ÓRFÃS DA TEMPESTADE
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 40

Melodrama e miopia política

As irmãs Gish (Lillian e Dorothy) interpretam duas irmãs orfãs (uma delas cega) que são separadas e seu drama se mistura com o turbilhão da Revolução Francesa neste filme que completa 100 anos este ano. Griffith incluiu as figuras históricas Danton e Robespierre, e fez uma correlação política controversa como se o filme fosse um alerta contra os perigos da “anarquia e do bolchevismo” (cartelas introdutórias dizem isso abertamente).

Enfim, depois dessa introdução, a força dramática do filme compensa, com as duas atrizes sustentando a trama que envolve a cega explorada como mendiga e a outra condenada injustamente pelo tribunal revolucionário, grandes cenas produzidas da revolução, e muita ação no clímax. Griffith mostra de novo que sempre foi muito melhor nos dramas da gente comum contra uma sociedade cruel do que na defesa de suas visões políticas equivocadas.

Onde ver: DVD, YouTube.

Orphans of the Storm, 1921.
Direção: D.W. Griffith. Elenco: Lillian Gish, Dorothy Gish, Joseph Schildkraut

OS QUATRO BATUTAS
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 39

Anarquia a bordo

Os filmes dos irmãos Marx eram marcados sobretudo pela anarquia. Poucos devem ser mais anárquicos que Os Quatro Batutas, que completa 90 anos este ano. Considerando que o filme foi banido na Irlanda por “incentivar tendências anarquistas”, parece que deu certo.

Clandestinos num transatlântico, o quarteto bagunça o cotidiano do navio e tenta escapar da segurança, enquanto se envolve com gangsters. Esse fiapo de trama é o alicerce para as diabruras típicas dos Marx: os diálogos de Groucho, a música e sotaque italiano de Chico, as loucuras visuais de Harpo. Zeppo, que nessa época ainda fazia parte do grupo, era o galã.

Como Groucho reclamando com um funcionário do navio, perguntando se ele sabia quem tinha entrado na cabine dele às 3 da madrugada. “Quem entrou?”, devolve a pergunta o funcionário. “Ninguém. É por isso que estou reclamando”. Ou: “Olhe pra mim: trabalhei duro para sair do nada para um estado de extrema pobreza”. E as piadas nonsense com Maurice Chevalier.

É o terceiro filme do grupo e o primeiro escrito direto para o cinema (os dois anteriores eram adaptações do teatro). Também foi o primeiro em Hollywood. Era só o começo de muita alegria que os Marx proporcionariam nas telas, até muito depois de seus filmes serem produzidos.

É só olhar referências como a cena de Hannah e Suas Irmãs (1986) em que o personagem de Woody Allen reencontra o prazer de viver ao assistir um filme do grupo no cinema. “Olhe para essas pessoas na tela. São tão engraçadas!”. Às vezes, só isso já basta.

Onde ver: DVD, Looke, NetMovies, YouTube (som original).

Monkey Business, 1931.
Direção: Norman Z. McLeod. Elenco: Groucho Marx, Chico Marx, Harpo Marx, Zeppo Marx, Rockliffe Fellowes, Thelma Todd

CABRAS DA PESTE
⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 38

Dois tiras da risada

Da mesma família de Cine Holliúdy (Halder Gomes é produtor aqui), essa comédia começa com uma ótima carta de intenções: uma perseguição policial a pé numa cidade do sertão a um meliante que roubou um ventilador e com uma trilha onde “The heat is on”, icônico tema de Um Tira da Pesada, vira “Calor do cão” na voz de Gabi Amarantos.

O filme começa mesmo quando o policial com mais disposição do que a cidade quer, vivido por Edmilson Filho, é obrigado a tomar conta de uma cabra e a perde: ela é levada por um caminhoneiro suspeito para São Paulo. Obstinado, ele vai à cidade e acaba fazendo uma parceria com um tira local com disposição de menos, vivido por Matheus Nachtergaele.

Como em Cine Holliúdy, a vontade de fazer rir é grande, mas nem todas as piadas funcionam. Mas o clima geral é muito bom, o filme é divertido quando parodia e abrasileira os clichês do gênero e a química entre os dois atores existe. E ainda tem Falcão como vilão!

Onde ver: Netflix.

Cabras da Peste, 2021.
Direção: Vítor Brandt. Elenco: Edmilson Filho, Matheus Nachtergaele, Letícia Lima, Leandro Ramos, Falcão, Evelyn Castro, Juliano Cazarré.

O DIABO E A MULHER
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 37

Comédia treabalhista

Os créditos iniciais já deixam claro quem é quem: o diabo é Charles Coburn, aparecendo sombrio, cara de mau, o fogo ardendo lá atrás; na tela seguinte, a mulher é Jean Arthur, auréola sobre a cabeça, sombra de asas de anjo por trás, e que ainda apaga o fogo do outro com um sopro. O Diabo e a Mulher, 80 anos este ano, possui abertura mais criativa do que o usual na época e que já resume bem, e de maneira metafórica, o tom de comédia rasgada. Não é uma história sobrenatural, muito pelo contrário: o pé está firme em terreno bem humano.

Coburn é um magnata tão rico quem nem lembrava que era dono de uma loja de departamentos. Os funcionários de lá, no entanto, o odeiam por serem mal pagos, perderem direitos e serem ameaçados pelos gerentes quando tentam se organizar. Quando protestam em frente à loja, o velho fica sabendo e resolve tomar providências,

A providência é contratar um detetive para se infiltrar na loja e descobrir quem está liderando essa insurreição proletária, para depois demitir os responsáveis. Quando o detetive consegue se empregar, mas precisa sair do caso antes de assumir, o próprio milionário resolve assumir a investigação, já que ninguém conhece seu rosto.

O “novo funcionário” é rapidamente acolhido pela colega Senhorita Jones, que o protege dos chefes e dá dicas do dia-a-dia. Ela o leva até na reunião clandestina dos trabalhadores, que tentam se organizar em busca de soluções para seus problemas.

Convivendo com seus empregados, o patrão vai mudar sua visão das coisas, é claro. O filme conta isso com muita verve, um ótimo elenco (incluindo coadjuvantes sólidos e expressivos como S.Z. Sakall e Spring Byington). A verve começa nos créditos e continua na cartela irônica que introduz o filme, dirigida aos “Queridos homens mais ricos do mundo” e avisando logo que o personagem do filme não foi inspirado em ninguém.

“Nos sentiríamos muito mal se alguém se ofendesse.
Ass.: o Autor, o Diretor e o Produtor.
PS: Não nos processem.
P.P.S.: Por favor”.

É interessante também situar O Diabo e a Mulher num cenário interessante onde havia uma corrente social no cinema americano que abordava os problemas da classe trabalhadora. São dessa época Vinhas da Ira (1940), Adorável Vagabundo (1941), Como Era Verde Meu Vale (1941) e Contrastes Humanos (1941). Mesmo que enveredem quase sempre para finais otimistas e românticos demais, o olhar social está lá. E finais otimistas nunca foram um problema em si mesmo, apesar dos mal-humorados.

Onde ver: DVD digipack Comédias Clássicas.

The Devil and Miss Jones, 1941.
Direção: Sam Wood. Elenco: Jean Arthur, Charles Coburn, Robert Cummings, S.Z. Sakall, Spring Byington.

20 – ROCKETEER (The Rocketeer)

Filmes com super-heróis ou baseados em quadrinhos ainda eram raridade. Rocketeer é isso e ainda tem um sabor dos velhos seriados até com uma trama que se passa nos anos 1940. Delicinha carismática. Onde ver: Disney Plus.
Estados Unidos. Direção: Joe Johnston. Roteiro: Danny Bilson e Paul De Meo, com argumento de Bilson, De Meo e William Dear, baseado na graphic novel de Dave Stevens. Elenco: Billy Campbell, Jennifer Connelly, Timothy Dalton, Paul Sorvino.

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19 – A ARTE DE VIVER (Tui Shou ou Pushing Hands)

Primeiro filme de Ang Lee, super independente, financiado pelo governo de Taiwan através de um concurso, um veterano chinês que foi morar com o filho nos EUA e, sem falar inglês, tem dificuldades para se adaptar. Entre outras coisas, há um choque cultural forte com a nora americana. Sensível e leve, pegada que Lee teria ainda em seus próximos filmes (Banquete de Casamento e Comer, Beber, Viver). Onde ver: DVD digipack Trilogia Ang Lee.
Taiwan/ Estados Unidos. Direção: Ang Lee. Roteiro: Ang Lee e James Schamus. Elenco: Shihung Lung, Bozhao Wang, Deb Snyder, Lai Wang.

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18 – OS PESCADOR DE ILUSÕES (The Fisher King)

Terry Gilliam conta essa fábula, em que Jeff Bridges é um ex-DJ atormentado por um erro que cometeu e Robin Williams é um sem teto afetado por esse erro e que pensa que é um cavaleiro do Rei Arthur em busca do cálice sagrado. Bridges, então, ajuda Williams em uma jornada da própria redenção. Robin Williams estava em estado de graça naqueles anos. Saudades da Mercedes Ruehl. Onde ver: DVD, Google Play/ YouTube Filmes, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção: Terry Gilliam. Roteiro: Richard Lagravenese. Elenco: Jeff Bridges, Robin Williams, Mercedes Ruehl, Amanda Plummer.

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17 – O APOCALIPSE DE UM CINEASTA (Heart of Darkness – A Filmmaker’s Apocalypse)

A odisseia das filmagens de Apocalypse Now, na Tailândia, foram registradas por Eleanor Coppola, esposa de Francis. Ela gravou, inclusive, desabafos do marido sem que ele soubesse. Um material valioso sobre uma produção tão acidentada (teve furacão, interferência do governo local, ataque cardíaco do ator principal, Marlon Brando aparecendo no set acima do peso e sem ter decorado nada) que resultou em um filme imediatamente aclamado. Onde ver: Belas Artes a la Carte.
Estados Unidos. Direção: Fax Bahr, George Hickenlooper, Eleanor Coppola. Roteiro: Fax Bahr e George Hickenlooper.

