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A entrevista a seguir foi publicada no Correio da Paraíba no dia 4 de maio, logo após o Cine-PE. No festival, ele mostrou o documentário O Mercado de Notícias, que tem estreia nacional hoje (incluindo João Pessoa) – o filme acabou premiado como o melhor doc do festival. No dia seguinte à exibição, almoçamos juntos para esta entrevista, que aproveito a estreia do filme para resgatar.

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Jorge Furtado dirigindo a peça dentro do filme

Jorge Furtado dirigindo a peça dentro do filme

Recife, PE – O cineasta gaúcho Jorge Furtado tem seus admiradores pelos filmes que dirige – principalmente O Homem que Copiava (2003), Meu Tio Matou um Cara (2004) e Saneamento Básico, o Filme (2007), todos com uma boa dose de comédia. Mas agora ele embarca em um gênero diferente: o documentário. Em O Mercado de Notícias, exibido no festival Cine-PE, ele se propôs algo ousado: analisar a grande imprensa brasileira em seus diversos aspectos éticos, políticos e mercadológicos.

Entrevistou um seleto grupo de jornalistas – Jânio de Freitas, Renata LoPrete, Luís Nassif, Mino Carta, Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Geneton Moraes Neto, José Roberto de Toledo e outros – e pontuou com a encenação de uma peça que descobriu e traduziu: O Mercado de Notícias, do inglês Ben Jonson, de 1625! O filme trata de fontes, publicidade, liberdade de imprensa e os erros do jornalismo, com alguns casos emblemáticos – José Serra e a bolinha de papel, a acusação sem fundamento contra os donos da Escola Base, e o suposto quadro de Picasso vítima do descaso no INSS que ganhou capa de jornal (e, no fim, era só um pôster comum do quadro original).

O projeto ambicioso já virou um site (http://www.omercadodenoticias.com.br) com a função de continuar estudando o assunto. Jorge Furtado conversou com o CORREIO sobre o filme e as inquietações que o levaram a pensar sobre a grande imprensa do Brasil, com todo o seu “gauchês”.

 

– Como esse filme foi surgindo pra você? Eu sei que você já falava sobre isso no seu blog, sobre questões da imprensa, mas como é que você começou a prestar atenção nisso?

– Tem vários assuntos que eu tratava no blog e que eu pensava: “Isso aqui dá pra filmar”. Quando começou a juntar material, começou a ter muita coisa, eu disse: “Olha, isso aqui… É um assunto interessante, um assunto que ninguém tá falando”. É uma questão muito importante e pouquíssimo comentada porque a imprensa não se critica. Isso aí, na entrevista do Jânio, que tá inteira já no site e eu não usei no filme – aliás, revendo a entrevista eu devia ter usado – ele diz: “A imprensa brasileira vive uma coisa assim: eu te protejo, tu me proteges e nós nos protegemos”. Ninguém nem comenta. O Globo jamais diz assim: “A Folha errou”. E nem a Folha: “O Globo publicou isso, assim, que não é verdade”. Existe um certo compadrio, assim. Esse assunto tá meio interditado. É um assunto meio proibido. Aí, bom, como é que seria um documentário sobre isso? Eu sempre usei a internet, desde 1997, para botar textos alternativos à imprensa. Vê, 1997 ainda era governo Fernando Henrique. E aí esse processo, com o Lula em 2002, se radicalizou muito. A imprensa virou realmente um partido de oposição. Ela publicava o que queria e da maneira que queria, e não tinha muito espaço para a contestação. Daí, eu comecei a me interessar por esse assunto. E em 2006, resolvi fazer o filme. E quando achei a peça, pensei: “Vou usar a peça como linha condutora para essa conversa”.

 

– Entre os casos que você cita no filme, o público gostou muito do Picasso do INSS (em 2004, a Folha deu na capa com alarde que um quadro de Picasso estava vivendo um descaso no INSS, o que repercute no Brasil e no exterior; mas a observação de alguns leitores logo apontou que se tratava de uma reprodução fotográfica, sem valor algum). Você filmou o verdadeiro em Nova York. Foi lá para isso?

– Foi uma coincidência total. Eu fui a Nova York por causa do Emmy e aí falei pra minha esposa: “Vamos ver o Picasso”. O quadro é do Metropolitan. Fui direto pra sala do Picasso, mas o quadro não estava lá. Aí, fala com o guarda, com o gerente: “Cadê o quadro do Picasso?”. “Não sei”. Voltamos pro hotel e vi no jornal: exposição no Guggenheim, “Picasso em preto-e-branco”. Aí, pensei: “Mas o quadro não é em preto-e-branco. Mas vamos lá”. E ele estava lá. Filmei com uma câmera escondida. É engraçado porque basta olhar. Ele é desenhado a pincel. No pôster, é exatamente a mesma pincelada, só que em preto-e-branco. Quem é que achou que isso era um Picasso? Só quem não prestou atenção nem em um, nem no outro – é só olhar, são idênticos. Nenhum dos jornalistas que fizeram a matéria pensou em medir com uma régua! Qualquer obra de arte clássica tem as dimensões oficiais – nenhum disse as dimensões, eu tive que calcular o tamanho por uma tomada que tinha do lado, pra saber que o quadro do INSS tinha 30 centímetros. Mas é porque a pauta tava pronta: era mostrar o quadro com a foto do Lula ao fundo!

 

– A gente ainda está tentando entender as manifestações do ano passado, mas o papel da imprensa foi duplamente atacado. Ao mesmo tempo as pessoas diziam que a imprensa estava contra o governo e as manifestações estavam sendo incentivadas por ela e também diziam que a imprensa não estava mostrando as manifestações porque estava contra o povo. Que leitura você fez disso?

– Foi bem estranho. Realmente não deu pra entender muito bem. Porque quando começou parecia que o governo estava navegando num mar tranquilo. De repente, com as manifestações de rua, a popularidade da Dilma cai e a imprensa percebe que aquilo ali é uma maneira, talvez, de minar essa popularidade. “O governo está sendo contestado, vamos divulgar isso aqui”. Só que a imprensa foi pra rua e foi recebida na porrada. Aí, começaram a filmar de cima dos edifícios porque não podiam ir lá embaixo. O movimento poderia ter ido contra o governo e usar a imprensa, mas a imprensa é um dos alvos dos protestos. E um protesto muito despolitizado… Esse movimento contra a política é uma coisa meio cíclica. Se tu pensar, em 1964, os golpistas diziam que a política só tinha corrupto. No Getúlio já era assim!

 

– E como você compara a imprensa no governo FHC com a do governo Lula?

– Fernando Henrique foi totalmente apoiado pela imprensa durante oito anos. Não tem um caso que eu possa dizer que a imprensa pegou no pé de Fernando Henrique. Nada, zero. O resto é recente: no momento em que o Lula se elegeu, o que é que acontece? Essas transformações mesmo tímidas do governo Lula, essa incorporação de uma multidão na classe média, esse investimento no mercado interno – que acabou salvando o Brasil de uma crise externa – isso criou uma idéia de que pela via democrática, pela eleição, vai ser difícil de tomar o poder de novo. Porque são 6% da população que vê notícia. 94% da população está pouco se lixando.

 

– É daí que vem a ênfase na corrupção quando se fala de política?

– Pois é. Aí o que que se faz? O Jânio (Quadros) se elegeu com essa ideia, de criminalizar a política. O Collor foi a mesma coisa. E agora, de novo: só se fala em política pra se falar de roubo, de corrupção. E a imprensa tem um papel decisivo nisso. O viés é sempre esse. Aí o que é que tá acontecendo? Na última pesquisa deu que 62% das pessoas dizem que não vão votar em ninguém! Um descrédito total da política. E isso é um terror porque sem política como é que faz?

 

– Você não acha que é complexo no Brasil isso no sentido de que quando o PT se elegeu, com toda uma esperança por trás de que certas coisas mudariam, e de repente, por causa do jogo da política, teve que buscar aliados no Sarney e o próprio Collor passando a fazer parte da base do governo. Isso não acabou também dando um certo nó na cabeça dessa pessoas? De pensar: “Meu Deus, mudou o quê, então?”

– Sei, se o Sarney tá apoiando, se o Collor tá apoiando, o que mudou? É, a política real tem esse problema. Uma coisa é tu vender na televisão e na campanha: “Somos totalmente diferentes”. Mas aí tu assume e “Não, não somos tão diferentes assim”. O PT acaba apostando um pouco eu acho nessa ideia de que 94% das pessoas não estão nem aí pro noticiário político. “Minha vida melhorou, vou votar”. Mas o espaço para a discussão pública, o debate público, vira uma loucura. Só se fala em grampo, em grampo, corrupção, roubalheira. Ninguém discute tendência política, propostas pro país, nada. E a imprensa tem um papel decisivo nisso.

 

– Alguém comenta no filme que a imprensa conservadora radicalizou de um jeito na luta contra o governo que uma pequena imprensa do outro lado também teve que radicalizar. E aí ficou uma  coisa Veja contra a CartaCapital, uma coisa de extremos.

– É, mas eu acho essa avaliação injusta com a CartaCapital. Porque não se compara com a Veja. Tu pode dizer o seguinte: a CartaCapital sem dúvida apóia a Dilma, a tendência é mais de esquerda, de apoio ao governo… Mas faz jornalismo! Tem boas matérias, tem informação, tem um certo equilíbrio – mesmo, às vezes, críticas ao governo. A Veja abandonou o jornalismo há muito tempo.

 

– É melhor ser claro no apoio, mesmo que o apoio seja esse conservador, ou buscar uma imparcialidade?

– Eu acho que é melhor ser aberto. Dizer “Eu apoio, voto em…”. Tem uma frase que diz “A política nos reúne sobre a melhor maneira de nos separar”. É isso, a política é dizer “eu não concordo com isso, mas vamos conversar, vamos ver o que se vai fazer”. Mas tem que ser um debate aberto, franco e que proponha um avanço. E não simplesmente tu dizer que eu sou ladrão e eu digo que tu é assassino. Talvez os dois tenham razão (risos), mas não se vai a lugar nenhum. Não é um debate, é uma troca de ofensas. E nessa sociedade midiática aí em que a fama e a infâmia parece que são sinônimos, as pessoas querem aparecer de qualquer jeito.

 

– A radicalização parece ainda maior na internet, não?

– A tendência é se radicalizar, cada um falando pro seu nicho. Também tem isso, né? O Raimundo Pereira no filme – o Raimundo acho que é o último comunista do planeta; o Niemeyer morreu e sobrou ele – diz assim: “Eu não sou um dos maiores admiradores da burguesia, mas o jornal burguês reúne um monte de gente”. Tem esporte, tem política, tem economia, tem cultura, tem de tudo, tu te informa mais ou menos ali, e pode haver dentro do jornal uma certa pluralidade e tu acaba lendo alguém com quem tu não concorda. O que acontece na internet? As pessoas só leem alguém com quem elas concordam. Aí o cara é fã do blogueiro tal, ele entra lá e só lê aquele cara, com quem ele já concorda.

 

– É no jornal impresso que essa pluralidade ainda pode ser encontrada?

– Dentro de qualquer veículo tem bons jornalistas. Nesse domingo foi o último dia de ombudsman da Suzana Singer na Folha e ela fez uma análise interessante: na questão da opinião, a Folha nada de braçada, é o único jornal que tem Reinaldo Azevedo e o Jânio no mesmo espaço. Uma pluralidade… Acho inaceitável que a Folha tenha colocado o Reinaldo Azevedo pra escrever, mas enfim… Tem uma pluralidade ali dentro: pode pegar o jornal e vai ver gente a favor e gente contra. No jornalismo, não. Ela mesmo diz: no jornalismo, ela é igual ao Estadão, ao Globo

 

– Essa pluralidade pode render conflitos dentro do próprio jornal, não é?

– A minha irmã é jornalista e trabalhou na sucursal da Veja no Rio Grande do Sul. Uma vez ela fez uma matéria sobre a Jussara Cony, que é uma deputada comunista, que se elegeu lá pelo PC do B, e foi a mais votada em Porto Alegre, mas não se elegeu porque o PC do B não faz o coeficiente eleitoral. Aí, a minha irmã achou interessante e fez uma matéria. Pô, ela fez 100 mil votos e não se elegeu! Aí, os caras: “Não, não vamos publicar”. “Mas por quê?”. “Porque ela é muito feia”. Ela é realmente feia, mas, enfim, o que tem a ver com o assunto (risos)? Quer dizer, às vezes o repórter, dentro do jornal, faz a matéria. Mas não sai, não publicam. É ridículo, um negócio incrível! Como diz o Paulo Moreira Leite: quando o editor não quer publicar uma matéria e não quer dizer que não quer, diz: “Vamos checar mais”. Vai checar pra sempre!

 

– Qual o papel do jornalista nisso tudo, então?

– O jornalista é uma profissão fundamental. E cada vez mais fundamental nessa confusão de informações que a gente recebe toda hora, alguém que diga – bom, se esse cara, se o Jânio tá dizendo… Ele pesquisou, ele não tá dizendo isso à toa. Bons jornalistas, né? Mas ao mesmo tempo, a indústria jornalística tá passando por uma revolução total.

 

– Sua pesquisa vai continuar no site?

