ford e o de Spielberg. Essa cena – Lynch vivendo Ford conversando com um ator vivendo Spielberg, dirigidos por Spielberg – é como se o cinema desse uma volta em torno de si mesmo, uma bela pirueta.

Spielberg ainda passa por sua relação com a herança judaica e pelo primeiro amor, sempre temperando o drama com boa dose de humor e salpicando de referências cinematográficas em imagens, diálogos e música, até sobre o próprio filme (“Nunca conte isso para ninguém!”; “Ok. A não ser que eu faça um filme sobre”). Antes dos logos das produtoras, ele aparece com uma mensagem de agradecimento ao público por ter saído de casa para assistir ao seu filme. Ao final, nós é que agradecemos.

Ah, sabe quem uma vez também apareceu antes dos créditos de um filme para apresentá-lo ao público do cinema? Cecil B. DeMille, em Os Dez Mandamentos (1956).

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OS FABELMANS. The Fabelmans. Estados Unidos/ Índia, 2022.
Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Spielberg e Tony Kushner. Elenco: Gabriel LaBelle, Michelle Williams, Paul Dano, Mateo Zoryan, Seth Rogen, Judd Hirsch, Chloe East, David Lynch, Keeley Karsten, Julia Butters, Sophia Kopera, Alina Brace, Birdie Borria.

GOLPE DE MESTRE
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2023: 1
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Looke, NetMovies, Oi Play. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Truque de cartas cinematográfico

Paul Newman e Robert Redford, dirigidos por George Roy Hill, já tinham funcionado muito bem em Butch Cassidy (1969). Quatro anos depois, eles estavam juntos de novo para Golpe de Mestre (1973) e a magia se repetiu e foi ainda mais longe. Premiado com sete Oscars, incluindo o de melhor filme, essa comédia de trapaceiros que se passa nos anos 1930 se estabeleceu como um modelo muito copiado e, assim, pode já não enganar tanto o espectador já escolado, mas chega aos 50 anos mantendo seu charme intacto.

Para começar, é sempre notável quando uma comédia consegue o feito de levar o Oscar de melhor filme. É bem sabido que filmes do gênero costumam ser menosprezados em prêmios ou listas de melhores dos críticos. Este, ainda por cima, está encravado entre O Poderoso Chefão (1972) e O Poderoso Chefão – Parte II (1974), dois épicos dramáticos. Golpe de Mestre se passa em época parecida ao primeiro Chefão (que é nos anos 1940) e também tem o crime como componente crucial de sua trama. Mas, sobretudo se comparado aos filmes de Coppola, é absolutamente faceiro.

Não discute nada “importante”, não é cínico, não é revisionista nem baixo astral. Contraria tudo o que a Nova Hollywood vinha fazendo naqueles anos. Sua trama parte de dois trambiqueiros de rua que aplicam um golpe que dá certo demais. Arrancam uma bolada de um sujeito, mas não sabem que a grana estava endereçada a um sujeito poderoso e perigoso, Doyle Lonnegan (Robert Shaw). Como resultado, o mentor Luther (Robert Earl Jones) é morto e o mais jovem, Johnny Hooker (Redford), pode ser o próximo.

Então, ele procura outro veterano, Henry Gondorff (Newman), e, com a ajuda de uma rede de trambiqueiros, um grande golpe começa a ser armado para vingar a morte do amigo assassinado. Hooker ajuda Gondorff a recuperar a perícia de outros tempos e sair do buraco e Gondorff ajuda Hooker a ser mais profissional e cuidadoso com a própria vida. É um par de ases que pode valer por uma quadra.

Mas boa parte do que assistimos é o planejamento e a preparação detalhada do golpe, o que já era um clássico dos filmes de roubo como Rififi (1955), O Grande Golpe (1956) e o primeiro Onze Homens e um Segredo (1960), mas aqui não se trata de um roubo a algum lugar, como um banco, uma joalheira ou um cassino. É fundamental uma encenação elaboradíssima, consagrando um tipo de trama a que o cinema voltaria muitas vezes desde então.

Essa preparação é dividida em duas saborosas partes. Numa, Gondorff e Hooker vão tentando fisgar Lonnegan partindo de um jogo de poquer em um trem onde a trapaça é uma das cartas. Na outra, a locação é escolhida, o cenário é erguido e elenco é selecionado como numa peça de teatro. “Minha especialidade é ser um inglês”, diz um candidato, a quem é oferecido um figurino. “Pode deixar, eu trago meu material comigo”. Simpático e profissional, em uma espécie de cultura própria dos golpistas, com suas regras, código de honra, linguajar e procedimentos.

Um complicador é que Hooker está sendo perseguido não só pelos matadores profissionais de Lonnegan quanto por um policial corrupto que ele também enganou. E não conta isso ao novo parceiro. Isso é importante porque deixa no ar segredos entre eles que ajuda a convencer nas reviravoltas do enredo. O par de ases pode não ser o suficiente, se a mão vier desfavorável.

É claro que, cinco décadas depois, os truques de Golpe de Mestre já foram revisitados muitas vezes por outros filmes e talvez sua prestidigitação não surpreenda tanto quanto na época de seu lançamento. Mas o fato é que o filme não depende disso. Há muito mais o que saborear. O diretor George Roy Hill não se contentou com a ambientação nos anos 1930 e aproximou como pôde o filme do estilo de narrativa da época.

Há o visual com uma reconstituição de época caprichada e figurinos de Edith Head (o ícone máximo nessa função em Hollywood, muito identificada com o cinema clássico). Há sacadas de edição como o efeito de cortina ou íris para passar de uma cena a outra. Há as cartelas que introduzem os capítulos, com ilustrações de Jaroslav Gebr que parecem saídas de revistas da época (com o efeito de página virando, inclusive). Há os créditos iniciais, que começa com o logo antigo da Universal e desfila o elenco com suas cenas vindouras no filme, depois de apresentados com uma solenidade irônica, “The players” (que a dublagem brasileira e a legenda no DVD chamam “Os jogadores”).

Sem falar na trilha sonora antológica que resgatou obras do pianista Scott Joplin, rearranjadas para o filme por Marvin Hamlisch. O ragtime de Joplin é, na verdade, de uns 20 anos antes do tempo da trama do filme, lá dos anos 1910, mas o fato é que a música dá o clima exato do filme, o que se provou bem mais importante que essa precisão histórica.

A obra de Joplin passava então por um processo de redescoberta após décadas meio esquecida. Em Golpe de Mestre, ela tem status de protagonista: não aparece sob os diálogos, mas entra em cena em sequências onde ela é absoluta. Somando o imenso sucesso popular do filme, que ainda hoje figura entre as 100 maiores bilheterias americanas (corrigida a inflação), o relativo desconhecimento geral das músicas e sua importância no filme, composições como “The entertainer” ficaram para sempre ligadas ao filme.

Tudo isso ajuda o filme a fazer truques de cartas na nossa frente, enquanto bate nossas carteiras: quando deu por si, a plateia já está conquistada.

GOLPE DE MESTRE. The Sting. Estados Unidos, 1973.
Direção: George Roy Hill. Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning, Eileen Brennan, Ray Walston, Harold Gould, Dana Elcar, Dimitra Arliss, Jack Kehoe, Robert Earl Jones, Sally Kirkland, Kathleen Freeman.

10 – O VAMPIRO (Vampyr)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. YouTube: legendado.

Ainda é uma oportunidade de ver o vampirismo no cinema sem a influência do Drácula vivido por Bela Lugosi. O filme ainda está visivelmente na transição entre o mudo e o sonoro, com muitas cartelas, poucos diálogos e muitas inspirações visuais.
Alemanha/ França. Direção: Carl Theodor Dreyer. Roteiro: Christen Jul e Carl Theodor Dreyer, baseado no romance de Sheridan Le Fanu. Elenco: Julian West, Maurice Schutz, Rena Mandel, Sybille Schmitz, Jan Hieronimko.

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9 – TARZAN, O FILHO DAS SELVAS (Tarzan, the Ape Man)
Mídia física: DVD (só e na Coleção Tarzan). Streaming: não disponível no Brasil.

Primeiro da série de Tarzan com o campeão de natação Johnny Weissmuller, mostrando o encontro do homem-macaco com a jovem inglesa Jane. Mesmo com as limitações técnicas da época, tem aroma e sabor de grande aventura. Weissmuller e Maureen O’Sullivan continuam os atores definitivos nos personagens, com uma química sexual ainda não seria tolhida pelo Código Hays e que iria ainda mais longe no segundo filme. E o filme consagrou para a história o grito característico do herói e também a chipanzé Cheeta.
Estados Unidos. Direção: W.S. Van Dyke. Roteiro: Cyril Hume e Ivor Novello, baseado no romance de Edgar Rice Burroughs. Elenco: Johnny Weissmuller, Maureen O’Sullivan, Neil Hamilton, C. Aubrey Smith.

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8 – FLORES E ÁRVORES (Flowers and Trees)
Mídia física: DVD (na coleção Disney Treasures – Silly Symphonies). Streaming: Disney Plus. YouTube: som original.

Primeira animação colorida, primeiro filme em Technicolor de três cores e primeiro premiado com o Oscar de melhor curta de animação, este exemplar da série Silly Symphonies, da Disney, é histórico e abriu caminho para a produção de Branca de Neve e os Sete Anões, cinco anos depois.
Estados Unidos. Direção: Burt Gillett. Roteiro: não creditado. Vozes na dublagem original: Clarence Nash, Pinto Colvig.

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7 – BOUDOU SALVO DAS ÁGUAS (Boudu Sauvé des Eaux)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

Um vagabundo é salvo de um afogamento por um livreiro classe média alta. Ao acolhê-lo, a vida pequena burguesa da família é posta de pernas para o ar. Iconoclasta e sexualmente atrevido, a comédia causou escândalo entre puritanos da época.
França. Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir e Albert Valentin, baseado na peça de René Fauchois. Elenco: Michel Simon, Charles Granval, Marcelle Hainia, Sévérine Lerczinska.

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6 – LOUCURA AMERICANA (American Madness)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

É muito Frank Capra este história de um gerente de banco que tenta conter o caos quando, após um assalto, os correntistas correm ao local para retirar seu dinheiro – que o banco não tem no cofre porque está tudo emprestado. Realizado entre a quebra da Bolsa de 1929 e o New Deal, é um comentário sobre a Grande Depressão no calor da hora.
Estados Unidos. Direção: Frank Capra e, não creditados, Allan Dwan e Roy William Neill. Roteiro: Robert Riskin. Elenco: Walter Huston, Pat O’Brien, Kay Johnson, Constance Cummings, Gavin Gordon, Arthur Hoyt, Sterling Holloway.

Crítica de Loucura Americana:
Humanismo no calor da hora

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5 – AMA-ME ESTA NOITE (Love me Tonight)
Mídia física: DVD. Streaming: Pluto TV.

Mamoulian começa seu filme com uma sinfonia de sons cotidianos da cidade. Depois faz a antológica “Isn’t romantic?” viajar de pessoa em pessoa da capital a uma propriedade no interior, unindo dois predestinados a se amar. Essa ligação vai servir a uma comédia de erros em que um alfaiate é confundido com um nobre e se apaixona por uma princesa. Com uso inventivo de som e imagem, o diretor assina um filme que ajudou o cinema sonoro a avançar. E ainda tem lances atrevidos, que obrigou a cortes quando o filme foi relançado sob o Código Hays.
Estados Unidos. Direção: Rouben Mamoulian. Roteiro: Samuel Heffenstein, George Marion Jr. e Waldemar Young, baseado na peça de Léopold Marchand e Paul Armont. Elenco: Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald, Charles Ruggles, Myrna Loy, Charles Butterworth, C. Aubrey Smith.