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16 – CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 2½ (The Naked Gun 2½ – The Smell of Fear)

É incrível, mas essa continuação da maluquíssima comédia de 1988 resolveu trazer junto uma mensagem pela ecologia e sustentabilidade energética. Poderia ter colocado tudo a perder, mas à frente continuou a equipe do original e o elenco liderado por Leslie Nielsen, cada vez mais à vontade com a veia cômica descoberta em Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu…, de 1980, de Zucker, seu irmão Jerry e Jim Abrahams). Onde ver: DVD, blu-ray Trilogia Corra que a Polícia Vem Aí, Google Play/ YouTube Filmes, Microsoft Store, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção: David Zucker. Roteiro: David Zucker e Pat Proft, baseado na série de TV Esquadrão de Polícia. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, George Kennedy, O.J. Simpson, Robert Goulet, Richard Griffiths, Weird Al Yankovic, Zsa Zsa Gabor.

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15 – A FAMÍLIA ADDAMS (The Addams Family)

Diretor de fotografia de grande personalidade, Barry Sonnenfeld estreou em grande estilo na direção nessa adaptação de A Família Addams, que começou nos cartuns e já tinha virado série com atores e animação. O acerto começou no elenco brilhante, com uma escalação perfeita de Raul Julia, Anjelica Huston e Christopher Lloyd, e que revelou Christina Ricci, e segue pelo visual estiloso. Onde ver: DVD, Oi Play.
Estados Unidos. Direção: Barry Sonnenfeld. Roteiro: Caroline Thompson e Larry Wilson, baseado nos quadrinhos de Charles Addams. Elenco: Raul Julia, Angelica Huston, Christopher Lloyd, Christina Ricci.

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14 – NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and Fog)

Woody Allen brinca de expressionismo alemão nessa kafkiana história do sujeito acordado no meio da noite para entrar em um grupo que caça um assassino. Mas ele não sabe o que deve fazer e, logo, acaba virando o principal suspeito. O elenco é estelar, falando diálogos de um Woody afiadíssimo. Onde ver: DVD, blu-ray, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Kathy Bates, John Cusack, Madonna, Julie Kavner, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kenneth Mars, Donald Pleasence, John C. Reilly, William H. Macy.

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13 – TOMATES VERDES FRITOS (Fried Green Tomatoes)

São duas histórias de amizade feminina separadas no tempo, mas entrelaçadas. Kathy Bates, de vida infeliz, encontra conforto nos papos com a velhinha Jessica Tandy, que conta a história de carinho e apoio mútuo entre duas jovens que ela conheceu no passado. Há um romance entre elas no livro, que acabou sendo amenizado no filme, mas ainda assim há ternura, emoção e personagens cativantes. Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes, Google Play/ YouTube Filmes.
Estados Unidos. Direção: Jon Avnet. Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em romance de Flagg. Elenco: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary Louise Parker, Jessica Tandy, Cicely Tyson, Chris O’Donnell.

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12 – VOLTAR A MORRER (Dead Again)

Kenneth Branagh dirigiu seu segundo filme, já mostrando um gosto por variar os estilos. Depois do shakespeareano Henrique V, ele enveredou por um filme noir misturado com reencarnação que se passa em dois tempos. No presente, um detetive tenta ajudar uma moça sem memória. O mistério tem a ver com o passado, onde os dois aparecem como um compositor e sua esposa em uma relação marcada pelo ciúme. Branagh explora bem a química entre ele e a grande Emma Thompson, esposa dele na época. Onde ver: DVD, Amazon Prime Video.
Estados Unidos. Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Scott Frank. Elenco: Kenneth Branagh, Emma Thompson, Andy Garcia, Robin Williams, Derek Jacobi, Hannah Schygulla, Wayne Knight.

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11 – JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK)

Oliver Stone gosta de mexer nuns vespeiros e caprichou aqui. Usando imagens reais até então nunca vistas do assassinato de Kennedy (Jackie catando o cérebro do marido sobre o capô do carro, etc), o diretor adapta o livro do procurador Jim Garrison e sua investigação sobre o que havia sobre o caso que o governo não estava contando. Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video.
Estados Unidos/ França. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Garrison e Jim Marrs. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Wayne Knight, Michael Rooker, Donald Sutherland, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Laurie Metcalf, Walter Matthau, John Candy, Kevin Bacon, Lolita Davidovich.

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10 – CABO DO MEDO (Cape Fear)

Scorsese refilmou Círculo do Medo (1962) e estendeu o tapete para Robert de Niro deitar e rolar. O papel é o de Max Cady, o psicopata que sai da prisão decidido a fazer um inferno na vida do advogado que não impediu sua prisão anos antes. Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis são a família perfeita por fora e em pedaços por dentro que vai sendo enredada pelo predador. Lewis foi, aqui, uma revelação. E Scorsese, convidado por Spielberg para este filme, entrega um suspense mais comercial, mas temperado com seu estilo expressivo e improvisações (a cena entre De Niro e Lewis no auditório, por exemplo). Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Now, Oi Play, Claro Video, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, baseado no roteiro anterior de James R. Webb e no romance de John D. MacDonald. Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas.

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9 – A BELA INTRIGANTE (La Belle Noiseuse)

Quatro horas de projeção para a história de um pintor perseguindo sua obra-prima e duelando com sua modelo. Como se dá essa relação? Até que ponto a modelo é um instrumento moldável, um corpo à disposição do artista ou uma co-autora da obra? Incrível como o filme de Rivette não cansa, enclausurado por tanto tempo nesse ateliê. Uma das razões certamente é que o esperto diretor equilibra a alta discussão sobre arte com uma mundana obra de arte em si mesma, que é a nudez onipresente de Emmanuelle Béart, uma das mais lindas atrizes do seu tempo. Onde ver: DVD A Arte de Jacques Rivette.
França/ Suíça. Direção: Jacques Rivette. Roteiro: Pascal Bonitzer, Christine Laurent e Jacques Rivette, diálogos de Bonitzer e Laurent, baseado em romance de Honoré de Balzac. Elenco: Michel Piccoli, Emmanuelle Béart, Jane Birkin.

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8 – BOYZ N THE HOOD OS DONOS DA RUA (Boyz n the Hood)

John Singleton foi o primeiro diretor negro indicado ao Oscar. O filme foi esse, baseado em suas memórias sobre como é crescer em uma vizinhança pobre e violenta e tentar encontrar o caminho do futuro. Sem o rebuscamento visual de Spike Lee em Faça a Coisa Certa (1989), mais “cru” e direto, Boyz n the Hood derrubou muros e influenciou gerações. Onde ver: Netflix, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção e roteiro: John Singleton. Elenco: Cuba Gooding Jr., Ice Cube, Laurence Fishburne, Angela Bassett, Nia Long, Regina King.

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7 – JORNADA NAS ESTRELAS VI A TERRA DESCONHECIDA (Star Trek The Undiscovered Country)

Após o quinto filme não ter se saído bem, o diretor do ótimo segundo exemplar da série voltou ao leme e o tom de comédia foi reduzido em prol de uma metáfora direta e evidente do cenário político daqueles dias: o acidente nuclear de Chernobyl e a Glasnost de Gorbachev na União Soviética são representados pela aproximação entre klingons e a Federação de Planetas, velhos inimigos. Prestes a se aposentar, a tripulação da Enterprise é envolvida nesse momento diplomático delicado, precisando enfrentar velhos preconceitos e também sabotagens ao processo de paz. como despedida do elenco original, é emocionante. Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Google Play/ YouTube Filmes, Claro Video, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção: Nicholas Meyer. Roteiro: Nicholas Meyer e Denny Martin Flynn, a partir de argumento de Leonard Nimoy, Lawrence Konner e Mark Rosenthal, baseado na série de TV Jornada nas Estrelas. Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, George Takei, Kim Catrall, Mark Lenard, Christopher Plummer, Grace Lee Whitney, Christian Slater, Iman.

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6 – O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 O JULGAMENTO FINAL (Terminator 2 Judgment Day)

Schwarzenegger volta como o andróide futurista. Mas em 1991 ele já era um superastro então, em vez do vilão do primeiro filme, agora ele era o mocinho. ele vem do futuro com a missão de proteger o garoto que um dia será o líder da resistência humana contra o exército das máquinas. O segundo filme é, em tudo, várias escalas acima: na ação, na produção agigantada e no vilão, agora de “metal líquido”, um efeito especial que marcou uma geração. Onde ver: DVD, blu-ray, Netflix, Amazon Prime Video, Google Play/ YouTube Filmes, Microsoft Store, Apple TV/ iTunes.
Estados Unidos. Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron e William Wisher. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick.

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5 – THE COMMITMENTS LOUCOS PELA FAMA (The Commitments)

Sem rostos conhecidos, Alan Parker montou um time super carismático de atores-cantores e atores-músicos para contar a história de uma banda de soul da periferia de Dublin. Tem ótimo diálogos, é muito divertido e musicalmente é uma maravilha, numa seara onde Parker era um mestre, construindo cenas como a montagem de “Nowhere to run” com integrantes da banda ensaiando em lugares diferentes (entre as roupas de um varal, na carroceria de um caminhão, num frigorífico, num ônibus…). Onde ver: DVD.
Irlanda/ Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Alan Parker. Roteiro: Dick Clement, Ian La Frenais e Roddy Doyle, baseado em romance de Doyle. Elenco: Robert Arkins, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Glen Hansard, Bronagh Gallagher, Johnny Murphy, Andrew Strong, Andrea Corr.

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4 – A BELA E A FERA (Beauty and the Beast)

Depois de um longo período meio no piloto automático, a Disney vivia seu renascimento e emplacou aqui a primeira animação indicada ao Oscar de melhor filme. O conto-de-fadas ganhou um trabalho de animação estonteante, foi um passo à frente na modernização de suas princesas (outros viriam) e soube usar muito bem um tom de terror e suspense (mas ainda adequado a crianças). E, musicalmente, tem muito do espírito de um musical da Broadway (não por acaso, foi parar depois nos palcos) e também momentos em que cita Busby Berkeley. Onde ver: DVD, blu-ray, Disney Plus.
Estados Unidos. Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise. Roteiro: Linda Woolverton, com argumento de Brenda Chapman, Chris Sanders, Burny Mattinson, Kevin Harkey, Brian Pimental, Bruce Woodside, Joe Ranft, Tom Ellery, Kally Asbury e Robert Lence, baseado em contos de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont e Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. Vozes na dublagem original: Paige O’Hara, Robby Benson, Angela Lansbury, Jerry Orbach, David Odgen Stiers. Vozes na dublagem brasileira: Ju Cassou, Garcia Junior, Maurício Luz, Ivon Cury.

