RETORNO A HOWARDS END
⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2022: 59
Onde ver: DVD, blu-ray, Belas Artes a la Carte

Protocolo com hipocrisia

O londrino E.M Foster teve uma série dourada de adaptações de suas obras para o cinema ali a partir da metade dos anos 1980 até o começo dos anos 1990. Começou com Passagem para a Índia (1984), de David Lean, e seguiu com três Merchant-Ivory: Uma Janela para o Amor (1985), Maurice (1987) e Retorno a Howards End (1992), que completa 30 anos este ano.

O produtor britânico de origem indiana Ismail Merchant e o diretor estadunidense James Ivory se especializaram nesse tipo de dramão de época, sempre muito bem produzido e atuado. Muitas vezes, como aqui, também fazia parte da parceria a roteirista alemã Ruth Prawer Jhabvala.

Aqui, a trama é de duas famílias que se enredam: os ricos Wilcox e as irmãs Schlegel, de classe média. Margaret Schlegel fica amiga da matriarca Ruth Wilcox, que, à beira da morte, declara o desejo de deixar sua propriedade no campo, Howards End, para a amiga. A família, no entanto, resolve simplesmente ignorar esse desejo.

A coisa poderia ter ficado por aí, mas o agora viúvo Henry (Anthony Hopkins) propõe casamento a Margaret e ela aceita (passando a ser, de certa forma, dona de Howards End). Mas a irmã caçula, Helen (Helena Bonham Carter), traz problemas ao se empenhar na proteção a um casal em dificuldades financeiras, o que leva a um crescendo de complicações.

A relação entre a pragmática Margaret a a emotiva Helen espelha o que a própria Emma Thompson levaria às telas três anos depois – como atriz e como roteirista – em “Razão e Sensibilidade” (aí, com Kate Winslet como a irmã mais nova).

A relação dos personagens de Emma Thompson e Anthony Hopkins também vai espelhar outra com os mesmos atores em mais um Merchant-Ivory no ano seguinte: ela, a governanta, ele, o mordomo no também ótimo “Vestígios do Dia”. Mais uma vez ela como a mulher moderna e descontraída, ela como o homem formal e sisudo.

Margaret e Helen são espirituosas e se dão bem facilmente tanto com pessoas mais endinheiradas que elas quanto com mais pobres. Isso vai gerar um conflito, claro, na convivência com a muito mais sisuda família Wilcox. Ainda mais porque os filhos de Henry não têm a menor intenção de dar Howards End para Margaret. Entre ela e o marido existe o abismo profundo e talvez instransponível dos valores de vida diferentes. Para Helen, é mais: ela vê bem claramente o privilégio do homem rico, com direitos sociais negados a mulheres e pobres.

As situações no filme é que vão fazer esse mundo de protocolos e mesuras ser abalado por tensões até sair do controle. É um típico Merchant-Ivory (e Jhabvala), com produção requintada e elenco de alto nível para explorar a hipocrisia da Inglaterra de décadas antes.

Howards End. Reino Unido/ Japão/ Estados Unidos, 1992.
Direção: James Ivory. Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, baseado em romance de E.M. Foster. Elenco: Emma Thompson, Anthony Hopkins, Helena Bonham Carter, Vanessa Redgrave, Samuel West.

20 – AS HORAS (The Hours)
Onde ver: DVD, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes.

As histórias e dilemas de três mulheres de épocas diferentes, interconectadas pelo romance Sra. Dalloway – sendo uma delas a própria autora do romance, Virginia Woolf. Um dramão apoiado na força de um elenco excelente, começando por seu trio protagonista, que ganhou em conjunto o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim. Nicole Kidman, de prótese no nariz, ganhou o Oscar de melhor atriz.
Estados Unidos/ Reino Unido/ França/ Canadá/ Alemanha. Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, baseado em romance de Michael Cunningham. Elenco: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris, Miranda Richardson, John C. Reilly, Toni Collette, Allison Janney, Claire Danes, Jeff Daniels.

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19 – SINAIS (Signs)
Onde ver: DVD, blu-ray, Star Plus.

Uma ficção científica com ecos de Guerra dos Mundos que também é uma parábola sobre a fé. Tudo do ponto de vista intimista de uma família: os alienígenas invasores são vistos por pouco mais de um minuto no filme. Um grande exercício de causar medo com o não visto.
Estados Unidos. Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Rory Culkin, Abigail Breslin, Cherry Jones, M. Night Shyamalan.

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18 – MINORITY REPORT – A NOVA LEI (Minority Report)
Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video, HBO Max, Now, Globoplay, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Microsoft Store.

Num futuro em que os criminosos são presos antes mesmo de cometerem o crime, um policial investe contra o sistema quando é acusado. O sistema pode ser falho? Spielberg põe o tema palpitante em debate, enquanto monta uma sociedade futurista fascinante, criada com a ajuda de especialistas.
Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Scott Frank e Jon Cohen, baseado em livro de Phillip K. Dick. Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Samantha Morton, Max von Sydow, Tim Blake Nelson, Peter Stormare.

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17 – MADAME SATÃ
Onde ver: DVD, Now.

Vigoroso e ousado retrato de um dos personagens mais emblemáticos da Lapa carioca das décadas de 1920 e 1930. Foi a revelação tanto do diretor quanto de seu protagonista. Lázaro Ramos e Marcélia Cartaxo ganharam os Grande Prêmio Cinema Brasil de melhor ator e atriz.
Brasil/ França. Direção: Karim AÏnouz. Roteiro: Karim AÏnouz, Marcelo Gomes, Sérgio Machado e Maurício Zacharias. Elenco: Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo, Flávio Bauraqui, Fellipe Marques, Renata Sorrah, Emiliano Queiroz, Gero Camilo, Karine Teles.

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16 – O SENHOR DOS ANÉIS – AS DUAS TORRES (The Lord of the Rings – The Two Towers)
Onde ver: DVD, blu-ray, HBO Max, Now, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

O capítulo do meio da saga baseada em J.R.R. Tolkien mantém o tom épico do primeiro filme, com histórias paralelas e equilibrando melhor a grandiloquência. O destaque foi a maior participação do Gollum, que marcou os personagens criados por captura de movimento.
Nova Zelândia/ Estados Unidos. Direção: Peter Jackson. Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair e Peter Jackson, baseado em livro de J.R.R. Tolkien. Elenco: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, John Rhys-Davies, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Liv Tyler, Hugo Weaving, Andy Serkis (em captura de movimento), Christopher Lee, Miranda Otto, Karl Urban.

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15 – EMBRIAGADO DE AMOR (Punch-Drunk Love)
Onde ver: DVD, HBO Max, Now, Oi Play, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Um romance à moda de Paul Thomas Anderson, mais sobre personagens que sobre uma história. Porém desta vez não um painel, mas um filme centrado em um protagonista, um sujeito que precisa enfrentar suas limitações sociais. Quando Anderson disse em Cannes que seu filme seguinte seria com Adam Sandler, pensaram que era uma piada. Ele voltou lá com o filme e ganhou o prêmio de melhor direção.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luís Guzmán, Mary Lynn Rajskub.

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14 – ADAPTAÇÃO (Adaptation)
Onde ver: DVD, Now, Oldflix, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes.

O roteirista Charlie Kaufman se colocou como personagem e inventou um irmão gêmeo para si mesmo, mostrando seu desespero em tentar adaptar um romance para um roteiro. Kaufman subverteu o processo e, em vez de adaptar o livro, criou uma fantasia existencialista sobre a própria adaptação, colocando a escritora como personagem da história, tudo de maneira muito exagerada.
Estados Unidos. Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, baseado em livro de Susan Orlean. Elenco: Nicolas Cage, Tilda Swinton, Meryl Streep, Chris Cooper, Curtis Hanson, Judy Greer, Maggie Gyllenhaal, Brian Cox, John Cusack, John Malkovich.

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13 – LILO & STITCH (Lilo & Stitch)
Onde ver: DVD, blu-ray, Disney Plus.

Numa época em que a animação por computador vinha cada vez mais se tornando dominante no mercado, Lilo & Stitch foi um canto do cisne para os longas de animação feitos à mão em Hollywood. História esperta, personagens cativantes e um visual deslumbrante com cenários pintados com aquarela (o primeiro desde Dumbo, 1941). O filme equilibra a aventura de um pequeno alienígena destruidor com o drama de duas irmãs tentando superar a morte dos pais.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Dean DeBlois e Chris Sanders. Vozes na dublagem original: Daveigh Chase, Chris Sanders, Tia Carrere, David Ogden Stiers, Kevin McDonald, Ving Rhames, Jason Scott Lee. Vozes na dublagem brasileira: Bianca Salgueiro, Márcio Simões, Mareliz Rodrigues, Jorge Vasconcellos, Cláudio Galvan, Ettore Zuim.

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12 – O INVASOR
Onde ver: DVD, Apple TV/ iTunes, YouTube.

Paulo Miklos foi uma revelação como ator como o assassino profissional contratado por dois sócios para dar cabo de um terceiro e que começa a chantageá-los e se infiltrar na boa vida dos contratantes. Grande suspense policial, baseado em um romance que Marçal Aquino ainda nem tinha terminado.
Brasil. Direção: Beto Brant. Roteiro: Marçal Aquino, Beto Brant e Renato Ciasca, baseado em romance de Aquino. Elenco: Marco Ricca, Alexandre Borges, Paulo Miklos, Mariana Ximenes, Malu Mader, Chris Couto, Sabotage.

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11 – HOMEM-ARANHA (Spider-Man)
Onde ver: DVD, blu-ray, Netflix, HBO Max, Now, Globoplay, Telecine Play, Starz, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

O primeiro filme do personagem foi um dos pioneiros da atual onda de aventuras de super-heróis no cinema. Muito inspirado no tom e na estrutura de Superman O Filme, acerta no estilo da comédia romântica, aposta em humanizar os personagens e não fazer deles caricaturas e possui um excelente Willem Dafoe como o vilão (com especial destaque para o diálogo dele com seu alter ego no espelho).
Estados Unidos. Direção: Sam Raimi. Roteiro: David Koepp, baseado nos quadrinhos criados por Stan Lee e Steve Ditko. Elenco: Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst, James Franco, Rosemary Harris, Cliff Robertson, J.K. Simmons, Bruce Campbell, Elizabeth Banks, Octavia Spencer, Macy Gray, Lucy Lawless.

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10 – EM NOME DE DEUS (The Magdalene Sisters)
Onde ver: DVD, Amazon Prime Video, Claro Vídeo, YouTube (dublado).

Nos anos 1960, três garotas enfrentam um sistema cruel e opressivo de asilos católicos na Irlanda para mulheres “problemáticas” (estupradas, mães solteiras, ou mesmo apenas o interesse de rapazes ao redor). Submetidas a todo tipo de humilhação e castigos, elas eram obrigadas a trabalhar no que ficou conhecido como as lavanderias Magdalene. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme se inspirou em um documentário e ajudou a expor esse sistema brutal.
Reino Unido/ Irlanda. Direção e roteiro: Peter Mullan. Elenco: Geraldine McEwan, Anne-Marie Duff, Nora-Jane Noone, Dorothy Duffy.