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4 – ENTREGA A DOMICÍLIO ou DOIS MÚSICOS DESAFINADOS (The Music Box)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil. YouTube: legendado, dublado.

Uma ideia simples rendeu um antológico curta de O Gordo e o Magro, vencedor do Oscar de melhor curta de comédia: a dupla precisa entregar um piano em uma casa no alto de uma longa escadaria. Naturalmente, o piano sempre descarrila escada abaixo por mais esforço que os dois amigos façam – numa espécie de paródia hilariante do mito de Sísifo.
Estados Unidos. Direção: James Parrot. Roteiro: H.M. Walker. Elenco: Stan Laurel, Oliver Hardy, Billy Gilbert.

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3 – O FUGITIVO (I Am a Fugitive from a Chain Gang)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

A Warner era conhecida na época por abordar as feridas sociais e este é um de seus principais representantes. Paul Muni é um veterano de guerra que troca um emprego seguro para tentar virar um engenheiro trabalhando em construções pelo país. Mas a Grande Depressão logo o coloca em dificuldades: sem emprego e sem dinheiro. Enganado, acaba preso e mandado a uma prisão de trabalhos forçados. As condições desumanas denunciadas aqui ajudaram a expor essa realidade da violência do Estado e a mudar leis. A cena final, com Muni entrando nas sombras para dizer a última frase, é soberba.
Estados Unidos. Direção: Mervyn LeRoy. Roteiro: Howard J. Green, Brown Holmes, Sheridan Gibney e Robert E. Burns. Elenco: Paul Muni, Glenda Farrell, Helen Vinson.

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2 – LADRÃO DE ALCOVA (Trouble in Paradise)
Mídia física: DVD (só e no digipack Ernst Lubitsch). Streaming: não disponível no Brasil

Nestes anos ainda pré-código Hays, Ernst Lubitsch podia ser atrevido e fazer um filme como esse, cheio de insinuações sexuais que qualquer um sacava fácil. Logo quando o título original aparece, surgem as palavras “Trouble in” e “Paradise” demora um pouco mais, para o público ver a imagem de uma cama no lugar (logo, “confusão na cama”). Miriam Hopkins e Herbert Marshall se seduzem num jantar, fingindo que são milionários, mas logo descobrem que ambos são golpistas. E tudo bem: bater a carteira um do outro faz parte da sedução. Eles planejam um golpe em uma milionária, mas as coisas se complicam quando a vítima mostra interesse no golpista. Quando a sombra dos dois aparece na cama, o público sabe que a coisa é séria. Dois anos depois, um filme como esse não poderia mais ser feito.
Estados Unidos. Direção: Ernst Lubitsch. Roteiro: Samson Raphaelson e Grover Jones, baseado na peça de Aladar Laszlo. Elenco: Herbert Marshall, Miriam Hopkins, Kay Francis, Charles Ruggles, Edward Everett Horton, C. Aubrey Smith, Robert Greig.

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1 – SCARFACE, A VERGONHA DE UMA NAÇÃO (Scarface)
Mídia física: DVD. Streaming: Belas Artes a la Carte, Looke. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Acompanhando a trajetória de um gangster quase psicopata, com algumas passagens em comum com a vida de Al Capone, um dos principais chefões da época, o filme de Howard Hawks é violento e até foi acusado de glamourizar a vida dos criminosos. O jornalista Ben Hecht, autor do argumento, conhecia bem o assunto e Hawks usa todo seu talento como narrador, distribuindo marcas de “X” pelo filme para sublinhar as mortes. E ainda há a relação do protagonista com a irmã, próxima do incesto. Um filme vigoroso, destemido, intenso e, sobretudo, muito bem contado.
Estados Unidos. Direção: Howard Hawks. Co-direção: Richard Rosson. Roteiro: Fred Pasley e Howard Hawks (não creditado), com diálogos de Seton I. Miller, John Lee Mahin e W.R. Burnett, a partir do argumento de Ben Hecht, baseado no livro de Armitage Trail. Elenco: Paul Muni, Ann Dvorak, Karen Morley, Osgood Perkins, George Raft, Boris Karloff, Jean Harlow.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

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NOTA: A percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

PELÉ
⭐⭐⭐½
Mídia física: não disponível no Brasil. Streaming: Netflix. (em 30/12/2022)
* Texto publicado originalmente em 13/04/2021, no Facebook

O esplendor e a fragilidade

No começo do documentário Pelé, mais um a contar a trajetória do rei do futebol e a tentar captar sua magia em campo, o protagonista é mostrado entrando em cena, se encaminhando para a cadeira onde dará sua entrevista – de andador. O super-herói dos gramados é confrontado com seu lado fisicamente mais frágil.

O filme tenta, de alguma maneira, não ser meramente celebratório e entender a figura do Pelé “e do Edson”, como ele sempre gostou de dizer. Estabelece um recorte de tempo: da Copa do Mundo de 1958, seu alvorecer para o mundo, aos 17 anos, à de 1970, sua última e seu esplendor.

Entre as jogadas incríveis e os gols antológicos, o filme também toca na relação de Pelé com a ditadura militar, como os governos dos generais tentaram se aproveitar de seu sucesso e até da pressão que fizeram para que ele jogasse a Copa de 1970.

Não é segredo que, fora dos gramados, Pelé tem vários senões. A história da filha Sandra, que é foi obrigado a reconhecer na justiça, não é citada, e a desculpa é que essa história não faz parte do recorte do tempo (embora ele fale sobre as traições à primeira mulher).

Mas a ditadura faz. O filme faz uma comparação com Muhammad Ali, pelo boxeador também ser um gênio em seu esporte, mas ao mesmo tempo manter uma postura firme contra a guerra do Vietnã, por exemplo. Juca Kfouri faz uma ponderação: em um regime autoritário, que matava e torturava, Pelé teria escolha, a não ser abraçar o ditador Médici ao voltar campeão da Copa de 1970?

A reflexão é proposta ao espectador. E também ao próprio Pelé. O que o jogador pensava sobre o que acontecia no Brasil? Pela primeira vez, Pelé fala longamente sobre o assunto.

Esse documentário é também uma visão um pouco “de fora”, guiada pelos diretores britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas, com distribuição da Netflix. Difere de outros dois a serem destacados: Isto É Pelé, de 1974, com Pelé ainda jogando, uma visão do rei ainda em atividade (na Globoplay, no YouTube, no Now e no Looke); e Pelé Eterno (2004), uma abrangente passada pela vida do jogador, que se pretende definitiva (mas não o questiona sobre a ditadura).

São visões diferentes sobre a mesma história, mostrando a riqueza da vida de Pelé. Alguns mais celebratórios, outros mostrando suas contradições. O que não muda em nenhum deles é a comprovação de que ali estava um artista da bola, um ser sem igual nos gramados.

“Pelé”, 2021.
Direção: David Tryhorn e Ben Nicholas.

De tudo o que se falou ontem, na Inglaterra alguém disse e é verdade: quem ama o futeboĺ, ama Pelé.

E o cinema ajudou a perpetuar esse amor. Eu, por exemplo, não tenho idade para ter visto Pelé jogar. Quer dizer: até vi. Aposentado. Pela TV, num jogo beneficente em 1983, pela Seleção Brasileira.

Mas como contar para as gerações seguintes, com tanto sujeito que acha que o mundo começou no ano em que ele nasceu e que começa a inventar que um craque de hoje supera o Maior de Todos, o gigante que Pelé foi? Como explicar essa entidade sobrenatural que tomava posse do humano Edson por 90 minutos mais acréscimos todas as vezes em que cruzava as quatro linhas sagradas do gramado?

No documentário “Era uma Vez em Hollywood” (1974), a atriz e cantora Liza Minnelli falou sobre sua mãe, também atriz e cantora Judy Garland, que havia morrido cinco anos antes: “Graças a Deus pelos filmes! Eles podem capturar a performance de um ator e guardá-lo ali para sempre. E se alguém um dia perguntar ‘Quem foi ele?’ ou ‘Quem foi ela?’, acho que um pedaço de filme responde melhor do que qualquer um”.

Isso também vale para Pelé.

O cinema estava lá para imortalizar Pelé, o seguindo no campo nos anos 1950 e 1960, e o videotape das televisões nos anos 1970. Assim, quem não tem idade para ter visto o Rei ao vivo pode vê-lo na plenitude de seus poderes em documentários ou mesmo em compilações de lances no YouTube.

Mas o Rei também está no cinema como personagem de filmes que contam sua história ou mesmo como ator. E aqui estão dez deles.

(FOTO: Pelé em 1973, por Lemyr Martins)

O Rei Pelé (1962), de Carlos Hugo Christensen

Cinebiografia romanceada de Pelé, feita ainda com o Rei em plena ascensão, antes ainda do bicampeonato do Brasil, no Chile. Pelé interpreta a si mesmo, assim como outros jogadores do Santos. Onde ver: YouTube (clique abaixo).

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O Mundo a Seus Pés (1970), de Alberto Isaac

É o filme oficial da Fifa sobre a Copa do Mundo de 1970, um dos grandes (talvez o maior) momentos da carreira de Pelé. Onde ver: DVD, YouTube (clique abaixo).

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Isto É Pelé (1974), de Luiz Carlos Barreto

O primeiro grande documentário sobre Pelé, lançado em seu último ano no Santos. Ele ainda teria três anos como profissional no Cosmos, de Nova York. Mas esse é um registro em que se pode captar como Pelé era visto ainda como profissional. Onde ver: Looke, NetMovies, Pluto TV, YouTube (clique abaixo).

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Os Trombadinhas (1980), de Anselmo Duarte

Pelé é co-autor do argumento e interpreta a si mesmo colaborando com a polícia para desbaratar uma gangue de marginais que exploram crianças para cometerem crimes. A direção é de Anselmo Duarte, de O Pagador de Promessas. Onde ver: YouTube (clique abaixo).

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Fuga para a Vitória (1981), de John Huston

Mais famoso filme de Pelé como ator, ele é um dos prisioneiros de guerra que armam um plano de fuga quando precisam enfrentar os nazistas em uma partida de futebol. Outros grandes craques também estão no elenco, além de Sylvester Stallone e Michael Caine. Onde ver: DVD, HBO Max.

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Pedro Mico (1985), de Ipojuca Pontes

Talvez a mais ambiciosa investida de Pelé como ator. Aqui,ele não interpreta a si mesmo ou uma versão de si mesmo. É um malandro carioca que rouba joias e precisa enganar a polícia e sua própria quadrilha. Pelé é, no entanto, dublado por Milton Gonçalves. Onde ver: YouTube (clique abaixo).

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Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986), de Carlos Manga

No ano da Copa de 1986, os Trapalhões se voltaram para o futebol e Pelé comparece como um jornalista esportivo que tenta ajudar o quarteto a driblar a corrupção dentro de um clube de futebol. O Rei ainda aparece fazendo algumas jogadas e atuando no gol. Onde ver: YouTube (clique abaixo) e os filmes dos Trapalhões também têm passado no SBT nos domingos, a 0h.

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Pelé Eterno (2004), de Aníbal Massaini Neto

Documentário que pretende ser definitivo sobre a trajetória do Rei. Da infância à consagração internacional, reúne centenas de gols, dezenas de depoimentos, tenta recriar gols dos quais não há registro e tem sacadas como a contagem regressiva para o gol 1.000. Onde ver: DVD, Apple TV (aluguel digital) e passou ontem no SporTV (talvez reprise estes dias).