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3 – LANTERNAS VERMELHAS (Dà Hóng Denglong Gaogao Guà)

Uma universitária chinesa nos anos 1920 é obrigada pelas circunstâncias a se casar com um homem rico e se torna sua quarta esposa. Na vila onde todos vivem, ela logo se vê em uma disputa de poder com as outras esposas e até com sua criada. Gong Li, deslumbrante, comanda as ações em uma personagem condenada a um cenário retrógrado ao qual não se adapta, embora se esforce. As mulheres são o epicentro do filme: o senhor marido só é visto de costas ou de longe. Onde ver: DVD.
China/ Hong Kong/ Taiwan. Direção: Zhang Yimou. Roteiro: Zhen Ni, baseado no romance de Tong Su. Elenco: Gong Li, Saifei He, Jingwu Ma.

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2 – O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The Silence of the Lambs)

Anthony Hopkins tem 16 minutos em cena. Com eles, ganhou o Oscar de melhor ator e se tornou um ícone pop com o psicopata canibal Hannibal Lecter. Jodie Foster também venceu como Clarice Starling, a agente novata do FBI escalada para conseguir algumas informações dele na prisão para capturar outro serial killer. Mas, para isso, precisa encarar um jogo mental em que Hannibal tenta entrar na mente dela e fazê-la reviver dores do passado. O diretor Jonathan Demme vinha de duas comédias ótimas e meio maluquetes (Totalmente Selvagem, 1986, e De Caso com a Máfia, 1988). Virou a chave para este suspense em que as conversas entre Clarice e Lecter, sempre separados por um vidro, são tão ou mais importantes e aflitivas que o enfrentamento ao sequestrador assassino no escuro total. O Silêncio dos Inocentes é uma das únicas três produções a vencer os Oscars de filme, direção, ator, atriz e roteiro. E o último que conseguiu isso. Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Apple TV/iTunes, Google Play/YouTube Filmes.
Estados Unidos. Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, baseado em romance de Thomas Harris. Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine.

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1 – THELMA & LOUISE (Thelma & Louise)

Mais importante que o destino é a viagem: uma tese clássica dos road movies. Thelma e Louise iam viajar para passar um fim de semana longe das aporrinhações. Encontraram a violência e o machismo. Encontraram também a si mesmas. Deslumbrante visualmente, cativante emocionalmente, impactante socialmente, Thelma & Louise mostra como é fácil a vida virar um inferno para as mulheres. Mas faz isso não sem dosar o drama e a ação com muito bom humor. Um coquetel dificílimo de equilibrar, mas que o roteiro de Callie Khouri e a direção de Ridley Scott montam com perfeição. Faz isso não sem mostrar como suas protagonistas pressionadas e perseguidas são apaixonantes e apaixonadas pela vida. Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Apple TV/iTunes.
Estados Unidos/ Reino Unido/ França. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Stephen Tobolowsky, Brad Pitt.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com ela inteira. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente. Esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

20 – BOM MOMENTO PARA UMA MOEDA (A Good Time for a Dime)

Depois de ser coadjuvante do Mickey de 1934 a 1938, Donald passou a “estar mais focado” na carreira solo. Era um personagem que provou segurar sozinho um curta animado, como este em que experimenta as diferentes atrações de um parque. O destaque é o surpreendente striptease da Margarida no nickelodeon da “Dança dos Sete Véus”. Onde ver: DVD Disney Treasures – Cronologia do Donald, YouTube (som original).
Estados Unidos. Direção: Jack King, Dick Lundy (não creditados). Roteiro não creditado. Voz na dublagem original: Clarence Nash.

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19 – UMA NOITE NO RIO (That Night in Rio)

Alice Faye e Don Ameche são os protagonistas dessa comédia de identidades trocadas, passada num Rio de Janeiro de fantasia. Mas o filme, até pela locação, foi feito para Carmen Miranda, em sua segunda produção em Hollywood. Ela canta quatro músicas e o diretor finalmente descobre como filmá-la, dando espaço para sua dança, em vez de “prendê-la” em closes. Onde ver: DVD, YouTube (dublado).
Estados Unidos. Direção: Irving Cummings. Roteiro: George Seaton, Bess Meredyth e Hal Long, com diálogos adicionais de Samuel Hoffenstein, adaptação de Jessie Ernst, baseado em peça de Rudolph Lothar e Hans Adler. Elenco: Alice Faye, Don Ameche, Carmen Miranda, S.Z. Sakall, Bando da Lua, Maria Montez.

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18 – MADEIRA (Timber)

Outro ótimo curta do Donald dirigido por Jack King. Desta vez com o Bafo-de-Onça como antagonista e patrão, o forçando a trabalhar como lenhador. Muito movimentado e com ótimas gags. Onde ver: DVD Disney Treasures – Cronologia do Donald, YouTube (som original).
Estados Unidos. Direção: Jack King (não creditado). Roteiro: Carl Barks e Jack Hannah (não creditados), com argumento de Frank Tashlin (não creditado). Vozes na dublagem original: Clarence Nash, Billy Bletcher.

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17 – SARGENTO YORK (Sergeant York)

A história real de um rapagão do interior que se torna um católico fervoroso e, depois (contra a vontade até o momento decisivo) em herói de guerra é dirigida cheia de solenidade por Hawks. Um herói relutante é um personagem que não é o habitual do diretor, mais chegado aos profissionais do perigo. A trama da I Guerra foi levada ao cinema, claro, de olho na entrada americana na II Guerra. Cooper ganhou aqui seu primeiro Oscar. Acima da idade para o papel, ele relutou em aceitar o personagem que tinha uma bondade irreal – até conhecer o verdadeiro York, que pediu pessoalmente ao ator para interpretá-lo. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção: Howard Hawks. Roteiro: Abem Finkel, Harry Chandlee, Howard Koch e John Huston, com Sam Cowan (não creditado), baseado no diário de Alvin C. York. Elenco: Gary Cooper, Walter Brennan, Joan Leslie, Margaret Wycherly, Ward Bond.

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16 – SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra)

Bogart faz um bandido que sai da cadeia e aceita o serviço de um assalto. Mas ele está cansado, pensando em parar. Tem aspirações de um vida classe média ao lado de uma menina virginal de uma família que conhece e à qual se afeiçoa. Mas ele tem futuro? O filme vende firme a redenção do bandido, que só faz mal a outros bandidos. E Bogart e Ida Lupino estão ótimos. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção: Raoul Walsh. Roteiro: John Huston e W.R. Burnett, baseado em romance de Burnett. Elenco: Humphrey Bogart, Ida Lupino, Arthur Kennedy, Henry Travers.

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15 – SUPERMAN ou SUPER-HOMEM ou O SUPER-HOMEM Nº1 (Superman)

A animação dos Estúdios Fleischer foi a primeira adaptação para o cinema do personagem de Jerry Siegel e Joe Shuster, contando com as vozes do programa de sucesso no rádio, e as introduções “Mais rápido que uma bala…” e “É um pássaro! É um avião!”. Feita através de rotoscopia, a animação é de encher os olhos, mas ainda melhoraria nos episódios seguintes, assim como a trama que, aqui, enfoca um cientista louco. Onde ver: extra no DVD Superman – O Filme (edição tripla); DVD Superman de Max Fleischer – 1941-1942; DVD Superman em A Humanidade em Perigo; YouTube (som original e dublado).
Estados Unidos. Direção: Dave Fleischer e Steve Muffati (não creditado). Roteiro: Seymour Kneitel e Izzy Sparber, e Jay Morton (não creditado), baseado em personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster. Vozes na dublagem original: Bud Collyer, Joan Alexander, Jack Mercer.

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14 – AMOR À PRIMEIRA VISTA (The Nifty Nineties)

Mickey, símbolo máximo da Disney, vinha perdendo espaço nos curtas animados do estúdio, sendo ofuscado por seus coadjuvante (Donald, Pateta e Pluto). Passou por uma pequena reinvenção em 1941, com um visual mais rebuscado, mais magro e com cabeça, mãos e pés maiores. Esse curta é um charme só: Mickey e Minnie num encontro romântico no final do século 19. A atmosfera é um encanto: o par vai a um show de vaudeville (cujos artistas homenageiam os animadores Ward Kimball e Fred Moore), veem um melodrama contado em slides (antepassado do cinema), passeiam em um carro cuja velocidade máxima é tipo 20km/h. Onde ver: DVD Disney Treasures – Mickey Mouse em Cores Vivas – Volume 2, YouTube (som original).
Estados Unidos. Direção: Riley Thomson (não creditado). Roteiro não creditado. Vozes na dublagem original: Walt Disney, Thelma Boardman, Ward Kimball, Fred Moore, Clarence Nash.

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13 – DIVERSÃO DE HOLLYWOOD (Hollywood Steps Out)

Este curta animado da Warner satiriza vários astros e estrelas do cinema dos anos 1940: Bing Crosby, James Stewart, Greta Garbo, Cary Grant, Dorothy Lamour, Groucho Marx e muitos outros. Uma inspirada alopração. Onde ver: DVD Aventuras com a Turma Looney Tunes – Volume 3; YouTube (som original).
Estados Unidos. Direção: Tex Avery. Roteiro: Melvin Millar. Vozes na dublagem original: Dave Barry, Sara Berner, Mel Blanc.

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12 – QUE ESPERE O CÉU (Here Comes Mr. Jordan)

Divertida fantasia sobre o além, em que um boxeador morre, mas, na verdade, é levado antes da hora. Porém, não pode voltar ao seu corpo, porque foi cremado. É feito um arranjo para que retorne em outro corpo: o de um milionário assassinado. Bem divertido, consegue naturalizar seus absurdos, apoiado em um elenco carismático. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção: Alexander Hall. Roteiro: Sidney Buchman e Seton I. Miller, baseado na peça de Harry Segall. Elenco: Robert Montgomery, Claude Rains, Evelyn Keyes, Edward Everett Horton.

