AS AVENTURAS DA TURMA DA MÔNICA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 85
Onde ver: YouTube.

Um gibi na telona

Para o primeiro longa-metragem de seus personagens, Mauricio de Sousa assina a direção de uma estrutura que, de propósito ou não, espelha os gibis que faziam (e fazem até hoje) sucesso nas bancas. Assim, não se trata de uma história única, mas quatro curtas: “O plano infalível”, “Um amor de ratinho”, “A ermitã” e “O império empacota”. Os dois do meio são, inclusive, adaptações diretas de HQs da Mônica.

A animação tem suas limitações (principalmente quando comparada à alternativa da época, as produções Disney, com muito mais tempo, gente e dinheiro), mas há um inegável charme que o filme conseguiu levar dos gibis e o resultado marcou época.

O primeiro segmento é uma versão das travessuras habituais dos personagens, com novas versões das canções que já haviam aparecido do disco A Bandinha da Turma da Mônica, em 1971. O tema da Mônica até hoje é conhecido e usado, mas a maioria das canções poderia ser dispensada, além de algumas piadas serem bobas além do necessário. Mas o começo e o final são bem legais.

Os demais episódios saem do tradicional cotidiano da turminha. Em “Um amor de ratinho”, Mônica fica diminuta e vive uma aventura com roedores – e um deles se apaixona por ela, já que ela estava em uma festa à fantasia e vestida de ratinha.

“A ermitã” é o melhor segmento, quando Mônica se sente rejeitada pelos amigos e resolve se isolar na floresta. E “O Império Empacota” surfa na onda de Guerra nas Estrelas – inspiraria, dois anos depois, A Princesa e o Robô.

Mauricio de Sousa aparece em carne-e-osso fazendo a introdução e ligando os curtas, conversando com seus personagens por telefone e, no fim, num encontro de ação ao vivo com animação. Funciona bastante bem – bem melhor que o uso de celebridades que longas da turminha fariam no futuro, como no primeiro Cinegibi.

Prestes a completar 40 anos de lançamento (em 2022), o filme nunca foi lançado em DVD e muito menos em blu-ray. Também não está nas plataformas de streaming. O público só pode conferir o filme atualmente através de cópias publicadas por fãs no YouTube a partir de cópias antigas do VHS.

A Mauricio de Sousa Produções bem que poderia pelo menos fazer o que fez há alguns anos com A Princesa e o Robô: colocar uma versão remasterizada do longa em seu YouTube oficial e permitir ao público conhecer ou rever uma produção histórica da animação brasileira.

As Aventuras da Turma da Mônica, 1982
Direção: Mauricio de Sousa. Roteiro: Mauricio de Sousa e Reinaldo Waisman. Elenco: Mauricio de Sousa. Vozes: Maria Amelia Basile, Ivete Jayme, Isaura Gomes, Silvia Marinho, Araquem Saldanha

O PÂNTANO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 83
Onde ver: DVD, YouTube.

Férias melancólicas

O filme argentino, que completa 20 anos em 2021, foi o primeiro longa solo de Lucrecia Martel: um introspectivo estudo de personagens de duas famílias em uma temporada melancólica de férias na cidade de Salta, cidade natal da diretora e roteirista no nordeste da Argentina. Não há bem uma história, mas uma sucessão de experiências cotidianas dessas pessoas. Álcool, barulho das crianças e algumas questões pessoais mais importantes. A câmera de Mertel é basicamente uma observadora por trás da porta desses dias na vida dessas pessoas.

La Ciénaga, 2001
Direção e roteiro: Lucrecia Martel. Elenco: Mercedes Morán, Graciela Borges, Martín Adjemián, Leonora Balcarce.

O MISTÉRIO DA TORRE
⭐⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 82
Onde ver: não disponível em home video ou streaming no Brasil

A tradição de filmes de roubos muito planejados e por criminosos insuspeitos é antiga e não só restrita a Hollywood. O Mistério da Torre. por exemplo, completa 70 anos este ano, e é uma produção inglesa, do estúdio Ealing. Alec Guinness e Stanley Holloway, dois grandes atores britânicos, se esbaldam na comédia encabeçando a “máfia de Lavender Hill”, a rua de Londres onde fica a pensão onde a dupla se conhece.

Guinness é o funcionário do banco, totalmente metódico e que funciona como um relógio. Mas ele tem um plano para desviar ouro do banco e viver o resto de seus dias numa boa. O encontro com Holloway, que tem uma pequena fábrica de lembrancinhas, entre as quais miniaturas da Torre Eiffel, acaba viabilizando seu estratagema: eles podem transformar o ouro roubado em estatuetas da torre, despachá-las para Paris e resgatá-las lá, longe das autoridades britânicas.

É claro que imprevistos não demoram a aparecer, levando a uma sucessão de correrias e loucuras – a principal delas, uma desvairada descida pelas escadas em espiral da Torre Eiffel, numa vertiginosa perseguição a algumas meninas que compraram as miniaturas “premiadas” da torre.

Há outros equívocos, trapalhadas, uma fuga dentro de uma exposição, perseguição de automóveis e muita confusão entre os dois líderes amadores e seus ajudantes, criminosos profissionais. E o humor vem muito do desespero dos personagens em consertar o que vai dando errado.

O filme foi dirigido por um nome importante do gênero, Charles Crichton (quase 40 anos depois ele dirigiria Um Peixe Chamado Wanda), ganhou o Oscar de roteiro original (e Alec Guinness foi indicado a melhor ator) e ainda teve uma jovem atriz numa ponta como uma brasileira: Audrey Hepburn. O Mistério da Torre é muito lembrado por mostrar a atriz antes da fama.

The Lavender Hill Mob, 1951
Direção: Charles Crichton. Roteiro: T.E.B. Clarke. Elenco: Alec Guinness, Stanley Holloway, Sidney James, Alfie Bass, Marjorie Fielding, Audrey Hepburn.

LOURA E SEDUTORA
⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 81
Onde ver: não disponível em home video ou streaming no Brasil

Choque de classes

Loura e Sedutora, 90 anos em 2021, é de antes da principal fase da carreira de Frank Capra. O cineasta que depois faria Aconteceu Naquela Noite (1934), A Mulher Faz o Homem (1939) e A Felicidade Não Se Compra (1946) aqui entrega uma comédia básica sobre um jornalista de escândalos cínico que se casa com uma grã-fina.

Aí entram os conflitos vindos dos pontos de vista vinda de classes sociais diferentes. Ele é pressionado a se ajustar, mas é do tipo “eu sou assim e ninguém vai mudar isso”. Observando tudo está a colega de imprensa que gosta dele, mas é vista apenas “como um dos rapazes”.

A loura e sedutora só pode ser Jean Harlow, com carreira em ascensão e a caminho de se tornar um símbolo sexual (que morreria muitíssimo jovem, dali a seis anos, aos 26). Talvez o título tenha mais a ver com a atriz que com a personagem, que é bonita, mas não apela para esse lado, mesmo tendo a Hollywood dos anos 1930 como contexto.

O filme é divertido, mas é aquela coisa: o cinema em geral e Capra em particular fariam bem melhor e não demoraria muito.

Platinum Blonde, 1931
Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, com adaptação de Jo Swerling, de argumento de Harry Chandlee e Douglas W. Churchill. Elenco: Robert Williams, Jean Harlow, Loretta Young.

LAVOURA ARCAICA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 80
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes, Google Play/ YouTube Filmes, YouTube.

Imersão e reverência

Luiz Fernando Carvalho fez um filme com sua assinatura em Lavoura Arcaica, que completa 20 anos em 2021. Visual arrebatador, rebuscado, às vezes demais. Narrativa mergulhada na poesia, encharcada até quando ela é apresentada em um filme ou especial de TV, com menos exigência de diálogo com o público que uma novela (seara onde também atua, e muito bem). Tom teatral, todo o tempo.

Tudo isso está presente em Lavoura Arcaica, com seus méritos e/ ou ressalvas. São quase três horas intensas, erguidas por um grande elenco, que se isolou em uma fazenda para uma imersão no projeto, e muito reverentes à obra original de Raduan Nassar – o escritor esteve presente no projeto até a montagem.

Talvez uma devoção excessiva, é verdade. Mas essa versão da parábola do filho pródigo, passada no seio de uma família de imigrantes libaneses, cheia de repressões, culpas e sentimentos proibidos, se mostra apaixonada por seu material e isso foi compartilhado por muita gente que viu o filme desde sua estreia.

A ponto de ele ser apontado por muita gente boa como um dos melhores filmes da nossa história.

Lavoura Arcaica, 2001
Direção e roteiro: Luiz Fernando Carvalho, baseado em romance de Raduan Nassar. Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Simone Spoladore, Juliana Carneiro da Cunha, Leonardo Medeiros, Caio Blat, Denise Del Vecchio.

TURMA DA MÔNICA – LIÇÕES
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 163
Onde ver: cinemas

“Assim, a aventura do primeiro filme (uma busca atravessando a floresta para encontrar o cachorro sequestrado do Cebolinha) dá lugar a uma trama que diz respeito basicamente ao relacionamento entre o quarteto e problemas da vidinha de cada um. Ao serem obrigados ao encarar suas características mais marcantes como um problema, Cebolinha, Cascão e Magali expõem suas fragilidades, como insegurança ou ansiedade. O trio sofre sem a amiga por perto e vice versa e muitas lágrimas são derramadas: a separação abre uma crise nas crianças e da dentuça com seus pais”.

O texto completo está no CinemaEscrito.

Turma da Mônica – Lições, 2021.
Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Tiago Dottori, Mariana Zatz, com colaboração de Maria Maria Iorio, baseado na graphic novel de Vítor Cafaggi e Lu Cafaggi, com personagens criados por Mauricio de Sousa. Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Isabelle Drummond, Malu Mader, Paulo Vilhena, Mauricio de Sousa.

20 – A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE (Willy Wonka & the Chocolate Factory)
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes.