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Pelé – O Nascimento de uma Lenda (2016), de Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist

Produção estadunidense que busca contar a infância e adolescência do Rei até a consagração na Copa de 1958, aos 17 anos. Onde ver: DVD, Globoplay.

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Pelé (2021), de Ben Nicholas e David Tryhorn

O mais recente documentário sobre o Rei se concentra nos anos mágicos entre as copas de 1958 e de 1970, relacionando Pelé ao Brasil moderno de Juscelino e da bossa nova, e também contextualizando a trajetória de Pelé durante a ditadura militar. Já de 2021, também mostra um Pelé já mais frágil, em contraste com o super-herói dos gramados, que nos acostumamos a ver. Onde ver: Netflix.

5 – DR. MABUSE, O JOGADOR (Dr. Mabuse, der Spieler)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. YouTube: legendado.

Mastodôntico filme de quase 4h30 sobre um criminoso hipnotizador e mestre dos disfarces duela com um promotor de justiça enquanto leva adiante planos de enriquecer com sua gangue. Através dos tempos foi retalhado, re-editado, dividido em dois. É um grande tour de force do diretor Lang e da roteirista Thea von Harbou, casados, que começa com um plano eloquente de Mabuse embaralhando fotos de suas várias identidades e termina de forma frenética.
Alemanha. Direção: Fritz Lang. Roteiro: Thea von Harbou, baseado no romance de Norbert Jacques. Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Gertrude Welcker, Aud Egede-Nissen, Bernhard Goetzke, Alfred Abel.

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4 – O ENRASCADO (Cops)
Mídia física: DVD (na coleção Buster Keaton). Streaming: não disponível no Brasil. YouTube: sem legenda.

No começo, Keaton tenta provar à amada que pode ser um homem de sucesso nos negócios. O show mesmo começa lá pela metade do cirta, quando ele passa a ser perseguido por centenas de policiais. Cenas que remetem aos então já antigos Keystone Cops e onde Keaton desfila várias de suas mais famosas gags.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Buster Keaton e Edward F. Cline. Elenco: Buster Keaton, Edward F. Cline, Virginia Fox.

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3 – HÄXAN – A FEITIÇARIA ATRAVÉS DOS TEMPOS (Häxan)
Mídia física: DVD. Streaming: Classix. YouTube: legendado.

Numa época em que o documentário não era ainda um gênero melhor definido, Häxan se porta como um filme didático, mistura fatos históricos com outros fictícios e lendas, se esmera em criar imagens demoníacas assustadoras ao mesmo tempo em que denuncia as torturas e falsas acusações da Igreja. É tecnicamente muito inspirado e influenciou filmes de horror que vieram bem depois.
Suécia/ Dinamarca. Direção e roteiro: Benjamin Christensen. Elenco: Maren Perdersen, Clara Pontoppidan, Elith Pio, Benjamin Christensen.

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2 – NANOOK, O ESQUIMÓ (Nanook of the North)
Mídia física: DVD. Streaming: Mubi. YouTube: legendado.

Uma das pedras fundamentais do gênero documentários ainda causa debates porque o diretor Flaherty na verdade encenou boa parte do que se vê no filme, buscando recriar uma maneira de viver dos esquimós que, às vezes, nem existia mais. No entanto, Nanook faz realmente o que faz diante da câmera: sejam ações de seu cotidiano ou que já não fazia há muito tempo. O que importa é que Flaherty, através de seu personagem, capta maravilhosamente a essência da vida humana contra uma natureza indomável em um lugar inóspito.
França/ Estados Unidos. Direção: Robert J. Flaherty. Roteiro: Frances H. Flaherty e Robert J. Flaherty. Elenco: Allakariallak, Alice Nevalinga, Cunayou, Allegoo.

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1 – NOSFERATU (Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens)
Mídia física: DVD. Streaming: Belas Artes a la Carte, Globoplay/ Telecine, Looke, NetMovies, Pluto TV, Cultflix, Filmbox Plus, Classix. Aluguel ou compra digitais: Claro TV. YouTube: legendado.

Murnau fez uma adaptação pirateada e mal disfarçada de Drácula, de Bram Stoker, foi processado e quase todas as cópias e negativos foram destruídos. O filme sobreviveu por causa de cópias depois encontradas em outros países. O vampiro aqui ainda não tem a imagem de sedutor que ganharia nas tantas vezes em que voltaria à tela. É uma criatura que sofre mesmo de uma maldição, com imagem e alma desfiguradas. O filme alia o conto de horror ao horror real da peste negra, com a infestação de ratos comandados pelo Conde Orlok. E cria uma atmosfera que definiu um gênero, com as antológicas sombras ameaçadoras do vampiro tomando em cena o lugar dele próprio.
Alemanha. Direção: F.W. Murnau. Roteiro: Henrik Galeen, baseado em romance de Bram Stoker. Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangerheim, Greta Schroder.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

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NOTA: A percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

É um clichê sem vergonha dizer que “crítico só gosta do que mais ninguém gosta”. Mas na lista dos 100 melhores filmes do mundo publicada pela revista Sight and Sound, do British Film Institute, a comunidade de críticos parece confirmar a premissa. Em uma comparação entre os eleitos de 1.639 críticos do mundo e a lista (corrigida pela inflação) dos 100 filmes de maior bilheteria, o que se vê é uma dissociação quase total entre o que atraiu as plateias e o que os profissionais da análise cinematográfica consideram como o Olimpo cinematográfico. Um único e solitário filme aparece nas duas relações: O Poderoso Chefão (1972, foto), de Francis Ford Coppola.

Também aí é simbólico que o primeiro filme da lista da Sight and Sound seja virtualmente desconhecido por qualquer um que não trabalhe com cinema (e mesmo para muita gente que trabalha): Jeanne Dielman (1975), de Chantal Akerman. Mas o segundo colocado também foi um dos maiores fracassos de público de Hitchcock; Um Corpo que Cai (1958). E o terceiro foi Cidadão Kane (1941), que também não foi bem nessa seara, em que pese a campanha contra que sofreu do magnata da imprensa William Randolph Hearst.

(EDIÇÃO EM 17/12: Antes de continuar, é bom ter sempre em mente que esta comparação é entre duas listas que possuem limitações naquilo a que se propõem. A lista das maiores bilheterias, corrigidas pela inflação, reduz uma distorção que naturalmente deixa para trás filmes mais antigos, mas tem outras. Por falta de dados ao redor do mundo, ela considera apenas o mercado americano, portanto é basicamente de filmes em língua inglesa. Mercados fortes como o indiano ou o chinês não aparecem. Além disso, há as diferenças de preços de ingressos de sessões normais para sessões 3-D, etc. Já os 100 mais dos críticos é feita a partir de listas de top 10 dos votantes, sem ordem de preferência. O filme citado em mais listas é o primeiro colocado, o melhor do mundo. Logo, matematicamente, este filme pode aparecer em mais listas e não ser o primeiro de nenhum desse eleitores. Mas, para efeito de análise de um cenário e com ponderações, há coisas interessantes a se observar).

O Poderoso Chefão ocupa na lista dos críticos o 12º lugar. Na eleição dos diretores, também ouvidos pela revista para um lista à parte, ficou bem melhor colocado: em 3º. Na lista das 100 bilheterias, ocupa o 25º posto.

A lista dos diretores dá um pouco mais de atenção aos filmes de grande bilheteria. Mais dois chegaram a esse top 100: Tubarão (1975, 62º para os diretores; 7º nas maiores bilheterias) e Lawrence da Arábia (1962, 62º na lista dos cineastas; 84º nas bilheterias).

Nem Steven Spielberg, diretor de Tubarão, nem David Lean, do monumental Lawrence da Arábia, emplacou qualquer filme no top 100 dos críticos. Outro dado extremamente simbólico. Spielberg tem cinco filmes entre os 100 de maior bilheteria, Lean tem três.

Mesmo com a atualização da inflação, a lista das 100 maiores bilheterias é dominada atualmente por filmes de super-heróis e exemplares de séries como Star Wars e Harry Potter, entre outros blockbusters. Produções que, mesmo chegando ao seu máximo, têm chance zero de alcançar um top 100 numa eleição de críticos, claro. Mas muitos clássicos sobrevivem ao tempo também aí, mas, seja lá por que razão, não tiveram reconhecimento da crítica o suficiente para figurar na relação da Sight and Sound.

Começando pela já citada e escandalosa omissão de Lawrence da Arábia, mas também Ben-Hur (1959), de William Wyler, A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols, ou M.A.S.H. (1970), de Robert Altman. Nem estou falando de filmes como Banzé no Oeste (1974), de Mel Brooks, e De Volta para o Futuro (1985), de Robert Zemeckis, que seriam ótimas surpresas num top 100 da crítica, mas, enfim, são “leves demais” para o perfil da lista que veio a público.

A verdade é que há mais filmes da lista das bilheterias que parecem passíveis de entrar nos 100 mais da crítica que exemplares da lista dos críticos que poderiam figurar numa lista das bilheterias. Nesse caso, ninguém nega o sucesso de filmes de Chaplin ou de um Casablanca, mesmo que não figuram como recordistas de bilheteria. Enfim, se esticarmos um pouco o campo e formos buscar nos 200 mais das bilheterias, encontramos mais alguns que entraram no top 100 da Sight and Sound.

São os casos de Janela Indiscreta (38º na dos críticos; fora na dos diretores; 112º na das bilheterias), 2001 – Uma Odisseia no Espaço (6º na dos críticos; 1º na dos diretores; 154º na das bilheterias); Psicose (31º na dos críticos; 46º na dos críticos; 165º na das bilheterias.

Ainda mostra que essas duas faixas de consumidores de cinema talvez realmente não procurem as mesmas coisas em um filme. Claro que a crítica não se preocupa e nem deve se preocupar com isso – muito de sua função passa justamente por tentar chamar a atenção para filmes que deveriam e não têm a atenção de mais gente. Mas que isso não signifique fechar os olhos para aquela parcela de filmes abraçados pelo público e que também merecem uma atenção mais generosa dos analistas – ou mesmo uma redescoberta.

E.T., O EXTRATERRESTRE
Diário de filmes 2022: 122
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Amazon Prime Video, Globoplay. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon. (Em 22/10/2022)

Os adultos são os alienígenas

Em 1982, os filmes que estavam completando 40 anos eram filmes como CasablancaA estranha passageiraSoberbaBambi. Como filmes assim eram vistos em sua quarta década? Como mitos distantes, ícones de um passado remoto do cinema? Como eram vistos em 1982 especialmente por quem assistiu a eles na época da estreia? Será que E.T., o Extraterrestre, que completa 40 anos este ano e voltou aos cinemas este mês, evoca sentimento semelhantes? Que ideia ele desperta em quem não viu o filme em seu lançamento? E quem viu há quatro décadas o terá como um filme de “outro dia mesmo”? Talvez mais do que esse nosso espectador imaginário que, em 1982, assistiu Casablanca na pré-estreia em 1942?