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11 – O PEQUENO FURACÃO (The Little Whirlwind)

Esse foi o curta em que o Mickey estreou seu novo visual, mais magro, com cabeça, mãos e pés maiores e com as célebres orelhas com efeito de relevo. O ratinho segura o desenho sozinho, tentando limpar as folhas de um quintal para ganhar um bolo da Minnie, mas enfrentando um furacãozinho bagunceiro. Muito movimentado, com um visual muito bonito. Onde ver: DVD Disney Treasures – Mickey Mouse em Cores Vivas – Volume 2, Disney +.
Estados Unidos. Direção: Riley Thomson (não creditado). Roteiro não creditado. Vozes na dublagem original: Walt Disney, Thelma Boardman.

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10 – AO COMPASSO DO AMOR (You’ll Never Get Rich)

Depois de encerrar a série de filmes em parceria com Ginger Rogers na RKO, Fred Astaire encontrou outra parceira à altura em Rita Hayworth, na Columbia. Eles produziram magia juntos em dois filmes, este foi o primeiro. Toda a trilah é de Cole Porter, com destaque para “So near and yet so far”, o melhor momento de Astaire e Rita no filme. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção: Sidney Lanfield. Roteiro: Michael Fessier e Ernest Pagano. Elenco: Fred Astaire, Rita Hayworth, Robert Benchley.

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9 – SUSPEITA (Suspicion)

O quase sempre afável Cary Grant aqui é escalado por Hitchcock como o ameaçador marido de Joan Fontaine (que levou o Oscar de melhor atriz). Ela desconfia que ele quer matá-la e, para ressaltar isso, Hitch cria alguns momentos antológicos, como Grant subindo a escada com o copo de leite, cuja iluminação, através de um truque, chama a atenção do espectador diretamente para ele. Onde ver: DVD, Belas Artes a la Carte, Looke.
Estados Unidos. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison e Alma Reville, baseado em romance de Anthony Berkeley. Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Cedric Hardwicke.

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8 – DUMBO (Dumbo)

Depois que os ambiciosos Pinóquio e Fantasia não foram bem nas bilheterias, Walt Disney apostou em um longa mais simples e infantil, basicamente uma Silly Symphony estendida. Dumbo é isso, uma fantasia leve e sentimental de um elefantinho desprezado por ter orelhas imensas, mas que uma hora descobre que consegue voar por causa delas. Funciona bem demais e ainda tem aquela cena pré-psicodélica do delírio dos elefantes rosa, provocado por um porre. Onde ver: DVD, blu-ray, Disney +.
Estados Unidos. Direção: Ben Sharpsteen (supervisão), Samuel Armstrong (sequência), Norman Ferguson (sequência), Wilfred Jackson (sequência), Jack Kinney (sequência), Bill Roberts (sequência), John Elliott (não creditado). Roteiro: argumento de Joe Grant e Dick Huemer, com desenvolvimento de história de Bill Peet, Aurelius Bataglia, Joe Rinaldi, Vernon Stallings e Webb Smith, com direção de história de Otton Englander, baseado em livro de Helen Aberson e Harold Pearl. Vozes na dublagem original: Edward Brophy, Cliff Edwards, Sterling Holloway, Verna Felton.

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7 – O DIABO E A MULHER (The Devil and Miss Jones)

O diabo é um magnata tão rico que nem lembra que é dono também de uma loja de departamentos. A mulher é a
Srta. Jones, uma funcionária da loja, do setor de sapatos. Quando ele se emprega lá secretamente para descobrir quem está liderando protestos dos trabalhadores contra o dono, por melhores condições de trabalho, ela acolhe o “novato”. E o patrão acaba vendo na pele os problemas de seus funcionários. Um dos vários filmes da época sobre as questões trabalhistas, aqui ancorado em elenco sólido e ótimos roteiro e direção. Onde ver: DVD digipack Comédias Clássicas.
Estados Unidos. Direção: Sam Wood. Roteiro: Norman Krasna. Elenco: Jean Arthur, Charles Coburn, Robert Cummings, Spring Byington, Edmund Gwenn, S.Z. Sakall.

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6 – COMO ERA VERDE MEU VALE (How Green Was My Valley)

Na virada do século, no País de Gales, o cotidiano de uma família onde pai e filhos, assim como toda a vila, trabalham na mina local. A história é vista em retrospectiva pelo filho mais novo, já adulto. De novo John Ford alia a força dos laços familiares a um trama sobre a vida e desafios dos trabalhadores. Nostálgico e sentimental, mais até do que o normal para o diretor, que de novo compõe belas imagens míticas. Onde ver: DVD, YouTube (dublado), YouTube (som original, com legendas).
Estados Unidos. Direção: John Ford. Roteiro: Philip Dunne, baseado no romance de Richard Llewellyn. Elenco: Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Roddy McDowall, Sarah Allgood, Anna Lee, Donald Crisp, Barry Fitzgerald.

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5 – AS TRÊS NOITES DE EVA (The Lady Eve)

Barbara Stanwyck em estado de graça com uma golpista que tem um jovem e ingênuo milionário (Henry Fonda) na mira durante uma viagem de navio. Só que ela se apaixona de verdade por ele, mas ele descobre a farsa inicial e a despreza. Tempos depois, ela consegue a oportunidade de se vingar, reaparecendo na mansão da família dele como uma lady inglesa. Grande comédia, cheia de idas e vindas, num ano especial tanto para Barbara quanto para o diretor Preston Sturges. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção: Preston Sturges. Roteiro: Preston Sturges e Monckton Hoffe, baseado em peça de Hoffe. Elenco: Barbara Stanwyck, Henry Fonda, Charles Coburn.

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4 – ADORÁVEL VAGABUNDO (Meet John Doe)

Um Frank Capra em ótima forma, mais uma vez em seus temas humanistas. A abertura já é sensacional: o jornal que troca de direção, simbolizado pela placa original sendo retirada à britadeira, com close na expressão “free press” sendo detonada letra por letra. Em seguida, o garoto que sai da sala do novo editor e “convida” os jornalistas da vez a serem demitidos simplesmente apontando o dedo, fazendo um assovio e o gesto de garganta cortada. Barbara Stanwyck é um deles, mas vira o jogo quando inventa, em sua última coluna, um desempregado em desespero que afirma que vai se atirar de um prédio em protesto contra a as condições sociais no país. A repercussão a faz não só recuperar seu emprego, mas manter a farsa junto com o jornal, encontrando no pobretão vivido por Gary Cooper alguém para personificar o “João Ninguém” fictício. Surge um movimento social que os poderosos não demoram a querer manipular. Onde ver: DVD, YouTube.
Estados Unidos. Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, com contribuições aos diálogos de Myles Connolly, de um argumento de Richard Connell e Robert Presnell Sr. Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Walter Brennan.

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3 – CONTRASTES HUMANOS (Sullivan’s Travels)

Preston Sturges faz um belo tributo a seu gênero de ofício, a comédia, na trama do diretor de cinema que faz muito sucesso divertindo as plateias com seus filmes, mas que acha que, naquele momento de crise nos EUA, precisa dizer algo importante: quer fazer um épico dramático sobre os desvalidos. Mas o que ele sabe sobre ser pobre? Resolve, então, passar alguns dias vivendo como um dos inúmeros sem teto que vagam pelo país. Sturges surpreendentemente vai da comédia rasgada ao drama e, através do drama, mostra a importância da comédia. Onde ver: DVD.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Preston Sturges. Elenco: Joel McCrea, Veronica Lake, Robert Warwick.

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2 – RELÍQUIA MACABRA ou O FALCÃO MALTÊS – RELÍQUIA MACABRA (The Maltese Falcon)

Estreia na direção de John Huston e estreia também do filme noir como gênero. Huston pescou o livro de Dashiell Hammet dos direitos de adaptação que a Warner já tinha (e que já havia filmado duas vezes) e construiu uma narrativa direta como o próprio detetive Sam Spade, que podia até podia até estar de caso com a mulher do sócio, mas não ia deixar barato o assassinato dele. Desvendar o crime implica em se envolver na caçada internacional de uma turma de golpistas por uma estatueta lendária, histórica e de ouro. George Raft declinou do papel principal porque achou que o filme não tinha importância. Mas ele acabou se revelando feito do “material do que são feitos os sonhos”. Onde ver: DVD, blu-ray, Apple TV.
Estados Unidos. Direção e roteiro: John Huston, baseado em romance de Dashiell Hammett. Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sydney Greenstreet.

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1 – CIDADÃO KANE (Citizen Kane)

Consagrado através dos anos como “o mais importante filme já feito”, muito do que era um compêndio de revoluções narrativas em Cidadão Kane já foi absorvido, reprocessado e subvertido pelo próprio cinema. O que fica é a arte maravilhosa de contar uma história, começando pela opção de começar pela morte do protagonista, para depois resumir sua vida e então ver o que está por trás dos fatos pelos depoimentos de quem o conheceu. Mas também pela disposição feroz de fazer cada cena algo inspirado, criativo, inteligente. Orson Welles e seus colaboradores (principalmente o co-roteirista Herman J. Maniewicz e o diretor de fotografia Gregg Toland) buscaram ferozmente soluções imaginativas. Planos-sequência (com vários planos dentro do plano), profundidade de campo (combinando megacloses e personagens minúsculos ao fundo, criados na câmera ou combinados com projeção de fundo), o uso expressivo do forte contraste entre luz e sombra, os pontos de vista de baixo pra cima, o humor de comédia maluca alternando com o melodrama. Uma maravilha na qual em cada segundo há algo para se comentar: do “Proibida a entrada” do começo ao “Proibida a entrada” do final. Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play, Google Play, YouTube Filmes, Looke, Microsoft Store, Apple TV.
Estados Unidos. Direção: Orson Welles. Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Everett Sloane, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente. Esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

LIMITE
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 35

Vaca sagrada do cinema brasileiro

Limite, 90 anos esta semana, é uma vaca sagrada do cinema brasileiro. O status é de lenda. Eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como o melhor nacional de todos os tempos. Único filme de seu diretor, Mário Peixoto, aos 22 anos. Não entrou no circuito comercial: foi exibido algumas vezes, saiu de circulação, voltou décadas depois. Experimental, vanguardista, à frente do seu tempo.