Esse musical infantil com o dono de uma fábrica de chocolates esquisito dando lições de moral em crianças mal educadas marcou mais de uma geração. O carisma e o talento de Gene Wilder ajudam bastante.
Estados Unidos. Direção: Mel Stuart. Roteiro: Roald Dahl e David Seltzer, baseado em livro de Dahl. Elenco: Gene Wilder, Peter Ostrum, Jack Albertson.

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19 – LUXÚRIA DE VAMPIROS (Lust for a Vampire)
Onde ver: DVD.

Segundo exemplar da trilogia de Karnstein, com a voluptuosa vampira vivida pela dinamarquesa Yutte Stengaard se infiltrando numa escola para moças para pescar novas vítimas. Terror gótico e mulher bonita, a receita da Hammer naqueles tempos.
Reino Unido. Direção: Jimmy Sangster. Roteiro: Tudor Gates, baseado em personagens criados por Sheridan Le Fanu. Elenco: Yutte Stensgaard, Barbara Jefford, Ralph Bates, Suzanna Leigh.

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18 – MORTE EM VENEZA (Morte a Venecia)
Onde ver: DVD, blu-ray (na coleção Visconti Essencial), Belas Artes a la Carte, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Visconti adapta Thomas Mann na história do compositor que fica obcecado por um adolescente. Com trilha usando obras de Mahler, é muito admirado pelos fãs do cineasta.
Itália/ França. Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Luchino Visconti e Nicola Badalucco, baseado no romance de Thomas Mann. Elenco: Dirk Bogarde, Bjorn Andrésen, Marisa Berenson, Silvana Mangano.

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17 – O DRAGÃO CHINÊS (Tang Shan Da Xiong ou The Big Boss)
Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video, Oldflix, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, YouTube (dublado).

O primeiro da série de filmes estrelados por Bruce Lee, um Fred Astaire das artes marciais. Aqui, ele é o jovem que vai trabalhar numa fábrica de gelo com a família, a qual os chefes usam para traficar drogas. Ele tinha prometido ao tio não se envolver em brigas, mas a coisa muda quando seus parentes começam a ser mortos. É primário em várias coisas, mas, depois de anos de Lee em pequenos papéis em Hong Kong e Hollywood, aqui temos o começo de uma verdadeira lenda.
Hong Kong. Direção: Wei Lo, Chia-Hsiang Wu (não creditado). Roteiro: Wei Lo. Elenco: Bruce Lee, Maria Yi, James Tien.

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16 – AS AVENTURAS DE M. HULOT NO TRÁFEGO LOUCO (Trafic)
Onde ver: DVD (na coleção A Obra Completa de Jacques Tati).

Depois do prejuízo financeiro com Playtime (1967), Jacques Tati rodou um filme mais modesto, a convite da Holanda, com a ideia divertida de uma viagem de Paris a Amsterdã para mostrar o veículo que projetou em uma exposição de automóveis. Como sempre, nas muitas situações inesperadas que a viagem proporciona, é a pantomima de Hulot e dos outros personagens a principal fonte de risos ou sorrisos.
França/ Itália. Direção: Jacques Tati. Roteiro: Jacques Tati, com colaboração artística de Jacques Lagrange e participação de Bert Haanstra. Elenco: Jacques Tati, Maria Kimberly, Honoré Bostel.

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15 – 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (Diamonds Are Forever)
Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Com George Lazenby recusando voltar, então Sean Connery voltou ao papel de James Bond. A abertura reflete o acontecimento, com Bond espancando bandidos, mas sem a câmera mostrá-lo, entre outras piadas internas. Connery e a franquia em boa forma.
Reino Unido. Direção: Guy Hamilton. Roteiro: Richard Malbaum e Tom Mankiewicz, baseado em romance de Ian Fleming. Elenco: Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray, Lana Wood, Bernard Lee, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Putter Smith, Bruce Glover.

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14 – BANANAS (Bananas)
Onde ver: DVD.

O segundo filme dirigido para valer por Woody Allen mistura comédia rasgada com sátira política, com seu personagem típico se envolvendo com uma revolução em um país latino-americano. Muita improvisação nas cenas, realçando o grande quociente de absurdo no filme (como músicos que tocam instrumentos inexistentes numa cena, que Allen decidiu fazer assim porque os instrumentos alugados não chegaram).
Estados Unidos. Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen e Mickey Rose. Elenco: Woody Allen, Louise Lasser, Carlos Montalbán, Nati Abascal.

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13 – ENSINA-ME A VIVER (Harold and Maude)
Onde ver: DVD, blu-ray, Microsoft Store.

Original comédia romântica entre um jovem rapaz e uma senhora beirando os 80 anos. Ele, um obcecado pela morte, que simula suicídios para atormentar a mãe. Ela, uma apaixonada pela vida e por novas experiências. Caiu como uma luva para o roteirista Higgins e o diretor Ashby, grandes autores de comédia que entregaram um filme para cima e que não se esquece.
Estados Unidos. Direção: Hal Ashby. Roteiro: Colin Higgins. Elenco: Bud Cort, Ruth Gordon, Vivian Pickles, Cyril Cusack, Tom Skerritt.

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12 – ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS ou JOGOS E TRAPAÇAS – QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS (McCabe and Mrs. Miller)
Onde ver: DVD (na coleção O Cinema de Faroeste Vol. 8), YouTube (legendado em espanhol).

Um faroeste de Robert Altman nunca vai ser um faroeste como os outros. Aqui, seu protagonista é um sujeito que se acha muito esperto, abrindo um bordel numa cidadezinha, mas que só vai mesmo para a frente quando uma prostituta entra como sócia para organizar o lugar. Depois, dá um passo em falso numa negociação, o que deixa um pistoleiro no seu encalço. O clímax, com o herói se escondendo, é na neve. Não é à toa que Altman o chamou de “anti-western”. Mas, com tons de comédia dramática e muito de patético, tem o toque indiscutível do diretor.
Estados Unidos. Direção: Robert Altman. Roteiro: Robert Altman, Brian McKay, Robert Towne (não creditado), Joseph Calvelli (não creditado), baseado em romance de Edmund Naughton. Elenco: Warren Beatty, Julie Christie, Rene Auberjonois, Shelley Duvall, Keith Carradine.

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11 – ÂNSIA DE AMAR (Carnal Knowledge)
Onde ver: DVD.

Mike Nichols, na direção, e Jules Feiffer, no roteiro, examinam a encruzilhada masculina diante da revolução sexual. Jack Nicholson e Art Garfunkel navegam por belas mulheres sem saber muito bem o que estão fazendo. Ann-Margret aparece sexy, como sempre, nua e comovente como nunca. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jules Feiffer. Elenco: Jack Nicholson, Art Garfunkel, Candice Bergen, Ann-Magret, Rita Moreno, Cynthia O’Neal, Carol Kane.

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10 – E AGORA, PARA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE (And Now for Something Completely Different)
Onde ver: YouTube (som original, sem legendas).

O Monty Python revolucionou a comédia na TV com seu nonsense e levou a magia para o cinema em um filme que era simplesmente a refilmagem com mais recursos de seus melhores esquetes. Não há a menor história, nem o menor sentido, apenas sandices clássicas como “a piada mais engraçada do mundo”, “o papagaio morto”, “a canção do lenhador”, ou uma explanação sobre “como não ser visto”.
Reino Unido. Direção: Ian MacNaughton. Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin. Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Carol Cleveland.

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9 – KLUTE – O PASSADO CONDENA (Klute)
Onde ver: DVD, Oldflix, Apple TV/ iTunes.

Jane Fonda ganhou o Oscar de melhor atriz como a prostituta envolvida no desaparecimento de um homem, caso investigado por um detetive. Mas é Jane e sua personagem a razão de ser do filme, como a profissional perspicaz que precisa atender as diversas necessidades de seus clientes (embora Klute seja o nome do detetive). 
Estados Unidos. Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis e David E. Lewis. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Charles Cioffi, Roy Scheider.

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8 – SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs)
Onde ver: DVD, YouTube (dublado).

O mestre da violência Sam Peckinpah leva um casal ao inferno: um matemático e sua esposa isolados em uma cabana, atacados por vizinhos brutamontes. Ainda hoje pode ter passagens fortes demais. Hoffman, Susan George e Peter Vaughan estão perfeitamente escalados. 
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Sam Peckinpah. Roteiro: David Zelag Goodman e Sam Peckinpah, baseado no romance de Gordon Williams. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, T.P. McKenna.

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7 – O ENIGMA DE ANDRÔMEDA (The Andromeda Strain)
Onde ver: DVD.

Quando uma cidade inteira morre por causa de uma possível contaminação alienígena, um grupo de cientistas corre contra o tempo para descobrir como evitar que isso se alastre pelo mundo. Um thriller com uma investigação científica como protagonista, enfrentando inclusive o pouco caso do governo.
Estados Unidos. Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, baseado no romance de Michael Crichton. Elenco: Arthur Hill, David Wayne, James Olson, Kate Reid, Paula Kelly.

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6 – PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (Dirty Harry)
Onde ver: DVD, HBO Max, Now, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes).

Dirty Harry, o protótipo do policial durão, implacável, que toma as leis nas próprias mãos e sai do regulamento para conseguir o que quer, virou um personagem recorrente de Clint Eastwood, aparecendo em cinco filmes. este é o primeiro e o melhor, com cenas memoráveis como Harry apontando a arma para a cara de um bandido desarmado, dizendo que não lembra se as balas acabaram e perguntando: “Então, você está com sorte?”. 
Estados Unidos. Direção: Don Siegel. Roteiro: Harry Julian Fink, Rita M. Fink, Dean Riesner, Terrence Malick (não creditado), John Milius (não creditado), com argumento de Julian Fink, M. Fink e Jo Heims. Elenco: Clint Eastwood, Harry Guardino, Reni Santoni, John Vernon.

