Matador -1950 - 03

O MATADOR (Henry King, 1950)

Diário de Filmes 2019: 35

No começo de O Matador, o pistoleiro Johnny Ringo (Gregory Peck) para numa birosca para tomar um trago. É reconhecido e provocado por um valentão local, que quer saber se Ringo é tão bom quanto a fama. Ringo não quer confusão, mas é pressionado até ter que matar o sujeito em defesa própria. Quantas vezes isso não terá acontecido com o pistoleiro, depois que ficou famoso? Quantas vezes ainda não acontecerá?

Agora, ele só quer chegar à sua cidade e rever um amor do passado e seu filho. Lá, passa o filme quase todo no saloon, à espera da resposta da amada. Do lado de fora, a cidade em polvorosa, com curiosos, gente querendo vingança, inconsequentes querendo se provar.

Faroestão psicológico sobre um homem que é rápido, mas não tanto quanto a própria reputação. Um filme que não fez grande sucesso de público na época (Zanuck, chefão da Fox, culpou o bigodão de Gregory Peck), mas está entre os clássicos do gênero, influenciando muitos filmes que vieram depois.

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Bob Esponja - Um Heroi Fora d'Agua - 01

BOB ESPONJA — UM HERÓI FORA D’ÁGUA (Paul Tibbitt e Mike Mitchell, 2018)
1/2
Diário de Filmes 2019: 34

O trailer e o subtítulo brasileiro me enganaram: fizeram parecer que essa coisa de super-herói iria ocupar o filme todo ou quase todo. Felizmente, não. A trama combina o fundo do mar no estilo tradicional da série, com a aventura fora do mar com os personagens em animação digital contracenando com Antonio Banderas sem medo da canastrice. Muita maluquice e a melhor delas é a engraçadíssima Fenda do Biquíni pós-apocalíptica.

Lino - 02

LINO — UMA AVENTURA DE SETE VIDAS (Rafael Ribas, 2017)

Diário de Filmes 2019: 33

Lino é  uma animação brasileira que se esforça bastante para parecer uma produção padrão de Hollywood. O animador de festas magicamente transformado em gato gigante precisa resolver sua situação enquanto é perseguido pela polícia por um crime que não cometeu. E com uma garotinha a tira-colo, que ele inicialmente não quer por perto, mas que o adora (a dinâmica de Sulley e Bu em Monstros S.A.). É agitado, mas aos personagens falta carisma. Um ponto bom é Selton Mello na dublagem do personagem principal: sua voz é bastante familiar em outras animações, o que não deixa de ser, por tabela, mais um ponto para soar como uma animação americana. Rafael Ribas é filho de Walbercy Ribas, de O Grilo Feliz

Mamma Mia, Here We Go Again!

MAMMA MIA! — LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Ol Parker, 2018)
1/2
Diário de Filmes 2019: 32

As canções do Abba continuam uma delícia, mas isso está longe de ser o suficiente nessa continuação muito forçada do original, que era baseado em um musical do teatro. A estrutura, por incrível que pareça, é a mesma de O Poderoso Chefão  Parte II: a trama da filha e a trama da juventude da mãe são contadas intercaladas, sem ser uma um flashback da outra. Mas ambas são fracas. A juventude de Donna, embora Lily James seja adorável, nem tem coragem de assumir tudo o que era contado do passado da personagem e seus namorados. O sumiço de Meryl Streep é totalmente desnecessário e sua breve aparição torna isso ainda mais evidente. Cher, então, é um desperdício total.

Vinganca de Milady - 01

A VINGANÇA DE MILADY/
OS QUATRO MOSQUETEIROS — A VINGANÇA DE MILADY
(Richard Lester, 1974)

Diário de Filmes 2019: 31

A segunda parte da adaptação de Os Três Mosqueteiros mantém a qualidade do primeiro. Natural: o filme foi rodado como um só e depois dividido em dois (mas os atores só tinham recebido por um, então processaram os produtores). Equilibra ação e humor, entre ironias e patetices, e a vontade de desglamourizar a história. Mas há mais elementos dramáticos e sombrios, com a vingança propriamente dita da Milady de Faye Dunaway e seus desdobramentos. É uma grande conclusão para a melhor adaptação de Os Três Mosqueteiros para o cinema.

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CAPITÃO AMÉRICA — GUERRA CIVIL (Anthony Russo e Joe Russo, 2015)
1/2
Diário de Filmes 2019: 30

Guerra Civil é um dos pontos altos do universo cinematografico da Marvel. Estabelece um conflito entre os super-heróis partindo de uma diferença ideológica: se os heróis devem ou não ser controlados pelos governos. As questões pessoais agravam as tensões, envolvendo, pelo lado do Capitão, a fidelidade ao velho amigo Bucky, acusado de matar um estadista, e, pelo lado do Homem de Ferro, as dores do assassinato do pai no passado. Aqui, antes do conflito há muita discussão e impasse, e peso dramático no conflito. Ninguém quer brigar, mas ninguém vai parar de brigar porque a mãe tem o mesmo nome da mãe do outro.

My Fair Lady - 12

Audrey Hepburn em “I could have dance all night”, de “My Fair Lady” (1964)

60. ‘FLESH FAILURES/ LET THE SUNSHINE IN’, de Hair (1979)
Com John DeRobertas, Grand L. Bush, Beverly D’Angelo, John Savage, Treat Williams, Don Dacus, Annie Golden, Cheryl Barnes e coro. Direção: Milos Forman. Coreografia: Twyla Tharp. Canção de Galt MacDermot, Gerome Ragni e James Rado.