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9 – CHICAGO (Chicago)
Onde ver: DVD, blu-ray, HBO Max, Globoplay, Telecine Play, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

O desafio de transpor para o cinema um musical de teatro de narrativa muito rebuscada foi vencido ao colocar os números musicais como delírios da personagem principal: Roxie Hart (Renée Zellweger), que quer ser famosa nos palcos, mas, ao invés disso, consegue notoriedade por ter matado o marido. Na prisão, ela disputa a manchetes de jornal com Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), estrela que também é uma assassina. A atmosfera dos anos 1920, excelente música, visualmente inspirado, assim como o elenco. Oscar de melhor filme.
Estados Unidos/ Alemanha/ Canadá/ Reino Unido. Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, baseado no musical de palco de Bob Fosse e Fred Ebb, por sua vez baseado na peça de Maurine Dallas Watkins. Elenco: Reneé Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, Queen Latifah, Christine Baranski, John C. Reilly, Taye Diggs, Ekaterina Chtchelkanova, Lucy Liu, Mya, Dominic West, Chita Rivera.

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8 – HERÓI (Ying Xiong)
Onde ver: DVD, Paramount Plus, Oi Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Até então conhecido por dramas de belíssimas imagens, Zhang Yimou não economizou no esplendor visual em sua primeira incursão no cinema de artes marciais. Cores vivas, lutas misturadas com balé e superpoderes de heróis chineses.
China/ Hong Kong. Direção: Zhang Yimou. Roteiro: Li Feng, Zhang Yimou e Wan Bing. Elenco: Jet Li, Tony Chiu-Wai Leung, Maggie Cheung, Zhang Ziyi.

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7 – O PIANISTA (The Pianist)
Onde ver: DVD, blu-ray, YouTube (dublado).

O polonês Roman Polanski revisita os horrores do nazismo em seu país a partir da história de um pianista judeu que perde tudo na II Guerra Mundial e tenta simplesmente sobreviver. O diretor combinou a adaptação da história real, com suas próprias memórias de infância. Ganhou o César de melhor filme, direção e melhor ator, mesmo sem ser falado em francês. Palma de Ouro em Cannes e foi premiado com os Oscars de melhor direção e ator.
França/ Polônia/ Alemanha/ Reino Unido. Direção: Roman Polanski. Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Wladyslaw Szpilman. Elenco: Adrien Brody, Emilia Fox, Michal Zebrowski, Maureen Lipman, Frank Finlay.

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6 – TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine)
Onde ver: DVD, YouTube (legendado; dublado).

A tragédia da escola Columbine, uma das tantas em que estudantes abriram fogo contra colegas, é o ponto de partida para o documentário dissecar a relação dos Estados Unidos com as armas de fogo. Para defender seu ponto de vista, Moore começa ganhando uma arma de um banco por abrir uma conta, leva uma vítima para contestar uma loja de departamentos que vende armas e expõe outros absurdos. Oscar de melhor documentário e vencedor de um prêmio especial em Cannes.
Estados Unidos/ Canadá/ Alemanha. Direção e roteiro: Michael Moore.

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5 – ÔNIBUS 174
Onde ver: DVD, Telecine Play.

Um assaltante mantém reféns passageiros dentro de um ônibus, na hora do rush no Rio de Janeiro, sob a mira de câmeras que transmitem tudo ao vivo para todo o país. O documentário examina em detalhes o antes, durante e depois do evento, os personagens, o frenesi da mídia, as decisões da ação policial e faz reviver todo o horror do momento culminante em que tudo deu errado.
Brasil. Direção: José Padilha. Roteiro: Braulio Mantovani e José Padilha.

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4 – EDIFÍCIO MASTER
Onde ver: DVD, Telecine Play, Looke, YouTube.

Eduardo Coutinho leva sua fina arte de entrevistar pessoas comuns para dentro de um edifício superpopuloso em Copacabana, revelando as histórias muito humanas e diversas que habitam o local. Melhor documentário e melhor diretor no Grande Prêmio Cinema Brasil e melhor documentário no Festival de Gramado.
Brasil. Direção e roteiro: Eduardo Coutinho.

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3 – PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch Me If You Can)
Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video, HBO Max, Now, Globoplay, Telecine Play, Claro Vídeo, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Um falsário adolescente dando seguidos bailes no agente do FBI que o persegue, se passando por um médico, um advogado, um piloto de avião. Spielberg extrai o melhor dessa história real inacreditável e a embala na irresistível atmosfera dos anos 1960 e muito bom humor. E ainda tem uma sequência de créditos de abertura estupenda, uma arte já quase perdida nessa época.
Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathason, baseado em livro de Frank Abagnale Jr. e Stan Redding. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, Ellen Pompeo, Elizabeth Banks.

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2 – FALE COM ELA (Hable con Ella)
Onde ver: DVD, Netflix, Mubi, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Dois homens que ficam amigos ao cuidarem cada um de uma mulher em coma profundo. No entanto, cada um deles possui uma história pessoal com a respectiva enferma. Almodóvar se consolidou como um mestre do melodrama, um contador de histórias de personagens e suas dores e contradições, lidando com suas escolhas ou com os acasos da vida. Indo e voltando do passado e dando saltos no tempo e combina as vidas dessas quatro pessoas e seus destinos. Ele também homenageia artistas queridos e cria um curta-metragem erótico de ficção científica antológico.
Espanha. Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Javier Cámara, Darío Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Mariola Fuentes, Geraldine Chaplin, Pina Bausch, Elena Anaya, Paz Vega, Caetano Veloso.

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1 – CIDADE DE DEUS
Onde ver: DVD, blu-ray, Globoplay, Telecine Play, Paramount Plus, Oi Play, Claro Vídeo.

No equilíbrio entre o realista e o estilizado, começando pela perseguição à galinha fugitiva, que emenda com a marca do pênalti nos anos 1960, Cidade de Deus conta a história da ascensão do crime em uma comunidade carioca de maneira vibrante, inteligente, sofisticada e inventiva. Desfila vários personagens, com diferentes graus de protagonismo, mas todos interessantes e atraentes. Combina uma violência às vezes chocante com um bom humor às vezes surpreendente. E narra capítulos dentro da história de forma antológica, como “a história da Boca dos Apês”, em que anos se passam dentro de um apartamento a partir de um mesmo ponto de vista da câmera. Uma obra magistral, que teve quatro indicações ao Oscar (incluindo melhor direção) e venceu o Grande Prêmio Cinema Brasil..
Brasil/ França/ Alemanha. Direção: Fernando Meirelles. Co-direção: Kátia Lund. Roteiro: Bráulio Mantovani, baseado em livro de Paulo Lins. Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Alice Braga, Roberta Rodrigues, Darlan Cunha, Thiago Martins, Graziella Moretto, Gero Camilo, Charles Paraventi.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com alguma coisa nela, talvez com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

PAPAI NOEL CONQUISTA OS MARCIANOS

Diário de filmes 2022: 53
Onde ver: YouTube

A tosquice de presente

O inacreditável Papai Noel Conquista os Marcianos costuma figurar em listas dos piores filmes de todos os tempos. Ninguém vai dizer que ele não faz por merecer. Começa pela trama: com suas crianças tristes porque não têm Natal nem presentes, marcianos vêm à Terra para sequestrar o bom velhinho.

Como eles ficam sabendo da existência do Natal e do Papai Noel? As crianças marcianas passam o tempo assistindo aos programas de TV da Terra e aparece um flash ao vivo de um telejornal direto da oficina do Noel, no Polo Norte.

Mas um dos marcianos está indignado por seu povo estar “amolecendo” com essa busca pelos bons sentimentos natalinos e pela alegria das crianças e decide sabotar a ideia.

É tudo tão precário que é difícil acreditar que não foi feito assim de propósito (como os filmes que, anos depois, resolveram embarcar nessa estética tosca por brincadeira). Dos marcianos que são pessoas pintadas com capacetes passando pelo robô que parece desenhado por uma criança na pré-escola e por um urso polar que é nitidamente uma pessoa fantasiada, tudo carece de dignidade.

Talvez Papai Noel Conquista os Marcianos tenha atingido o status de “quanto pior, melhor”. Com o requinte técnico de um episódio de Chapolin, mas muito longe de ter a mesma verve cômica, o filme certamente faz rir a quem se diverte com a ruindade alheia.

Santa Claus Conquers the Martians. Estados Unidos, 1964.
Direção: Nicholas Webster. Roteiro: Glennville Mareth, baseado em argumento de Paul L. Jacobson. Elenco: John Call, Leonard Hicks, Vncent Beck, Bill McCutcheon.

20 – GHOSTBUSTERS – MAIS ALÉM (Ghostbusters – Afterlife)
Onde ver: Claro Vídeo, Vivo Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Depois de uma releitura feminina que deixou a desejar, a Sony voltou ao universo original dos Caça-Fantasmas com uma nova geração ao volante do Ecto-1, mas também com um tributo emocionante ao elenco original e, em particular, a Harold Ramis (ator e co-roteirista do primeiro filme,que morreu em 2014).
Estados Unidos/ Canadá. Direção: Jason Reitman. Roteiro: Gil Keanan e Jason Reitman, baseado em personagens de Dan Aykroyd e Harold Ramis. Elenco: Mckenna Grace, Finn Wolfhard, Logan Kim, Celeste O’Connor, Carrie Coon, Paul Rudd, Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson, Annie Potts, Sigourney Weaver, J.K. Simmons, Olivia Wilde.

Crítica de Ghostbusters – Afterlife:
Tributo para lavar a alma

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19 – HOMEM-ARANHA SEM VOLTA PARA CASA (Spider-Man No Way Home)
Onde ver: Now, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Poderia ser apenas uma festa à fantasia, com um monte de fan services vazios, mas a reunião das franquias cinematográficas do Homem-Aranha conseguiu dar peso dramático aos três heróis e a seus vilões, melhorando a experiência de rever os atores que interpretaram o Aranha anteriormente.
Estados Unidos. Direção: Jon Watts. Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers, baseado nos quadrinhos criados por Stan Lee e Steve Ditko. Elenco: Tom Holland, Zendaya, Benedict Cumberbatch, Jacob Batalon, Marisa Tomei, Jon Favreau, Willem Dafoe, Jamie Foxx, Alfred Molina, Andrew Garfield, Tobey Maguire, Benedict Wong, J.K. Simmons, Rhys Ifans, Thomas Haden Church, Charlie Cox, Tom Hardy.

Crítica de Homem-Aranha – Sem Volta para Casa:
Multiverso abre possibilidades (inclusive de complicar)

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18 – LUCA (Luca)
Onde ver: Disney Plus.

Uma fábula sobre a aceitação das diferenças em diversos níveis, Luca também é um olhar terno sobre a Itália, recheado de referências culturais do país, como filmes de Fellini, Marcello Mastroianni ou A Princesa e o Plebeu.
Estados Unidos. Direção: Enrico Casarosa. Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones, baseado em argumento de Andrews, Enrico Casarosa e Simon Stephenson. Vozes na dublagem original: Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Maya Rudolph, Sacha Baron Cohen. Vozes na dublagem brasileira: Rodrigo Cagiano, Pedro Miranda, Beatriz Singer, Letícia Quinto, Luís Miranda.