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5 – HOUVE UMA VEZ UM VERÃO ou VERÃO DE 42 (Summer of ’42)
Onde ver: DVD.

Um modelo dos filmes nostálgicos sobre adolescentes e seu amadurecimento. Aqui, numa ilha de veraneio em 1942, um garoto de 15 anos se apaixona platonicamente por uma mulher mais velha e casada (a lindíssima Jennifer O’Neill). Os filmes são com Bette Davis, a primeira vez era um objetivo de vida, a II Guerra era distante, mas nem tanto. A música de Michel Legrand embala as lembranças do protagonista.
Estados Unidos. Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Herman Raucher. Elenco: Jennifer O’Neill, Gary Grimes, Jerry Houser, Oliver Conant. Voz: Maureen Stapleton.

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4 – OPERAÇÃO FRANÇA (The French Connection)
Onde ver: DVD, blu-ray.

O vencedor do Oscar de melhor filme é mais um com um tira capaz de tudo para pegar seu bandido. Popeye Doyle não tem problema em atirar pelas costas ou destruir um carro durante uma perseguição alucinada pelas ruas de Nova York a um trem elevado que leva um criminoso. A perigosa perseguição foi filmada no banco de trás do carro pelo próprio diretor Friedkin operando a câmera. Eletrizante, com o diretor em sua melhor forma.
Estados Unidos. Direção: William Friedkin. Roteiro: Ernest Tidyman, baseado no livro de Robin Moore. Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco.

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3 – A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (The Last Picture Show)
Onde ver: DVD, YouTube (dublado).

Outro filme memorialista, sobre adolescentes amadurecendo, mas em uma cidade do interior que caminha para o ostracismo, nos anos 1950. Peter Bogdanovich filmou em preto-e-branco, uniu jovens talentos a veteranos de Hollywood, e uniu também uma pegada moderna a um estilo clássico hollywoodiano, cheio de referências – começando pelos filmes em cartaz no cinema local. 
Estados Unidos. Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Larry McMurtry e Peter Bogdanovich, baseado em romance de McMurtry. Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eileen Brennan, Sam Bottoms, Randy Quaid.

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2 – ENCURRALADO (Duel)
Onde ver: DVD, blu-ray, Now, Telecine Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, YouTube (legendado; dublado).

A espetacular estreia de Steven Spielberg na direção de longas é, na origem, um filme para televisão. Mas a Universal chamou o jovem diretor para filmar novas cenas e aumentar a produção para um lançamento nos cinemas, em outros países. A história de um cidadão absolutamente comum caçado implacavelmente na estrada por um caminhoneiro assassino misterioso merecia isso. O caminhoneiro nunca aparece completamente, parece que o gigantesco caminhão, em si, é o perseguidor. Spielberg já mostra seu grande talento narrativo. 
Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Richard Matheson, baseado em seu conto. Elenco: Dennis Weaver, Jacqueline Scott, Eddie Firestone.

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1 – LARANJA MECÂNICA (A Clockwork Orange)
Onde ver: DVD, blu-ray, HBO Max, Looke, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Em um ano no qual a violência foi protagonista, Stanley Kubrick lançou uma ficção científica que aborda o assunto. Um jovem que pratica a ultraviolência com sua gangue e depois seu processo de reprogramação por parte do governo. Tão chocante na violência quanto caricato e cômico, tem um visual exagerado (incluindo um bar de leite com mesas na forma de mulheres nuas), Beethoven e Rossini na trilha sonora, além de Malcolm McDowell agredindo um homem enquanto canta e dança “Singin’ in the rain”. Irônico, iconoclasta, meio pateta, uma obra como poucas. 
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em romance de Anthony Burgess. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

20 – INFÂMIA (The Children’s Hour)
Onde ver: DVD.

A peça de Lillian Hellman sobre duas professoras que têm suas vidas transformadas num inferno quando uma aluna as acusa de lesbianismo foi levada ao cinema pela primeira vez em 1936, pelo próprio William Wyler, mas com o tema da fofoca mudado. Foi restabelecido nessa nova versão, embora ainda atenuando o tema por causa do Código Hays. Mas tem um grande diretor e duas grandes atrizes. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça de Lillian Hellman. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Karen Balkin, Miriam Hopkins, Fay Bainter, Veronica Cartwright.

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19 – UMA MULHER É UMA MULHER (Une Femme Est une Femme)
Onde ver: DVD, Telecine Play.

Jean-Luc Godard fazendo comédia. É estranho, como todos imaginaríamos ser. A trama mostra uma mulher querendo ser mãe e em conflito com o marido, que acaba sugerindo um amigo como alternativa. Anna Karina, uma das musas de Godard, está em seu primeiro filme; Godard em seu segundo, fazendo piscadelas metalinguísticas e brincando com absurdos, como Brialy andando de bicicleta dentro de casa. 
França/ Itália. Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Jean-Luc Godard, com argumento de Geneviève Cluny. Elenco: Anna Karina, Jean-Claude Brialy, Jean-Pierre Belmondo, Jeanne Moreau.

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18 – EL CID (El Cid)
Onde ver: DVD, blu-ray, YouTube (legendado; dublado).

Um epicão contando a história de um herói espanhol do século XI, entre vinganças familiares e as batalhas contra um invasor mouro. Milhares de extras e personagens maiores que a vida, filmados pelo grande artesão Anthony Mann. Não se fazem mais filmes assim. 
Itália/ Estados Unidos. Direção: Anthony Mann. Roteiro: Phillip Yordan, Fredric M. Frank e Ben Barzman (não creditado), com argumento de Frank. Elenco: Charlton Heston, Sophia Loren, Raf Vallone, Geneviève Page, John Fraser.

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17 – OS CANHÕES DE NAVARONE (The Guns of Navarone)
Onde ver: DVD, blu-ray, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store, YouTube (dublado).

Aventura clássica de guerra, com uma tropa de elite que deve sabotar grandes canhões nazistas em uma ilha grega, permitindo o resgate de aliados. O elenco carismático sustenta bem a história, dirigida com a competência de sempre por Thompson. 
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: J. Lee Thompson. Roteiro: Carl Foreman, baseado no romance de Alistair MacLean. Elenco: Gregory Peck, David Niven, Anthony Quinn, Irene Papas, Stanley Baker, Gia Scala.

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16 – O TERROR DAS MULHERES (The Ladies Man)
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Jerry Lewis de novo cria uma situação para desfilar uma série de esquetes. Aqui, é um jovem traumatizado com o sexo oposto que acaba indo trabalhar numa pensão com uma multidão de mulheres. Ali, ele lida com as necessidades de cada uma, uma equipe de TV que vem filmar um documentário, um bichinho de estimação perigoso, arrumar o chapéu de um irritado Buddy Lester e o quarto surrealista da Srta. Cartilagem. Como diretor, Lewis usou uma pequena câmera de vídeo ao seu lado para conferir o enquadramento (a invenção do video assist) e comandou um gigantesco cenário vazado de três andares, onde a câmera passava de um quarto a outro. 
Estados Unidos. Direção: Jerry Lewis. Roteiro: Jerry Lewis e Bill Richmond, e Mel Brooks (não creditado). Elenco: Jerry Lewis, Helen Traubel, Pat Stanley, Kathleen Freeman, George Raft, Buddy Lester, Harry James.

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15 – DESAFIO À CORRUPÇÃO (The Hustler)
Onde ver: DVD, Star Plus.

Um drama sobre sinuca? Robert Rossen dirige esse filme sobre um jovem e ambicioso talento (Paul Newman), obcecado em derrubar um veterano imbatível (Jackie Gleason), e que entra em crise existencial quando não consegue, dando início a um drama sobre personagens autodestrutivos. Newman (que voltou ao personagem em A Cor do Dinheiro, de 1986) e Gleason (que era bom mesmo) fizeram eles mesmo quase todas as cenas de jogo. O título brasileiro não tem muito a ver.
Estados Unidos. Direção: Robert Rossen. Roteiro: Sidney Carroll e Robert Rossen, baseado no romance de Walter Tevis. Elenco: Paul Newman, Jackie Gleason, Piper Laurie, George C. Scott, Jake LaMotta.

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14 – CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass)
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes.

No fim dos anos 1920, Natalie Wood e Warren Beatty são jovens apaixonados e pegando fogo – mas a decisão de transar ou não poderia marcar uma moça para sempre, enquanto ele é pressionado pelo pai rico a não engravidar a garota pobre e complicar seu futuro. A pressão leva a jovem ao colapso, enquanto a quebra da Bolsa de Nova York se avizinha, sorrateira. Um grande drama de Kazan, mais uma vez numa luta contra o conservadorismo paranoico do Código Hays, e com uma direção muito rica. As cenas de Natalie Wood atraindo Beatty para o carro e perdendo a razão na cachoeira são memoráveis, assim como a sequência final. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Elia Kazan. Roteiro: William Inge. Elenco: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Barbara Loden, Zohra Lampert.

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13 – VIRIDIANA (Viridiana)
Onde ver: DVD.

Buñuel voltou à Espanha após mais de duas décadas e já arrumou problemas: seu retrato da noviça que é objeto de desejo do tio, e que acolhe miseráveis na casa que herda dele, com esses mendigos encenando o quadro “A última ceia”, ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Mas causou tanto escândalo que foi acusado de blasfêmia pelo jornal do Vaticano e foi proibido na Espanha – a censura ao filme só caiu após a morte de Franco, em 1977. Não há tudo isso de escandaloso, ainda mais aos olhos de hoje. O diretor satiriza as instituições, sobretudo religiosas, na pele deslumbrante da pobre Viridiana (a mexicana Silvia Pinal). 
Espanha/ México. Direção: Luís Buñuel. Roteiro: Julio Alejandro e Luís Buñuel, baseado no romance de Benito Pérez Galdós. Elenco: Silvia Pinal, Francisco Rabal, Fernando Rey, Margarita Lozano.

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12 – A NOITE (La Notte)
Onde ver: DVD, Telecine Play, YouTube.