A apoteose do filme – em uma canção forte, que bate direto – mostra os soldados americanos indo para o Vietnã, jovens que marcham até serem engolidos pela completa escuridão representada pela entrada do avião militar. Quem canta, aparece primeiro como um anônimo que nem se identifica na multidão de soldados, até se aproximar da câmera. O drama adicional é do hippie que está lá por engano, tendo tomado o lugar do amigo para que este curtisse um último bom momento com a namorada antes de partir – mas não houve tempo para a troca ser desfeita. Essa troca é uma mudança do filme em relação à peça.

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59. ‘YOU’RE THE ONE THAT I WANT’, de Grease — Nos Tempos da Brilhantina (1978)
Com Olivia Newton-John e John Travolta. Direção: Randal Kleier. Coreografia: Patricia Birch. Canção de John Farrar.

A resolução final do romance entre os personagens de Olivia e Travolta, onde ele resolve ser mais certinho para ficar com ela, mas ela é que deixa de ser a boazinha absoluta para ficar com ele. Sobra carisma e química entre os dois.

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58. ‘AFTER YOU GET WHAT YOU WANT, YOU DON’T WANT IT’, de O Mundo da Fantasia (1954)
Com Marilyn Monroe. Direção: Walter Lang. Coreografia: Robert Alton. Canção de Irving Berlin.

Um dos grandes momentos de Marilyn nesse filme de grande elenco, que incluía Ethel Merman, Donald O’Connor e Mitzi Gaynor. O número é uma apresentação para uma plateia, mas Marilyn, em ascensão no estrelato, domina a cena completamente. Não dá para tirar os olhos dela. Ainda mais nesse vestido.

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57. ‘EASTER PARADE’, de Desfile de Páscoa (1948)
Com Judy Garland e Fred Astaire. Direção: Charles Walters. Coreografia: Fred Astaire e Charles Walters. Canção de Irving Berlin.

Uma inversão no clichê de gênero: em vez do homem cantar para a garota, ela é quem o corteja. Judy chega a fazer Fred sentar no colo dela! É uma reconciliação, mas a personagem de Judy mostra aos poucos, com muito charme, que está tudo bem. A canção de Irving Berlin é uma delícia e na voz de Judy, é difícil ficar melhor. E tem esses passinhos na escada, no final, uma graça. Era Fred voltando à Metro e para ficar (substituindo aqui Gene Kelly, escalado para o filme, mas que havia quebrado o tornozelo) e Judy em seus últimos anos no estúdio: foi, infelizmente, o único filme em que contracenaram (os dois estiveram no elenco de Ziegfeld Follies, de 1945, mas o filme era em esquetes e eles não apareceram juntos na mesma cena).

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56. ‘ON THE TOWN’, de Um Dia em Nova York (1949)
Com Gene Kelly, Frank Sinatra, Jules Munshin, Vera-Ellen, Ann Miller e Betty Garrett. Direção: Gene Kelly, Stanley Donen. Canção de Rioger Edens, Adolph Green e Betty Comden.

Pela primeira vez no filme, o sexteto protagonista (os marinheiros e as namoradas que paqueram em suas 24 horas de folga em Nova York) estão juntos na mesma cena. O cenário é o alto do Empire State (de mentirinha, claro, no estúdio da Metro). O encontro não deixa por menos, com uma grande apresentação de humor e dança, com carisma para dar e vender. É o começo de uma grande noite.

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55. ‘FUNNY FACE’, de Cinderela em Paris (1957)
Com Fred Astaire e Audrey Hepburn. Direção: Stanley Donen. Coreografia: Fred Astaire e Eugene Loring. Canção de George Gershwin e Ira Gershwin.

E se Audrey Hepburn fosse contratada da Metro? Pode-se ter boa ideia aqui, nesse musical da Paramount, mas que tem na equipe boa parte da turma da MGM (incluindo o diretor e o astro Astaire). O resultado, na prática, um musical da Metro feito na Paramount. E um momento especial é este, com o fotógrafo vivido por Fred revelando seu trabalho com a livreira vivida por Audrey. A cena de música e a dança no quarto escuro, com o processo de revelação incluído na cena, é para rever mil vezes. Audrey foi bailarina na juventude e mostra toda sua graça aqui.

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54. ‘SHADOW WALTZ’, de Cavadoras de Ouro (1933)
Com Dick Powell, Ruby Keeler e côro. Direção: Marvyn LeRoy. Direção de dança: Busby Berkeley. Canção de Harry Warren e Al Dubin.

Busby Berkeley parecia não ter limites. Em “Shadow waltz”, ele colocou dezenas de garotas com violinos em um cenário de plataformas curvas. Ao apagar as luzes, o contorno dos violinos se mostram iluminados e aí começam as evoluções, em círculo e até na forma de um violino gigante. Que criador de imagens marcantes ele foi!

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53. ‘THE SOUND OF MUSIC’, de A Noviça Rebelde (1965)
Com Julie Andrews. Direção: Robert Wise. Coreografia: Marc Breaux e Dee Dee Wood. Canção de Richard Rogers e Oscar Hammerstein II.

