Há uns meses eu fui convocado pelo amigo Luwig, no Pulse, para segui-lo em uma missão titânica que dizia respeito a mulheres e HQs. Bastante por falta de tempo e muito por falta de competência, fui deixando a coisa mais para a frente, embora nunca a tenha esquecido. Vamos ver se sai alguma coisa agora.

Ele propôs as mulheres de cinco criadores, o que me deixou com os dois pés atrás. Não creio que seja assim tão especialista a ponto de resumir as mulheres de um autor – em cinema, até dá. Mesmo assim, tentemos, levando em conta limitações e idiossincrasias.

As mulheres de Terry Moore

Katchoo e Francine, entre o cartum e o realismo

Katchoo e Francine são vários lados de uma mesma moeda na ótima série Estranhos no Paraíso. Traumas, inseguranças e desencontros amorosos fazem par com muita ternura e bom humor com que Moore tempera a vida de suas heroínas. Elas se completam: Katchoo é a durona, enquanto Francine é a frágil. Mas Katchoo tem uma série de feridas por dentro e é Francine que vira seu apoio. A tênue linha entre amizade e amor é o ponto chave (pelo menos no início da série, que voltou a sair no Brasil pela HQM – aguardamos o seguinte!).

As mulheres de Quino

"O que importa é o que a Mafalda pensa de mim", Julio Cortazar

“O que eu penso da Mafalda não tem a menor importância. Importante mesmo é o que a Mafalda pensa de mim”, dizia o escritor Julio Cortazar. Certíssimo estava ele. A garotinha argentina não se convence com nada que o mundo tenta enrolá-la. Sempre tem uma verdade na ponta da língua para atirar. Quando crescer vai dar um trabalho…

As mulheres de Manara

As mais belas e despudoradas (ou não) mulheres dos quadrinhos

As mulheres de Manara não querem e querem ao mesmo tempo. Vivem num conflito interior danado que simplesmente some do sexo. Se com Claudia Christiani a gente chega qa fica em dúvida se ela está mesmo sob efeito da maquininha do Clic, com Gullivera e outras, a dúvida é saber se elas também não tem a maquininha.

As mulheres de Charles M. Schulz

Lucy: fazendo e desfazendo dos meninos (menos do Schroeder)

É óbvio que os personagens de Schulz são tanto crianças quanto representações infantis dos adultos. Sendo assim, seu universo feminino é poderoso como poucos nos quadrinhos. Na linha de frente está, claro, Lucy van Pelt, a miniatura de matriarca, que não leva o mínimo desaforo para casa.

Lois Lane

A Lois original de Jerry Siegel e Joe Shuster e o começo do triângulo amoroso

Aqui, quebro a regra. A abelhuda repórter do Planeta Diário já está com mais de 70 anos de estrada, passou por inúmeros roteiristas não só nas histórias em quadrinhos, mas em séries de animação, séries com atores, cinema, e conseguiu sobreviver a todos eles sem grandes alterações. Se isso não mostra a força de um personagem, não sei o que mais pode mostrar.

Lois está lá desde a primeira história do Super-Homem na mitológica Action Comics 1. Está na gênese do herói, faz parte indissoluvel de sua origem e trajetória – apareceu antes mesmo de Lana Lang, amor de adolecência de Clark! É por isso que, mesmo que eventualmente ele tenha tido uns namoricos por aí (e ainda haja sempre aquele clima interessante com a Mulher-Maravilha), ela é a número 1.

Em seu post, Luwig fala das complicações genéticas, possíveis efeitos colaterais e tudo. Já discutimos isso no antológico Comic Show do dia dos namorados, mas sustento: sendo personagens de ficção, basta colocar lá um cientista atestando que eles são, sim, compatíveis e pronto. Tudo resolvido. A mitologia, pra mim, é mais importante que a fisiologia das HQs.

(Aliás, como eles estão casados nas HQs, pra mim metade do problema já está superado).

Com uma ou outra mudança, adaptada aos conservadores anos 1950 nos quadrinhos ou remodelada para os 1980 por John Byrne, romântica em Superman – O Filme ou sexy e arrogante em Lois & Clark e em Superman – Animated Series, ela continua basicamente a mesma que apareceu em 1938: faz tudo por uma boa matéria, não tem medo do perigo e também é algo cínica, além de atravessar aqueles anos conservadores para se mostrar independente, competente e segura, como já era nos anos 1930 – mas o amor pelo Super-Homem nunca deixou de fazê-la derreter, mesmo não percebendo que ele está ali na mesa ao lado como Clark.

Até que, em Lois & Clark e nos quadrinhos, isso foi revelado e ela acabou se casando com ele. No cinema, não, mas tiveram seu namoro em Superman II (1981), que se refletiu em um inesperado filho em Superman – O Retorno. Lois é maior que todos os seus autores – e eles sabem disso.

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