Segundo filme da (informal) Trilogia da Incomunicabilidade de Antonioni. É mais digerível que A Aventura (1960), com a história de um casal em certa crise que começa o dia visitando um amigo moribundo no hospital e encerra numa festa na casa de ricaços, Da abertura linda que observa Milão enquanto a câmera desce a fachada de edifícios ao final, o filme emoldura a cidade, até o final no gramado, se o urbano por perto – entre eles, encontros episódicos com, por exemplo, uma ninfomaníaca no hospital ou uma jovem rica também em crise.
Itália/ França. Direção: Michelangelo Antonioni. Roteiro: Michelangelo Antonioni, Ennio Flaiano e Tonino Guerra. Elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Bernhard Wicki.

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11 – OS DESAJUSTADOS (The Misfits)
Onde ver: DVD, blu-ray, Looke, NetMovies, Apple TV/ iTunes.

Marilyn era casada com Arthur Miller e foi para ela que ele escreveu esse roteiro, onde uma mulher arrebatadoramente sexy, mas angelical, se envolve com caçadores de cavalos selvagens, uma atividade brutal demais para sua sensibilidade. Foi o último filme tanto de Gable quanto de Marilyn, e prova de quão bons atores ambos podiam ser. 
Estados Unidos. Direção: John Huston. Roteiro: Arthur Miller. Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Thelma Ritter, Eli Wallach.

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10 – O ANO PASSADO EM MARIENBAD (L’Année Dernière à Marienbad)
Onde ver: DVD, Looke, NetMovies.

O enigmático filme de Alain Resnais parte de um grupo isolado em uma casa de campo, na qual um homem tenta convencer uma mulher de que eles se conheceram e se apaixonaram no ano anterior. Terá sido mesmo? Em volta disso, a atmosfera fantasmagórica e hipnótica nas imagens que passam pelos tetos e paredes, no jardim com estátuas e estranhas plantas em forma de cone. O significado de tudo e cada coisa é um convite a discussões pós-filme – mas não se deve esperar conclusões.
França/ Itália. Direção: Alain Resnais. Roteiro: Alain Robbe-Grillet. Elenco: Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff.

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9 – O MOCINHO ENCRENQUEIRO (The Errand Boy)
Onde ver: DVD.

Jerry Lewis leva suas trapalhadas para dentro de um estúdio de cinema. Sua força caótica vem da estrutura episódica, em que várias cenas funcionam isoladamente – como Jerry dando um show de mímica imitando o chefão em uma reunião, ao som de Count Basie, ou a sequência hilariante com o elevador lotado.
Estados Unidos. Direção: Jerry Lewis. Roteiro: Jerry Lewis e Bill Richmond. Elenco: Jerry Lewis, Brian Donlevy, Howard McNear.

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8 – OS INOCENTES (The Innocents)
Onde ver: DVD, blu-ray, YouTube (legendado; dublado).

Clássico do terror da época em que o gênero investia mais no clima sombrio do que nos sustos fáceis, mostrando uma governanta que desconfia (ou imagina) que fantasmas rondam a casa isolada, onde cuida de duas crianças estranhas. O visual elegante é resultado de uma direção muito marcante, que já começa o filme com uma canção sinistra em fundo totalmente preto antes até do logo da 20th Century-Fox. 
Reino Unido. Direção: Jack Clayton. Roteiro: William Archibald e Truman Capote, com cenas e dialogos adicionais por John Mortimer, baseado em romance de Henry James. Elenco: Deborah Kerr, Megs Jenkins, Martin Stephens, Pamela Franklin, Peter Wyngarde, Michael Redgrave.

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7 – UM GOSTO DE MEL (A Taste of Honey)
Onde ver: DVD (só e na coleção Nouvelle Vague Britânica).

Uma Inglaterra jovem, sem perspectiva e muito longe da corte. O free cinema britânico tem um de seus maiores representantes, com a história da adolescente que tem uma mãe picareta. Quando ela engravida, acaba encontrando apoio em outro proscrito: um amigo gay. Com a vibração e o realismo que marcou o movimento, tem no papel principal uma grande estreia: a de Rita Tushingham. Leia mais. 
Reino Unido. Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney e Tony Richardson, baseado em peça de Delaney. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Paul Danquah.

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6 – 101 DÁLMATAS ou A GUERRA DOS DÁLMATAS (One Hundred and One Dalmatians)
Onde ver: DVD, blu-ray, Disney Plus, YouTube (dublado).

101 Dálmatas marcou o começo de uma nova era na Disney. Um design mais simples, menos delicado e a tecnologia da xerox usada na produção. Também é uma história contemporânea e longe dos contos de fadas: filhotes de dálmata são sequestrados e seus pais vão ao resgate. A vilã inesquecível é Cruella DeVille, que quer os bichinhos para fazer um casaco com a pele deles! Charme e grande destreza na narrativa de aventura pelo trio de diretores, veteranos nos estúdios Disney.
Estados Unidos. Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wolfgang Reitherman. Roteiro: Bill Peet, baseado no livro de Dodie Smith. Vozes na dublagem original: Rod Taylor, Betty Lou Gerson, Ben Wright. Vozes na dublagem brasileira: Domingos Martins, Margarida Rey, Hélio Colonna.

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5 – CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA (One, Two, Three)
Onde ver: DVD.

A comédia maluca de Billy Wilder é testemunha de seu tempo. É sobre um executivo da Coca-Cola em Berlim Ocidental que recebe a filha do chefão da companhia e ela se apaixona por um comunista padrão do lado oriental. Na época, o trânsito era possível entre os dois lados e o Muro de Berlim foi erguido enquanto o filme estava sendo rodado. A ambientação pode ter ficado velha rápido, mas o filme tem James Cagney metralhando diálogos e muito sarcasmo tanto sobre o capitalismo quanto sobre o comunismo. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e I.A.L. Diamond, baseado na peça de Ferenc Molnár. Elenco: James Cagney, Horst Buchholz, Pamela Tiffin, Arlene Francis.

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4 – ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Såsom i en Spegel)
Onde ver: DVD, YouTube.

Primeiro exemplar da chamada Trilogia do Silêncio, de Bergman, só tem quatro atores, interpretando pai, filha e seu marido, e o irmão dela, isolados em casa numa ilha. Ela, se recuperando de problemas mentais, que voltam quando ela começa a ouvir vozes. Os problemas da filha expõem a desagregação da família. O silêncio da trilogia, no caso, é o silêncio de Deus. Bergman extrai tudo de seus atores e seus rostos, a partir de uma extraordinária Harriet Andersson.
Suécia. Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Max von Sydow, Lars Parsgård.

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3 – BONEQUINHA DE LUXO (Breakfast at Tiffany’s)
Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Oldflix, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store, YouTube (dublado).

Truman Capote não teria escolhido Audrey Hepburn para interpretar Holly Golightly, a acompanhante que vai tirando dinheiro dos homens enquanto almeja um futuro melhor, simbolizado pela joalheria Tiffany’s. Enquanto isso, se envolve com um escritor tão pé-rapado quanto ela, sustentado por uma amante rica. Capote estava errado: Audrey é ponto crucial para este filme ter se tornado um clássico imortal, charmoso toda vida, com a direção classuda e irreverente de Blake Edwards, o figurino de Givenchy para a atriz, a música antológica de Henry Mancini (incluindo “Moon river”, que Audrey imortalizou).  
Estados Unidos. Direção: Blake Edwards. Roteiro: George Axelrod, baseado em romance de Truman Capote. Elenco: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, Martin Balsam, Mickey Rooney, José Luis de Villalonga.

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2 – AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story)
Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Oi Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Esta releitura de Romeu e Julieta coloca jovens americanos e porto-riquenhos como versões dos Montéquio e dos Capuleto, com o ex-líder de uma gangue e a irmã do líder da outra se apaixonando. Adaptação do musical da Broadway, faturou 10 Oscars e revolucionou o gênero, com uma dança moderna e entranhada na narrativa a ponto de desafiar o público. Muitos números marcantes (o duelo de dança no baile, “Tonight” como a cena do balcão, “America” contestando o sonho americano, a molecagem de “Gee, Officer Krupke”…) e os coadjuvantes Rita Moreno e George Chakiris arrasando. 
Estados Unidos. Direção: Robert Wise e Jerome Robbins. Roteiro: Ernest Lehman, baseado no libreto de Arthur Laurents para a peça concebida por Robbins, por sua vez inspirada em Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Elenco: Natalie Wood, Richard Beymer, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Chakiris.

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1 – YOJIMBO – O GUARDA-COSTAS (Yojimbo)
Onde ver: DVD, Belas Artes a la Carte.

No começo de Yojimbo, o samurai vivido por Toshiro Mifune vaga por uma estrada até chegar a uma bifurcação. Joga um galho para cima, para decidir na sorte por qual dos dois caminhos seguir. O escolhido o leva a uma cidade onde é recebido por um cachorro com uma mão decepada na boca. Lá, ele se depara com uma comunidade oprimida pela guerra entre duas facções. E resolve destruir as duas. Um espetáculo de aventura de Kurosawa, depois refilmado como faroeste (o samurai sem destino na entrada e na saída inspirou o homem sem nome de Clint Eastwood, nos filmes de Sergio Leone) e filme de gangsters, entre outras versões.
Japão. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa e Ryuzo Kikushima. Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Yoko Tsukasa, Isuzu Yamada.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

CLAMOR DO SEXO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 148
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes.

A repressão e a depressão

Clamor do Sexo. Que título, hein? A versão brasileira para o original Splendor in the Grass chama pelo aspecto do (talvez para a época) escandaloso. É claro que há realmente um “clamor do sexo”, o ponto de partida no filme – que completa 60 anos este ano – para um drama mais amplo sobre pressões sociais, desencanto, depressão.