Ele nunca foi e nunca será um filme fácil. Desconfio que, se tivesse entrado no circuito comercial, não teria grande público. “Limite” abre mão da comunicação com a plateia em prol da plasticidade, da introspecção, do simbolismo, da poesia e da abstração. Quase não usa cartelas com diálogos ou narrações. Não é filme para quem procura uma narrativa tradicional. É algo não “além da narrativa”, nem “aquém”: é “à parte”.

O filme trata de duas mulheres e um homem à deriva em um bote. Vagamente eles contam suas histórias antes de chegar lá. A primeira mulher fugiu da prisão e tentou retomar a vida; a outra deixou o marido bêbado; o homem tinha uma amante casada e, confrontado pelo marido, descobriu que ela tem lepra.

Fora isso, não há muito de história. São cenas soltas, personagens caminhando muito, e sofrendo, ou sofrendo com um tédio mortal de tudo. Por que estão no barco, o filme não se dá ao trabalho de responder (ou ficou em alguma cena perdida).

Mário Peixoto, com Edgar Brazil na direção de fotografia, se dedica a um extraordinário trabalho de câmera, procurando sempre um ângulo inusitado. Às vezes, puro virtuosismo (a câmera correndo para enfocar uma biqueira, plano repetido três ou quatro vezes; ou super de baixo para cima entre dois personagens conversando na rua); outras, simbolicamente poderosas (a câmera gira, refletindo a desorientação da personagem no alto de um penhasco).

A restauração de 2011, pela World Cinema Foundation (criada por Martin Scorsese) com a Cinemateca Brasileira, ajuda a curtir mais a beleza das imagens e da música clássica na trilha. E daí que saiu a edição em blu-ray da prestigiada Criterion Collection, nunca lançada no Brasil. Mas esta cópia também está disponível no YouTube. Vão longe os dias em que Limite era a “obra-prima que ninguém viu”. Hoje, todo mundo pode ver.

Onde ver: blu-ray (da Criterion Collection, importado), Libreflix, YouTube.

Limite, 1931.
Direção: Mário Peixoto. Elenco: Olga Breno, Tatiana Rey, Raul Schnoor, Mário Peixoto

THOR – RAGNAROK
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 34

Chanchada em Asgard

Toda vez que revejo sempre gosto muito de Thor – Ragnarok. Há uns exageros, mas tem muita coisa que me diverte muito. Sobretudo a esplendorosa Cate Blanchett, mostrando mais uma vez o que uma grande atriz pode fazer num papel de vilã, e Jeff Goldblum, divertidíssimo.

Agitado, colorido, muito bem-humorado, meio iconoclasta, o filme também mostra que há uma variedade de estilos dentro do amarradinho universo cinematográfico da Marvel. Há filmes mais sérios, mas também chanchadas deliciosas como essa.

Onde ver: DVD, blu-ray, Disney +.

Thor – Ragnarok, 2017.
Direção: Taika Waititi. Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Idris Elba, Jeff Goldblum, Karl Urban, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch

KING KONG
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 32

O macaco está certo

Ao contrário da versão de 1976, o tributo de Peter Jackson não atualiza a trama, mas a situa na mesma época do original: os anos 1930. Ótima decisão porque a reconstituição de época é uma beleza, além dos efeitos especiais que agora partem da captura de movimento (enquanto que em 1933 era o stop-motion e em 1976, uma pessoa vestida de gorila).

O filme também acerta ao refletir um pouco sobre as questões sociais da época, enfocando a crise econômica provocada pela queda da bolsa de Nova York. O problema fica no gigantismo (sem trocadilho). O diretor infla o filme em tudo: na duração, nos efeitos especiais, nas situações “no limite”.

Há também uma evolução na relação entre Ann e o macacão. No filme de 1933, Fay Wray era só medo e horror. No de 1976, Kong mostrava mesmo uma curiosidade sexual por Jessica Lange, enquanto no fim ela gritava para os aviões “Não o matem”. Agora, há uma relação mais profunda e pura entre o gorila gigante e Naomi Watts. Ela o faz rir, eles curtem seu reencontro em Nova York e têm até um momento idílico num lago congelado do Central Park.

No fim, o filme consegue de novo, como os outros dois, nos fazer torcer pelo macaco.

Onde ver: DVD, blu-ray, Netflix, Amazon Prime Video, Telecine Play, Now, Starz, Looke, Apple TV, Claro Vídeo.

King Kong, 2005.
Direção: Peter Jackson. Elenco: Naomi Watts, Adrien Brody, Jack Black, Andy Serkis, Jamie Bell, Kyle Chandler.

BOLA DE FOGO
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 31

Branca de Neve de ‘corpo perturbador’

A trama de um homem cerebral e comedido que tem vida posta de pernas para o ar por causa de uma mulher que aparece de repente em sua vida não era exatamente nova em Hollywood. Nem mesmo na carreira de Howard Hawks: o diretor havia lançado o maluco Levada da Breca três anos antes.

Mas, agora, não é só um homem: são oito. E a mulher é, mais do que nunca, uma tentação: Barbara Stanwyck é a liberada cantora de boate que, envolvida com um gangster e procurada pela polícia, vai encontrar abrigo em uma casa onde estão oito professores que se dedicam há anos à elaboração de uma enciclopédia.

Com roteiro de Billy Wilder e Charles Brackett (Wilder começaria a dirigir seus próprios filmes naquele mesmo ano), o filme tira um sarro da situação central de Branca de Neve e os Sete Anões (1937). Uma paródia safadinha que concentra suas piadas nessa colisão de dois mundos, com Cooper tentando manter como pode a dignidade diante do “corpo perturbador” de Barbara (palavras do personagem).

Com uma situação divertida bem explorada em ótimos diálogos (o professor vivido por Cooper está interessado nas gírias da cantora para sua pesquisa), o filme é uma demonstração da perícia do versátil Hawks na comédia. É grande diversão com excelente elenco (Barbara foi indicada ao Oscar).

Onde ver: DVD, Oldflix

Ball of Fire, 1942.
Direção: Howard Hawks. Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Henry Travers, Dana Andrews, S.Z. Sakall, Richard Haydn, Dan Duryea

CIDADÃO KANE
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 56

Uma narrativa para além das revoluções

Lançado há 80 anos, as revoluções narrativas que “Cidadão Kane” compilou dentro de si já foram absorvidas, reprocessadas, diluídas e subvertidas ao longo do tempo. Para um espectador de hoje, que não se esforçar em buscar o olhar do tempo em que o filme foi feito, pode ser desafiador encontrar esses elementos inovadores.

Fora isso, o que sobra então? Revendo o filme de Orson Welles, é um grande prazer reencontrar uma extrema habilidade narrativa. essas “revoluções” nada mais eram do que uma busca incansável por narrar cada cena de uma maneira criativa, inteligente e surpreendente. E esse modo vigoroso de contar a história sobrevive através desses oito décadas, não só numa revisita cinéfila a “Kane”, mas também em alguns dos melhores cineastas da atualidade.

Steven Spielberg, por exemplo, é um cineasta que sempre pensa: “Como posso deixar essa cena mais interessante?”. E isso de uma maneira que isso esteja adequado à narrativa, que tudo no fim não seja apenas um festival de momentos elaborados mal colados um no outro.

Diversos planos diferentes ligados por um plano-sequência que não se percebe, se o espectador não estiver realmente prestando atenção à câmera. Tem muito em Spielberg e tem em “Cidadão Kane”.

Por exemplo, a emblemática cena em que o pequeno Charles Foster Kane brinca na neve, a câmera recua e revela estar dentro da casa onde seus pais, recém-milionários, estão entregando seu destino a um banco para que a empresa seja tutora do garoto até a idade adulta.

Enquanto o debate sobre o futuro de Charles acontece em primeiro plano, o garoto continua em cena o tempo todo, lá no fundo, lá fora, visto pela janela.

Esse recurso da profundidade de campo já não era comum, numa época em que o padrão era desfocar o fundo para que o público prestasse atenção só nos atores em primeiro plano.

Mas a cena é também um plano-sequência em que a câmera começa no garoto, recua dois cômodos dentro da casa até depois de uma mesa e, em seguida e sem cortes, avança até a janela novamente.

O plano seguinte é visto pelo lado de fora, com a mãe em close chamando Charles pela janela, depois a família saindo em plano geral pela porta, para encontrarem Charles no meio da neve, onde se desenrola o diálogo. De novo, tudo sem cortes.

Essa busca pelo mais interessante já vem desde o primeiro segundo, onde a montagem começa da placa “Proibida a entrada” para “pular o muro” da propriedade nababesca de Kane, mostrar seus detalhes (sempre o castelo no lado superior direito da imagem) e terminar com o moribundo personagem, e o superclose de sua boca murmurando “Rosebud”.

Primeiro a morte, depois a vida contada em um cinejornal. Então, a equipe desse veículo, numa sala de projeção decide que precisam saber se a última palavra do magnata possui um significado oculto. Nessa cena, os personagens são todos mostrados em silhueta, ou na contraluz.

São momentos já muito comentados, assim como vários outros. O teto do jornal Inquirer, num tempo em que os cenários dos filmes quase não mostravam os tetos dos ambientes por dentro. Aí também, um plano-sequência com três ou quatro planos dentro dele.

Ou o momento em que Kane passa o controle do jornal para o banco: dois personagens à mesa, um de frente para o outro em primeiro plano, Kane de pé, entre eles, caminha para o fundo da sala, onde fica minúsculo abaixo de janelas que, agora vemos, são enormes.

O close na cantora de ópera, que se abre para o plano geral do palco e depois sobre muito até chegar a dois trabalhadores que assistem tudo lá de cima, e fazem sua crítica demolidora ao que ocorre lá embaixo (efeito conseguido pelo movimento de câmera mais uma trucagem que emenda dois planos com um cenário-miniatura entre eles).

Há também as passagens de tempo. O banqueiro que deseja “Feliz natal. Charles” e completa “e um feliz ano novo” numa cena que é um salto de mais de dez anos.

O casamento, que é mostrado da lua de mel à indiferença total em segundos, em sucessivos cafés da manhã: da proximidade ao distanciamento físico, e onde a esposa até termina lendo o jornal concorrente.