– Vai. Ontem mesmo a (jornalista) Maria do Rosário Caetano me passou um texto do (economista) Paul Singer sobre a escandalização da política, “Escândalos em série”, na Folha. E eu vou botar no site. Vou continuar alimentando o site com textos sobre jornalismo, vou colocar todas as entrevistas, vou colocar a peça inteira e até fazer mais entrevistas.

O amor, a vida e arte

Domingos Oliveira: "O que é o amor? É o estado natural do homem"

Domingos Oliveira: “O que é o amor? É o estado natural do homem”

Homem de teatro e de cinema, principalmente, Domingos Oliveira está completando 50 anos de carreira em 2014. Diz respeito ao seu começo de carreira no teatro – o primeiro longa veio em 1967, o clássico Todas as Mulheres do Mundo, com Paulo José e Leila Diniz. O Canal Brasil vem há algumas semanas exibindo filmes do diretor às terças, às 23h15. 

Conversei com Domingos Oliveira após a coletiva no Festival de Gramado em que apresentou um dos dois filmes que lançou no ano passado: O Primeiro Dia de um Ano Qualquer – matéria publicada sábado, no Correio da Paraíba. Falou de algo específico da obra dele, essa contaminação entre teatro e cinema, mas falou principalmente dos assuntos que ama e sobre os quais giram seus filmes: a vida, a arte e o amor.

Sobre cinema, o diretor publicou um texto na imprensa, no final de 2013, reclamando da dificuldade de lançar seus filmes – Primeiro Dia sairia em apenas três salas, junto com outro filme seu, Paixão e Acaso.

Leila Diniz  em "Todas as Mulheres do Mundo"

Leila Diniz em “Todas as Mulheres do Mundo” (1967)

“Hoje está dez vezes mais difícil. Porque as pessoas que não são de cinema invadiram o cinema”, diz o diretor. “Nossa legislação é ruim, é deletéria mesmo. Basta dizer que ela é baseada em incentivos fiscais. Por exemplo, a Lei Rouanet. A primeira coisa que uma lei desse tipo faz é desligar dois amantes inseparáveis: o público e o cineasta. Não importa mais se o filme faz sucesso, importa se eu ganho patrocínio com ele. Não importa mais o que o público pensa do meu filme. Isso é horrível. A última notícia que se ouve é de um tipo de legislação que apoia tanto o mercado que vai dar os financiamentos na medida e na proporção do que você faturou no ano anterior. Ora, isso é dar dinheiro pros ricos. Em termos de colégio, isso é uma bela definição de capitalismo selvagem (risos).”

Mesmo com essa dificuldade, ele não desiste: já tem projetos engatilhados para este ano, inclusive um filme sobre a copa. “Eu e minha geração somos revoltados contra a condição humana. Somos revoltados contra a morte”, diz, aos 77 anos, sobre a simbiose entre sua vida e sua arte. “Acho que a morte é uma coisa que não deveria existir, que é incompreensível, que é absurda. Que torna toda a aventura humana uma coisa ridícula. E minha posição contra a morte é que eu sou contra! Daí que minha função na vida é lutar contra ela o tempo inteiro”.

Para ele, a arte é um dos elementos que o ser humano usa para essa luta. “Se todo mundo buscar modos de se distrair, não fica pensando besteira – porque pensar na morte é besteira, você vai morrer mesmo. Uns pensam em dinheiro, outros pensam até no amor”, filosofa. “São ‘alienativos’, digamos assim, são forças – umas mais construtivas, outras menos construtivas, outras até destrutivas – que podem afastar tua cabeça da ideia inexorável e inaceitável de que você vai morrer. Porque a natureza botou no homem um desejo imenso de fazer uma coisa que você não vai poder fazer – que é permanecer vivo”.

Fernanda Rocha, Maria Ribeiro e Domingos em "Separações" (2002)

Fernanda Rocha, Maria Ribeiro e Domingos em “Separações” (2002)

É aí que entra a arte. “Então você se aliena através de várias coisas: da política… Cada um inventa um jogo. Há jogos incríveis: mulheres pensando na sua beleza pessoal, homens pensando na sua ambição. Besteira. Tudo invenção. Invenção para escapar da preocupação essencial”, continua. “A melhor de todas as opções, digamos assim, a que constrói humanidades, constrói civilizações, é a arte. Eu sou inteiramente regido pela arte. Penso na arte o dia inteiro! Assim, eu não penso em besteira”.

Domingos Oliveira está escrevendo um livro de memórias – já terminou a primeira versão. O homem que viveu com Leila Diniz e fez para ela Todas as Mulheres do Mundo depois de se separarem e que mantém com a atriz e roteirista Priscilla Rozembaum há anos uma parceria de amor e arte tem muito a dizer sobre o amor.

“Sobre o amor, eu fiz muitos filmes, posso dizer que estudei isso a minha vida inteira”, disse. “A paixão acho que é estado máximo do homem para atingir a espiritualidade. A paixão é o Himalaia de Deus. Um lugar onde tudo está certo e se não está certo não poderia ser de outro modo”.

Teatro e cinema se contaminam na carreira de Domingos Oliveira, mas ele acha uma relação natural. “Todo o cinema bom é contaminado pelo teatro. O cinema jamais perdoará o teatro por um autor poder dizer: ‘Gente, estamos em Marte’ – e estamos. Ao passo que o cinema tem um jogo com o tempo, uma magia com o tempo que o teatro não tem”, diz.

Arte e amor são temas que também se contaminam há muito tempo – e, claro, na obra de Domingos também. “Acho que do amor não dá pra entender nada”, resume. “Ele é absolutamente incompreensível, ele é gratuito. É uma coisa mágica”.

Priscilla Rozembaum, Domingos e eu, em Gramado

Priscilla Rozembaum, Domingos e eu, em Gramado

Ele cita Schopenhauer – o “mais mal-humorado de todos os filósofos”, segundo ele – para uma explicação mais próxima sobre o amor. “Ele disse: ‘O amor é uma traição que a espécie faz com o indivíduo’. Durante algum tempo a pessoa ama e se torna um servo da espécie. A função é ter filhos para que a espécie possa continuar. E que a escolha da paixão é uma escolha complicadíssima, interna, muito mais racional de descobrir qual o parceiro que vai criar o melhor espécime futuro. Mas isso é uma bobagem. Eu acredito que o amor não tem nenhuma explicação”.

Para Domingos, a arte explica o mundo melhor que o amor. “Mas ela se alimenta do amor. E o que é o amor? O amor é o estado natural do homem”, define. “Só não ama quem levou muita porrada. O estado natural dos bebês é amar”. Ele complementa lembrando uma cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). “Eu me lembro do filme do Glauber Rocha em que vão procurar o Corisco e o cabra diz pra ele: ‘Corisco, vai embora daqui que vêm os soldados te matar. Você vai morrer’. E o Corisco se vira pra ele com uma cara terrível, nunca esqueci isso, e diz: ‘Eu já estou moooooorto!’”, diz, empostando a voz, quase interpretando o Corisco de Othon Bastos, para depois fazer a relação: “Tem gente sofreu tanto que já morreu em vida”.

Ele complementa com a relação do amor com a arte. “A posição natural do homem é amar. E a posição natural do homem é criar. Acho que essa espécie humana – tão estranha, de destino misterioso – tem duas vocações. Tem duas coisas que ela parece ter nascido para fazer: uma é trepar e a outra é criar. Entre a reprodução da espécie e a criação está a verdadeira vocação do homem”.

Eduardo Coutinho

Coutinho: “Quem fala sozinho está no hospício. Eu filme relações”

Ninguém que conheça a obra – e por aí a visão de mundo – de Eduardo Coutinho poderia sequer imaginar a maneira brutal e trágica como sua morte aconteceu ontem. Resolvi resgatar essa entrevista que fiz com ele em fevereiro do ano passado – provavelmente a última que ele concedeu para a Paraíba.

Cabra Marcado para Morrer (1984) iria abrir (como abriu mesmo) a Mostra Noite de Estreia. Não era, claro, uma estreia ao pé-da-letra, mas de certa forma era a maior estreia de todas da programação: a cópia restaurada, estalando de nova, em 35mm, de um dos grandes documentários brasileiros (e que tem a Paraíba como protagonista).

O próprio Coutinho só tinha visto o filme uma vez, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Ele ainda nem havia sido exibido nos cinemas cariocas. É a cópia que vai gerar o DVD oficial do filme, para o qual novas entrevistas foram feitas pelo cineasta para os extras e uma faixa de comentários em áudio foi gravada há poucos dias por ele, o jornalista Carlos Alberto Mattos (do blog de quem roubei a foto abaixo) e Eduardo Escorel.

coutinho

Conversei com Coutinho por telefone para o Correio da Paraíba. Falamos da cópia nova, das discussões entre televisão e cinema, do modo dele de fazer documentários, etc. Já disseram que ele não gostava de dar entrevistas, mas nosso papo foi muito bom, muito agradável. Conversamos bastante e poderíamos ter conversado mais, não fosse o deadline.

Segue aí nossa conversa, começando logo após minha abertura factual da mostra, que cortei:

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“Foi estranho, gosto de assistir ao filme escondido, no meio do público”, contou ele, que não assistiu às exibições em São Paulo. “A restauração foi feita em São Paulo e não me envolvi porque isso exige uma competência técnica que não tenho. ‘Corrigir o magenta’, eu não sei o que é magenta. Pedi a Lauro Escorel, que tem experiência com restaurações, que supervisionasse”. O trabalho de restauração foi meticuloso, quadro a quadro. “Salvou o filme”, celebra Coutinho.

Cabra Marcado para Morrer foi o primeiro filme de Coutinho, depois de seu período de nove anos no Globo Repórter. “Dentre as muitas regras, havia uma de que o repórter não poderia aparecer”, lembrou. “Para fazer o filme, disse: ‘Não importa se aparece o gravador, se eu apareço. Se tiver que aparecer, aparece’”.

É o resumo de seu estilo de cinema muito pessoal, em um gênero que tem lá seus conflitos entre “arte” e “comunicação”. Não faltam documentaristas que, por exemplo, dizem que não usam narração porque “cinema não é televisão”. Cabra Marcado para Morrer não está nem aí para isso.

“Eu apareço nos meus filmes. Alguns filmes são feitos por fantasmas. Não tenho nenhum problema com isso, há ótimos filmes feitos por fantasmas, só não é o meu estilo”, explicou. “Quem fala sozinho está no hospício. Eu filmo relações”.

Cabra Marcado não começou exatamente como um documentário, embora contasse uma história real. Coutinho, com Vladimir Carvalho como assistente de direção, estava na Paraíba em 1964, para filmar de forma ficcional o assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas. Mas o menos ficcional possível, tanto que convidou Elizabeth Teixeira, a viúva de João Pedro, para interpretar seu próprio papel, dois anos após o assassinato.

O golpe de 1964 interrompeu as filmagens e a equipe teve que literalmente fugir (levando junto Dona Elizabeth). 17 anos depois, Coutinho começou sua busca pelos participantes daquela aventura – agora, como um documentário onde o tempo é o grande tema.

Quando Coutinho soube que Elizabeth ainda estava viva, não sabia em que cidade ela estava. O filme é a investigação desse paradeiro. “Tudo o que aconteceu no Cabra foi de improviso”, disse. “O cinema que me interessa é imperfeito e impuro como a vida”.

Eduardo Coutinho esteve recentemente na Paraíba realizando novas entrevistas com Elizabeth, 87 anos, e outros personagens do filme para extras do DVD que será lançado com a cópia restaurada de Cabra Marcado para Morrer. Ele ainda liga todo Natal para a companheira de sua maior aventura.

A pianista ucraniana se apresentou com a orquestra ontem e faz recital hoje

A pianista ucraniana se apresentou com a orquestra ontem e faz recital hoje

Um adro superlotado do Centro Cultural São Francisco enfrentou a ameaça da chuva e o longo atraso motivado por isso, mas não deve ter se arrependido: viu uma bela estreia da Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa, armada com um repertório infalível, e uma apresentação arrasadora da pianista ucraniana Anna Fedorova, que tocou com intensidade o solo do “Concerto para piano nº 2”, de Rachmaninoff (atenção, cinéfilos: é aquele que aparece em Desencanto, de David Lean). Ela ainda deu um bis não programado: uma valsa de Chopin.

Ela se apresenta hoje de novo, às 20h, no Centro Cultural São Francisco, mas ao lado do violinista Alberto Johnson, paraibano radicado na Holanda, e do violoncelista holandês Fred Pot.

A seguir, a entrevista que ela deu ao Caderno 2 do Correio da Paraíba, publicada sábado. Ela fala da vida de concertista profissional e lembra passagens importantes da carreira. que ainda tem muito pela frente (ela só tem 23 anos):

Você é ainda muito jovem e tem uma longa estrada na música pela frente. Quando decidiu se tornar uma pianista profissional?
Nasci em uma família de músicos – meus pais são pianistas e foram meus professores até os 18 anos. Eu sempre estive rodeada por música. Comecei a tocar piano aos 3 ou 4 anos, foi natural pensar que seria minha futura profissão já ali.

É uma vida em quase permanente trânsito, não? Esse aspecto é uma coisa boa ou um sofrimento?
Adoro viajar e adoro minha vida como uma pianista de concerto. A vida é sempre cheia de aventuras, novos conhecimentos, novas impressões e emoções. A única coisa com a qual sofro é o constante transporte de malas pesadas…

Você ainda vive na Ucrânia?
No momento, moro em Londres. Realmente amo essa cidade!