Crítica de Luca:
Celebração da diferença

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17 – 007 SEM TEMPO PARA MORRER (No Time to Die)
Onde ver: DVD, blu-ray, Now, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Quinto e último filme com Daniel Craig como James Bond, este finaliza esta série dentro da série, confirmando este como o 007 que ama demais. O vilão vivido por Rami Malek fica em segundo plano diante do relacionamento de Bond com Madeleine (Léa Seydoux) e seus desdobramentos.
Reino Unido/ Estados Unidos. Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge, do argumento de Purvis Wade e Fukunaga, a partir de personagens de Ian Fleming. Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Lashana Lynch, Rami Malek, Ana de Armas, Ralph Fiennes, Christoph Waltz, Ben Whishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright.

Crítica de 007 – Sem Tempo para Morrer:
O Bond que ama demais

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16 – OS OLHOS DE TAMMY FAYE (The Eyes of Tammy Faye)
Onde ver: Star Plus.

Jessica Chastain encampou este projeto pessoal e interpretou com maestria a televangelista que foi uma espécie de Hebe Camargo dos canais religiosos estadounidenses nos anos 1970 e 1980. Espevitada, defendeu os homossexuais e portadores de HIV nesse ambiente conservador e retrógrado, mas se viu no meio de uma fraude financeira e amargou a decadência.
Estados Unidos. Direção: Michael Showater. Roteiro: Abe Sylvia, baseado no documentário de Fenton Bailey e Randy Barbato. Elenco: Jessica Chastain, Andrew Garfield, Cherry Jones, Vincent D’Onofrio, Mark Wystrach.

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15 – NO RITMO DO CORAÇÃO (Coda)
Onde ver: Amazon Prime Video, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

O Oscar de melhor filme do ano foi um pouco demais, mas é simpática e bem contada esta história de uma adolescente que é a única ouvinte em sua família de surdos. Ela acaba sendo uma tradutora para a família, mas chega a hora de voar quando surge a chance de estudar canto em uma faculdade.
França/ Canadá/ Estados Unidos. Direção: Sian Heder. Roteiro: Sian Heder, baseado no filme A Família Bélier, de Victoria Bedos, Stanislas Carré de Malberg, Éric Lartigau e Thomas Bidegain. Elenco: Emilia Jones, Troy Kotsur, Marlee Matlin, Daniel Durant, Eugenio Derbez.

Crítica de No Ritmo do Coração:
Fácil de gostar

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14 – IDENTIDADE (Passing)
Onde ver: Netflix.

Rebecca Hall explora muito bem o preto-e-branco para esse encontro entre duas mulheres negras, em que uma delas vive sua vida fingindo ser branca. As intepretações de Tessa Thompson e Ruth Negga são alicerces poderosos para essa história cheia de nuances.
Estados Unidos/ Reino Unido/ Canadá. Direção: Rebecca Hall. Roteiro: Rebecca Hall, baseado no romance de Nella Larsen. Elenco: Tessa Thompson, Ruth Negga, André Holland, Bill Camp, Alexander Skarsgard.

Crítica de Identidade:
A desconstrução da personagem

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13 – MARIGHELLA
Onde ver: Globoplay.

O ator Wagner Moura estrou na direção de longas narrando em tons épicos a história de um dos maiores inimigos da ditadura militar brasileira. O começo – uma cena de ação em plano sequência sobre um assalto a um trem – já dá o tom do filme, que contrasta a luta para libertar o país ao sadismo de um dos mais truculentos agentes policiais da ditadura.
Brasil. Direção: Wagner Moura. Roteiro: Felipe Braga e Wagner Moura, baseado na biografia de Mário Magalhães. Elenco: Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Luiz Carlos Vasconcelos, Humberto Carrão, Adriana Esteves, Herson Capri.

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12 – MÃES PARALELAS (Madres Paralelas)
Onde ver: Netflix.

Almodóvar trata de dois assuntos no filme: o melodrama das mães que conhecem na maternidade e que vão ser unidas por tragédias e a luta para que restos mortais de vítimas da ditadura franquista, enterrados clandestinamente, sejam encontrados, identificados e devolvidos a suas famílias para um enterro digno. O espanhol trata dos dois temas com a maestria narrativa de sempre.
Espanha/ França. Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma, Julieta Serrano.

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11 – NOITE PASSADA EM SOHO (Last Night in Soho)
Onde ver: DVD, blu-ray, Now, Oi Play, Vivo Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

Edgar Wright joga viagem no tempo, confusão de identidades, suspense e terror e o fascínio pela Londres dos anos 1960 neste conto fantástico com muito estilo. O jogo com os espelhos é sedutor, tem a aparição de lendas como Diana Rigg, Rita Tushingham e Terence Stamp e uma incrível trilha de canções do período.
Reino Unido. Direção: Edgar Wright. Roteiro: Edgar Wright e Krysty Wilson-Cairns, a partir de argumento de Wright. Elenco: Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Diana Rigg, Matt Smith, Terence Stamp, Rita Tushingham, Synnove Karlsen.

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10 – BENEDETTA (Bendetta)
Onde ver: DVD, blu-ray, Now, Vivo Play, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

A polêmica história real da freira que, no século XVII, dizia ter visões de Cristo e foi acusada de ter um relacionamento lésbico com uma colega é um prato cheio para Verhoeven. Ele não economiza no sexo e na violência, na denúncia da hipocrisia religiosa e torna o profano e o sagrado uma única mistura.
França/ Bélgica/ Holanda. Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: David Birke e Paul Verhoeven, com colaboração de Pascal Bonitzer, baseado no livro de Judith C. Brown. Elenco: Virginie Efira, Daphne Patakia, Charlotte Rampling, Lambert Wilson, Olivier Rabourdin, Louise Chevillote.

Crítica de Benedetta:
Sagrado e profano misturados

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9 – A CRÔNICA FRANCESA (The French Dispatch of the Liberty, Kansas Evening Sun)
Onde ver: Star Plus.

Wes Anderson volta a unir a sátira ao seu visual muito característico, baseado na forte simetria. Agora, ele busca “traduzir” a última edição de uma revista feita na França como suplemente de um jornal americano. Entremeadas por discussões surreais da equipe sobre a edição em andamento entram três artigos narrados por seus repórteres e contando histórias pitorescas que testemunharam. A melhor delas é a do presidiário que se revela um gênio da arte abstrata, uma tirada de sarro com o mercado da arte moderna.
Alemanha/ Estados Unidos. Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, a partir de argumento de Anderson, Roman Coppola, Hugo Guinness e Jason Schwartzman. Elenco: Bill Murray, Benicio del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Lyna Khoudri, Jeffrey Wright, Mathieu Almaric, Steve Park, Owen Wilson, Bob Balaban, Christoph Waltz, Cécile de France, Guillaume Galliene, Liev Schreiber, Willem Dafoe, Edward Norton, Saoirse Ronan, Elisabeth Moss, Jason Schwartzman, Griffin Dunne. Narração: Anjelica Houston.

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8 – A TRAGÉDIA DE MACBETH (The Tragedy of Macbeth)
Onde ver: DVD, blu-ray, Apple TV/ iTunes, YouTube (legendado; dublado).

Em preto-e-branco e cenário mais que minimalista, Denzel Washington lidera um elenco que traz para si todo o peso de uma das principais tragédias de Shakespeare. Mas Coen, desta vez sem o irmão Ethan, encontra soluções visuais instigantes que às vezes aproximam o filme de uma peça, outras vezes distanciam.
Estados Unidos. Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, baseado na peça de William Shakespeare. Elenco: Denzel Washington, Frances McDormand, Alex Hassel, Brendan Gleeson.

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7 – ATAQUE DOS CÃES (The Power of the Dog)
Onde ver: DVD, blu-ray, Netflix.

A diretora neozelandesa narra um conto do interior dos Estados Unidos, nos anos 1920, um local e tempo que ainda parecem o Velho Oeste. É onde um homem bruto, como todos imaginam que devem ser os homens naquele lugar, cria uma relação complexa com um jovem delicado, que parece não ter nada a vez com aquilo tudo. Campion fotografa belas paisagens e narra tudo de maneira elegante e atenta aos personagens.
Reino Unido/ Canadá/ Austrália/ Nova Zelândia/ Estados Unidos. Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, baseado no romance de Thomas Savage. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee, Jesse Plemons, Keith Carradine.

Crítica de Ataque dos Cães:
A máscara da brutalidade

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6 – A PIOR PESSOA DO MUNDO (Verdens Verste Menneske)
Onde ver: cinemas.

A protagonista Julie, no começo do filme, não consegue se decidir sobre que carreira seguir. É um reflexo sobre sua indecisão sobre a própria vida, no que diz respeito aos relacionamentos e a ela mesma. Esse filme nórdico sobre amadurecimento é temperado por algumas soluções narratuvas muito inspiradas, como o mundo parando no momento em que Julie está para encerrar um namoro, enquanto ela corre até o sujeito por quem pode estar apaixonada para imaginar como seria essa mudança e, então, voltar ao ponto de partida para tomar sua decisão.
Noruega/ França/ Suécia/ Dinamarca. Direção: Joachim Trier. Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt. Elenco: Renate Reinsve, Anders Danielsen Lie, Herbert Nordrum, Hans Olav Brenner.

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5 – SEMPRE EM FRENTE (C’mon, C’mon)
Onde ver: não disponível em mídia física ou nas plataformas digitais.

Um terno e delicado encontro de almas: o tio documentarista, solteiro e sem filho, e o sobrinho que ele mal conhece, uma criança inteligente e excêntrica. Os dois convivem durante alguns dias, aprendem um com o outro, entram em conflito, tentam se entender e criam um laço forte. Um filme bonito, razoavelmente intimista e apoiado tanto na beleza da fotografia em preto-e-branco quanto na química dos dois atores, que filmaram em sequência. Ainda há as cenas de entrevistas com jovens, sobre suas vidas e o futuro, reais.
Estados Unidos. Direção e roteiro: Mike Mills. Elenco: Joaquin Phoenix, Woody Norman, Gaby Hoffmann, Scott McNairy, Molly Webster.

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4 – DRIVE MY CAR (Wory)
Onde ver: cinemas, Now, Mubi, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes.

O conto de Murakami foi estendido para um filme de três horas com um diretor de teatro tentando superar a morte da esposa e tendo que conviver com uma jovem motorista que também tem seus dramas pessoais. Dentro disso, há o processo de uma montagem de Tio Vânia, de Tchekhov, que envolve atores de diferentes nacionalidades e línguas, com tensões que reverberam na história pessoal do diretor. O filme nos conta tudo com calma, mas num ritmo constante para a frente, que é o cerne para os dois personagens a bordo.
Japão. Direção: Ryusuke Hamaguchi. Roteiro: Ryusuke Hamaguchi e Takamasa Oe, baseado em conto de Haruki Murakami. Elenco: Hidetoshi Nishijima, Toko Miura, Yu-Rim Park, Masaki Okada, Sonia Yuan, Reika Kirishima.

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3 – BELFAST (Belfast)
Onde ver: cinemas, DVD, blu-ray.

Kenneth Branagh faz seu filme mais pessoal, baseado em suas próprias memórias de uma infância sacudida pelos conflitos na Irlanda do Norte. Entre explosões de uma violência que o menino não compreende e a permanência de suas questões cotidianas, ele vê seus pais tendo que decidir se ficam em Belfast ou vão embora. Em preto-e-branco, o filme contrasta as idealizações infantis e a realidade dura.
Reino Unido. Direção e roteiro: Kenneth Branagh. Elenco: Jude Hill, Caitríona Balfe, Jamie Dornan, Jude Dench, Ciarán Hinds, Lara McDonnell.

