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Em história desconcertante, Horácio encara o futuro de sua espécie

Em história desconcertante, Horácio encara o futuro de sua espécie

Quando os dinossauros andavam sobre a Terra, um deles era dado a pensar sobre os mistérios da vida e do mundo. Pelo menos é assim na visão de Mauricio de Sousa, criador do Horácio, seu personagem mais pessoal: até hoje, ao contrário de seus outros personagens, Mauricio é o único que desenha e escreve as histórias do dinossaurinho verde. Agora, estes fortes tempos autorais estão de volta com Horácio e Seus Amigos Dinossauros – Vol. 1 (2013), o primeiro de uma série que pretende republicar todas as páginas dominicais estreladas pelo personagem.

“Horácio, pra mim, é uma série atemporal”, contou ao CORREIO. “Vai sair agora em álbuns e, no futuro, continuará sendo publicado ou animado com os mesmos resultados de público. Não segue a linha popular da Mônica. mas é marcante”.

Este primeiro volume compila quadrinhos que saíram originalmente entre 1963 e 1965 – ou seja, comemora 50 anos da série – e, de fato, eles têm uma outra pegada – muitas vezes surpreendente. “É a divulgação dos meus tempos de exercícios com temas não usuais em histórias lançadas originalmente em publicações dirigidas às crianças”.

Lucinda, eterna pretendente, estreia logo nas primeiras páginas

Lucinda, eterna pretendente, estreia logo nas primeiras páginas

Já nos primeiros domingos, a série fugiu da piada pura e simples. Há bastante humor, claro, mas Mauricio trocou piadas fechadas por páginas seriadas que duravam várias semanas (a história mais longa da edição durou 19 semanas, ou seja: quase cinco meses!). E os temas combinavam o suspense do “próximo capítulo” e um tom bem presente de mistério.

“Não foi planejado”, diz o autor, revelando que o Horácio era produzido sob pressão. “Como, no estúdio, o Horácio ‘sobrava’ pra mim (para roteiro e desenho) e eu andava sempre muito ocupado, deixava a produção das suas páginas para a última hora. Entregava a página semanal, em alguns casos, duas horas antes do fechamento do prazo do jornal – o suplemento infantil Folhinha de São Paulo. Não tinha tempo de elocubrar muito, planejar melhor a história e seu desenvolvimento. Consequentemente as ideias tinham que brotar na hora e serem resolvidas no ato. Então eu tinha que ousar”.

As dificuldades acabaram fazendo brotar um trabalho genial. “Começava a escrever e desenhar a página sem planejamento. Desenvolvia a história à medida que brotavam figuras e textos. Ia ‘vivendo’ as situações, com a responsabilidade de encontrar a fala seguinte, a ação imediata. Saindo da ideia estopim, passando para o meio e rezando para chegar com coerência a um desfecho no fim de uma página ou de uma sequência de páginas”, recorda. “Se eu acreditasse em produção psicografada, diria que o que acontecia – uma vez por semana, às quintas-feiras – era algo mais ou menos parecido. E isso durante quase 30 anos”.

Mastodontes defendem sua "pureza racial": uma surpreendente referência ao nazismo

Mastodontes defendem sua “pureza racial”: uma surpreendente referência ao nazismo

Daí surgiram tramas que sempre partiam da solidão algo chapliniana do Horácio para fazê-lo ser forçado a se casar, ser levado ao espaço e lidar com árvores que ganham consciência e planejam a dominação do mundo. O lugar do nascente ser humano no planeta volta e meia e tema de observação. E, em outra história, o dinossauro pensa que é um mastodonte e é discriminado por outros que defendem uma “pureza racial” – é bom lembrar que as HQs são de 1963, e o nazismo havia levado o mundo à II Guerra menos de 25 anos antes.

Mas as duas tramas mais surpreendentes mostram Horácio sendo capturado pelos napões, um povo que viveu feliz tanto tempo que passa a desejar que algum animal os devore e aterrorize, e sendo levado a encarar o futuro de sua raça por uma névoa mágica que prevê o futuro.

Mauricio também já tinha criado o Piteco, mas tinha um interesse especial menos pela pré-história do que pelos quadrinhos que a usavam como cenário. “Histórias sobre a pré-história e suas figuras rotineiramente mostradas em muitas histórias em quadrinhos do passado me pareciam muito interessantes. Mas dezenas de outros temas também me eram interessantes”, diz, falando com sinceridade sobre sua opção pelo cenário. “Talvez o que me levou a ir buscar a ambientação pré-histórica foi, mais uma vez, minha falta de tempo. Produzia demais, varava noites criando, desenhando. Então, quando fiz meu planejamento de personagens e ambientes que deveriam compor a variedade de gêneros que eu necessitava para fazer frente à concorrência estrangeira, pensei numa história que não me obrigasse a usar cenários detalhados, sofisticados, com carros, edifícios, vestuário. Fui buscar no barroco dos traços soltos o estilo que eu tinha tempo de fazer com traços rápidos. E quando fui dividindo o trabalho com a equipe, fiquei com a opção Horácio”.

Os napões: após anos pacíficos, desejam simplesmente ser devorados por um predador

Os napões: após anos pacíficos, desejam simplesmente ser devorados por um predador

A maior parte dessas histórias não é vista desde sua publicação original. Algumas foram redesenhadas para caber nas revistas Mônica e Cebolinha nos anos 1970 (incluindo uma atualização dos traços dos personagens) ou na edição especial que leva o mesmo nome que essa e foi publicada em 1993.

Mauricio conta, também, que deseja voltar a escrever e desenhar o Horácio – o que a atividade na condução da Mauricio de Sousa Produções e a aprovação de roteiros tem impedido já há algum tempo. “Realmente ando com sede e fome de voltar a criar novas situações para meu dinossaurinho verde”, revela. “Tenho pensado em muitos temas. E todos  estão à espera de um processo de delegação em curso no estúdio. Pretendo me afastar de algumas atividades internas – já estou treinando meus segundos nessas áreas – para voltar a criar. Principalmente agora, às voltas com o início da produção de um longa metragem em 3D do Horácio. E empurrado pela publicação da série de álbuns com suas primeiras histórias”.

HORÁCIO E SEUS AMIGOS DINOSSAUROS - VOL. 1, de Mauricio de Sousa. Panini Books, 168 páginas. R$ 46.

HORÁCIO E SEUS AMIGOS DINOSSAUROS – VOL. 1, de Mauricio de Sousa. Panini Books, 168 páginas. R$ 46.

Com “Lôcas”, “Love and Rockets” volta a ser publicada no Brasil

Se hoje há um cenário independente importante nos quadrinhos americanos, muito se deve a Love and Rockets. A revista capitaneada pelos irmãos Gilbert e Jaime Hernandez mostrou que existia uma via a percorrer onde autores poderiam ter toda a liberdade na condução de uma história – e se divertir, divertindo os leitores no processo. Agora, Love and Rockets retorna ao Brasil através do álbum Lôcas – Maggie, a Mecânica (Gal Editora, 152 páginas), que compila as primeiras histórias de uma das séries que compunham Love and Rockets: Hopper 13 (ou Locas), de Jaime Hernandez.