Deanie (Natalie Wood) e Bud (Warren Beatty) são jovens, lindos e apaixonados. E inflamados de desejo. Mas é Kansas no final dos anos 1920, e as garotas são separadas entre aquelas que transam e as que são “para casar”. Então, eles lidam com esse dilema em particular e outros maiores sobre o que o futuro reserva a eles. Ela deve ceder e deixar de ser “uma boa menina”? Ele deve insistir e talvez deixá-la marcada na sociedade conservadora e repressora onde vivem?

Poderia ser uma metáfora do próprio cinema americano, que estava cruzando naqueles anos a fronteira para tratar desses assuntos. O IMDb conta, por exemplo, que foi aqui que Hollywood mostrou pela primeira vez um beijo de língua! Enquanto isso, o público corria para os filme europeus para ver o bumbum de Brigitte Bardot ou seios de fora nos filmes suecos.

Não por acaso, essa história de repressão sexual com consequências se passa décadas antes, no final dos anos 1920. E é preciso ter essa visão da época para um drama que poderia parecer ultrapassado já nos anos 1960.

Para isso, a personagem da irmã hedonista de Bud está lá como contraponto à comportada Deanie e como aviso ao casal do que poderia acontecer a moças avançadas naquele lugar. Ela é vivida por Barbara Loden, que anos depois casaria com o diretor e que escreveria e dirigiria um elogiado filme, Wanda (1970).

Elia Kazan já vinha duelando com o código de censura do cinema americano há anos, como no efervescente Uma Rua Chamada Pecado, de dez anos antes). Aqui, de novo, ele teve que cortar algumas coisas (trechos de uma cena de nudez de Natalie Wood, já discreta para os padrões de hoje), mas outras ainda soam fortes para uma produção de Hollywood da época (como Natalie atraindo Beatty para o carro para transarem, com o olhar e a voz em alta voltagem erótica).

É o primeiro filme de Beatty, para ser incluído naquela lista de grandes estreias. E Natalie, que já era uma estrela desde criança, está mais uma vez memorável – e naquele ano ainda esteve também em Amor, Sublime Amor.

Splendor in the Grass, 1961
Direção: Elia Kazan. Roteiro: William Inge. Elenco: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Barbara Loden, Zohra Lampert.

CHAGA DE FOGO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 79
Onde ver: DVD.

Dia infernal na delegacia

Chaga de Fogo, 70 anos este ano, não nega sua origem teatral: se passa quase todo no mesmo ambiente, calcado em muitos diálogos de diversos personagens que entram e saem de cena o tempo todo. No centro de tudo, um policial, vivido por Kirk Douglas, inflexível na postura de punir sem ponderações quem comete erros, mas que será confrontado com seus próprios dramas pessoais que embaralharão suas convicções.

A peça de Sidney Kingsley era recente e William Wyler usou parte do elenco dos palcos na adaptação. É um dia nesta delegacia, em que diversos dramas humanos se empilham. Entre eles, está o do rapaz preso por roubo, cujo destino está nas mãos do empregador que ele roubou e do policial que o prendeu, papel de Kirk. O empregador tem mais empatia pelo rapaz que o tira.

Kirk Douglas, sempre ótimo em interpretações arrogantes, dá imensa força ao papel. Seu personagem de repente precisa enfrentar um segredo do passado de sua esposa (Eleanor Parker). Um tema delicado para os anos 1950, debatendo uma moral antiquada. Douglas é cercado de sólidos coadjuvantes, como William Bendix, o colega policial muito mais aberto e conciliador.

Os dois personagens travam bons debates, assim como Kirk e Eleanor e esses pontos de vista antagônicos são a alma do filme.

Detective Story, 1951
Direção: William Wyler. Roteiro: Philip Yordan e Robert Wyler, baseado na peça de Sidney Kingsley. Elenco: Kirk Douglas, Eleanor Parker, William Bendix, Cathy O’Donnell, Lee Grant


AMOR, SUBLIME AMOR
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 152
Onde ver: cinemas

Spielberg dança com a câmera para dialogar com o filme de 1961

“A chave principal na nova versão é que o original ressaltava o lado de fantasia que subvertia a realidade. Um sublinhado psicológico nos números musicais que se espalhava pela composição da imagem. A nova versão busca um tom mais realista nos cenários, na construção dos personagens, nas motivações, no contexto social.

Isso, claro, levando em conta que é próprio do musical a subversão da realidade, e ela está aqui presente – apenas não tão exacerbada quanto na versão de 1961. E considerando que se trata de uma versão de Romeu e Julieta, que já traz consigo sua quantidade de subversão da realidade.

Um exemplo claro disso na versão original é como a imagem desfoca ao redor do casal romântico Tony e Maria (Richard Beymer e Natalie Wood) quando se percebem no baile ou quando cantam juntos “Tonight” na “cena do balcão.

Por outro lado, a versão de Spielberg desloca “America” do telhado, onde acontece na versão de 1961, para as ruas. Embora na encenação faça falta mais força nas provocações dos rapazes contra as moças e vice versa, é interessante que a letra que confronta as aspirações e a realidade dura dos imigrantes nos Estados Unidos seja feita nos locais onde esse conflito acontece todo dia e conclua como uma afirmação de comunidade.”

Texto completo em Cinema Escrito.

West Side Story, 2021
Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, baseado no libreto de Arthur Laurents. Elenco: Ansel Elgort, Rachel Zegler, Ariana DeBose, David Alvarez, Mike Faist, Rita Moreno.

M – O VAMPIRO DE DUSSELDORF
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 78
Onde ver: DVD, Belas Artes a la Carte, Looke, NetMovies, YouTube.

A justiça do submundo

A garotinha está brincando inocente na rua quando um homem puxa conversa. Ela não desconfia, mas para nós, espectadores, a senha está dada: vemos apenas a sombra do sujeito, sobre um cartaz que alerta a população sobre um assassino de crianças à solta (mais precisamente: a sombra se posiciona sobre a palavra “assassino”). Há 90 anos, M – O Vampiro de Dusseldorf definia os padrões para filmes de serial killers com muita perícia visual.

O assassino, vivido por Peter Lorre, só aparece em cena mais para o meio do filme. A primeira parte é focada na caçada ao criminoso: tanto por parte da polícia, quanto dos chefões do crime (porque a polícia pressionada começa a complicar a vida deles).

Quando Lorre finalmente entra em cena, há uma sucessão de grandes momentos: quando ele é descoberto e marcado, sem saber, com um “M” nas costas; a perseguição dentro do prédio; o julgamento do submundo, em que o assassino discursa de maneira desconcertante que os bandidos ali têm escolha de ser o que são, mas ele não. E ainda há a relação do nazismo em ascensão, com os criminosos passando a julgar as pessoas.

Mas o filme é narrativamente muito inspirado desde sua abertura. Primeiro, com o canto assustador da brincadeira das crianças, que estão totalmente alheias ao perigo que correm na cidade. Assim como a garotinha que despreocupadamente joga sua bola sobre o cartaz de assassino, sem se dar conta do aviso.

Há também o uso inteligente do som naquela aurora do cinema falado. Por exemplo, no canto sinistro das crianças que volta fora de quadro, depois que uma mãe briga para que parem de cantar aquilo. Ou o assovio-assinatura que anuncia o assassino e depois o denuncia. A montagem paralela entre as discussões da polícia e da rede de criminosos, que mostra os dois grupos de maneira muito semelhante.

Há também o interessante plano da batida policial no inferninho no subsolo, visto a partir da escadaria de acesso, com a maior parte da tela preta e a luz da abertura para o interior emoldurando um arco na parte de baixo. É ainda o jogo de luz e sombra do expressionismo alemão, já apontando o futuro filme noir.

M, 1931.
Direção: Fritz Lang. Roteiro: Thea von Harbou e Fritz Lang, baseado em um artigo de Egon Jacobsohn. Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Otto Wernicke.

UM GOSTO DE MEL
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 144
Onde ver: DVD, BFI Player (sem legendas).

A Inglaterra jovem muito longe da corte

Antes dos créditos, as apresentações: Jo (Rita Tushingham) está na escola jogando propositalmente mal um esporte. Em casa, sua mãe, Helen (Dora Bryan), é uma irresponsável hedonista, pouco interessada em ser mãe ou em pagar o aluguel. As duas fogem da senhoria pela janela e Jo observa a cidade pela janela enquanto as duas estão no transporte público a caminho do próximo pouso.

É a sequência dos créditos de “Um Gosto de Mel”, 60 anos este ano, que traz logo à mente outra sequência de créditos semelhante: a de Os Incompreendidos, de Truffaut, filme de dois anos antes. O paralelo se estende tanto à protagonista jovem sem destino quanto ao clima geral do filme e do movimento britânico conhecido como free cinema, aparentado da nouvelle vague francesa.

O filme tem aquela vitalidade do free cinema, um jeito rebelde que espelhava um pouco seus protagonistas – muitas vezes jovens da classe operária, meio perdidos numa sociedade hostil, muito distantes da nobreza de uma Grã-Bretanha idealizada. Um estilo realista, quase seco, filmado predominantemente na rua, mas que, aqui, guarda espaço para algumas belas composições de Tony Richardson (como o plano de Jo, sob um arco, onde diz: “Sou extraordinária. Não há ninguém como eu, e ninguém como você”).

O filme aborda questões na época controversas, como gravidez na adolescência, relacionamentos interraciais e homossexualidade. É impressionante, considerando a época e que a autora Shelagh delaney tinha 19 anos quando escreveu a peça original e 21 quando co-escreveu este roteiro. Um fervor jovem que o filme traz inteiro em sua personagem principal e em sua atriz protagonista.

Rita Tushingham, então com 18 anos, faz aqui uma atuação para entrar em qualquer lista de estreias de cinema muito marcantes (ganhou melhor atriz em Cannes e revelação no Globo de Ouro e no Bafta): a garota parte ingênua, parte rebelde, parte perdida, parte impaciente com a mãe e com o mundo, tendo que simplesmente, e de alguma maneira, viver.