Após aquela “overture” pelas montanhas da Áustria e aquela tomada de tirar o fôlego de helicóptero se aproximando daquele pontinho que vira a Julie Andrews, segue-se uma declaração de intenções do filme: a fraulein Maria cantando seu amor pela música. Ainda não sabemos nada dela, mas já sabemos isso, o essencial que vai fazer diferença na vida de todos no filme. O filme também já mostra que não vai economizar nas paisagens embasbacantes.

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52. ‘YOU WERE MEANT FOR ME’, de Cantando na Chuva (1952)
Com Gene Kelly e Debbie Reynolds. Direção: Gene Kelly e Stanley Donen. Coreografia: Gene Kelly. Canção de Arthur Freed e Nacio Herb Brown.

Don Lockwood, o ator vivido por Gene Kelly, quer declarar seu amor para Kathy Selden, a jovem atriz vivida por Debbie Reynolds. Mas diz que não consegue se não tiver o cenário adequado. Num estúdio, uma aulinha de mágica de Hollywood: luz do luar de um refletor, brisa noturna de ventiladores… E um dos mais bonitos números românticos do cinema. Debbie Reynolds penou nas mãos de Gene Kelly, um obcecado pela perfeição. Um dia, Fred Astaire a pegou chorando num canto da MGM e ela contou suas dificuldades. Então, ele ensaiou e deu dicas a ela. Como se vê aqui, ela aprendeu mais do que bem.

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51. ‘I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT’, de My Fair Lady — Minha Bela Dama (1964)
Com Audrey Hepburn (voz de Marni Nixon). Direção: Geotge Cukor. Coreografia: Hermes Pan. Canção de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner.

Logo depois de ‘The rain in Spain’, a pobre e inculta florista Eliza Doolittle está nas nuvens: finalmente mostrou que pode falar direito e potencial para ser uma dama, aos olhos de seu irascível professor. É levada pela governanta para dormir, mas quem conseguiria assim tão rápido? Durante todo o processo (subir escadas, trocar de roupa, se lavar), ela só canta que “poderia dançar a noite inteira”). Audrey, em um de seus pontos  mais altos em ser adorável.

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Pequeno Principe - 1974 - 02

O PEQUENO PRÍNCIPE (Stanley Donen, 1974)

Diário de Filmes 2019: 29

Não é a melhor coisa que Stanley Donen já fez, claro, mas é um filme bastante decente, com canções de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe (dupla de Gigi, 1958, e My Fair Lady, 1964) e criatividade. O Pequeno Príncipe dá voltas completas em seu planetinha, uma variação da engenhosidade que o diretor usou para fazer Fred Astaire dançar pelas paredes e teto de um quarto em Núpcias Reais (1951). Em outros planetas, a imagem é deformada pela lente que aprisiona a imagem num círculo. É audacioso ao simplesmente retratar os animais que dialogam com o personagem com atores, sem muita caracterização, só com um jogo de associação de imagens pela montagem. É estranho no começo, mas Bob Fosse, como a serpente, e Gene Wilder, como a raposa, estão tão bem que compensam.

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VINGADORES — ULTIMATO (Anthony Russo e Joe Russo, 2019)

Diário de Filmes 2019: 28

O filme responde bem a tanto mistério e expectativa. É também um dos raros casos em que quanto menos informação o espectador tiver sobre a trama, melhor (então, se preferir, pare agora, antes desta pequena análise). O que se desenhava como um grande contra-ataque contra o vilão Thanos é subvertido logo no início. O filme faz os personagens viverem o luto e joga apressadamente um plot de viagem no tempo que força um pouco a barra, mas o que acontece nela é tão divertido e engenhoso na auto-homenagem, e há surpresas tão boas como a importância da Nebulosa na trama, que não é tão difícil deixar pra lá soluções narrativas fáceis demais, contradições e o sumiço forçado de uma personagem problemática como a Capitã Marvel. Há desfechos comoventes e, sobretudo, muito respeito aos dois personagens centrais dessa saga: o Homem de Ferro e o Capitão América.

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VINGADORES — GUERRA INFINITA (Anthony Russo e Joe Russo, 2018)

Diário de Filmes 2019: 27

O épico que reúne quase todos os heróis do universo cinematográfico da Marvel tem muita coisa e muita gente para dar conta, por isso é uma grande correria, na qual não há muito tempo para considerações psicológicas ou contextualizações detalhadas. A exceção fica basicamente para o vilãozão Thanos, que quer erradicar metade dos seres vivos do universo num estalar de dedos, quando possuir todas as joias do infinito em sua manopla poderosa. Ramificado em quatro linhas narrativas simultâneas, é frenético, intenso e consegue manter a personalidade dos personagens egressos de seus próprios filmes. 

Toy Story 3

TOY STORY 3 (Lee Unkrich, 2010)

Diário de Filmes 2019: 26

11 anos depois do segundo filme, há a recuperação e expansão de um tema que já envolvia a personagem Jessie: brinquedos que precisam encarar uma criança que cresce e os vai deixando de lado. A derivação disso leva ao cenário de uma creche onde a animação ganha ares de filme de prisão. Um “Fugindo do Inferno” com bonecos. O Ken é um ótimo acréscimo, e os resets no Buzz Lightyear são sempre divertidos (chamando os outros de “metrossexual de plástico” ou a versão amante espanhol). A reta final é sensacional (e o momento da aceitação da morte não se vê todo dia numa animação infantil). E a sequência final é uma das melhores já feitas no cinema, sem exagero.