O primeiro volume de Love and Rockets é de 1981. E teve 50 edições até 1996, com a colaboração ocasional de outro dos irmãos Hernandez, Mario. Neste ano, Gilbert e Jaime passaram a publicar seus personagens separadamente, até o retorno, em 2001, para Love and Rockets  – Volume 2. A essa altura a série já estava consagrada como um clássico dos quadrinhos – de qualquer estilo.

Jaime Hernandez conversou por e-mail sobre Lôcas, as aventuras de duas garotas comuns – Maggie e Hopey – envolvidas às vezes com um cotidiano bastante comum e, em outras, com situações fantásticas. Ele conta, também do que ama o filme Orfeu Negro e gosta de outras coisas no Brasil. “Como poderia não gostar do Zé do Caixão?”, pergunta.

***

Hopey e Maggie: as “Betty e Verônica” de Hernandez em “Lôcas”

Quando Love and Rockets começou, o mercado de quadrinhos nos Estados Unidos era muito diferente. O que você acha que mudou nos quadrinhos independentes desde então?

Difícil dizer, porque realmente não havia muito de um mercado de quadrinhos independentes, na época. 30 anos depois, há um grande número de artistas que fazem o trabalho em seus próprios termos, do seu próprio jeito. Agora, mais do que nunca na história dos quadrinhos.

As primeiras histórias de Lôcas estão sendo publicadas agora no Brasil. O que você lembra sobre o que os primeiros passos da série?

O que mais me lembro é que eu estava me divertindo muito. Não havia regras e ninguém para nos dizer o que não fazer.

Fale um pouco sobre Maggie e Hopey. Como você criou as meninas?

Eu queria criar minhas próprias Betty e Veronica (personagens da série em HQ Archie). Minhas próprias Lucy e Ethel (personagens da série de TV I Love Lucy). Minhas próprias Abbott e Costello. Duas amigas para escrever sobre. Duas personagens para metralhar diálogos. Eu também estava encantado com o estilo e a atitude das meninas punk do sul da Califórnia naquela época.

As garotas e seus problemas: do aluguel atrasado a… dinossauros!

Seus irmãos e você discutem ideias? Ou cada um trabalha em suas próprias histórias?

Trabalhamos em nossas próprias histórias, mas conversamos uns com os outros sobre elas de vez em quando.

Você colocou Orfeu Negro em uma lista de seus filmes favoritos. Talvez saiba que este filme é inspirado em uma peça de teatro brasileira de Tom Jobim & Vinicius de Moraes.

Meu irmão me mostrou há alguns anos e eu amei. Eu tenho um DVD dele e vejo de vez em quando. Eu adoro a forma como a música dá o tom de uma parte da história.

O que mais você sabe sobre o Brasil?

Outro filme favorito meu é Pixote. Levei anos para conseguir um DVD, mas finalmente consegui. Esse ainda me bate pra valer quando assisto. E, naturalmente, há o Zé do Caixão. Como poderia não gostar do Zé do Caixão?

* Publicada no Correio da Paraíba, em 12 de agosto de 2012

A musa definitiva dos “anos loucos”

Filmagem de “A Razão do Mundo” é retratada na HQ

Ela foi modelo, cantora, pintora, atriz de filmes experimentais, foi considerada a alma de um dos bairros que mais respiram cultura em Paris e, agora, é também uma personagem de histórias em quadrinhos. Alice Pris, ou Kiki, é a apaixonante protagonista da biografia Kiki de Montparnasse (Record, 416 páginas), com roteiro de José-Louis Bocquet e desenhos de Catel Muller.

Kiki foi uma das maiores musas dos anos 1920, os “anos loucos”, quando Paris era uma festa. Ela convivia com artistas de todos os calibres – de Pablo Picasso a Ernest Hemingway – foi modelo para vários pintores e para as fotos e filmes de Man Ray, americano com quem viveu alguns anos.

A obra de Bocquet e Catel é dividida em curtos capítulos, começando pela infância de Kiki e seguindo até sua morte. Fisga rapidamente pelas ilustrações leves e simpáticas, sem medo do estilo cartunesco e do bom humor – mas rebuscadas o suficiente para reproduzir cenários e criar uma ambientação excelente para cada momento da trama.

A narrativa também trata a nudez e as cenas de sexo com naturalidade, sem pesar a mão no aspecto erótico, mas também sem pudores. Os momentos sexuais, reforçando o espírito livre da modelo.

A verdadeira Kiki

A história, por tabela, mostra um pouco do que foi Montparnasse nos anos 1920, de uma efervescência cultural pouquíssimas vezes vista num mesmo conjunto de ruas e numa mesma época – outro caso foi a Ipanema dos anos 1960. Mergulhada nesse ambiente, Kiki acabou sendo um símbolo do bairro inteiro.

A HQ flui bem entre a vida pessoal de Kiki e seus diversos romances e sua integração com o meio cultural do qual passa a fazer parte. E são muitas as referências reais buscadas pela arte, sejam as pinturas ou fotos de Kiki, retratada por vários artistas, ou o uso do corpo dela, nua, nos pequenos filmes de Man Ray, que hoje podem ser encontrados com facilidade no YouTube (como O Retorno à Razão e L’Etoile de Mer) . O leitor pode, assim, se espantar e atestar que aquela personagem  existiu de verdade.

Se um mérito do álbum é traduzir bem por que Kiki era tão cativante para quem a conhecia – notadamente os artistas que a queriam em sua cama ou, pelo menos, por perto – outro é não defender nem condenar a modelo por suas atitudes.

Kiki entrega-se ao sexo, ao álcool e, a partir de determinado momento, às drogas. Trai seus amores sem muita cerimônia. Levava a vida de uma maneira muito diferente do que se esperava de uma mulher na época – não levantando bandeiras, mas de maneira espontânea.

A edição ainda traz, no final, uma boa cronologia da vida de Kiki e mais perfis dos principais artistas que aparecem na história, que como toda boa adaptação biográfica ficcionaliza alguns eventos, mas é fidelíssimo ao espírito do biografado.

Eu conheci Julia Kendall em 2004. Confesso que, a princípio, o motivo do meu interesse foi mesmo a semelhança (proposital, assumida de cara) com a Audrey Hepburn. Não me arrependi, porque a revista – primeiro Julia – Aventuras de uma Criminóloga, como no original italiano, depois mudado para Aventuras de uma Criminóloga porque a editora daqueles livrinhos românticos ficou com medinho – me pegou de jeito.