A Taste of Honey, 1961.
Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney e Tony Richardson, baseado em peça de Delaney. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens.

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 77, 137, 138

Onde ver: DVD, blu-ray, Now, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

A afirmação da aventura

40 anos após o lançamento, Os Caçadores da Arca Perdida continua como uma das mais puras expressões da aventura cinematográfica. Pensado inicialmente por George Lucas, com argumento de Lucas e Philip Kaufman, roteiro de Lawrence Kasdan e dirigido por Steven Spielberg, o filme foi mais fundo naquilo que já havia sido um dos pilares de Guerra nas Estrelas (1977): imprimir de novo o clima dos velhos seriados cinematográficos do tipo “continua na próxima semana”.

Porém, a aventura de Indiana Jones (Harrison Ford, perfeito) na corrida contra os nazistas para encontrar primeiro a Arca da Aliança, onde Moisés teria depositado as tábuas dos dez mandamentos, se passa em 1936, justamente na época em que esse seriados eram produzidos. Isso faz de Caçadores também um filme sobre o próprio cinema: ele não só reproduz, mas mimetiza e atualiza aquele estilo.

Mas talvez o filme não tivesse o status que tem hoje se não fosse o talento narrativo de Spielberg. Um diretor guiado pela composição de imagens, ele estava em plena fase de esplendor, que vinha de Tubarão (1975) e Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) – com a exceção do equívoco de 1941 (1979) – e iria em seguida para E.T. (1982).

Em Caçadores, a gente pode logo apontar as cenas mais famosas, como a bola gigante de pedra rolando atrás do nosso protagonista (cena tirada diretamente dos quadrinhos do Tio Patinhas, escritos e desenhados por Carl Barks). Ou a troca do ídolo por um saco de areia. Ou Indiana olhos nos olhos com uma naja.

Ou a saudação nazista do agente alemão, que revela as marcas do medalhão fumegante que ficou gravada em sua mão. Ou a piada em que o árabe ameaça Indy com uma facão, exibe sua perícia, mas, sem tempo e paciência, o arqueólogo apenas dá um tiro nele e segue em frente.

Mas o filme está recheado de pequenos momentos visualmente lindos. Essa última cena, mesmo, começa com um plano em que uma multidão se descortina e revela Indiana para o público, e revela para ele o pretenso agressor.

A abertura é espetacular desde o primeiro plano, o da montanha que insere o logo da Paramount na trama. E segue demorando a mostrar nosso protagonista, visto primeiro nos detalhes de suas mãos trabalhando, ou de costas, ou em silhueta, e cujo rosto só aparece quando desarma com seu chicote um traidor armado.

Mais à frente, a tripulação de um navio que havia sido interceptado pelos nazistas contempla o oceano enquanto se pergunta onde estará Indiana, que ainda não foi encontrado. Até que um tripulante calmamente diz que o achou. “Onde?”, pergunta o capitão. E ele, intempestivo, aponta para o mar: “LÁ!”. Indy estava chegando, nadando, ao submarino alemão antes que ele submergisse.

Marion (Karen Allen, ótima) é introduzida num duelo de birita que termina quando a oponente bebe o último copo, dá um sorriso vencedor e, com esse sorriso no rosto, vai desabando aos poucos. Ou Indy disparando a cavalo por um corredor ladeado por uma multidão de árabes.

Um ponto importante é que parte do carisma do herói é que se trata de um personagem indestrutível que não sabe que é. Ele pode passar por baixo de um caminhão em alta velocidade, ser arrastado, subir por trás dele, voltar à boleia e tomar a direção do motorista na porrada, mas quando tem que enfrentar um sujeito muito maior do que ele, faz uma expressão de “putz…”, demora, faz para ele um gesto “tá, já vou, espera um pouco…”, “rouba” na luta porque não tem a menor chance de vencer, e só ganha com uma boa dose de sorte e esperteza.

(Isso é refletido até no desfecho, em que Indy não consegue vencer a burocracia a quem a Arca é entregue, ou mesmo antes, quando os nazistas parecem vencer a parada – e só perdem para o que deve ser o maior deus ex-machina do cinema.

Não tem nada pior que um herói invencível que sabe que é invencível. Indy está longe disso: tem medo o tempo todo. Mas vai em frente, de uma sequência de ação antológica para outra. Da escapada de uma câmara subterrânea para a tomada de uma avião num campo de pouso e dali para uma perseguição a caminhões, etc.

Essa movimentação intensa responde por muita da animação deste primeiro Indiana Jones. O filme é frenético e carismático, com um bem temperado senso de humor, embalado por uma das melhores trilhas sonoras já ouvidas (de John Williams) e vilões contra quem podemos torcer alegremente sem qualquer culpa. Como apontou Roger Ebert, depois veríamos que os nazistas não estavam ali por acaso. Como A Lista de Schindler (1993) revelaria em tons mais sombrios, este é um tema bem pessoal para o diretor.

E se alguns dos efeitos ficaram datados com o tempo (não havia CGI, lembre-se), isso hoje apenas reforça a ligação do filme com seus objetos de inspiração dos anos 1930. Para quem sabe apreciar, aqueles seriados ainda transpiram charme, apesar de suas limitações técnicas e do baixo orçamento. Baixo orçamento, claro, é um problema que as aventuras de Indiana Jones nunca tiveram. E charme é algo que nunca faltou a Os Caçadores da Arca Perdida.

Raiders of the Lost Ark, 1981.
Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Lawrence Kasdan, de argumento de George Lucas e Philip Kaufman. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John-Rhys Davies, Denholm Elliott, Alfred Molina.

O Disney Plus lançou esta semana o documentário em três partes de Peter Jackson resgatando as gravações do Let it Be e a nova minissérie da Marvel, Gavião Arqueiro. Nos cinemas, a nova animação da Disney, Encanto, e a nova safra do cinema francês no Festival Varilux. Saiba mais sobre cada um na minha coluna na CBN João Pessoa.

OUÇA AQUI.

20 – O BARCO DAS ILUSÕES (Show Boat)
Onde ver: DVD, Looke, NetMovies.

40 anos dos dramas dos atores e pessoa de apoio de um barco que cruza o Rio Mississipi apresentando um espetáculo para as cidades às margens do rio. O melodrama envolvendo Kathryn Grayson, Howard Keel e Ava Gardner é contado em tom operístico, até xaroposo, mas tem momentos bonitos com Joe E. Brown e animação com o casal (também na vida real) Marge e Gower Champion. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: George Sidney. Roteiro: John Lee Mahin, baseado na peça musical de Oscar Hammerstein II e Richard Rogers, por sua vez baseado no romance de Edna Ferber. Elenco: Kathryn Grayson, Ava Gardner, Howard Keel, Joe E. Brown, Marge Champion, Agnes Moorehead.

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19 – NA ESTRADA DO CÉU (No Highway in the Sky)
Onde ver: DVD, YouTube.

James Stewart é um engenheiro aeronáutico na Inglaterra, que prevê que um novo modelo de avião vai falhar quando atingir uma determinada quantidade de horas de voo. A bordo, ele tenta convencer tripulação e passageiros do perigo iminente. Um bom suspense que dá muita importância à ciência frente ao ceticismo. 
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Henry Koster. Roteiro: R.C. Sherriff, Oscar Millard e alec Coppel, baseado em romance de Nevil Shutte. Elenco: James Stewart, Glynis Johns, Marlene Dietrich, Jack Hawkins, Janette Scott, Dora Bryan, Wilfrid Hyde-White, Bessie Love.

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18 – QUO VADIS? (Quo Vadis?)
Onde ver: DVD, blu-ray, Oldflix, Looke, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, YouTube (dublado).

Épico romano/ religioso na tradição de Hollywood, com perseguição aos cristãos e Nero tocando fogo em Roma. A carpintaria da Metro em filmagens na Itália. 
Estados Unidos. Direção: Mervyn LeRoy, Anthony Mann (não creditado). Roteiro: John Lee Mahin, S.N. Berhman e Sonya Levien, com contribuição de Hugh Gray, baseado no romance de Henryk Sienkiewicz. Elenco: Robert Taylor, Deborah Kerr, Leo Genn, Peter Ustinov, Patricia Laffan, Elizabeth Taylor, Bud Spencer.

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17 – FILHOTE CHEIROSO (Slicked-up Pup)
Onde ver: Dailymotion (som original).

A fase de Tom & Jerry nos 1940 e 1950 é divina. Aqui, um plot clássico, mas extremamente bem executado: Tom é ameaçado pelo cachorrão para manter o filhotinho limpo, mas Jerry o sabota de todas as maneiras. Basicamente, é uma releitura do primeiro curta da dupla (o gato pressionado, o camundongo atrapalhando), mas com piadas no timing exato e grandes expressões dos personagens. 
Estados Unidos. Direção: Joseph Barbera, William Hanna. Roteiro: não creditado. Vozes na dublagem original: Daws Butler, William Hanna.

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16 – CHAGA DE FOGO (Detective Story)
Onde ver: DVD.

William Wyler comanda a adaptação dessa peça, com a trama se passando toda numa delegacia, e explorando os preconceitos e drama pessoal de um policial, vivido pelo sempre intenso Kirk Douglas. 
Estados Unidos. Direção: William Wyler. Roteiro: Philip Yordan e Robert Wyler, baseado na peça de Sidney Kingsley. Elenco: Kirk Douglas, Eleanor Parker, William Bendix, Cathy O’Donnell, Lee Grant.

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15 – AVISO AOS NAVEGANTES
Onde ver: DVD, YouTube.

A chanchada acompanha uma trupe teatral que volta de Buenos Aires para o Rio de navio. A bordo, Oscarito é um clandestino encontrado pelo cozinheiro Grande Otelo, com ambos se envolvendo com um espião internacional. A Atlântida cristalizando seu estilo típico: misturar comédia, música, uma leve trama policial, trocas de identidade, Oscarito e Grande Otelo como a dupla cômica, Eliana como a mocinha e José Lewgoy como o vilão. 
Brasil. Direção: Watson Macedo. Roteiro: Alinor Azevedo, Watson Macedo e Paulo Machado. Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Eliana Macedo, Anselmo Duarte, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy, Ivon Cury, Zezé Macedo, Bené Nunes, Glauce Rocha, Emilinha Borba, Francisco Carlos.