Mogli o Menino-Lobo - 1967 - 02

MOGLI, O MENINO-LOBO (Wolfgang Reitherman, 1967)

Diário de Filmes 2019: 25

Existem duas versões bem recentes de “Mogli”, um bom motivo para rever o clássico da Disney, esta charmosa e leve animação que basicamente mostra o menino criado por lobos em sua jornada até a aldeia dos homens. Última produção supervisionada pessoalmente por Walt, que morreu durante a produção, segue o estilo visualmente mais simples empreendido a partir de 101 Dálmatas (1961).

Roma - 08

ROMA (Alfonso Cuarón, 2018)
Diário de Filmes 2019: 24

A sessão foi para observar o uso da arquitetura no filme, para matéria da revista AE. Cuarón busca a representação mais realista possível da arquitetura do bairro de Roma na Cidade do México de 1970, mas também mostra como esse elemento pode comunicar. Por exemplo, com o quartinho de empregadas o mais separado possível da casa. Ou como o carro que mal cabe na garagem é uma representação da personalidade do pai. A casa é um personagem à parte. A matéria, onde arquitetos comentam o filme, está na edição atual da AE.

Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria. Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes dessa lista ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano.

OS 20 MELHORES DE 1989

Faca a Coisa Certa - 03

1 — FAÇA A COISA CERTA

(Do the Right Thing, Estados Unidos). Direção e roteiro: Spike Lee. Elenco: Danny Aiello, Spike Lee, John Tuturro, Rosie Perez, Sameul L. Jackson, Ossie Davis, Ruby Dee, Bill Nunn, Martin Lawrence, John Savage.
O caldeirão multicultural em Bed-Stuy está fervilhando no dia mais quente do ano e a intolerância racial está em ebulição. Lee, em seu quarto longa, traça um mosaico complexo e sem resolução fácil, sustentado por personagens marcantes. Seu filme termina com citações de Martin Luther King e Malcolm X, historicamente líderes que lutavam pela mesma causa, mas divergiam sobre o uso da violência.

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When Harry Met Sally2 — HARRY E SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

(When Harry Met Sally…, Estados Unidos). Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Elenco: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby.
O filme que redefiniu a comédia romântica tem um quê de inspiração em Woody Allen, brinca com o documentário (com atores interpretando depoimentos de histórias que, na verdade, são reais), tem diálogos ótimos (como a discussão sobre existir ou não amizade entre homem e mulher), momentos de improviso (a cena imortal do orgasmo fingido no restaurante foi sugestão de Meg Ryan; a fala final dessa cena foi sugestão de Billy Crystal), telas divididas espertas (homenageando Indiscreta, 1958, e Confidências à Meia-Noite, 1959). A trama é a do homem e da mulher que se detestam à primeira vista, depois ficam amigos, depois se apaixonam.

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Dead Poets Society (1989) Directed by Peter Weir Shown: Robin Williams

3 — SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

(Dead Poets Society, Estados Unidos). Direção: Peter Weir. Roteiro: Tom Schulman. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Josh Charles, Norman Lloyd.
Robin Williams em todas as suas potencialidades cômicas e dramáticas num filme sobre o poder transformador da arte. Filme obrigatório também sobre a arte de ensinar.

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Splendor-11

4 — SPLENDOR

(Splendor, Itália/ França) Direção e roteiro: Ettore Scola. Elenco: Marcello Mastroianni, Massimo Troisi, Marina Vlady.
Lançado meses depois de Cinema Paradiso, foi meio eclipsado pelo filme de Tornatore, mas é outro grande filme sobre o amor ao cinema. E o final ainda é citação direta de A Felicidade Não Se Compra.

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THE LITTLE MERMAID 3D

6 — A PEQUENA SEREIA

(The Little Mermaid, Estados Unidos) Direção e roteiro: John Musker, Ron Clements. Vozes na dublagem original: Jodi Benson, Pat Carroll, Kenneth Mars.
O filme que simboliza a renascença da Disney, após um período de filmes de pouco sucesso. O estúdio retornou à seara das princesas com algumas atualizações, caprichou na animação deslumbrante do fundo do mar e nas canções, com as ótimas “Part of your world” e “Kiss the girl” e a maravilhosa “Under the sea”.

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Sexo Mentiras e Videotape - 01

7 — SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE

(Sex, Lies and Videotape, Estados Unidos) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo.
Em um período onde o cinema independente não aparecia com tanto destaque, o filme de Soderbergh mostrou a força criativa que existia fora dos grandes estúdios.

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Indiana Jones e a Ultima Cruzada-26

8 — INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA

(Indiana Jones and the Last Cruzade, Estados Unidos) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeffrey Boam. Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliot, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, River Phoenix.
Spielberg resolveu pegar mais leve na terceira parte da franquia, que volta ao esquema do primeiro: uma corrida contra os nazistas por um tesouro místico. O golpe de mestre foi incluir o pai de Indy na trama, vivido na medida por Sean Connery (e os filmes de James Bond não são o “pai” dos de Indiana Jones, afinal de contas?). Vale o destaque para o prólogo com River Phoenix vivendo o jovem Indy.