Você gosta de tocar por diversão em casa?
Adoro fazer música com meus amigos.

Música clássica, também? Ou, digamos, algo como jazz?
Pode ser música de câmera, peças para quatro ou talvez seis mãos em um piano, alguns arranjos divertidos.

Para você, qual foi o momento mais memorável da sua carreira até agora?
Eu posso dizer alguns: uma performance recente do 2º de Rachmaninoff na abertura da temporada dos Sunday Morning Concerts Series, no Amsterdam Concertgebouw, com casa lotada e transmissão ao vivo para internet, TV, rádio e telão na praça principal de Amsterdam; uma performance da 1ª de Tchaikovsky diante de 50 mil pessoas no festival Violon sur la Sable, na França; e ter lições e receber o louvor e apoio de alguns músicos como (o pianista alemão) Menahem Pressler e (o pianista e maestro húngaro) Andras Schiff.

Por fim, você gosta de Villa-Lobos?
Sim, eu adoro Villa-Lobos!

Lembra quando conheceu a música dele?
Eu acho que primeiro tive conhecimento dele através de suas obras para violão, há sete ou oito anos.

Em história desconcertante, Horácio encara o futuro de sua espécie

Em história desconcertante, Horácio encara o futuro de sua espécie

Quando os dinossauros andavam sobre a Terra, um deles era dado a pensar sobre os mistérios da vida e do mundo. Pelo menos é assim na visão de Mauricio de Sousa, criador do Horácio, seu personagem mais pessoal: até hoje, ao contrário de seus outros personagens, Mauricio é o único que desenha e escreve as histórias do dinossaurinho verde. Agora, estes fortes tempos autorais estão de volta com Horácio e Seus Amigos Dinossauros – Vol. 1 (2013), o primeiro de uma série que pretende republicar todas as páginas dominicais estreladas pelo personagem.

“Horácio, pra mim, é uma série atemporal”, contou ao CORREIO. “Vai sair agora em álbuns e, no futuro, continuará sendo publicado ou animado com os mesmos resultados de público. Não segue a linha popular da Mônica. mas é marcante”.

Este primeiro volume compila quadrinhos que saíram originalmente entre 1963 e 1965 – ou seja, comemora 50 anos da série – e, de fato, eles têm uma outra pegada – muitas vezes surpreendente. “É a divulgação dos meus tempos de exercícios com temas não usuais em histórias lançadas originalmente em publicações dirigidas às crianças”.

Lucinda, eterna pretendente, estreia logo nas primeiras páginas

Lucinda, eterna pretendente, estreia logo nas primeiras páginas

Já nos primeiros domingos, a série fugiu da piada pura e simples. Há bastante humor, claro, mas Mauricio trocou piadas fechadas por páginas seriadas que duravam várias semanas (a história mais longa da edição durou 19 semanas, ou seja: quase cinco meses!). E os temas combinavam o suspense do “próximo capítulo” e um tom bem presente de mistério.

“Não foi planejado”, diz o autor, revelando que o Horácio era produzido sob pressão. “Como, no estúdio, o Horácio ‘sobrava’ pra mim (para roteiro e desenho) e eu andava sempre muito ocupado, deixava a produção das suas páginas para a última hora. Entregava a página semanal, em alguns casos, duas horas antes do fechamento do prazo do jornal – o suplemento infantil Folhinha de São Paulo. Não tinha tempo de elocubrar muito, planejar melhor a história e seu desenvolvimento. Consequentemente as ideias tinham que brotar na hora e serem resolvidas no ato. Então eu tinha que ousar”.

As dificuldades acabaram fazendo brotar um trabalho genial. “Começava a escrever e desenhar a página sem planejamento. Desenvolvia a história à medida que brotavam figuras e textos. Ia ‘vivendo’ as situações, com a responsabilidade de encontrar a fala seguinte, a ação imediata. Saindo da ideia estopim, passando para o meio e rezando para chegar com coerência a um desfecho no fim de uma página ou de uma sequência de páginas”, recorda. “Se eu acreditasse em produção psicografada, diria que o que acontecia – uma vez por semana, às quintas-feiras – era algo mais ou menos parecido. E isso durante quase 30 anos”.

Mastodontes defendem sua "pureza racial": uma surpreendente referência ao nazismo

Mastodontes defendem sua “pureza racial”: uma surpreendente referência ao nazismo

Daí surgiram tramas que sempre partiam da solidão algo chapliniana do Horácio para fazê-lo ser forçado a se casar, ser levado ao espaço e lidar com árvores que ganham consciência e planejam a dominação do mundo. O lugar do nascente ser humano no planeta volta e meia e tema de observação. E, em outra história, o dinossauro pensa que é um mastodonte e é discriminado por outros que defendem uma “pureza racial” – é bom lembrar que as HQs são de 1963, e o nazismo havia levado o mundo à II Guerra menos de 25 anos antes.

Mas as duas tramas mais surpreendentes mostram Horácio sendo capturado pelos napões, um povo que viveu feliz tanto tempo que passa a desejar que algum animal os devore e aterrorize, e sendo levado a encarar o futuro de sua raça por uma névoa mágica que prevê o futuro.

Mauricio também já tinha criado o Piteco, mas tinha um interesse especial menos pela pré-história do que pelos quadrinhos que a usavam como cenário. “Histórias sobre a pré-história e suas figuras rotineiramente mostradas em muitas histórias em quadrinhos do passado me pareciam muito interessantes. Mas dezenas de outros temas também me eram interessantes”, diz, falando com sinceridade sobre sua opção pelo cenário. “Talvez o que me levou a ir buscar a ambientação pré-histórica foi, mais uma vez, minha falta de tempo. Produzia demais, varava noites criando, desenhando. Então, quando fiz meu planejamento de personagens e ambientes que deveriam compor a variedade de gêneros que eu necessitava para fazer frente à concorrência estrangeira, pensei numa história que não me obrigasse a usar cenários detalhados, sofisticados, com carros, edifícios, vestuário. Fui buscar no barroco dos traços soltos o estilo que eu tinha tempo de fazer com traços rápidos. E quando fui dividindo o trabalho com a equipe, fiquei com a opção Horácio”.

Os napões: após anos pacíficos, desejam simplesmente ser devorados por um predador

Os napões: após anos pacíficos, desejam simplesmente ser devorados por um predador

A maior parte dessas histórias não é vista desde sua publicação original. Algumas foram redesenhadas para caber nas revistas Mônica e Cebolinha nos anos 1970 (incluindo uma atualização dos traços dos personagens) ou na edição especial que leva o mesmo nome que essa e foi publicada em 1993.

Mauricio conta, também, que deseja voltar a escrever e desenhar o Horácio – o que a atividade na condução da Mauricio de Sousa Produções e a aprovação de roteiros tem impedido já há algum tempo. “Realmente ando com sede e fome de voltar a criar novas situações para meu dinossaurinho verde”, revela. “Tenho pensado em muitos temas. E todos  estão à espera de um processo de delegação em curso no estúdio. Pretendo me afastar de algumas atividades internas – já estou treinando meus segundos nessas áreas – para voltar a criar. Principalmente agora, às voltas com o início da produção de um longa metragem em 3D do Horácio. E empurrado pela publicação da série de álbuns com suas primeiras histórias”.

HORÁCIO E SEUS AMIGOS DINOSSAUROS - VOL. 1, de Mauricio de Sousa. Panini Books, 168 páginas. R$ 46.

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Veja a linha do tempo publicada na edição deste domingo do Caderno 2 do Correio. E, abaixo, a entrevista que fiz com Mauricio de Sousa sobre a personagem:

03.03 - Monica 50-02-linha

Qual o principal momento na trajetória da Mônica, como personagem, para o senhor? A publicação da primeira revista em 1970, a homenagem de quadrinistas de todo o mundo nos 30 anos…
Sem dúvida a primeira revista publicada. É o sonho de todo desenhista ter seus personagens em uma publicação de banca. O personagem já era popular pelas publicações em jornais e aparições nos desenhos comerciais da cica. A revista saiu no tempo certo.

Existe uma “tradição” nos seus personagens de coadjuvante tomarem o lugar dos protagonistas. Caso do Chico Bento e do Horácio. Em que momento o senhor percebeu que era a Mônica – e não o Cebolinha – a personagem principal da série?
 Tem personagens que o público adota e quer ver mais. Foi assim com a Mônica. Os leitores viviam pedindo mais historinhas com ela. Então ganhou cada vez mais destaque até a série virar Turma da Mônica e não Turma do Cebolinha. Talvez por isso ele viva bolando seus planos infalíveis para voltar ao poder na rua.
Como o senhor lidou com sua filha enquanto o sucesso da personagem ia crescendo?
Até que ela entrou na escola, eu evitava passar pra ela informações sobre o personagem e seu sucesso crescente. Mas um dia ela descobriu tudo pela boca das coleguinhas de classe. Daí me questionou. Eu confirmei e durante muito tempo ela aceitava bem o sucesso do personagem e do pai… mas se recusava a reconhecer seu gênio forte e pavio curto. Hoje, quando a Mônica personagem já está mais suave, mais feminina, ela já aceita a situação.
Em que medida o ‘politicamente correto’ tem causado problemas para a criação das histórias (que eram muito mais livres tempos atrás)?
O Cebolinha não desenha mais nos muros. desenha em papel e cola nos muros ou paredes. a Mônica suavizou as coelhadas. o nho lau não usa mais espingarda… São algumas das transformações no comportamento e hábitos dos personagens através dos anos. Mas tudo isso foi resultado de uma conscientização dos leitores, nossa, da população em geral. Que foi se instalando nos hábitos e na consciência de todos nós. O chamado politicamente correto já é outra coisa, com um viés mais radical e coercitivo. Da forma como se estabelece, às vezes cerceia criatividade e espalha insegurança. Vale mais seguirmos o bom senso e os conhecimentos que nos chegam.
Depois do sucesso da Mônica Jovem, foi anunciada a intenção de uma série da Mônica adulta. O que o senhor pode adiantar sobre isso?
Esse é um projeto para daqui uns 3 anos quando teremos uma equipe montada para desenvolver uma série ao estilo folhetim. Com os personagens vivendo situações do tempo em que vive o leitor. Planejamos uma série onde os personagens envelheçam com o leitor. Vivam sua realidade social, política, econômica. Tudo temperado com muito humor e criatividade.

“Aprendi a tomar porrada e continuar em pé”. É assim que o cineasta Fernando Meirelles diz que tem recebido as críticas a seu novo filme, 360 (2012), que está em cartaz em João Pessoa (veja locais e horários na agenda). “Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar”. De Viena, capital da Áustria, onde lançou o filme esta semana, ele conversou com o CORREIO sobre o filme e enumera suas qualidades:

– O que, no roteiro de Peter Morgan, fez você decidir dirigir 360? A estrutura circular? Ser uma espécie de painel?

– Foi uma combinação de tudo isso. A estrutura diferente, o fato de não ter protagonistas e nem antagonistas e também o tema das nove histórias, todas sobre pessoas boas tendo que tomar decisões na vida. Quase todo filme tem um vilão. Em 360 todo mundo quer fazer a coisa certa, até o camarada que está saindo do presídio não quer errar de novo. Achei isso interessante e muito humano. Cada vez mais encontro gente infeliz por ter que fazer o que precisa e não o que deseja, essas opções na vida que vão contra o que gostaríamos de fazer acontecem em função dos vários compromissos que vamos assumindo. O filme anda um pouco por aí e me interessei pelo tema. Acho que todo mundo já viveu ou vive isso, a sensação de estar na vida errada e não conseguir sair dela.

– Como foi, então, o trabalho com Peter?

– Foi muito bom. Esta é uma história pessoal dele, então ele esteve junto desde o momento de montar o elenco, durante as filmagens, até na montagem. Fora o prazer de compartilhar ideias com alguém tão criativo, ganhei um amigo. Ontem (terça) encontrei-o aqui em Viena, e ele disse que, apesar de críticas duras que recebemos, acha que este é um dos seus melhores trabalhos e se sente feliz e orgulhoso por ele. O cara é mesmo muito ponta firme.

– Me fala um pouco sobre a escolha do elenco.

– Cada caso foi um caso neste elenco. Eu precisava de alguns nomes para colocar a foto no poster e como o Jude (Law) uma vez me disse que gostaria de fazer algum trabalho junto em alguma oportunidade resolvi consultá-lo e ele topou. Ele faz uma espécie de Zé-Mané, vendedor de auto-peças, acho que isso foi um desafio interessante para quem faz sempre o “rei da cocada preta”. Chamei a Rachel (Weisz) pois gosto dela e de sua maneira insegura, sempre tentando achar um jeito de fazer melhor.

– E os brasileiros?

– Maria Flor e Juliano (Cazarré) vieram porque, além de gostar muito deles pessoalmente, acho que ambos estão no alto da lista dos melhores atores de sua geração. Por sorte ambos falam inglês com fluência de um nativo. O Juliano faz uns papeis de bronco na TV mas na verdade é um cara extremamente culto e altamente preparado. (Anthony) Hopkins foi uma aposta e me surpreendi por ele ter topado. Nosso cachê era muito baixo. Ele ficou muito feliz em fazer o filme e arrebenta na sua cena numa reunião do AA. Todos os outros atores são astros em seus paises de origem. Foi uma espécie de dream team.