Crítica de Belfast:
A persistência do encantamento infantil

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2 – AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story)
Onde ver: Disney Plus.

Spielberg se propôs refilmar um musical icônico e conseguiu a proeza de praticamente se igualar ao original. Atualizou o filme deixando mais clara a questão social, colocando latinos para interpretar latinos, ressignificando um papel para dá-lo a Rita Moreno e escalando uma Anita tão explosiva quanto a original (Ariana DeBose, recriando o papel Rita Moreno em 1961 e ganhando, como a original, um merecido Oscar). Fora isso, as músicas continuam espetaculares e o visual é soberbo tanto na direção e na coreografia quanto na fotografia e figurino.
Estados Unidos. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, baseado na peça musical com libreto de Arthur Laurents. Elenco: Rachel Zegler, Ansel Elgort, Ariana DeBose, David Alvarez, Mike Faist, Rita Moreno, Brian d’Arcy James, Corey Stoll.

Crítica de Amor, Sublime Amor:
Dança com a câmera e diálogo com o clássico

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1 – LICORICE PIZZA (Licorice Pizza)
Onde ver: cinemas, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Corre-se muito em Licorice Pizza. Talvez seja a explosão de vitalidade da juventude. O casal não-casal central (o filho de Philip Seymour Hoffman e a vocalista do grupo pop Haim) vivem diversos episódios começando com ele, 15 anos, dando destemidamente em cima dela, que tem 25. Não se vê significativa diferença de idade nos corpos, nas atitudes e na disposição do garoto em emplacar um negócio de sucesso. A California do começo dos anos 1970, bastidores do cinema, a crise do petróleo e alguns personagens bizarros são a tinta de mais um painel de Paul Thomas Anderson, um diretor cuja narrativa é elaborada, mas não espalhafatosa, para realçar sempre aquilo que é o mais importante para ele os personagens. Também, como quase sempre em seu cinema, não há propriamente uma história, mas uma coleção de episódios, como a fuga em um caminhão sem gasolina, de ré, na banguela.
Estados Unidos/ Canadá. Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Cooper Hoffman, Alana Haim, Mary Elizabeth Ellis, Bradley Cooper, Sean Penn, Tom Waits, Benny Safdie, Maya Rudolph.

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* Esta é uma lista pessoal. Com 100% de certeza, você não vai concordar com alguma coisa nela, talvez com 100% dela. Tudo bem — eu gostaria de saber a sua lista, que filmes você tiraria e quais incluiria (me diga nos comentários!). Outra coisa: a percepção sobre os filmes mudam com o tempo. Esta é a minha percepção agora, limitada ao que vi, naturalmente — esta lista pode mudar à medida em que for revisitando alguns filmes ou assistir a outros que ainda não conheço deste ano específico.

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OUTRAS LISTAS DE MELHORES:

20 – “PRETA PRETINHA”, Novos Baianos
(Moraes Moreira/ Galvão)
DiscoAcabou Chorare.

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19 – “EVERYTHING I OWN”, Bread
(David Gates)
DiscoBaby, I’m-a Want You.

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18 – “ALONE AGAIN (NATURALLY)”, Gilbert O’Sullivan
(Gilbert O’Sullivan)
Disco: single.

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17 – “BAIOQUE”, Maria Bethânia
(Chico Buarque)
DiscoQuando o Carnaval Chegar (trilha sonora)

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16 – “BALADA DO LOUCO”, Os Mutantes
(Arnaldo Baptista/ Rita Lee)
DiscoMutantes e Seus Cometas no País dos Baurets.

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15 – “CROCODILE ROCK”, Elton John
(Elton John/ Bernie Taupin)
Disco: single.

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14 – “BURNING LOVE”, Elvis Presley
(Dennis Linde)
Disco: single.

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13 – “NADA SERÁ COMO ANTES”, Milton Nascimento e Beto Guedes
(Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos)
DiscoClube da Esquina

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12 – “CASA NO CAMPO”, Elis Regina
(Zé Rodrix/ Tavito)
DiscoElis.

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11 – “YOU ARE THE SUNSHINE OF MY LIFE”, Stevie Wonder
(Stevie Wonder)
DiscoTalking Book.

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10 – “PARTIDO ALTO”, MPB-4
(Chico Buarque)
DiscoQuando o Carnaval Chegar (trilha sonora).

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9 – “I CAN SEE CLEARLY NOW”, Johnny Nash
(Johnny Nash)
DiscoI Can See Clearly Now.

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8 – “EXPRESSO 2222”, Gilberto Gil
(Gilberto Gil)
DiscoExpresso 2222.

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7 – “LET’S STAY TOGETHER”, Al Green
(Al Green / Al Jackson, Jr. / Willie Mitchell)
DiscoLet’s Stay Together.

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6 – “BRASIL PANDEIRO”, Novos Baianos
(Assis Valente)
DiscoAcabou Chorare.

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5 – “ROCKET MAN”, Elton John
(Elton John/ Bernie Taupin)
DiscoHonky Chatêau.

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4 – “DANÇA DA SOLIDÃO”, Paulinho da Viola
(Paulinho da Viola)
DiscoA Dança da Solidão.

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3 – “STARMAN”, David Bowie
(David Bowie)
DiscoThe Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

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2 – “YOU’RE SO VAIN”, Carly Simon
(Carly Simon)
DiscoNo Secrets.

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1 – “ÁGUAS DE MARÇO”, Antônio Carlos Jobim
(Antônio Carlos Jobim)
DiscoDisco de Bolso – O Tom de Antônio Carlos Jobim e o Tal de João Bosco (EP).

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BELFAST
⭐⭐⭐⭐⭐
Diário de filmes 2022: 29 e 36
Onde ver: DVD, blu-ray

A persistência do encantamento infantil

Demora cinco minutos para que o idílio de Buddy, um garotinho que vive seu cotidiano de brincadeiras em sua vizinhança, acabar em Belfast. Kenneth Branagh partiu de suas memórias de infância na capital da Irlanda do Norte para escrever e dirigir este filme, em que o pequeno protagonista de repente se vê no meio de um conflito movido pelo ódio político-religioso, sem entender o que se passa. Como o próprio país, talvez?

O filme começa com cenas tranquilas de paisagens de Belfast nos dias de hoje. Mas de longe e sem pessoas. As pessoas complicam tudo. Quando a câmera vê por trás de um muro, é a Belfast de 1969 que está lá, em preto-e-branco, um bairro da classe trabalhadora, cheio de gente. Crianças brincando na rua, vizinhos conversando nas portas de suas casas ou na quitanda lá na esquina e, de uma hora para outra, uma milícia que surge do nada com tochas, quebrando janelas, atacando pessoas e explodindo um carro.

São protestantes querendo expulsar os católicos da vizinhança onde, até cinco minutos antes, todos viviam em harmonia. A família de Buddy é protestante (a mãe, o pai que passa muitos dias fora a trabalho, o irmão, os avós que moram perto), mas a escalada da violência vai colocar na mesa a questão: eles terão que se mudar do ambiente onde sempre viveram?

Kenneth Branagh tem o cuidado de não tomar partido no conflito religioso. A família é protestante, mas sempre deixa claro que não compartilha da agressão aos católicos. E, embora do ponto de vista deles o catolicismo seja uma religião “do medo”, o pastor protestante esbraveja em seu púlpito numa missa, instalando justamente o terror no coração de Buddy.

Mais importante para o diretor é a memória afetiva da comunidade, como os moradores dançando na rua. A cena começa com um dos muitos planos expressionistas que Branagh vai pintando no filme: o LP rodando na vitrola em primeiríssimo plano, com a rua ao fundo.

O que ele também faz bastante é emoldurar pessoas em diferentes cômodos. Algumas vezes separadas pelas paredes, em outras é alguma conversa fora de casa testemunhada por alguém ao fundo, numa janela. As molduras também são fruto do aproveitamento dos cenários das ruas apertadas, de muros altos, dos quintais estreitos.

O rigor nesses planos é admirável, sobretudo quando se sabe que Branagh e o diretor de fotografia cipriota Haris Zambarloukos filmaram quase tudo com luz natural, inclusive dentro dos ambientes e deixaram a câmera rodando secretamente nos ensaios para pegar a espontaneidade do Jude Hill, que faz Buddy.

O idílio quebrado de Buddy, simbolizado pelo giro de câmera semelhante ao protagonizado por Buscapé em Cidade de Deus (2002), é um processo. As conversas adultas sobre as tensões são contrastadas pelas crianças que não entendem completamente o que acontece e ainda levam suas vidinhas e preocupações com a menina bonita da escola e diversões com os gibis, o cinema e a televisão.

O cinema e o teatro, inclusive, possuem cores, com a arte sendo o grande escape, o grande salto para outra realidade menos dura. E, no caso de Branagh, pessoalmente, o seu futuro como homem dos palcos e da tela.

Branagh desfila referências culturais. Algumas bem pessoais, como um gibi do Thor ou livros de Agatha Christie, universos que o diretor levou ao cinema. No cinema, O Calhambeque Mágico e o nada infantil Mil Séculos Antes de Cristo, com a curvilínea pré-histórica vivida por Raquel Welch. Na TV, noticiários sobre os conflitos se alternam com “Jornada nas Estrelas” e faroestes clássicos, como O Homem que Matou o Facínora e Matar ou Morrer.

Curiosamente, Os Brutos Também Amam não é um dos faroestes a que Buddy assiste. Mas Belfast tem muito a ver com o clássico de George Stevens. O filme é visto pelos olhos de Buddy como Shane era visto pelos olhos de Joey, com o fascínio provocando alguma realidade aumentada, fazendo, por exemplo, com que os tiros do duelo final, que ele assiste escondido, soem enormes como tiros de canhão.

O pai em Belfast (Jamie Dornan) também encara um “duelo” com o líder da milícia, para defender sua família. O antagonista chama-se – veja só – Billy Clanton: o personagem é batizado com o nome de uma das figuras que enfrentaram Wyatt Earp e Doc Holliday no tiroteio do OK Corral, retratado em filmes como Paixão dos Fortes, 1946, Sem Lei e Sem Alma, 1957, Tombstone, 1994, e tantos outros. A cena é resolvida ao som de “Do not forsake me, oh my darling”, tema inesquecível de Matar ou Morrer, num lance que pode muito bem ser a mesma realidade aumentada pelo fascínio do filho que vê o pai assumir o papel de herói.

Mas logo a realidade se impõe com a familia nada podendo fazer, a não ser se encolher abraçada num canto de parede, enquanto soldados e milícia se enfrentam nas ruas. É o contraste que dita o filme do começo ao fim, e, enquanto Jude Hill é o responsável pela atmosfera mais inocente, Dornan, a ótima Caitríona Balfe (a mãe), Judi Dench (a avó) e Ciarán Hinds (o avô) dão a medida da gravidade daqueles dias.

O grande problema de Belfast poderia ser a existência de um filme chamado Esperança e Glória, a grande obra de John Boorman, de 1987, em que os dias dos bombardeios nazistas a Londres, na II Guerra, são vistos pelos olhos de duas crianças. Na prática, porém, Belfast possui sua própria personalidade ao versar sobre outra época e lugar. Se um encerrava com um iconoclasta e irônico “Obrigado, Adolf!”, este também celebra a vida sobre a morte ao som de “Everlasting love”.

Sempre pelas lentes do encantamento infantil, resistente, apesar de tudo.