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14 – ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland)
Onde ver: DVD, blu-ray, Disney Plus, YouTube (dublado).

Esta versão Disney da obra de Lewis Carroll não é tão celebrada em comparação a outros longas do estúdio, mas é uma das que melhor levou às telas o nonsense do escritor britânico. O visual é uma delícia e é bem engraçado. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Clyde Geronimi, Wildred Jackson, Hamilton Luske, Jack Kinney (não creditado). Roteiro: Winston Hibler, Ted Sears, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Milt Banta, William Cottrell, Dick Kelsey, Joe Grant, Dick Huemer, Del Connell, Tom Oreb, John WalbridgeVozes na dublagem original: Kathryn Beaumont, Ed Wynn, Richard Haydn, Sterling Holloway, Verna Felton. Vozes na dublagem brasileira de 1951: Therezinha Marçal, Octávio França, Jorge Goulart, Sarah Nobre, Orlando Drummond.

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13 – PATOLINO BICO LONGO (Drip-Along Daffy)
Onde ver: DVD (Coleção Looney Tunes – Aventuras com Patolino e Gaguinho), Dailymotion (som original).

Chuck Jones e Michael Maltese foram o diretor e o roteirista que melhor exploraram o Patolino. O colocou contracenando com o Pernalonga e também nos mais diversos cenários: o pato foi Sherlock Holmes, Buck Rogers, policial de seriado, Robin Hood… Aqui, é um herói de faroeste, disparando uma piada antológica ou expressão engraçadíssima atrás da outra. 
Estados Unidos. Direção: Chuck Jones. Roteiro: Michael Maltese. Voz na dublagem original: Mel Blanc.

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12 – O MONSTRO DO ÁRTICO (The Thing from Another World)
Onde ver: DVD (Clássicos Sci-Fi – Vol. 2).

Howard Hawks produziu de maneira independente (e dizem que dirigiu de fato) esse hoje clássico da ficção científica que mostra militares e cientistas em um local isolado às voltas com uma ameaça alienígena. Uma trama repetida incontáveis vezes pelo cinema depois. O filme dribla o baixo orçamento com inteligência e a construção eficiente do clima de suspense. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Direção: Christian Nyby, Howard Hawks (não creditado). Roteiro: Charles Lederer, com contribuições não creditadas de Howard Hawks e Ben Hecht, baseado no conto de John W. Campbell Jr. Elenco: Kenneth Tobey, Margaret Sheridan, Robert Cornthwaite, Douglas Spencer..

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11 – NÚPCIAS REAIS (Royal Wedding)
Onde ver: DVD, Looke, NetMovies, Claro Vídeo, YouTube (legendado; dublado).

Fred Astaire e Jane Powell são irmãos que se apresentam juntos, evocando o início da carreira de Astaire ao lado de sua irmã Adele. Tem cenas inspiradas (Fred e Jane tentando dançar num navio que balança muito é bem divertido) e dois momentos imortais: Astaire dançando com um guarda-chapéus; e nas paredes e teto de um quarto, um imenso prodígio técnico e artístico. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Stanley Donen. Roteiro: Alan Jay Lerner. Elenco: Fred Astaire, Jane Powell, Peter Lawford, Sarah Churchill.

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10 – O MISTÉRIO DA TORRE (The Lavender Hill Mob)
Onde ver: não disponível em home video ou streaming.

O filme de roubo coloca um metódico funcionário bancário ao lado de um fabricante de miniaturas da Torre Eiffel num plano para contrabandear uma grande quantia em ouro. Alec Guinness e Stanley Holloway são brilhantes, o diretor Crichton é uma mestre da comédia, cria muitas cenas inspiradas (como a descida alucinada da Torre Eiffel, na perseguição a meninas que estão levando as estatuetas “premiadas”) e ainda há a ponta de Audrey Hepburn antes da fama. 
Reino Unido. Direção: Charles Crichton. Roteiro: T.E.B. Clarke. Elenco: Alec Guinness, Stanley Holloway, Sidney James, Alfie Bass, Marjorie Fielding, Audrey Hepburn.

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9 – UMA AVENTURA NA ÁFRICA (The African Queen)
Onde ver: DVD, Telecine Play, Oi Play.

O título brasileiro poderia ser do making of, já que a trupe liderada pelo diretor-roteirista John Huston filmou na África essa história quase totalmente centrada em dois personagens: o beberrão capitão canadense de um barco fluvial e a missionária inglesa que, na I Guerra, fogem de soldados alemães e depois decidem enfrentá-los. 
Estados Unidos. Direção: John Huston. Roteiro: James Agee e John Huston, John Collier (não creditado) e Peter Viertel (não creditado), baseado no romance de C.S. Forester. Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley, Peter Bull.

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8 – TAMBÉM FOMOS FELIZES (Bakushu)
Onde ver: DVD (O Cinema de Ozu), YouTube (legendado).

O olhar de Ozu para as vidas comuns e urbanas do Japão no pós-guerra se consagrou como um dos mais sensíveis do cinema. A trama central aqui é a da jovem que não está interessada em se casar, apesar da pressão que sofre da família. O conflito entre tradição e modernidade mais uma vez em cena na obra do diretor japonês. 
Japão. Direção: Yasujiro Ozu. Roteiro: Kogo Noda e Yasujiro Ozu. Elenco: Setsuko Hara, Chishu Ryu, Chikage Awashima, Kuniko Miyake.

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7 – TEMPORADA DE CAÇA (Rabbit Fire)
Onde ver: DVD (Coleção Looney Tunes – Aventuras com Pernalonga).

É incrível, mas Pernalonga e Patolino nunca haviam dividido um curta inteiro antes. Colocar os dois juntos foi uma ideia genial de Michael Maltese e Chuck Jones neste desenho. “Temporada de pato!”. “Temporada de coelho!”. É uma aula de timing cômico. Não por acaso, abriu uma trilogia. 
Estados Unidos. Direção: Chuck Jones. Roteiro: Michael Maltese. Vozes na dublagem original: Mel Blanc, Arthur Q. Bryan.

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6 – A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the Hole ou The Big Carnival)
Onde ver: DVD.

Billy Wilder dá um safanão na imprensa sensacionalista com Kirk Douglas interpretando um arrogante como só ele conseguia fazer. É o jornalista que já foi grande em Nova York, foi parar em Albuquerque, consegue emprego em um jornaleco local (“Eu posso cuidar de grandes notícias ou pequenas notícias. E se não houver notícias, eu saio e mordo um cachorro”) e fareja uma volta por cima ao sabotar o resgate de um homem soterrado numa montanha para esticar o drama e controlar o acesso do resto da imprensa (quando os colegas imploram, dizendo “estamos no mesmo barco”, ele dispara: “Eu estou no barco. Vocês estão na água”). Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman, de argumento de Victor Desny (não creditado). Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict.

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5 – PACTO SINISTRO (Strangers on a Train)
Onde ver: DVD, blu-ray, HBO Max, Looke, Apple TV/ iTunes.

“E se?”. Essa pergunta, aliada à completa amoralidade de um personagem, já rendia um grande filme a Alfred Hitchcock. E se dois caras que não se conhecem pudessem se safar de seus assassinatos “trocando” os crimes? Um matando o desafeto do outro? Esse é o ponto de partida de um dos maiores clássicos de Hitch, que coloca um jogador de tênis pressionado a cumprir sua parte por um psicopata que levou a ideia a sério. Tem um monte de grandes cenas: o assassinato no parque visto pela lente do óculos, a partida de tênis com o olhar fixo de Robert Walker, o isqueiro que cai pelo bueiro, o clímax no carrossel desgovernado. 
Estados Unidos. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, com Ben Hecht (não creditado), adaptação de Whitfield Cook, baseado no romance de Patricia Highsmith. Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock.

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4 – UMA RUA CHAMADA PECADO (A Streetcar Named Desire)
Onde ver: DVD, blu-ray, Looke, Google Play/ YouTube Filmes, Microsoft Store.

Elia Kazan levou para a tela Brando, Kim Hunter e Karl Malden de sua montagem teatral da obra de Tennessee Williams. Vivien Leigh, a superestrela do elenco, foi Blanche na montagem londrina. Um elenco em seu máximo, com a frágil Vivien e o brutamontes Brando duelando de maneira inesquecível, através de um filme intenso nas emoções e na sensualidade e que brigou ponto a ponto com a censura (ganhou uns e perdeu outros). Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Elia Kazan. Roteiro: Tennessee Williams e Oscar Saul, baseado em peça de Williams. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden.

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3 – O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth Stood Still)
Onde ver: DVD.

No contexto da ficção científica dos anos 1950, com a paranoia anticomunista gerando vários filmes sobre ameaças extraterrestres, o filme de Robert Wise era diferente: tinha a visita de um alienígena, mas que vinha alertar sobre os perigos da escalada do conflito entre nós mesmos. O filme acerta em tudo: no contato com pessoas comuns, através principalmente de uma secretária viúva e seu filho; na atmosfera de suspense do robô Gort; na cena icônica da frase “Klaatu barada nikto”. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: Robert Wise. Roteiro: Edmund H. North, baseado em conto de Harry Bates. Elenco: Michael Reenie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe.