– Alguma das histórias do filme toca você mais que outras?

– Atualmente a que gosto mais é a do Ben Foster e da Maria Flor. Gosto muito da história do motorista do mafioso também, com aquele final surpreendente com a garota eslovaca. O ator que faz o motorista é uma espécie de Wagner Moura na Rússia. Quando o vemos no filme não gostamos dele, mas pouco a pouco, de maneira muito sutil ele faz o personagem nos conquistar. O Jamel Debbouze, o dentista francês também me chocou ao dirigi-lo. Sem dizer nada ele consegue expressar tudo, é um dos melhores atores com quem já trabalhei na vida.

Meirelles: “A gente tem que tomar cuidado pois eles (os jornalistas destrutivos) são capazes de matar sua alegria de criar”

– Você trabalha mais uma vez com o Daniel Rezende, na montagem, e com o Adriano Goldman na fotografia, com quem você fez Som e Fúria. Como os dois ajudaram você na concepção e finalização do filme?

– Roteirista, fotógrafo, montador e diretor são as pernas que colocam um filme em pé. Tenho a sorte de ter amigos muitos talentosos como  o Adriano e o Daniel. Aliás, enquanto eu escrevo isso o Adriano está em Oklahoma filmando com Meryl Streep num projeto do George Clooney e o Daniel está dirigindo a segunda unidade e depois vai montar o RoboCop do Zé Padilha, em Toronto. Tudo da fotografia e montagem do filme é discutido. Antes de eu dizer o que está na minha cabeça, ouço muito o que estes dois artistas estão trazendo para a mesa. O grande segredo de uma direção eficiente é agregar parceiros talentosos e deixar que eles trabalhem como sabem. Já vi colegas chamarem estes caras supertalentosos, mas depois ficarem dizendo como eles devem fazer o trabalho deles. Grande erro.
– Você acha que um dos motivos das críticas que o filme recebeu é que lá fora sempre esperam de você um novo Cidade de Deus?

– Talvez seja isso mesmo, mas já aprendi a tomar porrada e continuar em pé. Lembro que, quando Cidade de Deus foi lançado, O Globo deu o bonequinho saindo da sala, o que significa “péssimo”. Disseram que era um filme publicitário, cosmético, subproduto de filme de gangue americano entre outros comentários. Parece que, com o tempo, estas vozes se foram e o filme ficou. Sei que isso acontece às vezes, então prefiro não ler o que escrevem sobre o meu trabalho para ter vontade de continuar trabalhando. Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar. Parece que a maioria dos críticos americanos não entenderam o filme mesmo. Eu também não entendo qual é a graça dos filmes de super-herois que eles fazem, então estamos todos na mesma barca.

– Quais são, para você e agora, depois de pronto, as principais qualidades do 360?

– O (Luiz Carlos) Merten, crítico de O Estado de S. Paulo, resumiu isso para mim. Ele acha que 360 é meu melhor filme por ser adulto, por conseguir lidar com situações e emoções delicadas, íntimas. Fazer um filme onde um cara malvado está tentando matar um cara bonzinho, como em Cidade de Deus, é mais tranquilo, todo mundo entende o que está acontecendo – já lidar com estas emoções pequenas que atravessam nossa cabeça e nosso coração é mais complicado. Elas são fugidias. Quem não tem o hábito de prestar atenção nas próprias emoções pode não ver nada no filme. Eu gosto dos olhares, dos sorrisos, dos vacilos dos personagens.

– Com esses atores de nacionalidades tão diferentes, o resultado agradou você?

– Acho que o trabalho dos atores neste filme é muito sólido. Não há uma só frase ou olhar de ninguém ali que não esteja precisa, no lugar certo. Aliás, sou muito chato em relação a atuação. As vezes num filme, quando um garçom entra apenas para dizer “Sua conta, senhor”, e isso não está natural, eu sou arrancado da história. Acho imperdoável, uma fala que seja, fora do tom. Todo mundo tem sua loucura, esta é a minha.

– Como é o sistema de produção em que você trabalha nas produções internacionais? Você faz o filme e depois negocia a distribuição?

– É assim que grande parte dos filmes brasileiros são feitos, mas isso só é possível quando usa-se dinheiro público para produzir o filme. No esquema que trabalho não há essa facilidade: para financiar um filme o que se faz é montar o projeto com roteiro, elenco e direção, leva-se para um mercado internacional, vende-se o filme antecipadamente para vários países e, com esses contratos como garantia, levanta-se dinheiro para rodá-lo. É por isso que sempre precisamos ter uns dois ou três nomes conhecidos no elenco. Um comprador da África do Sul, por exemplo, vai prestar mais atenção num filme que esteja a venda que tenha o Jude Law, do que um onde ele não conheça os atores.

– Já se sentiu tentado em aceitar trabalhar no modelo hollywoodiano?

– Já. Sempre aparecem projetos que me interessam, mas, como o sistema de trabalho num estúdio não me atrai, consigo sempre resistir. Comparado com o esquema que expus acima, quando se faz um filme de estúdio a coisa acontece de outra maneira. Eles bancam o filme todo e contratam todo mundo. A relação de trabalho que se estabelece portanto é a de patrão e empregado, diferente da relação de parceria ou de sociedade, que é como prefiro trabalhar.

– Como está sendo o lançamento nos EUA e na Europa?

– Estreou nos EUA no dia 10, em poucos cinemas. Vai entrar aos poucos, em outras salas, lançamento em plataforma, como chamam, onde vão adicionando salas a cada semana. Na Europa começa a entrar por agora. Até o final do ano o filme ainda estará sendo lançado. Não é um filme caro então não precisa e nem foi feito para fazer uma super bilheteria. No Brasil a expectativa é que faça 300 mil espectadores. Vamos ver como vai andar.

– Como vai indo o projeto de Nemesis? O Globo falou em Robert Downey Jr ou Javier Bardem para o papel principal.

– Não fechamos o elenco ainda, está em processo mas só vamos anunciar no festival de Toronto. Não sei de onde O Globo tirou isso.

– Você pediu no twitter sugestões para o papel Jacqueline Kennedy. Alguma interessante?

– Nenhuma sugestão. Acho que não me levaram a sério. Continuo aberto a palpites no @fmei7777.

– Pra mim, a Rachel Weisz daria uma ótima Jackie Kennedy.

– Ela seria uma boa Jacqueline Kennedy, mas é uns 10 anos mais velha do que a personagem. Por isso estou neste conflito se chamo ou não.

Liniers: quinto álbum de ‘Macanudo’ no Brasil e exposição no Rio

Desde a Mafalda de Quino um quadrinho argentino não alcançava uma razoável popularidade entre os leitores brasileiros. Mas outra garotinha portenha também vem ganhando cada vez mais fãs, embora dividindo o protagonismo de sua tira com outros personagens engraçados e comoventes. Enriqueta faz parte do elenco de Liniers, o quadrinista argentino que se tornou um dos mais importantes nomes da HQ na América Latina. Ele acaba de ter lançado no Brasil o quinto volume da coletânea de sua tira Macanudo e uma exposição no Rio está celebrando sua obra através dos originais do artista.

O quadrinho argentino tem forte história no país vizinho e vai bem além de Quino e Liniers. No Brasil já saíram tiras de Gaturro e, recentemente, a clássica ficção científica El Eternauta. O sucesso de Macanudo pode estar fazendo parte de uma aproximação maior entre os dois países nessa área. “Espero que sim”, disse Liniers, ao CORREIO, do Rio, onde esteve para a abertura da exposição Macanudismo. “Eu teria gostado muito de ler Angeli ou Laerte na minha adolescência. Tomara que livros, música, cinema, tudo pule estas fronteiras com mais facilidade”.

Fellini e Enriqueta: humor e amor pelos livros

Macanudo (que quer dizer algo como “bacana” ou “legal”) é publicado originalmente no jornal La Nación, de Buenos Aires, desde 2002. Começou a se tornar popular no Brasil ainda pela internet e chegou a ser publicada na Folha de S. Paulo. Os álbuns chegaram às livrarias por aqui em 2008. Em 2010 foi lançado Bonjour, produção anterior de Liniers, que saía semanalmente em Página 12.

Foi a quadrinista Maitena, autora de Mulheres Alteradas (cuja série também foi publicada no Brasil), que o levou à mudança da tira semanal para a nova série diária. E o que começou em Bonjour, ele firmou em Macanudo: não muitos personagens fixos, uma observação do mundo que se alterna entre o humor, a ternura e a melancolia, e o diálogo com a cultura pop.

O nonsense poético é marca forte do argentino

“Comecei Macanudo sem  saber para onde ela iria”, diz o quadrinista. “E ainda não sei para onde vai. O trabalho de um artista é como uma viagem em que importa muito pouco o destino”. Ir com o vento explica a postura de não se prender demais aos personagens, mesmo os mais populares. “Macanudo muda sempre porque eu mudo sempre”, conta. “Estamos vivos, isso é mudar”.

Ele faz parte de uma geração de autores para jornal que desenvolveu uma narrativa onde a obrigação da piada nas tiras de humor diminuiu e o trabalho pode seguir outros caminhos, mais existenciais. “Desapareceram alguns preconceitos sobre esta forma narrativa”, avalia. “Acredito que isso faz com que o panorama seja muito mais variado e rico. Vale tudo!”

Liniers, pintando um painel na abertura da exposição “Macanudismo” (foto: Kadu Ferreira)

Suas sessões de autógrafo no Brasil são concorridíssimas. Isso se repetiu no volume 5, na abertura de Macanudismo (foram mais de 4h30 de autógrafos). “Pra mim a importância da obra de Liniers é conseguir fazer com que as pessoas tenham um momento de alegria e ternura – e também de nonsense e mistério – no seu cotidiano”, diz Bebel Abreu, pessoense que é a curadora da exposição que está na Caixa Cultural até setembro. “O fato de ele ser um autor absurdamente prolífico e generoso também me motivou a trazer a mostra para o Brasil”.

Ela conta que as redes sociais são uma demonstração da popularidade do artista argentino. “Percebemos que ele tem fãs ardorosos no Brasil, mas muita gente está conhecendo seu trabalho agora…”, conta ela. “Apostamos que a mostra vai levar seu trabalho a muitas outras pessoas que não tinham tido contato ainda. Tivemos grande alegria em sair com destaque nas mais diversas mídias cariocas e mesmo paulistanas. E pela primeira vez em muito tempo vejo as pessoas escrevendo em seus blogs e sites, muito mais bacana que copiar e colar o release, que é o que acontece em 90% dos projetos culturais”.

Para os paraibanos, a ótima notícia é que Macanudismo estará na Caixa Cultural Recife na sequência: de 18/9 a 18/11. Será uma oportunidade e tanto para apreciar ainda mais a obra de Liniers e suas influências confessas para personagens como a leitora voraz Enriqueta e seu gato Fellini, os pinguins, a vaca cinéfila, os duendes, o casal Lorenzo e Terezita, o misterioso homem de negro.

‘Macanudo’ 5 sai, mais uma vez, pela Zarabatana

“Muitíssimas influências”, confirma. “Não só de quadrinistas, mas também Woody Allen, Monty Python, (o escritor americano Kurt) Vonnegut, Bob Dylan, Chaplin, Steinbeck e Stephen King!”. A lista continua com os argentinos admirados por ele. “Adoro artistas como Maitena, Quino, Fontanarossa, Caloi, Max Cachimba, Solano López, (Carlos) Trillo, (Horacio) Altuna, (Carlos) Nine… É uma lista muito longa”.

Uma grande combinação para criar esse clima de nonsense e mistério desta obra-prima que é Macanudo.

Versão estendida da entrevista que fiz para o Correio da Paraíba: um ótimo papo com a Ana Maria Bahiana sobre seu livro recém-lançado, as plateias e o cinema.

***

Ana Maria Bahiana: “Um filme é o encontro de duas histórias pessoais: a do diretor e a do espectador” (foto: Delaney Andrews)

Ver um filme é bem mais do que apenas direcionar os olhos abertos para a tela. Isso é o que defende a jornalista Ana Maria Bahiana, em seu novo livro, que se chama, justamente, Como Ver um Filme (Nova Fronteira, 256 páginas). Morando em Los Angeles há 25 anos, ela leva para o livro uma visão esclarecedora dos bastidores da indústria do cinema que já costuma apresentar em suas matérias e nos textos de seu blog. Uma visão que não costumamos ter (ou que ganha menor atenção) de seus colegas baseados no Brasil, mas que ajuda a entender como e por que certos filmes são o que são.

“Eu acho muito importante que a pessoa que veja um filme tenha consciência do processo de criação dele, o número de escolhas daquela cena que ele está vendo. Mesmo que não pense nisso enquanto está assistindo”, contou, por telefone, de Fortaleza, onde esteve para ministrar mais uma edição do curso que surgiu em 2007 e serviu como laboratório para o livro. “Que ela possa distinguir o que o filme fala para ela pessoalmente e saiba discernir o que é a visão do realizador. O filme é o encontro dessas duas histórias pessoais”.