Belfast. Reino Unido, 2021.
Direção e roteiro: Kenneth Branagh. Elenco: Jude Hill, Caitríona Balfe, Jamie Dornan, Jude Dench, Ciarán Hinds, Lara McDonnell.

RED – CRESCER É UMA FERA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 27 e 33
Onde ver: Disney Plus.

O panda vermelho dentro de cada um

“Alguns filmes conseguem traduzir em seu próprio espírito o jeito de ser de seu protagonista. Sem dúvida é o que acontece em Red Crescer É uma Fera (Turning Red, Estados Unidos, 2022). A produção da Disney/ Pixar é estrelada por Mei Mei, uma menina de 13 anos que está passando por mudanças profundas e que, ao sentir emoções fortes, se transforma – para seu próprio horror – num grande panda vermelho.

O filme, hiperativo, exagerado, e visualmente recorrendo a recursos que evocam animação oriental e filtros de Instagram, dialoga intimamente não só com a personagem, mas certamente com um número bem expressivo de garotas dessa idade. E – por que não dizer? – também com mulheres que já passaram pelos 13 anos, e que foram fãs terminais de alguma boy band e que se lembram de descobrir como é se sentir atraída por algum garoto da escola”.

Confira meu texto completo sobre o filme no CinemaEscrito.

Turning Red. EUA/ Canadá, 2022.
Direção: Domee Shi. Roteiro: Julia Cho e Domee Shi, com base em argumento de Cho, Shi e Sarah Streicher. Vozes na dublagem original: Rosalie Chiang, Sandra Oh, Ava Morse. Vozes na dublagem brasileira: Nina Medeiros, Flávia Alessandra, Maria Clara Rosis.

BATMAN
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 23
Onde ver: HBO Max, Apple TV, Google Play.

A vingança nunca é plena

“’Eu sou a vingança’, se apresenta o herói ao sair das sombras para espancar uns bandidos no começo de Batman (The Batman, EUA, 2022), mais uma versão do personagem, desta vez a cargo de Matt Reeves. Essa sentença fundamenta a longa trama que combina o enfrentamento ao vilão Charada com uma espécie de autoanálise do herói sobre qual é realmente seu objetivo ao se vestir de Homem-Morcego e sair por Gotham City à noite.

Dos anos 1980 para cá, roteiristas, desenhistas e diretores de cinema têm tentado combinar seriedade com os aspectos ridículos dos super-heróis. A expressão “aspectos ridículos” não é uma crítica negativa – eles são divertidos e são parte fundamental do apelo que fez esse tipo de história atravessar mais de 80 anos nos quadrinhos e se tornar o grande filão dos blockbusters no cinema atual”.

O novo filme do Homem-Morcego acabou de entrar no HBO Max. Confira meu texto completo sobre ele no CinemaEscrito.

The Batman. EUA, 2022. Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig, baseado no personagem criado por Bob Kane e Bill Finger. Elenco: Robert Pattinson, Paul Dano, Zoe Kravitz, Jeffrey Wright, Colin Farrell, John Turturro, Andy Serkis, Peter Sarsgaard.

DUNA
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 23
Onde ver: HBO Max, Now, Looke, Apple TV, Google Play, Microsoft Store.

Vontade de ser um Star Wars cabeça

Adaptações de Duna mexem sempre com fãs ardorosos da série de livros de Frank Herbert, que ergue todo um universo de planetas distantes, política espacial, famílias nobres e povos oprimidos. No cinema, a adaptação dirigida por David Lynch em 1984 é uma memória dolorida. Denis Villeneuve assumiu o desafio de uma grande versão depois de se sair bem em outro vespeiro do cinema de ficção científica: a continuação de Blade Runner, que ele dirigiu em 2017.

Se Lynch se viu obrigado a reduzir a duração de seu épico kitsch, Villeneuve de saída divide o filme em dois – o título original deixa claro que esta é uma “parte 1”. Isso dá mais tranquilidade para que a história seja contada em tempo que o diretor julgue adequado, embora levar 50 minutos para que a trama comece de fato parece um cadenciamento excessivo do ritmo.

O filme capricha no visual e nos efeitos, gerando diversas indicações ao Oscar nas categorias técnicas, além de uma indicação a melhor filme. Os ecos de Guerra nas Estrelas são evidentes, já que Duna influenciou a série de George Lucas, mas Lucas acrescentou o tempero dos antigos seriados de cinema, entre outras referências. Duna é Star Wars sem essa diversão descompromissada. Quer ser um Star Wars cabeça.

Talvez falte esta especiaria em Duna, que se leva a sério demais e pode ter dificuldade em fazer embarcar quem não tem tanto interesse nas questões de engenharia sócio-político-econômica das casas A ou B, por exemplo. O fascínio fica meio reservado para quem já é íntimo da história e acalentou a esperança de um dia vê-la bem representada na tela grande.

Dune – Part One, 2021.
Direção: Denis Villeneuve. Elenco: Timothy Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Zendaya, Jason Momoa, Stellan Skasgard, Josh Brolin, Javier Bardem, Dave Bautista, Charlotte Rampling. Voz: Marianne Faithfull.

NO RITMO DO CORAÇÃO
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 13
Onde ver: Amazon Prime Vídeo, Looke, Apple TV, Google Play.

Fácil de gostar

Refilmagem do filme francês A Família Bélier (2014), No Ritmo do Coração é um filme simpático e cativante. A história é a de uma família surda de pescadores, onde apenas uma adolescente consegue ouvir. Dessa forma, ela acaba assumindo a função de intérprete entre seus parentes e o mundo fora de sua casa e seu barco. Porém, ela adora cantar e é boa nisso e surge a oportunidade de seguir uma carreira acadêmica em outra cidade.

O conflito entre seguir seu sonho ou continuar ajudando a família é o cerne do filme – mas não é difícil prever o desenlace. Não é por ousadia ou grandes surpresas que o filme será lembrado. É correto, contado direitinho por Sian Heder (em seu segundo longa) e tem como diferencial um elenco bem afinado (sem trocadilho).

Emilia Jones tem presença muito agradável como a protagonista, secundada principalmente por Troy Kotsur e Marlee Matlin, sólidos e bem eficientes nos momentos de comédia. Ele, favorito ao Oscar de coadjuvante; ela, já vencedora como melhor atriz em 1987, por Os Filhos do Silêncio.

Nas últimas semanas, o filme levou o prêmio de melhor elenco no SAG e o prêmio do Sindicato dos Produtores e se tornou um inesperado filme com chances de ganhar o Oscar de melhor filme. A indicação já parecia reconhecimento suficiente, na verdade, mas parece que realmente é fácil gostar de “No Ritmo do Coração”.

Coda, 2021.
Direção: Sian Heder. Elenco: Emilia Jones, Troy Kotsur, Marlee Matlin, Daniel Durant, Eugenio Derbez.

GHOSTBUSTERS – MAIS ALÉM
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 12
Onde ver: Apple TV.

Tributo para lavar a alma

Os Caça-Fantasmas (1984) se estabeleceu nos anos 1980 como a comédia de maior bilheteria do cinema. A mistura com o fantástico e os efeitos visuais podem ter ajudado, mas uma coisa é certa: o fundamental para o sucesso do filme e para ele ser lembrado com tanto carinho até hoje não era isso, era a química entre seu elenco e entre seus personagens.

Peter, Egon, Ray, Winston, Janine eram tão marcantes, cada um dos seu jeito, que renderam superbem também na série animada que veio depois. E é por isso que aquela releitura de 2016, Caça-Fantasmas, com um elenco todo feminino e completamente descolada do original, não funcionou tão bem. Infelizmente, não deu a mesma liga.

Daí que chegamos a esse Ghostbusters – Mais Além, em que a Sony tolamente desprezou o nome já consagrado por décadas da série aqui para usar o original em inglês. Ao contrário do filme de 2016, este é uma continuação direta dos dois filmes originais, de 1984 e 1989. Mais do que isso, é um belo tributo àqueles filmes e personagens.

Para começar, é dirigido e co-escrito por Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, o diretor dos dois filmes originais. Um filme de filho para pai, sendo Jason um diretor que já entregou grandes filmes como Obrigado por Fumar (2005), Juno (2007) e Amor sem Escalas (2009), embora não tivesse mais acertado da mesma forma de lá para cá.

Os Caça-Fantasmas tinha roteiro de Harold Ramis e Dan Aykroyd, que interpretaram Egon e Ray no filme. Ramis morreu em 2014 e o filme é dedicado a ele, mas não só. A história é focada principalmente na filha e netos de Egon, que herdam dele uma casa numa cidadezinha no interior, onde ele vivia isolado em seus últimos anos.

Os dois netos e os amigos que fazem no lugar vão formar a nova geração de Caça-Fantasmas a partir da descoberta de quem era o avô e o que ele fazia ali. Essa atenção ao personagem e a aparição dos velhos colegas em algum momento são bonitos detalhes, tratados com ternura.

Muitas são evidentes e outras ficam a ser percebidas pelos mais atentos, como o fato de que Mckenna Grace usa até os mesmos óculos que Ramis usou em Os Caça-Fantasmas.

Mas Mais Além não se resume a isso, juntando um carismático grupo de jovens protagonistas em uma bem montada junção de aventura e comédia, sem querer inventar a roda. Os originais dão um suporte afetivo a essa nova geração em um filme que consegue apontar para um futuro possível sem precisar destruir o que veio antes. Pelo contrário: é para lavar a alma de qualquer fã.

Ghostbusters – Afterlife, Estados Unidos/ Canadá, 2021.
Direção: Jason Reitman. Elenco: Mckenna Grace, Finn Wolfhard, Logan Kim, Celeste O’Connor, Carrie Coon, Paul Rudd, Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson, Annie Potts, Sigourney Weaver, J.K. Simmons, Olivia Wilde.

JÁ QUE NINGUÉM ME TIRA PRA DANÇAR
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 11
Onde ver: Itaú Cultural Play, a partir de 25 de março.

Leila Diniz era a revolucionária de biquíni

“Já que ninguém me tira pra dançar, vou dar uma mijadinha”, brincava Leila Diniz nos bares da vida, quando ia ao banheiro. O título dá o tom do documentário: a trajetória da atriz icônica, sob o ponto de vista intimista de uma de suas grandes amigas, Ana Maria Magalhães, que dirige o filme.

Ana faz a narração como uma carta para Leila (que morreu em um acidente aéreo, em 1972, na India, aos 27 anos, quando voltava de um festival de cinema). Em junho serão completados 50 anos da morte da atriz, mas Ana começou a fazer esse filme quando a tragédia estava completando 10 anos: quase todas as entrevistas são de 1982.

Com o passar dos anos, o significado da vida de Leila transcendeu muito seu trabalho como atriz. Ela virou um símbolo muito poderoso da liberação da mulher, sobretudo naquele período de ditadura militar. Mas isso de uma maneira bastante carioca: simplesmente vivendo a liberdade que tentavam tolher das mulheres.

Para uma geração de mulheres, das quais Leila acabou sendo a grande representante, era simplesmente natural que tivessem os mesmos direitos que os homens. Inclusive no amor, namorando quem quisessem ou fossem para a cama com quem escolhessem sem dar satisfações a ninguém.