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Crimes e Pecados - 01

9 — CRIMES E PECADOS

(Crimes and Misdemeanors, Estados Unidos) Direção e roteiro: Woody Allen. Elenco: Martin Landau, Woody Allen, Anjelica Huston, Alan Alda, Mia Farrow, Claire Bloom.
Como em Hannah e Suas Irmãs, Woody divide o filme em drama e comédia. E de novo equilibra bem as duas tramas que se entrelaçam. Se inspirou em Crime e Castigo e voltará a isso em Match Point (2006).

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Henrique V - 1989 - 02

10 — HENRIQUE V

(Henry V, Reino Unido) Direção e roteiro: Kenneth Branagh. Elenco: Kenneth Branagh, Ian Holm, Brian Blessed, Emma Thompson, Derek Jacobi.
Em seu primeiro filme como diretor, Branagh mostrou uma grande força criativa e narrativa nesta adaptação da peça de Shakespeare. A sequência da batalha de Azincourt é um grande momento, onde o ufanismo que Laurence Olivier usou como tom no filme de 1944 é trocado pela tragédia.

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Tempo de Gloria - 02

11 — TEMPO DE GLÓRIA

(Glory, Estados Unidos) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman.
A história do primeiro pelotão de soldados negros na Guerra Civil Americana, e o preconceito que enfrentaram até de seu próprio exército.

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De Volta para o Futuro - Parte 2 - 12

12 — DE VOLTA PARA O FUTURO — PARTE II

(Back to the Future — Part II, Estados Unidos) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, Billy Zane, Elijah Wood.
O divertidíssimo segundo filme tem três momentos: mostra o futuro prometido no final do primeiro, depois volta a 1985 alterado (como o mundo em que George não existiu em A Felicidade Não Se Compra, 1946) e volta a 1955, onde a nova trama tem momento de interseção com a do primeiro filme. Engenhoso e com efeitos especiais que hoje, na era do CGI, são corriqueiros, mas foram surpreendentes na época.

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Arquitetura da Destruicao - 01

13 — ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO

(Undergångens Arkitektur, Suécia) Direção: Peter Cohen.
O ideal estético do nazismo, da raça pura e da arte “não degenerada”, é analisada nesse excelente documentário. A visão estética deformada do III Reich se refletiu em sua odiosa política higienista, onde a ideia de uma “arte degenerada” refletia o preconceito com doentes mentais e uma obsessão com uma suposta pureza que gerou o Holocausto.

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Black Rain - A Coragem de uma Raca - 01

14 — BLACK RAIN — A CORAGEM DE UMA RAÇA

(Kuroi Ame, Japão) Direção: Shohei Imamura. Roteiro: Shohei Imamura e Toshiro Ishido. Elenco: Yoshiko Tanaka, Kazuo Kitamura, Etsuko Ichihara.
Uma visão dramática e poderosa, em preto-e-branco, da cidade de Hiroshima depois da explosão da bomba atômica jogada pelos americanos no final da II Guerra.

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Eu Sou o Senhor do Castelo - 01

15 — EU SOU O SENHOR DO CASTELO

(Je Suis le Seigneur du Château, França) Direção: Régis Wargnier. Roteiro: Alain Le Henry e Régis Wargnier. Elenco: Régis Arpin, David Behar, Jean Rochefort, Dominique Blanc.
Filmes com criança nem sempre são filmes infantis. Aqui, o filho do dono de uma mansão empreende uma rivalidade feroz contra o filho da empregada.

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Campo dos Sonhos - 01

16 — CAMPO DOS SONHOS

(Field of Dreams, Estados Unidos) Direção e roteiro: Phil Alden Robinson. Elenco: Kevin Costner, Amy Madigan, Ray Liotta, James Earl Jones, Burt Lancaster, Gaby Hoffmann.
Um dos melhores feel good movies, que aposta numa história difícil de levar a sério: um fazendeiro que ouve vozes que dizem para construir um campo de beisebol no meio de um milharal. E aí grandes jogadores do passado aparecem do além para bater uma bolinha. Mas, embarcando, é uma delícia de ver.

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Shirley Valentine - 01

17 — SHIRLEY VALENTINE

(Shirley Valentine, Reino Unido/ Estados Unidos) Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Willy Russell. Elenco: Pauline Collins, Tom Conti, Joanna Lumley.
Russell adapta a própria peça de sucesso, com a mesma Pauline Collins, que ganhou um Tony pelo papel: uma dona-de-casa inglesa tão solitária que dá bom dia às paredes e quebra a quarta parede para conversar com o espectador. Nada que uma viagem à Grécia não mude. Gilbert digiriu três filmes de 007 nos anos 1960 e 1970.

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Ata-me - 01

18 — ATA-ME

(Atame!, Espanha) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Victoria Abril, António Banderas, María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano.
Um sujeito com problemas mentais sequestra uma atriz de filmes pornô para tentar convencê-la a se casar com ele. A trama e a relação dos dois acaba se tornando mais complexa. Um Almodóvar atrevido de primeira linha.

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Meu Pe Esquerdo - 06

19 — MEU PÉ ESQUERDO

(My Left Foot — The Story of Christy Brown, Irlanda/ Reino Unido) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Shane Connaughton e Jim Sheridan. Elenco: Daniel Day-Lewis, Brenda Fricker, Alison Whelan, Fiona Shaw.
A história real de Christy Brown, que nasceu com paralisia cerebral e descobriu como escrever e pintando com a única parte do corpo que conseguia controlar: o pé esquerdo. O primeiro dos três Oscars de Day-Lewis.