Como Ver um Filme possui duas partes bem definidas. A primeira trata dos “alicerces”: sobre como “nasce” um filme e quem faz o quê desde a ideia até
a pós-produção. Tudo com muitos exemplos contados pela jornalista, além de
histórias de bastidores que ilustram situações. Como uma ideia é vendida, o que, afinal, faz um produtor – ou como Uma Linda Mulher passou de um drama pesado sobre uma sonhadora prostituta drogada que se dá muito mal para o filme que todos conhecemos.

A segunda parte trata do “estilo”, um passeio sobre a comunicação do cinema
através dos gêneros. Nessa metade, Ana Maria recorre muito a Aristóteles
para discorrer sobre drama, comédia, filmes de ação, fantasia/ ficção
científica e thrillers, que efeitos esses filmes causam em nós como espectadores, suas evoluções e lugares-comuns.

O livro e o curso tentam ajudar os espectadores a serem menos passivos
enquanto estão diante de um filme. “As pessoas vão ao curso com uma carga
de ideias pré-concebidas”, disse. “‘Eu não gosto de filme de ação’ é um exemplo clássico”. Ou pessoas reclamando de filmes a que foram assistir e dos quais saíram sem entender nada, embora tenham lido alguma crítica positiva a respeito. “Eu digo: ‘Olha, não tem nada errado. O filme não ‘falou’ com você, ‘falou’ com a pessoa que escreveu a crítica”, explicou.

Sobre críticos, a jornalista faz questão de dizer que não se considera uma. “Não gosto de como essa palavra soa”, disse. “Eu me considero uma  espectadora muito bem informada e coloco minhas impressões no texto: eu tenho essa impressão e posso estar redondamente enganada. Sempre me considero como uma pessoa que quer aprender. Quanto menos eu tiver essa postura de ‘já sei tudo’, melhor”.

Mas ela lê críticas – de alguns poucos e selecionados jornalistas americanos. Entre eles, Manohla Dargis, do New York Times, Justin Chang, da Variety, e Kenneth Turan, do Los Angeles Times. “São pessoas de padrões diferentes, formação e estilos completamente distintos, mas que têm essa mesma postura e tem a capacidade de me dizer claramente suas razões para gostar ou não de um filme. E eu posso concordar ou discordar”.

Ana Maria Bahiana acha importante que o público leia sobre o processo de
como o filme se tornou o que é e as ideias de quem o fez antes de assistir,
mas crítica é coisa para depois. E concorda que a estratégia de mostrar os filmes antes aos jornalistas e as críticas serem publicadas no mesmo dia do lançamento, como parte do pacote, podem mais atrapalhar que ajudar
o leitor-espectador.

“É um complicador da formação do gosto pessoal da plateia”, opinou. “Eu vi,
ao longo desses 25 anos, a estratégia de lançamento ficar rigorosa, principalmente em relação à manipulação da imprensa”.

Para ela, o público deve desenvolver seu próprio olhar crítico e fazer suas escolhas. E o papel da crítica na imprensa é exatamente fornecer a munição para essa reflexão sobre o filme. “Para mim, é mais preocupante a tentativa de controle das mídias como plataforma de divulgação do filme”, disse ela.

Esse olhar crítico Ana Maria começou a ter desde a infância. Sua primeira lembrança relacionada a filmes é chorar num cinema ao assistir Bambi. “Vi como se vê uma tragédia grega”, recordou. “Vivi numa casa onde as três paixões da minha vida inteira se manifestaram: livros, música e cinema”.

O pai dela era fotógrafo amador. “Ele tinha camera super-8, projetor e me levava ao cinema”, lembrou ela. “Ele tinha um olho para fotografia que era um espetáculo. Me falava sobre enquadramento, filtros, foco… Eu já via cinema pensando nisso, era uma coisa natural. Quando saímos do cinema depois de assistir a Hatari, eu perguntei: ‘Onde eles puseram a câmera’?”. Ana tinha entre sete e oito anos na época e já se preocupava em saber como o diretor
Howard Hawks filmou as cenas de caçada no filme.

Entre os anos 1960 e 1970, haviam os cineclubes proibidos, exibindo filmes que a censura da ditadura militar não deixava passar nos cinemas – foi quando ela teve acesso a filmes provocadores como Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Antonioni (numa cópia clandestina em preto-e-branco, bem antes de finalmente conseguir assistir ao filme colorido). Mas a mudança maior, para ela, foi com a mudança para Los Angeles, quando foi ser correspondente da então nascente revista Set.

“É uma cidade que faz cinema 24 horas por dia. Eu acho que me abriu os olhos para o processo como um todo e em seus momentos particulares”, contou. “Eu passei a ter um respeito imenso pelas pessoas que trabalham nessa área em qualquer capacidade – do produtor ao carpinteiro que trabalha na construção dos cenários”.

Como Ver um Filme, de Ana Maria Bahiana. Nova Fronteira, 256 páginas. R$ 39,90.

Conversei com o Fernando Meirelles sobre os dez anos da primeira exibição de Cidade de Deus no Festival de Cannes. A matéria foi publicada no sábado passado, no Correio da Paraíba, e aqui ela está em versão estendida.

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Fernando Meirelles, sendo homenageado pelos dez anos de ‘Cidade de Deus’, no Cine-PE, em abril

No dia 18 de maio de 2002, Cidade de Deus foi exibido em Cannes, fora de competição. Mas o filme saiu de lá vencedor, com a grande repercussão que obteve: o primeiro passo para a consagração nas bilheterias e o reconhecimento internacional. Hoje, 10 anos depois, o filme de  Fernando Meirelles consta em qualquer enciclopédia séria de cinema no mundo, é relacionado como um dos melhores tanto pelo público quanto pela crítica. “Acho que de certa maneira o mundo de CDD entrou no imaginário do Brasil. Para mim foi o grande prêmio”, conta Meirelles ao CORREIO, por e-mail.

Após Cannes, Cidade de Deus, baseado no livro de Paulo Lins, virou tema de editoriais em jornais por contar, de forma até didática, a evolução do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Mostrava a comunidade carioca de sua aurora nos anos 1960 à violência desenfreada nos anos 1980 e trazia um painel de personagens que ia do bandido mau desde criança ao jovem honesto que não consegue entrar para o crime nem quando quer, passando pelo traficante boa gente, crianças que têm os criminosos como ídolos, jovens “do asfalto” que, através do vício, se integram ao crime, o que tenta evitar a violência, mas não consegue, etc.Zuenir Ventura escreveu que assisti-lo era “um dever cívico”. Já a pesquisadora Ivana Bentes disse que o filme usava uma “cosmética da fome”, em contraposição à “estética da fome” do manifesto de Glauber Rocha e do cinema novo. Um debate acalorado mesmo antes do filme entrar em cartaz nos cinemas.

Quando o filme finalmente estreou, em agosto, o público foi em peso: Cidade de Deus fez 3,3 milhões de espectadores no Brasil, um público a que o nosso cinema estava desacostumado e que nunca deixou de surpreender o diretor. “Estávamos felizes com o corte mas mesmo assim jamais imaginávamos que o filme seria tão bem recebido”, diz Meirelles, lembrando do últimos dias na sala de edição, com o montador Daniel Rezende. “Eu sou muito chato comigo, mesmo, tenho uma estúpida capacidade de ampliar os defeitos do que faço e minimizar os acertos. É trabalho para muitos anos de análise”.

Busca-Pé (Alexandre Rodrigues): “Na Cidade de Deus, se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”

Coerente, ele também não se deixa embriagar pelo reconhecimento do filme. “Hoje fico feliz de ter participado de um trabalho que marcou, mas não deixo de pensar nem por um minuto que tudo é uma questão de tempo. Mais dias ou menos dias, Cidade de Deus será esquecido, se perderá para sempre – como todos nós, aliás”, afirma. “Com isso sempre em mente, não viajo muito na maionese da ‘imortalidade’ e coisas assim. Imortalidade  é coisa para acadêmicos. O Sarney, por exemplo, deve gostar de acreditar que foi alguma coisa na vida e que será imortalizado. Eu não caio nesta cilada”.

Ele não vê o filme desde 2002. “Acho que numa das sessões de promoção em algum lugar fora do Brasil”, recorda. “Não lembro exatamente mas mesmo fazendo tempo ainda sei todas as falas de cor. Que desperdício de memória RAM”. Ele também lembra o que gostaria de mudar no filme. “Achava o filme meio frenético demais, talvez eu o ralentasse um pouco”, conta. “Tem uma sequência inteira, da tentativa de assalto do Busca-Pé no onibus,  que ficou bem aquém do imaginado. Era para ser mais engraçada. Tem uma hora que vemos os traficantes saindo da boca para um ataque, onde acelerei a imagem. Ficou bem cafona. Que erro!”.

Os dez anos de Cidade de Deus inspiraram a produção de uma HQ que adapta o filme – ainda por ser lançada – e do documentário Cidade de Deus, 10 Anos Depois, que vai mostrar onde estão todas aquelas pessoas que participaram do filme – principalmente os jovens atores saídos de comunidades e que imortalizaram personagens como Busca-Pé (Alexandre Rodrigues), Bené (Phellipe Haagensen), Filé com Fritas (Darlan Cunha), Berenice (Roberta Rodrigues) e, principalmente, claro, Dadinho/ Zé Pequeno (Douglas Silva quando criança; Leandro Firmino da Hora, quando adulto). Também entrevista os dois nomes famosos do elenco – Matheus Nachtergele (Sandro Cenoura) e Seu Jorge (Mané Galinha) – e Alice Braga (Angélica), então apenas a sobrinha de Sonia Braga, mas que hoje segue uma cada vez mais sólida carreira internacional no cinema.

Alice Braga: do filme para uma carreira no exterior

Meirelles, que preferiu não se envolver diretamente com um doc sobre o filme dele mesmo, conta que continuou acompanhando a vida daquelas pessoas. “Acompanhei algumas delas por anos”, diz. “Há alguns garotos com quem continuo em contato. Como tudo na vida, alguns deles conseguiram aproveitar a oportunidade e deram um salto a partir dali, enquanto outros se afundaram e alguns morreram de forma trágica.  Quero acreditar que não haja relação direta entre o trabalho que fizemos juntos e esses que tiveram um destino duro”.

Na época do lançamento, houve quem lembrasse com temeridade do caso triste do protagonista de Pixote – A Lei do Mais Fraco. Por outro lado, também haviam os casos do Vinícius Oliveira, o garoto de Central do Brasil, e, depois, o das crianças de Quem Quer Ser um Milionário?, às quais os diretores deram uma espécie de acolhida e cuidado pós-filmagens. Meirelles lembra que, nas filmagens, pensava no destino que aquelas crianças e jovens teriam após o filme ficar pronto.

“Muito. Assim que acabou o filme, com um enorme esforço da Katia Lund e um apoio meu, foi criada uma ONG para que os garotos pudessem dar continuidade ao trabalho. Esta ONG ainda existe, chama-se Cinema Nosso, tem um site. Fora isso, por ter feito a série Cidade dos Homens na sequência, continuei muito próximo a alguns atores”, conta o diretor. “Criamos um laço muito forte. Cada vez que tenho uma notícia ruim a coisa me pega como se fosse um parente próximo. Fico feliz ao receber notícias de outros garotos que mudaram de vida, mas estão muito bem hoje”.

Leandro Firmino da Hora, o memorável Zé Pequeno

f Cidade de Deus foi importante na consolidação da retomada do cinema brasileiro, iniciada com Carlota Joaquina, em 1995. “Junto com Central do Brasil (lançado em 1998) foi um filme importante para começar a trazer de volta o público brasileiro para ver nossos filmes”, avalia. “Nesta última década, muitas produções superaram o sucesso de público de CDD. Visto com esta perspectiva o filme foi um degrau a mais nesta escada que é nosso cinema”.

Cidade de Deus ganhou em seis categorias no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (filme e direção, entre eles), o Bafta de melhor montagem (Daniel Rezende derrotou, por exemplo, O Senhor dos Anéis – As Duas Torres e Chicago), foi indicado ao Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e a quatro Oscars (direção, roteiro adaptado, fotografia, montagem e direção). Meirelles estava lá, no Kodak Theatre, sendo focalizado no momento do anúncio junto a Sofia Coppola, Peter Weir, Clint Eastwood e Peter Jackson, que venceu por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (filme que, aliás, levou tudo aquela noite).

“O Oscar é legal mas é um prêmio para a industria americana, não para nós, cucarachos”, pondera. “Vamos aprender a dar um desconto, afinal filme não é esporte para se ganhar ou perder”.

Também é impressionante contabilizar o reconhecimento que Cidade de Deus tem alcançado internacionalmente além dos prêmios e com o passar dos anos – talvez, contradizendo a previsão de Meirelles de que o filme “será esquecido”. Através das notas atribuídas pelos usuários do Internet Movie Database, em um universo de centenas de milhares de votos, o filme é o 18º melhor colocado – com a mesma média (8,7) de Os Bons Companheiros (1990), Guerra nas Estrelas (1977), Casablanca (1942), Matrix (1999), Era uma Vez no Oeste (1968) e Janela Indiscreta (1954).

Já a revista Empire elegeu o filme como o sétimo melhor do “world cinema” – ou seja, os filmes não falados em inglês. Cidade de Deus está à frente, por exemplo, de O Sétimo Selo (1957), de Bergman, em 8º, e A Doce Vida (1960), de Fellini, em 10º. Na lista da revista dos 500 maiores filmes de todos os tempos (uma pesquisa envolvendo cineastas, críticos e leitores), o filme de Fernando Meirelles ocupa uma respeitabilíssima 177ª posição, à frente de clássicos como A Felicidade Não Se Compra e Glória Feita de Sangue e de filmes muito populares como Jurassic Park.