Ou Kane ambicionando a equipe do jornal concorrente, numa foto exposta numa vitrine, e a foto se torna a cena da equipe agora contratada pelo personagem e sendo novamente fotografada, simbolizando sua vitória.

O personagem passando derrotado por dois espelhos, gerando um reflexo infinito.

Ou Kane em primeiro plano, datilografando, o amigo Jedediah mais atrás e Bernstein lá no fundo, em silhueta, na porta iluminada.

Como esta, a composição das imagens e sempre saborosa: quem está na luz e quem está nas sombras; personagens em close e no extremo fundo do quadro ao mesmo tempo (conseguidos pelo trabalho de câmera e luz de Gregg Toland ou por efeitos combinados como a projeção de fundo); fusões em que a primeira imagem e a segunda se combinam em um jogo de luz e escuridão.

Isso tudo para seguir um roteiro (de Herman J. Mankiewicz e Welles) que também fugia do formato começo-meio-fim: começa com a morte do protagonista, resume sua vida do começo ao fim pelo cinejornal e, depois, mostra o que estaria por trás dos fatos pelos flashbacks dos coadjuvantes entrevistados por um dos repórteres.

Ao invés dos flashbacks contarem a vida de Kane em ordem cronológica, eles são quase temáticos: a riqueza e a falência; o jornal; as mulheres e a política; o isolamento. No fim, o mistério a ser desvenda, que guia a trama, só revela que um homem nunca consegue ser compreendido em sua totalidade.

A isso tudo que o filme contém, soma-se aquilo que aconteceu fora do set. Como Welles era o gênio do rádio aos 25 anos e chegou a Hollywood com poder para fazer o filme que quisesse e como quisesse, despertando a inveja de meio mundo; como Mankiewicz escreveu a primeira versão do roteiro se inspirando no poderoso e temido magnata da imprensa William Randolph Hearst, de quem já havia usufruído da hospitalidade várias vezes (entre outras coisas, o jornalismo sensacionalista e controverso, a aventura política, o castelo construído para a amante, de quem ele tentou alavancar a carreira); de como o roteirista teve que brigar para ter crédito no filme (história contada em “Mank”, da Netflix).

Há muitos, muitos detalhes em “Cidadão Kane” que valem observações e comentários. Cada cena é inspirada, tecnica ou narrativamente. E é isso o que garante sua permanência e sua influência ainda hoje.

Onde ver: DVD, blu-ray, Telecine Play

“Citizen Kane”, 1941.
Direção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Everett Sloane.

Narrativa. “Narrativa” é uma palavra que muita gente tem usado de forma negativa nos últimos tempos.

“Narrativa do golpe”, pra não admitir que foi golpe. “Narrativa de vítima”, pra dizer que a pessoa está inventando ou reforçando uma condição de vítima que ela não tem – ou, pelo menos, não tem tanto assim.

Injustiça com a palavra. “Narrativa” é a belíssima arte de contar histórias. Novelas, filmes, desenhos animados: quanto melhor a narrativa, melhor é.

É a narrativa que me interessa nessas formas de arte. E também foi assim neste BBB.

Um jogo que combina direcionamento e improviso, com regras impostas pela produção e a dinâmica interna imprevisível de seus jogadores, tem narrativa?

Claro. A edição do programa se esforça em construir narrativas e personagens, tornar tudo o mais “novela” possível. Se seu elenco já proporciona isso naturalmente, melhor ainda.

O pessoal da má vontade e aqueles que foram além, mergulhando de cabeça na xenofobia, não demorou a tentar colar em Juliette o rótulo da “narrativa de vítima”. Como se ela não tivesse sofrido de verdade com a exclusão por parte dos outros participantes, liderados pela cantora que se diz educada porque é “de Curitiba”.

Juliette (e sua talentosíssima equipe de maketing aqui fora – que cresceu junto com ela) soube aproveitar esse fato? Sem dúvida, mas o fato existiu e se repetiu.

Mas num reality show como esse, a narrativa pode ser cortada abruptamente. A história pode não pegar, pode tomar um caminho errado, pode definhar. O acaso é uma ameaça constante e que quase nunca falha contra qualquer narrativa mais redonda.

E aí aconteceu o contrário: o acaso ajudou a narrativa. A história que estava sendo contada foi ficando logo cada vez mais evidente, mais forte e até com “turning points” precisos.

Lucas e ela foram excluídos por quase todos os outros. Se viram, se entenderam, se acolheram, se apoiaram. Quando ele não aguentou e pediu para sair, disse para ela: “Ganha essa porra!”.

Primeiro “turning point” importante: ela foi ao seu primeiro paredão, na segunda semana. Poderia ter escapado na prova bate-e-volta, mas não apenas não se salvou, como Karol Conká é que sobreviveu. Na votação popular, houve muita gente que defendeu sua saída porque “ela não saberá jogar contra Karol Conká e seus asseclas”. Que engano.

Ela não saiu, se reorganizou e não baixou a cabeça para os vilões. Firmou uma aliança importante com Sarah e Gil: o G3. Juntos, eles foram derrubando o Gabinete do Ódio, um membro por vez.

Quando Sarah ganhou sua prova do líder, épica, a primeira “final de Copa do Mundo” desse Big Brother, Juliette nos conquistou para valer aqui em casa. Enquanto Sarah distribuía suas pulseiras para o quarto do líder, a despachada da Juliette não se fez de rogada: “Sarah, não esquece de mim, não, pelo amor de Deus!”. E depois ainda se mudou de mala e cuia para o quarto da líder.

Com o Gabinete do Ódio dizimado, novo “turning point”. Diferenças na visão de jogo e Sarah começa a alimentar uma desconfiança quanto a Juliette. Isso evolui para um ranço e contamina Gilberto, que chega ao ápice de questionar, entre outras coisas, a relação da Juliette com suas referências nordestinas.

Põe em dúvida as amizades dela, dizendo que é puro interesse. Põe em dúvida as lágrimas da aliada, nordestina como ele.

Juliette vira alvo de seux ex-aliados, um novo Gabinete do Ódio. Está de novo excluída. De novo, só. Não é prioridade para ninguém.

“Turning point”. Carla Diaz, no quarto secreto após sair em um paredão falso, vê os ataques – e vê também Juliette a defendendo, quando outros falavam mal da, pensavam eles, eliminada. Ao voltar para casa, Carla não faz muita coisa, mas faz isto: fala bem de Juliette para seus aliados, a fechada dupla Camilla e João.

Juliette conversa, conversa. Tenta resolver. Esmaga moralmente Gilberto. Não adianta.

O acaso joga a favor de novo. Juliette ganha na sorte a oportunidade de obrigar alguém a revelar seu voto secreto. Numa jogada perfeita, que saber o voto da Sarah. “Juliette”, ela entrega, sendo então desmascarada.

Depois, quando é colocada no paredão, direciona (querendo ou não – o acaso, de novo?) uma votação aberta que faz com que Sarah também termine no paredão. O duelo de vida e morte termina com a rival derrotada.

Mas essa vitória é disfarçada porque todos os colegas acham que Sarah foi derrotada pela briga com um terceiro elemento, Rodolffo. Ninguém imagina a força de Juliette. Nem ela mesmo sabe.

Ainda coleciona plaquinhas de adjetivos ruins dadas pelo resto do elenco, nas dinâmicas de “jogo da discórdia” do programa. É votada pela casa no confessionário, a amiga Viih Tube a salva. É votada em seguida pela casa em votação aberta, a amiga líder a salva de novo. Mas é puxada ao paredão em um contragolpe. E, na prova bate-e-volta, escapa pela terceira vez na mesma noite.

O acaso a favor da narrativa.

Juliette já havia encontrado em Camilla de Lucas uma nova aliada. Mas tinha a sina de perdedora dentro da casa: não havia ganhado nenhuma prova do líder, nenhuma prova do anjo. Se lamentava por não poder ver fotos ou vídeos da família, privilégios dos vencedores. Reagia mal quando via a vitória escapar por entre os dedos.

Restava uma prova do líder. Na última prova, no último momento possível, ela escolhe o número certo entre três possibilidades e vence. Não sabe, mas essa vitória é comemorada com gritos nas vizinhanças pelo Brasil. O acaso, sempre ele.

Foi outra final de Copa do Mundo.

O que não é acaso é o seu carisma. Potencializado por sua equipe nas redes sociais, é verdade. Mas uma base consistente, que se aliou a uma narrativa de superação de adversidades que se construiu pela dinâmica interna dos participantes, por uma visão inteligente do ambiente adverso e por uma ajudinha do acaso. Carisma misturado com autenticidade, resistência e humor.

Vai à final, ninguém lá dentro sabe direito como. Descobre, num vídeo que resume sua trajetória, que foi mais perseguida do que imaginava (mas ainda menos do que foi na verdade). No discurso final, o apresentador exalta sua resiliência e revela o que aqui fora todos sabiam, mas ela e os outros dois finalistas ainda não. Eles descobriram juntos:

“Você nunca esteve sozinha, em nenhum momento. No palco (pódio) montado pelo público, você nunca saiu do primeiro lugar”.

No show final, lá estava Juliette, a protagonista absoluta do BBB 21, assistindo a Lucas, que estava de volta, de surpresa, cantando em meio a outros ex-BBBs desta edição. Um de frente para o outro, mãos juntas, embora separadas pelo acrílico que isolava o palco. “Eu me lembro de tudo, irmão, eu estava lá também”, dizia a música.

ISSO, compadre, é que é narrativa. Com começo, meio, reviravoltas e final. Final feliz.

“Doze”.

Naquele momento, ela ainda não tinha ganhado nenhuma prova. E esta era a última prova do líder. Era o último momento dela nessa prova do líder. Seus dois adversários também não tinham errado nenhum número. 33,3% de chance de ganhar, 66,6% de perder. Tudo ou nada.

“Doze… Doze… Doze…”

Sentados no sofá, repetíamos o número, naquela tentativa incerta de fazer o pensamento chegar lá. Vai que. Nem pensávamos que tanta gente no Brasil estivesse repetindo a mesma palavra, ao mesmo tempo.

“Doze”, disse Juliette Freire.

Vibração no nosso sofá, vibração na vizinhança. Baggio chutou pra fora. É tetra! É tetra!

Depois vimos que foi assim em tantas vizinhanças pelo Brasil.