A narrativa é cinematográfica e possui uma cadência admirável. Parece que cada história é pensada como um filme e a orquestração dos planos é um espanto. E há sempre brincadeiras: os personagens fixos lembram outros atores – Whoopi Goldberg, John Malkovich, John Goodman, um jovem Nick Nolte…

Pois bem. Aventuras de uma Criminóloga foi eleita algumas vezes, por prêmios e enquetes diferentes, a melhor revista mensal publicada no Brasil. É, até prova em contrário, a mais constante em termos de boa qualidade. Mesmo assim (ou talvez exatamente por isso – afinal, estamos no país do “Rebolation”) vende pouco. Isso, segundo a Mythos Editora, que anunciou o fim da publicação.

A edição atualmente nas bancas, a 68: contagem regressiva?

O último número seria o 67, de julho. Houve chiadeira dos leitores e a editora anunciou que estucou a publicação até outubro, no número 71. E deixou a esperança de, se houver um aumento nas vendas até lá, a revista será salva por mais uma temporada.

Em coma, a revista publicada originalmente pela Bonelli Comics (a mesma do Tex, Zagor, Ken Parker, Martin Mystére, Nathan Never, etc) é alvo agora de uma cruzada dos fãs – por exemplo, no blog Aventuras de uma Criminóloga. Na internet, eles tentam conquistar novos leitores para a revista e até surgiu uma medida ousada: a ideia de comprar duas revistas e presentear um possível futuro leitor com uma delas.

Assim, a venda da revista aumentaria automaticamente e ainda há o risco de parte desses novos números se manter com o tempo. Julia merece.

Em tempo: o desenho lá de cima é originalmente em preto-e-branco. A colorização show de bola é do Audaci Jr, outro fã de Julia (e da Audrey).

Dilemas de gente grande

Snoopy e Lucy ainda ganhariam espaço...

Charles Monroe Schulz desenhou a tira Peanuts por 49 anos, de outubro de 1950 a dezembro de 1999, quando se aposentou, dois meses antes de morrer. Nesse período, escreveu e desenhou sozinho as 17.897 tiras que compõem uma das maiores obras artísticas do século 20. Schulz criou Charlie Brown, Snoopy, Lucy, Linus, Schroeder, Patty Pimentinha e vários outros personagens que representavam, como crianças, sentimentos bem adultos como paixões não correspondidas, frustração e medo da rejeição. E o início de tudo está nos dois primeiros volumes da coleção Peanuts Completo (L&PM, 358 páginas cada).

O luxuoso primeiro álbum, ponto de partida da ambiciosa série, segue da primeira tira até 31 de dezembro de 1952, com os primeiros passos do personagens de Schulz. Logo na primeira tira, um menino fala do “bom e velho Charlie Brown” para no final disparar: “Como eu o odeio”. Ela já dá o tom do que vem a seguir: a vida não é nada fácil para Charlie, que se sente extremamente só em um mundo hostil, numa representação de um sentimento que todos já vivenciamos.

Mas o tom de Peanuts ainda estava em formação e mesmo quem conhece a obra de Charles M. Schulz, pode estranhar, a princípio, as tiras: as piadas giravam bastante em torno do universo infantil, embora a crueldade das crianças já estivesse bem presente. E todos os personagens eram mais jovens que suas versões mais conhecidas – alguns, como o precoce pianista Schroeder e Linus, irmão de Lucy e melhor amigo de Charlie, aparecem ainda como bebês.

Mesmo Lucy só aparece em março de 1952 – e ainda sem o caráter mandão que seria sua marca. No começo, Charlie divide a cena com as meninas Patty (que não é a Pimentinha) e Violet, que acabaram virando coadjuvantes, e o garoto Shermy, que depois sumiu. Snoopy está lá, desde a terceira tira, e embora já demonstre personalidade, só bem mais tarde – ainda não neste álbum – é que passaria a roubar a cena, dormindo em cima da casinha, dando asas à imaginação para ser o ás da Primeira Guerra e mostrando toda a autoconfiança que falta a seu dono, Charlie.

É visível o avanço de temas, de traço e de estilo que Schulz viria a ter nos anos seguintes. Nesse começo, ele estava tateando as possibilidades de seus personagens recém-criados. Com o tempo a tira apresentaria também mais e mais das dúvidas e estado de espírito que o próprio Schulz trazia consigo. Ele se acreditava um rejeitado desde a adolescência e o sucesso de seus quadrinhos não mudou muito essa idéia. Peanuts passou a ser um registro precioso de uma grande fase de mudanças na vida americana: os anos 1950 e 1960. A coroação veio com a capa da Time, em 1965, com o título “O mundo segundo Peanuts”. Era a tradução de nós mesmos. Depois disso, a tira só aumentou sua imortalidade.

...enquanto Shermy e Patty seriam ofuscados por Charlie Brown

The Complete Peanuts, versão original de Peanuts Completo, já chegou, em abril, à 13ª edição (referente aos anos 1975-1976) pela Fantagraphics. Ou seja: iniciada em 2004, a coleção tem, ainda, 12 volumes a serem publicados, somando 25 – a previsão é que ela só acabe em 2016. É uma série de fôlego, por si só, mas com um tratamento que a valoriza e está sendo mantido no Brasil pela L&PM.

Peanuts Completo tem capa dura e abre com um prefácio do escritor Garrison Keillor, um excelente posfácio do jornalista David Michaelis, da revista Time, e uma preciosa entrevista de Schulz a Rick Marschall, muito reveladora. Ele fala de seu passado, da certa melancolia que permeia seus quadrinhos e de como sempre detestou o nome Peanuts, título dado pela distribuidora, a United Features Syndicate. A edição inclui até um índice remissivo onde se pode localizar com facilidade personagens, temas, personalidades citadas, situações recorrentes.

A L&PM já publicava as tiras de Peanuts dentro de sua habitual coleção de livros em formato pocket – onde também saem coleções de tiras de outros personagens como Hagar, o Horrível e Garfield, de autores nacionais como Laerte e Angeli, e também da Turma da Mônica.

O segundo volume de Peanuts Completo está nas livrarias desde março e compila tiras de 1953 e 1954. Os desenhos se aproximam das versões mais famosas, Charlie começa a bater recordes de derrotas seguidas no beisebol, Lucy começa sua saga de tirania e aparecem os primeiros balões de pensamento do Snoopy. As tiras também fazem comentários sobre assuntos do momento como a bomba H. E é só o começo. Testemunhar essa fundamentação de uma obra é um presente para os leitores: certamente, será um prazer para quem gosta de HQs – ou mesmo para quem só conhece os personagens pelos desenhos animados.

* Matéria publicada no Jornal da Paraíba.

Há uns meses eu fui convocado pelo amigo Luwig, no Pulse, para segui-lo em uma missão titânica que dizia respeito a mulheres e HQs. Bastante por falta de tempo e muito por falta de competência, fui deixando a coisa mais para a frente, embora nunca a tenha esquecido. Vamos ver se sai alguma coisa agora.

Ele propôs as mulheres de cinco criadores, o que me deixou com os dois pés atrás. Não creio que seja assim tão especialista a ponto de resumir as mulheres de um autor – em cinema, até dá. Mesmo assim, tentemos, levando em conta limitações e idiossincrasias.