“360”, que estreia em agosto: “Pegaram pesado”

Tudo reflete os motivos pelos quais as portas do cinema internacional foram abertas para Fernando Meirelles. Ele dirigiu, depois, O Jardineiro Fiel (2005, com o qual Rachel Weisz ganhou o Oscar que atriz coadjuvante), Ensaio sobre a Cegueira (2008) e, agora, 360 (2011), que foi recebido com críticas divididas nos festivais de Toronto e Londres, no ano passado. Talvez, até, pegando pesado.

“Alguns jornalistas bateram feio, mas tudo que eu fiz até hoje tomou muita pancada, inclusive Cidade de Deus, então acho que ja aprendi a não me abalar tanto. Me chateia mas passa”, diz. “O filme está vendido para o mundo todo, faço uma turnê de lançamento agora em final de junho até começo de julho, esta é a parte dura do trabalho. E sim, pegaram pesado. É um filme despretensioso e creio que alguns críticos esperavam algo mais bombástico, mas não nasceu para ser isso. A simplicidade também é uma conquista”.

O filme – com Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law – estreia no dia 16 de agosto no Brasil e o trailer será lançado em junho, mas Meirelles já abriu uma conta no twitter para postar informações. O diretor segue a trilha aberta por Cidade de Deus produzindo no Brasil, através da O2, e dirigindo seus filmes. Como ele diz, está acostumado a levar pancada, mas continua fazendo cinema em seus próprios termos.

Após dois meses em cartaz no país, Heleno finalmente chega hoje aos cinemas de João Pessoa (na verdade, um só: o Cinespaço). Conversei com ele por telefone ontem e a matéria está na capa do Caderno 2 do Correio de hoje. Ei-la:

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Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro): um craque autodestrutivo

José Henrique Fonseca não é botafoguense: é vascaíno. Mas é o diretor do filme que retrata um dos maiores ídolos do clube da estrela solitária: Heleno de Freitas, tinha tanta elegância e boa aparência que foi até apelidado de “Gilda” pelas torcidas rivais (numa referência à personagem glamourosa Rita Hayworth, no filme homônimo, grande sucesso nos cinemas da época). Tinha também uma grande capacidade de arrumar problemas. Foi esta a perspectiva que atraiu Fonseca para dirigir Heleno (Brasil, 2012; estreia hoje em JP), com Rodrigo Santoro no papel principal e Alinne Moraes como a mulher do jogador.

“Eu sou atraído por personagens que estão em pontos culminantes de suas vidas, em becos sem saída”, contou o diretor, por telefone, do Rio, enquanto filmava o piloto de uma nova série para a HBO. Ele conheceu a história através do livro Nunca Houve um Homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves (no título, a referência ao slogan de Gilda). “Li o livro ainda no rascunho, gostei muito da história”, contou. Mas alertou que o filme não é uma adaptação do livro. “O filme é mais sensorial, mais íntimo. Não é uma biografia tradicional, é sobre a persona, a psiquê desse cara”.

Um dos elementos que fogem do tradicional é a fotografia do paraibano Walter Carvalho, em preto-e-branco. Apesar da relação com as cores do Botafogo carioca, Fonseca disse que procurou evocar o passado. “Filmei em preto-e-branco porque ele representa a fantasia mais que a cor. Te leva a uma certa magia”, contou. “E o preto-e-branco sempre foi minha formação como cineasta”. Ele achou que essa era a história ideal para buscar esse visual e contou com o apoio de Carvalho. “Já tínhamos trabalhado juntos em 1992”, lembrou o diretor. “É meu superamigo, gostei muito de ter voltado a trabalhar com ele. Só disse: ‘Faz em preto-e-branco. Só quero que fique bom pra c***”.

Esse cuidado no retrato com o passado levou a produção a uma busca por locações que ainda pudessem “interpretar” o Rio dos anos 1940. “O Rio de Janeiro mudou muito”, lembrou. “Tivemos que achar esse Rio da época do Heleno. Foi quase um garimpo arquitetônico”. Há retoques digitais no filme, mas poucos. “Usamos em alguns detalhes do Maracanã e de São Januário”.

A figura de Heleno de Freitas é mais importante que o futebol em si no filme. “Mas ele mostra uma época em que o futebol começou a virar a principal paixão brasileira”, disse o diretor. Ao contrário dos americanos com o beisebol, o basquete e o futebol americano, o cinema brasileiro não tem tradição em ter o futebol como assunto. É um tabu que Heleno tenta quebrar.

Heleno tenta abrir um pouco a cabeça do espectador”, afirmou Fonseca. “Ele propõe uma narrativa diferenciada, com músicas interessantes, tem Billie Holiday na trilha… Tem cheiro de cinema dos anos 1940”.

Heleno de Freitas jogou entre 1937 e 1953 (pelo Botafogo, até 1948, quando foi vendido para o Boca Juniors). Era habilidoso e bom cabeceador, tendo sido o maior ídolo do clube antes de Garrincha. Na vida pessoal, era bem-nascido e elegante. Mas também era genioso e autodestrutivo – é considerado o primeiro craque problema do futebol brasileiro. Viciado em éter, ele teve sífilis, que o deixou louco. De 1953 a 1959, quando morreu (aos 39 anos) viveu em um sanatório em Barbacena.

Safiri e Mônica contracenam na revista Turma da Mônica Jovem

Foi em 1984 que Mauricio de Sousa e Osamu Tezuka (ou Tezuka Osamu, como se diz no Japão) se conheceram. Foi o nascimento de uma bela amizade entre os dois quadrinistas, separados por meio mundo. Celebrando esta amizade, o brasileiro conduziu sua equipe em uma bela homenagem ao maior nome dos quadrinhos japoneses: um encontro inédito entre os personagens das duas produtoras em duas edições da Turma da Mônica Jovem (a segunda, a número 44, está atualmente nas bancas).

As versões adolescentes de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali encontram Astro Boy, Kimba, o leão branco e a Princesa Safiri (de A Princesa e o Cavaleiro) em uma aventura na Amazônia. “Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil”, revela Mauricio de Sousa. “Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo”. Mauricio conta como surgiu a amizade entre os dois artistas, da negociação para o crossover de importância inédita nos quadrinhos brasileiros e dos planos já em andamento para a Turma da Mônica retribuir a visita aos personagens de Tezuka. A entrevista foi publicada hoje no Caderno 2 do Correio da Paraíba.

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Mauricio e Tezuka no Japão, em 1985

– Do que você se recorda do dia em que conheceu Tezuka?

– Nosso primeiro encontro foi quando Tezuka esteve no Brasil em 1984, convidado pela Fundação Japão e visitou nosso estúdio. Foi quando me convidou para visitar o estúdio dele, também. Fiz isso no ano seguinte, em viagem também oferecida pela Fundação Japão. Na ocasião, sugeri que desejava estudar a vida das crianças japonesas em seus diversos aspectos.

– Como era a amizade de vocês? Diria que ele foi o que se tornou mais próximo entre todos os mestres da HQ que conheceu?

– Tezuka Osamu  não está entre nós desde 1989. Mas nos seus últimos anos de vida surgiu entre nós uma amizade, uma camaradagem que poucas vezes tive com outra pessoa. Em outra viagem, mais planejada, quando Tezuka completava 50 anos de profissão e fez uma festa, tive a honra de acompanhá-lo numa viagem por todos os pontos que marcaram sua vida. Desde a distante cidade de Takarazuka, com seu gigantesco teatro à moda do Radio City de Nova York, os parques em que ele brincava em criança, a escola, e depois seus estúdios, em Tóquio, seu museu particular, sua família, sua casa… Era um retorno, uma viagem de nostalgia que ele nunca havia feito na vida, um momento de descanso para um artista que fazia meio século não parava de trabalhar. Mas também tive um longo período de aproximação com Will Eisner. Com encontros no Brasil e nos EUA.

– Você escreveu que resolveu conhecer melhor a Amazônia por sugestão do próprio Tezuka…

– Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil. Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo. Foi aí que surgiu a ideia de fazermos juntos um desenho animado com nossos personagens. Com fundo ecológico, usando a Amazônia como cenário. Anos mais tarde visitei a Amazônia não só para conhecê-la, mas para pesquisar por conta. Naturalmente quando tivemos a ideia não existia ainda a Turma da Mônica Jovem. O estilo próximo ao mangá da TMJ ajudou na composição com os personagens do Tezuka.

Primeiro encontro entre os personagens: Turma da Mônica consola personagens de Tezuka após a morte do criador, em 1989

– Que cuidados foram necessários para combinar os universos de todos esses personagens?

– Primeiro contatamos a família de Tezuka para retomar esse assunto. Foram muito simpáticos e marcaram um encontro no Festival de Livros Infantis de Bologna, na Itália. Contei tudo sobre os encontros com Tezuka e eles foram receptivos à ideia. Aprovaram a participação dos principais personagens de Tezuka na trama – Kimba, o leão branco; a princesa Safiri; e o Astro Boy. Desenvolvemos a história em nossos estúdios assim como os traços dos personagens de Tezuka. Tudo foi enviado para o Japão já com tradução para o japonês. Essa troca de mensagens e material gráfico foi perfeita. Pediram para adaptar uma coisa aqui e outra ali. Mas aprovaram tudo.

– Para finalizar: há algum plano de a história ser publicada também no Japão?

– Estamos iniciando negociação com editoras japonesas para publicar essa história também no Japão. E daqui a alguns meses sairá uma nova história apenas com a Turma da Mônica Jovem viajando para o Japão. Nessa história queremos mostrar como o Japão se reergueu das catástrofes do ano passado e está lindo e preparado para receber visitantes. Principalmente nossos jovens brasileiros.

Renato Guedes, ilustrador da Marvel, está em João Pessoa para autografar seu livro (hoje, no MAG Shopping) e dar uma palestra (amanhã, no auditória azul da Funesc). Esta é a entrevista que fiz com ele, publicada hoje, no Correio da Paraíba.

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Renato Guedes: "Fazer o Superman mudou minha carreira"

Responda rápido: quais são os maiores heróis das histórias em quadrinhos? Super-Homem, Batman, Capitão América, Wolverine estariam entre eles? Pois o paulista Renato Guedes desenhos estes e mais alguns em sua trajetória invejável como artista das duas maiores editoras do gênero nos Estados Unidos: DC e Marvel. Primeiro, na DC, onde ele desenhou por anos títulos ligados ao Super-Homem. Agora, na Marvel, onde ilustra Vingadores Secretos. Com o filme dos Vingadores estreando hoje nos cinemas, ele está em João Pessoa pela primeira vez, convidado pelo Studio Made in PB, para uma exposição de seus trabalhos e para conversar com o público. Hoje, no MAG Shopping, ele autografa o livro Renato Guedes Artbook, enquanto permanece em cartaz a exposição Os Maiores Heróis da Terra, com alguns de seus trabalhos.

O livro traz trabalhos feitos tanto para a DC quanto para a Marvel. “Mostra muita coisa passo a passo, os esboços. É mais voltado para o backstage da coisa”, contou  o desenhista ao CORREIO, por telefone, de São Paulo. “Muitas vezes é um trabalho duro e o leitor não sabe”. Muitas edições especiais encadernadas já trazem, como extras, esboços e o processo de criação dos desenhistas. “Dessa certa forma, isso valoriza essa etapa da criação”, afirma.

Os Vingadores no traço de Guedes: trabalho atual

Sobre os novos tempos na Marvel, ele contou que a mudança não foi tão grande. “As duas editoras trabalham de maneira similar”, disse. Na Marvel, ele começou em Wolverine. “Essa foi uma das minhas vontades de mudar”, disse ele. “Ter um desafio novo, fazer uma coisa que era o oposto do Superman”. Vingadores Secretos, que ainda não está saindo no Brasil com seu traço, é outro desafio: seu primeiro trabalho em revista periódica estrelado por um grupo.

Guedes estudou na antiga Fábrica de Quadrinhos (hoje, Quanta Acadenmia de Arte), trabalhava principalmente com publicidade junto com HQ antes da carreira internacional. Assinou com a agência Art & Comics em 2002, e fez trabalhos para editoras americanas independentes e testes para a DC e a Marvel. Acabou contratado pela DC para a revista Smallville, baseada na série de TV. Daí, passou para os títulos do Homem de Aço e arredores: Adventures of Superman, Superman e Action Comics, além de Supergirl.

“A escolha profissional nem sempre é o que você mais gosta, mas, no caso do Superman, eu fiquei à vontade”, diz ele, concordando que chegar a desenhar a Action Comics, histórico título onde o Homem de Aço estreou em 1938, é um reconhecimento em si mesmo. “Ele é o mais icônico dos heróis. Fazer o Superman mudou completamente a minha carreira”.

O Super-Homem no traço "europeu" do desenhista

A arte de Guedes se destaca pela beleza e por não ser poluída. “Muitas pessoas dizem que é um desenho meio europeu”, afirma. “Eu tenho um estilo que é beaseado nas minhas influências, dos mais variados possíveis. Manara, Moebius, Katsuhiro Otomo. Mas também ilustradores como Normal Rockwell… É o que sai naturalmente, é o que eu sei fazer”.