Era natural que mulheres pudessem sentar num bar para tomar um chopinho com os amigos, falar palavrão ou ir à praia grávida e de biquíni. Se hoje isso parece tudo muito trivial, ainda não era assim nos anos 1960. Leila Diniz atraiu atenção e enfrentou muitos escândalos e perseguições por dar visibilidade a essa postura que fazia conservadores trincar os dentes.

O filme de Ana Maria Magalhães toca nessa questões com o ponto de vista de outra mulher daquela geração, que viveu aquelas mesmas situações. Também tece uma natural trajetória artística de Leila, sobretudo no cinema. É pena que as imagens não tragam o créditos dos filmes: quem quiser se aprofundar no trabalho de Leila Diniz indo à fonte não vai saber de que produção é a cena que despertou interesse.

O afetivo, portanto, se sobressai diante da comunicação. Mas é perfeitamente compreensível que não ser afetivo é uma impossibilidade para quem conheceu de perto Leila Diniz.

Já que Ninguém Me Tira pra Dançar, 2022.
Direção: Ana Maria Magalhães.

ATAQUE DOS CÃES
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2022: 10
Onde ver: Netflix.

A máscara da brutalidade

O velho oeste americano sempre foi mostrado como um local para os durões. E o cinema clássico já mostrava algumas vezes que a fragilidade sofre nesse ambiente. Por exemplo, em O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford, onde James Stewart era o advogado pacífico que passava maus bocados nas mãos do bandidão vivido por Lee Marvin.

Ali o faroeste já vinha começando um aspecto revisionista que nunca mais pararia. Isso ampliaria seu arcabouço temático, para além de tiroteios entre xerifes e bandidos ou exército e nativos. E leva a um filme como Ataque dos Cães, que aborda a questão da homossexualidade nesse cenário de uma maneira razoavelmente sutil.

Aliás, chamar de “faroeste” pode ser impreciso. O gênero costuma obedecer a certos aspectos muito precisos e restritos, começando pelo espaço e pelo tempo. São histórias que se passam em uma certa região dos Estados Unidos, em um período de tempo localizado na segunda metade do século XIX.

Ataque dos Cães se passa no estado de Montana, mas o ano é 1925, bem depois do período clássico do western. Mas o filme da neozelandesa Jane Campion se passa numa região tão remota, que muita coisa do velho oeste persiste ali.

O ambiente é hostil para homens frágeis, delicados ou, “pior” ainda, homossexuais. O filme, então, contrapõe o vaqueiro Phil Burbank, vivido por Benedict Cumberbatch, e o jovem Peter Gordon (Kodi Smit-McPhee). Filho da dona de um restaurante, a viúva Rose (Kirsten Dunst), o rapaz parece completamente deslocado por ali. Phil, por outro lado, tem uma ligação umbilical com aquele estilo de vida e rejeita até os anseios do irmão e sócio, George (Jesse Plemons) por civilização. Para Phil, a vida a ser vivida é bruta, suja e selvagem.

Acontece que George se casa com Rose. A convivência de mãe e filho com Phil é problemática desde antes do começo. É uma disputa por filosofias de vida, mas também por espaço e por controle. Há uma cena emblemática: a mulher tenta a duras penas ensaiar uma música ao piano para uma recepção chique e Phil, de seu quarto, a humilha executando a mesma música com toda a habilidade em seu banjo. Marcando explicitamente o território.

Mas a presença mais constante de Peter acaba fazendo com que Phil se aproxime dele. Todos têm aspectos pessoais que preferem guardar para si e Campion vai aos poucos e sem pressa expondo essas cartas para nós e para os outros personagens.

A sutileza da diretora, emoldurada por imagens belíssimas da paisagem de vastos campos e montanhas ao fundo, não esconde o drama da dificuldade de forjar uma identidade em uma sociedade que insiste que você construa uma máscara. Que, algumas vezes, é a da brutalidade.

The Power of the Dog, 2021.
Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, baseado no romance de Thomas Savage. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee, Jesse Plemons, Keith Carradine.

Antigamente o que já tivesse passado pelos cinemas estava fora de alcance quando saía a lista do Oscar. Hoje, o que não é diretamente produção para o streaming chega lá em poucos meses. Assim, poucos são os filmes que não estão disponíveis para que o cinéfilo se ponha em dia até a cerimônia, que este ano será em 27 de março. Nesta lista, estão todos os longas indicados, a que concorrem, onde podem ser assistidos e os trailers de cada um.

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ATAQUE DOS CÃES (The Power of the Dog), de Jane Campion
12 indicações: Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator coadjuvante (Kodi Smit-McPhee, Jesse Plemons), Atriz coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha sonora, Desenho de produção, Som.
Onde assistir: Netflix

A direção neozelandesa é a primeira mulher duas vezes indicada ao Oscar de melhor direção com uma história sensível e muito bem narrada sobre personagens masculinos deslocados em um ambiente que, mesmo nos anos 1920, ainda tem quase tudo do velho oeste. O filme também está indicado a oito Baftas e três SAGs, e ganhou três Globos de Ouro (filme/ drama, direção e ator coadjuvante [Smit-McPhee]).

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DUNA (Dune), de Dennis Villeneuve
10 indicações: Filme, Roteiro adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha sonora, Desenho de produção, Efeitos visuais, Som, Figurino, Maquiagem e penteado.
Onde assistir: HBO Max, Apple TV, Google Play, Microsoft Store.

Primeiro de dois filmes em que Villeneuve adapta o clássico da literatura de ficção científica. Trata de um planeta que produz uma especiaria na qual governos de outros planetas estão de olho e de um jovem de família nobre que se revela o líder prometido dos nativos pobres do planeta. Os fãs do livro sonhavam com uma adaptação de respeito do livro desde a malfada versão de David Lynch, de 1984. Mas Villeneuve acabou não indicado a direção.

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AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story), de Steven Spielberg
7 indicações: Filme, Direção (Steven Spielberg), Atriz coadjuvante (Ariana DeBose), Fotografia, Desenho de produção, Figurino, Som.
Onde assistir: O filme já foi exibido nos cinemas, ainda não foi lançado em home video e chega à Disney Plus no dia 3 de março.

Spielberg revisitou um grande clássico da Broadway e do cinema, e um grande vencedor do Oscar: o original de 1961 ganhou 10 prêmios, incluindo melhor filme. A robusta lembrança no Oscar vem na esteira do sucesso de crítica e apesar do pouco interesse do público. A expectativa é que Ariana DeBose repita o êxito de Rita Moreno na premiação. Já escrevi sobre ele: leia aqui.

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BELFAST (Belfast), de Kenneth Branagh
7 indicações: Filme, Direção (Kenneth Branagh), Ator coadjuvante (Ciarán Hinds), Atriz coadjuvante (Judi Dench), Roteiro original, Canção original (“Down to joy”), Som.
Onde assistir: O filme estreia nos cinemas brasileiros em 10 de março.

A capital da Irlanda do Norte batiza o filme e é onde nasceu Kenneth Branagh, um especialista em Shakespeare que também fez outras coisas, até filme de super-herói. Aqui ele busca uma nota mais pessoal, baseado em eventos de sua própria infância. Indicado pessoalmente como produtor, diretor e roteirista, Branagh se tornou a primeira pessoa indicada em sete categorias diferentes do Oscar. O pessoal sentiu falta de Caitriona Balfe entre as indicadas.

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KING RICHARD – CRIANDO CAMPEÃS (King Richard), de Reinaldo Marcus Green
6 indicações: Filme, Ator (Will Smith), Atriz coadjuvante (Aunjanue Ellis), Roteiro original, Montagem, Canção original.
Onde assistir: HBO Max, Now, Looke, Apple TV, Google Play, Microsoft Store.

É a história do pai das tenistas Venus e Serena Williams e de seu esforço para fazê-las campeãs. Aquela história de superação, com um final feliz que todo mundo já conhece desde o começo. Will Smith há muito tempo persegue um Oscar.

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DRIVE MY CAR (Doraibu Mai Ka), de Ryusuke Hamaguchi
4 indicações: Filme, Direção (Ryusuke Hamaguchi), Filme de língua não inglesa, Roteiro adaptado.
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros, estreia em breve no Mubi.

Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Cannes e do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa, o filme japonês é a produção do ano que conseguiu romper a barreira da língua e ser indicado também nas categorias de filme, direção e roteiro. São 3 horas de duração com a história de um diretor de teatro em luto, com a sensação de nunca ter compreendido a esposa falecida, tendo que lidar com uma motorista com quem tem que deixar o carro quando vai trabalhar em Hiroshima. É adaptado de um conto de Haruki Murakami.

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NÃO OLHE PARA CIMA (Don’t Look Up), de Adam McKay
4 indicações: Filme, Roteiro original, Montagem, Trilha sonora original.
Onde assistir: Netflix.

Muito visto e comentado, faz uma debochada metáfora sobre o negacionismo e a burrice coletiva, aqui com relação a um cometa que vai colidir com a Terra e erradicar a vida no planeta (mas poderia ser sobre o aquecimento global ou o coronavirus).

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O BECO DO PESADELO (Nightmare Alley), de Guillermo Del Toro
4 indicações: Filme, Fotografia, Desenho de produção, Figurino
Onde assistir: Cinemas

Del Toro refilmou um filme noir sobre sujeito que aprende num circo a ser um mentalista e depois usa o talento para ganhar dinheiro de gente rica.

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NO RITMO DO CORAÇÃO (Coda), de Sian Heder
3 indicações: Filme, Ator coadjuvante (Troy Kotsur), Roteiro adaptado.
Onde assistir: Amazon Prime Video, Looke, Apple TV, Google Play.

É a versão americana do filme francês A Família Bélier, com a história de uma família de surdos, onde apenas uma adolescente não é surda. Ela acaba sendo uma tradutora para a família, que vive da pesca, mas o conflito surge quando ela tem a possibilidade de abraçar o canto e entrar em uma faculdade de música. É um filme terno e bem-humorado, de que se gosta fácil. A protagonista, Emilia Jones, foi indicada ao Bafta, mas ficou fora do Oscar.

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LICORICE PIZZA (Licorice Pizza), de Paul Thomas Anderson
3 indicações: Filme, Direção (Paul Thomas Anderson), Roteiro original.
Onde assistir: Estreia nos cinemas dia 17 de fevereiro

PTA numa chave mais leve: o amor de dois jovens em 1973. Está indicado nas categorias grandes, mas, como sempre, o diretor parece ser subestimado pela Academia.

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TICK, TICK… BOOM! (Tick, Tick… Boom!), de Lin-Manuel Miranda
2 indicações: Ator (Andrew Garfield), Montagem
Onde assistir: Netflix

Andrew Garfield faz um tour de force na interpretação do compositor Jonathan Larson sob a pressão de terminar um musical e fazer com ele seu primeiro sucesso no teatro. E isso é contado por ele em um monólogo musical. Uma carinhosa homenagem ao compositor que morreu cedo e deixou o sucesso imortal de Rent. Leia minha crítica.

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A TRAGÉDIA DE MACBETH (The Tragedy of Macbeth), de Joel Coen
3 indicações: Ator (Denzel Washington), Fotografia, Desenho de produção
Onde assistir: AppleTV.

A adaptação de uma das maiores tragédias de Shakespeare ganha uma adaptação de visual bruto, geométrico, espartano e espetacular nas mãos de Joel Coen (em direção solo, sem o irmão Ethan). O filme foi reconhecido por isso e pela grande atuação de Denzel Washington.