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20 — BATMAN

(Batman, Estados Unidos) Direção: Tim Burton. Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren. Elenco: Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Jack Palance, Billy Dee Williams.
A primeira grande adaptação do Homem-Morcego para os cinemas detonou uma batmania mundial. O filme é cheio de senões (o Coringa ser responsável pela morte dos pais do Batman, pro exemplo), muita gente reclamou de Keaton como o herói, mas o Coringa de Nicholson é brilhante e Burton conseguiu impor sua marca autoral, isso não se pode negar.

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OS 10 PIORES

Orquidea Selvagem - 01

1 — ORQUÍDEA SELVAGEM

(Wild Orchid, Estados Unidos) Direção: Zalman King. Roteiro: Patricia Louisianna Knope e Zalman King. Elenco: Carré Otis, Mickey Rourke, Jacqueline Bisset, Assumpta Serna, Milton Gonçalves.
Uma advogada é levada a um turismo erótico pelo Rio de Janeiro por um milionário. Produtor e roteirista de 9 1/2 Semanas de Amor (1986), King tentou reproduzir o sucesso com o mesmo Mickey Rourke e a modelo Carré Otis, linda, mas inexpressiva, no lugar de Kim Basinger. O resultado foi péssimo, onde pessoas dobrando uma esquina no Rio e saindo em Salvador era o de menos.

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2 — O JUSTICEIRO (The Punisher, Austrália/ Estados Unidos) Direção: Mark Goldblatt. Elenco: Dolph Lundgren, Louis Gossett Jr. Versão podreira muito longe do que a Marvel é hoje no cinema.

3 — DOIDA DEMAIS (Brasil) Direção: Sergio Rezende. Elenco: Vera Fischer, Paulo Betti, José Wilker. Aventura que tenta usar a sensualidade de Vera Fischer e não muito mais.

4 — A MOSCA II (Estados Unidos) Direção: Chris Walas. Elenco: Eric Stoltz, Daphne Zuniga. Caça-níquel total.

5 — CONDENAÇÃO BRUTAL (Lock Up, Estados Unidos). Direção: John Flynn. Elenco: Sylvester Stallone, Donald Sutherland, Tom Sizemore. Um dos piores filmes de Stallone e essa é uma escolha difícil

6 — GUERREIRO AMERICANO III (American Ninja III Blood Hunt, Estados Unidos/ Canadá/ África do Sul). Direção: Cedric Sundstrom. Elenco: David Bradley, Steve James. Essa série foi uma praga com toda a cara da produtora Golan-Globus.

7 — LOUCADEMIA DE POLÍCIA VI — CIDADE EM ESTADO DE SÍTIO (Police Academy VI City Under Siege, Estados Unidos) Direção: Peter Bonerz. Elenco: Michael Winslow, G.W. Bailey, Bubba Smith, David Graf, George Gaynes, Leslie Easterbrook, Marion Ramsey. Steve Gutenberg já tinha pulado fora dois filmes atrás e a série não aprendeu com o filme anterior que era hora de acabar.

8 — MATADOR DE ALUGUEL (Road House, Estados Unidos). Direção: Rowdy Herrington. Elenco: Patrick Swayze, Kelly Lynch, Sam Elliott, Ben Gazzara. Patrick Swayze como leão de chácara. Pior que Dirty Dancing.

9 — OS TRAPALHÕES NA TERRA DOS MONSTROS (Brasil) Direção: Flávio Migliaccio. Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Zacarias, Angélica, Conrado, Gugu Liberato, Vanessa de Oliveira. Os Trapalhões têm filmes bons e ruins. Mas esse aqui sofre com péssimos monstrinhos (e falo também das atuações de Angélica, Conrado e Gugu).

10 — CONFUSÕES DE UM SEDUTOR (Skin Deep, Estados Unidos). Direção: Blake Edwards. Elenco: John Ritter, Vincent Gardenia, Nina Foch. Deve ser o pior filme da carreira de Blake Edwards. Ele parece ter feito esse fiome antes e muito melhor.

 

Três Mosqueteiros

OS TRÊS MOSQUETEIROS (Richard Lester, 1973)
⭐⭐
Diário de Filmes 2019: 23

A mais fiel adaptação da obra de Alexandre Dumas é também a última grande versão com algum grau de fidelidade, visto que as seguintes mudam muito a (ou tudo na) história. Acabou dividido em duas partes, com A Vingança de Milady lançado no ano seguinte.

O espírito mantém o bom humor da trama e busca desglamourizar a história. Paris é suja, cheia de pedintes, contrastando com a opulência da corte. Os mosqueteiros são uns pés-rapados que forjam brigas para roubar o almoço. As lutas são agitadas e com peso dramático e cômico, mais “realistas” que as coreografias quase dançadas da versão de 1948 com Gene Kelly e das acrobacias artemarcializadas recentes.

Com elenco estelar (Michael York, Oliver Reed, Richard Chamberlain, Charlton Heston, Faye Dunaway, Raquel Welch fazendo uma Costance meio Jerry Lewis, Christopher Lee, Geraldine Chaplin), é uma aventura de primeira e, com sua continuação, a melhor versão dessa história para o cinema. Os produtores Alexander e Ilya Salkind alguns anos mais tarde produziriam Superman — O Filme, e chamariam Lester para dirigir o II e o III.