As mulheres de Terry Moore

Katchoo e Francine, entre o cartum e o realismo

Katchoo e Francine são vários lados de uma mesma moeda na ótima série Estranhos no Paraíso. Traumas, inseguranças e desencontros amorosos fazem par com muita ternura e bom humor com que Moore tempera a vida de suas heroínas. Elas se completam: Katchoo é a durona, enquanto Francine é a frágil. Mas Katchoo tem uma série de feridas por dentro e é Francine que vira seu apoio. A tênue linha entre amizade e amor é o ponto chave (pelo menos no início da série, que voltou a sair no Brasil pela HQM – aguardamos o seguinte!).

As mulheres de Quino

"O que importa é o que a Mafalda pensa de mim", Julio Cortazar

“O que eu penso da Mafalda não tem a menor importância. Importante mesmo é o que a Mafalda pensa de mim”, dizia o escritor Julio Cortazar. Certíssimo estava ele. A garotinha argentina não se convence com nada que o mundo tenta enrolá-la. Sempre tem uma verdade na ponta da língua para atirar. Quando crescer vai dar um trabalho…

As mulheres de Manara

As mais belas e despudoradas (ou não) mulheres dos quadrinhos

As mulheres de Manara não querem e querem ao mesmo tempo. Vivem num conflito interior danado que simplesmente some do sexo. Se com Claudia Christiani a gente chega qa fica em dúvida se ela está mesmo sob efeito da maquininha do Clic, com Gullivera e outras, a dúvida é saber se elas também não tem a maquininha.

As mulheres de Charles M. Schulz

Lucy: fazendo e desfazendo dos meninos (menos do Schroeder)

É óbvio que os personagens de Schulz são tanto crianças quanto representações infantis dos adultos. Sendo assim, seu universo feminino é poderoso como poucos nos quadrinhos. Na linha de frente está, claro, Lucy van Pelt, a miniatura de matriarca, que não leva o mínimo desaforo para casa.

Lois Lane

A Lois original de Jerry Siegel e Joe Shuster e o começo do triângulo amoroso

Aqui, quebro a regra. A abelhuda repórter do Planeta Diário já está com mais de 70 anos de estrada, passou por inúmeros roteiristas não só nas histórias em quadrinhos, mas em séries de animação, séries com atores, cinema, e conseguiu sobreviver a todos eles sem grandes alterações. Se isso não mostra a força de um personagem, não sei o que mais pode mostrar.

Lois está lá desde a primeira história do Super-Homem na mitológica Action Comics 1. Está na gênese do herói, faz parte indissoluvel de sua origem e trajetória – apareceu antes mesmo de Lana Lang, amor de adolecência de Clark! É por isso que, mesmo que eventualmente ele tenha tido uns namoricos por aí (e ainda haja sempre aquele clima interessante com a Mulher-Maravilha), ela é a número 1.

Em seu post, Luwig fala das complicações genéticas, possíveis efeitos colaterais e tudo. Já discutimos isso no antológico Comic Show do dia dos namorados, mas sustento: sendo personagens de ficção, basta colocar lá um cientista atestando que eles são, sim, compatíveis e pronto. Tudo resolvido. A mitologia, pra mim, é mais importante que a fisiologia das HQs.

(Aliás, como eles estão casados nas HQs, pra mim metade do problema já está superado).

Com uma ou outra mudança, adaptada aos conservadores anos 1950 nos quadrinhos ou remodelada para os 1980 por John Byrne, romântica em Superman – O Filme ou sexy e arrogante em Lois & Clark e em Superman – Animated Series, ela continua basicamente a mesma que apareceu em 1938: faz tudo por uma boa matéria, não tem medo do perigo e também é algo cínica, além de atravessar aqueles anos conservadores para se mostrar independente, competente e segura, como já era nos anos 1930 – mas o amor pelo Super-Homem nunca deixou de fazê-la derreter, mesmo não percebendo que ele está ali na mesa ao lado como Clark.

Até que, em Lois & Clark e nos quadrinhos, isso foi revelado e ela acabou se casando com ele. No cinema, não, mas tiveram seu namoro em Superman II (1981), que se refletiu em um inesperado filho em Superman – O Retorno. Lois é maior que todos os seus autores – e eles sabem disso.

“Por mais abstrato que você faça o filme, por mais que você disfarce e modernize, é que nem o jazz. No jaz existe uma melodia e você quer voltar a ela. Mesmo as pessoas que fizeram jazz moderno, como o Charlie Parker, têm um respeito enorme pela melodia. Podem pirar, mas têm a melodia ali. E quando os músicos acabam abstraindo tanto que não se percebe mais a melodia, as pessoas perderam o interesse pelo jazz, em grande medida.

A mesma coisa é verdade no cinema ou no teatro. É ótimo ser novo e original na estrutura, mas você sempre precisa voltar para o que acontece depois, porque é isso que os espectadores querem saber”.

Woody Allen, em Conversas com Woody Allen, de Eric Lax.

Um cachorrinho gente boa

A primeira aparição do Bugu: o Bidu tem seu próprio universo de histórias

Dentro do universo de Maurício de Sousa, o Bidu ocupa um lugar especial. Não só por ser o primeiro personagem criado pelo autor, início e símbolo de uma trajetória única e vitoriosa na HQ nacional, mas também por ser o único entre eles que assume vários papeis. E todos eles estão bem representados em Bidu 50 Anos (Panini Books, 162 páginas), uma das edições que comemoram o cinquentenário de carreira de Maurício.

Bidu pode ser apenas o cãozinho de estimação do Franjinha, e foi assim que começou, em 1959, nas tiras de jornal. Com o tempo, ganhou personalidade para interagir com outros animais da vizinhança. Depois, surpreendentemente passou a fazer trocadilhos com objetos inanimados – dos quais a mais famosa é a Dona Pedra. Astro que é de suas próprias HQs, passou a ser importunado pelo bicão Bugu e a se comportar até com certo estrelismo frente ao pobre contrarregra Manfredo. Como “ator”, até grandes épicos em suas historinhas ele interpretou.

A versatilidade do cachorrinho azul é tanta que a edição quase não consegue dar conta, mas dá. Começando por preciosas histórias que saíram na antiga revista Bidu, que Maurício publicou pela Editora Continental em 1961. A primeira edição dessa revista é republicada em um fac-símile que acompanha Bidu 50 Anos – sem dúvida, um marco histórico dos quadrinhos nacionais, que antes estava absolutamente fora do alcance do leitor comum.

Edição tem capa dura e "relê" a capa do primeiro número de "Bidu"

Dessas primeiras histórias em preto e branco, o livro avança até… o preto e branco. Se começa com o Bidu “primitivo”, a edição termina com uma história inédita na estética “semimangá” da Turma da Mônica Jovem. No meio, o azul do Bidu predomina em tramas onde o bom humor dá o tom, sempre.