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APRESENTANDO OS RICARDOS (Being the Ricardos), de Aaron Sorkin
3 indicações: Ator (Javier Bardem), Atriz (Nicole Kidman), Ator coadjuvante (J.K. Simmons),
Onde assistir: Amazon Prime Video

Os Ricardos do título são o casal principal da icônica série I Love Lucy, interpretados por Lucille Ball e Desi Arnaz, casados na vida real e produtores da série. Nicole Kidman e Javier Bardem estrelam o filme. É difícil demais imaginar Nicole como a careteira Lucille, Se desse certo, seria mesmo material para Oscar.

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A FILHA PERDIDA (The Lost Daughter), de Maggie Gyllenhaal
3 indicações: Atriz (Olivia Colman), Atriz coadjuvante (Jessie Buckley), Roteiro adaptado.
Onde assistir: Netflix

Esnobada pelos compatriotas no Bafta, Olivia Colman garantiu seu lugar entre as indicadas a melhor atriz. A versão jovem de sua personagem é vivida por Jessie Buckley, também indicada. Na história, elas interpretam uma mulher em conflito com a maternidade: Olivia rememora isso durante férias no litoral italiano.

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MÃES PARALELAS (Madres Paralelas), de Pedro Almodóvar
2 indicações: Atriz (Penélope Cruz), Trilha sonora original.
Onde assistir: Cinemas. Na Netflix a partir de 19 de fevereiro.

O novo filme de Almodóvar é sobre duas mulheres de faixas etárias diferentes que se preparam em um hospital para terem bebês no mesmo dia, encontrando apoio e cumplicidade uma na outra. Notório diretor de atrizes, o espanhol vê Penélope Cruz conseguir a segunda atuação na categoria por um filme seu (ela já ganhou como coadjuvante, mas em filme de Woody Allen).

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SPENCER (Spencer), de Pablo Larraín
1 indicação: Atriz (Kristen Stewart)
Onde assistir: Cinemas

O diretor chileno já havia abordado Jacqueline Kennedy (que rendeu uma indicação a Natalie Portman) e agora abordou os dias em que a princesa Diana resolveu se separar do príncipe Charles.

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OS OLHOS DE TAMMY FAYE (The Eyes of Tammy Faye), de Michael Showalter
2 indicações: Atriz (Jessica Chastain), Maquiagem e penteado.
Onde assistir: Estreia nos cinemas dia 17 de fevereiro.

Jessica Chastain ganhou um papel para deitar e rolar: a ascensão e queda de uma pastora de TV.

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A PIOR PESSOA DO MUNDO (Verdens Verste Menneske), de Joachim Trier
2 indicações: Filme de língua não inglesa, Roteiro original
Onde assistir: Inédito nos cinemas

O filme norueguês aborda a vida de uma jovem mulher indecisa sobre os rumos a tomar na vida. A comédia dramática é outro filme de língua não inglesa a ganhar indicações além desta categoria.

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ENCANTO (Encanto), de Jared Bush e Byron Howard
3 indicações: Filme de animação, Trilha sonora original, Canção original (“Dos oruguitas”).
Onde assistir: Disney Plus.

A animação da Disney explodiu de popularidade quando chegou ao streaming e a história de Mirabel, a garota colombiana sem poderes numa família onde todos têm dons especiais e que precisa descobrir o mistério que está ameaçando a magia de seus parentes. A curiosidade é que a canção que é o maior sucesso musical do estúdio nos últimos tempos, “We don’t talk about Bruno”, não foi indicada e por culpa da própria Disney, que não apostou nela e não a inscreveu.

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FLUGT (Flugt), de Jonas Pohen Rasmussen
4 indicações: Filme de animação, Filme de língua não inglesa, Documentário
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros.

Com o título em inglês de Flee, o filme dinamarquês conseguiu a proeza inédita de ser indicado nas categorias de animação, documentário e filme de língua não inglesa (ou “filme internacional”, como rebatizou a Academia). É sobre um refugiado afegão que vai casar com o noivo e resolve revisitar seu passado. Foi premiado nos festivais de Sundance e Annecy (principal festival de animação do mundo). Aqui, passou no festival de documentários É Tudo Verdade.

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LUCA (Luca), de Enrico Casarosa
1 indicação: Filme de animação.
Onde assistir: Disney Plus.

O longa da Pixar estreou direto no streaming e conta uma história de aceitação das diferenças: dois garotos monstros marinhos que viram humanos fora d’água e vivem aventuras numa cidadezinha litorânea italiana. Uma história terna com um belíssimo visual. Leia minha crítica.

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A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS (The Mitchells vs. the Machines), de Michael Rianda
1 indicação: Filme de animação
Onde assistir: Netflix

Um agitado e divertido longa sobre uma família disfuncional que se torna a última esperança da Terra quando robôs dominam o planeta. Os personagens bem construídos elevam esse filme além da média das aventuras animadas, mas há também um monte de sacadas visuais, brincando com filtros de Instagram, memes e o amor pelo cinema da personagem principal.

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RAYA E O ÚLTIMO DRAGÃO (Raya and the Last Dragon), de Don Hall e Carlos López Estrada
1 indicação: Filme de animação
Onde assistir: Disney Plus

Aventura da Disney sobre uma jovem guerreira de um reino fantástico que parte em busca de um dragão, quando todos acreditam que a espécie foi extinta, para salvar seu mundo.

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A FELICIDADE DAS PEQUENAS COISAS (Lunana A Yak in the Classroom), de Pawo Choyning Dorji
1 indicação: Filme de língua não inglesa
Onde assistir: Cinemas.

O filme do Butão, pequeno país asiático, é sobre um professor que quer se mudar para a Austrália e virar cantor. Enquanto isso não acontece, ele é deslocado para a escola mais remota do país. O que inclui, inclusive, um iaque que deve ser criado dentro da sala de aula.

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A MÃO DE DEUS (È Stata la Mano di Dio), de Paolo Sorrentino
1 indicação: Filme de língua não inglesa
Onde assistir: Netflix

Sorrentino revisita sua adolescência em Nápoles, nos anos 1980, mostrando a comédia e o drama de um jovem e sua família nos dias em que Maradona virou ídolo local jogando no clube da cidade. O diretor italiano faz aqui seu Amarcord.

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ASCENSION (Ascension), de Jessica Kingdom
1 indicação: Documentário.
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros.

Uma observação sobre a China contemporânea, sua força de potência, as questões trabalhistas e de desigualdade social.

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ATTICA (Attica), de Tracy Curry e Stanley Nelson
1 indicação: Documentário.
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros.

Uma volta, 50 anos depois, a rebelião em uma prisão americana marcada pela violência e o racismo.

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SUMMER OF SOUL (…OU QUANDO A REVOLUÇÃO NÃO PODE SER TELEVISIONADA) [Summer of Soul (…Or When the Revolution Could Not Be Televised)], de Questlove
1 indicação: Documentário.
Onde assistir: Telecine Play

Um registro do Harlem Cultural Festival, evento que celebrou a cultura negra em 1969, mas que acabou não tendo os mesmos holofotes do festival de Woodstock.

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WRITING WITH FIRE (Being the Ricardos), de Sushmit Ghosh e Rintu Thomas.
1 indicação: Documentário.
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros

O filme mostra a jornada do primeiro jornal diário da Índia com uma equipe formada por mulheres e que enfrenta um ambiente ainda dominado por homens.

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FOUR GOOD DAYS (Four Good Days), de Rodrigo Garcia
1 indicação: Canção original (“Somehow you do”)
Onde assistir: Now, Looke, Claro Vídeo, AppleTV, Google Play.

É um drama de mãe e filha. A filha está a caminho de mais uma de muitas tentativas de se livrar das drogas e a mãe passa com ela alguns dias antes de que ela vá para a clínica.

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CRUELLA (Cruella), de Craig Gillespie
2 indicações: Figurino, Maquiagem e penteado.
Onde assistir: Disney Plus.

Na Londres dos anos 1970, Cruella DeVil tenta se afirmar como uma jovem talento da moda e ainda se vingar. A vilã de 101 Dálmatas deixa de ser vilã nesta espécie de prelúdio, mas o filme é indicado por aquilo que realmente foi seu destaque. Leia minha crítica.

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CYRANO (Cyrano), de Joe Wright
1 indicação: Figurino
Onde assistir: Ainda inédito nos cinemas brasileiros.

Musical que adapta a história de Cyrano de Bergerac, que se acha muito feio para conquistar sua amada Roxanne e resolve ajudar um bonitão bocó com sua poesia e sensibilidade. Peter Dinklage interpreta o protagonista e a direção é de Joe Wright, de Orgulho e Preconceito.

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007 – SEM TEMPO PARA MORRER (No Time to Die), de Cary Joji Fukunaga
3 indicações: Canção original (“No time to die”), Efeitos visuais, Som.
Onde assistir: DVD, blu-ray, Now, Google Play, AppleTV, Microsoft Store.

A derradeira aventura de James Bond estrelada por Daniel Craig é o final em uma nota alta dessa fase do personagem. Mas foi indicado nas categorias técnicas de sempre dos blockbusters, não rompeu a barreira, como Skyfall. Leia minha crítica.

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CASA GUCCI (House of Gucci), de Ridley Scott
1 indicação: Maquiagem e penteado.
Onde assistir: Já exibido nos cinemas, lançamento em DVD, blu-ray e plataformas digitais no dia 22 de fevereiro.

Os fãs esperavam que Lady Gaga concorresse a melhor atriz, mas ela ficou de fora. O filme que mostra as intrigas de bastidores no império da moda acabou quase ignorado.

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UM PRÍNCIPE EM NOVA YORK 2 (Coming 2 America), de Craig Brewer
1 indicação: Maquiagem e penteado.
Onde assistir: Amazon Prime Video

A continuação de um clássico da comédia dos anos 1980 leva o príncipe Akeem de volta a Nova York para encontrar um filho que ele não sabia que tinha. Com Eddie Murphy e Arsenio Hall fazendo vários personagens, o filme repete uma das indicações que o original também conseguiu.

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FREE GUY – ASSUMINDO O CONTROLE (Free Guy), de Shawn Levy
1 indicação: Efeitos visuais
Onde assistir: Star Plus.

Uma mistura de comédia e aventura em que um funcionário de banco descobre uma terrível verdade: é um figurante em um videogame.

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HOMEM-ARANHA SEM VOLTA PARA CASA (Spider-Man – No Way Home), de Jon Watts
1 indicação: Efeitos visuais
Onde assistir: Cinemas

Os mais empolgados queriam até uma indicação a melhor filme para a aventura que promoveu o encontro entre os Homens-Aranha de três franquias. Era demais, claro, mas o filme até podia concorrer em umas categoriazinhas a mais que só a efeitos visuais. Leia minha crítica.

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SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANÉIS (Shang-Chi and the Legend of Ten Rings), de Destin Daniel Cretton
1 indicação: Efeitos visuais
Onde assistir: Disney Plus

Um dos mais fracos filmes do universo cinematográfico da Marvel, Shang-Chi não é exatamente um grande destaque nem nesse quesito.

TICK, TICK… BOOM!
⭐⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 9
Onde ver: Netflix.