Ruy Castro escreveu em “O Vermelho e o Negro – Pequena Grande História do Flamengo” que o clube “inspira um rubro-negro do Guaporé a reagir como um rubro-negro do Leblon(com os mesmos gestos e expletivos, e ao mesmo tempo).

Juliette fez a mesma coisa.

Em tantas casas, em tantas regiões diferentes, brasileiros reagiram da mesma forma e no mesmo instante. Antes do BBB 20, fazia muitos anos que não assistia ao programa. Mas me dou o direito de duvidar que tenha acontecido algo semelhante.

Juliette é uma representante admirável da Paraíba e do Nordeste. Não só porque fala sobre as coisas boas daqui o tempo todo, mas por ser o que é. Todo mundo conhece aqui conhece algumas juliettes. Que falam daquele jeito, que têm um pouco ou muito dessa presença. Eu conheço quem já morou pelo mundo todo, mas sempre manteve sua identidade, seu jeito de falar, suas referências presentes, sua cidade natal consigo. E de um jeito muito natural, sem nada de forçado.

Mas Juliette derrubou divisas e se tornou um fenômeno do Brasil.

Conquistou empatia no começo, quando foi covardemente excluída, menosprezada, ridicularizada por uma galera liderada por alguém que se dizia educada “por ser de Curitiba”. Sofreu uma xenofobia braba.

Mas se reorganizou, enfrentou os agressores, se uniu a uma resistência e ajudou a escorraçar os vilões. Depois, sempre com uma leitura inteligente do ambiente onde estava, detectou a mudança em seu grupo, quando começou a ser excluída de novo.

Amassou moralmente Gilberto na academia. E quando foi perguntada sobre de quem gostaria de saber o voto, marcou um golaço: “Sarah”, desmascarando a ex-aliada.

Quando foi ao paredão, marcou outro golaço ao chamar a agora rival para o confronto direto. E venceu.

Com tagarelice e resiliência, foi arrumando confusões e resolvendo, virando alvo e se safando. Tentava tanto resolver os problemas que às vezes isso mesmo virava um problema. Teve que enfrentar a má vontade até da Folha de S. Paulo.

Mas enfrentou e fez isso, sobretudo, com muito carisma. E carisma não se ensina, nem se aprende. Quem tem, tem.

Então, ela disse “doze”. E vibramos todos, ligados na mesma emoção de uma narrativa especial a esse ponto: da única liderança vir no último momento possível, com todas as probabilidades contra.

Vencedora. Protagonista. Campeã.

Minha coluna de hoje na CBN pode ser ouvida na internet. Falei da cerimônia borocoxô do Oscar; da estreia no Disney Plus de Cosmos, versão com Neil DeGrasse Tyson da série clássica com Carl Sagan; de Apocalypse Now – The Final Cut, a (até agora) versão definirva do clássico de Francis Ford Coppola, de graça na internet; e dos 80 anos do mitológico Cidadão Kane. Ouça aqui!

MANK
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 53

Tributo a um roteiro

Mank é sobre Herman J. Mankiewicz, o roteirista. Mas o filme é também sobre um roteiro: o que ele escreveu para Cidadão Kane (1941), obra seminal do cinema. Como fazer um filme sobre um sujeito preso a uma cama por causa de uma perna quebrada, ditando palavras a uma assistente?

Para a sorte do filme, o roteirista teve uma vida agitada, autodestrutiva (era um beberrão e apostador tão compulsivo que perdia milhares de dólares numa aposta sobre em quanto tempo uma folha cairia da árvore). Conviveu com poderosos, contrabandeando fatos e fofocas sobre eles para seu texto, uma biografia (mal) disfarçada de William Randolph Hearst, magnata da imprensa.

E ainda enfrentou Orson Welles, garoto-prodígio com uma presença (e ego) descomunal, para conseguir ter crédito no filme (para os registros: Mank escreveu o primeiro tratamento sozinho e boa parte das melhores ideias do filme são dele, mas Orson adicionou coisas depois). Além de tudo isso, tinha uma verve especial que o fazia vomitar em um jantar chique e emendar: “Não se preocupem: o vinho saiu junto com o peixe”.

David Fincher presta seu tributo ao cinema dos anos 1940 em geral e a Kane em particular tentando fazer com que seu filme pareça o máximo possível com uma produção daquela época, com uma direção de arte premiada com o Oscar (as filmagens do roteiro sendo escrito aconteceram no mesmo rancho em que o roteiro foi realmente elaborado). Mank emula especificamente Kane na fotografia em preto-e-branco que abusa da contraluz e da penumbra (de Erik Messerschimdt) e na música de Trent Reznor e Atticus Ross. E no roteiro que não segue uma estrutura de começo, meio e fim.

Mank também conta sua história através de um roteiro não linear, o que hoje é comum, mas era raro no começo dos anos 1940, quando Mankiewicz se atreveu a construir Kane assim. A diferença é que Kane é conduzido por depoimentos que levam aos flashbacks. Mank simplesmente vai e volta no tempo em 1939 e 1930 para mostrar elementos que marcaram a vida do roteirista e o teriam influenciado no roteiro.

Mank testemunhou a intimidade dos poderosos flutuando em sua realidade própria acima dos pequenos. Kane seria uma combinação entre Hearst, L.B. Mayer (dono da Metro) e o próprio Orson Welles.

Mas o filme reforça dois pontos em particular. Um é a atriz Marion Davies, amante de Hearst, para quem ele construiu San Simeon, uma propriedade nababesca que incluía até um zoológico. No filme, Mankiewicz vê como a esperta e engraçada Marion era forçada por Hearst, que financiava as produções que ela estrelava, a fazer melodramas. O paralelo dela em Kane é muito desfavorável e Mank, o personagem, repete que a personagem em seu roteiro não é Marion. Mank, o filme, tenta, assim, resgatar Marion Davies da imagem dela que Cidadão Kane, de propósito ou sem querer, cristalizou através dos tempos.

O outro ponto é político, a partir de uma eleição para o governo da Califórnia, onde o candidato de esquerda é sabotado por fake news: a edição de cinejornais encenados e com depoimentos inventados. Uma relação direta com o tempo em que vivemos, portanto.

Mank, então, faz mais sentido para quem viu Cidadão Kane? Certamente, e ainda mais para quem conhece as fofocas de bastidores – a contribuição de Mankiewicz em Kane foi obscurecida por anos a fio, mas foi resgatada por um artigo da crítica Pauline Kael republicada no livro Criado Kane e Outros Ensaios, base clara para este filme.

Para quem não viu Cidadão Kane, o que acontece? Não tenho como afirmar isso. É possível que a história de Mankiewicz, um bêbado na corda bamba, seja atraente. Mas aí só esse perfil de público pode dizer. O ideal, claro, é que todo mundo conhecesse bem Cidadão Kane. Independente de Mank.

Onde ver: Netflix

Mank, 2020.

Direção: David Fincher. Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey.

OS 7 DE CHICAGO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 52

Justiça tumultuada

Filmes de tribunal enfrentam sempre um dilema. O drama está sempre na palavra, o que há de imagem para mostrar além de pessoas falando? Aaron Sorkin, aqui diretor e roteirista, tenta resolver a questão basicamente com a montagem em Os 7 de Chicago.

O filme começa em alta voltagem, entrelaçando cenas reais de arquivo com outras com o elenco, cujos personagens vão sendo identificados por créditos na tela (alguns vão reclamar que o recurso é muito “televisivo”, mas não tem nada demais, Scorsese também já fez).

O tumulto que levou oito líderes diferentes de ativistas contra a guerra do Vietnã a serem julgados por incitarem a violência em Chicago durante a convenção do Partido Democrata não é mostrado no começo. Começamos a acompanhar a trama pelo julgamento e voltamos aos acontecimentos pelos depoimentos. Um recurso que também não é nenhuma novidade.

“Oito líderes”, você disse? Sim, oito estão sendo julgados. Sete representados pelo mesmo advogado e também Bobby Seale, dos Panteras Negras, que insiste que tem um advogado próprio. Ele não está presente, mas o juiz segue com o julgamento mesmo sem ele estar sendo legalmente defendido.

Esse caso é um dos mais emblemáticos julgamentos parciais e manipulados da história americana. O juiz ignora provas e depoimentos, pré-julga os réus desde o início, a procuradoria manipula a formação do júri. Sergio Moro ficaria orgulhoso.

Sorkin segue fazendo o que pode para que o filme não fique apenas no embate verbal. Ele ressalta as diferenças entre os réus (principalmente entre o certinho Tom Hayden vivido por Eddie Redmayne e o porralouca Abbie Hoffman, papel de Sacha Baron Cohen). A narração dos acontecimentos passa a misturar freneticamente o interrogatório no tribunal, uma apresentação stand up de Abbie Hoffman, discussões privadas.

Esse vai e vem no tempo quase que é um reflexo narrativo dos ânimos exaltados e do tumulto nas ruas de que o filme trata. Às vezes é confuso em excesso, não consegue passar direito todas as informações. Mas é uma tentativa de sair da mesmice em que os filmes desse subgênero podem cair.

Esse quebra-cabeças sobre uma trama que parece mais simples do que como é mostrada tem, como trunfo, um poderoso elenco. Frank Langella, como um dos mais odiosos juízes do cinema; Joseph Gordon-Levitt, como o promotor que faz seu trabalho, mas tem sua ética; Mark Rylance, como o advogado de defesa; Michael Keaton, como um ex-procurador geral dos EUA. Atores sólidos, que mantêm o filme no prumo, nessas idas e vindas narrativas.

Onde ver: Netflix

The Trial of Chicago 7, 2020.
Direção: Aaron Sorkin. Elenco: Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Mark Rylance, Joseph Gordon Levitt, Frank Langella, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Michael Keaton, Caitlin Fitzgerald.

JUDAS E O MESSIAS NEGRO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 51

Espalhando a mensagem

O retrato de líderes carismáticos é um campo minado no cinema. Mostra por que são mitos, mas humanizá-los é um desafio que muitos filmes não conseguem cumprir. Uma saída é tentar mostrá-los pelo olhar de outra pessoa, de uma testemunha ocular da História. É o modelo de Judas e o Messias Negro resolve seguir.