Várias delas são clássicas, como “A volta do velho Rinti”, já dos anos 1980. Já “‘Olha eu’ aqui, gente!” mostra a primeira aparição do Bugu – ainda andando em quatro patas e – incrível! – sem ser chutado no final. “O valentão”, dos anos 1970, cria até uma “origem” para o Bidu, e dramática: um originário de família rica, desprezado pelos irmãos.

Em capa dura e edição impecável, Bidu 50 Anos é uma homenagem justíssima a um personagem que está no rol dos grandes cachorros dos quadrinhos. Gente muito boa.

Primeiro, você já foi à página de comemoração dos dez anos do Universo HQ? O site mais importante do Brasil sobre quadrinhos fez aniversário este mês e merece todos os parabéns. Eu mandei os meus, mas tem muita gente boa por lá, como o Maurício, o Vítor Cafaggi e até o Audaci Junior.

Acontece, também, que a ótima crítica do Eduardo Nasi, no site, sobre Turma da Mônica – Romeu e Julieta cita a minha matéria publicada no dia 1º, no Jornal da Paraíba. Era sobre o lançamento do álbum e citava o fato de que 12 páginas foram cortadas na edição em duas partes publicada em 1979. Fato que – surpresa! – nem o Maurício de Sousa sabia.

Bem, fiquei devendo a publicação da matéria aqui. Então aí vai. O maior clássico da Turma da Mônica (na minha opinião).

***

Mônica e Cebolinha encenando Shakespeare

Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta é uma das mais clássicas histórias da turma criada por Maurício de Sousa – e foi republicada algumas vezes desde seu lançamento, há 30 anos. A mais recente faz parte das comemorações pelos 50 anos de carreira do quadrinhista e recebeu finalmente um tratamento de luxo: tamanho grande, capa dura, novas cores e papel couché. Rebatizada de Turma da Mônica – Romeu e Julieta (Panini Books, 68 páginas), ela também surpreende quem só conhece a versão original: a história possui 12 páginas a mais.

A história surgiu como uma peça homônima, em 1978, encenada com atores fantasiados, e que, além de ficar dois anos em cartaz em São Paulo, ainda rendeu um LP e um especial para a TV gravado na cidade histórica mineira de Ouro Preto. No texto de Maurício de Sousa e Yara Maura Silva (que também escreveu as canções com Márcio de Sousa), os personagens de Shakespeare viravam Julieta Monicapuleto, Romeu Montéquio Cebolinha, Frei Lourenço Cascão e a Ama Gali.

Ainda em 1979, surgiu a versão em quadrinhos – que inclui até as músicas do espetáculo – com desenhos de Emy Acosta e artefinal de Alice Takeda. A primeira parte foi publicada na revista Cebolinha 82, de outubro, e a segunda em Mônica 115, em novembro. Comparando com a versão atual, a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA teve a surpresa: 12 páginas a menos na edição original. Teriam sido cortadas na época ou criadas e adicionadas depois?

A Maurício de Sousa Produções foi procurada e a reação foi de total surpresa. “O Maurício ficou surpreso. Ele nunca soube do corte de páginas na primeira publicação de Romeu e Julieta. A história foi produzida como saiu neste último álbum, inteira”, contou, por e-mail, o jornalista Sidney Gusman, da área de planejamento editorial da MSP. “Caí duro”, confirmou Maurício, pelo Twitter. “Nunca soube da ‘reedição’!!”.

A Editora Abril, que publicou as revistas da MSP de 1970 a 1987, cortou as páginas. “Hoje provocaria ruptura de contrato”, afirmou Maurício de Sousa. “Mas leve em consideração que alguém do estúdio pode ter autorizado na época. Faz tanto tempo…”. No mesmo ano, uma edição especial contou com as duas partes da história, desta vez, integralmente.

Mas no Almanaque da Mônica 31, de 1986, ela voltou a aparecer cortada e com o texto reacomodado. Na Editora Globo, ela voltou integral na Coleção Um Tema Só, em 1993, no Gibizão da Turma da Mônica, em 1997, e no Clássicos da Literatura Turma da Mônica, em 2005. Esta é a primeira publicação pela Panini. “Analisando o que foi cortado, percebo que foram as páginas com as letras das músicas”, contou Maurício de Sousa. “O editor da época achou que estava sobrando. No gibi não há som, daí…”.

A importância da história de Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta é grande para o estúdio. Sua narrativa é marcada pelos enquadramentos que fogem do habitual, desenhos muito expressivos e por ser uma inusitada HQ musical. Agora, há planos para transformá-la no próximo longa de animação da Turma da Mônica. Shakespeare nunca imaginou onde sua tragédia chegaria.

Mais:

Entrevista com Sidney Gusman, editor do Universo HQ e do álbum MSP 50.
– Crítica do MSP 50
– Assista o Comic Show sobre Maurício de Sousa
– Confira previews do MSP 50
– Leia a minha entrevista com Maurício de Sousa (em quatro partes)

A melhor HQ do ano, pelo júri do Gibizada

Telio Navega convocou os colegas da imprensa quadrinhística para elegerem os melhores quadrinhos do ano – e este seu criado fez parte do colégio eleitoral. A lista completa está lá no Gibizada e o mais votado foi Sábado dos Meus Amores, que eu não li, com o MSP 50 em segundo.

E Paulo Ramos analisa tudinho no Blog dos Quadrinhos. Aproveita e também faz uma detalhada retrospectiva do ano. Como o ano ainda está começando, ainda vaçe essa olhada sobre o ombro para ver como foi o ano passado.

(E pra você, que é da era das cavernas, perceber que quadrinhos são uma forma de arte como qualquer outra, comportando muita variedade e atingindo públicos de idades diversas)

O início, segundo Crumb

Deus cria o dia e a noite, na visão de Crumb

Celebradíssimo desde seu lançamento, Gênesis (Conrad, 216 páginas) realmente impressiona. Surpreende de cara porque o mestre da contracultura Robert Crumb não desconstrói o texto bíblico, como seria de se esperar. Ao contrário: fez questão de colocar o texto integral e ilustrá-lo com fidelidade canina.

E se há um lado iconoclasta em Gênesis, ele está justamente nesta fidelidade, por incrível que pareça. As cenas de sexo, por exemplo, são mostradas sem censura, embora não haja nada pornográfico ou de mau gosto. E aí entra até o incesto, na sequência em que as filhas de Ló o embebedam para dormir com ele e engravidar. Há também alguma violência – nada chocante para narrativas tradicionais, mas certamente pode surpreender quem costuma fazer vistas grossas para passagens assim da Bíblia.

É claro que usar o texto integral traz benefícios e prejuízos. Crumb fica blindado contra qualquer acusação de blasfêmia ou outra bobagem, mas o texto também se torna arrastado em diversos momentos, com as repetições típicas do texto bíblico, sem falar nas várias sequências em que são narradas as descendências dos personagens.