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2 – SINFONIA DE PARIS (An American in Paris)
Onde ver: DVD, blu-ray, HBO Max, Now, Looke, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

A fantasia de Paris para um americano, elevada à máxima potência. O sujeito que ficou por lá após o fim da II Guerra e tenta ganhar a vida pintando se apaixona por uma bailarina e, quando a coisa dá errada, se vê dentro de pinturas de artistas franceses famosos. O filme todo é uma delícia, a perícia de Minnelli na direção e Gene Kelly nas coreografias e dançando estão perfeitamente combinadas. Mas a longa sequência em que pinturas ganham vida é um prodígio artístico e técnico espetacular. 
Estados Unidos. Direção: Vincente Minnelli. Roteiro: Alan Jay Lerner. Elenco: Gene Kelly, Leslie Caron, Oscar Levant, Nina Foch, Georges Guétary.

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1 – UM LUGAR AO SOL (A Place in the Sun)
Onde ver: DVD, Microsoft Store.

Tudo poderia ser um conto-de-fadas: o gato borralheiro e uma princesa rica se apaixonam e vivem felizes para sempre. No caso, ele é o trabalhador pobre, empregado da fábrica do tio rico. Frequentando a mansão do parente, se encanta por aquela vida, representada uma garota rica e belíssima por quem se apaixona e ela por ele. Mas há um porém: ele já se relacionava com uma colega da fábrica, que está grávida. O destino trágico nos leva à cena do bote, cujo desfecho nós vemos sem que o filme nos diga claramente o que aconteceu: acidente ou assassinato? Stevens, um grande mestre, filma tão de longe o lago quanto filma de perto os olhares, danças e beijos entre Liz Taylor e Montgomery Clift. Leia mais. 
Estados Unidos. Direção: George Stevens. Roteiro: Michael Wilson e Harry Brown, baseado na peça de Patrick Kearney, por sua vez baseada no romance de Theodore Dreiser. Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Raymond Burr.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com ela inteira. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente. Esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

O MONSTRO DO ÁRTICO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 76
Onde ver: DVD (na coleção Clássicos Sci-Fi – Vol. 2).

O medo que vem de fora

1951 foi um ano capital para os visitantes intergaláticos no cinema. Em uma época em que isso não era um tema ainda frequente e, além disso, com o macartismo disseminando uma paranoia contra o que vinha de fora, alienígenas apareceram por aqui no que hoje são dois grandes clássicos da ficção científica: O Dia em que a Terra Parou e O Monstro do Ártico, ambos completando 60 anos este ano.

No primeiro caso, o visitante extraterrestre pousava aqui em nome da paz, para dar um alerta à humanidade. No segundo, era uma ameaça assassina a qual militares e cientistas tentam enfrentar isolados no Ártico. Um padrão que seria usado pelo cinema muitas vezes depois.

Com todas as limitações da época, o filme segue a cartilha sempre eficiente de Sangue de Pantera (1942): se não há como elaborar muito na aparência do monstro, a saída é apostar no eficiente medo do desconhecido. O alienígena (um grande humanoide, basicamente, muito mais simples que no conto original) aparece pouco, de longe, no escuro, e o efeito disso no suspense é sempre muito bom.

Certamente melhor do que expô-lo por muito tempo na tela (“Ponha homens vestidos como gato na tela e o que parecerão? Homens vestidos como gato”, ensinaria no ano seguinte Assim Estava Escrito). James Arness interpretou a criatura e ficou tão envergonhado que nem compareceu à estreia.

Mas, dentro dessas limitações, há boas elaborações das cenas, com imagens marcantes como o circulo dos pesquisadores para medir o tamanho da nave sob o gelo, ou o enfrentamento da criatura, com fogo e na escuridão. E, no debate entre militares e cientistas, um jornalista é o “olhar de fora”, o ponto de vksta do espectador, repetindo ao final o alerta “Continuem olhando para os céus”.

Howard Hawks produz o filme por sua própria companhia, Winchester Pictures Corporation, de vida curta. É considerado que Hawks acabou assumindo a direção no decorrer das filmagens, embora oficialmente o crédito seja de Christian Nyby, até então montador (de filmes como À Beira do Abismo, 1946, e Rio Vermelho, ambos de Hawks). De qualquer forma, é um filme que influenciou gerações de filmes e cineastas que vieram depois – como John Carpenter, que até dirigiu uma refilmagem em 1982.

The Thing from Another World, 1951.
Direção: Christian Nyby, Howard Hawks (não creditado). Roteiro: Charles Lederer, com contribuições não creditadas de Howard Hawks e Ben Hecht, baseado no conto de John W. Campbell Jr. Elenco: Kenneth Tobey, Margaret Sheridan, Robert Cornthwaite, Douglas Spencer

São três as estreias de hoje nos cinemas de João Pessoa, Campina Grande e Patos. Veja a programação completa, com locais, horários e trailers na nossa página de programação dos cinemas. Os novos filmes são:

  • ETERNOS: A 26ª produção do universo cinematográfico compartilhado da Marvel é uma adaptação dos personagem criados por Jack Kirby: seres poderosos que vivem secretamente na Terra há milênios e se revelam para enfrentar uma ameaça também milenar. A diretora é Chloé Zhao, vencedora do Oscar por “Nomadland”. Em JP, CG e Patos, em sessões 2D ou 3D, legendadas ou dubladas.
  • MARIGHELLA: Em sua estreia na direção de longas, Wagner Moura conta a história do líder guerrilheiro que foi um dos maiores inimigos da ditadura militar brasileira. Em João Pessoa.
  • ALERTA VERMELHO: Uma raríssima produção da Netflix a chegar tambem aos cinemas pessoenses, o filme é uma mistura de aventura e comédia sobre a aliança de um agente do FBI (Dawyne Johnson) e um ladrão de arte (Ryan Reynolds) para pegar uma outra ladra (Gal Gadot). Em JP e CG, apenas dublado.

ÂNSIA DE AMAR
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 134

Labirinto do sexo

O abalo sísmico nos relacionamentos amorosos e sexuais naquela virada da década de 1960 para a de 1970 foi esquadrinhado pelo cinema, e um desses filmes foi Ânsia de Amar, que completa 50 anos este ano. Com direção de Mike Nichols e roteiro do cartunista e dramaturgo Jules Feiffer, o filme segue a vida de dois amigos, vividos por Jack Nicholson e Art Garfunkel, com suas certezas masculinas sendo sistematicamente bombardeadas desde a universidade.

Jovens, ambos se apaixonam pela mesma garota, Susan, vivida por Candice Bergen. Sandy (Garfunkel), tímido e inseguro, tem o relacionamento, mas não o sexo. O hedonista e cínico Jonathan (Nicholson) tem o sexo, mas não o relacionamento. Daí, o filme dá saltos no tempo para reencontrar a dupla em outras relações com mulheres.

Enquanto Sandy se embrenha em um casamento tradicional (com Cindy, Cynthia O’Neal), Jonathan tem uma relação de alta voltagem erótica com Bobbie (a voluptuosa Ann-Margret, em doses generosas de nudez, para a época), mas ela quer mais. As fantasias sexuais e/ ou românticas deles simplesmente esbarram em mulheres reais.

Mais à frente, os dois combinam trocar as parceiras – sem combinar com elas, mais um reflexo de um desconhecimento sobre as mulheres, o que, combinado com certa dose de arrogância, pode trazer resultados terríveis. Nesse momento, o papel de bomba sexual de Ann-Margret já se converteu em um personagem altamente dramático.

O filme ainda tem aparições de Carol Kane e Rita Moreno, como outras mulheres que, cada qual à sua maneira e com sua função, testemunham esses caras batendo cabeça, perdidos e buscando seus caminhos. Ânsia de Amar tem empatia por eles, não os vilaniza, os mostra meio como vítimas de si mesmos e que pagam o preço por isso.

Essa visão agridoce, meio patética, sobre a complicação das relações, com muito falatório e algum erotismo, seria retomada por Mike Nichols muitos anos depois em Closer – Perto Demais (2004). O que só mostra que o ser humano pode resolver algumas questões, mas outras sempre surgirão.

Onde ver: DVD, Belas Artes a la Carte.

Carnal Knowledge, 1971.
Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jules Feiffer. Elenco: Jack Nicholson, Art Garfunkel, Candice Bergen, Ann-Margret, Cynthia O’Neal, Rita Moreno, Carol Kane.

JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
⭐⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 75

A certeza da dúvida

“Agora é com vocês”, diz o procurador Jim Garrison ao júri, mas olhando em direção à câmera. É a famosa quebra da quarta parede: o personagem de Kevin Costner está é se dirigindo diretamente ao espectador. O recurso não era nenhuma novidade quando JFK – A Pergunta que Não Quer Calar foi lançado, há 30 anos, mas faz todo o sentido: o filme é uma exposição didática e dramática ao espectador das contradições da versão oficial sobre o assassinato do presidente americano John Kennedy, em 1963, e da tese de que se tratou, na verdade, de um golpe de estado.

JFK periga ser o melhor filme de Oliver Stone. É monumental e apaixonado e tenta bravamente nadar no mar de informações, contra-informações, entrevistas, depoimentos, reconstituições e visitas e revisitas às imagens do “filme de Zapruder”, a filmagem amadora que captou o exato momento em que Kennedy é atingido, enquanto passava em carro aberto pelas ruas de Houston, Texas.

Nas reconstituições, Stone busca um tom amador e documental, que se aproxime em estilo ao filme de Zapruder. Na investigação, um monte de participações especiais: Jack Lemmon, Donald Sutherland, John Candy, Walter Matthau e Joe Pesci, cujo personagem define o caso como “um mistério envolto em uma charada dentro de um enigma”.

JFK não é sobre fatos, mas sobre dúvidas. Ele aposta em uma teoria, mas o fundamental é provocar o público a não engolir a versão oficial, de um atirador só, que deu um tiro só. E o filme faz uma explanação difícil e cuidadosa até finalmente encarar seu público e dizer que o filme não se encerra em si mesmo: “Agora é com vocês”.

Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video.

JFK, 1991.
Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Garrison e Jim Marrs. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Wayne Knight, Michael Rooker, Donald Sutherland, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Laurie Metcalf, Walter Matthau, John Candy, Kevin Bacon, Lolita Davidovich

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