Capitã Marvel

CAPITÃ MARVEL (Anna Boden e Ryan Fleck, 2019)
½
Diário de Filmes 2019: 22

O primeiro filme do Universo Cinematografico Marvel liderado por uma super-heroína infelizmente não é um dos pontos altos da série. A narrativa até começa bem, com a personagem tendo flashes de memória que vão construindo seu passado. Mas o desenrolar é frouxo, tem uma insistência irritante em certas tolices pra justificar piadas lá na frente, uma protagonista que o filme parece não ter coragem de tornar casca-grossa de verdade e que é uma personagem problemática pelo nível desproporcional de poder. Na questão do empoderamento feminino é bem correto, mas só isso não faz um filme.

GHOSTS OF GIRLFRIENDS PAST

MINHAS ADORÁVEIS EX-NAMORADAS (Mark Waters, 2009)
½
Diário de Filmes 2019: 21

Esse filme é da fase em que Matthew McConaughey repetidamente interpretava o bonitão-mulherengo-irresponsável-descamisado. A premissa (que o título brasileiro deixa pra lá) é um paralelo com o Conto de Natal de Dickens, em que o protagonista é assombrado por ex-namoradas do passado, presente e futuro. Há uma ou outra boa ideia, mas o desenvolvimento infelizmente é pura rotina. Chega ao clichê dos clichês do gênero: a corrida atrás do amor que está indo embora.

Cupido Nao Tem Bandeira

CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA (Billy Wilder, 1961)
Sem borda - 04 estrelas
Diário de Filmes 2019: 20

Eu cresci no fim dos anos 1970 e nos anos 1980. Quando fui abrindo os olhos pro mundo, o Muro de Berlim já estava lá. Vi pela TV e celebrei sua derrubada quando eu tinha 13 anos. Mas houve um período antes, em que Berlim era dividida, mas não havia o muro e era possível transitar de um lado para o outro da cidade. É lá e nesse período que se passa essa comédia maluca de Billy Wilder.

Mais do que isso, o filme explora essa vizinhança geminada entre capitalismo e comunismo para satirizar os dois lados de modo brilhante. James Cagney metralha diálogos como o diretor da fábrica da Coca-Cola na cidade (pode-se representar mais o capitalismo?), que quer comercializar com o lado oriental para ser transferido para um lugar de mais prestigio (“Além do mais, eles já contrabandeiam nossos carregamentos – e nem devolvem os cascos!”). Mas precisa cuidar da filha do chefão e se descuida o suficiente pra ela aparecer casada com um jovem muito comunista (“O capitalismo é como um arenque ao luar: brilha, mas fede”).

Com o pai da moça prestes a aparecer de visita, ele dá um duplo twist carpado após outro para tentar resolver a parada. E não é que, bem quando Billy estava filmando, a Alemanha Oriental começou a construir o muro? Ao que parece, uma coisa não tem a ver com a outra, mas o fato é que parte do filme teve que ser filmado em Munique, num estúdio em que havia a réplica do Portão de Brandenburgo.

Eu acreditaria que o filme tivesse tido um gigantesco product placement da Coca-Cola, não fosse o antológico momento final (aliás, mais um para a impressionante coleção de Billy).

Balada de Buster Scruggs

THE BALLAD OF BUSTER SCRUGGS (Joel Coen e Ethan Coen, 2018)
Sem borda - 04 estrelas
Diário de Filmes 2019: 19

Os irmãos Coen falam da inevitabilidade da morte e do acaso nesse faroeste em episódios. A apresentação mostra a capa de um livro abrindo, no modelo dos antigos contos-de-fadas adaptados pela Disney. Livro, aliás, que é, em si mesmo, uma peça de ficção. A atmosfera progride da farsa bem humorada do fanfarrão Buster Scruggs ao sombrio encontro numa diligência onde personagens podem dar uma nova perspectiva a seus problemas quando veem como certas pessoas lidam com a morte. É raro ver um filme em episódios que mantém em cada uma das partes um nível tão bom.

Era uma Vez em Hollywood - 01

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio: elementos ficcionais para fazer diferença

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD
Sem borda - 04 estrelas

Brincando de narrativa e namoro com Sharon Tate  

Renato Félix

Há dois tipos possíveis de espectadores para o Era uma Vez em… Hollywood (2019) do Tarantino: aqueles que conhecem a história de Sharon Tate e aqueles que nem sabem quem ela foi. E há outros dois tipos de espectadores para o Era uma Vez em… Hollywood do Tarantino: os que viram Bastardos Inglórios (2009) e os que não viram.

Como o espectador se enquadra dentro dessas caixinhas, e o cruzamento e combinações entre elas, certamente influi nas expectativas e antecipações da trama. O filme, sem dúvida, conversa muito mais com quem, por exemplo, conhece a história de Sharon Tate, que, interpretada por Margot Robbie, protagoniza uma das duas histórias paralelas entre as quais a narrativa vai e volta. A outra é a de dois personagens ficcionais: o ator decadente Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê e parceiro Cliff Booth (Brad Pitt).

O filme acompanha a jornada de Dalton para recuperar a carreira. Ator de TV que sente já não estar fazendo mais o sucesso de antes, ele sofre e procura novas oportunidades, sempre com o fiel Booth ao lado, dando suporte. É uma Holywood em mudança: o antigo star system e a força do modelo antigo dos estúdios estava ficando para trás, e novos rostos estavam aparecendo, como o do diretor polonês Roman Polanski, que havia acabado de emplacar o sucesso estrondoso de O Bebê de Rosemary (1968) e estava casado com a lindíssima Sharon Tate.