Mas mesmo esses limites justificam a obra, já que o próprio Crumb conta na introdução que é difícil encontrar o texto bíblico sem simplificações e cortes. Assim, o fato de estar na íntegra é uma curiosidade em si mesma e o ilustrador coloca seus desenhos a serviço dele. A edição – em capa dura – tem uma longa introdução do próprio Crumb e, no final, notas explicativas e comentários do artista sobre cada capítulo.

E os desenhos de Crumb conseguem extrair grande dramaticidade das passagens, mesmo sem poder esticar a narrativa e se manter como ilustração do texto. Sua postura acabou dando mais humanidade à narrativa bíblica. Um trabalho poderoso e exemplar.

Conversei com o Sidney Gusman por telefone na semana passada para essa matéria que foi pubolicada domingo no Jornal da Paraíba. Aqui, ele fala sobre como foi criado o álbum MSP 50 e outras edições comemorativas do cinqüentenário do Maurício de Sousa.

***

Bidu e Franjinha, por Laerte

Quando começou a pensar em qual seria o principal produto que comemoraria os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa, o jornalista Sidney Gusman, da área de planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções, tinha uma ideia em mente. “A edições comemorativas que foram feitas antes eram legais, mas eu queria que o mercado prestasse essa homenagem”, disse, por telefone, de São Paulo. Inspirado pelos álbuns Mônica 30 Anos (1993), onde artistas internacionais fizeram desenhos da personagem, e Asterix e Seus Amigos (2008), em que o gaulês foi homenageado por histórias de vários autores, ele chegou ao MSP 50 – Maurício de Sousa por 50 Artistas (Panini Books, 192 páginas).

O álbum reúne o trabalho de 50 quadrinhistas brasileiros convidados a recriar, cada um a seu modo, o universo de Maurício de Sousa. “Na verdade, a ideia nem é muito nova, mas era nova para o universo do Maurício”, contou. “Cheguei pro Maurício e apresentei a idéia. Aí, comecei a fazer a seleção dos escolhidos. Quando comecei  convidar, os caras piraram”.

Gusman procurou diversificar ao máximo: foram selecionados autores de 13 estados diferentes e de estilos também distintos. “Poderia pegar 50 caras só de super-heróis, mas queria um cara do humor, um cara do underground…”, apontou. “A maioria se sentiu absolutamente honrada. Teve gente que disse: ‘Pô, e você ainda quer me pagar?’”.
Maurício não interferiu nas histórias, mas acompanhou a empolgação de Gusman a cada colaboração recebida. “Você não sabe a alegria do Maurício quando encontra um autor”, revelou. “Ele me pediu um exemplar com autógrafos dos 50 para guardar”.

Como editor do álbum, Sidney Gusman acha que o MSP 50 serve também para desmistificar a imagem de Maurício como alguém distante do mercado. “E também para mostrar para quem só lê o Maurício, que é a grande maioria de leitores de quadrinhos do país, o quanto tem de gente boa fazendo quadrinhos nesse país”, afirmou.

Três autores acabaram recusando a participação por falta de prazo, mas terão uma segunda chance: um segundo volume já está confirmado, e com lançamento marcado para a Bienal de São Paulo, em agosto do ano que vem. Até lá, ainda virão alguns lançamentos especiais que comemoram os 50 anos, como uma série de tiras pela L&PM. Outros ainda estão sendo tramados em segredo, mas as livrarias já contam com mais edições especiais: caso de Bidu 50 Anos e Turma da Mônica – Romeu & Julieta.

As duas em capa dura, assim como o MSP 50 (que também é encontrado em capa cartonada, mais barata), um marco para o estúdio. “Ele abriu essa possibilidade: mostrar que a Turma da Mônica pode ser usada de muitas outras formas”, disse Gusman.

Mais:

– Crítica do MSP 50
– Assista o Comic Show sobre Maurício de Sousa
– Confira previews do MSP 50
– Leia a minha entrevista com Maurício de Sousa (em quatro partes)

A genialidade na variedade

Mônica e Magali por Ivan Reis, que desenha super-heróis para a DC

Como qualquer coletânea formada por autores diferentes, MSP 50 – Maurício de Sousa por 50 Artistas (Panini Books, 192 páginas) tem histórias melhores que outras. Mas a genialidade do álbum está até nisso: a diferença entre elas, a grande variedade de visões e estilos somados em torno da obra de Maurício de Sousa. E se algumas são melhores que outras é porque todas são muito boas, mas algumas são belíssimas e, entre elas, há obras-primas.

Com muita liberdade para criar, vários artistas optaram pela piscadela de um “parabéns, Maurício” em suas páginas. Outros, aproveitaram até para divulgar seus próprios personagens. Mas alguns criaram histórias com vida própria e desde já antológicas. Laerte, por exemplo, abre o álbum com um delicado retorno aos primeiros personagens de Maurício: Bidu e Franjinha. Ivan Reis, atual desenhista do Lanterna Verde, usa seu estilo de super-herói para dar traços realistas aos personagens. Otoniel Oliveira coloca um Franjinha adulto reencontrando uma Marina que virou artista plástica – lembrando também a filha de Maurício que desenha e também é personagem. Orlandeli fala do desaparecimento do Capitão Feio e Vítor Cafaggi vai ao extremo do romantismo com o Chico Bento.

Compreensivelmente, há recorrências. Algumas histórias imaginam os personagens adultos entre recordações da infância. E, Astronauta, Chico Bento, Piteco e o Louco foram personagens muito visitados – além, claro, da Turma da Mônica propriamente dita. Mas mesmo as coincidências são tratadas de maneira muito diferente, como o Louco de Jean Galvão e o de Fábio Lyra (que contracena com a Tina). Alguns autores, como Fido Nesti e a dupla Fábio Moon & Gabriel Bá foram buscar na memória lembraças de produtos associados aos personagens: uma boneca, um lençol.

Há caricaturas, cartuns, quadrinhos caricatos, de humor escancarado ou de tom filosófico. Há dos traços únicos de Samuel Casal para o Penadinho e de Rafael Sica para o Cebolinha até o estilo mangá de Erika Awano para – vejam só – o caipirinha Chico Bento. Há até quem tenha se aproximado do estilo mauriciano, como Spacca, com o Horácio. Há de quase tudo, com muito bom gosto e muito carinho pelos personagens. Uma edição impecável, que homenageia não só Maurício de Sousa, mas também o talento dos quadrinhistas brasileiros.

Mais:

– Assista o Comic Show sobre Maurício de Sousa
– Confira previews do MSP 50
– Leia a minha entrevista com Maurício de Sousa (em quatro partes)

Este post é para alguns amigos que pediram e estão acostumados com esse tipo de ajuda. Não fique constrangido: você pode pular para o próximo ou encará-lo como dicas pra você mesmo, se quiser.

Meu aniversário está aí e compreendo meus amigos que costumam quebrar a cachola para me dar um presentinho. Com meus mais de 600 DVDs na estante, é difícil saber o que eu tenho e o que não tenho. Eu costumava ter uma lista num site que minha linda amiga Vívian montou certa vez (agora, desativado). Assim, vou dar umas dicas para ajudar os interessados.