Boneca russa de musicais

Um musical dentro de um musical dentro de um musical. Lin-Manuel Miranda usa e abusa da metalinguagem para contar a história de um momento capital na vida do compositor Jonathan Larson, então um jovem que vive a pressão e a angústia de terminar um musical que pode significar seu sucesso na Broadway – ou o fim precoce de sua carreira.

Acontece que o próprio Larson contou essa história: Tick, Tick… Boom! é originalmente um monólogo em que ele falava à plateia sobre esses dias tumultuados. O que o filme faz é ampliar o show para Larson ser acompanhando por uma banda e alguns outros cantores, e alternar essa apresentação de palco com flashbacks da trama. A combinação frenética desses níveis narrativos renderam ao filme uma indicação ao Oscar de melhor montagem.

A urgência com que Larson vive o momento é bem defendida por Andrew Garfield (também indicado ao Oscar e que não cantava quando foi contratado para o papel) e está refletida no título, que é tristemente profético – o compositor morreu aos 36 anos, às vésperas da estreia de seu musical que seria um marco geracional: Rent.

Lin-Manuel Miranda é, ele próprio, um criador de sucesso na Broadway: é o autor de Hamilton, um fenômeno pop. Neste mesmo ano, compôs as canções de Encanto, da Disney. Em Tick, Tick… Boom!, faz uma homenagem a uma de suas inspirações, aproveitando que Larson já tinha feito esse trabalho autobiográfico.

Muito emocional, o filme deixa transparecer essa admiração do diretor por seu personagem real, composta através de uma arquitetura de boneca russa.

Tick, Tick… Boom!, 2021.
Direção: Lin-Manuel Miranda. Roteiro: Steven Levenson, baseado no musical de palco de Jonathan Larson. Elenco: Andrew Garfield, Alexandra Shipp, Robin de Jesus, Vanessa Hudgens.

HOMEM-ARANHA – LONGE DE CASA
⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 8
Onde ver: DVD, blu-ray, Amazon Prime Video, Now, Looke, Claro Vídeo, Google Play/ YouTube Filmes, Apple TV/ iTunes, Microsoft Store.

Perdido na Europa

O segundo filme da (até agora) trilogia do Homem-Aranha no universo cinematográfico da Marvel é quase unanimamente apontado como o mais fraco. A ideia até que era boa: tirar o herói de seu habitat natural e jogar em aventuras na Europa. Mas o andamento sempre parece que faltou um polimento.

O roteiro arma uma viagem da escola para que Peter Parker esteja cercado da maioria de seus coadjuvantes habituais. No Velho Mundo, ele se depara com uma novo herói que conta ter vindo de outro universo.

O problema é que qualquer leitor dos quadrinhos do herói sabe muito bem que é o Mysterio. E a pegada John Hughes do primeiro filme se perde um pouco em piadas bobas além da conta. E a aventura alterna entre bons momentos com o Aranha enfrentando ilusões traiçoeiras e um típico clímax que exagera no barulho.

Spider-Man – Far from Home, 2021.
Direção: Jon Watts. Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers, baseado em personagens criados por Stan Lee e Steve Ditko. Elenco: Tom Holland, Jake Gyllenhall, Samuel L. Jackson, Zendaya, Jon Faveau, Marisa Tomei, Jacob Batalon, J.K. Simmons. 

BENEDETTA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2022: 7
Onde ver: cinemas.

Sagrado e profano misturados

Paul Verhoeven nunca foi de fugir de polêmicas e viu uma matéria-prima e tanto na história real da freira que, no século XVII, foi processada por alegar ter visões de Cristo e ter um relacionamento lésbico com uma colega de convento. Benedetta transita nessas duas vertentes e não alterna entre elas: as mistura, fazendo o sagrado se entrelaçar ao (muito) profano.

Benedetta (Virginie Efira) é tida como milagrosa desde a infância, quando entra para o convento. Crescida, vê chegar outra postulante que é exatamente o contrário: Batolomea (Daphne Patakia) não entra por vocação, mas para fugir do pai abusivo. O sexo, para ela, está longe de ser um tabu ou pecado, é algo extremamente natural.

Bartolomea acaba designada pela madre superiora (Charlotte Rampling) para acompanhar Benedetta, atormentada por suas visões. Benedetta é seduzida pela naturalidade sexual de Bartolomea. A partir daí, as visões erótico-religiosas de Cristo convivem com o sexo em que as duas chegam a usar uma imagem da Virgem Maria para masturbação. O sagrado e o profano totalmente misturados.

Isso surge como um espelho sublime para a mesma mescla que ocorre de uma maneira podre: as intrigas políticas e ambição financeira que levam a Igreja Católica a, por exemplo, aceitar Benedetta como profeta por pura conveniência (ter uma “santa” na cidade vai atrair dinheiro de fiéis e romeiros) e depois tentar se livrar dela por preconceito e inveja.

Se Benedetta é mesmo santa ou se apenas tem alucinações, isso importa menos que sua descoberta de si mesma e o ambiente repressivo e comercial onde está inserida. A partir disso, o filme tem desdobramentos às vezes previsíveis pela lógica, às vezes surpreendentes. A personagem nitidamente conquista a afeição Verhoeven, o que não é sempre que acontece.

Benedetta, 2021.
Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: David Birke e Paul Verhoeven, com colaboração de Pascal Bonitzer, baseado no livro de Judith C. Brown. Elenco: Virginie Efira, Daphne Patakia, Charlotte Rampling, Lambert Wilson, Olivier Rabourdin, Louise Chevillote. 

LUCA
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2022: 2
Onde ver: Disney Plus

Celebração da diferença

A história de duas jovens criaturas marinhas humanoides que descobrem o mundo numa cidadezinha no litoral da Itália é uma parábola da aceitação do diferente. Há uma diálogo muito bom perto do final, onde a avó diz: “Algumas pessoas não vão aceitá-lo. Mas outras vão. E ele parece saber como encontrar as boas”.

É uma metáfora ampla, que pode falar sobre preconceito contra homossexuais e a necessidade de se afirmar, sobre racismo ou sobre imigrantes serem aceitos em sua nova terra, por exemplo. Isso embalado num belo visual (com personagens claramente inspirados nos filmes do Studio Ghibli) e decorado com um monte de saborodas referências italianas para cinéfilos – da foto de Marcello Mastroianni colada num retrovisor ao poster de A Princesa e o Plebeu na parede.

O começo, é verdade, é muito semelhante ao de A Pequena Sereia – só falta Luca cantar “Part of your world” para mostrar sua curiosidade sobre os objetos do mundo aqui de cima. Ele faz amizade com Alberto – os dois são monstros marinhos que, fora d’água, se tornam meninos humanos.

Sua compreensão errada do funcionamento das coisas aqui é divertida, assim como a preocupação constante em não se molhar, o que revela a verdadeira natureza da dupla. Com Giulia acontece uma identificação que – ela ainda não sabe – ultrapassa a diferença entre eles: o trio se une como “os excluídos”, um grupo para disputar uma competição local.

Luca quer saber mais – sobre o espaço, o mundo, as histórias –, o que gera uma bonita sequência sobre conhecimento, algumas das vezes em que o filme sai de um registro “real” para um “imaginativo” do protagonista. Essa vontade também vai ganhar força e se tornar uma questão entre Luca e Alberto – e a maneira do filme dizer que eles também precisam aceitar as diferenças entre eles.

Luca, 2021.
Direção: Enrico Casarosa. Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones, baseado em argumento de Andrews, Enrico Casarosa e Simon Stephenson. Vozes na dublagem original: Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Maya Rudolph, Sacha Baron Cohen. Vozes na dublagem brasileira: Rodrigo Cagiano, Pedro Miranda, Beatriz Singer, Letícia Quinto, Luís Miranda.

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
⭐⭐⭐⭐
Diário de Filmes 2022: 1
Onde ver: DVD (na coleção Era uma Vez em Hollywood – A Coleção Completa)

Pérolas da Metro

Em 1974, não havia home video. Para ver os antigos musicais da Metro, só numa reprise nos cinemas ou na TV. Por isso, o documentário autocelebratório Era uma Vez em Hollywood foi a oportunidade de rever Gene Kelly cantando na chuva, Fred Astaire dançando nas paredes e tetos do quarto, Judy Garland cantando “Over the rainbow” e outros momentos antológicos. “Eu te digo: você nunca mais verá algo assim de novo”, diz Frank Sinatra na apresentação. E ele tinha razão.

LEIA MAIS:
Era uma Vez em Hollywood: DVD sofre com péssimas legendas

Veteranos astros voltam à Metro para contar essa história em segmentos históricos ou dedicados a um talento, que abrangem musicais do estúdio, lançados entre 1929 a 1958. Há boas sacadas como Fred Astaire apresentando as cenas de Gene Kelly e Kelly as de Astaire. Ou Liza Minnelli apresentando as da mãe, Judy Garland, que morreu cinco anos antes.

Hoje é muito mais fácil garimpar essas cenas, mas o trabalho de curadoria e edição é um desfile de maravilhas irresistível. Só poder assistir de novo (ou pela primeira vez) Fred Astaire e Eleanor Powell dançando “Begin the beguine”, de Cole Porter, já vale um filme desses.

That’s Entertainment!. Estados Unidos, 1974.
Direção e roteiro: Jack Haley Jr. Elenco: Fred Astaire, Gene Kelly, Frank Sinatra, Bing Crosby, Elizabeth Taylor, Donald O’Connor, Mickey Rooney, Liza Minnelli, James Stewart, Peter Lawford.

AS MAIS INCRÍVEIS AVENTURAS DE PERNALONGA E SUA TURMA
ou PERNALONGA/ PAPA-LÉGUAS – O FILME
⭐⭐½
Diário de Filmes 2022: 6
Onde ver: YouTube (dublado).

Fios soltos na costura

No fim dos anos 1970/ começo dos 1980, a Warner lançou alguns longas-metragens com seleções e edições de seus curtas animados clássicos, costurados por novas sequências. Este é dirigido por Chuck Jones reunindo seus principais trabalhos com o Pernalonga e outros personagens (com destaque para o Papa-Léguas).

Jones comandou obras-primas da comédia na Warner e, por paradoxal que pareça, isso joga contra este filme. Para quem conhece os curtas originais é muito incômodo vê-los tão cortados nesta compilação. Já a sequência dedicada ao Papa-Léguas (na prática, ao Coiote e suas seguidas tentativas frustradas de capturar a ave) é longa, com 20 minutos de emendas de vários cartoons.

E ainda há uma intriga de bastidores: na introdução, em que o coelho apresenta seus “vários pais”, ele cita os diretores Tex Avery, Friz Freleng, Chuck Jones e Robert McKimson, omitindo o de Robert Clampett. Clampett, naquele tempo, andava dizendo que era o único criador do personagem, e isso irritava Jones. O filme poderia, ainda assim, ter tido a grandeza de mencioná-lo.

Enfim, na época, no cinema, era legal ter estes filmes que permitiam rever na tela grande o Pernalonga em sua melhor forma. Mas uma coletânea simples de curtas em sua integridades funcionaria melhor.

The Bugs Bunny/ Road Runner Movie, 1979.
Direção: Chuck Jones, Phil Monroe. Co-direção: Maurice Noble, Tom Ray. Roteiro: Michael Maltese e Chuck Jones, com John W. Dunn (não creditado). Vozes na dublagem original: Mel Blanc, Arthur Q. Bryan. Voz na dublagem brasileira: Mário Monjardim.

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