Por incrível que pareça, nessa visita finalmente Renato Guedes vai conhecer o paraibano Mike Deodato, seu companheiro de Marvel (atualmente em New Avengers). “É engraçado isso. Muitos amigos que até moram em São Paulo eu só encontro em conevenções em outros mpaís. E o Deodato, nunca encontrei”, diz.

No sábado, o evento será no Espaço Cultural, onde Renato Guedes vai apresentar uma palestra, no Auditório Azul, a partir das 14h. Gratuita, mas com vagas limitadas (inscrições através do e-mail palomadiniz.studiomadeinpb@gmail.com).

Olha aí, a entrevista que fiz com o pianista Arthur Moreira Lima, capa do Correio de hoje. Ele se apresenta hoje, às 19h30, em João Pessoa.

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O pianista já apresentou quase 500 concertos no projeto

O caminhão-teatro de Arthur Moreira Lima já percorreu 200 mil quilômetros. “Está marcado no velocímetro”, contou ao CORREIO. “É o mesmo que cinco voltas ao mundo”. Desde 2003, já são mais de 430 concertos do projeto Um Piano na Estrada, no qual o pianista vem percorrendo o país inteiro – atualmente, com a quinta etapa do circuito Brasil Sertões 2. Hoje, o caminhão-piano está em João Pessoa, no Ponto de Cem Réis, com o concerto começando às 19h30.

Essa experiência de tocar em praças e cidades que há muitos anos não viam uma apresentação de música clássica – ou até nunca viram – tem deixado a melhor das impressões no pianista. “Não só com relação ao número de pessoas, mas é também a maneira como ouvem: é um público muito musical”, disse. “Muitas vezes a própria organização dos concertos tradicionais não presta atenção a isso”.

Para o projeto, o caminhão é fundamental. “Meu caminhão parece um teatrinho mesmo”, contou Arthur Moreira Lima. “Fica muito mais íntimo, parecendo um sarau. O palco tem cinco metros de profundidade”. Segundo ele, a ideia surgiu para servir ao projeto. “Primeiramente, um palco era muito dispendioso para as prefeituras. E o caminhão dá essa ideia de deslocamento”, disse. “A tradição dos saltimbancos, dos menestréis, da arte representada”.

O pianista já tocou em uma balsa, já chegou ao Oiapoque e ao Chuí, já tocou na tríplice fronteira (no Acre). “Já toquei em todos os estados do Brasil”, disse. Com o projeto, ele tocou em Campina Grande. Mas já se apresentou também no Teatro Santa Roza, nos anos 1980, onde teve problemas com o piano. “Metade das notas não tocava!”, lembrou. “Mas eu voltei depois, em 1993”. O pianista tem outras ligações com a Paraíba. “Minha família é de Areia”, contou. “Meu avô era paraibano, foi desembargador em Campina Grande”.

Arthur Moreira Lima começou a estudar piano aos seis anos de idade. Aos oito, deu seu primeiro recital, na Associação Brasileira de Imprensa: tocou Beethoven, Chopin e Paderevsky. Aos nove, ganhou o concurso para jovens solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Aos onze, concorreu de novo e ganhou novamente.

O caminhão-teatro: 'Dá ideia de deslocamento. A tradição dos saltimbancos, dos menestréis'

Ele estudou com Lúcia Branco, a mesma professora de piano de outro ás do instrumento: Antônio Carlos Jobim. “Ele era mais velho do que eu”, contou. “Eu era garoto. Lembro que a professora dizia que ele tinha músicas lindas e seria melhor que se dedicasse a elas”. Os dois voltariam a se encontrar muitas vezes no futuro. “Eu estive muitas vezes com o Tom. Ele era muito simples, muito fácil de lidar”.

Já tocou no Lincoln Center, em Nova York, e em uma garagem de ônibus na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Tanto morou duas décadas na Europa (Paris, Moscou, Viena), quanto se embrenha país adentro com o projeto Um Piano pela Estrada – levando Mozart a bairros populares e pequenas cidades, ou Pixinguinha às principais salas de concerto do mundo.

“Existe um segredo”, afirmou. “Eu toco música clássica que, de tão conhecida e aclamada, virou popular. E toco música popular que é tão boa que virou clássica”.

Hoje ainda tem Improvável em João Pessoa. Na esteira, publico aqui a entrevista que fiz com Anderson Bizzocchi para o Correio da Paraíba de quinta passada, estendida e com o tempo atualizado.

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Daniel, Anderson e Elidio: os "Backstreet Boys do improviso"

Os comediantes vivem com medo de que as piadas de seus shows acabem parando no YouTube e o público já saiba como é o espetáculo. Mas isso não acontece com a Cia. Barbixas de Humor e o Improvável. Semanalmente, uma cena é postada – simplesmente porque, como trata-se de um espetáculo de improviso, nenhuma apresentação é igual à outra. O espetáculo está sendo apresentado em João Pessoa neste sábado e domingo, no Teatro Paulo Pontes. Quinta, uma prévia muito especial pôde ser vista na internet: pela primeira vez o espetáculo foi transmitido na íntegra on line e ao vivo. “Muita gente sempre reclamava que a gente só colocava um vídeo por semana no YouTube”, conta Anderson Bizzocchi, integrante do trio que forma os Barbixas, por telefone, de São Paulo.

Ele e os outros dois do trio – Daniel Nascimento e Elidio Sanna – foram entrevistados pelos fãs no programa + Ao Vivo. Na sequência, a apresentação do Improvável foi transmitida ao vivo, no YouTube, no Google + e no Orkut.

Improvável funciona a partir de jogos de improvisação. Há um mestre de cerimônia que comanda os jogadores e colhe ao acaso situações com a plateia. É inspirado em exeriências anteriores, como o programa de TV Whose Line Is it Anyway?, que teve versões britânica e americana, e as peças nacionais Zenas Improvisadas e Jogando no Quintal (que já se apresentou em João Pessoa).

No começo, para facilitar a divulgação do projeto, os Barbixas decidiram colocar um vídeo no youtube. “Na época, o YouTube estava começando, era uma coisa nova”, lembra Anderson. “E isso substituía levar o DVD fisicamente aos produtores. Podíamos mandar um e-mail com um link dizendo “esse é o nosso trabalho, veja”.

Mas eles foram surpreendidos com o sucesso: os vídeos passaram a ser cada vez mais vistos pelos internautas. “A gente percebeu  que poderia ser um produto forte”, conta. “E toda quinta colocamos um vídeo novo na rede, desde 2008”.

Resultado: o Improvável virou um canal no YouTube, com quatro milhões de acessos por mês e a recente inclusão entre as 100 webséries mais vistas do mundo. Como são quatro jogadores, além do mestre, os Barbixas recebem sempre dois convidados – e grandes nomes do humor já fizeram participações.

Para João Pessoa, como Daniel Nascimento não pôde vir, serão três os convidados para compor o time: Fábio Lins, Andrei Moscheto e Edú Nunes.

Anderson afirma que, nos cinco anos em que apresentam o espetáculo, eles buscam o aperfeiçoamento. “O aperfeiçoamento das técnicas de improvisação e da nossa relação como grupo. Você epera muito a resposta do companheiro”, diz.

Ele conta que o jogo do “troca” e as “cenas improvisadas” são os momentos mais esperados. No primeiro, os participantes precisam, ao comando do mestre, mudar a última coisa que disseram na cena. No segundo, situações escritas pela plateia na entrada do teatro são sorteadas e precisam ser improvisadas na hora. “Esses eu posso dizer que são quase fixos. Estão em 90% das apresentações”, diz ele.

Anderson fez faculdade de rádio e TV, assim como Daniel. O trio, no entanto, já se conhecia na adolescência. “A gente sempre falava que tinha sido na universidade porque não tinha muita graça dizer que se conhecia na adolescência”, brinca.

Os Barbixas já estiveram na TV, no começo do Quinta Categoria, na MTV, e no É Tudo Improviso, na Bandeirantes. Agora, se preparam para lançar o primeiro DVD. Está em fase de finalização, com a gravação de duas apresentações feitas em 2010, na cidade de Santo André. Na TV, eles havia reduzido suas participações na segunda temporada de É Tudo Improviso e já não apareciam mais na terceira.

“O convite inicial da Band foi para a Cia. Barbixas e eles quiseram aumentar o elenco”, conta ele, sobre o começo do projeto. “Ao término da primeira temporada, percebemjos que nossos compromissos no teatro estavam ficando para trás. A gente não estava conseguindo conciliar”. Eles foram se revezando na atração até a saída amigável, deixando o programa a cargo de Márcio Ballas, Cristiane Wersom, Mariana Amberllini, que formavam o elenco fixo com os Barbixas na primeira temporada, e outros colegas. “Mas a TV interessa, sim”, reafirma o ator, deixando portas abertas para o futuro.

O sucesso impressiona. Inclusive, as manifestações românticas das garotas – como se pode ver em diversos comentários da entrevista com Elidio Sanna aqui mesmo no Boulevard, em 2009. “A gente tem esse carinho, que a gente agradece muito”, diz, rindo. “O pessoal da MTV disse – e nós não concordamos! – que somos os Backstreet Boys da improvisação. Veja como somos velhos! Não somos nem os ‘Justin Biebers’!”.

Paulo Ramos e seu novo livro, no lançamento paulista: o que tiras e piadas têm em comum?

Desde 2006, o jornalista Paulo Ramos cobre e analisa o mercado de histórias em quadrinhos através do Blog dos Quadrinhos. Esse tempo de observação, além de sua pesquisa na USP já rende livros teóricos e jornalísticos interessantes sobre a área. Paulo esteve em João Pessoa em 2010 para lançar Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, e agora volta para o lançamento de Faces do Humor – Uma Aproximação entre Piadas e Tiras (Zarabatana Books), cuja sessão de autógrafos será hoje, na gibiteria Comic House, em Tambaú, às 18h.

O livro aborda as tiras de jornal e sua relação com o humor. “A ideia surgiu após perceber que as tiras cômicas usavam de artifícios muito parecidos com os das piadas para provocar o efeito de humor”, conta ele. “Tanto tiras quanto piadas são narrativas curtas com desfecho inesperado, que leva ao humor. Não é a única aproximação entre ambas, mas seguramente é a principal”.

"As Cobras", de Luís Fernando Veríssimo

Faces do Humor vai um pouco mais fundo, ao investigar se tiras cômicas são piadas. “Para poder fazer uma aproximação entre piadas e tiras, foi necessário, antes de tudo, entender exatamente como se processa o humor e como ele é utilizado nas piadas em si”, diz. “A definição de piada, por exemplo, é bem difícil de ser feita. A palavra agrega diferentes possibilidades de uso: piada pode ser brincadeira, uma narrativa curta com desfecho inesperado, uma maneira jocosa de se referir a alguém. Após essa discussão, é que pudemos adentrar no terreno dos quadrinhos e das tiras”.

Para analisar as relações entre essas duas formas de produção do humor, Paulo Ramos se debruça sobre a produção de alguns dos melhores quadrinistas nacionais do gênero. “Procurei utilizar vários exemplos para tornar a leitura mais acessível. E divertida, já que a maioria dos casos são piadas e tiras”, conta. “Isso ocorre desde o início até o final da obra. Nos capítulos finais, faço uma análise mais detalhada em quatro séries de tiras: As Cobras, de Luis Fernando Veríssimo; Cascão, de Mauricio de Sousa; Classificados, de Laerte; Níquel Náusea, de Fernando Gonsales. Em cada uma delas, procuro investigar um aspecto diferente”.

"Cascão", de Maurício de Sousa

Paulo Ramos desenvolveu a pesquisa para o doutorado na Faculdade de Letras da USP, defendido em 2007. Nos quatro anos até o lançamento de Faces do Humor, que chegou às livrarias em agosto de 2011, o jornalista atualizou o material e adaptou o texto para se dirigir a todos os leitores (e não só os da academia).

Um novo livro já está a caminho: uma antologia dos textos publicados no Blog dos Quadrinhos, com o título Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no Brasil, com mais de 500 páginas e editado pela Devir. O lançamento está previsto para abril ou maio, em 20 temas. “Cada um deles compôs um capítulo da obra. Lidas em sequência, essas informações ajudam a entender o atual momento do mercado brasileiro de quadrinhos e os motivos que levaram a esse novo cenário”.

Um panorama abragente como nunca se viu em uma publicação do tipo no Brasil.

"Classificados", de Laerte

– Você acredita que, para o púbico em geral, as tiras são identificadas principalmente com o humor, embora não faltem exemplos de outros gêneros (como aventura e tiras existenciais)? O livro tenta desmistificar isso?

Diria que, no Brasil, as tiras são associadas quase exclusivamente ao humor. Pelo menos, do ponto de vista do público em geral. O livro procura mostrar como se dá o funcionamento dessa forma de tiras, sem dúvida a mais conhecida e produzida no país.  Mas a obra também ajuda a entender as outras maneiras de produção de tiras, como as seriadas, as cômicas seriadas e as livres.

– Que assuntos são abordados no livro?