Por exemplo, tem uns livros do Ruy Castro que eu ainda não tenho. Como o mais recente, O Leitor Apaixonado. Mas também posso aceitar o Era no Tempo do Rei ou o Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero Musical. Ou ainda, alguma coisa editada e traduzida por ele, como O Livro dos Insultos, com textos de H.L. Mencken.

Há DVDs, sim, que eu quero ter e ainda não consegui. Por exemplo, o Persépolis duplo, os qualquer uma das três temporadas da série clássica de Jornada nas Estrelas, ou até Alf, o E.Teimoso. Ainda nas série, poderia ser qualquer uma das quatro temporadas de A Gata e o Rato.

E não acharia mal ganhar a edição dupla de Homem de Ferro, por exemplo. Ou o quarto volume da série animada do Batman (atenção, hein? Eu já tenho as três primeiras).

Há diversos clássicos que estão na minha mira. Ser ou Não Ser, A Caixa de Pandora (e se alguém se aventurar em me dar a edição importada da Criterion Collection, também não reclamo, hehehe).

Vale até ficar na promessa de mimos que estão saindo aí neste fim de ano. Por exemplo, as extraordinárias edições comemorativas de 70 anos de …E o Vento Levou e O Mágico de Oz, que só saem em dezembro. A Warner prometeu muita coisa para este fim de ano: a reedição em widescreen dos DVDs da série Harry Potter, o genial Intriga Internacional de Hitchcock em edição dupla e extras (espero) legendados, e o primeiro volume da coleção dos desenhos de Charlie Brown e Snoopy restaurados e em ordem cronológica

E por falar em Peanuts, a L&PM está lançando este mês o primeiro volume do sensacional Peanuts Completo. Vou fazer a coleção, é óbvio. Mas há muita coisa de quadrinhos aí que são uma tentação. Retalhos, o Gênesis de Crumb (o Vladimir Carvalho me ligou de Brasília para dizer que comprou e achou sensacional) e até o Turma da Mônica – Romeu & Julieta (o MSP 50 e o Bidu 50 Anos, naturalmente, já tenho). Ou o Verão Índio, no Manara e do Hugo Pratt.

Falando em Pratt, também fico feliz com qualquer edição de Corto Maltese ou Tintim, já que não tenho nenhuma. Mas as primeiras são, respectivamente, A Balada do Mar Salgado e Tintim no País dos Sovietes – só para lembrar.

Na linha dos super-heróis também tem muita coisa legal. Tem a Biblioteca DC Mulher Maravilha ou Os Novos Titãs, mas mesmo um da serie Grandes Clássicos DC, como Lanterna Verde e Arqueiro Verde, eu gostaria de ganhar. Só não vale Batman – Ano Um, que eu já tenho. Ou as séries Crônicas, DC 70 Anos e Superman 70 Anos, que também já tenho.

De Asterix, então, a lista é grande, porque eu tenho uns 15, mas falta mais da metade da coleção. Pode ser qualquer um desses: A Cizânia, Asterix entre os Helvéticos, O Domínio dos Deuses, Os Louros de César, O Adivinho, O Presente de César, A Grande Travessia, Asterix entre os Belgas, O Grande Fosso, A Odisséia de Asterix, O Filho de Asterix, As 1001 Horas de Asterix, A Rosa e o Gládio ou A Galera de Obelix. Ou até o novo O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro, que está saindo este mês.

CD? Qualquer um da nova edição dos Beatles serve.

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Variar as posições?

Claudia só é afetada pelo aparelho no final de 'Clic 3'

Claudia só é afetada pelo aparelho no final de 'Clic 3'

Se o italiano Milo Manara é um dos maiores autores dos quadrinhos eróticos, a série Clic certamente é o trabalho que mais o identifica. Clic 3 (Conrad, 72 páginas cada) e Clic 4 (Conrad, 56 páginas), lançadas há alguns meses e que fecham a coleção no Brasil.

A trama gira em torno de uma máquina que aciona um chip implantado dentro da protagonista Claudia Christiani, liberando sua libido e a transformando de uma mulher frígida em uma ninfomaníaca insaciável. Manara não economiza nas cenas de sexo e brinca com o fato de que todos podem ter fantasias semelhantes (as mais despudoradas) dentro de si.

O volume 3, curiosamente, tenta variar a trama, já que os dois primeiros são uma sucessão de situações de práticas sexuais cada vez mais ousadas e criativas de Claudia sob controle da maquininha. Aqui, Manara desenrola uma história na Amazônia envolvendo uma seita sexual e mineração, com o aparelho aparecendo só no final, para azar de Claudia.

Ou seja, não é bem uma história sobre o “clic”, mas uma fantasia erótica em que Manara brinca colocando um Marlon Brando como o líder da tal seita .

Em 'Clic 4', uma volta às origens do álbum original

Em 'Clic 4', uma volta às origens do álbum original

Ou seja, não é bem uma história sobre o “clic”, mas uma fantasia erótica em que Manara brinca colocando até um sósia de Marlon Brando como o líder da tal seita. Claudia encarna a repórter ligada a causas ecológicas, função que ela desempenha desde Clic 2 e que era bem diferente da socialite do primeiro volume.

No volume 4, Manara resolve voltar ao básico e a trama é ambientada entre as partes 1 e 2, com Claudia ainda como aristocrata. Essa volta ao passado é curiosa e soa até um pouco como um retrocesso, já que a personagem volta a ser uma retraída liberada pelo aparelho. Claudia, na verdade, nem é a protagonista da trama, e, sim, uma mulher que quer se vingar do marido dela.

Quanto ao erotismo, a história é outra: Claudia é a protagonista absoluta, sendo levada ao limite por Manara em situações de muito exibicionismo. Garante o show, mesmo com um roteiro que poderia ser mais inspirado. Em ambas as edições, porém, os desenhos de Manara estão – como sempre – deslumbrantes. São – há muito tempo – as melhores mulheres dos quadrinhos atuais.

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Esses drops do Comic Show estão ficando cada vez mais loucos – só vou dizer isso. Já mandou a frase pra promoção do programa com a Via Lettera? A gente deu uma esticadinha no prazo, mas já vai acabr, hein? Seis álbuns de quadrinhos de uma vez só: vai perder essa boquinha?

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Saiu a capa do MSP 50 – Maurício de Sousa por 50 Artistas, vocês viram? Olha ela aí em cima. O álbum (de 192 páginas) será lançado nos dias 12 e 13 de dezembro, na Bienal do Livro do Rio, e chegará às livrarias em duas versões: uma de luxo, com capa dura (custando 98 reais), e outra com capa cartonada, mais em conta (55 reais).