Resumindo: E.T. é tão clássico agora quanto os filmes de 1942 eram em 1982? Trata-se, claro, de uma pergunta com muitas subjetividades. Entre as variáveis a serem pesadas está a questão do acesso ao filme. Em 1982, um filme de 40 anos antes só poderia ser visto pegando alguma reprise na TV ou retrospectiva no cinema. E.T. ficou pouco tempo indisponível para quem quisesse vê-lo: Spielberg resistiu por um tempo à ideia, mas o filme acabou lançado em fitas para videocassete em 1988, depois vieram as exibições em TV (no Brasil, no final de 1990), os lançamentos em DVD e blu-ray, no streaming (atualmente está no Prime Video e no Telecine). Em 2020, a Band exibia o filme quase uma vez por mês.

Ou seja: E.T.  nunca esteve distante de quem quisesse assisti-lo. Talvez por isso pareça “menos antigo”? Não tão clássico quanto Casablanca já era quando o próprio E.T.  chegou aos cinemas? Talvez isso tenha algo a dizer sobre nossa relação com os filmes e com o passar do tempo nessa era de aceleração.

(Leia o texto completo em CinemaEscrito)

Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Peter Coyote, C. Thomas Howell, Erika Eleniak, Pat Welsh (voz).

TROMBA TREM
Diário de filmes 2022: 119
Mídia física: não disponível no Brasil. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Claro TV Plus, Vivo Play. (Em 10/12/2022)

Carisma em mais que um episódio estendido

Tromba Trem (2010) é uma das melhores séries animadas brasileiras. Começando por um contexto bem criativo, apesar de, sim, serem animais falantes: Gajah, um elefante indiano desmemoriado, Duda, uma tamanduá alto-astral e vegetariana, e uma colônia de cupins atravessa a América Latina num trem. O grupo tenta perseguir um dirigível, de onde o paquiderme caiu antes de perder a memória e o qual a rainha dos cupins afirma que é a nave-mãe que levará seu povo para o planeta de onde vieram – porque os cupins, claro, são muito evoluídos para serem da Terra. Na viagem sem fim, eles vão vivendo aventuras com todo tipo de bicho que encontram. Tromba Trem, o filme, acerta em muitos níveis – e um deles é em se colocar como um ponto de inflexão dessa narrativa.

Antes, logo no começo, acerta ao resumir rapidamente a ambientação da trama e os personagens principais, o que é fudamental para a parcela do público que vai assistir ao filme sem estar familiarizado com a série. Gajah engole uma mosca, se engasga e tem a célebre sequência do “filme da vida” passando em sua mente – com direito a sala de cinema e pipoca para assistir. “Pelo menos o meu filme vai ser bem curto – porque eu não lembro de nada desde que caí daquele dirigível”, sentencia.

No entanto, essa sequência que funciona como uma introdução esperta também tem importância sobre o que vem pela frente, já que o filme vai dando elementos sobre o passado do elefante e sua memória vai começando a juntar os pedaços do quebra-cabeças. Tromba Trem, o filme, não é só um episódio estendido da série, uma aventura a mais: ele se coloca como um possível gran finale para as histórias dessa trupe.

(Leia o texto completo no CinemaEscrito)

Tromba Trem. Brasil, 2022.
Direção: Zé Brandão. Roteiro: Debora Guimarães e Pedro Vieira. Vozes: Roberto Rodrigues, Maíra Kesten, Elisa Lucinda, Luca de Castro, Hugo Souza, Marisa Orth, Caíto Mainier, Ed Gama.

A lista da revista Sight and Sound, que apontou o que seriam os 100 melhores filmes de todos os tempos a partir de listas de 1.639 críticos e pesquisadores, fala mais sobre o movimento do pensamento geral da crítica do que sobre os filmes em si. Há quem, por exemplo, se incomode de listas como essas apontarem sempre os mesmos filmes. Gostariam de ver filmes diferentes. Alguém poderia responder que então não seria uma lista de melhores, mas uma lista de “filmes diferentes”, mas enfim. O fato é que esta lista de 2022 mostra que a corrente que privilegia produções recentes em lugar de grandes clássicos ganhou força. O maior exemplo disso é que quatro filmes eleitos foram lançados de 2013 para cá – ou seja: após a publicação da lista anterior, que é de 2012.

São eles: Retrato de uma Jovem em Chamas (2019, em 30º), Moonlight (2016, 60º), Parasita (2019, 90º) e Corra (2017, 95º, foto).

Pode parecer pouco, mas veja: em 2012 nenhum filme lançado nos dez anos anteriores chegou ao top 100. Em 2002, três filmes lançados entre 1993 e 2002 ficaram entre os 100 mais: As Coisas Simples da Vida (2000, 87º), Tudo sobre Minha Mãe (1999, 88º) e Amores Expressos (1994, 98º). Dois se mostraram perenes: As Coisas Simples da Vida apareceu nas duas listas seguintes; Amores Expressos não entrou na lista de 2012, mas voltou nesta.

Essa comparação entre as listas também revela uma tendência bastante clara: todas as décadas do ano de 1980 para trás perderam representantes, enquanto todas de 1981 para a frente agora têm mais filmes eleitos.

Os anos de 1911 a 1920 tinham um filme na lista de 2012 e agora zerou. De 1921 a 1930, caiu de nove para sete. De 1931 a 1940, caiu de sete para cinco. De 1941 a 1950, caiu de 11 para dez. De 1951 a 1960, de longe a década com mais filmes, o número reduziu de 27 para 23. De 1961 a 1970, a queda foi de 17 para 16. E de 1971 a 1980, caiu de 15 para 14.

Por outro lado, os anos de 1981 a 1990 tiveram um aumento de sete para nove filmes. De 1991 a 2000, de seis para nove. De 2001 a 2010, de um para três. E de 2011 a 2020, de zero para quatro.

No que se refere aos quatro filmes da década mais recente, é importante observar que temos aí uma cineasta mulher, dois diretores negros e um filme sul-coreano. Um recorte alinhado a uma necessária valorização de representatividade identitária que ganhou força no mercado, nas premiações e na crítica nos últimos anos. Isso acabou se refletindo também nesse aspecto relativo ao avanço de filmes mais novos ocupando espaços, mesmo que a qualidade em comparação com os grandes clássicos possa ser questionada.

Não é nenhuma novidade que a comédia costuma ser menosprezada pela crítica profissional. Fazer rir muitas vezes é considerado “pouco importante”, a habilidade narrativa da comédia é pouco analisada e, paralelamente, os prêmios também não dão atenção a filmes ou atores nesse gênero. A nova lista da revista Sight and Sound, divulgada na quinta, mostra isso de maneira chocante: dos 100 melhores filmes apontados como os melhores do mundo na votação com 1.639 críticos de todo o planeta, míseros oito são comédias.

São eles: Cantando na Chuva (1952, em 10° na lista), Playtime – Tempo de Diversão (1967, 23º), Luzes da Cidade (1931, 36°), Quanto Mais Quente Melhor (1959, 38°, foto acima), Se Meu Apartamento Falasse (1960, 54°), Bancando o Águia (1924, 54°), Tempos Modernos (1936, 78°), A General (1928, 95°). Dois de Chaplin, dois de Buster Keaton, dois de Billy Wilder, um de Jacques Tati e o musical de Gene Kelly e Stanley Donen. Metade vindo lá do cinema mudo.

Não é uma novidade. É praticamente o mesmo número da lista anterior, de 2012, com apenas um a mais: mesmos filmes, apenas com o acréscimo de Se Meu Apartamento Falasse.

Mestres como Woody Allen, os irmãos Marx, Ernst Lubitsch, Preston Sturges, Howard Hawks, o grupo Monty Python, entre outros, foram todos sumariamente escanteados pelos críticos.

Na lista paralela dos melhores segundo os diretores (480 votaram), a coisa é ainda pior. Só seis comédias conseguiram lugar entre os 100, nenhuma entre os 40 primeiros: Playtime – Tempo de Diversão (41º), Luzes da Cidade (46º), Doutor Fantástico (1964, 46º), Cantando na Chuva (53º), Quanto Mais Quente Melhor (62º), Tempos Modernos (72º).

Em 2012, foram: Tempos Modernos (22º), Luzes da Cidade (30º), Quanto Mais Quente Melhor (37º), Playtime – Tempo de Diversão (37º), Se Meu Apartamento Falasse (44º), Cantando na Chuva (67º), A General (75º), Em Busca do Ouro (1925, 91º). Oito filmes. O número, que já era mínimo, ainda diminuiu em 2022.

Filmes como O Diabo a Quatro (1933), Levada da Breca (1938), Ninotchka (1939), A Roda da Fortuna (1953), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975), Um Convidado Bem Trapalhão (1968), Meu Tio (1958) ou Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu… (1980) podem até ser encarados com simpatia pela crítica e pelos cineastas, mas na hora de serem realmente valorizados, são sempre preteridos por dramas. Pra ser bom de verdade, nada de “brincadeira”, o filme tem que ser “sério”, ser sério supostamente é ser “profundo”. Estamos em 2022, é incrível que essa seja uma máxima ainda em voga, mas a lista não deixa dúvida quanto a isso.

Não admira que Jeanne Dielman, um filme de quase 3h30 de duração sobre o tédio, seja o filme que alcançou o primeiro lugar este ano.

EDIÇÃO (05/12/2022): A versão anterior deste texto continha um erro: dizia que eram sete as comédias na lista de 2002, faltando incluir Playtime. A informação foi corrigida.

De dez em dez anos, a revista inglesa Sight and Sound consulta centenas de críticos e estudiosos para definir quais os 100 melhores filmes do mundo. Poderia ser apenas mais outra enquete, mas esta é levada muito a sério e boa parte do status de Cidadão Kane (1941) como mais importante filme de todos os tempos vinha do fato de que o filme de Orson Welles apareceu no topo da lista por 50 anos. Em 2012, havia sido desbancado por Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock. Nesta quinta, no levantamento de 2022, um novo e surpreendente campeão: Jeanne Dielman (1975), da belga Chantal Akerman. O resultado saiu de uma votação com 1.639 críticos, programadores, curadores, arquivistas e acadêmicos.

O novo “melhor filme de todos os tempos” não é popularmente conhecido como seus dois “rivais”, e muita gente certamente nunca nem ouviu falar dele. É um filme de quase três horas e meia de duração sobre a tediosa rotina de uma mulher em seu apartamento e seus ocasionais encontros em que se prostitui. Longos planos parados para um retrato que evoca o tempo real da vida dessa mulher. É um filme que exige bastante da paciência do espectador.

Um filme sobre a vida da mulher, dirigido por uma mulher e com uma equipe de filmagem totalmente feminina. Uma vitória muito simbólica. Ela reflete a maior preocupação na última década com a representatividade da mulher como cineasta. Isso já era visível a olho nu, com as cobranças para que as premiações dessem mais atenção às diretoras e que as produções de grande orçamento abrissem espaço para elas. Nos últimos anos, é visível também que as cobranças vinham surtindo efeito e esses muros estavam vindo abaixo.

Da mesma forma, pioneiras e veteranas passaram a ter seus trabalhos mais valorizados e/ ou redescobertos. A contribuição de uma Alice Guy Blaché, lá no cinema mudo, rendeu documentário e lançamento em DVD, assim como a obra de Ida Lupino, em Hollywood, ou de Agnès Varda, na Europa.

Isso também aconteceu com Chantal Akerman. Seu cinema feminista e Jeanne Dielman em especial cresceram em status nos últimos anos. A belga está até disponível em DVD no Brasil, em um digipack com três filmes pelo selo Obras-Primas (os outros dois são Eu, Tu, Ele, Ela, 1974, que não está na lista da revista do British Film Institute, e Notícias de Casa, 1976, que aparece 52º lugar). Em streaming, Jeanne Dielman está disponível na plataforma Filmicca.