Como o tema é amplo, foi necessário fazer um passeio por diferentes campos do conhecimento. O leitor irá encontrar exposições sobre as diferentes teorias do humor, com correntes da Linguística que preocupam com o texto, com as diferentes maneiras de produção das histórias em quadrinhos, com estratégias de leitura de uma tira. Tudo para preparar o terreno para a análise em si, que procura demonstrar que as tiras cômicas usam estratégias semelhantes às piadas para a produção do efeito de humor.

– Bienvenido e Leitura dos Quadrinhos também estarão sendo vendidos. Como andam as trajetórias desses livros?

Os dois tiveram uma ótima repercussão. Prova disso é que ambos venceram o Troféu HQMix, A Leitura dos Quadrinhos em 2010 e Bienvenido em 2011. A Leitura dos Quadrinhos já foi reimpresso e chegou até a ser adotado para a formação de professores de todo o estado de São Paulo. Bienvenido está quase esgotado. Os dois estarão à venda neste sábado, em João Pessoa, mas vai haver pouquíssimos exemplares de cada um.

Entrevistei Rita Lee pela segunda vez na semana anterior ao show que ela fez hoje de madrugada. Foi por e-mail como há anos ela costuma responder às entrevistas, mas parece que ela está falando com você ao vivo. Confira abaixo o texto publicado no CORREIO de ontem.

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"Acho terapêutico escrever o que dá na telha"

“Eu achava muito chato fazer aniversário no ano novo, até que comecei a fazer shows”, diz a cantora Rita Lee, que faz o principal show do réveillon em João Pessoa. Ela, que nasceu em um 31 de dezembro, se apresenta após os fogos da virada do ano. A noite começa com grupo de cultura popular que se apresentam a partir das 18 horas. Por volta das 22 horas, Antônio Nóbrega sobe ao palco. Depois do show de Rita, a Orquestra Sanhauá continua animando o público com seu frevo até o amanhecer. A cantora conversou com o CORREIO por e-mail, como costuma dar entrevistas. “Descobri uma maneira super divertida de passar a data”, conta ela. “Tenho entrado todos os anos fazendo shows, cada vez num canto do Brasil”.

Sem lançar um disco de inéditas desde 2003, com o Balacobaco, Rita não tem, no show ETC…, a “obrigação” de divulgar um novo trabalho. O público pode esperar, principalmente, os grandes hits da, como uma vez chamou João Gilberto, “roqueira com voz de bossa nova”. “Quando saio pra estrada numa turnê, não há nada fixo: músicas, luz, figurino, tudo muda”, diz a cantora. “Temos muita bagagem musical e, de repente, me dá na telha de mudar o repertório, tiro e ponho músicas conforme o humor do dia, mas sei que o público que vai me ver espera ouvir os hits mais populares”.

A animação já começou no twitter, onde Rita pediu aos fãs pessoenses que escolhessem entre duas músicas para o show: “Atlãntida” ou “Amor e sexo” – aparentemente, deu a segunda. Também perguntou se era certeza que ela não precisaria trazer casaco na mala, caso o frio de São Paulo aportasse aqui. Casaco em João Pessoa, onde já se viu?

Rita é assídua no twitter (onde assina como @LitaRee_real), onde dá vazão a suas opiniões e delírios e conversa com os fãs – mas sem tratá-los com qualquer tipo de condescendência. Já teve aborrecimentos que a fizeram abandonar temporariamente a rede social – principalmente quando criticou o futuro estádio do Corinthians, no afastado bairro paulista de Itaquera. Mas ela acabou voltando. “Eu me vicio fácil, fácil… E acho terapêutico escrever o que dá na telha”, diz.

Ela afirma que não tem qualquer preferência no seu repertório. “Música é que nem filho, não tenho preferência”, conta. “Não sou saudosista e, depois que gravo um disco, nunca mais escuto”. Curiosamente, ela anda sem paciência para música cantada. “Quando não estou na estrada, no meio da loucura, vivo enfurnada em casa e só tenho saco para escutar música instrumental, das clássicas às eletrônicas”, revela. “Ando cansada da palavra falada e cantada, dos discursos, portanto não posso dizer que tenho acompanhado o que está rolando de mais atual. Só sei que o rock dança conforme os tempos e que tem muita meninada bacana no pedaço, é bom ficarmos antenados”.

Mas a intimidade de Rita Lee não está só nas canções. Nos anos 1980, ela escreveu uma série de livros infantis, Dr. Alex, uma face que muita gente desconhece. “Quando meus meninos eram pequenos escrevi quatro livrinhos sobre as aventuras do Dr. Alex, um ratinho que fugiu do laboratório para defender o direito dos animais”, lembra. A série há muito tempo não ganha um novo volume. Em tempos em que até Madonna está escrevendo livros infantis, ela não pensa em retomar a literatura? “Talvez ele volte a dar as caras agora, com minha neta Ziza”.

Um disco novo de inéditas é mais certo de aparecer em 2012. Rita vem trabalhando em dois projetos simultâneos: este, ainda sem nome, que terá a participação de Igor Cavalera; e Bossa’n’Movies, com regravações de canções que marcaram o cinema. “Estamos finalizando, vamos lançar no próximo ano”, confirma. Ela também pediu sugestões no twitter sobre o que cantar, mas não adianta o repertório. “Por enquanto, surpresa”.

Para o show da madrugada, a surpresa não é tanta: o público pode esperar sucessos como “Ovelha negra” e “Lança perfume” entre tantos outros. O reencontro com o público pessoense depois de dez anos – o último show dela por aqui foi em 2001, no Espaço Cultural – tem tudo para ser um presente de aniversário para ela e um belo começo de ano para os pessoenses.

Diretor de filmes como Leila Diniz (1987) e For All – O Trampolim da Vitória (1997), Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, apresenta hoje no Cineport, às 22 horas, o documentário Casa 9, sobre o conjugado em que ele morou em uma vila de Botafogo e que se tornou um ponto de confluência cultural impressionante – além dele, moraram lá Jards Macalé, Fábio Barreto, Sonia Braga e Lenine, além dos artistas que frequentavam o local.

Você teve a ideia do filme quando passou por acaso em frente à casa, não foi?

Fui bater na rua sem querer. Tentando fugir de um engarrafamento, acabei parando lá. E fui embora pra casa lembrando as histórias que aconteceram ali. Depois, fui conversando com as pessoas e elas foram lembrando mais histórias.

Por que você acha que a casa tinha esse astral? Tem explicação?

Não tem. Era a época mais dura da ditadura. E aquele era um lugar que respirava liberdade absoluta. Era um foco de luz na cidade numa época muito obscura. Depois que morei o Lenine morou e recebeu músicos paraibanos e do Nordeste inteiro. Hoje, lá, moram duas produtoras de cinema e um rapaz que é músico!

O filme está no Festival do Rio. Mas vai ser lançado comercialmente no cinema?

Provavelmente não. Como o Canal Brasil é co-produtor, vai passar lá. Não é um filme para o mercado, é para a memória  brasileira.

Nascida em São Luís do Maranhão, a atriz de pais portugueses foi para Portugal com um ano de idade. Começou a fazer teatro ainda na infância, morou três anos no Rio (dos 10 aos 13, quando estudou na Casa de Cultura Laura Alvim) antes de ir de vez para Lisboa. Hoje, aos 21 anos, é uma requisitada atriz do teatro e cinema lusitano. No Cineport, está com o filme Como Desenhar um Círculo Perfeito, que passa sábado, às 16h.

É uma impressão errada ou a produção cinematográfica em Portugal tem crescido?

Portugal é um país pequeno e não se fazem tantos filmes assim por ano. O que acontece é que tem mais novos realizadores surgindo.

As novelas brasileiras são muito presentes na TV portuguesa, mas o cinema brasileiro, você conhece?

Eu gosto muito do cinema brasileiro. É muito diferente do português, do europeu. O Brasil é um país tão grande que tem vários tipos de cinema. Adoro o Walter Salles.

Você já fez algum trabalho no Brasil?

Fiz um extra em Presença de Anita, apenas. Eu quero vir ao Brasil trabalhar em Cinema, e também em TV, que sei que é um meio muito importante aqui.

A Companhia de Dança Deborah Colker apresentou seu novo espetáculo Tatyana em agosto, em João Pessoa. Foi quando a entrevistei por telefone para o Correio. Hoje, o espetáculo estreia em São Paulo e aproveito para colocar aqui a entrevista.

***

Deborah Colker, contadora de histórias

Deborah Colker: "No palco, você tem um Pushkin que, na verdade, é a Deborah"

Os avós de Deborah Colker, tanto paternos quanto maternos, eram russos. Isso não a fez ter um especial interesse pela cultura daquele país. “Mas é algo com que eu tenho intimidade”, contou a coreógrafa ao CORREIO, por telefone, do Rio. “Desde pequenininha ouço o meu avô lendo contos do Dostoiévsky e outros autores”. Pois foi baseado em uma obra de Alexandre Pushkin, considerado o pai da moderna literatura russa, que ela concebeu o novo espetáculo Tatyana.

O espetáculo é uma adaptação do romance Eugene Onegin (no original, Evguêni Oniéguin), de 1833, escrito em versos que foi adaptado por Tchaikovsky para uma ópera em 1837. Deborah enfrentou o desafio de transformar os versos de Pushkin em passos de dança. E, se o balé clássico sempre teve por base contar histórias, não é o caso da dança contemporânea. Tatyana é seu primeiro espetáculo com uma história com começo, meio e fim.

“Na verdade, isso não caiu de paraquedas na minha mão. ‘Eu não disse: ‘Ah, agora tá na hora da dança conteporânea lidar com a literatura!’”, explica Deborah. “Meus outros espetáculos eram sobre ideias. Casa era sobre o cotidiano; 4 x 4 era sobre dança e artes plásticas; Velox era dança e esportes; Rota era a gravidade… E era um espetáculo que questionava a condição humana. Era sobre o desejo, e desejos podem ser os mais terríveis,
os mais perversos”.

Na preparação do , Deborah passou a estudar filosofia com seus bailarinos. “O ser humano conta uma história de vida. E eu quero que cada bailarino tenha  uma história e falar de valores éticos, amizade, amor, amadurecimento. Isso começou a se desenvolver dentro de mim desde 2003”.

Árvore, símbolo da aristocracia rural, foi criada por Gringo Cardia

A evolução dessa ideia a levou a Pushkin. “Toda a cultura russa do século XIX é impressionante”, diz ela. “Na poesia tinha Maiakovsky, na música Tchaikovsky e todos os compositores, no romance Dostoiévsky, Tolstói…”.

Mas ainda havia o desafio da adaptação. “Até que ponto você quer que o  público entenda essa história?”, ela pergunta, como se tivesse questionado a si  mesma. “Se o público entender, é mais gostoso, enriquecedor. Mas a dança  contemporânea pode não contar uma história, embora esteja contando outras coisas”.

As diferenças para o balé clássico são evidentes. “O mundo clássico se apropria da pantomima, da mímica”, explica Deborah. “Isso, pra mim, não era relevante”. Ela elaborou sobre a história, resumindo tudo aos dois casais principais: Oniéguin e Tatyana, e Vladimir e Olga. E vários bailarinos  interpretam ao mesmo tempo os personagens. “Todos os homens são Onegin e todas as mulheres são Tatyana”, diz. “Cada bailarino tem uma faceta da personalidade, um movimento diferente”.

O cenário tem uma grande árvore metálica, criada pelo cenógrafo Gringo Cardia. “A árvore é o lugar da aristocracia rural. É uma abordagem muito diferente. E posso te dizer que me cocei para fazer essa abordagem diferente”, conta Deborah Colker.

"Todos os homens são Onegin e todas as mulheres são Tatyana"

Para fazer algo tão diferente, foi preciso conhecer bem a obra original. “Eu mergulhei muito no livro”, confirma ela. “Foi muito bacana fazer meus bailarinos lerem Pushkin. A gente leu cada capítulo, improvisou, viu o que era
importante. Fiquei dois anos debruçada em cima desse livro”.

Curiosamente, Eugene Onegin já foi adaptado para balé clássico por John Cranko, como Onegin. “A minha adaptação pega seis capítulos do livro, a dele dois”, diferencia. “Eu trago do livro a sequência do sonho, a superstição, a colheita e a sequência da carta de uma maneira diferente. E não é uma história de amor: é uma história da vida, de transformação”.

Em Tatyana, Deborah Colker também voltou a dançar, o que não pôde fazer nos últimos espetáculos, até pelas ocupações com o Cirque du Soleil, para o qual dirigiu Ovo. “Era impossível estar em dois países ao mesmo tempo”, diz. “Quando eu comecei a fazer Tatyana, todo mundo perguntava: ‘Você vai dançar?’. E dizem que faz a maior diferença!”.

Mas o começo da coreografia não previa a participação de Deborah: apenas um bailarino faria Pushkin. “Mas havia toda uma parte ligada aos cinco sentidos, muito sutis. E ninguém tava conseguindo fazer do jeito que eu queria. Aí, comecei a fazer”.

A brincadeira de interpretar o narrador reflete uma relação do autor e sua obra: Pushkin e o livro e Deborah e o espetáculo. “Pushkin era um autor que interferia, se apaixonava e sofria com os personagens”, diz Deborah. “Então, no palco, você tem um Pushkin, que, na verdade, é a Deborah”.

* Publicado no Correio da Paraíba

Leia mais:

Entrevista com Deborah Colker sobre 4 por 4

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