O desenho do Maurício na capa é de José Marcio Nicolosi, autor dos ótimos desenhos de Cascão Porker, que acaba de chegar às bancas. Os demais desenhos da capa são dos colaboradores que contribuíram com as histórias do álbum, aqui enumerados pelo Universo HQ: Laudo (Louco), José Aguiar (Magali), Laerte (Franjinha e Bidu), Manoel Magalhães (Astronauta), Samuel Casal (Penadinho), Benett (Jotalhão), Raphael Salimena (Horácio), Ivan Reis (Cebolinha), João Marcos (Cascão), Christie Queiroz (Mônica), Fábio Cobiaco (Anjinho) e Erica Awano (Chico Bento).

Mas uma novidade e tanto que o próprio Maurício soltou no Twitter é o primeiro álbum da coleção que vai republicar o Horácio completo. Particularmente, acho essa notícia tão importante quanto o MSP 50 ou mais até. O Horácio é um dos personagens mais interessantes dos quadrinhos nacionais, onde Maurício joga suas idéias e visão de mundo. Um dia sugeri ao Sidney Gusmán um almanaque com histórias autorais do Maurício e ele me respondeu dizendo que alguma coisa nesse sentido estava em andamento. Só pode ser esse!

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A data prevista é só 2011, mas já foi lançado na internet o primeiro trailer de Dear Mr. Watterson acaba de chegar à internet. Para os fãs de Calvin & Haroldo, é uma reunião de amigos: fãs falando da antológica tira de Bill Watterson (que não fala com a imprensa desde 1989). Joel Allen Schroeder, o diretor, é mais um desses fãs – há depoimentos de anônimos e famosos.

Antes do filme, sai em outubro nos Estados Unidos o livro Looking for Calvin & Hobbes: The Unconventional Story of Bill Watterson and His Revolutionary Comic Strip, de Nevin Martell. Trata-se de uma tentativa de biografia – porque o autor tentou entrevistar Watterson e também não conseguiu.

Calvin & Haroldo não é publicada desde 1995, quando o autor resolveu aposentar a tira. Avesso ao merchandising ou adaptações (todas os produtos que você vê por aí não são autorizados), recluso e sem produzir uma única tira nova há 12 anos, Watterson vê sua criação ainda nos jornais e livros, em republicações que não param. A Conrad colocou no mercado este mês A Hora da Vingança, seu sexto volume das tiras de Calvin – volume ete que já teve duas publicações anteriores no Brasil. É uma ótima maneira de esperar pelo doc – veja o trailer aí embaixo.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Longe do original

Lulu e Bolinha, irreconhecíveis

Lulu e Bolinha, irreconhecíveis

Por essa ninguém esperava. O sucesso retumbante da Turma da Mônica Jovem rendeu um filhote surpreendente quando foi anunciado o lançamento de Luluzinha Teen e Sua Turma (Pixel, 100 páginas): as crianças da turma da Lulu também viraram adolescentes em histórias que também levam a marca “em estilo mangá”. Nada disso seria problema, se não fosse por um pequeno detalhe: de Luluzinha mesmo há algo próximo de nada.

Os principais personagens – Lulu, Bolinha, Glória, Alvinho e Aninha – aparecem com destaque no número de estréia, parecendo formar o núcleo central. Outros da turma original mal aparecem, como o Carequinha e o Plínio. Mas, na verdade, faz pouca diferença porque mesmo os protagonistas estão completamente descaracterizados – a ponto de precisarem segurar um foto da versão clássica, para que a ligação seja feita.

Fica a impressão que o interesse na Luluzinha estava só no nome famoso e a possibilidade do marketing que ele traria. Se os nomes dos personagens fossem outros, o leitor não reconheceria qualquer um deles. Toda a ambientação também mudou: de um subúrbio americano, eles passaram a viver em uma cidade litorânea chamada Liberta – que certamente fica no Brasil, tendo em vista que a cantora Pitty aparece na trama.

Bolinha, inclusive, nem gordo mais é. Lulu perdeu os cachos e não há nem sinal da rivalidade entre eles. Renato Fagundes (que escreve os roteiros, ilustrado pelo estúdio Labareda Design) defendeu as mudanças em uma carta ao blog Gibizada: “Eles são jovens, têm o direito de mudar”.
A justificativa maior é ter ouvido o público-alvo.

O enquadramento dos personagens em diferentes estereótipos adolescentes e a definição de “temporada” para os arcos de histórias, como na TV, reforça a vontade da comunicação com o jovem. Mas entregar todas as opções artísticas ao público é um erro, já comprovado antes. E a trama, em si, não ajuda nada, com um mistério sobre o vandalismo na escola e bruscamente cortada para um merchandising do blog da Lulu (que existe mesmo).

Os desenhos também são repetitivos – com algumas imagens nitidamente copiadas e coladas. A Ediouro (dona do selo Pixel) apostou em artistas nacionais e obteve os direitos da personagem para fazer as mudanças. Mas perdeu o foco – ou não se importou com ele – e reinventou a Luluzinha completamente – e não para melhor.

A Set ressurgiu dos mortos?

O portal Comunique-se publicou matéria em que revela: a revista está de volta, com uma equipe toda nova: a mesma que forma o núcleo de entretenimento do Jornal do Brasil, no Rio. O sempre querido JB e a Editora Peixes, que publica a Set, fazem parte da Companhia Brasileira de Multimídia (CBM), que também controla a Gazeta Mercantil, a Forbes e a rede de TV CNT.

Nos comentários do Comunique-se, o cineasta e jornalista Alfredo Sternheim, colaborador da revista, expõe os problemas pelas quais não só a publicação, mas a editora vinha passando nos meses que antecedeu seu cancelamento, com atrasos de pagamento até a colaboradores. Ele diz, por exemplo, que não recebeu pelas últimas colaborações. Outras publicações da Peixes foram canceladas na virada no ano. A última edição tinha saído em abril.

Ou seja: voltou, mas mudou tudo. Vai melhorar? Vai piorar? Segue abaixo a matéria do Comunique-se:

Revista SET passa a ser feita por equipe do JB
Miriam Abreu, do Rio de Janeiro

A salvação da Set?

A salvação da Set?

O núcleo de entretenimento do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, assumiu a tarefa de produzir a revista de cinema Set, da editora Peixes, também da Companhia Brasileira de Multimídia (CBM). Dirigida pelo publisher do núcleo, Mario Marques, a publicação chega com textos da nova equipe já em junho. Em abril, as seis pessoas que faziam a publicação, de São Paulo, foram demitidas.

Marques coordena os editores Marco Antonio Barbosa, Robert Halfoun, Carlos Helí de Almeida e Nelson Gobbi.

Eles produzem a edição de junho, que terá a colaboração de três novos articulistas: Luiz Noronha, Pedro Butcher e Marcelo Cajueiro.

O filme O Exterminador do Futuro 4 ganha reportagem de capa da próxima edição.

Por pouco a revista não foi fechada. A demissão dos seis profissionais que a produziam, em abril, provocou uma série de boatos sobre o fim da publicação.

A demissão aconteceu após o fechamento da edição de abril. Os funcionários contratados como Pessoa Jurídica enfrentaram atraso de salários.

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