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A fronteira da cozinha

Camila Márdila e Regina Casé: premiadas em Sundance

Camila Márdila e Regina Casé: premiadas em Sundance

A emoção e a razão muitas vezes são tratadas como excludentes no cinema. Existem os filmes que se esforçam para envolver o espectador e evitam pensar sobre qualquer coisa mais profunda e não faltam aqueles que abordam situações de maneira cerebral, mas evitam o drama como o diabo. Que Horas Ela Volta? (Brasil, 2015) não sofre com isso: é ao mesmo tempo um drama humano de largo alcance e um filme que pensa muito o Brasil a partir de sua metáfora.

Para começar, é uma história de mães. De início, a de Val (Regina Casé, em excelente atuação),  uma babá e empregada nordestina que vive há anos na casa dos patrões ricos paulistanos. O suficiente para ter visto o garoto da casa crescer e ter com ele uma relação mãe-e-filho mais do que o rapaz tem com a própria mãe, Bárbara (Karine Teles).

Mas ela tem sua própria filha, Jessica (Camila Márdila, que dividiu com Regina o prêmio de melhor atriz em Sundance), que deixou em Pernambuco para ser criada por parentes enquanto ganha a vida em São Paulo. Elas não se veem há anos e a garota, que a chama de Val (não de mãe), vai a São Paulo para prestar um concorrido vestibular para Arquitetura. Ela tem a primeira decepção rápido, ao descobrir que a mãe não mora em sua própria casa, mas num quartinho na casa dos patrões.

Sem os anos de subserviência e renúncia pessoal que a mãe teve e influenciada por professores que a fizeram enxergar possibilidades em seu futuro, a garota não desperdiça as chances que são dadas a ela de ter acessos pela casa que a mãe não esperava. Val, “quase da família”, sempre “conheceu o seu lugar”. A visão que Val tem desse mundo é aquela que o filme mostra quando Carlos (Lourenço Mutarelli) requisita a Val “um guaraná, por favor” lá da mesa na sala de jantar e é visto do ponto de vista da cozinha, através da porta, de onde se pode ver só um pedaço do outro cômodo.

Jessica está no limite entre a independência e, talvez, um certo oportunismo. Embaralha essa realidade que até então funcionava bem. Os homens da casa não parecem perceber a tempestade se formando e as relações de poder dentro da casa, mesmo fazendo parte ativa delas (o personagem de Lourenço Mutarelli rapidinho se mostra interessado na bela filha da empregada, por exemplo). Bárbara e Val, as duas mães, é que sentem mais a situação. E Val parece sentir mais a invasão do que Bárbara. A empregada deixa claro mais diretamente seu desconforto, enquanto a patroa tenta disfarçar, usar subterfúgios, empurrar o conflito para baixo do tapete.

Aos poucos, Que Horas Ela Volta? vai evidenciando também o drama da personagem de Karine Teles que vê o filho se conectar mais com Val do que com ela e expõe a cultura das mulheres que, por diferentes razões, são levadas a entregar seus filhos para serem criados por outras mulheres. A cena do resultado do vestibular, no quarto, em que Val de certa forma faz uma opção natural pela própria filha mostra as complexidades dessas relações dentro da casa.

A diretora Anna Muyalert faz declaradamente um paralelo com o que ela chama de “herança escravocrata” brasileira: a “Casa Grande & Senzala” que acontece naturalmente dentro de tantas casas onde pessoas vivem “da porta da cozinha para cá” e “da porta da cozinha para lá” e empregados são “quase da família”, enquanto convém aos patrões. Metaforizando uma situação muito brasileira, que chega a surpreender os espectadores no exterior, Que Horas Ela Volta? têm tido fôlego para convencer também essas plateias e críticos de outros países pela força de seu drama de personagens. As referências sociais diferentes, nesse caso, são amenizadas em prol de sentimentos universais.

Que Horas Ela Volta? Brasil, 2015. Direção: Anna Muylaert. Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas.

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