Enquanto mostra Dalton e Booth, Tarantino também mostra Sharon e seu momento de atriz em ascensão, flanando por Los Angeles, dançando em uma festa da Mansão Playboy, curtindo se assistir no cinema e tirar fotos com pessoas que não sabem bem ainda quem ela é (mas, se está em um filme, está valendo). A interseção entre as duas tramas é que Dalton e Sharon Tate são vizinhos e quem conhece a história passa o filme aguardando que essas tramas convirjam para um momento capital.

Para esse espectador, qualquer sinal da presença da Família Manson é um arrepio na espinha, que tende a crescer com a aproximação desse momento fatídico.

Mas e para quem não conhece a vida de Sharon Tate? Seria interessante saber como são as expectativas e antecipações do filme para esse espectador específico.

Assim como, para quem assistiu Bastardos Inglórios e, assim, já sabe do que Tarantino é capaz ao lidar com fatos históricos. Para estes, mais cartas estão na mesa e já se considera que algumas surpresas podem ou não acontecer: para um espectador escolado, passam a ser, então, possibilidades.

Então cruzamentos diferentes podem resultar em experiências de recepção sensivelmente diferentes. Quem conhece a história de Sharon Tate e viu Bastardos Inglórios acompanha o filme de uma maneira. Quem conhece a história, mas não assistiu ao filme de 2009, de outra. Para quem não sabe dos fatos, ter ou não assistido a Bastardos tende a não fazer muita diferença, acredito.

Era uma Vez em Hollywood - 2019 - 06

Margot Robbie como Sharon Tate: flanando

Apoiada nessas duas jornadas — a de Rick Dalton/ Cliff Booth e a de Sharon Tate —, Era uma Vez em… Hollywood é um grande passeio pelo meio cinematográfico de 1969. O cenário é muito importante, as ruas e carros, o cinema de rua com um concierge, o drive-in, as cidades cenográficas abandonadas (agora ocupados como moradia por hippies muito suspeitos). E Tarantino, um cinéfilo fervoroso, que em seus filmes sempre vai beber nas fontes de seus gêneros preferidos, aproveita para brincar de recriar a estética e a narrativa de tudo o que pode.

Então, se Rick Dalton aparece em cenas de seriados de faroeste ou policiais, o cineasta não perde a oportunidade de reproduzir o estilo dessas cenas. DiCaprio é até inserido em uma cena de Fugindo do Inferno (1963), como se fosse uma possibilidade que não aconteceu de ele ficar com o papel que acabou com Steve McQueen (que aparece como personagem no filme). Entrevistas, programas musicais, western spaghetti, comerciais de cigarro: Tarantino faz sua própria versão de tudo isso. Cabe ao espectador compartilhar ou não dessa curtição do diretor — e, por isso, um cinéfilo tende a sair mais satisfeito de Era uma Vez em… Hollywood.

O tratamento do filme com Sharon Tate era uma temeridade. Como o cinismo de Tarantino lidaria com um tema tão delicado? Mas o clima é praticamente de namoro. Até na cena em que Sharon, na pele de Margot Robbie, se assiste no cinema em Arma Secreta contra Matt Helm (1968), pés sobre a cadeira da frente, o filme não “recria” a cena, como vinha sendo a regra: prefere usar a cena real. Desse modo, a verdadeira Sharon Tate aparece brevemente em cena nesse momento de Era uma Vez em… Hollywood. O final, já apontado como um momento sentimental incomum na obra do diretor, é outro elemento desse sentimento carinhoso do filme pela atriz.

A partir daqui, o texto traz informações sobre o enredo. Ou seja: os populares spoilers.

Como em Bastardos Inglórios, Tarantino usa o cinema para fazer “justiça com as próprias mãos”. Desta vez, também para se vingar de assassinos cruéis (Hitler em Bastardos Inglórios e a Família Manson, aqui), mas também para salvar diretamente a quem o diretor se referiu em entrevistas como “um anjo”.

Para isso, ele prepara o personagem de Brad Pitt no imaginário do espectador. O coloca como um adversário à altura de Bruce Lee (Mike Moh), aqui retratado antes da fama, e saindo sem dificuldade do ninho da Família Manson após esmurrar um dos integrantes da seita. Com isso, ele antecipa que existe um elemento ficcional que poderia fazer diferença na história real.

E nesse ponto, Tarantino deixa sua marca da violência gráfica temperada com humor, como um substituto ao horror da vida real. No final, o terno encontro que pode até redimir o personagem de DiCaprio (Rick Dalton fará um filme com Polanski? Quem sabe ele estará em Chinatown?) é mais uma vez o diretor dizendo que, nos filmes dele, ele é quem manda — e nem a História (com “h” maiúsculo) manda mais do que ele.

Era uma Vez em… Hollywood. Once Upon a Time… in Hollywood. Reino Unido/ EUA/ China, 2019. Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Dakota Fanning, Bruce Dern, Luke Perry, Damian Lewis, Al Pacino, Nicholas Hammond. 2h41. 16 anos. Em cartaz nos cinemas (confira locais e sessões na Paraíba).

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