Essa mudança de patamar aos olhos da crítica é mensurável pela própria lista da Sight and Sound. Em uma lista paralela com votos apenas de diretores, 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) venceu, mas Jeanne Dielman ficou em 4º. Há dez anos, Jeanne Dielman aparecia bem na lista dos críticos, mas longe do topo, em 36º lugar. Na lista dos diretores, nem aparecia entre os 100 melhores.

Em 2002, o filme estava em 73º. Em 1992, nem estava entre os 100 dos críticos.

O cuidado para não escantear mais uma vez as cineastas pode ser visto também comparando-se a presença das mulheres nesta lista e em 2012. Há dez anos, Jeanne Dielman foi o filme dirigido por uma mulher melhor votado – mas não passou do 36º lugar (foi lembrado por 34 dos 845 votantes). Bom Trabalho (1998), de Claire Denis, aparecia em 78º.

E só.

Desta vez, são 11 filmes, de nove diretoras diferentes e quase todos na metade de cima da lista: Jeanne Dielman (Chantal Akerman, 1975, 1º), Bom Trabalho (Claire Denis, 1998, saltou de 78º para 7º), Cléo das 5 às 7 (Agnès Varda, 1962, 14º), Tramas do Entardecer (Maya Deren, com Alexander Hackenschmied, 1943, 16º), As Pequenas Margaridas (Věra Chytilová, 1966, 28º), Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019, 30º), Wanda (Barbara Loden, 1970, 48º), O Piano (Jane Campion, 1993, 50º), Notícias de Casa (Chantal Akerman, 1976, 52º), Filhas do Pó (Julie Dash, 1991, 60º) e Os Catadores e Eu (Agnès Varda, 2000, 67º).

Um aumento de 550% de presença feminina na lista!

Teria isso teria acontecido porque, por essa mudança de mentalidade, numa espécie de consciência coletiva, os votantes decidiram reservar uma vaga para um filme dirigido por uma mulher em suas listas de 10? E, tendo isso acontecido, seria natural que Chantal Akerman fosse uma das mais lembradas e, dela, Jeanne Dielman fosse o filme mais lembrado e por isso acabou sendo o filme que apareceu em mais listas?

Pode ser, mas o fato é que, independente de achar Jeanne Dielman o melhor filme de todos os tempos ou não, esse resultado é um forte reflexo de uma bem-vinda mudança de paradigma sobre o espaço que as mulheres cineastas tem no senso comum do cinema.

Em tempo, eis os 20 primeiros da nova lista. A relação completa pode ser vista neste link.

1º – Jeanne Dielman (1975), de Chantal Akerman

2º – Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock

3º – Cidadão Kane (1941), de Orson Welles

4º – Era uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu

5º – Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar-Wai

6º – 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick

7º – Bom Trabalho (1998), de Claire Denis

8º – Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch

9º – Um Homem com uma Câmera (1928), de Dziga Vertov

10º – Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen

11º – Aurora (1927), de F.W. Murnau

12º – O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola

13º – A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir

14º – Cléo das 5 às 7 (1962), de Agnès Varda

15º – Rastros de Ódio (1956), de John Ford

16º – Tramas do Entardecer (1943), de Maya Deren e Alexander Hackenschmied

17º – Close-Up (1989), de Abbas Kiarostami

18º – Persona ou Quando Duas Mulheres Pecam (1966), de Ingmar Bergman

19º – Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola

20º – Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa

A seguir os 20 melhores de todos os tempos, segundo os diretores. Veja a lista completa neste link.

1º – 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick

2º – Cidadão Kane (1941), de Orson Welles

3º – O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola

4º – Era uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu

Jeanne Dielman (1975), de Chantal Akerman

6º – Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock

8 1/2 (1963), de Federico Fellini

8º – O Espelho (1975), de Andrei Tarkovsky

9º – Persona ou Quando Duas Mulheres Pecam (1966), de Ingmar Bergman

Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar-Wai

Close-Up (1989), de Abbas Kiarostami

12º – Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese

Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick

14º – Bom Trabalho (1998), de Claire Denis

Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa

Acossado (1960), de Jean-Luc Godard

Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky

18º – Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola

19º – Uma Mulher Sob Influência (1974), de John Cassavetes

20º – Rashomon (1950), de Akira Kurosawa

Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica

M.A.S.H.
⭐⭐⭐⭐⭐
Mídia física: DVD. Streaming: Star Plus.

Ser maluco para não enlouquecer
(Publicado no Facebook, em 18/06/2020)

50 anos este ano de M.A.S.H.! Num ano que teve também os pomposos Patton e Tora! Tora! Tora!, o cinema de guerra teve também um exemplar que foi o contrário disso.

M.A.S.H. é irreverente e iconoclasta sobre o exército e as guerras, numa época em que a Guerra do Vietnã estava comendo no centro. Não tinha uma “história”, mas uma série de episódios envolvendo três cirurgiões (Donald Sutherland, Elliott Gould e Tom Skerritt) de um hospital de campanha que usava o humor para lidar com os horrores do conflito. Bancavam os malucos para não enlouquecerem.

Robert Altman dizia que M.A.S.H. não foi lançado, ele ‘escapou’. Enquanto a Fox estava com as atenções voltadas para Patton (que efetivamente acabaria ganhando o Oscar), o diretor foi contrabandeando suas ideias para seu filme.

Por exemplo: o filme se passa na guerra da Coreia, mas isso quase não é mencionado. A intenção era fazer o público associar mesmo com o Vietnã. O estúdio acabou impondo um letreiro inicial para explicitar que era mesmo a Coreia.

O roteiro (de Ring Lardner Jr., que adapta livro de Richard Hooker) foi jogado para o ar em prol de muita improvisação. Tom Skerritt disse que cerca de 80% dos diálogos foram improvisados (o roteirista não gostou nada dessa decisão, e ironicamente ganhou o Oscar).

Outra: um memorando proibiu fotos de mulheres peladas nas salas de edição. Altman gravou uma leitura do documento e usou numa das cenas de aviso dos alto-falantes que pontuam a narrativa.

Essas coisas fazem com que a alma do filme e a alma de seus personagens combinem muito, inclusive no contraste com as cenas mais duras na sala de cirurgia. Mesmo em sua comédia, M.A.S.H. é um filme único entre outros de piadas de caserna.

M.A.S.H. Estados Unidos, 1970.
Direção: Robert Altman. Elenco: Donald Sutherland, Elliott Gould, Tom Skerritt, Sally Kellerman, Robert Duvall.

20 – DJANGO LIVRE (Django Unchained)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max, Now, Oi Play. Aluguel ou compra online: Google Play/ YouTube Filmes, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Releitura de faroeste de Quentin Tarantino, colocando a questão do racismo na receita, ao mesmo tempo em que homenageia o western-spaghetti Django (1966). O cineasta faz aquele seu costumeiro desfile de personagens interessantes, com vilões memoráveis interpretados por DiCaprio e Samuel L. Jackson.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Don Johnson, Franco Nero, Russ Tamblyn, Amber Tamblyn, Bruce Dern, Jonah Hill, Robert Carradine, Quentin Tarantino. 

Crítica de Django Livre:
Escravo do estilo

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19 – FERRUGEM E OSSO (De Rouille et d’Os)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Marion Cotillard é a mulher que perde parte das duas pernas e estabelece uma relação com um aspirante a lutador que precisa cuidar do filho pequeno e não parece se importar muito com nada. Um drama que evita o melodrama, usa bem efeitos visuais e narra bem a história de dois personagens em busca de um reencontro consigo mesmos.
França/ Bélgica/ Singapura. Direção: Jacques Audiard. Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain e Craig Davidson. Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure, Céline Sallette.

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18 – RUBY SPARKS, A NAMORADA PERFEITA (Ruby Sparks)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

Zoe, neta de Elia Kazan, escreveu o roteiro e interpreta a personagem criada por um escritor e que sai das páginas para namorá-lo. mas essa fantasia romântica quer mostrar que mesmo essa idealização máxima não é tão simples na prática.
Estados Unidos. Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Roteiro: Zoe Kazan. Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan, Chris Messina, Annette Bening, Antonio Banderas, Aasif Mandvi, Steve Coogan

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17 – ARGO (Argo)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Ben Affleck adquiriu de vez reputação como diretor ao narrar este vencedor do Oscar de melhor filme, que reconta um plano para retirar diplomatas dos Estados Unidos do Irã, depois que explode a Revolução Islâmica, em 1979. O grande lance é que o plano passa por falsear a produção de um filme.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio, baseado em reportagem de Joshua Bearman e no livro de Tony Mendez. Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Kyle Chandler, Richard Kind.

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16 – O MESTRE (The Master)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes.

Paul Thomas Anderson traça um certo olhar sobre a Cientologia através do ex-soldado que retorna da guerra e começa a seguir um polêmico líder religioso. Claro, há grandes performances de Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Jesse Plemons, Laura Dern, Rami Malek.

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17 – INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

Centrado numa garotinha de seis anos, com um pai doente e na extrema pobreza, agravada pela destruição provocada pelo furacão Katrina, o filme se beneficia enormemente do carisma da pequena Quvenzhané Wallis. Ela se tornou a mais jovem indicada da história ao Oscar de melhor atriz, aos 9 anos. E domina uma filme que alterna entre dias duros e momentos de sonho.
Estados Unidos. Direção: Benh Zeitlin. Roteiro: Lucy Alibar e Benh Zeitlin, baseado na peça de Alibar. Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes.

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14 – BATMAN  O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight Returns)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max, Now. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Encerramento da trilogia de Christopher Nolan com o Batman, vai ainda mais longe que o anterior O Cavaleiro das Trevas na busca de refletir sobre o herói dentro da sociedade. Acaba perdendo um pouco o personagem de vista, mas ainda é bastante impressionante em seus melhores momentos.
Estados Unidos. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, a partir de argumento de Christopher Nolan e David S. Goyer, baseado no personagem criado por Bob Kane e Bill Finger. Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine, Matthew Modine, Cillian Murphy.

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13 – VALENTE (Brave)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Disney Plus.

Primeiro filme da Pixar concebido por uma mulher (Brenda Chapman) e com uma personagem feminina como protagonista (ainda mais uma princesa!), Valente pinta a Escócia com tintas feministas. E centra seu drama central na relação entre mãe e filha, metaforizadas na selvageria de um urso.
Estados Unidos. Direção: Mark Andrews e Brenda Chapman. Co-direção: Steve Purcell. Roteiro: Mark Andrews, Steve Purcell, Brenda Chapman e Irene Mecchi, a partir de um argumento de Brenda Chapman. Vozes na dublagem original: Kelly Macdonald, Billy Connolly, Emma Thompson, Julie Walters, Robbie Coltrane, Patrick Doyle. Vozes na dublagem brasileira: Luísa Palomanes, Mabel Cezar, Luiz Carlos Persy, Carmen Sheila, Rodrigo Lombardi, Murilo Rosa.

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12 – AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The Perks of Being a Wallflower)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Netflix, HBO Max, Globoplay, Starz, Lionsgate Play. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

A força de uma amizade jovem, que pode redefinir a vida de um rapaz traumatizado. O trio formado por Lerman, Watson e Miller sustenta bem o filme, que transborda carisma e sensibilidade dramática.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Stephen Chbosky, baseado em seu romance. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Erin Wilhelmi, Mae Whitman, Paul Rudd, Nina Dobrev, Dylan McDermott, Melanie Lynskey, Joan Cusack.