O “Messias negro” é Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago. Com uma invejável retórica e muito carismático, ele sacudiu as estruturas da cidade, foi perseguido pela polícia e pelo FBI, preso, solto e acabou assassinado aos 21 anos pelo governo americano dentro de casa ao lado da esposa grávida de nove meses.

O “Judas” é Bill O’Neal, ladrão que o FBI chantageia para que se infiltre nos Panteras Negras e passe informações ao bureau. Ele aparece no começo em trechos recriados de uma entrevista dos anos 1980, que depois reaparecerá no final com um trecho verdadeiro e um desfecho inesperado.

As duas histórias são contadas paralelamente, com os personagens juntos ou separados. Os dois atores, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, foram indicados ao Oscar como atores coadjuvantes. Talvez uma estratégia para que não concorressem juntos na categoria melhor ator, já que obviamente os dois são intérpretes principais.

O filme também se propõe a uma visão “de dentro” sobre uma organização que sempre foi vista e noticiada como terrorista nos EUA dos anos 1960 e 1970. Além de uma retórica de enfrentamento, algumas vezes violenta, o que mais havia ali? Judas e o Messias Negro se propõe a jogar luz sobre isso.

O tema é importante, impactante e revelador. O tratamento é que não vai muito longe. Bem produzido, o filme conta a história direito, e não inventa muito na narrativa. Há uma elaboração maior na cena da invasão e assassinato, com imagens do alto que me fizeram lembrar do clímax de Taxi Driver (1976).

Por outro lado, há momentos que poderiam ser menos clichê, como o agente do FBI e o informante se entreolhando com insistência durante um discurso de Hampton. Mas esse é o tipo de filme em que a importância é a mensagem, e ela é transmitida.

Onde ver: cinemas

Judah and the Black Messiah, 2020.
Direção: Shaka King. Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback

MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2021: 50

Álbum de memórias

Minari é um daqueles filmes que precisam de bula? Faz diferença para o espectador saber que o que está na tela são memórias do diretor? Como é a recepção para o espectador que sabe disso e como é para aquele que vê como um filme contando uma história completamente inventada?

Uma parcela de quem não sabe do que está por trás do roteiro pode sair reclamando de mais um filme onde, na maior parte do tempo, “não acontece nada”. Quem conhece vai se emocionar mais com os pequenos acontecimentos na vida de uma família de imigrantes coreanos que se arrisca a tocar do zero uma fazenda no interior do Arkansas, nos EUA.

Não há nem uma grande questão com o preconceito. A quase totalidade dos conflitos está ali entre os integrantes da própria família: o pai que insiste na fazenda, a mãe que não compartilha desse sonho, o filho com problema no coração que não aceita bem a chegada da avó. A unidade da familia está em jogo, até mesmo quando chegam questões maiores, principalmente uma doença que vai desencadear outras situações.

O diretor-roteirista Lee Isaac Chung é americano no Colorado, filho de imigrantes coreanos. Ele consegue fazer um filme americano com um ponto de vista dos imigrantes que não parece uma “visão americana de um ponto de vista estrangeiro”. A maior parte falada em coreano, inclusive.

Há também uma excelente distribuição da atenção do filme entre os cinco membros da família. Isso, aliado a essa intensidade baixa na narrativa, lembra um pouco o ótimo As Coisas Simples da Vida (2000), de Edward Yang, co-produção Taiwan-Japão. Talvez, indo mais longe na ideia e no tempo, seja um herdeiro da obra cineasta japonês Yasujiro Ozu.

Não é uma credencial desprezível. Minari pode conquistar o espectador que se deixar levar por ele e pelos ótimos atores que dividem as alegrias e angústias dessa família. Como conquistou os votantes dessa temporada do Oscar, os quais o indicou em seis categorias, incluindo melhor filme e atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn, a avó, atriz respeitadíssima na Coreia e com grandes chances de vencer).

Onde ver: cinemas

Minari, 2020.
Direção: Lee Isaac Chung. Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn.

MEU PAI
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 49

Labirinto mental

O título brasileiro verteu The Father para Meu Pai, mas isso não combina muito porque o ponto de vista do filme de Florian Zeller não é o da filha vivida por Olivia Colman. É inteiramente o do pai, Anthony, papel de um muito inspirado Anthony Hopkins.

Ele é o idoso londrino que vive sozinho em seu apartamento e resiste à ideia de ter uma cuidadora. A filha está tentando convencê-lo, já que vai se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo diariamente.

A segurança de Anthony consigo mesmo vai, no entanto, sendo colocada em xeque. De repente, o ex-marido da filha está no apartamento dizendo que o casal (que não se separou) é o dono do lugar e Anthony é que foi morar com eles. Ou a filha volta das compras, mas está completamente diferente. Ou situações já vividas parecem se repetir pouco depois.

Anthony estaria perdendo o juízo ou estariam tentando confundi-lo?

O filme é baseado em uma peça de sucesso de Florian Zeller, dramaturgo francês muito respeitado, que estreia na direção de cinema e que adaptou o texto com a ajuda de outro grande dramaturgo, o britânico (mas nascido em Portugal) Christopher Hampton. Para o papel, sua única opção era Anthony Hopkins. Tinha razão.

Filmes que tentam traduzir o que se passa na mente de seus protagonistas podem resultar numa grande jornada narrativa, e os bons exemplos vêm desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920). A ideia é fazer o espectador compartilhar ao máximo do sentimento de desconforto do personagem central.

A tática é bem empregada aqui, e uma chave importante para isso é Hopkins nos entregar um performance que consegue fácil a nossa empatia. Isso ajuda o espectador a passar por um trajeto que não é fácil: a deterioração da mente de um homem.

O filme poderia estabelecer um suspense, mas o objetivo não é estabelecer um jogo em que o espectador deve desvendar o que verdade ou mentira, se o protagonista está doente ou o estão enganando. Meu Pai deixa claro a confusão mental de Anthony quando, em sua primeira cena, mostra a chegada da filha Anne sem ser pela visão dele. É, aí, uma narrativa em terceira pessoa, a nossa visão objetiva do fato.

Por isso, quando Anne reaparece vivida por outra atriz, sabemos que é coisa da cabeça de Anthony, que estamos vendo isso pelos olhos dele. E que não deve ser essa a realidade.

Então, o que resta ao espectador é testemunhar, de dentro, a mente de um octogenário definhando. Como vemos a maior parte do filme por sua visão, sabemos pouco se o que estamos vendo é real (o relógio sempre perdido, o quadro na parede que some, o frango no jantar que se repete, uma sacola que muda de cor), a não ser pela âncora que são as cenas com a filha em que ele não está presente. Na maior parte do tempo, Meu Pai é um labirinto bem arquitetado, mas, talvez, sem final.

Onde ver: cinemas, Belas Artes a la Carte, Now, iTunes, Google Play, Sky Play (a partir de 28/4), Vivo Play (a partir de 28/4)

The Father, 2020.
Direção: Florian Zeller. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell.

BELA VINGANÇA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2021: 33

Deboche atormentado

Uma pessoa consumida por uma missão autoimposta que se confunde entre vingança e justiça. Poderia ser o Batman, mas é Cassandra, a personagem de Carey Mulligan em Bela Vingança. O próprio nome da protagonista é bem pouco sutil: Cassandra, que previu e avisou todo mundo em Tróia da desgraça que viria com a guerra, mas ninguém deu ouvidos.

No filme, Cassie talvez seja, em si mesma, um aviso. Ela dedica sua vida a caçar predadores: homens nas baladas que tentam se aproveitar de mulheres bêbadas demais para saberem o que estão fazendo. Ela não se veste de morcego, nem tem apetrechos. Usa as armas que tem: planejamento e o uso de si mesmo como isca.

Um filme sobre um tema feminino, com uma mulher na criação e comando: Emerald Fennell é a diretora-roteirista que faz uma retumbante estreia nas duas funções em longas-metragens. Ela veio dos roteiros da série Killing Eve e seu rosto é conhecido principalmente como a Camilla Parker-Bowles de The Crown.

Emerald tempera seu tema pesado com algum deboche. Os homens são tão perigosos quanto patéticos. Cassie é tão atormentada quanto divertida. Isso acaba levando o filme a momentos meio forçados na verossimilhança.

Como uma cena em que a personagem ataca a pauladas o carro de um valentão do trânsito, que acaba fugindo. Todo valentão é, no fundo, um covarde? Psicologicamente pode até ser, mas o risco de ela se dar mal seria bem grande. Deu sorte, então? Nessa incursões contra o privilégio masculino, há quanto tempo ela vem tendo sorte?

E o próprio final, suprassumo do planejamento – digno, mais uma vez, de um Batman – exige bastante suspensão de descrença. Mas a simpatia pela personagem acaba compensando.

O trauma que redefiniu a vida de Cassie é algo que aconteceu a uma amiga, mas que o filme não revela de cara (também não é muito difícil de imaginar). Isso dá a Cassie um objetivo maior, contra o culpado maior.

Por outro lado, um interesse amoroso por um antigo colega que reaparece (um sujeito sensível, compreensivo, divertido e, ainda por cima, tem como profissão tratar de criancinhas doentes) a faz repensar sua missão. Dar a Cassie o vislumbre de um outro caminho a seguir é dramaticamente interessante e o filme se esforça (talvez demais) em ser convincente sobre essa opção.

Então às vezes o filme de Fennel canta muito a jogada, às vezes torna sua sátira um pouco esquemática demais. Mas a força de Bela Vingança (um título brasileiro bem ruim) é a performance de Carey Mulligan.

Ela guia o filme nesse equilíbrio difícil, de um real um pouco irreal, e é chocante que um crítico americano tenha escrito que a atriz era uma escolha inadequada por não ter o “physique du rôle” para o papel (“Ele basicamente disse que eu não era gostosa o suficiente”, reclamou Carey, com razão).

Mulligan, uma excelente atriz que já se provou diversas outras vezes, domina a cena plenamente. A combinação entre diretora e atriz mostra uma química que, por si só, sustenta o filme numa patamar alto. Não é sempre que essa química acontece e, aqui, ela foi muito bem aproveitada. É fundamental para que o filme permaneça firme na memória de quem o assiste muito depois da sessão.

Onde ver: cinemas

Promising Young Woman, 2020.
Direção: Emerald Fennel. Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie

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