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11 – O SONHO DE WADJDA (Wadjda)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Na Arábia Saudita, uma menina quer muito uma bicicleta. Mas só isso já quebrar um grande tabu em um país onde mulheres convivem com um sem número de restrições morais. É o primeiro filme rodado inteiramente no país e, sobretudo, por uma mulher diretora. É hábil em expor as críticas de uma maneira com que o filme não fosse proibido.
Arábia Saudita/ Holanda/ Alemanha/ Jordânia/ Emirados Árabes/ Estados Unidos. Direção e roteiro: Haifaa Al-Mansour. Elenco: Waad Mohammed, Reem Abdullah, Abdullrahman Al Gohani, Ahd, Sultan Al Assaf.

Crítica de O Sonho de Wadjda:
A bicicleta contra a opressão

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10 – LINCOLN (Lincoln)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

Spielberg se aventura pela biografia de um grande mito americano, praticamente impossível de ser encarado sem a solenidade com que Abraham Lincoln é visto pela história. Daniel Day-Lewis encarna o personagem de forma impressionante e ganhou um cantado Oscar de melhor ator. O filme se concentra nos dias finais da Guerra da Secessão e o esforço de bastidores de Lincoln para abolir a escravatura nos EUA.
Estados Unidos/ Índia. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, baseado no livro de Doris Kearns Goodwin. Elenco: Daniel Day Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Jared Harris, Gloria Reuben, David Oyelowo, Lukas Haas.

Crítica de Lincoln:
Um jogo nada simples

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9 – AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

A saga de um jovem indiano à deriva em um bote no oceano, tendo como companheiro de bordo um feroz tigre. Repleto de efeitos especiais, é um fascinante conto de resiliência e imaginação, que deu a Ang Lee seu segundo Oscar de melhor direção.
Estados Unidos/ Taiwan/ Reino Unido/ Canadá/ Índia/ França. Direção: Ang Lee. Roteiro: David Magee, baseado no romance de Yann Martel, por sua vez baseado de maneira não creditada no romance de Moacyr Scliar. Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Rafe Spall, Gérard Depardieu.

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8 – RAUL  O INÍCIO, O FIM E O MEIO
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Apple TV/ iTunes. YouTube: som original.

O documentário sobre Raul Seixas é um estupendo resgate da vida e da obra do “Maluco Beleza”. É difícil pensar o que pode ter ficado de fora da narrativa do diretor Walter Carvalho, que acerta em cheio em não sacrificar a comunicação do filme em prol de uma estrutura supostamente artística.
Brasil. Direção: Walter Carvalho. Co-direção: Leonardo Gudel. Roteiro: Leonardo Gudel.

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7 – OS VINGADORES  THE AVENGERS (The Avengers)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Disney Plus.

Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk estrelaram seus próprios filmes e agora estavam lado a lado, em um filme conjunto. Pela primeira vez, uma grande produção fazia algo assim. Para isso, Os Vingadores deixava os dramas pessoais de seus heróis (ainda havia a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro) para os filmes solo e se concentrava na movimentação e no escapismo. E funcionou muito bem.
Estados Unidos. Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, a partir de argumento de Zak Penn e Whedon. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skasgard, Gwyneth Paltrow, Paul Bettany (voz), Harry Dean Stanton.

Crítica de Os Vingadores The Avengers:
Sem vergonha do escapismo

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6 – AMOR (Amour)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Looke. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

O amor de um casal octagenário passa a ser duramente testado quando a mulher tem um derrame. Duro, como os filmes de Haneke costumam ser, mas extremamente humano e com um trio de atores extraordinários. Palma de Ouro em Cannes, Oscar de filme estrangeiro, e Emmanuelle Riva se tornou a atriz mais idosa a ser indicada ao Oscar de melhor atriz.
Áustria/ França/ Alemanha. Direção e roteiro: Michael Haneke. Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud.

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5 – OS MISERÁVEIS (Les Misérables)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Oi Play. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Amazon.

O musical de imenso sucesso nos palcos foi levado ao cinema com uma filosofia: os atores não gravaram as canções antes, como sempre se costumou fazer, mas as cantaram no set, nas filmagens. Isso multiplicou a emoção das cenas, das mais grandiosas às mais intimistas.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Tom Hooper. Roteiro: William Nicholson, Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer, baseado no musical de palco de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, por sua vez baseado no romance de Victor HugoElenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Aaron Tveit, Samantha Barks.

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4 – FRANCES HA (Frances Ha)
Mídia física: não disponível no Brasil. Streaming: não disponível no Brasil.

Um filme de personagem, sobre uma moça que ensina dança e está meio perdida em sua vida em Nova York: algo simbolizado pelas suas constantes mudanças de endereço. A atmosfera é a da nouvelle vague francesa, de momentos capturados no ar, preto-e-branco, cortes meio bruscos. Tudo em torno de uma luminosa Greta Gerwig.
Estados Unidos/ Brasil. Direção: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Michael Zegen, Charlotte d’Amboise.

Crítica de Frances Ha:
Por um lugar no mundo

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3 – A CAÇA (Jagten)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Amazon Prime Video. YouTube: dublado.

Um drama kafkiano: como um homem inocente acusado de pedofilia pode provar que não tem culpa? Como evitar que o estigma destrua sua vida? Vinterberg exibe didaticamente os perigos dos julgamentos apressados, comportamento de manada, do apagamento da presunção de inocência. Um filme forte, muito bem interpretado, evitando o melodrama, mas sem deixar de ser intenso: como na cena do confronto moral dentro de uma igreja na véspera de Natal.
Dinamarca/ Suécia. Direção: Thomas Vinterberg. Roteiro: Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm. Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrom.

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2 – MOONRISE KINGDOM (Moonrise Kingdom)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Netflix, Oi Play. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Todo o rigor simétrico da estética de Wes Anderson a serviço de uma história de amor infanto-juvenil. Encapsulado em uma ilha em 1965, esse pequeno mundo gira em torno do desaparecimento do casalzinho, que resolve fugir e viver juntos. Secundando os dois carismáticos jovens atores, um grande e afiado elenco.
Estados Unidos. Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Bob Balaban, Harvey Keitel.

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1 – 007  OPERAÇÃO SKYFALL (Skyfall)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Amazon Prime Video, Now, Globoplay. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

O terceiro filme de Daniel Craig como James Bond é o reencontro com tradições da série e sua rabugice passa a ser um elemento de humor. A história vai pela primeira vez ao passado do agente secreto, surpreende ao colocar a M de Judi Dench como a “bondgirl” da vez. E trouxe para a fotografia Roger Deakins, resultando no mais bonito dos filmes de 007 (a sequência do lago congelado com a casa em chamas ao fundo é uma das que enchem os olhos). Até os créditos de abertura e a canção que os embala (na voz de Adele) são destaques. Tudo se equilibrou e elevou este 23º filme da franquia ao patamar de um dos melhores exemplares da série.
Reino Unido/ Estados Unidos/ Turquia. Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade e John Logan, baseado em personagens de Ian Fleming. Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw, Helen McCrory.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

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NOTA: A percepção sobre os filmes pode mudar com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

O SONHO DE WADJDA
⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2022: 115
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

A bicicleta contra a opressão

A menina Wadjda concorre num concurso na escola de decorar e interpretar textos do Corão. Porque ela é uma grande devota religiosa? Não: ela quer muito o dinheiro do prêmio para poder comprar uma bicicleta. Pode não parecer muito, mas O Sonho de Wadjda se passa na Arábia Saudita, então, sim, é muito.

Trata-se do primeiro filme inteiramente rodado no país e o primeiro com um elenco totalmente saudita. Também é o primeiro de lá dirigido por uma mulher, Haifaa Al-Mansour, também autora do roteiro. Na época, o filme nem foi exibido em seu próprio pa[ís, já que as salas de cinema eram proibidas. Isso já dá uma boa ideia da restrição geral no que diz respeito à cultura.

Mas, através da odisseia dessa menina, a diretora discorre sobre muitas das opressões a que as mulheres são submetidas no regime local, e que se refletem no próprio processo do filme. Por exemplo, Haifaa não podia dirigir diretamente quando algum homem estava em cena. Não podia interagir com eles. Em cenas de rua, precisava ficar numa van, olhando por um monitor e dando instruções por um walkie-talkie.

Pelo que o filme conta, as meninas não são terminantemente proibidas de andar de bicicleta, mas a questão de costumes é forte. “Meninas que andam de bicicleta depois não conseguem ter filhos”, diz a mãe, se recusando a comprar uma para a filha. Quando a garota anda em uma emprestada, cai e diz que está sangrando, a mãe se desespera: “Sangrando onde?! Sua virgindade!”.

O filme vai enfileirando essas restrições. Mostra a escola de meninas, onde só se estuda o Corão e qualquer leitura de revistas no pátio é considerada pecado. A mãe, vaidosa, mas que na rua precisa usar uma roupa que deixa só os olhos de fora, que não pode dirigir e é obrigada a ver o marido casar com uma segunda esposa.

Como um filme desses conseguiu ser filmado na Arábia Saudita? Pela habilidade narrativa de Haifaa Al-Mansour. Seu filme tem o cuidado de não empunhar ostensivamente uma bandeira, o que poderia levar a uma proibição do filme pelo governo conservador. O que ela faz é narrar essas situações sem grande drama, apresentando como elementos do cotidiano, de maneira que um fundamentalista não entenderia como erradas.

O drama fica concentrado na simbólica luta da rebelde Wadjda, que não parece estar nem aí para a religião, pelo direito de ter uma bicicleta e apostar corrida com o amigo e provar que pode vencê-lo (e, assim, de passagem, mostrar que uma mulher pode ser tão boa nisso quanto um homem).

Interpretada pela excelente Waad Mohammed, é uma heroína moderna e libertária. Como muita coisa relativa ao filme, esta foi a estreia da pequena atriz, aos 9 anos. E ainda é seu único filme, embora, segundo sua biografia no IMDb, siga uma carreira em trabalhos de modelo e comerciais. O contexto local é sempre hostil, mas seria muito bom vê-la de novo, em novos filmes.

Wadjda. Arábia Saudita/ Holanda/ Alemanha/ Jordânia/ Emirados Árabes/ Estados Unidos.
Direção e roteiro: Haifaa Al-Mansour. Elenco: Waad Mohammed, Reem Abdullah, Abdullrahman Al Gohani, Ahd, Sultan Al Assaf.

20 – TRON UMA ODISSEIA ELETRÔNICA (Tron)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Disney Plus.

Ainda hoje o mundo dos computadores “por dentro” gera fantasias, imagine em 1982. Aqui, um programador de jogos e sugado para dentro de um deles. O pioneirismo na animação digital resultou em imagens que marcaram época, mesmo que o filme não tenha obtido sucesso de bilheteria.
Estados Unidos. Direção: Steven Lisberger. Roteiro: Steven Lisberger, Charles S. Haas (não creditado), a partir de argumento de Lisberger e Bonnie MacBird. Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner, Cindy Morgan.

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19 – CONAN, O BÁRBARO (Conan, the Barbarian)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Star Plus, Oldflix. YouTube: dublado.

A aurora do cinema brucutu une-se à moda do estilo espada-e-feitiçaria. Schwarzenegger e seu sotaque austríaco faz um Conan de poucas palavras, muito músculo, rodeado de belas mulheres e alguns grandes atores (James Earl Jones e o bergmaniano Max von Sydow).
Estados Unidos/ México. Direção: John Milius. Roteiro: John Milius e Oliver Stone, a partir de argumento não creditado de Edward Summer, baseado no personagem criado por Robert E. Howard. Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow, Sandahl Bergman, Cassandra Gava, Mako, Valérie Quennessen.

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18 – GANDHI (Gandhi)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Superprodução que conta a história do líder pacifista indiano no modelo épico do diretor David Lean. Com atuação impressionante de Ben Kingsley e bastante reverência ao personagem central, ganhou oito Oscars, incluindo os de melhor filme, direção e ator.
Reino Unido/ Índia/ Estados Unidos/ África do Sul. Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Elenco: Ben Kingsley, Rohini Hattangadi, Roshan Seth, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Amrish Puri, Richard Griffiths, Nigel Hawthorne.

Crítica de Gandhi:
Não é David Lean

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17 – O ANO EM QUE VIVEMOS EM PERIGO (The Year of Living Dangerously)
Mídia física: DVD (só e na Peter Weir – The Blue Collection). Streaming: HBO Max, Oldflix. Aluguel ou compra digitais: Apple TV/ iTunes.

Um jovem repórter australiano de TV cobre a convulsão política da Indonésia e vai aprendendo sobre esse ambiente turbulento muito graças ao seu cameraman – vivido por uma incrível Linda Hunt, que ganhou o Oscar de atriz coadjuvante interpretando um homem.
Austrália/ Estados Unidos. Direção: Peter Weir. Roteiro: David Williamson, Peter Weir e C.J. Koch, cm material adicional de Alan Sharp, baseado em romance de Koch. Elenco: Mel Gibson, Linda Hunt, Sigourney Weaver, Michael Murphy.

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16 – YOL ou O CAMINHO (Yol)
Mídia física: não disponível no Brasil. Streaming: não disponível no Brasil.

O diretor curdo Yilmaz Güney estava preso quando Yol foi rodado. De sua cela, deu instruções precisas para seu parceiro Goren filmar as histórias de presidiários do regime autoritário turco que ganham alguns poucos dias para visitarem suas famílias, em doloridos reencontros em um país oprimido. A força dos relatos levou o filme a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes (dividida com Desaparecido Um Grande Mistério).
Suíça/ Turquia. Direção: Serif Goren e Yilmaz Güney. Roteiro: Yilmaz Güney. Elenco: Tarik Akan, Serif Sezer, Halil Ergün, Meral Orhonsay.

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15 – POLTERGEIST – O FENÔMENO (Poltergeist)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Uma atualização das histórias de casas mal-assombradas, também foi o começo da tecnologia como canal para o sobrenatural. Aqui, a pequena Carol Anne se comunica com o além através da TV. Grande sucesso de bilheteria, tem muito da mão de Spielberg, produtor e roteirista e que dizem que também teria dirigido a maior parte do filme.
Estados Unidos. Direção: Tobe Hooper. Roteiro: Steven Spielberg, Michael Grais e Mark Victor, a partir de argumento de Spielberg. Elenco: Craig T. Nelson, JoBeth Williams, Heather O’Rourke, Beatrice Straight, Dominique Dunne, Oliver Robins, Zelda Rubistein.

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14 – QUINTETO IRREVERENTE ou MEUS CAROS AMIGOS 2 QUINTETO IRREVERENTE (Amici Miei Ato IIº)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

Sete anos depois de Meus Caros Amigos, Mario Monicelli voltou aos cinco amigos de meia idade iconoclastas e sempre a postos para uma zoação. Como o personagem de Noiret morreu no final do original, a continuação começa no cemitério mas nem a morte é motivo para impedir uma gozação. Mas Noiret volta porque o filme alterna as peripécias do grupo já velho com lembranças de façanhas de anos anteriores.
Itália. Direção: Mario Monicelli. Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Tullio Pinelli e Mario Monicelli. Elenco: Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Adolfo Celi, Gastone Moschin, Renzo Montagnani, Milena Vukotic, Franca Tamantini, Angela Goodwin.

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13 – 48 HORAS (48 Hrs)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Globoplay. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

A estreia de Eddie Murphy no cinema foi perfeita para ele, interpretando o malandro que, para deter um assassino, é obrigado a se juntar a um tira rabugento que também não está feliz com a parceria. Uma fórmula repetida inúmeras vezes depois e que, aqui, funciona plenamente. Grande química entre Nick Nolte e Murphy, com muitos diálogos improvisados.
Estados Unidos. Direção: Walter Hill. Roteiro: Roger Spottiswoode, Walter Hill, Larry Gross e Steven E. de Souza. Elenco: Nick Nolte, Eddie Murphy, Annette O’Toole, Frank McRae, James Remar.

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12 – FITZCARRALDO (Fitzcarraldo)
Mídia física: DVD. Streaming: Oldflix.

Um filme tão megalomaníaco quanto seu personagem principal, um homem obcecado pela ideia de construir uma casa de ópera no meio da selva amazônica. Mesmo que tenha que subir um barco numa montanha na floresta, o que o filme de Herzog faz de verdade. É um filme sobre um amor insano pela arte, feito de maneira insana por pessoas insanas (principalmente o ator Klaus Kinski).
Alemanha/ Peru. Direção e roteiro: Werner Herzog. Elenco: Klaus Kinski, Claudia Cardinale, José Lewgoy, Paul Hittcher, Grande Otelo, Milton Nascimento.

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11 – JORNADA NAS ESTRELAS II – A IRA DE KHAN (Star Trek II – The Wrath of Khan)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Now, Paramount Plus, Pluto TV. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Depois que o primeiro filme que continuava a série de TV resultou cerebral demais, o segundo foi à fonte e é uma sequência de um episódio específico, trazendo de volta um inimigo icônico da tripulação da Enterprise. É praticamente um novo início para a franquia no cinema e, com uma conclusão chocante e surpreendente, nunca perderia o status de um dos melhores filmes de Jornada nas Estrelas.
Estados Unidos. Direção: Nicholas Meyer. Roteiro: Jack B. Sowards e, não creditado, Nicholas Meyer, a partir de argumento de Harve Bennett, Sowards e, não creditado, Samuel A. Peeples, baseado na série de TV criada por Gene Roddenberry. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, Ricardo Montalban, Kirstie Alley, James Doohan, George Takei, Nichelle Nichols, Walter Koenig, Bibi Besch, Merritt Butrick.

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10 – PICARDIAS ESTUDANTIS (Fast Times at Ridgemont High)
Mídia física: DVD (só e na coleção Sessão Anos 80 vol. 8). Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Uma das grandes comédias estudantis de todos os tempos, reuniu um grande número de jovens promissores no elenco, uma diretora e um roteirista estreantes. Um painel de rapazes e moças em ebulição romântica e sexual contada com humor, sensibilidade e respirando muito os anos 1980 que estavam começando.
Estados Unidos. Direção: Amy Heckerling. Roteiro: Cameron Crowe, baseado em seu próprio livro. Elenco: Sean Penn, Jennifer Jason Leigh, Judge Reinhold, Phoebe Cates, Robert Romanus, Ray Walston, Forest Whitaker, Eric Stoltz, Nicholas Cage, Anthony Edwards.

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9 – A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie’s Choice)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Oi Play. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Meryl Streep se consagrou como uma referência na arte da interpretação com este filme, pelo qual ganhou o Oscar de melhor atriz. Ela é a sobrevivente de um campo de concentração que fascina um jovem aspirante a escritor e a quem conta sua história, o que faz em um eloquente close olhando para o espectador. Fora o dilacerante momento da escolha do título.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, baseado no romance de William Styron. Elenco: Meryl Streep, Peter MacNicol, Kevin Kline, Rita Karin.

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8 – O ENIGMA DO OUTRO MUNDO (The Thing)
Mídia física: DVD, blu-ray (só e na coleção Carpenter Essencial). Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Amazon.

A refilmagem do clássico da ficção científica de 1951 não tinha tanta limitação de recursos, então o alien humanoide passou a um ser que toma a forma de sua vítimas. Assim, uma base de pesquisadores na Antártida precisa descobrir quais de seus membros estão infectados e eliminá-los. John Carpenter adicionou elementos de horror gore e criou um ambiente asfixiante e um suspense constante.
Estados Unidos/ Canadá. Direção: John Carpenter. Roteiro: Bill Lancaster, baseado no conto de John W. Campbell Jr. Elenco: Kurt Russell, Wilford Brimley, T.K. Carter, David Clennon.

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7 – DESAPARECIDO – UM GRANDE MISTÉRIO (Missing)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

Em seu primeiro filme em Hollywood, o grego Costa-Gavras mira sua câmera para o sanguinário golpe militar no Chile, em 1973. O recorte jogava uma lupa sobre a participação dos Estados Unidos, através do desaparecimento de um jornalista americano de esquerda e da busca da esposa e do pai por ele (ou pelo corpo) tanto por gabinetes de burocratas e militares americanos quanto por locais de abrigos de refugiados e no estádio de futebol convertido em campo de prisioneiros e de extermínio. Nessa odisseia, o pai que confia nos EUA vai caindo em si diante das evidências da conspiração de que seus compatriotas participaram. Com grandes atuações de Jack Lemmon e Sissy Spacek, levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes (dividida com Yol).
Estados Unidos/ México. Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras e Donald E. Stewart, com John Nichols (não creditado), baseado no livro de Thomas Hauser. Elenco: Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea, Charles Cioffi.

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6 – CLIENTE MORTO NÃO PAGA (Dead Men Don’t Wear Plaid)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

A história de um detetive que investiga um caso que o leva a descobrir uma conspiração poderia ser apenas mais. A comédia que parodia um gênero cinematográfico poderia ser apenas mais uma. Mas, para além da perícia no humor, aqui há o detalhe saboroso: Steve Martin contracena com vários atores e atrizes dos filmes noir, através da montagem. Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Veronica Lake, Barbara Stanwyck, Cary Grant, Bette Davis, Lana Turner, Kirk Douglas e muitos outros, saídos diretamente de seus grandes clássicos, são os coadjuvantes de luxo dessa delícia cinéfila.
Estados Unidos. Direção: Carl Reiner. Roteiro: Carl Reiner, George Gipe e Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Rachel Ward, Carl Reiner, George Gaynes..

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5 – VICTOR OU VICTORIA (Victor/ Victoria)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil.

Baseado em um filme alemão dos anos 1930, a comédia escrita e dirigida por Blake Edwards é material certo para Julie Andrews brilhar. Ela interpreta uma cantora desempregada que encontra o sucesso ao fingir ser um homem que se traveste. Curiosamente um dos dois grandes filmes de 1982 sobre troca de gênero, com grande charme, ótima trilha e Edwards em grande forma para a comédia.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Blake Edwards. Roteiro: Blake Edwards, a partir do conceito de Hans Hoemburg, baseado no roteiro de 1933 de Reinhold Schünzel. Elenco: Julie Andrews, James Garner, Robert Preston, Lesley Ann Warren, Alex Karras, John Rhys-Davies.

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4 – TOOTSIE (Tootsie)
Mídia física: DVD. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

O outro grande filme de 1982 sobre troca de gênero, também sobre um artista precisando desesperadamente de um emprego e que, para isso, finge ser mulher. Desta forma, ele/ ela vira uma sensação nacional. Dustin Hoffman só aceitou o papel quando provaram que ele, caracterizado, poderia realmente se passar por uma mulher. As piadas decorrentes da situação são ótimas, a narrativa é inteligente e há vários coadjuvantes talentosos (Jessica Lange ganhou o Oscar na categoria).
Estados Unidos. Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Larry Gelbart e Murray Schisgal, com, não creditados, Barry Levinson, Robert Garland, Robert Kaufman e Elaine May, a partir de argumento de Gelbart e Don McGuire. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Teri Garr, Dabney Coleman, Charles Durning, Bill Murray, Sydney Pollack, George Gaynes, Geena Davis.

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3 – BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon, Microsoft Store.

Um filme noir futurista. Os códigos do gênero clássico estão lá, ao lado de carros voadores, chuva ácida e andróides tão perfeitos que podem se passar por humanos. A caça a esses “replicantes” rebeldes expõe a questão existencial sobre o que nos faz humanos, afinal. Os produtores impuseram mudanças (narração em off, final alterado) que foram desfeitas em 1992, quando foi lançada nos cinemas uma “versão do diretor”. Em 2007, Ridley Scott ainda lançaria uma “versão final”.
Estados Unidos. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher e David Webb Peoples, baseado em romance de Philip K. Dick. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson, Joanna Cassidy.

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2 – FANNY E ALEXANDER (Fanny och Alexander)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

Bergman recorreu a memórias de infância para este conto de um casal de irmãos que viviam felizes com sua família libertária e ligada ao teatro, mas sofrem um duro golpe quando a mãe viúva se casa com um rígido bispo protestante. Planejado como minissérie de TV com mais de cinco horas de duração, mas lançado antes no cinema em versão de pouco mais de três horas, é o resumo perfeito da questão que acompanhou o cineasta pela vida: a liberdade da arte e a opressão da religião.
Suécia/ França/ Alemanha OcidentalDireção e roteiroIngmar BergmanElenco: Bertil Guve, Pernilla Allwin, Ewa Fröling, Jan Malsmjö, Gunn Wallgren, Jarl Kulle, Lena Olin, Pernilla August, Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson.

Crítica de Fanny e Alexander:
Realidades e mentiras, sonhos e verdades

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1 – E.T., O EXTRATERRESTRE (E.T., the Extra-Terrestrial)
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: Amazon Prime Video, Globoplay. Aluguel ou compra digitais: Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Amazon.

Com exceção da mãe, demora muito para um adulto mostrar o rosto em E.T. Em toda a primeira parte do filme, eles são mostrados da metade para baixo, em silhueta, de costas, mascarados ou só suas sombras aparecem. Spielberg coloca sua câmera na altura das crianças e do próprio E.T., que também é uma criança. O E.T. é “um de nós”, os adultos é que são os alienígenas. Foi Truffaut quem disse a Spielberg que ele devia dirigir um filme para crianças. O resultado é uma obra-prima de carisma, emoção, com uma trilha sonora imortal, e uma reta final (a fuga de bicicletas) para entrar para a história do cinema.
Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Peter Coyote, C. Thomas Howell, Erika Eleniak, Pat Welsh (voz).

Crítica de E.T., o Extraterrestre:
Os adultos é que são os alienígenas

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Indicações de onde os filmes estão disponíveis atualizadas em 22/10/2022.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

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NOTA: A percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico

FANNY E ALEXANDER
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2022: 102
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil.

Realidades e mentiras, sonhos e verdades

A versão para cinema de Fanny e Alexander, que completa 40 anos este ano, tem 3h08 de duração. Mais de uma hora é dedicada a narrar a vida feliz do casal de irmãos como parte de uma família envolvida com o teatro, alegre, rica e libertária. Isso muda bruscamente quando o pai das crianças, ator, morre e a mãe delas, atriz, resolve se casar com um bispo luterano. A partir daí, as crianças vão conviver com a opressão, a privação e a violência. Arte e religião: dois temas caros e recorrentes ao cineasta sueco Ingmar Bergman e que estão aqui expostos quase como antítese um do outro.

Bergman originalmente concebeu Fanny e Alexander como uma minissérie em quatro partes para a TV, somando mais de cinco horas de duração, embora tenha lançado primeiro a versão de cinema (as duas versões estão disponíveis no Brasil em DVD e blu-ray). O diretor o tratou como seu último trabalho para o cinema, um canto do cisne, de produção suntuosa e com íntimas ligações com sua própria vida. E, talvez por isso, também, os dois temas estejam colocados sobre a mesa de modo tão claro.

O diretor compôs aqui um filme mais afável, menos áspero que o usual em sua carreira de investigação das sombras internas de todos nós. Para isso, vê tudo pela ótica de Alexander, o menino que é uma espécie de seu alter ego. Alexander abre o filme com um teatrinho de brinquedo e caminha pelo casarão silencioso, mas logo estará partilhando com a família os momentos de alegria e carinho da numerosa família Ekdahl.

Já nessa fase inicial, o garoto vê uma estátua se mexer. É só a imaginação fértil ou um primeiro elemento sobrenatural, que depois retorna para ajudar ou assombrar o menino? Um pouco à moda de Hamlet, talvez como outra ligação da trama com o teatro, ele passa a ver o fantasma do pai. E, mais à frente, outras figuras que trazem do além revelações importantes para a trama.

A mudança de família e de casa é brutal para as duas crianças. O bispo exige um rompimento total com a família da mãe, a casa é austera, há grades nas janelas, não há sorrisos nos moradores, não há cores, não há arte. Alexander enfrenta o bispo, o confronta com certas verdades inconvenientes e acaba sofrendo com a violência do padrasto travestida de disciplina.

Bergman levou consigo o que viveu com o pai religioso e autoritário. E o teatro foi sua libertação. Com o teatro, vem o refúgio da fantasia e da beleza. Mesmo quando Alexander se vê numa confusão de escadarias, estantes, um labirinto escuro, misterioso e assustador.

O filme conclui com palavras de Strindberg, dizendo que “Mentira e realidade são uma coisa só. Tudo pode acontecer. Tudo é sonho e verdade. Tempo e espaço não existem. Sobre a frágil base da realidade, a imaginação tece sua teia e desenha novas formas, novos destinos”. Um belo posfácio para a odisseia brutal e mágica de Fanny e Alexander.

Fanny och Alexander. Suécia/ França/ Alemanha Ocidental, 1982.
Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Elenco: Bertil Guve, Pernilla Allwin, Ewa Fröling, Jan Malsmjö, Gunn Wallgren, Jarl Kulle, Lena Olin, Pernilla August, Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson.

ELVIS
⭐⭐⭐½
Diário de filmes 2022: 95
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: HBO Max, Now. Aluguel ou compra digitais: Amazon, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Perseguindo o delírio

Elvis parece mergulhado espiritualmente na fase de Elvis Presley em Las Vegas, com todo aquele neon e o espalhafato que marca a cidade. O fato é que isso combina com o estilo habitual de Baz Luhrmann, sempre chegado num exagero narrativo. Se combina com todos os momentos da história do rei do rock, aí é outra história.

Luhrmann tenta, assim, sublinhar cada momento da história com algumas piruetas visuais. São recursos que o diretor costumeiramente banaliza, mas que se mostram inspirados quando Elvis conta alguns momentos-chave. Como quando o cantor se apresenta pela primeira vez diante de uma plateia, mete seu rebolado e as mulheres da plateia vão progressivamente pirando até a histeria coletiva.

O filme persegue o delírio, mas sua estrutura é bem comum. A história de Elvis Presley é contada em flashback por um velho Coronel Tom Parker, o sinistro e controverso empresário do cantor (vivido por um Tom Hanks muito maquiado e caricato, o que de certa forma combina com o cinema de Luhrmann).

Esse recurso não chega a mexer na ideia geral sobre o relacionamento dos dois: que Parker levou Elvis a grande sucesso, mas também podou o artista, e exerceu controle abusivo emocional e financeiramente. Parker, que não está contando a história a ninguém específico, não polemiza a história de Elvis, apenas fica puxando para si um reconhecimento pelas vitórias do astro.

A vida de Elvis é contada em blocos: a influência da música negra na sua infância e juventude, os primeiros passos da carreira e como o conservadorismo o forçaram a reduzir seu apelo sexual, a volta por cima no especial para a TV de 1968, a reta final da carreira a partir da série de shows em um hotel de Las Vegas. Fica claro que cada um desses momentos poderia render um filme separado.

Sobretudo o especial de 1968, que o filme conta como uma conspiração de Elvis para se livrar de sua imagem então pasteurizada e “família”, erguida através de anos de aparições no cinema em filmes água-com-açúcar. Enquanto Parker o queria vestido um suéter e cantando canções de Natal, Elvis apareceu diante das câmeras mais rock’n’roll do que nunca.

Austin Butler defende o papel com garra, do vigor da juventude nos anos 1950 ao Elvis cansado dos anos 1970. Mesmo tendo que disputar espaço com o rebuscamento visual do filme, ele passa as emoções de um ídolo complexo, frágil e que em boa parte foi engolido pelo próprio sucesso.

Elvis. Estados Unidos, 2022.
Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Sam Bromell, Craig Pearce e Jeremy Doner, a partir de argumento de Luhrmann e Doner. Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Helen Thomson, Richard Roxburg, Kelvin Harrison Jr.

GANDHI
⭐⭐⭐½
Diário de filmes 2022: 92
Mídia física: DVD, blu-ray. Streaming: não disponível no Brasil. Aluguel ou compra digitais: Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/iTunes, Claro Vídeo, Amazon.

Não é David Lean

Vencedor de oito Oscars, incluindo melhor filme, direção e ator, Gandhi completa 40 anos parecendo trazer em si uma nostalgia de épicos como Lawrence da Arábia (1962). De fato, são muitos os pontos em comum: um filme de mais de três horas, sobre uma personalidade real maior que a vida, com a história de libertação em um país exótico, mas com trama intimamente ligada ao Reino Unido, repleto de grandes paisagens e multidões de figurantes. O filme tem até intervalo e, não por acaso, David Lean chegou perto de dirigir.

Mas o filme ficou nas mãos de Richard Attenborough e Attenborough não é David Lean (diretor de Lawrence da Arábia). O filme de 1982 combina sua grandiosidade cênica (a cena do funeral é até hoje a recordista em número de figurantes: 300 mil) não com momentos de direção inspirados, mas com uma narrativa que basicamente faz o suficiente para contar sua história.

Aparentemente, nada poderia competir com o personagem central. Gandhi liderou a Índia para a libertação do domínio britânico pregando uma resistência não violenta e o filme não consegue evitar santificá-lo. Ainda assim, Ben Kingsley faz uma interpretação muito impressionante, inclusive pela semelhança física com Gandhi.

Essa devoção do filme a seu personagem espelha a devoção do diretor pelo projeto, que levou 20 anos para sair do papel e foi feito nessa escala épica, embora fosse considerado um projeto não comercial: um filme de revolução onde os momentos mais dramáticos não são grandes batalhas, mas greves de fome de Gandhi para que a violência parasse.

A história do líder começa por sua morte e funeral, para então passar a ser contada desde os dias em que era um jovem advogado enfrentando a segregação racial na África do Sul. Vemos a transformação física e a evolução espiritual de Gandhi, firme sobre o que acredita, mesmo nas piores circunstâncias.

A mensagem é transmitida, embora o filme pudesse alçar voos maiores. Em seus 40 anos, Gandhi é um filme que serve a seu protagonista e aos admiradores dele, mas também é uma daquelas flagrantes injustiças do Oscar que, em favor dele, deixou de lado uma obra-prima como E.T., o Extraterrestre.

Gandhi. Reino Unido/ Índia/ Estados Unidos/ África do Sul, 1982.
Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Elenco: Ben Kingsley, Rohini Hattangadi, Roshan Seth, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Amrish Puri, Richard Griffiths, Nigel Hawthorne. 

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